domingo, 27 de maio de 2012

Crescimento modesto em 2012:: José Roberto Mendonça de Barros

Não existe mais dúvida: o crescimento de 2012 será muito modesto. A MB Associados reduziu sua projeção para uma expansão do PIB de apenas 2,5%. Essa redução não parece ser passageira, nem decorre apenas da expectativa da piora recente no quadro internacional, mas sim da letargia da demanda doméstica e de dificuldades de certos setores produtivos, apesar de todos os incentivos introduzidos pela política econômica. Um aprofundamento da crise europeia exigiria uma revisão dos dados ainda mais forte. Todos os componentes da demanda agregada (exportações, investimento e consumo) estão andando mais devagar, sem perspectivas de grande melhora nos próximos meses.

As exportações vêm sendo negativamente afetadas pela redução do crescimento global. Em abril deste ano, frente ao mesmo período de 2011, a quantidade exportada de bens intermediários caiu 5,7%, enquanto a de bens de consumo duráveis 22,2% e a de bens de consumo não duráveis 10,2%. Além do crescimento mais modesto no mundo todo, a menor competitividade do produto nacional vem implicando em recorrente perda de participação nos mercados, especialmente frente à competição asiática em outros países emergentes.

Finalmente, o protecionismo mais elevado também tem um papel, visível mais que tudo no caso argentino (entre janeiro e abril deste ano as exportações de manufaturados caíram 9%). Após uma ameaça de uma posição mais altiva, a política externa brasileira volta a já tradicional submissão dos últimos anos. Lamentável.

Todos os indicadores de investimento continuam mostrando um forte enfraquecimento. Isto é verdade para a importação de bens de capital, que mostrou um crescimento de apenas 4,3% no primeiro trimestre do ano (contra 28% há um ano), para a produção local de equipamentos, que caiu 11,4% no mesmo período e nos insumos típicos da construção civil, que mostrou crescimento de apenas 3,3%.

O investimento público está enfrentando neste ano dificuldades maiores que as usuais e seus valores vêm apresentando apreciável redução. Segundo estimativa de Mansueto Almeida, o investimento público no primeiro quadrimestre deste ano apresentou uma queda nominal de 10,2% em relação ao mesmo período do ano passado, quando se excluem as transferências do Tesouro ao Fundo de Arrendamento Residencial, (FAR), que é uma despesa de custeio e não de investimento. Um crescente número de greves tem afetado a construção de inúmeros projetos, como as usinas de Santo Antonio, Jirau e Belo Monte, as refinarias Abreu de Lima e Comperj e estádios como o Maracanã. Ao mesmo tempo, o rapa que afetou o DNIT reduziu a quase zero a velocidade dos projetos. Finalmente, os episódios em torno da Delta Engenharia contribuem para as dificuldades.

A construção civil residencial também anda muito devagar. Neste caso, o problema básico não é a falta de demanda ou de financiamento, mas sim, um problema na oferta. De fato, as construtoras depois de venderem muito bem em 2009 e 2010 passaram a encontrar grandes dificuldades para construir as edificações. Essas dificuldades são essencialmente ligadas à grande escassez de mão de obra com qualificação, que resultam num crescimento persistente de elevação de custos e de atrasos na entrega dos apartamentos. Ainda vai levar alguns trimestres antes da normalização do fluxo de produção.

Ainda na área de investimento, é cada vez mais reconhecida a dificuldade da Petrobrás em manter o cronograma dos novos projetos, pela enorme dificuldade de conciliar preço, grau de nacionalização e prazos de entrega de grande parte dos equipamentos encomendados. Com isto, praticamente todos os projetos estão atrasados.

Em outros setores, vários projetos de expansão estão sendo revisados e postergados. É o caso da indústria siderúrgica, afetada pela gigantesca capacidade ociosa no mundo, da ordem de 500 milhões de toneladas. No setor de açúcar e álcool ocorre a mesma coisa, uma vez que a manutenção do preço da gasolina fixo por vários anos destruiu a rentabilidade na produção de etanol; além das empresas já em dificuldades financeiras, há notícias no mercado de vários "players", colocando à venda suas empresas. Os balanços ruins que temos visto, resultado direto das grandes elevações de custos dos últimos tempos, também têm levado à postergação de novas inversões.

Os estrangeiros estão perdendo o entusiasmo para investir no Brasil, inclusive pela excessiva interferência na economia e frequente mudança de regras. Os animais dos espíritos estão voltando para as jaulas e vai demorar algum tempo para retirá-los de lá, mesmo com a queda de juros e a desvalorização do real.

Finalmente, devemos considerar a questão do consumo. Os dados mostram certo arrefecimento nas compras, concentradas no setor automotivo. Este desempenho tem muito a ver com o excesso de endividamento de parcela expressiva dos consumidores.

De fato, pesquisa da MB mostra que nas classes C e D/E 20% das famílias assumiram compromissos mensais acima de 30% de sua renda, dificultando o pagamento em dia de suas prestações. É frequente o caso em famílias com prestações acima de 40% da renda mensal. Devemos lembrar que nestas faixas de renda a manutenção básica (alimentos, transporte, etc.) compromete entre 65% e 75% da renda familiar. Quando se atinge essa situação, é inevitável que o consumo se retraia.

No caso dos automóveis, a situação é ainda pior, pois a partir de 2008 os carros usados se desvalorizaram pesadamente, implicando uma perda de capital para os proprietários e tornando mais difícil a tradicional troca de um carro velho por um mais novo. Vai, portanto, levar algum tempo antes de uma volta à normalidade e é por isso, que os pacotes de auxílio ao consumo tem tido cada vez menor eficácia.

Passado esse ajuste, que deve levar ainda alguns trimestres, o crescimento da demanda voltará a ocorrer, com taxas mais modestas que as do passado recente. Em primeiro lugar, porque uma boa parte do efeito inclusão dos mercados de consumo já ocorreu (não existem mais 12,5 milhões de domicílios para serem incluídos no Bolsa Família, por exemplo), pela dificuldade de se manter taxas tão elevadas de aumento do salário mínimo como no passado recente, e pela dificuldade de se manter o crescimento dos salários muito acima da produtividade como nestes últimos anos.

Da mesma forma, a expansão do crédito ao consumidor não dará mais saltos como no passado, pois uma boa parte dos consumidores já está no circuito de crédito. Fabio Ramos da Quest calculou que a relação crédito ao consumidor (exceto imobiliário) sobre o PIB já está muito próxima daquela observada nos EUA, da ordem de 16%. O consumo continuará a crescer, mas de forma mais moderada, e mais dependente da elevação da produtividade do trabalho do que de transferências e inclusão.

A lentidão do crescimento deste ano tem, portanto, tudo a ver com dificuldades reais, e de difícil superação, nas exportações, nos investimentos e no consumo. A crise na Europa soma-se aos fatores acima apontados, resultando num crescimento modesto para 2012, que estimamos ser da ordem de 2,5%, como já contamos no início deste artigo.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

É melhor mudar de canal:: Luiz Gonzaga Belluzzo e Julio Sergio Gomes de Almeida

A reedição de medidas de estímulos ao consumo terão eficácia menor e devem ser acompanhadas de apoio ao investimento

A redução de impostos e a facilitação do crédito, medidas adotadas pelo governo recentemente, destinam-se a estimular a indústria de veículos. Ela reúne tanto a produção de bens de consumo (automóveis de passeio) quanto a de bens de capital (ônibus, caminhões e utilitários). Cerca de quatro quintos dos 3% de retração da atividade industrial acumulada no primeiro trimestre do ano são de responsabilidade do setor, que neste momento guarda volumosos estoques de produtos finais nos pátios das montadoras.

As medidas buscam promover a desova desses estoques. Na perspectiva do governo, isso deve ocorrer até o fim de agosto. E possível que outros segmentos também cheguem ao término de seus ciclos de ajuste de estoques. Cumpridos esses supostos, a indústria como um todo poderá apresentar uma evolução positiva ainda neste ano, beneficiando-se também de outras iniciativas da política econômica. Entre elas, a elevação do salário mínimo, que reforçou o consumo de base, a redução da taxa Selic, o barateamento do crédito, o reposicionamento da taxa de câmbio e as medidas de desoneração do
investimento, das exportações e da folha de salários.

Por seus efeitos diretos e indiretos, a indústria de transformação tem se constituído no epicentro da retração econômica observada nos últimos meses. Sua recuperação é fundamental para tirar a economia brasileira da estagnação relativa em que se encontra. Nos últimos três trimestres, a marcha do PIB em relação ao trimestre anterior registra queda de 0,1% e elevações de 0,3% e 0,15% (segundo estimativa do Banco Central) entre o terceiro trimestre de 2011 e o primeiro de 2012.

Mesmo se aceitarmos como boas as premissas que informaram as decisões do governo, os próximos meses do ano da graça de 2012 nos reservam um crescimento modesto e aquém das potencialidades do País. As condições da economia internacional se deterioraram e já atingem as exportações e o fluxo de capitais para o Brasil. A contração do crédito externo e o declínio das exportações - acompanhada da queda de preços das commodities - contaminam as expectativas, transmitem incertezas nas decisões de investir dos empresários, amedrontam os consumidores de bens duráveis e as instituições que os financiam.

