Por Mariana Schreiber - BBC News Brasil
As investigações contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha,
não devem ser decisivas na disputa pela Presidência entre o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), acredita Maurício
Moura, doutor em Economia e Política e fundador do instituto de pesquisa Ideia.
Na sua visão, será
a economia que influenciará o voto de cerca de 5 milhões de pessoas que
definirão a eleição presidencial. Esse é o grupo que ainda não decidiu seu voto
e pode optar tanto por Lula como por Flávio Bolsonaro.
Segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil,
Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno da eleição, contra
34% de Flávio Bolsonaro (PL). Em um segundo turno contra o senador, Lula teria
45% das intenções, contra 43%.
"Quando
olhamos os 3% a 4% dos eleitores que achamos que vão decidir a eleição, eles já
consideram basicamente todos os lados corruptos e não é isso que vai ser o
fator decisivo. Então eu acho que [a investigação sobre suposta corrupção] é
mais um tema de 'bolhas' do que um tema relevante para a eleição", disse,
em entrevista à BBC News Brasil.
Lulinha é investigado em três inquéritos abertos pela
Polícia Federal (PF) neste ano, que apuram um suposto tráfico
de influência em favor de empresas interessadas em obter contratos com o
governo federal. Em entrevista ao Jornal Nacional na quinta-feira
(27/08), Lula classificou como "ilações" as acusações
que estão circulando contra Lulinha e prometeu que ele
"não será protegido" por ser seu filho.
Moura nota que
esse grupo de indecisos é formado principalmente por mulheres, das áreas
metropolitanas do Sudeste, com renda de dois a cinco salários mínimos, mas que
estão endividadas. Tem também, em sua maioria, perfil conservador e frequentam
igrejas.
"As pessoas
têm atividade econômica, têm duas ou três fontes de renda, e mesmo assim não
conseguem fechar a conta no final do mês. Tem um componente do custo da dívida,
tem um componente de uma educação financeira bastante básica ou inexistente,
e também tem agora o componente de bets [apostas
esportivas]. Esse grupo que vai decidir a eleição sofre muito com a
questão das bets. É um tema de muita dor", ressalta.
"E [essas
eleitoras] são muito apolíticas, estão fora das discussões das bolhas. Isso tem
um efeito prático: a decisão de voto é muito lá na frente [próximo ao dia da
votação]", continua.
As pesquisas de intenção de voto apontam, no
momento, para um segundo turno entre Lula e Flávio. Para Moura, no entanto,
alguns fatores aumentam as chances de que o pleito seja decidido já na votação
de 4 de outubro.
Na sua visão, a
falta de uma terceira via forte pode levar o eleitor que não gostaria de votar
em um dos dois primeiros candidatos a "antecipar o segundo turno" e
optar logo entre Lula e Flávio no primeiro dia de votação.
Ele diz que o
candidato do PL "ainda tem mais fôlego para crescer" e deve ser
beneficiado no primeiro turno pelo "antipetismo de chegada", que
ocorre quando o eleitor desiste de votar em alguém de sua preferência e faz
voto útil no candidato melhor posicionado para ganhar do PT.
Moura destaca a
resiliência das intenções de voto de Flávio após duas crises: a revelação de
que o senador pediu ao banqueiro Daniel Vorcaro dezenas de
milhões de reais para financiar um filme em homenagem a seu pai, o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e a briga pública — agora superada — com a primeira dama
Michelle Bolsonaro (PL).
"Ele passou por duas crises graves na campanha e os números dele são os números mais sólidos de um segundo colocado desde 1989 nesse momento, o que mostra que o sentimento divisor do país continua muito bem estabelecido".
Confira a seguir os destaques da entrevista
BBC News Brasil – As investigações sobre o Lulinha têm dominado o noticiário. Qual a relevância disso para o cenário eleitoral?
Maurício
Moura - Eu acho muito baixa, para dizer quase
nenhuma, porque, se tem um personagem na política brasileira que o eleitor já
precificou diversos escândalos de corrupção e, mesmo assim, ele continua com um
nível de aprovação bastante constante, é o presidente Lula. Acho que não tem
nenhuma novidade do presidente Lula que possa alterar quem gosta e quem não
gosta dele.
Quando olhamos os 3% a 4% dos eleitores que a gente acha que vão decidir a eleição, eles já consideram basicamente todos os lados corruptos, e não é isso que vai ser o fator decisivo. Então eu acho que é mais um tema de "bolhas" do que um tema relevante para eleição.
BBC News Brasil – O que vai definir o voto desses 4%? No que esse eleitor está mais atento?
Maurício
Moura - São mais ou menos 5 milhões de eleitores, e
eu acredito muito que esse voto vai ser decidido pelo tema da economia. A gente
sabe que é um grupo altamente endividado. As pessoas têm atividade econômica,
têm duas ou três fontes de renda, e mesmo assim não conseguem fechar a conta no
final do mês. Tem uma componente do custo da dívida, tem uma componente de uma
educação financeira bastante básica ou inexistente, e também tem agora a
componente de bets. Esse grupo que vai decidir a eleição sofre muito com a
questão das bets. É um tema de muita dor.
O PT ganhou todas
as eleições presidenciais com um argumento econômico muito bem estabelecido do
ponto de vista de narrativa. Em 2002, o Lula dizia que ia gerar 10 milhões de
empregos e o Serra dizia que ia gerar 8 milhões. Em 2006, eles vieram com o
argumento da expansão do Bolsa Família. E foi, inclusive, o ano que mudou o
perfil do eleitorado do Lula — passou a ser um perfil mais popular do que era
em 2002.
Em 2010, tinha a
questão do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento], do crescimento
econômico, associando à Dilma [Rousseff], a mãe do PAC. Em 2014, apesar de a
gente ter uma crise econômica contratada, o nível de desemprego estava baixo. O
argumento contra o Aécio Neves [rival de Dilma, na eleição de 2014] era manter
o nível de desemprego baixo e não retroceder nos programas sociais.
Em 2022, o Lula
basicamente operou dizendo que as pessoas iam voltar a exercer um consumo que
não estavam exercendo, que é uma metáfora de picanha, churrasco e cerveja.
Mas, nessa eleição
[de 2026], o governo não tem um argumento econômico de esperança. Ele tem
vários paliativos: tem o paliativo do Desenrola para quem está endividado, o
paliativo da mudança na tabela de imposto de renda. De alguma maneira, a
esperança de que a questão da escala 6x1 venha realmente a se viabilizar e se
concretizar.
Estamos vendo uma
eleição em que o PT tem uma dificuldade de dizer qual é a esperança que ele
está vendendo para um quarto mandato do presidente Lula.
Por outro lado, do
lado da oposição, também há um vazio bastante grande em relação a propostas
para economia, para reduzir o endividamento das pessoas. E uma coisa que nunca
ganhou eleição no Brasil foi o argumento de que basta tirar o PT que a economia
vai melhorar. Então a oposição também não está dialogando ainda com esse grupo
que vai decidir a eleição.
Claro que esse
grupo também está afetado por questões de segurança pública. Só que a segurança
pública é um tema que é diluído nas eleições, entre uma discussão presidencial
e a discussão do governo de Estado com a Polícia Militar, Polícia Civil, e até
discussão em nível municipal, com a Guarda Municipal, com câmeras de segurança.
Enfim, a segurança vira um tema de todos.
Então, eu acho que o tema crucial da eleição é economia.
BBC News Brasil - Qual é o perfil social desse grupo?
Maurício
Moura - São pessoas de dois a cinco salários mínimos, têm
atividade empreendedora e a maioria são mulheres. Elas são concentradas muito
na região metropolitana do Sudeste: São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro.
E são muito apolíticas, estão fora das discussões das bolhas. Isso tem um
efeito prático: a decisão de voto é muito lá na frente. Elas se desdobram em
diversas atividades, são mais conservadoras, frequentam cultos, frequentam
igrejas.
Já votaram no
Bolsonaro, já votaram no Lula. Hoje a grande questão é: são pessoas que votaram
no Lula em 2022, mas estão infelizes com o governo, justamente porque a vida
está mais difícil do ponto de vista econômico. Mas também tem uma memória muito
ruim do governo Bolsonaro, principalmente na gestão da pandemia.
Então, por isso é um campo de batalha no aspecto de quem vai conquistar esses votos. E o que eu vejo hoje é que nem o governo, nem a oposição têm um argumento econômico que possa encantar nesse momento esse grupo.
BBC News Brasil – Então, o Sudeste será determinante nesta eleição?
Maurício
Moura - Totalmente. Inclusive foi o Sudeste que elegeu o
presidente Lula em 2022, porque foi onde ele conseguiu avançar nos votos que
tinham sido no Bolsonaro. O presidente Lula ganhou na capital [São Paulo],
conseguiu boa votação na região metropolitana, o mesmo aconteceu no Rio de
Janeiro e o mesmo aconteceu no entorno de Belo Horizonte.
Apesar de ele ter perdido em Belo Horizonte, ele conseguiu avançar, comparado com o que o PT tinha tido em 2018 na região metropolitana de Belo Horizonte. Então, esse grupo é fundamental. E, como eu falei, é um grupo aberto para oscilar para os dois lados, porque ele não está nessa bolha do dia a dia da política, que é uma bolha que estabeleceu a divisão do país.
BBC News Brasil – Alguns analistas têm destacado a deterioração do apoio do PT no Nordeste. Isso é verdade? Fica então ainda mais importante, para Lula, ir bem no Sudeste?
Maurício
Moura - É verdade, do ponto de vista das pesquisas de
opinião. Mas a grande questão é que muitos eleitores [do Nordeste] que hoje não
dizem que vão votar no presidente Lula — e a gente está falando aí, dependendo
do Estado, de 5% ou 6% [dos eleitores] — eles também rejeitam o outro lado.
Então, na hora da decisão, muito provavelmente eles não vão votar na oposição.
Por isso, eu acho que o Nordeste tende a ter uma votação bastante similar a 2022. O que vai decidir [a eleição] é essa votação dessas franjas metropolitanas no Sudeste, porque são eleitores que não gostam de nenhum dos lados, mas também não rejeitam totalmente. Já transitaram entre os dois lados.
BBC News Brasil – Nesse contexto, como as disputas pelos governos estaduais de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais ajudam ou atrapalham Lula e Flávio Bolsonaro?
Maurício
Moura - Esse ciclo tem uma característica muito diferente
de 2022: os governadores hoje têm uma aprovação maior do que o presidente e do
que o candidato de oposição, o Flávio.
Pegando o exemplo
do Tarcísio: nas pesquisas, tem 10% de gente que diz que vai votar no Tarcísio
e vai votar no Lula. Então, o Tarcísio é maior do que o Flávio hoje. Em 2022, o
Jair Bolsonaro e o próprio presidente Lula eram cabos eleitorais importantes
para as eleições de governador. Agora [nesta eleição], não necessariamente.
Mesmo no Nordeste,
onde, obviamente, o peso do presidente Lula [é grande]. Em Pernambuco, Bahia,
Ceará, são governos bem avaliados, em que os governadores têm mais de 50% de
aprovação. Então, eu estou vendo uma dissociação da eleição de governador,
comparado com a associação que tivemos em 2022.
E lembrando que a
chance de a eleição para governadores acabar no primeiro turno é muito maior
esse ano, porque tem menos candidatos. São Paulo é um exemplo disso, porque
praticamente só tem dois candidatos viáveis, e isso tem se repetido em diversos
estados.
No caso de Minas
Gerais, eu sempre acreditei que a eleição de governador de Minas Gerais pouco
dizia sobre a eleição para presidente. Várias vezes o PT ganhou lá [a eleição
nacional], inclusive em 2022, sem ter um candidato forte no Estado. Inclusive,
em 2022, o Zema foi reeleito no primeiro turno e a gente teve um fenômeno lá
chamado Luzema [pessoas que votavam em Lula para presidente e Zema para
governador], como já teve Lulaécio [Lula para presidente e Aécio para
governador] e o Anastadilma [Antonio Anastasia para governador e Dilma para
presidente].
Então, Minas
Gerais é muito particular e, neste ano, talvez seja a eleição de governador
mais imprevisível do Brasil. Todas as pesquisas públicas mostram 90% de
indecisos na pesquisa espontânea. Tem vários candidatos, de todas as frentes:
esquerda, direita, extrema-direita, centro-esquerda, centro.
Tem toda uma distribuição de candidaturas ali que faz com que essa eleição de Minas talvez seja a eleição mais imprevisível que eu tenho acompanhado.
BBC News Brasil – A que atribui a recuperação do Flávio? O escândalo do Dark Horse acabou tendo um impacto limitado?
Maurício
Moura - Sim, teve um impacto limitado por uma questão
bastante óbvia: a gente está com o país dividido entre quem quer que esse governo
continue e quem não quer que esse governo continue. Obviamente, muita gente que
não quer que esse governo continue não gosta do Flávio, mas enxerga hoje o
Flávio como a alternativa mais viável para tirar o PT.
