O Globo
Com retórica que se adequa ao palco,
candidato do Missão se diferencia de outros políticos do gênero ao investir em
eleger bancada de seu novo partido
Renan Santos não tem chance de ser presidente
da República. Mas seria um erro tomar sua candidatura apenas como
excentricidade de uma eleição novamente polarizada, desta vez entre Lula e
Flávio Bolsonaro. O candidato do Missão apareceu de verdade ao país nesta
semana, na entrevista à TV Globo, e se mostrou com figurino mais sóbrio do que
o usado no debate da Band. O tom mudou, mas o programa não.
Na Globo e na sabatina da CBN, do GLOBO e do Valor, Renan trocou parte da agressividade performática por explicações mais longas e um tom de quem pretende demonstrar preparo. Continuou, no entanto, a defender que a polícia “atire para matar”, a elogiar o regime de exceção de Nayib Bukele em El Salvador, a propor a sério ( !?) uma bomba atômica brasileira e a dizer que descumpriria decisões do Supremo que considerasse ilegais.
Não são rompantes de campanha. Trata-se de
retórica que vende uma visão de poder em que instituições, garantias
individuais e controles democráticos podem ser relativizados em nome da
pretensa eficácia. Que desconsidera direitos civis conquistados ao longo de
toda a turbulenta história republicana do Brasil e das demais democracias.
O dado eleitoral mais relevante a respeito de
Renan não são seus 4% nas pesquisas. É a concentração de apoio entre homens
jovens. Nesse segmento, ele alcança percentuais muito superiores à média
nacional. É pouco para torná-lo competitivo, mas o suficiente para revelar um fenômeno
que não começou no Brasil e não terminará nesta eleição.
Nos Estados Unidos, na Alemanha e na
Argentina, candidatos e partidos da direita radical avançaram sobretudo entre
homens jovens. Javier Milei construiu parte importante de sua ascensão nesse eleitorado.
Donald Trump recuperou terreno entre homens abaixo dos 30 anos. A AfD alemã tem
apoio muito maior entre homens que entre mulheres.
Há uma combinação recorrente de frustração
econômica, ressentimento cultural e rejeição à política tradicional que
encontra nas redes uma linguagem comum. Nesse clube, propostas para reduzir a
participação política das mulheres são apresentadas sem firulas nos ambientes
controlados, depois cinicamente negadas quando seus representantes ganham os
holofotes da mídia contra a qual investem.
A nova direita radical oferece a esses jovens
que entraram na vida adulta sem perspectivas claras uma indignação feroz contra
o tal “sistema”, representado por elites políticas, culturais e burocráticas
que jogam contra eles.
Renan fala essa língua com fluência. Mistura
palavrão, provocação e estética de internet com discurso de eficiência, ajuste
fiscal, inteligência artificial e produtividade. Essa combinação o diferencia
tanto da direita tradicional quanto do bolsonarismo mais rudimentar. Há rebeldia
suficiente para atrair quem rejeita o sistema e uma camada de racionalidade
econômica destinada a dar verniz de projeto às propostas mais extremas e tentar
capturar o eleitor bolsonarista adulto, revoltado com casos como Dark
Horse-Master.
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O risco maior não está na hipótese, mais que
remota, de Renan chegar ao Planalto. Está na investida para alargar o que é
considerado aceitável no debate público. A defesa de regimes de exceção, do
confronto com o STF ou do uso indiscriminado da força deixa de parecer absurda
quando entoada por um jovem articulado, capaz de converter seguidores em
eleitores.
Por tudo isso, o desempenho do Missão para a
Câmara será mais importante que o de Renan. O partido lançou 535 candidatos e
precisa superar a cláusula de desempenho. Uma bancada de uma dezena de
deputados já lhe daria instrumentos para influenciar o debate, pautar as redes
e pressionar partidos maiores da direita a absorver parte de sua agenda.
O “antissistema” poderá sair da disputa muito
mais enfronhado no sistema. Se conseguir transformar essa manosfera em bancada
organizada, terá obtido uma vitória política que os percentuais de Renan na
corrida pelo Planalto disfarçam.

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