quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Gasto das famílias empaca, agro e petróleo empurram um PIB cada vez mais devagar, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Consumo privado cresce ao menor ritmo anual desde 2017, afora anos de epidemia

Investimento produtivo vai às mínimas do século e regrediu, no último ano

economia deve crescer perto de 2% neste 2026. É o que dá para depreender do resultado do PIB do segundo trimestre, divulgado nesta terça (1º) pelo IBGE, e do andamento do terceiro trimestre até aqui. No último ano, nos últimos quatro trimestres, o PIB cresceu 1,9%, menor ritmo desde 2019 (excluídos tempos da epidemia). O auge do crescimento anual sob Lula 3 foi o primeiro trimestre de 2025, de 3,6%. Se o crescimento trimestral for zero neste segundo semestre, o PIB aumenta 1,8% em 2026.

Não é lá grande coisa. Não é ruim, se consideradas as taxas de jurosAs aparências enganam um tanto, porém. No miolo do PIB, por dentro, o pão é mais bolorento. O investimento produtivo vai às mínimas. O PIB andou no trimestre por causa de agropecuária e indústria extrativa (petróleo e ferro) e pouco mais de positivo. A dita "demanda doméstica" (gasto privado, do governo e investimento) não cresceu no trimestre.

O PIB cresceu 0,5% no segundo trimestre, ante o anterior. O consumo privado, dito também "das famílias", caiu 0,4%. Em um ano, cresceu 0,9% apenas. É o menor ritmo de crescimento do consumo desde 2017, quando o país saía rastejando da Grande Recessão de 2014-2016 (sempre desconsiderando os tempos da epidemia, 2020 e 2021). Desacelera desde o final de 2024, quando aumentava a 5,1% ao ano.

A queda do ritmo do gasto de consumo privado é mais uma pista do motivo do mal-estar socioeconômico em um ambiente, entretanto, de crescimento forte de salários e do crédito bancário. O que há? Dívida, 'bets' e comida cara, ao que parece.

Não há desastre no ritmo do consumo das famílias, claro. Mas a situação é cinzenta, sob risco de chuva e trovoada, afinal o crescimento do país e do emprego deve ser menor em 2027. O governo pode ter aí um indício do motivo do mau humor. Quem sabe agora entenda que economia em marcha forçada, crescendo além do que por ora pode, dá em juros mais altos. Em uma situação em que a dívida das famílias já estava alta (desde 2022), juros altos acabam por detonar o problema que agora está à vista de todo mundo.

A taxa de investimento foi a menor do século no segundo trimestre, afora anos entre a Grande Recessão e epidemia, em 16,1% do PIB. Do que se trata? Da parte do PIB (do valor da produção ou da renda nacionais) gasta em obras, instalações produtivas, máquinas, equipamentos, "software": em aumento da capacidade produtiva do país. O pico do século havia sido de 21,1% do PIB, sob Dilma 1, ainda assim insuficiente, de resto insustentável.

O ritmo anual do gasto em investimento cai desde o primeiro trimestre de 2025. No último ano, até junho, caiu 0,2%. Quais os motivos disso? Os principais costumam ser taxas de juros altas (custo de investir, do capital, maiores), incerteza ou percepção maior de risco (a política econômica vai mudar em 2027 ou, se não mudar, vai dar problema).

Quais partes da produção cresceram no segundo trimestre, ante o primeiro? Agropecuária (2,8%) e indústria extrativa (3,4%), basicamente, que deram a contribuição positiva de uns três quintos do crescimento do PIB no trimestre. O resto veio de serviços de informação e comunicação, transportes e atividades imobiliárias. Indústria de transformação ("fábricas") e construção civil regrediram. Agropecuária e petróleo são pouco afetados pela política monetária doméstica (juros), pois dependem muito mais do mercado mundial.

 

Nenhum comentário: