segunda-feira, 6 de maio de 2024

Miguel de Almeida - Musk e a maconha

O Globo

Há um oportunismo político nos ataques à cultura e à educação

A cultura e a educação voltaram a ser atacadas pela direita. De novo, são coisas de “comunistas”. Desde o final da ditadura, artista ou professor eram categorias profissionais respeitáveis, do tipo papai e mamãe, vistas como atores da boa civilização. Sugeria ser um caminho para o Brasil deixar de apenas exportar commodities, sair enfim de seu estágio extrativista. O advento do bolsonarismo, somado às redes evangélicas e CACs, em vez de perseguir seus milicianos de estimação, criminalizou a turma do Zeca Pagodinho e do professor Pasquale.

Mãos ao alto. Aqui se faz, aqui se paga.

O fracasso do “Jesus in Rio”, com aquelas parcas almas desassistidas em Copacabana, foi seguido pela notícia dos golpes (!) na venda on-line do perfume da Michelle.

A democracia, que deve ser um sistema para não perturbar o cidadão e deixá-lo na santa paz do Senhor, passou a ser no Brasil uma luta antiquada entre o sagrado e o profano. A terra de Leila Diniz, secular ma non troppo, tornou-se uma vitrine de grifes religiosas expostas nas redes. Tal e qual a Saara carioca, gritam atrás de público para oferecer seus produtos como quem negocia marcas de chinelos chineses:

— Qual Deus o senhor prefere? O mais cruel do Velho Testamento? Ou o mais bondoso do release 2.0?

O Brasil já teve melhores teólogos.

Fui criado ouvindo a vovó Stella Barros vendendo na televisão pacotes para a Disney, agora meus filhos perguntam se o Mickey é de esquerda. Já pensou na Minnie como pastora? Ainda tenho de responder a eles por que a Janja, apenas primeira-dama, emite notas oficiais sobre a querela Xandão x Musk. (Também recebo releases de suas audiências com diversos ministros! A saudosa Ruth Cardoso criou o que é hoje o Bolsa Família, com Vilmar Faria, e não precisou “ressignificar” nada).

Tudo errado: um pastor disputa a atenção do vendedor de coco sob o sol de domingo, e uma prefeita no interior de Santa Catarina (onde mais ?) queima livros infantis na hora do expediente. No Rio Grande do Sul a obra delicada de Jeferson Tenório é designada como subversiva. O que tal barnabé diz sobre os parricídios do Velho Testamento?

A vida já foi menos injusta.

Dias atrás, ao limpar meus livros na estante, dei com “Artaud e o teatro”, um estudo clássico de Alain Virmaux. Não sei se Heleno o estudou na academia militar, mas Antonin Artaud saiu brigado do grupo surrealista por não concordar com as diretrizes autoritárias emitidas por André Breton. O palco moderno passa pelo dramaturgo e ator francês, cujo conceito do teatro da crueldade influenciou brasileiros como o grande Zé Celso Martinez. No caso, contava eu, a vida era melhor porque a obra de Virmaux foi patrocinada pela Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, quando o Brasil vivia sob a ditadura do general Ernesto Geisel. No mesmo período, a estatal Embrafilme bancou “Pra frente, Brasil”, de Roberto Farias, uma das mais contundentes denúncias da tortura nos tempos sombrios de exceção.

Não é vida que segue, porque, se a Junta Militar criou a Embrafilme e Geisel a Funarte, deputados bolsonaristas em São Paulo agora aprovaram a criação de uma CPI para investigar a TV Cultura. O objeto: é uma programação de esquerda! De onde estiverem, as almas bondosas de Rolando Boldrin e Inezita Barroso cantarão. O próprio governador Tarcísio de Freitas já declarou que não há sentido na malsinação. A CPI deverá subir no telhado, mas a ação reafirma o olhar tosco da extrema direita sobre a cultura e a educação. E como pratica o patrimonialismo sem medo. A TV Cultura pertence à Fundação Padre Anchieta, não ao governo estadual. Ao contrário da EBC, tem independência editorial e ganhou prêmios internacionais por seus programas.

Grande parte, se não a maioria das instituições culturais e científicas, surgiu sob administrações de direita ou sob atos de regimes ditatoriais. A burguesia paulista conservadora (e esclarecida) criou a Universidade de São Paulo e a Fundação de Amparo à Pesquisa. Getúlio Vargas abriu o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico.

Há um oportunismo político nos ataques à cultura e à educação. No momento, partem de franjas extremistas do bolsonarismo e das redes evangélicas, de olho nos likes e engajamentos. Um pessoal sem critério. Estão aliados a Musk, mas escondem de seus seguidores o vídeo em que o bilionário aparece numa entrevista fumando maconha.

A vida volta a ser engraçada.

Um comentário:

ADEMAR AMANCIO disse...

O mundo artístico sempre me fascinou,os crentes não suportam,sei.