sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Conto do vigário liberal, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Partido Missão se declara liberal, mas abraça posições iliberais

Credulidade da Faria Lima em relação à sigla é inquietante

Sempre que vejo "Faria Lima" como sujeito de título noticioso que não seja sobre trânsito, fico desconfiado. Utilizar o nome da avenida paulistana como metonímia para "mercado financeiro" é arriscado, entre outras razões porque o tal de mercado não é uno. Reúne desde operadores de day trade até operários que investem o dinheiro de seus fundos de pensão, sem mencionar a viúva aposentada e eventuais clones de Daniel Vorcaro.

Mesmo ciente da diversidade e dos limites da figura de linguagem, fiquei preocupado ao ler reportagens sugerindo que a "Faria Lima" está se enamorando da candidatura presidencial de Renan Santos, do partido Missão, que me parece ainda menos confiável do que o Mounjaro paraguaio. Algum descompasso entre o ideário de uma sigla e suas propostas concretas é sempre esperado, mas, no caso do Missão, as incongruências foram esticadas até o ponto de colapso da identidade.

O problema de base é que o partido, no artigo 1º, § 2 de seu estatuto, afirma ter "caráter liberal" (e é provavelmente isso que encantou a "Faria Lima"), mas não há muito como conciliar o beabá da cartilha liberal com o que a sigla defende. O modelo de segurança pública que eles propõem flerta abertamente com as ideias e práticas de Nayib Bukele. Só que não há meio de confundir o regime salvadorenho com uma democracia liberal. Aquilo é um Estado autoritário que pratica violações sistemáticas a direitos humanos.

Ainda que restrinjamos o liberalismo do Missão ao plano econômico —o que já configuraria transgressão às visões mais holísticas de liberalismo—, fica difícil pacificar a doutrina clássica com a defesa do nacionalismo e até com um certo desenvolvimentismo. Nada disso deveria surpreender muito, considerando que o embrião do Missão, o movimento MBL, ganhou visibilidade tentando censurar uma apresentação artística.

O que me inquieta no flerte da "Faria Lima" com o Missão é pensar que meus modestos investimentos podem estar nas mãos de gente que cai muito facilmente em contos do vigário.

 

 

 

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