Enganam-se, porém, os que veem apenas na crise mundial a origem da falta de dinamismo doméstico. O ambiente da economia brasileira é muito diferente hoje do que era em setembro de 2008, quando o colapso do Lehman Brothers deflagrou a crise mundial. In illo tempore, o crescimento da economia brasileira estava assentado na articulação de dois movimentos cíclicos de grande intensidade: 1.0 investimento público e privado em infraestrutura, habitação e capacidade produtiva industrial, sobretudo nas áreas ligadas ao petróleo. 2. O ciclo de consumo de duráveis, municiado pela evolução do crédito e amparado na formalização e no aumento do emprego e dos rendimentos da população em termos reais.

Nesse ambiente, a disposição de investir e de consumir foi mantida pelos anúncios do governo que garantiam a manutenção de seus programas (como o Bolsa Família e o PAC). Ademais, o choque negativo de confiança foi ultrapassado pelas medidas que sustentaram a rigidez do sistema bancário, como a liberação do compulsório pelo Banco Central e a compra de carteiras das instituições de menor porte.

Na verdade, a política econômica atuou para assegurar a continuidade da evolução do crédito corrente mediante, sobretudo, a ação dos bancos públicos (Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal), o que sustentou o consumo. Isso se juntou às reduções de impostos na compra de veículos e outros bens duráveis. O reforço de recursos concedido pelo Tesouro ao BNDES impediu a disseminação do clima de desconfiança instaurado pela crise e foi crucial para a sustentação do ritmo de investimentos.

Esse conjunto de providências, numa conjuntura de erosão do crédito externo, tornou possível amparar o financiamento do ciclo de inversões e o avanço do consumo em curso no País. Ágil em irrigar a liquidez bancária e promover a expansão do crédito, o governo brasileiro foi parcimonioso na utilização do gasto público direto e frugal na adoção de estímulos fiscais, à exceção da redução de impostos para bens de consumo duráveis.

O ciclo de investimentos deu sinais de reversão já em 2011. A indústria de transformação sofre há muito os efeitos negativos das importações predatórias estimuladas pelo câmbio valorizado. Mais recentemente, o ciclo de consumo e o investimento imobiliário entraram numa trajetória de descenso, seja porque a população antecipou o consumo de duráveis ao aproveitar os benefícios fiscais e a disponibilidade de financiamento, seja porque as instituições financeiras neste momento identificam riscos de inadimplência. Os financiamentos às famílias tiveram forte evolução e o sistema de crédito está a "digerir" os efeitos dessa rápida expansão.

É a partir dessas condições que deve ser avaliada a atuação da política econômica em curso. As medidas do governo concentram-se outra vez na maior disponibilidade do crédito e em incentivos fiscais ao consumo. Tais cometimentos tiveram sucesso inegável na luta travada contra os efeitos do primeiro choque adverso desferido pela crise financeira internacional. São ações necessárias, mas sua eficácia é bem menor e devem ser complementadas por decisões apoiadas no investimento autônomo.

Caminhariam nessa direção um reforço substancial do gasto público em investimento e a concessão de incentivos de grande impacto e diretamente associados ao investimento privado, como a instituição da depreciação acelerada para as inversões realizadas, por exemplo, nos próximos 12 meses. No atual estágio da economia doméstica e da crise internacional deveriam ser avaliadas com atenção medidas para dar maior folga financeira e maior capacidade de financiamento dos investimentos às empresas (a exemplo da postergação de recolhimentos de impostos pelas empresas e uso do compulsório dos bancos para o financiamento de longo prazo) e para reforçar, por meio das inversões dos estados, o investimento público da União (via suspensão/redução de pagamentos ou renegociação das dívidas estaduais com a União, em contrapartida à elevação dos investimentos).

FONTE: CARTA CAPITAL

Falsos remédios :: Suely Caldas

Há dias a presidente Dilma Rousseff prometeu fazer a reforma tributária com um novo modelo de ação: em vez de anunciar, vai executar; em vez de uma proposta global, medidas pontuais. Na gestão Lula o governo passou anos negociando com governadores e parlamentares, foi cortando aqui e ali, aceitou desfigurar e minguar a proposta inicial até ser reduzida à unificação do ICMS apenas. Ainda assim, desistiu de enviar a proposta ao Congresso, porque seria rejeitada no ato. Dilma cansou e vai seguir outro caminho. Deu como exemplo a tarifa de energia elétrica, que prometeu desonerar de impostos. Anunciou, mas até agora não executou.

Seu ministro da Fazenda parece ter entendido o recado assim: a reforma tributária precisa ser pontual, pragmática e flexível - desonera o imposto hoje e eleva a alíquota amanhã, ao sabor da conjuntura do momento. E a estrutura tributária segue intacta, inalterada. Se o pátio das montadoras está lotado de automóveis, corta-se o imposto, a indústria vende, desova os estoques e três meses depois volta o que era antes. Se há outros setores industriais estocados e com a produção em queda, que arranjem empresários e trabalhadores com força de pressão política em Brasília. Como tem a indústria automobilística.

A reforma tributária pode e deve ser fatiada, como quer a presidente. Ela não avançou nos governos FHC e Lula porque seguiu um ritual errado, de tentar negociar o conjunto, dando margem a barganhas políticas com um e outro tributo que a tornavam inócua ao final da negociação. Mas é absolutamente indispensável ela ser pensada no conjunto, reduzir não só a carga tributária, como também a quantidade de impostos, buscar a simplificação, facilitar a cobrança e a arrecadação e dificultar a sonegação.

Não dá para fazer reforma mantendo a mesma estrutura tributária, sem corrigir um sistema que se transformou num monstro justamente porque rombos momentâneos superaram a racionalidade fiscal desde os tempos da ditadura militar. Para falar mais claro, nos últimos 40 anos um imposto era criado sempre que o Orçamento federal abria um novo rombo, gerado por sucessivos governos que gastavam mais do que podiam. Assim nasceram o PIS-Cofins federal, as nove taxas embutidas nas contas de luz, a taxa de incêndio municipal e por aí vai. E o contribuinte segue pagando para sustentar governos cada vez mais caros. E a indústria segue perdendo, cada vez mais, poder de competição.

O estilo pragmático do governo Dilma é bem-vindo no momento certo e em situações adequadas. O problema é que a equipe econômica mistura alhos com bugalhos e confunde reforma tributária com desonerações temporárias. Em vez de aperfeiçoar a regulação para incentivar o investimento privado em infraestrutura, enche o caixa do BNDES com dinheiro subsidiado para financiar a produção dirigida ao consumo. O imediatismo esconde o problema real.

Dilma precisa ser assessorada por gente que pense mais longe, que enxergue os dilemas estruturais do País, os gargalos que freiam o crescimento, sufocam a produtividade e enfraquecem a competitividade da indústria. Isso não será resolvido com desoneração episódica e dirigida a só um setor industrial. Esse fôlego momentâneo não resolve e ainda deixa todo o resto da indústria padecendo dos males de sempre.

Com o novo pacote, instalou-se a discussão sobre se o modelo de crescimento via consumo está ou não esgotado, se dá ou não para recuperar um crescimento entre 3% e 4% este ano. O debate está fora de foco, até porque o real objetivo do pacote foi esvaziar os pátios das montadoras e evitar demissões de trabalhadores. Está longe de ser capaz de reverter o desaquecimento econômico. Mas é essa a agenda que o governo oferece.

Em conta-gotas de falsos remédios para retomar o crescimento, o governo Dilma abandona o eficaz e verdadeiro caminho: tocar as reformas, investir em infraestrutura e educação para o trabalhador, reduzir o custo de produzir no Brasil, elevar as taxas de poupança e investimento. E, sobretudo, o governo economizar dinheiro, racionalizar seus gastos e ampliar seus investimentos.

Suely Caldas, jornalista; é professora da PUC-Rio

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

O colonialismo está de volta:: Clóvis Rossi

Europa transforma a Grécia em neocolônia com uma política de "humilhação demencial"

Em pleno século 21, o colonialismo praticado por europeus está de volta. Mas, desta vez, não se aplica a remotos países africanos, sul-americanos, asiáticos. Vale para um país da própria Europa, a Grécia.

O termo "neocolônia" foi usado por Costas Lapavitsas, professor de Economia na Escola de Estudos Africanos e Orientais da Universidade de Londres. "Se a Grécia perseverar com as políticas atuais na eurozona, a economia vai encolher e estagnar. O país se tornará um canto empobrecido, envelhecido e profundamente desigual, uma neocolônia em tudo menos no nome".

Exagero de acadêmico sem responsabilidade de governo e, por isso, livre para usar palavras fortes? Não.

O chefe do governo italiano, Mario Monti, um tecnocrata extremamente moderado e que está impondo a seu país uma receita de austeridade parecida com a da Grécia, reconhece que "a Grécia perdeu sua soberania", o que é a mesma coisa que dizer que se tornou colônia.

Mais: Monti atribui a radicalização do eleitorado grego contra a austeridade, revelada nas eleições do dia 6 passado, à "humilhação demencial" sofrida pelo país e, por extensão, por sua sociedade.

Talvez seja um pouco tarde, mas Monti, que não é nem remotamente de esquerda, reconhece agora que a Europa errou "ao reclamar um ajuste demasiado rápido" a Atenas.

O premiê italiano afirma ainda que "introduzir a concorrência, a luta contra a evasão fiscal e a corrupção e reduzir o deficit público em dois ou três anos (...) significa uma mudança cultural e política extremamente profunda, (que) necessita de uma geração".

Puro sentido comum que, no entanto, faltou aos líderes europeus, que impuseram essa "humilhação demencial" à Grécia. Pior: como é próprio de um país colonizado, os gregos são agora convidados a decidir, na nova eleição convocada para dia 17, entre o suicídio assistido (pelos europeus), que seria prosseguir com o programa de ajuste, e o mergulho no vazio que seria deixar o euro.

Lapavitsas acha que os gregos preferirão a segunda alternativa, o que implica um segundo e definitivo calote na dívida, que se tornará impossível de pagar se o país tiver que deixar o euro. "Não há simplesmente outro caminho para tornar a dívida administrável no futuro previsível", escreve.

Azar dos gregos apenas? Não. Charles Dallara, o diretor-geral do Instituto da Finança Internacional, que congrega a grande banca global, alerta que a saída da Grécia do euro "desestabilizará a economia mundial".

Reforça Ewald Nowotny, presidente do Banco Central da Áustria e, como tal, membro do Conselho Diretor do Banco Central Europeu: "A saída da Grécia do euro criará maciças distorções, de tal forma que não se sabe que consequências poderia ter".

Essas sombras fazem a diferença entre as velhas colônias europeias em continentes distantes e a neocolônia plantada à beira do Mediterrâneo: as dores daquelas não eram sentidas na Europa. As dores desta, sim, afetarão todos os países do continente e até as antigas colônias como o Brasil, cuja economia já se ressente da instabilidade europeia.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

O euro, ou vai ou racha:: Celso Ming

As urgências da área do euro estão crescendo de maneira assustadora. Não se trata apenas de providenciar socorro para economias incapacitadas de honrar seus compromissos externos ou bancários - casos da Grécia, de Portugal e da Irlanda.

Trata-se, agora, também de impedir séria deterioração das finanças de países bem maiores - como Espanha e, eventualmente, Itália. E, assim, de evitar quebradeira sistêmica dos bancos na Europa, caso algum país seja obrigado a deixar o bloco, como parece provável acontecer com a Grécia.

A saída do euro exigiria troca de moedas. Fiquemos com o caso da Grécia. Como nenhum cliente de banco grego quer dormir com aplicações em euros e acordar com aplicações em dracmas, a corrida aos saques já começou e se intensificará quando a troca de moedas for iminente - se, antes disso, o governo já não tiver decretado feriado bancário.

Esse movimento não se limitará à Grécia. O avanço aos ativos dos bancos já começou em outros países, sobretudo na Espanha. O Bankia, tido há alguns meses como saudável, já precisou de injeção de 10 bilhões de euros. Outras instituições financeiras espanholas precisam de pelo menos 60 bilhões de euros para enfrentar o desassossego dos clientes.

É claro que um ajuste a ser feito com mais crescimento econômico fica mais fácil. Isso é como o trânsito. É bem melhor passar de uma faixa da pista para outra se o trânsito está andando normalmente. Mas tente fazer a mesma coisa quando tudo está emperrado.

Mais crescimento econômico apenas ajudaria a arrumação, quando ela começar. Para que o euro ganhe consistência, é preciso mudar muita coisa.

Não basta existir um banco central forte e independente mais um conjunto de tratados feitos com promessas, até agora não cumpridas, de equilíbrios orçamentários. É necessário arrumar um fundo de socorro (hoje pequeno demais para as necessidades) para ser usado em caso de incapacidade de um país pagar seus compromissos. E é preciso o que até agora não foi possível: montar um sistema federativo na área do euro com um Tesouro comum, bancos em escala regional (e não mais nacional) e uma autoridade central com poder para arrecadar e distribuir recursos. Até agora, todas as tentativas nessa direção foram sumariamente barradas por alguns Parlamentos.

A única proposta que prevê algum grau de federalização é a da criação do eurobônus, que, de algum modo, criaria um sistema de compartilhamento financeiro. Mas, como se sabe, os vetos sumários de Alemanha, Suécia, Áustria e Finlândia o tornam impossível - ao menos por enquanto.

A novidade é que a zona do euro se aproxima de uma situação de ou vai ou racha. Quando de sua criação, os pais do euro, principalmente o então chanceler da Alemanha, Helmut Kohl, e o presidente da França à época, François Mitterrand, foram avisados de que, sem consistência no núcleo da moeda, mais cedo ou mais tarde viria a crise. Mas eles optaram por ir em frente assim mesmo, no pressuposto de que um dia se criariam as condições políticas para a montagem da unidade fiscal e política dentro do bloco. Esse momento chegou. É pegar ou largar.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

"A Decadência do Ocidente":: Vinicius Torres Freire

No curto século 21, China e ruína causada pela finança mudam relações de poder velhas de mais de 200 anos

A gente hoje dá de barato o poder e a força econômica da China, como se a importância chinesa fosse tão evidente e antiga quanto uma pirâmide egípcia. Mas o elefante chinês entrou na sala faz pouco tempo.

Foi mais ou menos na época em que parecia triunfante o que a esquerda chama de "neoliberalismo".

Foi na mesma época em que os Estados Unidos espalhavam exércitos pela Ásia. Quando americanos e europeus espezinhavam os "emergentes" a dizer que, sem abertura comercial e "reformas" (as deles), iríamos à breca. Isso ainda após o fracasso das reuniões da OMC de Seattle (1999) e Gênova (2001) e da derrota midiática que a rua impôs à ideia de liberalização comercial.

Era então a época em que a maioria dos economistas-padrão se congratulava pela sua ciência, que fora capaz de produzir o que seria chamado de "grande moderação" (flutuação econômica menos violenta, menos inflação, mais crescimento).

A moderação era uma bolha e em parte uma fraude; a inflação baixa e os fundos para a bolha da "estabilidade" vinham da China.

No ano 2000, a economia da China equivalia à da Itália; era algo menor que a da França (com o PIB medido em dólares correntes, na taxa de câmbio nossa de cada dia).

Se considerado o poder de compra relativo de cada moeda, a China já era então o dobro da França ou da Itália. Mas então a gente não se dava conta do tamanho chinês.

Muitos sábios diziam que o milagre chinês era bolha, "insustentável", que o país nem teria tempo de posar de novo Japão, que continua rico, mas estagnou e abdicou de suas aspirações de predominância mundial lá no início dos anos 1990.

Índia e China equivaliam a 10,8% da economia mundial em 2000. Os europeus do G7 (Alemanha, França, Reino Unido e Itália), a 15,5% (à medida que leva em conta o poder de compra relativo das moedas, em dólares "PPP").

Índia e China deverão terminar este ano com 20,8% do PIB mundial, ante 11,6% dos europeus. O trio Brasil, China e Índia supera o duo anglo-saxão, EUA e Reino Unido.

De 2000 a 2012, a economia chinesa terá crescido uns 247%. A indiana, 147%. A brasileira, meros 57%, mas à frente dos 26% dos EUA, dos 18% de França e Alemanha. Dos 11% do Japão, dos 6% da Itália.

Os EUA estancaram o terrorismo, mas não puseram ordem no Iraque. Os exércitos ocidentais dão o fora do Afeganistão por estafa, inépcia, fracasso e falta de dinheiro. Mesmo para derrubar ditaduras no norte da África quase faltou poder de fogo às forças aéreas da Europa.

A finança ainda manda no mundo, mas o mercadismo desmoralizou-se como ideologia.

Morreu a Alca, a área de livre comércio das Américas. Note-se que, ainda em 2002, os americanos diziam ao Brasil que, sem Alca, teríamos vinit@uol.com.br comerciar com a Antártida.

Desde 2000, porém, o comércio entre Brasil e China cresceu 33 vezes (para US$ 77 bilhões) e superou os negócios entre Brasil e EUA (US$ 59,7 bilhões, dados de 2011).

Sim, nós aqui queremos consumir tanto quanto e como os americanos. Sim, é melhor ser infeliz em Paris. Sim, a ditadura chinesa é repulsiva.

Não se trata disso aqui. Mas de dizer que a China virou o mundo do avesso em uma década -a China era o bug do milênio, do ano 2000. Ou enfim eles vão quebrar?

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

As bienais e as vanguardas:: Ferreira Gullar

A Bienal de Veneza, fundada em 1895, foi talvez o primeiro sinal da tendência à internacionalização das manifestações artísticas que surgiam e se multiplicariam nas décadas seguintes. Nela, pela primeira vez, as tendências estéticas inovadoras de diferentes países europeus podiam ser apreciadas por um público também internacional.

Assim, a Bienal de Veneza se tornaria a vitrine da arte de vanguarda, característica do século 20. É desnecessário dizer que os fundadores da Bienal não podiam prever o futuro que a esperava mas, se a criaram, foi porque os tradicionais salões nacionais de arte tornaram-se incapazes de atender à inevitável internacionalização dos movimentos artísticos que eclodiam nas cidades de Paris, Berlim, Zurique, Milão e Moscou.

Mas o papel desempenhado pela Bienal não se limitou a difundir a produção artística internacional, uma vez que esse encontro das diferentes manifestações nacionais estimulou a troca de influências, ao mesmo tempo que a difusão e intensificação do experimentalismo estético. Desse modo, a Bienal de Veneza passou a desempenhar um papel dinamizador das inovações artísticas e de sua progressiva internacionalização.

É verdade que duas guerras mundiais -a de 1914 a 1918 e a de 1939 a 1945- provocaram interrupções nesse processo, dificultando ou mesmo inviabilizando o intercâmbio entre artistas e países.

A mais grave dessas interrupções foi provocada pela Segunda Guerra Mundial, de que resultou o exílio de artistas e até mesmo a cessação de vida artística em importantes centros culturais da Europa.

É verdade, porém, que a radicação de alguns artistas importantes em países onde a guerra não chegara resultou em outro modo de difusão das tendências artísticas que representavam. Com o fim do conflito, reatou-se o intercâmbio artístico e a Bienal de Veneza retomou suas atividades.

Foi então que Ciccillo Matarazzo Sobrinho fundou, em 1951, a Bienal de São Paulo, destinada a influir decisivamente no processo artístico brasileiro.

Por surgir quando surgiu e onde surgiu, esta Bienal não desempenhou inicialmente o mesmo papel que a de Veneza, mas se aproximou dela em função mesmo do que viria a ocorrer no âmbito internacional.

A primeira e principal consequência de sua criação foi contribuir decisivamente para o surgimento, no Brasil, da arte concreta, cuja figura principal era o suíço Max Bill, ganhador do prêmio da 1ª Bienal com sua escultura "Unidade Tripartida".

O concretismo significou a ruptura com a tradição modernista brasileira, surgida no ano de 1922, e possibilitou o nascimento da arte neoconcreta, considerada hoje uma contribuição original brasileira à arte contemporânea.

Mas os anos se passaram e as vanguardas, seguindo os "ready-mades" de Duchamp, abandonaram as linguagens artísticas, fundadas no domínio técnico, para entregar-se ao improviso das sacações ditas conceituais.

Disso resultaram as instalações e os "happenings" que não buscam permanência, mas apenas o impacto eventual e momentâneo.

Por outro lado, como não se apoia numa linguagem, a arte conceitual se vale de todo e qualquer objeto (ou coisa, ou gente, ou bicho) para se expressar. Isso vai desde expor casais despidos num museu até engaiolar urubus para exibi-los numa bienal.

Resulta que tais sacações só ganham caráter de arte se realizadas numa galeria de arte, num museu ou numa bienal. Ou seja, essa é uma vanguarda que precisa das instituições para se afirmar.

Por essa razão, as bienais, dado o caráter de mostras eventuais, tornaram-se o lugar mais do que qualquer outro propício à arte conceitual, pois a obra dura o tempo que dura o evento e termina com ele.

Com raras exceções, por não se apoiar numa linguagem, mas numa "boa ideia", a arte conceitual -depois de se valer de casais despidos e de urubus engaiolados- vê esgotar-se seu repertório.

Essas bravatas já não escandalizam ninguém. O urinol de Marcel Duchamp completa um século em 2017. Como uma se apoia na outra, é possível supor que não vão durar muito tempo.

FONTE: ILUSTRADA / FOLHA DE S. PAULO

Primeira vez que entendi:: Affonso Romano de Sant'Anna

A primeira vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na infância
cortei o rabo de uma lagartixa
e ele continuou se mexendo.

De lá pra cá
fui percebendo que as coisas permanecem
vivas e tortas
que o amor não acaba assim
que é difícil extirpar o mal pela raiz.

A segunda vez que entendi do mundo
alguma coisa
foi quando na adolescência me arrancaram
do lado esquerdo três certezas
e eu tive que seguir em frente.

De lá pra cá
aprendi a achar no escuro o rumo
e sou capaz de decifrar mensagens
seja nas nuvens
ou no grafite de qualquer muro.

sábado, 26 de maio de 2012

OPINIÃO DO DIA – Fernando Gabeira: luzes e trevas

Foi tanta a proteção a Cabral que ele passou dos limites. Uma tragédia na Bahia e as imagens de Paris começam a corromper o aço que o protege. Acontece que a CPI do "ai se eu te pego" se tornou a CPI do "vamos recuar os zagueiros". Entraram na retranca. Não convocaram governadores, fogem da Delta como o diabo da cruz.

Cabral está marcado por perguntas não respondidas e vai conviver com elas por muito tempo. E a CPI, de tanto evitar o tema Delta, acaba se enrolando nele. No início era apenas Cachoeira. Depois a Delta, mas só a do Centro-Oeste. Com as evidências de que o dinheiro clandestino tinha origem e autorização na matriz da empresa no Rio, só gente muito sem-vergonha tem coragem de restringir as investigações. E essa gente sem-vergonha é maioria esmagadora.

O único consolo que destinam a si próprios e a Cabral é o fato de que tudo repercutiu na classe média, não chegou aos mais pobres. A desinformação é a esperança do PT de Cabral e de Cabral do PT. No passado, a esquerda ao menos se dizia aliada das luzes. Hoje, no Brasil, sonha com as trevas, bons advogados, marqueteiros que fazem do limão uma limonada e legiões de robôs para insultar os adversários. Coisa Nossa.

GABEIRA, Fernando, jornalista. Coisa Nossa, O Estado de S. Paulo, 25/5/2012

Manchetes de alguns dos principais jornais do Brasil

O GLOBO
Dilma enfrenta ONGs e ruralistas com 12 vetos
Novo Código Penal deverá incluir crimes ambientais
PT arrecadou R$ 44 milhões de empresas
Esquema de laranjas da Delta funcionou em SP
TCU: apenas uma a cada cinco obras do PAC ficou pronta na gestão de Lula

FOLHA DE S. PAULO
Ruralistas e verdes atacam vetos ao Código Florestal
País tem ruas iluminadas, mas falta saneamento
Dilma deve fechar o Galeão para os chefes da Rio+20
Inadimplência do consumidor sobe em abril, diz BC
Europa denuncia Argentina à OMC por protecionismo

O ESTADO DE S. PAULO
Dilma muda Código por MP e veta anistia a desmatador
Governo pode afrouxar contas para ajudar economia
Governistas na CPI vão convocar Marconi Perillo

CORREIO BRAZILIENSE
Rio+20 pauta os vetos do Planalto ao projeto
Avaliações sob suspeita na cultura

ESTADO DE MINAS
Mordomia com os dias contados na Assembleia
Código muda sem agradar
Inadimplência é recorde

ZERO HORA (RS)
Veto irrita grandes e agrada a pequenos

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Usar cheque especial pesa menos no bolso
Dilma veta parte do Código Florestal
Petistas recomeçam campanha da prévia longe de um acordo

O que pensa a mídia - editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Novos e velhos ativistas :: Marco Aurélio Nogueira

Quanto mais se observa o mundo, a América Latina e o Brasil, mais se percebe que a nossa é uma época com pouca "cabeça" política, pouca direção. As mudanças em curso abalam a vida cotidiana, as relações sociais e o Estado, mas não têm um autor que se possa reconhecer. Apesar de haver uma revolução em marcha, nenhuma revolução propriamente política ocorre. A revolução é passiva.

Impulsionadas por essa dinâmica, as sociedades fragmentam-se, individualizam-se e perdem instituições. Tornam-se cada vez mais parecidas entre si, mas dentro delas a diferença se reproduz incessantemente. Sem centros claros de coordenação, as partes (grupos, indivíduos, regiões) afastam-se umas das outras e seguem lógicas próprias - ainda que, paradoxalmente, tudo fique mais conectado. Uma multidão de novos sujeitos gera novos conflitos e contradições, embora não consiga interferir de fato no jogo político e redirecioná-lo em termos emancipadores. A hiperatividade da sociedade civil ocorre mais em função da necessidade de autoexpressão que da disposição para organizar consensos. O risco de fragmentação corporativista da representação política aumenta, com efeitos deletérios sobre o processo político: partidos e governos se tornam mais "dependentes" dos interesses que vicejam em seu interior, perdem potência como representantes e ficam menos ágeis para tomar decisões.

Com isso, cai a confiança das pessoas nas instituições políticas. Os próprios políticos se enredam sempre mais nos meios específicos da política, sejam eles a disputa eleitoral ou a distribuição de verbas e favores. A relação com os negócios agiganta-se. Cresce o risco de corrupção, diminui a densidade ética da política. Todos se tornam mais preocupados em gerir recursos de poder e maximizar interesses eleitorais, deixando de agir para organizar novos consensos e consentimentos. Desajustada pelos novos termos da vida social, a política passa a produzir mais problemas que soluções. Deixa de ser o principal fator de composição social e estabelecimento de equilíbrios e consensos. Sociedades, indivíduos, grupos, nações e Estados se tornam partes soltas de um conjunto sem muita articulação sistêmica.

Mantém-se ativa, no entanto, uma expectativa social de "proteção" e operosidade estatal, sobretudo de setores marginalizados e de uma classe média que - em parte expandida pela incorporação de contingentes populacionais beneficiados por programas governamentais e em parte empobrecida pelo desemprego e por políticas de ajuste - afirma seus direitos perante o Estado. Trata-se de uma expectativa que se liga à exigência de que os governantes "decidam e façam" (o que incentiva tendências populistas e de hipertrofia do Executivo), mas se combina com uma crescente dificuldade para que se aceitem "ordens" que não nasçam de alguma modalidade de consulta ou interação. Pouco importa que os mecanismos deliberativos adotados produzam resultados precários, desde que eles sirvam para que se manifestem indignação, carências, desejos e opiniões.

Aumenta assim a disposição social para instituir uma nova "zona de ação política", menos institucional e mais individualizada, de movimentação contínua, de pressões antissistêmicas erráticas, que se tornam viáveis pelas maiores facilidades de comunicação e contato. Desponta uma nova politicidade, cujos teor e formato institucional ainda estão por ser estabelecidos.

