sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Bomba atômica, banho de sangue e regime de exceção: as ideias de Renan Santos, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Candidato, que já exaltava Bukele, surpreendeu ao revelar admiração por Kim Jong-un

Na semana das entrevistas à TV Globo, Renan Santos se destacou entre os candidatos que disputam o terceiro lugar na corrida ao Planalto. O candidato do Missão pôs no bolso os rivais Romeu Zema e Ronaldo Caiado. A constatação diz mais sobre o mau desempenho dos ex-governadores do que sobre o pensamento vivo do líder do MBL.

Zema insistiu no papel de linha auxiliar do bolsonarismo. Defendeu anistia a golpistas, fim da vacinação obrigatória e presídios inspirados na ditadura de El Salvador. Tentou se vender como self-made man, mas omitiu o fato de ser herdeiro de um conglomerado familiar. Cobrado sobre a alta dos feminicídios em Minas Gerais, prometeu “uma série de programas contra as mulheres”. O ato falho foi o momento mais memorável da entrevista.

De volta a uma eleição presidencial depois de 37 anos, Caiado apelou à velha tática de falar muito para dizer pouco. Seus rodeios lembraram Rolando Lero, o inesquecível personagem de Rogério Cardoso na Escolinha do Professor Raimundo. Instado a detalhar planos para a Previdência, o ex-governador afirmou que não estava numa banca examinadora. Depois derrapou no elitismo ao chamar de “pobres coitados” trabalhadores e aposentados que recebem o salário mínimo.

As trapalhadas dos veteranos beneficiaram o novato Renan, que disputa sua primeira eleição. Sem repetir o histrionismo das redes e do debate da Band, ele se mostrou articulado e eloquente. O problema está na plataforma autoritária que tentou vender ao eleitor.

Aspirante a outsider, o candidato ameaçou descumprir ordens judiciais que considerar ilegais. Ele abandonou a faculdade de Direito pela metade, mas quer revisar decisões da Suprema Corte. Para a população das favelas, Renan ofereceu “regime de exceção” e “banho de sangue”. “O povo brasileiro está pedindo uma guerra”, justificou. Ele assistiria à carnificina do ar-condicionado, como todo extremista de palanque.

Empenhado em agradar os donos do PIB, o candidato prometeu cortar no social e abolir os pisos da saúde e da educação. Ao mesmo tempo, propôs torrar dinheiro público numa bomba atômica. Citou o exemplo da Coreia do Norte — segundo ele, “respeitada internacionalmente” pelo poderio nuclear. Renan já havia declarado sua admiração pelo autocrata salvadorenho Nayib Bukele. A queda por Kim Jong-un foi a novidade da semana.

 

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