sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Alguns aspectos teóricos e praticos do "economismo"

Gramsci
“A formulação do movimento da livre troca baseia-se num erro teórico do qual não é difícil identificar a origem prática: a distinção entre sociedade política e sociedade civil, que de distinção metódica se transforma e é apresentada como distinção orgânica.


Assim, afirma-se que a atividade econômica é própria da sociedade civil e que o Estado não deve intervir na sua regulação.

Mas, como na realidade fatual sociedade e Estado se identificam, deve-se considerar que também o liberalismo é uma “regulamentação” do caráter estatal, introduzida e mantida por caminhos legislativos e coercitivos: é um fato de vontade consciente dos pr´prios fins e não a expressão espontânea, automática, do fato econômico.

Portanto, o liberalismo é um programa político, destinado a modificar, quando triunfa, os dirigentes de um Estado e o programa econômico do próprio Estado; isto é, a modificar a distribuição da renda nacional”.

Antonio Gramsci: Maquiavel, a política e o Estado moderno, - 3ª edição, Civilização Brasileira, pág. 32. ( tradução de Luiz Mário Gazzaneo

Caminhos para 2010 em 2009

César Felício
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Passará pelos corredores da Câmara e do Senado e pelos palácios da Liberdade e do Campo das Princesas boa parte dos lances em 2009 que projetarão a sucessão presidencial de 2010. Objetos de disputa, o governador mineiro Aécio Neves (PSDB), o PMDB e o PSB sinalizam com vôo próprio. Não serão as curvas da Bovespa, das taxas de desemprego, câmbio e inflação que escreverão a história da eleição em 2010, ainda que sejam decisivas para pautar o comportamento dos agentes do processo político.

A crise econômica, a princípio, coloca embaraços para todos os envolvidos na disputa presidencial em 2010. A oposição controla os dois Estados que devem ser os mais atingidos pela retração: São Paulo e Minas Gerais. É difícil crer que poderão manter um programa de investimentos robusto com arrecadação em queda. E era o extinto crescimento econômico no ritmo de 6% ao ano que garantia boa parte da espetacular aprovação popular do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com este índice oscilando entre zero e 2,5%, como indicam as previsões de mercado para o próximo ano, é possível que aprovação popular presidencial volte a ser o que era nos idos de 2004, quando seu índice de avaliação boa ou ótima chegou a 35% no terceiro trimestre daquele ano, a metade do que é atualmente. Pouco para impulsionar uma candidatura à sua sucessão.

Do ponto de vista político, o ano de 2009 abre com sombras no horizonte dos dois favoritos para encabeçar a polarização na disputa presidencial de 2010: o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT).

Líder inconteste nas pesquisas de intenção de voto, Serra já garantiu o apoio do parceiro DEM dentro de dois anos, mas ao longo deste ano continuou sem conseguir se impor dentro da própria sigla. Serra neutralizou o rival local, o ex-governador Geraldo Alckmin, ao ajudar de forma velada na reeleição do prefeito paulistano Gilberto Kassab (DEM). Mas a vitória de Márcio Lacerda (PSB) em Belo Horizonte manteve o governador mineiro, Aécio Neves, no páreo, como o próprio fez questão de dizer, ao encontrar-se com a direção nacional do partido no início de dezembro.

O mineiro sugeriu a realização de prévias partidárias, algo impensável para um partido que nunca levou suas disputas internas sequer para uma convenção. Mas a proposta foi uma boa maneira de descartar o embrião do acordo oferecido por Serra e pelos integrantes do DEM: oferecer a Aécio o posto de vice na chapa e articular o fim da reeleição com o aumento do mandato presidencial, para criar expectativas de poder. O rival de Serra já demonstrou que não aceita pesquisas eleitorais como argumento para consagrar o paulista.

É difícil imaginar Serra abrindo mão da candidatura presidencial em 2010 para apoiar Aécio, repetindo o comportamento de 2006, quando cedeu a vez para Geraldo Alckmin. Mas não ter o apoio de Minas pode ferir de morte uma candidatura presidencial do paulista. Por isso os próximos movimentos de Aécio Neves serão decisivos para o PSDB tornar-se ou não o favorito na sucessão de 2010.

O processo eleitoral deste ano sepultou qualquer possibilidade de o PT construir uma candidatura presidencial por suas próprias forças. Ficou patente que faltam à ex-ministra do Turismo Marta Suplicy, aos ministro da Justiça, Tarso Genro, e do Desenvolvimento Social, Patrus Ananias, e ao governador da Bahia, Jaques Wagner, força em seus redutos eleitorais. Direta ou indiretamente, todos perderam. A escolha do candidato petista em 2010 será um "dedazo" do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para lembrar a terminologia usada no México durante a dominação do PRI, quando o presidente de turno escolhia seu sucessor sem contestações. Dilma Rousseff continua encabeçando a preferência presidencial. Como dois anos ainda é muito tempo para uma eleição, Lula deixa dois outros tecnocratas em "stand-by": o ministro da Educação, Fernando Haddad e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles.

A amplitude da aliança a ser costurada pelos petistas começará a ser definida em fevereiro, com a escolha das mesas diretoras da Câmara e do Senado. A decisão do PMDB de disputar a presidência das duas Casas abriu o campo para que oposicionistas e petistas disputem a condição de maior aliado dos pemedebistas e para que os pemedebistas da Câmara e do Senado aprofundem suas diferenças. Em cenário de divisão total, o PMDB poderá perder a condição de aliado estratégico tanto de tucanos quanto de petistas. Não custa lembrar, que, na história das cinco últimas eleições presidenciais, os pemedebistas só fecharam aliança com outra sigla uma única vez: quando apoiaram Serra em 2002, não sem grande dissidência. O ano de 2008 termina com os pemedebistas indo em marcha batida para o desembarque do comboio petista para 2010: a sigla se afastou regionalmente do PT na Bahia e em São Paulo.

Sem o PMDB, restará ao Planalto duas opções arriscadas: assistir ao bloco de partidos de esquerda articular uma candidatura presidencial de Ciro Gomes, como forma de garantir o segundo turno em 2010, ou tentar fechar uma aliança com PSB, PCdoB e PDT já no primeiro turno. O risco da primeira opção é que Ciro tem densidade popular suficiente para disputar com qualquer candidato petista a segunda vaga em um segundo turno da eleição presidencial.

E o perigo da alternativa é construir para si um cenário sem segundo turno, em um momento que pode ser marcado por popularidade presidencial em baixa e candidato oposicionista com alto índice de intenções de voto. Sem um apoio decidido do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que é o presidente nacional do PSB, uma candidatura presidencial de Ciro Gomes encontrará obstáculos graves. E ainda estão para ser definidos quais papéis jogarão um e outro na arena de 2010.

César Felício é repórter de Política. A titular da coluna, às sextas-feiras, Maria Cristina Fernandes não escreve hoje, excepcionalmente

O bom humor natalino do presidente

Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


O temperamento do presidente Lula andou oscilando nos últimos dias entre a ansiedade com a crise de financiamento do mundo, as inundações que batem recorde em número de vítimas e áreas atingidas e o bom humor da temporada natalina.

Carimbou um dos seus mais transparentes momentos de lucidez no café da manhã com os jornalistas em mesa talhada para reunião do megaministério de 38 titulares entre ministros e secretários.

Como era inevitável o tema da sua sucessão, Lula deu voltas no trapézio para driblar a evidência do lançamento, por sua iniciativa em lance de risco, da candidatura da ministra Dilma Rousseff. Ora, no rol das obviedades, a primeira trava previne o choque do imprevisto no desdobramento da bagunça da economia que dá volta ao mundo. As bravatas para tentar espantar o abantesma foram sendo recolhidas à medida que as economias poderosas entravam em colapso e a comparação com a marolinha se desmanchava na praia.

O presidente cultiva a sua esperança. Sem ela, como saco vazio, não ficaria de pé. Mas engatou uma segunda, à espera do resultado dos testes. Creio que seria dispensável a afirmação, que provocou o riso dos repórteres, de que nunca conversou com a ministra Dilma sobre a sua candidatura. Mas como, presidente? Pois, se por sua iniciativa a candidatura da ministra foi levantada em reunião do Diretório Nacional do PT, que é hoje uma legenda que parece papagaio sem rabo, com o recuo tático dos poucos que ainda cultivam a mal- me-quer nos terrenos baldios. Os três ou quatro aspirantes murcharam como as ditas flores em jarra seca.

A entrega da gerência do Programa de Aceleração do Crescimento – o PAC da sigla que é o carro-chefe do governo – para a arrancada no novo ano da pré-campanha é a mais comovedora demonstração de apoio no único projeto oficial de candidatura.

O mais nítido flagrante panorâmico da campanha mostra o elenco da novela perdido no enredo sem pé nem cabeça. O PMDB transformou-se na hiena que se péla carne e a carniça que o governo distribui na aquisição de apoio parlamentar. O partido se farta com a presidência da Câmara, assegurada para o seu presidente, deputado Michel Temer. E renuncia a disputar a Presidência da República, mesmo diante do quadro favorável do infortúnio do PT e das dúvidas presidenciais.

A oposição – PSDB e DEM – tem à disposição a dupla favorita nas pesquisas, composta pelos governadores José Serra, de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais, e não apenas não dispõe do líder capaz de articular uma da dezena de fórmulas para montar a chapa, como perde o rumo de casa e bate com a cabeça na parede com as propostas ridículas como a prévia partidária – receita fatal do racha – quando a experiência ensina que, na impossibilidade de acerto, a saída pela janela é deixar que a Convenção decidida na briga e no voto.

Lula tem tempo e condições de virar o jogo. Dispõe de um ano inteiro para tocar as obras que se arrastam, marcar presença em todas as áreas devastadas pelas enchentes, que chegaram a Minas, ao estado do Rio, além de Santa Catarina e parte do Rio Grande do Sul. E, pelo que as imagens mostraram, as obras de irrigação de parte do Nordeste, com as águas do Rio São Francisco, estão caminhando com a dedicação e competência das equipes especializadas do Exército.

O anjo-da-guarda de Lula é competente.

Quem diria, 2008

Fernando Gabeira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


RIO DE JANEIRO - Todos os anos faço um balanço, tiro conclusões. Em 2008 fico devendo. Depois de uma campanha eleitoral de seis meses, parei alguns dias para estudar e concluí: o mundo em que vivia, sob muitos aspectos, já não existe mais.

Todos prevíamos um tipo de crise. Aterrissagem suave ou dura nos EUA? Até que ponto vão se endividar mais? Não previ o quase colapso do sistema. Não vou me culpar por isso; os economistas também falharam. Há sempre a tentação de empurrar a própria agenda na crise. Energia, sustentabilidade, redução de emissões.

Os que optam pelo Estado anunciam sua volta triunfal. Lembram-me um ministro húngaro: antes uns fanáticos nos garantiam que o Estado resolve tudo; agora vieram outros fanáticos, dizendo que o mercado resolve tudo. É a melhor combinação dos dois que está em jogo.

Se a economia nos chocou, a política nos encheu de esperança. Teremos de novo os Estados Unidos na luta contra o aquecimento, renovando em energia, empenhando-se conosco nas soluções diplomáticas para os conflitos no mundo. Obama escolheu dois homens capazes para ciência e para energia.

Evitei discutir 68. Indiretamente, acertei. Tanto falamos de 68 em 2008 e não sabíamos ainda do surgimento de uma crise que só acontece duas vezes num século. Talvez tenhamos de começar a contar também os aniversários desse ano.

Nele as coisas vieram da economia, que mexe com a sobrevivência. Em 68, emergiam as questões ligadas à liberdade. Necessidade e liberdade, outra combinação delicada.

Obama é uma referência mundial. Até que ponto vai domar a crise, achar novos caminhos, combinar a necessidade de decidir com o reconhecimento de que nem tudo está claro? Tarefas para um novo tempo. E um novo tipo de governo: mais aberto à vida real.

Crises cíclicas

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Ao contrário de indicar o fim do capitalismo, o estouro da bolha imobiliária que desencadeou a crise econômica e provocou a intervenção governamental de vários países no sistema financeiro internacional é uma repetição, turbinada pela globalização, do que vem acontecendo através dos anos, ciclicamente. No famoso livro "Manias, Pânicos e Crashes", Charles Kindleberger e Robert Aliber listam dez bolhas financeiras através dos tempos, começando com a das tulipas, em 1637, e acabando com a bolha da tecnologia, no final dos anos 1990. A atual onda de críticas à ganância de Wall Street tem também precedentes, quando a desregulamentação excessiva levou à especulação financeira exacerbada, mas benéfica para a produção de riqueza. Houve também épocas de ação direta do governo, criando, no entanto, distorções no mercado.
Na introdução à edição de 1997 de seu clássico "The Great Crash, 1929",("O Grande Crash, 1929") o economista John Kenneth Galbraith foi premonitório: sempre que você ouvir alguém de Washington garantir que "os fundamentos da economia estão sólidos", saiba que alguma coisa está errada, avisou.

Ele atribuía a longevidade de seu livro, publicado pela primeira vez em 1955, principalmente ao fato de que sempre está ocorrendo uma crise financeira ou o estouro de uma bolha que reacende o interesse pelo grande caso da era moderna de crescimento e colapso econômico, que levou a uma "inesquecível" recessão.

Galbraith dizia que não fazia previsões, apenas constatava que o fenômeno se repetia desde 1637, quando especuladores holandeses viram nas tulipas uma estrada mágica para a fortuna. Talvez tenha sido otimista ao escrever, naquela ocasião, que uma próxima crise não teria conseqüências tão graves quanto as de 1929, mas não teve dúvidas de prever que uma recessão seria provável em caso de nova crise.

Todas as crises econômicas dos últimos tempos tiveram origem nos financiamentos imobiliários, com reflexos nas ações da Bolsa de Valores, seja no Japão, na Finlândia, Noruega e Suécia, de 1985 a 1989, seja em países asiáticos como Tailândia e Malásia, entre 1992 e 1997, ou a bolha da internet nos Estados Unidos.

A máxima marxista de que a economia determina a política, popularizada na frase do marqueteiro James Carville "É a economia, estúpido", justificando a vitória de Clinton em 1992, está cada vez mais em voga hoje com a crise econômica internacional.

Talvez tocados pelo espírito de Natal, dois grandes articulistas trataram do assunto recentemente sob a ótica das visões moralistas da crise, uma relação que vem sendo muito examinada neste período de dificuldades que desencadeia sentimentos de culpa e acusações de ganância.

Os dois consideram o capitalismo e a democracia elementos associados. Martin Wolf, do "Financial Times", ecoando o economista inglês John Maynard Keynes, adverte, porém, que não devemos tratar a economia com moralismos, mas com visão técnica, já que os mercados não são "nem infalíveis nem dispensáveis", e sim "o reforço de uma economia produtiva e liberdade individual".

Já o sociólogo Mariano Grondona, no "La Nácion", de Buenos Aires, diz que "tanto na política quanto na economia, quando o dinheiro se instala no alto da escala de valores, o que surge não é nem capitalismo nem democracia, mas suas máscaras grosseiras".

A mesma discussão desencadeada hoje já houve em 1930, lembra Wolf, quando duas posições ideológicas se opunham: uns queriam "purgar" os excessos do capitalismo, outros queriam substituí-lo pelo socialismo, e uma visão religiosa dominava o debate.

Na análise de Grondona, não estamos assistindo ao fim do capitalismo, mas sim a "um esquecimento perigoso de seus fundamentos morais". Para ele, diante da voracidade do mercado, ficam esquecidos "o respeito à palavra empenhada, a santidade dos contratos, o valor da poupança ante os gastos, a ganância instantânea do esforço do trabalho", valores que hoje correm perigo.

A receita, diz ele, não seria abandonar o capitalismo, mas ao contrário, voltar às suas fontes originais. O sociólogo argentino faz um paralelo do capitalismo com a democracia, que classifica de "outro grande componente moral de nosso mundo".

A democracia, diz Mariano Grondona, tem origem em uma ética exigente nascida de uma tradição mais antiga que o capitalismo, a ética do cidadão que Péricles exaltou há mais de dois mil anos.

Tanto Grondona quanto Martin Wolf fazem paralelos entre a eleição de Barack Obama à Presidência dos Estados Unidos e o momento atual, só que de maneiras opostas. Para Wolf, a eleição de Obama representa uma posição pragmática do eleitor americano para enfrentar a crise econômica com a melhor opção.

Para Grondona, a eleição de Obama fez muita gente voltar a acreditar na democracia, cujos princípios morais mais altos foram recuperados durante a campanha eleitoral.

O argentino é mais pessimista em relação ao momento atual do mundo, onde faltaria o elemento básico tanto para a democracia quanto para o capitalismo: a integridade.

O cidadão íntegro, ressalta Grondona, não está contaminado, e, quando isso acontece, no máximo de sua escala de valores estão o patriotismo no político, e o trabalho na economia.

Quando esses valores perdem a importância, o dinheiro ocupa o vácuo e torna-se um usurpador dos valores da sociedade, vira um ídolo.

Que o próximo ano não seja tão ruim quanto está parecendo. A coluna voltará a ser publicada na terça-feira dia 6 de janeiro.

La izquierda ante el cambio de ciclo

Enrique Gil Calvo
DEU EM EL PAÍS (ESPANHA)

La crisis y la victoria de Obama auguran un nuevo tiempo estatal, keynesiano y progresista

Sobra lucha mediática y falta trabajo en las bases sociales

Confirmando el sambenito que se cuelga a los bisiestos, 2008 pasará a la historia como el año en que estalló la mayor crisis económica de la época reciente. Pero reducirlo a eso sería injusto, pues 2008 también es el año de la prodigiosa victoria de Barack Obama. Un acontecimiento tan excepcional como el estallido de la crisis global, aunque de signo radicalmente opuesto. Y esta rara coincidencia en el tiempo de ambos hechos históricos permite aventurar que quizá no sea casual. Es posible que tanto la crisis como el landslide electoral sean producto de un seísmo estructural de los EE UU, dislocados por los efectos del ciclo neoconservador que se inició en 1968 con la elección de Nixon. Es posible que, sin el clima excepcional de crisis aguda del sistema, la elección de un negro como presidente no se hubiera producido. Y es posible también que, dada la gravedad sistémica de la crisis, sólo un presidente tan extraordinario como lo es Barack Obama pueda gestionar su futura resolución con ciertas esperanzas de éxito. Por eso tenemos derecho a pensar que en 2008 se ha producido un cambio histórico de ciclo.

Se ha dicho que el siglo XXI comenzó con la caída del Muro de Berlín que puso fin a la guerra fría o con la caída de las Torres Gemelas que inició la llamada guerra contra el terror. Pero con iguales o mejores razones podríamos decir que el siglo XXI ha comenzado en 2008. La coincidencia de la crisis financiera con la elección de Obama ha supuesto el final del ciclo económico-político iniciado en 1968 con la elección de Nixon bajo el síndrome de la guerra de Vietnam. Entonces se puso fin a la era de predominio estatal, demócrata y keynesiano abierta 40 años antes con el New Deal de Roosevelt y concluida con la Great Society de Kennedy-Johnson. Mientras que a partir de 1968 se inició un nuevo ciclo opuesto al anterior, caracterizado por la primacía del mercado, del ultraliberalismo y del pensamiento neoconservador, bajo la égida de los presidentes republicanos Nixon, Reagan y Bush. Y por eso, el acceso a la presidencia de alguien tan excepcional como Barack Obama, en medio de una crisis económica sin precedentes y bajo el síndrome de la guerra de Irak, parece augurar el comienzo de un nuevo ciclo antitético y contrapuesto al anterior: un ciclo de nuevo estatal, keynesiano y progresista, aunque no necesariamente izquierdista.

¿Qué posibilidades hay de reconstruir la izquierda, al hilo de este cambio de ciclo económico-político abierto en 2008? Aparentemente, no demasiadas. La izquierda está literalmente arrasada en toda Europa, sin que el Reino Unido y España supongan ninguna excepción. Por su parte, la izquierda latinoamericana está degenerando hacia el peor autoritarismo populista. Y en cuanto al movimiento altermundista, continúa dejándose seducir con demasiada frecuencia por el estéril nihilismo de la violencia antisistema, dado el atractivo mediático de disturbios como los de Atenas o las banlieues parisinas. Por eso, la mejor forma de entender el actual marasmo de la izquierda es explicarlo como un final de ciclo. En efecto, la izquierda actual todavía continúa afectada por los efectos retardados de Mayo 68: aquel festival político improvisado en el mismo año que alumbró la elección de Nixon. Y es que su impacto mediático fue tal que en seguida se revistió con el carisma o la aureola del método infalible, dada su demostrada eficacia movilizadora. De ahí que, inmediatamente, todos los movimientos sociales y políticos de la izquierda europea se convirtieran en emuladores de Mayo 68, pasando a imitar sus nuevos repertorios movilizadores y discursivos.

El método Mayo es otra muestra de la "estetización de la política" atribuida por Walter Benjamin al fascismo de entreguerras. Lo que el fascismo de hace 80 años significó para la derecha como método de movilización política es lo mismo que 40 años después significó Mayo 68 para la izquierda, haciendo de la lucha política una función de teatro mediáticamente movilizadora, que busca el golpe de efecto espectacular para atraer la atención del espectador. Pero por eficaz que parezca a primera vista, el problema de la espectacularización política es que cae víctima de un esteticismo estéril y gratuito. De ser un medio puesto al servicio de fines políticos, el método movilizador tipo Mayo 68 se autonomiza para convertirse en un fin en sí mismo. Ya no hay estrategia política de largo plazo (¿qué objetivos buscamos alcanzar con nuestra movilización?) sino sólo táctica movilizadora de corto plazo: ¿qué repertorio es más eficaz para interesar a los medios informativos? Y la movilización degenera hasta convertirse en miope activismo gratuito, que se desentiende de cualquier contenido político (organizar bases sociales, crear redes de solidaridad, defender intereses y derechos) para concentrarse en la busca de titulares de prensa cada vez más impactantes. De ahí la deriva activista de Mayo 68 y sus secuelas hacia una escalada de la transgresión que, como el fascismo de entreguerras, acabó por caer en el terrorismo nihilista. Una deriva que en el mejor de los casos, aun renunciando a la violencia, no supo evitar la compulsión antipolítica que define a la izquierda puritana, libertaria o exquisita.

Cuarenta años después, aquellos polvos han traído estos lodos. Al dejarse contagiar por la miope eficacia movilizadora del método Mayo, mediáticamente provocador pero políticamente estéril y gratuito, la izquierda europea ha ido perdiendo su hegemonía cultural sobre sus bases sociales tradicionales (clases trabajadoras y segmentos sociales progresistas) hasta dilapidar sus antiguas redes de confianza y capital social. Todo por culpa del abandono de una estrategia política basada en el reforzamiento organizativo de los partidos de clase como partidos de masas para pasar a concentrarse en la lucha mediática por el control de la opinión pública, dentro de lo que Sartori llama "videopolítica" y Bernard Manin "democracia de audiencia". Hora es de que cese esta deriva mediática y la izquierda recupere su sentido de la política.

Por eso es de esperar que la experiencia de 2008, con la crisis económica y la elección de Obama como catalizadores, permita a la izquierda superar su crítica decadencia e iniciar un nuevo ciclo de ascenso y recuperación. Un nuevo ciclo de acumulación política en el que, renunciando al fallido repertorio transgresor de Mayo 68, vuelva a rehacer sus fuerzas movilizadoras reconstruyendo nuevas redes de confianza y capital social. Y ello, además, según el eficaz ejemplo que ha dado la victoriosa plataforma de Obama, que logró movilizar en un solo movimiento unitario a fuerzas tan heterogéneas como los latinos, los afroamericanos, las feministas o los trabajadores amenazados por la crisis económica. Pues bien, eso mismo tendría que hacer la izquierda europea. En lugar de encerrarse en sí misma según el ejemplo del socialismo francés, étnicamente limpio frente a unas bases sociales tan multiculturales como las francesas, habría por el contrario que abrir la izquierda a la representación de los auténticos trabajadores que son los inmigrantes de múltiples procedencias: latinos, eslavos, magrebíes, africanos, asiáticos. Pues sólo así, construyendo desde abajo redes interculturales y pluralistas de confianza mutua y solidaridad colectiva, podrá la izquierda enfrentarse con éxito a la crisis económica, como condición necesaria y suficiente para recuperar su capital social, recrear su poder de convicción y diseñar una nueva estrategia política.

Enrique Gil Calvo es profesor titular de Sociología de la Universidad Complutense de Madrid.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1189&portal=

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Poema de Natal

Vinicius de Moraes


Para isso fomos feitos:

Para lembrar e ser lembrados

Para chorar e fazer chorar

Para enterrar os nossos mortos —

Por isso temos braços longos para os adeuses

Mãos para colher o que foi dado

Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer

Uma estrela a se apagar na treva

Um caminho entre dois túmulos —

Por isso precisamos velar

Falar baixo, pisar leve, ver

A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:

Uma canção sobre um berço

Um verso, talvez de amor

Uma prece por quem se vai —

Mas que essa hora não esqueça

E por ela os nossos corações

Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:

Para a esperança no milagre

Para a participação da poesia

Para ver a face da morte —

De repente nunca mais esperaremos...

Hoje a noite é jovem; da morte, apenas

Nascemos, imensamente.

Dúvidas da crise

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Em meio à perplexidade generalizada com a revelação do gigantesco esquema Ponzi do megainvestidor Bernard Madoff, ouvi recentemente, almoçando no University Club, um dos mais exclusivos da cidade, um banqueiro fazer uma confissão de culpa teórica, em nome do capitalismo, sobre a falta de confiança que o sistema transmite atualmente ao cidadão comum. Desta vez foi demais, dizia ele, nós estimulamos o endividamento pessoal, inventamos investimentos "criativos", brigamos por menos regulação e quebramos o mundo. Ninguém confia mais em ninguém.

O University Club, criado em 1861 por um grupo de estudantes de Yale e Columbia, hoje instalado num prédio construído em 1899 em estilo palazzo renascentista em plena 5ª Avenida, com sua biblioteca cujo teto tem murais baseados nos existentes nos apartamentos do Vaticano, provavelmente é um dos lugares menos indicados para uma revisão desse tipo, embora seja um bom lugar para discutir a fraude de Madoff e a crise por que passa a economia mundial.

A frase famosa do escritor Mark Twain - "Os boatos sobre minha morte foram um pouco exagerados" - serve bem para se falar sobre o excitamento que o suposto fim do capitalismo está provocando em certos círculos.

Antes mesmo que o candidato a ditador Hugo Chávez tivesse decretado, sob o sol da Costa do Sauípe, na Bahia: "O capitalismo está morto, viva o socialismo bolivariano".

A frase - de Chávez, não de Twain - não é engraçada apenas por ser uma bobagem, mas também porque entre as muitas vítimas dessa crise do capitalismo estão países comunistas ou com tendências totalitárias, como a própria Venezuela, a Rússia, a China, o Irã e vários países árabes que, recentemente, com o barril de petróleo a US$150, ganharam força política e viram sua importância geopolítica crescer, e agora, na mesma proporção, não têm mais condições de aproveitar o que imaginam ser "o fim do capitalismo".

A tal ponto que Chávez está querendo antecipar ao máximo mais um plebiscito, para tentar ficar eternamente no poder antes que a crise faça a maré descer e revele que ele está "nadando nu", na imagem do investidor Warren Buffet sobre os efeitos da crise nos investidores.

A intervenção no mercado de governos de diversas tendências - desde o ultra-reacionário George Bush no centro do capitalismo mundial até o autoritário Putin na Rússia e o trabalhista Gordon Brown na Inglaterra - dá a sensação de que só o aumento dos gastos públicos e uma forte intervenção estatal podem salvar a economia mundial.

Nunca foi tão repetida a frase "Somos todos keynesianos" (de John Maynard Keynes, economista inglês que defendeu o papel regulatório do Estado na economia para evitar recessões). É atribuída ao economista Milton Friedman, que ocupou a capa da revista "Time" em 1965, durante uma crise econômica, relembrada pelo ex-presidente Nixon em 1970, em outra crise.
E não há ninguém que discorde. Os republicanos estão até fazendo piada, dizendo que precisam pôr anúncio no jornal para conseguir alguém que critique os planos econômicos da futura gestão de Obama, que todos, no mundo inteiro, querem que funcione.

Os liberais não estão encontrando espaço político para criticar as intervenções estatais, que consideram tão equivocadas quanto teriam sido as de Franklin Roosevelt. Essas, segundo eles, agravaram e prolongaram a Grande Depressão, desencadeada pela quebra da Bolsa, em 1929. Algumas dessas intervenções repercutem até hoje, como a atuação das gigantes hipotecárias Fannie Mae e Fred Mac, novamente estatizadas na crise.

Essas "empresas apoiadas pelo governo" (Government Sponsored Enterprises) foram criadas por ações do governo - a Fannie Mae (Federal National Mortgage Association) em 1938, por Franklin Roosevelt, durante o New Deal, para permitir acesso a financiamentos para a casa própria depois da crise econômica.

Foi privatizada em 1968, para conter o déficit orçamentário provocado pela Guerra do Vietnã, mas sob regime especial. No governo Clinton, essas agências quase-governamentais foram pressionadas a ampliar o crédito para pessoas de baixa renda, e os republicanos identificam nessa intervenção do governo democrata o início da bolha imobiliária que estourou agora.

O economista prêmio Nobel Paul Krugman, ao contrário, acha que o New Deal não resolveu a crise porque Roosevelt não foi tão fundo quanto deveria ter ido na intervenção estatal, tendo cedido às pressões em 1937, quando reduziu o gasto público, aumentou os impostos e "ajudou a pôr os Estados Unidos em uma profunda depressão".

Para Krugman, vai levar um bom tempo até que a economia americana consiga se recuperar, e até lá o governo Obama vai ter que manter a intervenção do Estado.

Mas mesmo essa intervenção estatal não significa uma virada anticapitalista no mundo. Ao contrário, é um esforço para salvar o capitalismo. Por outro lado, capitalismo e democracia sempre tiveram uma estreita correlação, que está sendo deixada de lado com o surgimento de países capitalistas não-democráticos.

Fenômeno que aconteceu bem antes de a crise explodir em setembro deste ano, uma mudança estrutural que está sendo estudada já há algum tempo, com o crescimento da importância da China na economia mundial.

O cientista político Adam Przeworski, professor da Universidade de Nova York, faz uma relação entre a renda per capita de uma população e a probabilidade de a democracia prevalecer. Quanto maior a renda, mais forte a democracia se enraiza, afirma Przeworski.

O historiador Niall Ferguson lembra o período da Grande Depressão nos EUA como tendo sido de grande desafio para a democracia, mas considera que essa ligação entre democracia e capitalismo parecia mais estreita nos anos 80 e 90 do século passado, não sendo mais tão direta no longo prazo da economia mundial.

(Continua amanhã)

2009 começa mal e . . .

Carlos Alberto Sardenberg
DEU EM O GLOBO


2008 começou bem e terminou muito mal.

Já 2009 começa muito mal e....

Não dá para dizer que termina bem. Talvez se possa dizer que termina melhor, porque há um amplo entendimento segundo o qual os piores movimentos da crise ocorrem neste momento e se prolongam até o primeiro semestre de 2009.

Muitos acham que ruim mesmo é agora e no próximo primeiro trimestre. Não que melhore a partir de abril, mas talvez pare de piorar, o que, para as circunstâncias, já seria muito bom.

Admitamos, de todo modo, que isso tudo está muito abstrato. É preciso colocar números nessa história. Por exemplo, se o desemprego aqui no Brasil vai de 7,5% para 8%, é ruim, mas melhor do que 9%.

Idem para os Estados Unidos. Os últimos números avaliados pela equipe econômica de Barack Obama dizem que a recessão, tal como vai, pode eliminar até três milhões de empregos, o que elevaria a taxa de desemprego dos atuais 6,7% para 9%, um espanto para os padrões americanos.

Por isso mesmo, o plano de Obama está cada vez maior. Ainda na campanha, o candidato anunciou sua disposição de lançar um programa de investimentos no valor de US$175 bilhões.

Na medida em que a percepção da situação foi piorando, o plano foi subindo. Pelas últimas versões, já está em US$800 bilhões. E pode ser mais, porque sua equipe e a ampla maioria dos economistas entendem que, neste caso, é melhor errar para mais. Ou seja, os investimentos têm que ser grandes o suficiente para produzir efeito em uma economia de US$14 trilhões.

Por outro lado, não se trata apenas de gastar, mas de gastar bem. Os economistas de Obama estão à procura de projetos que gerem emprego mas que também melhorem a infra-estrutura e a produtividade da economia privada e dos serviços públicos. Não pode ser como no Japão, cujo governo, na longa recessão dos anos 90, fez um monte de estradas e pontes ligando nada a lugar nenhum. Isso porque esses gastos públicos acabaram atendendo às demandas dos senhores deputados (às emendas deles!).

Eis o ponto: não é fácil gastar bem US$800 bilhões. Por isso, pode-se garantir que o plano é uma boa tentativa, mas não que vai dar inteiramente certo. E de novo nos faltam os números. Bons projetos reduzirão o desemprego, mas quantos bons planos serão postos em funcionamento?

No entanto, não faltam números na praça. O presidente Lula e a ministra Dilma disseram que o país vai crescer 4% em 2009. Cobrados, coube à ministra explicar que se tratava de uma meta a ser buscada.

Mas se é meta, por que não colocar logo... bem, deixemos isso de lado.

Já o Banco Central, em seu Relatório de Inflação de dezembro, um magnífico documento de análise e projeções para a economia brasileira, tem que cravar número por dever de ofício. No chamado "cenário de referência", o Brasil cresce 3,2% no próximo ano. É menos do que a meta da ministra, porém mais do que a previsão do mercado, ou seja, dos analistas de instituições financeiras, consultorias, departamentos econômicos de associações, faculdades de economia etc... Trata-se de mais de cento e tantos cenários que toda sexta-feira são enviados ao Banco Central, que os elabora e publica o resumo toda segunda de manhã, no seu site.

Por esse documento, o país cresce 2,4% em 2009. Às vezes, parece pouca diferença. Mas só parece. Estima-se que a cada ponto percentual de crescimento da economia (do Produto Interno Bruto, PIB), são criados de 400 a 500 mil empregos.

Portanto, é uma discussão relevante, mas não se deve tomar todos esses números pelo seu valor de face. Melhor observar a tendência - e esta é clara. O Brasil vai crescer bem menos do que em 2008. Mesmo que se consiga a meta dos 4%, isso significará que a economia vai criar um milhão de empregos a menos, isso comparado com o ritmo de expansão do PIB até o terceiro trimestre de 2008.

O resumo da ópera: o mundo não vai nada bem, mas há uma incrível sequência de planos em preparação e de medidas dos bancos centrais, já em execução, para debelar a crise. Podem funcionar bem, mais ou menos ou não dar certo. Disso dependemos.

Mas que são bons planos, isso são.

Carlos Alberto Sardenberg é jornalista.

Lula continua surfando em marolas

Rolf Kuntz
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua prometendo um crescimento econômico de pelo menos 4% em 2009. Ele fala sobre o assunto com a mesma segurança de quando se referia à crise financeira como problema dos americanos ou como simples marolinha para o Brasil. A expansão dependerá, segundo ele, da persistência dos consumidores e da manutenção de um bom fluxo de investimentos produtivos, incluídas neste grupo as obras de infra-estrutura. O governo, garante o presidente, cuidará de sua parte, realizando o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, já mencionou até uma possível ampliação do programa. Para cumprir o atual, o governo já precisaria de muito mais competência do que tem mostrado.

Toda essa conversa envolve um pressuposto aparentemente simples e seguro: com base no mercado interno, o País poderá crescer quase tanto quanto cresceu nos últimos dois ou três anos. Mas o ritmo de crescimento é apenas um dos componentes do problema - e não é necessariamente o mais complicado.

A diferença entre a aposta de Lula e a projeção do Banco Central (BC) para 2009 não está somente nas taxas de crescimento atribuídas ao Produto Interno Bruto (PIB). O presidente fala em 4%, o pessoal do BC estima 3,2%. Os jornais chamam a atenção para essa divergência, mas esse não é o ponto mais importante.

Para os economistas do BC, uma expansão econômica de 3,2% virá associada a uma inflação de 4,7% - muito perto do centro da meta, portanto - e a um déficit de US$ 25 bilhões na conta corrente do balanço de pagamentos.

Nesse mesmo conjunto, o consumo das famílias aumentará 3,9% e o do governo, 2,2%. Serão números muito mais modestos que os estimados para 2008, 6,2% e 5,1%, respectivamente. O quadro inclui duas outras associações importantes. O descompasso entre a demanda total e a oferta será menor e isso reduzirá as pressões sobre os preços. Do lado externo, diminuirão não só as exportações de bens e serviços, mas também as importações. As despesas externas serão menores graças à menor demanda interna e ao dólar mais caro.

Um crescimento econômico maior, baseado no mercado interno, afetará todas essas variáveis e combinações. Quais são os pressupostos por trás da aposta de Lula e de seu ministro da Fazenda, Guido Mantega?

Para se projetar o balanço de pagamentos, será preciso levar em conta, para começar, a provável contração da demanda externa e preços de commodities mais baixos que os de 2007 e 2008. A receita de exportações poderá ser afetada tanto pela quantidade quanto pelo valor dos produtos vendidos. No sentido oposto, as importações dependerão, em grande parte, da evolução da demanda interna. Receita e despesa também refletirão, naturalmente, o câmbio desvalorizado.

Nas contas do BC, as exportações de bens diminuirão 3,5%, de US$ 200 bilhões para US$ 193 bilhões, e as importações ainda subirão 1,4%, de US$ 176,5 bilhões para US$ 179 bilhões. O resultado será um superávit comercial de US$ 14 bilhões, US$ 8,5 bilhões inferior ao estimado para este ano. Como ficará esse quadro, se a demanda interna crescer o suficiente para o PIB aumentar 4%?

O pessoal do BC também projeta uma redução de US$ 56,4 bilhões para US$ 41,5 bilhões no déficit de serviços e rendas, decorrente de fatores como a depreciação cambial e a rentabilidade menor das empresas. As transferências correntes, formadas em grande parte pelo dinheiro enviado por brasileiros no exterior, deverão diminuir de US$ 4,1 bilhões para US$ 2,1 bilhões.

Somadas todas essas contas, o déficit em transações correntes encolherá dos US$ 29,6 bilhões, estimados para 2008, para US$ 25 bilhões em 2009. Os cálculos do mercado financeiro apontam, por enquanto, déficits de US$ 36,1 bilhões neste ano e de US$ 30,2 bilhões no próximo.

Para o BC, o investimento estrangeiro direto passará de US$ 40 bilhões para US$ 30 bilhões e será suficiente, portanto, para cobrir com alguma sobra o buraco na conta corrente. Para o mercado, a entrada líquida, também estimada em US$ 30 bilhões, ficará pouco abaixo do valor necessário. As duas estimativas poderão revelar-se otimistas, se o aperto no mundo rico for mais forte do que se prevê. Mas há outro detalhe importante: o mercado projeta para 2009 um crescimento econômico abaixo de 3%. Novamente a pergunta: como ficam esses cálculos quando se desenha um PIB 4% maior que o de 2008? Mais aritmética e menos voluntarismo no Planalto seriam bem-vindos.

*Rolf Kuntz é jornalista

Presente de natal

Brasília-DF :: Luiz Carlos Azedo
(Interino)Com Guilherme Queiroz
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Para o Palácio do Planalto, é mais fácil o presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), virar Papai Noel do que se reeleger presidente da Casa. Parecer do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Maurício Correa, porém, estriba o pleito de permanência de Garibaldi no cargo. A assessoria jurídica do governo avalia que a proposta morrerá na praia, mas a bancada do PT está imobilizada porque o assunto precisa entrar em pauta no plenário para que haja qualquer contestação.

Na avaliação do governo, tudo não passa de uma manobra do ex-presidente da Casa senador Renan Calheiros (PMDB-AL) para consolidar a tese da candidatura própria na bancada do PMDB. Os líderes do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), e no Congresso, Roseana Sarney (PMDB-MA), porém, até agora não moveram uma palha contra a tese de Garibaldi.

Captação

O prefeito eleito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), de olho nos recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), vai entregar a Secretaria de Habitação da Prefeitura carioca ao deputado federal Jorge Bittar (PT-RJ). Espera, com isso, consolidar sua aliança com os petistas e cair nas graças da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Por causa do grande número de favelas, a pasta é uma das mais cobiçadas da administração municipal.

Beques

O líder da bancada do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP), e o deputado Paulo Renato (SP), ex-ministro da Educação do governo FHC, não consideram o ex-deputado Aloysio Nunes Ferreira candidato natural ao Palácio dos Bandeirantes, caso o governador José Serra seja mesmo o candidato do PSDB a presidente da República. Avaliam que Ferreira pôs o carro na frente dos bois.

Paulistana

A jornalista Soninha Francine (PPS), que disputou a prefeitura de São Paulo e agora encerra o mandato de vereadora, foi convidada pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM) para assumir a sub-prefeitura da Lapa, uma das mais importantes da capital paulista. Deve aceitar o convite.

Dúvida

O governador José Roberto Arruda (DEM) não sabe ainda como fará para prestigiar a posse do novo presidente da Câmara Legislativa, Leonardo Prudente (DEM). A primeira-dama Flávia Arruda quer que ele tire 10 dias de férias, a partir do Natal, mas Arruda está em dúvida por causa da troca de comando na Assembléia.

Repeteco

O caos nos aeroportos brasileiros volta à pauta da Câmara dos Deputados. Está agendada para o início de fevereiro uma audiência pública com a presença da Infraero e da Agência Nacional de Aviação (Anac). Na pauta, cinco projetos que tratam da abertura do capital das companhias aéreas para investimentos estrangeiros.

No cafezinho

Surdina/ Cobiçado pelos tucanos, o ex-governador da Bahia Paulo Souto passou discretamente pelo gabinete do presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), na terça-feira. A visita se deu a pedido do cacique tucano, que nega o convite ao democrata para o PSDB.

Reciclagem/ A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) enviou parte de sua cúpula para treinamento na CIA, órgão correlato norte-americano. Participaram do curso os diretores Luiz Alberto Salaberry (Inteligência Estratégica), Carlos Ataíde (Integração do Sistema Brasileiro de Inteligência) e Rômulo Dantas (Contra-Terrorismo). O Alto Comando das Forças Armadas não gosta de muita intimidade da Abin com a CIA.

Boas Festas/ O ex-ministro Antonio Palocci passa Natal sem o presente que esperava: a absolvição, no Supremo Tribunal Federal, no caso da quebra do sigilo do caseiro Francenildo dos Santos Costa. Mas bota muita fé no ano novo, pois o presidente do STF, Gilmar Mendes, relator do processo, pretende colocar a matéria na pauta do Supremo em fevereiro.

Baiano/ O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, só por conveniência, alimenta as especulações de que pretende ser o vice da candidata do presidente Luiz Inácio lula da Silva, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT). Geddel quer mesmo é ser candidato a governador da Bahia.

Feliz Natal/ São os votos da coluna.

Tucano à procura de um discurso

Coisas da Política
Tales Faria
DEU NO JORNAL DO BRASIL


Com os índices de aprovação popular do presidente Luiz Inácio da Silva batendo os 80%, segundo as pesquisas, era de se esperar que a oposição – pelo menos nas suas parcelas mais racionais – começasse a repensar o seu discurso. Na cúpula nacional do PSDB, um dos mais preocupados em encontrar argumentos convincentes para um eleitorado que dificilmente estará contra o atual governo é o líder do partido na Câmara, José Aníbal (SP). O deputado aproveita o recesso do Congresso para passear na Europa. Foi pego ao telefone ontem, por esta coluna, quando estava de passagem pela Alemanha.

– Estive aqui há 30 anos, com o país sob escombros. É interessante ver como esse povo sabe emergir com vigor de situações adversas. Perguntei a um amigo aqui como estão vendo essa crise, e ele respondeu que da mesma forma que das vezes anteriores: os alemães arregaçarão as mangas e superarão qualquer problema – comentou Aníbal. E eu provoquei:

– Isso que o senhor fala dos alemães, em relação à crise, é mais ou menos o que o presidente Lula está falando por aqui. Mas, no Brasil, o PSDB acha que a crise vai ser arrasadora...

– Não, não é bem assim. Como o Lula, eu acho que essa crise foi criada pelos americanos. Os EUA e a Inglaterra é que estavam com seus sistemas financeiros mergulhados numa verdadeira farra. Parecia casa de tolerância. Nem o Brasil, nem a França ou a Alemanha viveram a mesma situação. Nós vamos sentir, sim, os efeitos da crise, mas acho que não será um impacto arrasador. É pouco provável que, neste quadro de crise global, aumentem as encomendas de produtos brasileiros no exterior, mas não creio que elas venham a diminuir significativamente. No final, vai dar para segurar as pontas.

– Então o senhor não está no discurso catastrófico?

– Essa coisa de quanto pior melhor não é o caminho adequado para a oposição. As pesquisas mostram: o eleitor já notou que o Lula não é culpado pela crise. Que o presidente, de certa forma, está cumprindo seu papel. Se a situação da economia piorar, o cidadão não irá culpar o governo, então não adianta a oposição ir por aí.

– E o que fazer?

– Vamos ter que construir um novo discurso para a oposição. Em 2010, o Lula tentará jogar toda a emoção possível no apoio à sua candidata à sucessão presidencial, a ministra Dilma Roussef. Nós só teremos um caminho: apelar para a razão. Tentar atrair o eleitorado do Lula, explicando que, se foi bom com ele, pode ser melhor ainda, por exemplo, com o José Serra, que faz um excelente governo em São Paulo.

– E quanto ao Serra? O senhor já esteve mais próximo do Geraldo Alckmin, que tomou do Serra uma candidatura a presidente e foi derrotado pelo Lula. Na última eleição, o Alckmin perdeu também, desta vez para o prefeito Gilberto Kassab (DEM), um aliado do Serra. O senhor acha que, agora, os tucanos de São Paulo estão unificados em torno da candidatura presidencial do Serra? Ou vai continuar essa briga entre o grupo do Serra e o do Alckmin?

– Não haverá essa briga. Em São Paulo, agora, não tem como ser de outra forma: todos vão defender a candidatura Serra, um movimento que já até se consolidou em outros partidos no Estado, como o PMDB. O DEM nem se fala, já é Serra desde criancinha.

– Pois é, nesse quadro, a candidatura do governador de Minas Gerais, Aécio Neves, fica difícil.

– Pode ser... Mas eu não vou dizer que o Aécio está fora. Digamos que, agora, o PSDB está numa situação delicada. Que precisaremos ter muito empenho e muita criatividade para solucionar. O Serra tem tudo para ser candidato, mas o Aécio também. Não há como o PSDB vencer as eleições presidenciais sem Minas Gerais. E ninguém vai vencer em Minas sem o apoio efetivo do Aécio Neves. Então, se o Serra quiser mesmo ser o candidato, ele e o PSDB terão de encontrar uma solução que deixe o Aécio Neves satisfeito.

– Serra para presidente e Aécio, para vice?

– Falar em Aécio para vice pode melindrá-lo... Prefiro não entrar nessa bola dividida.

Berzoini afirma que Dilma deve ser candidata

DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini, disse ontem que a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) tem a simpatia do partido e o aval do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que deverá ser indicada "com tranqüilidade" à sucessão de 2010.

Após uma visita ao presidente ontem, no Planalto, Berzoini afirmou que a palavra de Lula é "imprescindível" para a definição da candidatura do PT.

"Já começamos a discutir [a candidatura de Dilma]. Ela foi convidada para vários atos do partido e achamos que ela pode, sim, ser a candidata. O PT vive clima de muita tranqüilidade, e a palavra do presidente [tem peso] muito grande e é imprescindível", disse.

Em 12 de dezembro, o PT reuniu prefeitos e vices eleitos do partido em Brasília, quando Dilma adotou discurso de pré-candidata, motivada por Lula e pela Direção Nacional do partido. Com um terninho vermelho, usou um dos termos preferidos dos petistas -"neoliberalismo"- exaltou a trajetória do partido, criticou a gestão FHC e coroou o discurso dizendo que o PT "é uma força do bem".

No último sábado, de férias em Porto Alegre, Dilma deu um retoque no visual, fazendo uma bioplastia (espécie de plástica sem cortes) no rosto e no pescoço. Em café da manhã com jornalistas, semana passada, Lula admitiu que está testando Dilma para ver se ela ganha traquejo político para enfrentar uma campanha.

Natal como este, só no futuro governo

Valdo Cruz
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


A despeito da crise, teremos ainda um bom final de ano. Mas os Natais seguintes serão difíceis. E crescer acima de 5% será missão para o sucessor do presidente Lula. Por sinal, consolidado o cenário político atual, pouco importa quem ganhará: a receita econômica será a mesma para que o país tente voltar a crescer forte.

Sonhos natalinos

NATAL COMO ESSE, infelizmente, só no próximo governo. A despeito da crise aguda na economia mundial, teremos ainda um bom final de ano. Os seguintes, contudo, serão difíceis.E taxa de crescimento acima de 5% será missão para o sucessor do presidente Lula. Por sinal, consolidado o cenário político atual, pouco importa quem ganhará: a receita será a mesma para que o país tente voltar a crescer forte.

Dentro do Ministério da Fazenda, por exemplo, é comum ouvir de assessores de Guido Mantega que, mantida a tendência de Dilma Rousseff e José Serra monopolizarem a eleição de 2010, não há com o que se preocupar. Um deles chega a dizer que dá até para tirar férias durante o período eleitoral.

Tal tranqüilidade, com certeza, não se repete no Banco Central, alguns quilômetros distante do gabinete de Mantega. Na equipe de Henrique Meirelles, o comentário deve ser exatamente o oposto: Dilma e Serra vão exercer uma pressão e influência sobre os rumos da política monetária bem superior à do presidente Lula, e há risco de turbulências na campanha.

O fato é que a petista Dilma Rousseff e o tucano José Serra praticamente rezam pela mesma cartilha. São adeptos de uma forte presença do Estado na economia e críticos contundentes da política monetária conservadora do BC. Dependesse apenas dos dois, o ex-tucano já não estaria mais na direção do Banco Central.

Claro que, uma vez na cadeira de presidente, a visão de Dilma e Serra pode sofrer mutações.

Tal como aconteceu com Lula, que se revelou um conservador em termos econômicos, eles podem se aproximar do estilo atual do petista. Lula também não gosta nem um pouco da receita de Meirelles. O presidente, contudo, assimilou como poucos no mundo petista a importância de uma das regras basilares da economia capitalista: a força das expectativas e da confiança sobre o ritmo de crescimento do país.

Não por outro motivo o petista tem insistido nos últimos discursos na necessidade de consumidores e empresários manterem a confiança no país. Pela mesma razão, Lula sabe que, mesmo desejando, não pode trocar o comando do BC em meio a uma crise. Seria o mesmo que jogar gasolina na fogueira.

O presidente perdeu a oportunidade de fazer a mudança na virada do primeiro para o segundo mandato. Agora terá de aguardar o tempo certo. Que, tudo indica, está próximo. Quando os juros caírem, no início de 2009, e a política monetária começar a ser suavizada, Meirelles deve deixar o BC para retomar seus projetos políticos. Essa é, pelo menos, a aposta de quem o conhece de perto. Que diz inclusive que ele tem sonhos presidenciais.

Tudo bem, estamos numa época em que sonhar é liberado.

Valdo Cruz, repórter especial da Folha, escreve hoje excepcionalmente neste espaço.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1188&portal=

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

FELIZ NATAL PARA TODOS

NÃO HÁ VAGAS
Ferreira Gullar

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores,
está fechado:
"não há vagas"


Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

A prova do retrovisor

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Nessa mesma época, um ano atrás, o Senado acabara de derrubar a renovação da CPMF e, junto com ela, o governo anunciava também o fim do mundo. O presidente Luiz Inácio da Silva acusava a oposição de inviabilizar sua administração com a retirada dos R$ 40 bilhões de arrecadação anual do imposto do cheque.

O cenário para 2008, no entanto, era de abundância absoluta: situação internacional confortável, inflação controlada, crescimento das despesas públicas preocupante, mas, no geral, tudo estava muito bem arrumado para um período de gastança e exuberância eleitoral no pleito municipal, que funcionaria como uma espécie de plebiscito em favor do projeto de sucessão do presidente Lula.

Um ano depois, verifica-se o equívoco das previsões. Aquele que parecia o assunto mais fundamental do planeta, a queda da CPMF, saiu da agenda e sequer é levado em conta em qualquer análise de conjuntura.

A gastança pública prosperou, mas não teve relação direta com o resultado da eleição nem confirmou a expectativa de que o quadro seria favorável em qualquer hipótese. De pé, e mais forte do que nunca, só ficou mesmo a popularidade do presidente da República.

A crise internacional chegou no segundo semestre, ainda não mostrou se seus dentes são mesmo afiados, mas deu uma meia-trava no horizonte de País das maravilhas. Nesse meio tempo as urnas municipais levaram ao Palácio do Planalto a notícia de que a popularidade e o poder de fogo do presidente Lula não são suficientes para ganhar uma eleição.

Houve abalos de autoconfiança no governo e na oposição, o que obrigou uma revisão de planos. Constatação óbvia: a conjuntura é fluida, as previsões são irresistíveis, mas frágeis ante a força dos fatos. Quer dizer, implicam necessariamente uma enorme margem de erro.

Donde a total impossibilidade de se satisfazer, desde já, a curiosidade nacional a respeito do que acontecerá em 2010. Mais não fosse, porque ainda falta acontecer 2009.

Segundo as pesquisas, os governadores José Serra e Aécio Neves ganham a eleição presidencial de qualquer candidato que não seja Lula. Isso significa que o PSDB está com os dois pés dentro do Palácio do Planalto?

Nem com os dois, nem com um, mas pode ficar no ora veja depositado nos quatro se repetir as bobagens de 2002, 2006 e 2008, aqui com bom resultado final, mas uma preliminar desastrosa.

Um dado novo da agenda de 2009 pode mudar tudo também: o início da tramitação da emenda que acaba com a reeleição e institui cinco anos de mandato para presidentes, governadores e prefeitos.

O governo faz de conta que não patrocina a proposta e apresenta como álibi uma sugestão de reforma política, cujo único ponto de consenso é a abertura de uma "janela" para o troca-troca de partidos.

O essencial é que o fim da reeleição ensejará a volta do debate sobre o terceiro mandato, ou até a prorrogação de um ano, para Lula. Uma proposta quase impossível de passar, mesmo com a popularidade do presidente nos píncaros.

Por muito menos o governo perdeu batalhas nas urnas e no Congresso. Portanto, as obras estão em aberto à disposição das querências dos personagens envolvidos, mas na dependência das "poderências" determinadas pelas circunstâncias.

De sólido em matéria de previsões, o ativismo do Judiciário foi a exceção confirmadora da regra.

Flor do recesso

Governos quando não sabem direito como lidar com um assunto de forma objetiva, mas precisam dar a impressão de providências, criam um grupo de trabalho ou fazem uma reunião.

É nesse quadro que se insere a idéia do Palácio do Planalto de convocar os governadores para um grande encontro em janeiro para de discutir medidas conjuntas de combate à crise.

A chance de entendimento entre governadores e presidente na distribuição de perdas e ganhos é a mesma do acordo em torno da reforma tributária, tal a diversidade de interesses em jogo.

A menos que, nesse caso, o presidente Luiz Inácio da Silva esteja disposto a desagradar, no papel de árbitro.

Poder dos partidos

O deputado Miro Teixeira apresentou uma série de consultas ao Tribunal Superior Eleitoral - a serem examinadas após o recesso -, cuja origem é a declaração de posse dos mandatos eletivos pelos partidos, não pelos candidatos, e o objetivo (grosso modo) é tentar desmontar a premissa de que os partidos podem tudo.

O assunto merece detalhamento mais bem explicado, mas por ora Miro resume o espírito da coisa na seguinte frase: "No Brasil nós fingimos ter uma democracia organizada por partidos, mas os partidos não se regem por práticas democráticas".

Até 2009

Que a virada do ano consiga virar suas excelências de frente para a sociedade.

Politicagem

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Nos Estados Unidos, cidades com menos de 150 mil habitantes não têm vereadores assalariados. Se esse critério fosse utilizado no Brasil, apenas 4% dos municípios teriam câmaras remuneradas. Existem 194 municípios com população entre cem mil e 500 mil habitantes, e apenas 32 com mais de 500 mil habitantes. São poucos os lugares no mundo onde se pagam subsídios aos vereadores, quase todos os conselhos locais são trabalhos voluntários. O aumento de número de vereadores, o último escândalo político do ano (será?), que é defendido como um fortalecimento do poder municipal, na verdade é uma distorção do que seja poder real.

Em todos os países em que o poder local não tem remuneração ou recebe apenas um pagamento simbólico, a cidadania se faz mais presente do que se eles fossem regiamente pagos, como no Brasil.

A questão não é o número de vereadores, mas a sua remuneração. O ideal é que apenas os municípios que tivessem arrecadação própria pudessem ter câmara de vereadores assalariada.

Diante da pressão popular, o Congresso pode voltar a discutir o limite dos gastos das câmaras municipais, e a criação das novas 7.343 vagas de vereadores em todo o país deve ficar adiada para 2009.

O corte de cerca de 14% das vagas de vereadores, decidido pelo Tribunal Superior Eleitoral para a eleição de 2004, poderia ter proporcionado uma economia entre R$250 milhões e R$700 milhões por ano, mas não foi isso o que aconteceu, pois o corte de verba não foi regulamentado.

Essas vagas que foram cortadas, por definição de critério do Tribunal Superior Eleitoral com base em decisão do Supremo Tribunal Federal, simplesmente não deveriam existir. Estavam sendo ocupadas ilegalmente, já que o critério de vagas para cada estado estava sendo definido de maneira arbitrária, fora das normas legais.

Desta vez, a emenda à Constituição que recriou 7.343 cargos de vereadores reduzia de 5% para 2% o repasse da receita líquida dos municípios destinado a financiar as câmaras municipais, uma economia em torno de R$1,5 bilhão, mas corria-se o risco de aprovar o aumento de vagas sem o corte de despesas.

Só o fato de não se saber o quanto a decisão resultará em economia já mostra o grau de descontrole dos gastos municipais, que são no total entre R$3,5 bilhões e R$4 bilhões ao ano.

O teto salarial de um vereador corresponde a 75% do subsídio dos deputados estaduais e, embora a lei preveja uma escala, que vai de 20% para os municípios de até dez mil habitantes, até os 75% para os de mais de 500 mil habitantes, o teto acaba se transformando em regra geral através de artifícios diversos.

Existe um projeto em tramitação no Senado que define o limite de 20 mil habitantes para o município pagar subsídios a seus vereadores.

Abaixo disso, o pagamento seria simbólico. Pelo censo dos municípios do IBGE de 2001, há 1.371 municípios com até cinco mil habitantes, e 2.688 de cinco mil a 20 mil habitantes. São 4.059 municípios, representando cerca de 80% dos municípios brasileiros, que não se enquadrariam no critério de pagamento.

Estudos mostram que 90% das câmaras de vereadores estão instaladas em municípios de menos de 50 mil habitantes, e que 35% dos municípios gastam com as suas câmaras de vereadores mais que sua receita própria, sendo que a grande maioria nem mesmo tem receita própria.

Da Constituinte de 1988 até 2004, a receita dos municípios aumentou, em termos reais, nada menos que 141%. O seu peso no PIB subiu de 2,4% para 5,8%. As transferências da União e dos estados representam o triplo do que arrecadam diretamente de tributos, e o dobro da receita própria, de modo que 65% da despesa municipal são financiadas por essas transferências.

Os gastos com o Legislativo superaram as despesas com saúde e saneamento em 8% das prefeituras do país, e 19% gastam mais com o Legislativo do que com habitação e urbanismo. A vasta maioria depende, portanto, da ajuda do governo federal.

As cidades mais carentes são as que gastam mais com suas câmaras. Municípios do Norte e do Nordeste gastam com as câmaras entre 30% e 40% mais que os municípios do Sudeste, por exemplo.

A opção política pela descentralização foi um marco no processo de redemocratização na Assembléia Constituinte de 1988. O esvaziamento fiscal e financeiro do governo central, e o fortalecimento dos governos estaduais e municipais, foram decisões políticas tomadas com o objetivo de equilibrar a federação.

Mas acabaram virando uma "politicagem", com o aumento do número de municípios - a partir de 1988, houve a criação de 1.100 novos - e o descontrole financeiro.

E o governo federal voltou a centralizar a arrecadação de impostos. Em 1985 os impostos compartilhados entre União, estados e municípios representavam 75% do total, enquanto 25% eram da União.

O equilíbrio feito pela Constituinte foi desfeito pelo governo federal, que passou a fazer uso das contribuições, uma figura criada pela nova Constituição, para não precisar dividir o imposto arrecadado com estados e municípios.

Com isso, em 2002 a União ficou com 69,2% da arrecadação, os estados com 26,4% e os municípios, com apenas 4,4%.

Ao desistir de tentar aprovar a reforma tributária em 2007, e acatar a reivindicação dos prefeitos brasileiros de aumentar em 1% o repasse do Fundo de Participação dos Municípios, injetando cerca de R$1,5 bilhão nos municípios, o presidente Lula segue a trilha de seus antecessores.

Continua querendo centralizar a arrecadação dos impostos, e fazer benesses quando o interesse político convier, razão pela qual a reforma tributária continua emperrada, e todos vão fazendo política às custas do erário público.

Feliz Natal para todos.

Conto-do-vigário na sucessão

Luiz Weis
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A sucessão de 2010 começou cedo e começou mal. Cedo porque o horizonte de incerteza econômica levou o presidente Lula a pôr desde logo na avenida o bloco da candidatura Dilma Rousseff. Já não bastasse o fato de a ministra continuar desconhecida para quase a metade dos brasileiros, apesar da profusão de holofotes voltados para a sua figura, Lula não iria correr o risco de descortinar a sua campanha quando (ou se) o desemprego tiver se instalado nas manchetes - do primeiro trimestre de 2009 em diante, ao que se calcula.

Se não se instalar, sinal de que o temido contágio do colapso financeiro internacional se limitou a uma "gripe pequenininha", como prevê a ministra, tanto melhor para a operação Dilma-10: ela terá ganho tempo extra para corrigir os eventuais erros de implantação de um nome sem passagem prévia pelas urnas. O público, porém, tem mais com que se preocupar que com uma eleição a 22 meses de distância. E só lhe resta torcer para que a imersão do presidente na montagem do suporte político da candidata não embace sua concentração na crise.

Agora, a sucessão começou mal porque o PT armou um conto-do-vigário, querendo atar a eleição a uma cruzada contra o neoliberalismo. A deixa partiu do secretário nacional de Comunicação do PT, Gleber Naime, numa reunião de dirigentes partidários. "A crise tem pai e mãe", proclamou. "Ela é uma crise do modelo neoliberal, daqueles que no Brasil defenderam as idéias de desregulamentação do Estado, ou seja, o PSDB e o DEM. E esse debate o PT vai fazer. Os neoliberais perderam."

Seguiu-se, dias depois, a própria Dilma. "Nossa visão de Estado não é neoliberal. Somos governo com responsabilidade fiscal, mas também social", discursou ela para uma platéia de prefeitos petistas. "A diferença (em relação ao passado) é radical", emendou. É inconcebível que ela não saiba, antes de tudo, que o governo Fernando Henrique foi privatista, mas não neoliberal. Se fosse, o sistema financeiro nacional estaria tão desregulamentado como o dos EUA e, como este, em frangalhos.

Além disso, no atual governo, desde a hora zero, a ex-ministra de Minas e Energia não precisa que ninguém lhe ensine que Lula encampou a política econômica do antecessor, embora a desancasse como "herança maldita". Não só a encampou, mas soube tocá-la com uma competência que seus adversários, não fosse a baixaria da política, poderiam fazer a fineza de admitir, em nome da verdade. A mesma competência, por sinal, com que levou adiante o Bolsa-Família.

Este descende em linha direta dos vários programas de transferência de renda iniciados no segundo mandato de FHC, especialmente o Bolsa-Escola - cujos ancestrais, por sua vez, foram uma administração tucana (a do prefeito de Campinas já falecido José Roberto Magalhães Teixeira) e outra, petista (a do governador do Distrito Federal Cristovam Buarque).

O petismo fabrica uma diferença - "radical", ainda por cima - em relação ao PSDB para esconder as semelhanças recíprocas, para o bem e para o mal, que não tem como admitir de cara limpa. Até o primeiro caso documentado de mensalão é obra tucana (na campanha do atual senador Eduardo Azeredo ao governo de Minas em 1998).

Por último, falar em neoliberalismo no Brasil numa hora destas é de um anacronismo atroz. Qualquer que tenha sido seu apelo na década passada, hoje deve ter tantos adeptos quanto os da restauração da monarquia. E o provável adversário de Dilma, o ex-ministro e governador paulista José Serra, nunca deu nem sequer uma piscadela para a ideologia do absolutismo do mercado.

Está na cara a intenção de escamotear a inconveniente verdade da convergência de posições entre o PT - pelo menos o PT da Carta aos Brasileiros, de 2002 em diante - e o PSDB, no que toca aos problemas de fundo do País. O próprio Fernando Henrique, que também diz uma coisa para fora e outra para dentro, já deixou escapar que a disputa entre as duas legendas é puramente política.

Trata-se, pois, de uma disputa pelo poder, velha como as montanhas, entre confederações rivais de interesses cristalizados que compõem os respectivos partidos ou se exprimem por seu intermédio. Essa convergência básica não é uma jabuticaba - dá em qualquer democracia estável. Nelas, o tempo destila na sociedade e nos principais partidos um consenso sobre o núcleo essencial das políticas de Estado.

As divergências não se evaporam; ao contrário, tendem a se intensificar - mas na periferia das grandes questões em jogo. Nos EUA, por exemplo, o consenso em torno do New Deal de Roosevelt durou cinco décadas, dos anos 1930 até a contra-revolução conservadora inaugurada com a eleição de Ronald Reagan. Na Grã-Bretanha, o consenso em favor do Welfare State, a partir do primeiro governo trabalhista do pós-guerra, só se desfez com o advento do thatcherismo, em 1979.

Quando Dilma e Serra (ou, vá lá, Aécio Neves) enfim disserem a que vêm, ver-se-á que, removida a retórica, ambos estarão propondo, ao fim e ao cabo, o mesmo - desenvolvimento com justiça social, a ideologia brasileira por excelência desde a Revolução de 1930 (à parte as discordâncias posteriores sobre o papel do Estado como produtor de bens e provedor direto de serviços).

O resto - embora não seja pouco nem descartável - é questão de métodos. Métodos de construir maiorias parlamentares, métodos de ocupar e conduzir o Estado, métodos de conquistar popularidade, métodos de fazer política externa. Sem Lula a ofuscar as coisas com a sua exacerbada oralidade e seu inigualável carisma, isso ficará patente no próximo período de governo, com Dilma ou Serra.

Quantas vezes, enfim, será preciso repetir que, para os historiadores do futuro, a continuidade dará a marca do ciclo iniciado com a eleição de FHC e só terminará no dia ainda distante em que o Planalto não hospedar nem petistas nem tucanos?

Luiz Weis é jornalista

Só quem trabalha pode pagar o almoço

José Nêumanne
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encasquetou com a idéia fixa de que ele vai livrar o Brasil da crise se fizer o brasileiro consumir. Por isso, fingiu descer do palanque eleitoral para trocar o papel de eterno candidato pelo de garoto-propaganda do consumismo redentor. A idéia parte do pressuposto aparentemente simples, mas na verdade apenas simplista, de que, se o consumidor comprar, o comércio venderá, levando a indústria a produzir, a empresa a empregar e o trabalhador garantirá, destarte, sua renda para assegurar o próprio poder de compra. Usando uma parábola futebolística da preferência presidencial, é como se uma partida começasse aos 90 minutos e o cronômetro fosse rodando para trás até chegar ao zero - com o resultado predeterminado pelo árbitro. Caberia aos jogadores dos dois times cumprirem as determinações prévias de fazer os gols necessários para a derrota, a vitória ou o empate determinados pelo supremo juiz.

A torcida do Corinthians, contudo, sabe que não se joga o jogo assim, mas na ordem inversa das coisas: ele começa no primeiro minuto e acaba no último; o destino das equipes é determinado por suas atuações; e, embora o juiz possa influir no resultado, não é esperado nem lícito que o faça. Pois dessa forma é também a vida real da economia: o campeonato começa com a disposição de produzir da sociedade, continua com a sua capacidade de poupar e se completa com a necessidade de consumir. Embora corintiano roxo, o presidente parece não ter percebido que os desmandos do clube levaram o time à Segunda Divisão do Campeonato Brasileiro. E foram o empenho e engenho dos jogadores, sob uma gestão adequada, que o levaram de volta à Primeira, não apenas a vontade suprema da diretoria nem o entusiasmo da torcida.

Sua Excelência Excelentíssima e seus áulicos poderão argumentar que a teimosa disposição dos japoneses para poupar não os salvou dos estilhaços da crise dos mercados financeiros internacionais. Japoneses são tão viciados em poupança quanto os brasileiros em gastança e tudo indica que estão sendo mais atingidos pelo tsunami de Wall Street que nós aqui nestes tristes trópicos. É fato também que os séculos de cultura e civilização vividos pelos europeus de nada lhes têm valido para livrá-los do pânico da recessão, que assombra o mundo. A antiga habilidade de produzir mais e melhor (inventando sistemas como a linha de montagem, por exemplo), que deu aos antigos colonos da Nova Inglaterra o domínio sobre o mundo, não impediu que a hecatombe fosse nutrida no seio de seu sistema financeiro. Mas isso não modifica leis fundamentais da sobrevivência humana que o apóstolo São Paulo resumiu numa frase genial, que o presidente Lula, mais que seus assessores, comunistas, et pour cause, ateus, deveria ter aprendido, após tantos anos de freqüência de missas: "Quem não trabalha não come."

Os economistas liberais da Escola de Chicago adaptaram a sentença curta, dura e sincera do primeiro teólogo cristão para "não há almoço grátis". E a bruta sentença paulina sobrevive nestes tempos bicudos de pós-capitalismo: não há produção sem consumo nem vice-versa. O trabalho precede a refeição e, em termos atuais, a paga. Pois a produção garante a remuneração, não cabendo nessa equação a velha dúvida entre a precedência do ovo sobre a galinha ou da galinha sobre o ovo. Talvez esta não seja a melhor hora para concentrar esforços na poupança, mas certamente comprar sem freios nada resolve, se não por qualquer outro motivo pelo menos pela óbvia razão de que só compra quem tem dinheiro no bolso e dinheiro, ao contrário do que Lula possa pensar, não é um papel pintado impresso na Casa da Moeda, mas um signo de troca resultante da capacidade de uma sociedade de produzir, poupar e consumir. Não se produzem riquezas só com vontade política e as complicadas malhas da economia real são impermeáveis às leis do marketing político, matéria na qual ele é mestre incontestável.

Lula é um gênio intuitivo fora do comum, muito acima da média, em matéria de comunicação política, por dominar como poucos a linguagem dos anseios populares de consumo e conforto: todos adoramos comer e comprar, mas quem gosta de trabalhar feito um mouro? Quando apela ao consumo, noçço líder atinge o que há de mais vulnerável no organismo humano: o estômago. Ele sabe o que faz: seu segredo de prestidigitador de massas é o cardápio do trabalhador, enriquecido de proteína pela oferta de emprego propiciada pela bonança internacional (que está, aliás, na raiz da crise, mas quem se importa com isso?) e pela mudança completa de seus hábitos de vida. O observador desapaixonado que for à periferia de qualquer cidade de qualquer região brasileira perceberá a olho nu essa conquista. O morador dessas "comunidades" de baixa classe atribui, com orgulho, o fato de poder possuir um televisor e trocar a geladeira - sem falar na rede elétrica que lhe chega, sem sequer a obrigação de pagar, graças aos "gatos" tolerados -, ao fato de ter, afinal, alguém de sua grei na gerência dos negócios republicanos. Daí, o prestígio do presidente subir sem parar feito um foguete sem rota de retorno.

Neste momento, os índices de desemprego não são assustadores, quem está desempregado come sua cota de Bolsa-Família e a alta burguesia financeira não se sente abalada pelo sismo de Wall Street. Enquanto essa satisfação generalizada perdurar, ninguém trará o foguete Lula de volta ao solo. Só que perdurar não é sinônimo de se perpetuar e não há dor perene nem glória perpétua. O castelo só não ruirá se a crise não cruzar seus muros e a arma para evitar isso é o trabalho árduo, tema inglório em comícios, e não o consumismo desenfreado, fácil de propor, mas difícil de cumprir sem a premissa da poupança e da produtividade.

José Nêumanne, jornalista e escritor, é editorialista do Jornal da Tarde

O Brasil quer saber quem é essa gente

Augusto Nunes
DEU NO JORNAL DO BRASIL


Essa gente passou da conta, acaba de avisar o presidente da República. Desde a posse, essa gente torceu dia e noite para que não desse certo o governo do torneiro-mecânico que virou estadista. Em seguida, Lula informou que, sempre sonhando com o fracasso do migrante nordestino que desde 2002 se hospeda no Palácio da Alvorada, essa gente deu de acordar e dormir orando para que o país inteiro fosse para o buraco (sifu, diria em português-pra-trabalhador-petista o médico desalmado da metáfora infame). Pois agora essa gente partiu para a radicalização. "Tem gente que vai deitar rezando: ‘Tomara que essa crise pegue o Brasil pra esse Lula se lascar’", revelou o presidente num dos improvisos da safra de dezembro. Assim já é demais.

Tudo bem que um punhado de maus brasileiros torça contra Lula. Até que o Datafolha e o Sensus anunciem que a avaliação da performance do campeão chegou a 100% de ótimo ou bom (talvez 102%, já que a margem de erro é de 2% para cima e 2% para baixo), até que dê traço no Ibope o balaio de gatos pingados que insistem em fazer reparos a uma performance perfeita, Lula tem de aturar invejosos incuráveis e os demais inconformados com o desempenho do maior dos governantes desde a chegada das caravelas.

Tudo bem que essa gente viva exibindo olheiras de galã de cabaré por sonhar acordado com o fiasco daquele que se mostrou mais esperto que Getúlio Vargas, mais sedutor que JK, melhor que todos os antecessores desde a chegada das caravelas, incluídos os três governadores-gerais e os dois imperadores. O que não se pode tolerar é essa gente rezando pelo triunfo da crise econômica. Coisa de traidor da pátria, inimigo da nação, quinta-coluna de quinta categoria. Quem topa até morrer afogado desde que o timoneiro também afunde com o barco não merece o anonimato concedido por Lula.

Quem é essa gente?, perguntam milhões de brasileiros ao detentor do segredo. Só o presidente, pelo jeito, sabe o nome completo, data e local do nascimento, estado civil e signo de cada sócio do clube do contra. Publicamente, só parecem contentes com a crise ministros de Estado, figurões do PT e oficiais da tropa revolucionária bolivariana. Mas não torcem contra Lula, nem contra o país. Torcem contra o imperialismo ianque em particular e o capitalismo em geral, ambos condenados pela crise a morrer por afogamento.

Essa gente também não inclui os banqueiros, todos felizes com os lucros obtidos ou por obter e com o pronto-socorro montado pelo governo. Tampouco os empresários da indústria automobilística, cada vez mais animados com o gentil patrocínio dos cofres federais. Nem os chefões da telefonia, que Lula tem tratado com cuidados de pai. Muito menos os grandes comerciantes, satisfeitos com os sucessivos pedidos do presidente para que a freguesia gaste até o que não tem neste Natal.

Os pobres que ainda esperam a vez de subir para a classe média não enxergam uma só nuvem no céu de brigadeiro. Acham que 2009 será ainda melhor que 2008, que foi ótimo. A velha classe média nem quer ouvir falar em crise. Teme o desemprego, a inflação, a erosão do poder de compra, sobretudo a suspensão das viagens anuais a Buenos Aires. Os reacionários golpistas e os grã-finos paulistas estão concentrados em salvar o que restou de aplicações desastradas. Os suspeitos de sempre desta vez estão fora. Só Lula pode dizer quem é essa gente.

Num dos discursos da semana, o orador infatigável tornou a explicar que a economia brasileira cresceu nos últimos anos porque era ele o presidente, não porque o mundo andou bem, mas a economia brasileira está sujeita a abalos não porque é ele o presidente, mas porque o mundo anda mal. Noutro improviso, evocou de novo a misteriosa entidade: essa gente continua ajoelhada no altar dos santos milagreiros, à espera do desastre tremendo. Se algo der errado, os queixosos que procurem o guichê dessa gente. Não é muita, reiteram as pesquisas. Mas é poderosa. Consegue até transformar marolinha em tsunâmi.

Se descobrissem seu endereço, os brasileiros que pensam tratariam de pedir, no minuto seguinte, um presente de Natal. Em vez de usar tanta força para piorar o Ano-Novo (e castigar tanto culpados quanto inocentes), essa gente poderia melhorar 2009 com um pequeno milagre: obrigar o presidente a parar de dizer tanta bobagem.

11 vezes crise

Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Descontadas as preposições, "crise" foi a palavra mais usada por Lula no seu pronunciamento à nação anteontem na TV. O presidente usou o termo 11 vezes.

O objetivo era combater o pessimismo. Estimular os consumidores a irem às compras. Mas se era para inocular ânimo nos telespectadores, talvez o presidente devesse ter evitado pronunciar tantas vezes a palavra maldita "crise".

Lula parece não se preocupar com esse tipo de detalhe. Sua rotina é simples: 1) diz qual deve ser a idéia geral de seu discurso; 2) alguém escreve e 3) ele interpreta lendo diretamente no teleprompter -o equipamento que projeta em um espelho falso, em frente à câmera, o texto da fala presidencial. O petista, aliás, domina a engenhoca de leitura como nenhum de seus antecessores no Planalto. Lula tornou-se um craque nessa arte.

Em várias cerimônias públicas ou até em comícios ao ar livre, sempre que pode, leva o teleprompter a tiracolo. Eis aí um traço de modernidade quase nunca percebido ou reconhecido no presidente: ele lê muito bem seus textos na TV.

Ironia à parte, o clima geral em Brasília neste final de ano é de pânico moderado. Não existe o menor consenso no governo sobre como será exatamente o impacto da desaceleração econômica. Daí a razão de o presidente se esfalfar diariamente para tentar manter um certo otimismo no país.

O pior cenário para Lula parece ser também o mais provável. A carnificina ocorre no primeiro semestre de 2009. Demissões, queda nas vendas e nos níveis salariais. O restante do ano se arrasta. O Natal vem sem brilho. Por fim, 2010 começa com os eleitores querendo mudanças, favorecendo a oposição.

Para impedir a consumação dessa profecia quase auto-realizável, Lula terá ainda muitos discursos a fazer. E será cada vez mais difícil para ele evitar a palavra "crise".

Lula 2.0 tem a voz do velho sindicalista

Elio Gaspari
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O problema é que ele chama de jogatina "desavergonhada" aquilo que o Copom vê como "mercados"

NA NOITE DE segunda-feira Nosso Guia fez ao mesmo tempo uma prestação de contas do governo Lula 1.0 e o discurso de posse de Lula 2.0. Um mostrou resultados, o outro ofereceu esperança.

Poucos presidentes puderam dizer como ele: "De 2003 para cá, o salário mínimo cresceu em termos reais, 51%, e o emprego também cresceu fortemente. Em 2007, batemos um recorde: 1,812 milhão de novos empregos com carteira assinada. Em 2008, novo recorde: até outubro, 2,148 milhões de empregos. Resultado: a taxa de desemprego caiu de 12,3% em 2003 para 7,6% em outubro de 2008. (...) Mudamos de cara e de astral".

Pode-se avaliar a distância que separa o Lula 1.0 do 2.0 quando se vê que, no mesmo dia em que sua fala foi ao ar, o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, o Caged, informou que em novembro passado perderam-se 41 mil empregos formais. Pior: enquanto Lula falava à tarde num crescimento de 4% para 2009, o Banco Central informava que a previsão de seus sábios baixa a bola para 3,2%.

Deixando-se de lado leviandades verbais como a "marolinha", Lula artilhou-se na estratégia certa de combate à crise: deve-se estimular o consumo e o governo deve ser o indutor do resgate. Se a banca internacional e seus fâmulos nativos não estivessem mudos e quebrados, esmolando na porta do companheiro Obama, essas posições de Nosso Guia seriam vistas como excentricidades populistas. Infelizmente, Lula 2.0 tem amarrada à perna esquerda a bola de ferro de um organismo extra-constitucional chamado Copom. Um dia alguém fará a conta e descobrirá que essa invenção do tucanato causou mais males ao Brasil que as tropas de Solano Lopez. Não contentes com a marca da maior taxa de juros do mundo, conseguiram também a excentricidade de terem sido os únicos a subir a Selic enquanto o resto do mundo reduzia suas taxas ao longo do ano.

Colocando-se acima do poder republicano do presidente (por abdicação do titular) os Copomitas refletem a anarquia financeira da mesma forma que, durante a ditadura, os superpoderes do Alto Comando do Exército refletiam a anarquia militar. Com uma diferença: a anarquia financeira derreteu a economia mundial. Nosso Guia diz muito bem quando fala em jogatina "desavergonhada". O doutor Henrique Meirelles e seus colegas de Copom chamam essa mesma coisa de "mercados".

O discurso de fim de ano de Lula 2.0 teve um grande momento: "É imprescindível que os trabalhadores defendam produção e emprego".

A frase é ambígua, mas na hora em que o presidente da Vale, doutor Roger Agnelli comemorou os 40 anos do AI-5 sugerindo "medidas de exceção" para as relações trabalhistas, nada melhor do que o discreto reaparecimento de um velho líder sindical. Se os trabalhadores não prestarem atenção, o mesmo empresariado que vai ao BNDES pegar o dinheiro do FAT a juros camaradas, haverá de tungar seus direitos trabalhistas. Acabarão retardando o recolhimento de impostos e antecipando a renegociação das horas extras. Agnelli gostaria que o governo passasse a faca na proteção que as leis dão ao trabalho, assim como a Fiesp gostou quando a ditadura passou a faca nas garantias individuais da patuléia. Depois, quando a história aparece com a conta, bota-se toda a culpa nos militares ou na reforma trabalhista do governo Lula.