Novas modalidades de engajamento seduzem antes de tudo os jovens, mas não se resumem a eles, pois tendem a crescer como uma espécie de paradigma da ação política. Sua característica essencial é o questionamento do ativismo tradicional, sustentado por organizações hierarquizadas, classes sociais e causas gerais. O novo ativista luta por direitos e reconhecimento, não por poder. Não sacrifica a vida pessoal em nome de uma causa coletiva ou da glória de uma organização. Não se referencia por líderes ou ideologias. Age festivamente e sem rotinas fixas, valendo-se muitas vezes da sátira e do deboche. É multifocal, abraça várias causas simultaneamente. Sua mobilização é intermitente. Muitos atuam de maneira pragmática, profissionalizam-se como voluntários, buscam resultados mais do que confrontação sistêmica. Seu ambiente são as redes sociais, sua maior ferramenta é a conectividade.

Não há, porém, muralhas intransponíveis separando velhas e novas formas de ativismo, que se cruzam e se podem combinar de diferentes maneiras, beneficiando-se reciprocamente. Se suas agendas contêm distintas ênfases e questões, também estão repletas de temas que somente podem ser enfrentados com sucesso se se interpenetrarem e forem articulados numa plataforma de síntese política.

O novo ativismo pode ser uma importante alavanca de construção do futuro. Será isso, no entanto, na medida em que considerar o conjunto da experiência social e convergir para a reforma democrática da sociedade, do Estado e da política. Se tentar evoluir solitariamente, fechado em suas causas específicas e na busca de autoexpressão, só produzirá ruído e efervescência, perdendo em termos de efetividade.

A necessidade dessa articulação está posta pela vida. Afinal, o social que se fragmenta não desaparece como social. A dimensão coletiva da existência não se dissolve só porque a individualização se expande. Ainda continua a ser fundamental combinar ações e promover convergências. Além disso, os conflitos de classe permanecem, mesmo que as classes não estejam podendo ser atores políticos no sentido próprio do termo. As estruturas de poder, ainda que possam ter enfraquecido alguns de seus fluxos, preservam sua capacidade de emitir ordens, pressionar e coagir.

Marco Aurélio Nogueira, professor titular de Teoria Política e diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

PT arrecadou R$ 44 milhões de empresas

Num 2011 sem eleições, o PT conseguiu arrecadar R$ 50,7 milhões em doações — 20 vezes o que PMDB e PSDB, por exemplo, obtiveram no mesmo período. As contribuições de filiados somaram pouco mais de R$ 7 milhões. A maior parte do dinheiro (R$ 43,7 milhões) saiu de grandes empresas, muitas com contratos com o governo, como Andrade Gutierrez, que doou R$ 4,65 milhões; Braskem, que colaborou com R$ 4 milhões; e grupo JBS, que planeja comprar a Delta e contribuiu com R$ 2,85 milhões. Com isso, o partido fechou as contas ainda no vermelho, mas reduziu seu déficit. Em março deste ano, o PT pagou empréstimo de R$ 8,3 milhões ao Banco Rural, investigado no mensalão. A direção do partido disse que as doações são legais

PT teve R$ 50 milhões em doações em 2011

Partido arrecadou 20 vezes mais que PMDB e PSDB; dinheiro vem de grandes empresas com negócios com governo federal

Paulo Celso Pereira

BRASÍLIA e SÃO PAULO. Outrora defensor das campanhas de arrecadação de fundos entre filiados, o PT mudou. Para tentar acabar com o déficit de R$ 44,5 milhões que registrou no final de 2010, a legenda partiu para uma ofensiva no ano passado sobre grandes empresas, a maior parte dela com negócios milionários com o governo federal. Assim, conseguiu em 2011, um ano sem eleições, R$ 50,7 milhões em doações, fechando as contas ainda no vermelho, mas com a dívida bastante reduzida: R$ 6,4 milhões. O que o PT arrecadou ano passado corresponde a aproximadamente 20 vezes o que o PMDB e o PSDB, cada um, no mesmo período. De contribuição de seus filiados, o PT contabilizou pouco mais de R$ 7 milhões.

A forte arrecadação do ano passado permitiu que o partido reduzisse pesadamente o déficit que cultivava há anos. Desde 2004, o PT vinha fechando as contas com déficits superiores a R$ 25 milhões. À exceção de 2010 (R$ 44 milhões), a dívida atingiu seu maior valor, R$ 33,1 milhões, em 2006, um ano depois do escândalo do mensalão.

A oposição acredita que parte da arrecadação acabou sendo usada para a quitação da dívida do mensalão. O pagamento dos empréstimos contraídos no Banco Rural foi comunicado ao Supremo Tribunal Federal em março deste ano pela defesa do ex-presidente do PT José Genoino - a dívida paga, segundo o comunicado do partido, foi de R$ 8,3 milhões.

- Isso é uma afronta à pobreza nacional, um prenúncio de imoralidade, pois não há como não estabelecer uma relação de promiscuidade nessa generosidade - afirmou o líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR), que levantou suspeita sobre o anúncio do pagamento da dívida do Banco Rural. - Fizeram isso quando o procurador-geral afirma que os empréstimos foram operações contábeis fictícias para acobertar o desvio de dinheiro público. Na véspera do julgamento do mensalão, o PT vale-se de doações generosas a pretexto de saldar uma dívida que, segundo a PGR, não existiu. Fica a hipótese de lavagem de dinheiro.

O que mais chama atenção na prestação de contas apresentada pelo PT é o perfil dos doadores. Eles se dividem em empresas que atuam essencialmente em quatro áreas: construção civil, setor financeiro, energia e frigoríficos. Todos receberam atenção especial do governo federal nos últimos anos.
Líder em doações ao PT ano passado, a construtora Andrade Gutierrez fez cinco repasses, totalizando R$ 4,65 milhões. No mesmo período, a construtora foi a terceira que mais recebeu recursos do governo federal, um total de R$ 393,2 milhões.

Segunda colocada da lista de doações, com R$ 4 milhões destinados ao partido, a Braskem é uma sociedade da construtora Odebrecht com a Petrobras. Apesar de pouco conhecido, o grupo Inepar/Iesa, com doações de R$ 3,5 milhões ao PT, atua em várias áreas de interesse do governo federal, produzindo equipamentos para as hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, e na manutenção e na modernização das plataformas P-38, P-40 e P-51 e construção da P-53.

JBS é quinto maior doador do partido

Também se destaca a doação feita pelo banco Bradesco. De acordo com a prestação de contas do PT, a doação de R$ 3 milhões foi feita no dia 25 de abril, 35 dias antes do leilão do Banco Postal, que era a menina dos olhos do Bradesco no governo federal. Desde 2001, a rede que oferece serviços bancários nas agências dos Correios em todo o país era gerida pelo Bradesco, mas em maio do ano passado ele acabou perdendo-a para o Banco do Brasil.

O frigorífico JBS figura como quinto maior doador do partido, com R$ 2,85 milhões. Nos últimos anos, o BNDES destinou ao grupo do frigorífico um suporte de R$ 13,3 bilhões e hoje o banco estatal é dono de cerca de 30% do capital do JBS. Há três semanas, a holding que controla o frigorífico anunciou que comprará a Delta Construções, maior detentora de contratos no PAC e um dos alvos da CPI do caso Cachoeira.

Na lista, há também empresas como a Agropecuária Santa Bárbara Xinguara, que é ligada ao banqueiro Daniel Dantas, e doou R$ 1 milhão de reais para o partido. Nos primeiros anos do governo Lula, Dantas travou uma guerra aberta com os fundos de pensão controlados pelo PT.

Por meio de sua assessoria de imprensa, o presidente do PT, Rui Falcão, informou que "as doações feitas ao partido são todas legais e foram devidamente registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE)". Ele não foi localizado para dar entrevista sobre o assunto.

A assessoria do partido informou ainda que o secretário de Finanças e Planejamento do PT, João Vaccari Neto, responderia a perguntas por e-mail. O GLOBO enviou questionário perguntando o que o partido fez no ano passado para conseguir reduzir o seu déficit financeiro histórico. Perguntou também se o partido considerava algum conflito ético em quitar suas dívidas com recursos de empresas diretamente interessadas em negócios do governo. Até as 20h de ontem, não havia recebido resposta. (Colaborou Thiago Herdy )

FONTE: O GLOBO

Esquema de laranjas da Delta funcionou em SP

Morador da periferia de São Paulo, o desempregado Eufranio Ferreira Alves, de 65 anos, é mais um na rede de laranjas do esquema da Delta Construções e do contraventor Carlinhos Cachoeira. Ele aparece como sócio da RCI Software e Hardware, empresa que sacou R$ 196 mil da Pantoja, abastecida com dinheiro da empreiteira

Laranjal da Delta tem ramificações em SP

Empresa que recebeu R$ 196 mil de esquema da Delta tem como sócio desempregado morador da capital paulista

Maiá Menezes, Sérgio Roxo

RIO e SÃO PAULO. Além do Rio e Goiás, a rede de laranjas que recebia dinheiro da Delta, por meio do esquema do bicheiro Carlinhos Cachoeira, também tem ramificações em São Paulo. A empresa RCI Software e Hardware Ltda, que se favoreceu de um saque de R$ 196 mil, segundo investigação da Operação Monte Carlo da Polícia Federal, tem como sócio um desempregado que mora em uma casa simples da periferia da Zona Norte da capital paulista. Outras duas empresas da cidade aparecem como beneficiárias e o valor total dos saques chega a R$ 586 mil.

Eufranio Ferreira Alves, de 65 anos, ficou surpreso ao ser informado que a RCI tinha ligação com o esquema de Cachoeira.

- Eu não vi um centavo desse dinheiro. Estou passando por dificuldades.

A investigação da Operação Monte Carlo mostra que a RCI sacou R$ 196 mil da Alberto & Pantoja Construções e Transportes, capitalizada, segundo a Polícia Federal, com 99,9% de recursos da Delta Construções.

Eufranio afirma não ter um emprego fixo desde 1995. Conta que vive de alguns bicos na área de contabilidade. De acordo com registro na Junta Comercial de São Paulo, ele é responsável por R$ 940.500 dos R$ 950 mil do capital social da empresa. Ele entrou na sociedade em março do ano passado.

- Entrei para atender ao pedido de um amigo. Ele disse que o sócio estava saindo da sociedade e aceitei entrar para ajudar. O combinado era ficar só por três meses.

O amigo se chama Waldomiro Oliveira. Eufranio informou o telefone do amigo, mas as ligações para o número não completam.

Perguntado se acabou virando laranja no episódio, o desempregado respondeu:

- Com certeza.

Pelo registro na Junta Comercial, a RCI deveria funcionar em uma sala comercial na região da Avenida Paulista. Mas no endereço, há apenas um escritório de advocacia e uma associação que representa passageiros de companhias aéreas. Uma funcionária diz que sempre chegam cartas para a RCI, que são devolvidas para o correio.

FONTE: O GLOBO

Governo promove apuração 'seletiva', diz Aécio

Paulo Peixoto

BELO HORIZONTE - O senador Aécio Neves (PSDB-MG) afirmou ontem que o governo federal promove "investigação seletiva" na CPI do Cachoeira, para evitar desgastes ao Planalto.

"Não estamos vendo, por parte daqueles que comandam a CPI, a disposição de fazer uma investigação ampla. Me parece quererem fazer uma investigação seletiva. Contra isso nós vamos reagir", afirmou o ex-governador de Minas.

Aécio, que participou de encontro do PSDB com vereadores e prefeitos em Belo Horizonte, afirmou que cabe à oposição evitar que a investigação "seja um instrumento apenas da guerrilha política de base ou de governo."

Repetindo a linha de defesa da cúpula do PSDB, o senador mineiro disse que o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), suspeito de envolvimento com Cachoeira, foi o "único" a manifestar disposição de depor na CPI.

"No que depender de nós, todos os governadores, as empresas privadas, em especial a Delta, todas as relações do contraventor Cachoeira com o setor privado e com o setor público, em todos os níveis, municipal, estadual e federal, deverão ser investigados", disse.

O evento com prefeitos e vereadores do PSDB serviu como palco para Aécio se colocar como pré-candidato do partido à Presidência em 2014. Em discurso, ele disse que "chegou a hora de Minas transformar o Brasil", pediu apoio dos militantes em Minas, que responderam com o coro de "Aécio presidente".

"Além da eleição de cada um dos prefeitos e vereadores do PSDB, está em jogo o início de uma grande e bela caminhada por esse Brasil inteiro, para que nós possamos vencer as eleições municipais empunhando a bandeira da ética e dizer: chegou a hora de Minas, de verdade. De Minas transformar o Brasil."

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

TCU: apenas uma a cada cinco obras do PAC ficou pronta na gestão de Lula

PAC só no papel

TCU diz que só uma de cada cinco obras da 1 fase do programa, durante gestão Lula, ficou pronta

Danilo Fariello

BRASÍLIA - O Tribunal de Contas da União (TCU) revelou que só uma a cada cinco obras da primeira versão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ficou pronta até o fim do governo Luiz Inácio Lula da Silva. O programa, que vigorou de 2007 a 2010, terminou aquele ano com 13.653 ações, das quais 2.947 foram concluídas, em valor equivalente a R$ 192 bilhões ou 13,73% do valor final do PAC 1.

Na virada de 2010 para 2011, em meio à campanha e posse da presidente Dilma Rousseff, o governo descumpriu a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e uma determinação do TCU ao não divulgar o balanço final do PAC 1. Em 2011, o primeiro balanço de Dilma já foi apresentado como do PAC 2, carregando obras do PAC 1. Segundo relatório dos técnicos do TCU, a decisão unilateral do governo provocou o descumprimento de acórdão do tribunal, que determinava a apresentação das informações a cada quatro meses.

Pela LDO de 2010, o balanço do PAC deveria ser apresentado "em no máximo 40 dias após cada quadrimestre". Em resposta ao questionamento do TCU, o Ministério do Planejamento (que assumiu o PAC, antes gerido pela Casa Civil, no governo Dilma) reconheceu ter descumprido a lei, mas alegou que isso deveu-se à "natureza excepcional do presente exercício (2011), que representa o primeiro ano de uma nova gestão, ocasião em que são redefinidas diretrizes e prioridades". Segundo nota do ministério, "o objetivo foi não ferir a legislação eleitoral". Antes mesmo da campanha de 2010, Dilma fora batizada por Lula como "a mãe do PAC".

Segundo o relatório do TCU aprovado na quarta-feira, dos 13.653 projetos incluídos no PAC - sem considerar o financiamento habitacional - foram concluídos até o fim do governo Lula 2.947 empreendimentos. O volume total desses projetos em valor, segundo o TCU, foi de apenas R$ 192 bilhões.

O Planejamento ressalta que o TCU não incluiu entre os empreendimentos concluídos R$ 215,4 bilhões de financiamento habitacional (SBPE) contemplados no PAC. O balanço do programa apresentado em dezembro de 2010 previa que, até o fim daquele ano, seriam R$ 444 bilhões em obras concluídas. Estava previsto inicialmente, para o período de 2007 a 2010, o valor total de R$ 541,8 bilhões.

De R$ 414 bi, valor subiu para R$ 1,4 tri

O TCU destacou que a ampliação do volume total das obras - que saltou de R$ 414,5 bilhões em 2007 para R$ 1,4 trilhão em 2010 - e o adiamento das datas de conclusão para as obras dificultaram uma avaliação mais precisa sobre o resultado do PAC 1. "Por serem bases distintas, restou prejudicada a realização de cotejo entre o quanto foi executado até o final de 2010 com o previsto no início de 2007", disse o relator, ministro Aroldo Cedraz, em seu voto. "Conforme se verifica atrasos nas datas dos projetos, essas vão sendo alteradas, trazendo uma inadequada percepção dos empreendimentos que estão com atraso."

O TCU apontou, com base em dados enviados pela Casa Civil, que dos 13.653 projetos, 2.962 foram considerados concluídos (quantia que inclui as obras em operação), perfazendo 21,69% do número de empreendimentos ou 16,14% do valor previsto, o que totaliza R$ 226,8 bilhões.

O texto ressalva que no PAC 1 já eram previstas obras de grande valor, como o trem de alta velocidade e as hidrelétricas do Rio Madeira, com data de conclusão sempre posterior a 2010.

O relatório dos técnicos do TCU destacou atrasos e readequação de prazos de obras por todo o Brasil ao fim de 2010. Entre elas, obras relativas à recuperação e revitalização da infraestrutura do sistema de pistas e pátio do Aeroporto Tom Jobim/Galeão. O primeiro balanço do PAC trazia como data de conclusão julho de 2009, depois alterada para setembro de 2011. O prazo atual para a obra, segundo o último balanço do PAC 2, é outubro de 2013.

Cedraz anotou, ainda, em seu voto, como "bastante atrasada" a execução de obras de saneamento e de habitação de interesse social. "Ao final de 2010, apenas 15,77% das obras de saneamento, equivalentes a 3,35% do valor total previsto, haviam sido concluídas. (...) No setor de habitação social, a situação é pior, pois foram concluídos apenas 300 projetos, cerca de 8,08% do número previsto, equivalentes a 0,74% do montante cujo investimento se desejava realizar."

O relatório do TCU apontou que, disparado, o Estado do Rio foi o maior beneficiado pelos investimentos do PAC 1 - puxados principalmente pelo pré-sal. O Rio recebeu projetos equivalentes a R$ 362 bilhões de 2007 a 2010, do valor total de R$ 1,4 trilhão.

FONTE: O GLOBO

Escândalo Delta ganha alcance nacional – Editorial:: O Globo

Por ter a característica inédita de os fatos estarem todos supostamente investigados, a CPI do Cachoeira começa a ser superada pela dinâmica da divulgação de novidades para o grande público. A peculiaridade se agrava porque grupos de deputados e senadores se dedicam mais a executar missões partidárias de varejo do que a perseguir o que seria a missão óbvia numa CPI: a verdade, esquadrinhar os responsáveis pelos delitos, para depois encaminhá-los ao Ministério Público; e, por fim, sugerir mudanças de legislação, a fim de evitar a repetição das delinquências.

Nada disso. O jogo enfadonho de briga partidária, praticado com gestos teatrais quando a sessão é transmitida pela TV, ficou à vista de todos no confronto entre tucanos e o relator, o deputado petista mineiro Odair Cunha.

Na terça, oposicionistas destilaram veneno em perguntas a um Cachoeira mudo apenas para atingir aliados do governo. Era este mesmo o objetivo. O troco foi dado por Odair, na inquirição, quinta, do ex-vereador goiano Wladimir Garcez, preso como Cachoeira, e personagem da polêmica venda de uma casa pelo governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), ao contraventor.

Enquanto oposicionistas e situacionistas se digladiam, fatos vão sendo conhecidos e comprovam que a CPI atolou na briga político-partidária. Reportagem do GLOBO de ontem, por exemplo, revelou a existência no Rio de pelo menos duas empresas laranjas, parte de uma provável plantação de firmas fantasmas criadas por Cachoeira para receber dinheiro da Delta. Por óbvio, a direção da empreiteira - pelo menos Fernando Cavendish, o ex-dono, e Cláudio Abreu, diretor da construtora no Centro-Oeste - era conivente.

Zuk Assessoria Empresarial e Flexa Factoring, de que são sócios uma moradora de um conjunto em Piedade, subúrbio carioca, e um ajudante de caminhão de Leopoldina, interior mineiro, receberam repasses de outras duas firmas fajutas de Goiás, Brava e Alberto & Pantoja, para as quais a Delta transferiu pelo menos R$ 39 milhões. Por terem sido criadas por Cachoeira, as empresas levaram a Polícia Federal a suspeitar que o contraventor é sócio oculto da empreiteira.

Nem isso leva o BNDES a se preocupar com o fato de seu sócio no frigorífico JBS, a holding J&F - a quem também destinou muito dinheiro público -, querer comprar a Delta, nem parece aguçar a curiosidade de parlamentares do PMDB e do PT, donos das rédeas da CPI.

As firmas fantasmas de Goiás e, agora, as empresas laranjas cariocas tornam, em definitivo, o caso Cachoeira e Delta um escândalo nacional.

Mesmo assim, a CPI resiste a quebrar os sigilos da empreiteira, algo sem sentido, pois pelo menos o acesso às contas da empresa, em todo o país, já foi determinado pela Justiça de Brasília. Os políticos querem apenas ganhar tempo, em prejuízo do trabalho da CPI.

Não deveria preocupar o governo Dilma que a empreiteira tenha sido dona da maior fatia de obras do PAC. Se a ideia é mesmo sanear a contratação de obras públicas, abrir a caixa-preta da Delta será de enorme ajuda.

‘Chega de PT’, pede Aécio aos políticos mineiros

Marcelo Portela

BELO HORIZONTE - O senador tucano Aécio Neves (MG) reforçou ontem, em seu Estado natal, a postura de pré- candidato à Presidência da República em 2014 e endureceu o discurso contra o PT. Em meio a aplausos e gritos de apoio da claque em encontro do PSDB em Belo Horizonte, ele voltou a criticar a administração petista no governo federal. “Conto com cada um de vocês. Vamos vencer as eleições, nós do PSDB, ao lado dos nossos aliados em mais de 90% de Minas para dizer chega de PT, chega de falácia, chega de corrupção. É hora da ética e do trabalho.”

Em 2010, o mineiro foi preterido pelo partido, que optou pela candidatura presidencial do ex-governador paulista José Serra. Aécio repetiu que não sabe o que o destino reserva para ele, mas agradeceu o incentivo dos correligionários. “Vocês não sabem o que significa para mim cada olhar de confiança, cada abraço, cada estímulo”, afirmou. No discurso para prefeitos, vereadores e pré-candidatos, o tucano criticou o que considera “a mais perversa concentração de recursos nas mãos da União e desprezo absoluto para com os municípios” e pediu empenho para o pleito de outubro próximo, indicando que este é o primeiro passo para chegar ao Palácio do Planalto. “Além da eleição de cada um dos prefeitos e vereadores do PSDB, está em jogo, sim, o início de uma grande e bela caminhada por esse Brasil inteiro”, destacou. Disse ainda que Minas, Estado que administrou por oito anos e que agora tem no Executivo o tucano Antonio Anastasia, é “referência para o Brasil e mundo”.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Com 2 anos de atraso, João Cândido vai ao mar

Estaleiro recebe multa por não ter conseguido cumprir prazos

Letícia Lins

Sergio Machado, Eduardo Campos e Graça Foster dando a partida simbólica do navio

IPOJUCA, PE . Quase dois anos após o previsto, o navio João Cândido fez ontem sua primeira viagem deixando o Porto de Suape com destino à Bacia de Campos, onde recebe um carregamento de 1 milhão de barris de petróleo. O petroleiro, incluído como obra do PAC, foi o primeiro navio do Programa de Modernização e Expansão da Frota e transformou-se no símbolo da retomada da indústria naval do país.

Os sucessivos atrasos na entrega do navio e a desistência da coreana Samsung de continuar como sócia do Estaleiro Atlântico Sul (EAS), que construiu o João Cândido, evidenciaram que o setor está longe de uma recuperação plena. A cerimônia de lançamento contou com a presença do governador Eduardo Campos (PSB-PE) e da presidente da Petrobras, Graça Foster. Por conta do atraso de 20 meses, a Transpetro multou, na semana passada, o EAS, em valor não divulgado "por sigilo de cláusula contratual", disse a empresa.

Com 274,2m de comprimento, 48m de largura, 51,6m de altura e capacidade para 1 milhão de barris, João Cândido deixou Suape no fim da manhã, sob chuva de papel picado, girândola e acenos emocionados. Vindos em grande parte da Zona da Mata, região da agroindústria açucareira, muitos dos operários que ajudaram a construir o João Cândido estavam no primeiro emprego formal. O agora maior navio de bandeira brasileira em operação e primeiro petroleiro construído no Nordeste teve custo final de R$533 milhões.

- Fizemos uma opção pelo Brasil. Não somos diferentes de Coreia ou Japão, que passaram décadas para que a indústria naval ficasse sólida - destacou o presidente da Transpetro, Sérgio Machado.

Segundo Machado, hoje o país é o quarto do mundo em número de petroleiros.

FONTE: O GLOBO

Navio que não navega

O navio João Cândido vai ao mar hoje. Em outros tempos, o governo petista estaria fazendo a maior algazarra para marcar o "feito histórico". No entanto, depois de uma trajetória marcada por vexames, o petroleiro tornou-se símbolo de um fracasso do qual a presidente Dilma Rousseff agora quer distância.

Há dois anos, ela e Lula estiveram em Ipojuca (PE) para "inaugurar" o navio - na quarta ida do então presidente ao estaleiro. Na ocasião, não faltaram fanfarras, discursos ufanistas e júbilos, parte da extemporânea e ilegal campanha da então candidata - as imagens são reveladoras.

Naquele 7 de maio de 2010, o João Cândido tocava as águas pela primeira vez. Deveria começar a navegar oceanos quatro meses depois. Mas só agora, três anos e oito meses após o início de sua construção, o petroleiro está sendo entregue.

Não se sabe ao certo se o navio irá, de fato, singrar os mares: o portento que foi transformado pelo discurso do PT no "símbolo do renascimento da indústria naval" brasileira - como dizia uma das peças de campanha de Dilma em 2010 - mal consegue boiar.

O João Cândido é desconjuntado, defeituoso, torto. "O navio teve de ser retirado da água, sob o risco de afundar. Uma boa parte da embarcação também teve de ser desmontada, especialmente em função dos problemas de soldagem. Os problemas estruturais são tamanhos que chegou-se a considerar a hipótese de perda total da embarcação", publicou o Valor Econômico em março.

Imagine a situação: o João Cândido vai ao mar e, por infelicidade, ou justamente em consequência de toda a irresponsabilidade envolvida na sua construção, naufraga com sua carga de 1 milhão de barris de petróleo. Impossível calcular a dimensão de tamanho desastre, humano e ambiental, de vidas e de óleo ao mar.

Os problemas enfrentados pelo Estaleiro Atlântico Sul (EAS), onde o João Cândido foi construído, se devem, em parte, à sanha politiqueira do PT. Para caber no cronograma eleitoral, a construção do estaleiro e a montagem do navio tiveram de ser feitas concomitantemente, de forma atabalhoada. Foi o caminho mais curto para o desastre.

As condições de trabalho, que já seriam difíceis para quem jamais montara sequer uma lancha, tornaram-se sofríveis. Os empregados - o EAS chegou a contar com 11 mil e hoje tem metade disso - trabalhavam sob temperaturas desumanas, agravadas pelo sol inclemente e pelo calor emanado dos equipamentos de solda, o que aumentava o tempo gasto em algumas operações em até oito vezes.

Na base do improviso, o EAS naufragou num oceano de prejuízos. Em 2011, fechou seu balanço com R$ 1,47 bilhão no vermelho - as receitas não cobriram sequer gastos com mão de obra e materiais. Horrorizados, os sócios coreanos pularam fora, e agora o estaleiro busca no exterior parceiros que entendam do assunto - construir navios não é com a Camargo Correa, nem com a Queiroz Galvão, as construtoras remanescentes no negócio.

Este seria um problema privado, não fosse um detalhe: o estaleiro só existe graças às benesses do BNDES. O EAS tem 22 navios encomendados pela Transpetro para entrega até 2016. A carteira soma R$ 7 bilhões, dos quais 90% financiados pelo banco oficial. Apenas com os primeiros três petroleiros que constrói, a empresa perdeu dinheiro suficiente para fabricar um navio (R$ 333 milhões), conforme reconheceu no balanço de 2011. Sem condições de começar pagar o que deve, o EAS já pediu mais prazo para o BNDES.

O naufrágio do João Cândido é parte de uma malsucedida estratégia voltada a ressuscitar, na marra, a indústria naval brasileira, levada a cabo por Lula e mantida por Dilma. À base de uma política de reserva de mercado, que exige conteúdos nacionais mínimos, sai caríssimo produzir embarcações no país. A operação só para em pé com muito dinheiro público.

O João Cândido, por exemplo, deverá custar R$ 495 milhões, ou mais de 53% acima da previsão inicial, segundo mostrou o Jornal do Commercio. Prometido para até o fim deste ano, o segundo navio a ser fabricado pelo EAS, o Zumbi dos Palmares, vai sair 24% mais caro que o estimado, isto é, R$ 424 milhões.

Já outro produto do estaleiro, a P-55 encareceu 20% e custou R$ 1 bilhão. Trata-se de outro vexame. Entregue em dezembro passado, a plataforma ainda não funciona e terá de sofrer reparos no Rio Grande do Sul antes de finalmente começar a produzir. Com isso, a Petrobras, que a contratou, teve de postergar a extração de 180 mil barris diários de petróleo para o fim de 2013, deixando de faturar pelo menos US$ 15 milhões por dia.

Onde quer que se olhe, os resultados da política petista para o setor naval ainda são uma miragem. Dos oito novos estaleiros previstos, destinados a construir equipamentos necessários à exploração do pré-sal, somente três funcionam, ainda que precariamente, como é o caso do EAS. "A única certeza que se tem ao começar um projeto de construção é de que não vai acabar no prazo", disse um presidente de estaleiro a O Estado de S.Paulo, em março.

Em junho de 2010, Lula publicou no Zero Hora artigo intitulado "Indústria naval renasce das cinzas". Nele, afirmava: "A retomada da indústria naval é irreversível. (...) Os reflexos desta verdadeira explosão da indústria naval estão se espraiando por toda a economia e beneficiando, direta ou indiretamente, todos os brasileiros." Como o navegar impreciso do João Cândido atesta, é possível que, nunca antes na história deste país, o ex-presidente tenha se equivocado tanto.

Fonte: Instituto Teotônio Vilela. Carta de Formulação e Mobilização PolíticaSexta-feira, 25 de maio de 2012Nº 474

Rio+20 pauta os vetos do Planalto ao projeto

Após anunciar a nova versão para o Código Florestal, a presidente Dilma teve um momento de descontração e brincou com o neto, Gabriel. A decisão do governo desagradou a ruralistas e a ambientalistas, mas evitou grandes polêmicas antes da conferência mundial, em junho.

Código Florestal sob medida para a Rio mais 20

Com vetos e medida provisória contra lacunas do texto, decisões sobre pontos polêmicos da lei serão solucionadas apenas depois do Evento

Juliana Braga

Depois de quase 20 anos de discussão no Congresso Nacional e de duas semanas de intensos debates no Palácio do Planalto, o governo anunciou uma versão do Código Florestal montado com os olhos na Rio+20. O texto mantém anistia para pequenos produtores, mas endurece as punições a médios e grandes. Para preencher pontos vetados, o governo enviará uma medida provisória ao Congresso na segunda-feira. Essas modificações, no entanto, precisam ser ratificadas pelo Congresso Nacional e, apesar do otimismo do governo, especialistas avaliam que será difícil conter a bancada ruralista e aprovar integralmente as adequações feitas pela presidente Dilma Rousseff. O embate está marcado para depois do encontro ambiental, o que deve diminuir as críticas mais ferrenhas ao Brasil durante o evento.

O projeto, no entanto, não agradou nem a ambientalistas nem a ruralistas. Para o coordenador adjunto de Política e Direito Socioambiental do Instituto Socioambiental, Raul do Valle, o texto continua "desequilibrado" e permissivo. Além de manter a anistia a pequenos produtores que desmataram a reserva legal até 2008, e abrir brecha para fraudes ao fazer a distinção entre pequeno, médio e grande por módulos fiscais, Raul não enxerga uma tramitação fácil para a medida provisória que será encaminhada ao Congresso Nacional. "O governo quer chegar na Rio+20 e fazer propaganda de que não tem anistia, mas depois (se o Congresso não aprovar), volta ao que era antes e, em alguns casos, fica ainda pior", lamenta.

O professor da Escola Superior de Agricultura Luiz Queiroz (Esalq) Ricardo Rodrigues, sustenta que a presidente teve todo o subsídio técnico de que precisava para tomar suas decisões e chegou no ponto certo para agradar a comunidade internacional. "O Brasil vai declarar que nós temos liderança, apesar de um Congresso cheio de problemas. Vai declarar que tem alguém pondo ordem na casa", avalia.

Ainda assim, Raul do Valle duvida que isso será suficiente para limpar a imagem do país. "O Brasil vai aparecer como o anfitrião que, menos de um mês antes da Rio+20, retrocedeu na sua legislação florestal", sustenta. "É uma lei que não avança na proteção de florestas, virá para legalizar irregularidades", completa. Por outro lado, os ruralistas, ameaçam contestar na Justiça a decisão do Planalto.

Os quatro ministros convocados na tarde de ontem para anunciar a decisão — do Meio Ambiente, Izabella Teixeira; do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas; da Agricultura, Mendes Ribeiro; e da Advocacia-Geral da União, Luís Inácio Adams — só explicaram parte das modificações. O restante será conhecido na segunda, no Diário Oficial.

Debate segue

Os vetos e a medida provisória vão agora para o Congresso. "O debate público, o debate democrático que se travou com relação ao Código Florestal, no Congresso e na sociedade, produziu um acúmulo que, com o aperfeiçoamento da discussão técnica nessa parte de sanção, é consistente o suficiente para manter o texto no Congresso Nacional", prevê Adams.

Para chegar no texto ideal, Dilma tentou usar como parâmetro não anistiar os desmatadores — promessa de campanha da petista — e evitar que o Congresso tivesse argumentos para derrubar as modificações. A presidente lançou mão da velha tática denominada entre os ministros de "espancamento de projetos". Ela chegou a promover acareações entre técnicos e especialistas. "Dava medo, parecia que ela não estava aceitando o que estávamos falando", diz um especialista.

Colaborou Paulo de Tarso Lyra

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

Ruralistas e verdes atacam vetos ao Código Florestal

O governo anunciou que a presidente Dilma vetará 12 dos 84 artigos do Código Florestal e enviará ao Congresso uma medida provisória para introduzir outras mudanças, reabrindo a disputa em torno da lei ambiental. O anúncio, que desagradou tanto ambientalistas como ruralistas, elucidou apenas dois dos vetos. O mais polêmico deles retira da lei o que o governo qualificou como anistia ao desmatamento ilegal feito em matas na beira de rios

Veto de Dilma reabre debate no Congresso sobre lei ambiental

Claudio Angelo e Kelly Matos

Presidente veta 12 artigos do Código Florestal aprovado pela Câmara e usa medida provisória para mudar texto

Governo busca um meio-termo entre as pressões dos produtores e dos ambientalistas; ruralista recorre ao STF

BRASÍLIA - O governo anunciou ontem que a presidente Dilma Rousseff vetará 12 dos 84 artigos do Código Florestal aprovado pela Câmara, e reabriu a discussão ao informar que enviará ao Congresso medida provisória para introduzir 32 mudanças na lei.

O anúncio, que frustrou a campanha pelo veto integral, elucidou apenas dois dos vetos e deu poucos detalhes das alterações. A íntegra das medidas será publicada no "Diário Oficial" de segunda.

Em vez de detalhar pessoalmente suas decisões, a presidente Dilma Rousseff escalou quatro ministros para falar apenas sobre o "espírito" dos vetos e mudanças -as últimas são necessárias para preencher lacunas deixadas pelos congressistas.

Segundo o Planalto, a ideia foi buscar um meio-termo entre os interesses de produtores rurais e as exigências dos ambientalistas, além de aproximar a norma do texto aprovado no Senado.

Dilma tentou evitar desgastes às vésperas da conferência ambiental Rio+20, em junho. Mesmo assim, foi duramente criticada por ONG ligadas à causa ambiental.

Os dois vetos revelados ontem se referem aos artigos 1º e 61 do código aprovado pelos deputados no mês passado. Eles eram algumas das mudanças pedidas pelos críticos da norma aprovada na Câmara. O primeiro retirava da lei princípios ambientais, como a conservação das florestas e o combate à emissão de gases estufa.

O segundo é o ponto mais polêmico da lei. Ele permitia o que o próprio governo qualificou como anistia ao desmatamento ilegal feito em matas na beira de rios.

Isso porque a lei aprovada pelos deputados eliminou faixas mínimas de recomposição dessas matas, que são áreas de preservação permanentes, as chamadas APPs.

A questão foi resolvida por meio das mudanças que serão enviadas ao Congresso.

O governo optou por acrescentar à medida provisória uma instrumento que ele apelidou de "escadinha". Ele consiste num escalonamento das faixas de recuperação de acordo com o tamanho da propriedade. Quem tem terras menores, terá de recompor menos. Os maiores, mais.

Assim, em vez de todos recuperarem 15 metros à margem de rios pequenos, como determinava o texto original do Senado que foi alterado pela Câmara, as pequenas propriedades recuperarão apenas 5 metros. As médias e grandes fazendas terão de reflorestar 30 metros.

O agrado aos pequenos produtores é uma maneira de o governo conseguir apoio dos dois lados que polarizam a discussão para a aprovação da medida provisória e evitar que os vetos de Dilma sejam derrubados no Congresso.

O advogado-geral da União, Luis Inácio Adams, minimizou o risco de a MP cair. "O acúmulo de discussão é suficiente para manter o texto." Além dele, apresentaram as medidas os ministros Izabella Teixeira (Meio Ambiente), Pepe Vargas (Desenvolvimento Agrário) e Mendes Ribeiro (Agricultura).

Parlamentares dizem que não criarão dificuldades. Ainda assim, o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), representante do agronegócio, disse que irá ao STF contra a medida provisória. Ele alega que o a MP não poderia ser editada sobre matéria já provada no Congresso sem a análise dos vetos. O governo nega.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO