quinta-feira, 27 de agosto de 2026

A direita envergonhada de Caiado e Zema, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Candidatos do PSD e do Novo recusam compromissos fiscais impopulares

A direita saiu do armário com a ascensão do bolsonarismo e ganhou um eleitor pra chamar de seu. Oito anos depois, as candidaturas dos ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) desfilam com um figurino envergonhado tamanha é a profusão de recuos e titubeios do seu discurso. As sabatinas de que têm participado não poderiam escancarar mais este movimento - do Orçamento à segurança pública.

Candidato mais bem posicionado para capturar a direita democrática, a despeito da obsessão pela anistia ao golpismo, Caiado se recusa a assumir a racionalidade fiscal que uma candidatura centrista requer. Nega mudanças nos pisos da educação e da saúde ou no ganho real da aposentadoria.

Mantém apertada a tecla de que não vai mexer em pobres e idosos. Com isso, a ideia de uma proposta que limite o crescimento das despesas do governo central à metade daquele do PIB não para em pé. A proposta cortaria R$ 316 bilhões do Orçamento nos próximos quatro anos. As despesas obrigatórias passariam a comprometer 99% do total. O candidato do PSD diz que evitará este cenário com o crescimento da economia e das receitas, quase um “copia e cola” do corolário deste governo.

A exposição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em ambientes mais controlados, jejum a ser quebrado com a entrevista desta quinta ao JN, prejudica a comparação, mas o ministro da Fazenda, Dario Durigan, tem assumido a proposta de desvincular o aumento real do salário mínimo àquele da Previdência.

Teme-se, na campanha petista, que a ausência de acenos de contenção fiscal faça disparar o “lulômetro” e prejudique a gestão de expectativas. Caiado não corre esse risco, seja pelas diminutas chances de vitória, seja porque seus eleitores fiscalistas normalizam o aceno populista do candidato como parte da paisagem eleitoral.

A ideia do candidato do PSD de que reformar a Previdência não tem nenhum impacto fiscal imediato e por isso não deve ser priorizado é uma agressão às projeções atuariais de todas as mudanças das últimas décadas e sem as quais a gestão das contas públicas hoje seria calamitosa.

No tema das desonerações, Caiado não tem recuado do compromisso de ajuste, mas se recusa a torná-lo crível seja por não nominar setores elegíveis à perda de incentivos seja por seu desempenho em Goiás, onde ampliou benefícios concedidos a duas montadoras do Estado, Caoa (Hyundai) e HPE (Mitsubishi e Suzuki). Se não fez a lição de casa no setor automobilístico, por que o faria com o agronegócio, origem de suas raízes na política e de 12 dos 20 maiores programas de desoneração fiscal da União, como carnes, fertilizantes e defensivos agrícolas?

O destemor de Zema em enfrentar o gigantismo estatal tampouco tem resistido aos apelos do voto popular. A bravata da privatização de todas as estatais não resistiu. Já retirou a Caixa Econômica Federal da lista e ainda tem 40 dias de campanha para reduzi-la mais.

O compromisso do candidato do Novo de colocar as finanças públicas em ordem capota na primeira curva. Como passou quase dois anos sem pagar a dívida de seu Estado, terá que turbinar o programa da União para Estados endividados porque a de Minas ainda compromete 167% da receita corrente líquida.

Tem reiterado a proposta de reformar a Previdência, mas não se compromete com idades mínimas nem com o que entende por aproximação entre os regimes urbano e rural. Diz que pretende trazer estudantes que busquem bico no fim de semana para contratos intermitentes que os faça começar a recolher para a Previdência. Ou seja, enfrentará o déficit com a formalização do emprego. Qualquer semelhança com o atual governo é tudo menos coincidência.

O liberalismo de Zema tampouco resiste aos velhos modos da guerra fiscal. O sigilo sobre a desoneração dos impostos estaduais, justificou, era necessário para preservar a capacidade de o Estado atrair investimentos. Foi preciso que uma decisão judicial a vetasse para que se conhecessem os incentivos dados à empresa de sua família e do maior apoiador de sua primeira eleição.

A relutância de Caiado e Zema em assumir compromissos de enxugamento do Estado sugere que a opção pela direita se limite à segurança pública, mas aqui também é uma adesão envergonhada. Ambos abraçaram o modelo Nayeb Bukele, mas nenhum dos dois se dispõe a suprimir as garantias individuais ou a impor censura sobre redes sociais como a vigente em El Salvador. Nesse sentido não se diferenciam do histriônico candidato do Missão, Renan Santos. El Salvador não passa de um chamariz para o algoritmo. É preferível que esqueçam o que prometeram.

Zema não nega as câmeras nos uniformes policiais mas regateia a gravação ininterrupta e foi lento na implementação. Caiado não recua, nem mesmo ante as evidências, comprovadas nos autos, de que a redução dos homicídios em Goiás se deu por meio de execuções policiais.

A resistência do ex-governador de Goiás em traduzir, com metas e números, o que propõe vem acompanhado da bravata de que sua autoridade será capaz de apaziguar o mercado, evitar que golpistas, anistiados, se lancem em novas aventuras e botar bandido pra correr. “Nunca mudei de lado”, disse o candidato do PSD nesta quarta na sabatina Valor /O Globo/CBN. Se por isso pretende nunca ter descido do cavalo branco da campanha de 1989, parece crível. Desta vez, leva Zema na garupa.

 

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