Então, ele estava
numa ascensão nas pesquisas de opinião e teve uma perda nas simulações de
segundo turno, principalmente, depois do Dark Horse e do vídeo
da Michelle também. Mas agora percebemos uma reacomodação desses eleitores que
tem uma característica bem forte: eles reprovam o governo e acham que esse
governo não merece continuar.
No Instituto Idea,
temos um cenário muito mais forte de [a eleição acabar no] primeiro turno do
que é ventilado. Então, eu acredito, inclusive, que o Flávio ainda tem mais
fôlego para crescer.
Claro, eu estou considerando que nenhum evento vai implodir a candidatura dele. Estou olhando os números de hoje. Ele passou por duas crises graves na campanha, e os números dele são os números mais sólidos de um segundo colocado desde 1989 nesse momento, o que mostra que o sentimento divisor do país continua muito bem estabelecido.
BBC News Brasil – Você vem apontando chances relevantes de a eleição ser resolvida no 1º turno. Mesmo com o desenrolar da campanha, continua com essa leitura?
Maurício
Moura - Sim, são três motivos. O primeiro, do lado do
presidente Lula, é que é a primeira vez que ele não vai ter concorrência real
na esquerda. Então, ele tende a ter um percentual de votos muito similar à
aprovação dele. É uma coisa natural: quem aprova o governo, não tendo uma
alternativa no seu campo ideológico, acaba naturalmente migrando para o Lula.
Então, ele vai flertar com o primeiro turno.
O Lula tem um
problema de ganhar no primeiro turno: a abstenção sempre prejudica o PT, que é
uma das coisas que é mal interpretada nas pesquisas na reta final. As pesquisas
têm uma amostra do eleitorado inteiro, mas é 80% do eleitorado que aparece para
votar. Esses 20% [que não votam] são mais pessoas de menor renda, menor
escolaridade. Isso sempre afeta o PT.
Por outro lado,
ele não tem a concorrência que ele teve [nas eleições passadas]. Em 2002, teve
o Garotinho, que fez 16% [no primeiro turno]. Em 2006, a Heloisa Helena fez
7,5% e o Cristovam Buarque também roubou o voto do Lula. Em 2010, a Marina
Silva fez quase 20% dos votos. Em 2014, a própria Marina também roubou voto do
PT. Em 2018, teve Boulos, teve Marina, teve Ciro roubando voto do PT. E, em
2022, a Simone Tebet e o Ciro Gomes roubaram o voto do PT.
Esse cenário não
existe dessa vez.
E tem uma coisa muito importante: um segundo turno para o presidente Lula é muito complexo, porque ele não vai ter mercado de voto para conseguir [ampliar sua votação]. Em 2022, ele teve um terço dos votos da Simone e um quarto dos votos do Ciro [no segundo turno]. Dessa vez, qual é o candidato, ali entre Renan, Zema e Caiado, que vai oferecer espaço [para Lula crescer]? Então, o primeiro turno é muito importante para o Lula.
BBC News Brasil – E do lado do Flávio Bolsonaro?
Maurício
Moura - Do lado da oposição, há o antipetismo de chegada,
que é quando as pessoas deslocam o voto [para o candidato mais competitivo
contra o PT]. O eleitor quer até votar num determinado candidato, mas acaba
fazendo um voto útil no candidato melhor posicionado para ganhar do PT.
Em 2018, isso
ficou bem claro na transferência de votos de Alckmin para Jair Bolsonaro.
Alckmin estava com algo entre 10% e 15% nas pesquisas e acabou com 5%.
Em 2022, parte do
eleitorado do Ciro Gomes e da Simone Tebet que não gostava do Lula acabou
votando no Bolsonaro já no primeiro turno. Teve essa antecipação [do voto do
segundo turno], e eu acredito que isso vai acontecer de novo. Claro que, se uma
das candidaturas Zema, Caiado ou Renan conseguir subir para uma pontuação de
dois dígitos no primeiro turno, vamos ter que esperar o segundo turno. Mas o
nível de voto espontâneo desses três ainda é muito baixo e vai ser muito
difícil para Zema, Caiado e Renan segurar os eleitores [de migrarem para Flávio]
se o Lula estiver flertando com ganhar no primeiro turno.
O antipetismo de
chegada é muito forte. E o antipetismo de chegada, ao contrário do PT, se
beneficia da abstenção, ele fica [proporcionalmente] maior com a abstenção. É
por isso que todo mundo toma um choque [quando sai o resultado do primeiro
turno], quando sempre a diferença entre o PT e o segundo colocado é muito menor
do que nas pesquisas.
E também tem um
terceiro fator. Muita gente desses 4% que falei, que não gosta nem de Bolsonaro
nem de Lula, pode, eventualmente, ter uma mexida de 1 ou 2 pontos percentuais
por causa de abstenção e de votos brancos e nulos, o que obviamente sai da
equação de voto válido também [e aumenta as chances de a eleição acabar no
primeiro turno].
Eu me lembro que o
João Doria, que ninguém imaginava que ia ganhar [a eleição para prefeito de São
Paulo] no primeiro turno em 2016, ganhou por causa dos votos brancos e nulos e
por causa da abstenção.
A minha hipótese é: a combinação de um PT sem concorrência, o antipetismo de chegada, um desânimo do eleitor de escolher entre as opções e um número menor de candidaturas — esse é o quadro de um potencial [fim da eleição ainda no] primeiro turno.
BBC News Brasil – Você descreveu um cenário bem desafiador para o Lula em um eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro. Por outro lado, ao menos desde a redemocratização, nunca ocorreu de um candidato que venceu o primeiro turno ser derrotado no segundo turno. Uma virada seria algo inédito, certo?
Maurício
Moura - É verdade, mas também seria algo inédito um
presidente com essa avaliação e essa aprovação, nesse momento, ser reeleito
também, porque os números da presidente Dilma em 2014 eram melhores do que os
do Lula. Lula tem números bastante similares aos que o Bolsonaro tinha nesse momento.
Então, se por um lado é verdade que o candidato que passa em primeiro sempre
ganha, por outro lado, é verdade também que esse nível de avaliação e aprovação
não é um nível que o coloca num campo de reeleição.
Eu não acredito
que seja por uma diferença muito grande, se Flávio e Lula forem para o segundo
turno. Porque, em 2022, foi uma diferença de quase 6 pontos percentuais [entre
Lula e Jair Bolsonaro no primeiro turno]. Eu não acredito nisso.
Acho que vai ser
muito parecido com uma antecipação que teve do segundo turno na eleição da
Colômbia, agora. A Colômbia estava com três candidatos viáveis, inclusive
Paloma Valencia, que ficou em terceiro, ela pontuava 15%, 16% nas pesquisas. Na
reta final, ela acabou com 7%, e os outros dois candidatos passaram para o
segundo turno com o nível de votação muito parecido. Eu acho que, se for para o
segundo turno, vai ser muito próxima a votação.
[Nota da redação: Na Colômbia, o candidato de direita Abelardo de la Espriella derrotou o candidato de esquerda Iván Cepeda no segundo turno, por margem apertada, em junho. No primeiro turno, Espriella surpreendeu e ficou na frente com 43,7% contra 40,9% de Cepeda, nome apoiado pelo então presidente Gustavo Petro]
BBC News Brasil – Você já destacou a importância do voto feminino para Lula. Por que Lula tem vantagem ampla entre as mulheres?
Maurício
Moura - Nas nossas pesquisas, isso se deve muito mais à
rejeição ao sobrenome Bolsonaro do que a qualquer medida específica desse
governo, qualquer política pública que realmente tenha feito a diferença no dia
a dia.
Mas uma coisa é
importante falar, que eu aprendi eleição após eleição: as mulheres, em média,
tomam a decisão mais próximo do dia da eleição. Isso ocorre em diversos países.
Então, a gente vê esse gap de gênero nas pesquisas, mas esse gap diminui muito
quando chega na hora da votação.
Isso aconteceu com
Donald Trump e Kamala Harris. Tinha um gap de gênero muito forte. Na hora,
quando chegou na reta final, o gap de gênero basicamente se traduziu nas
mulheres com nível superior. Em 2018, também tinha um gap de gênero de mulheres
[favorável] ao Haddad com o Bolsonaro e, na reta final, as mulheres convergiram
com o Bolsonaro.
E a mesma coisa em
2022: elas foram fundamentais para a vitória do Lula, só que a diferença que o
Lula tinha nas pesquisas era maior do que na hora da conversão [do voto]. Eu
também acredito que as mulheres que não gostam do PT e que não gostam do Lula,
elas tendem a votar no Flávio.
Essa diferença que
a gente vê nas pesquisas, eu já acho que dificilmente se sustenta. O Lula tem
grandes chances de ganhar entre as mulheres, mas não nesse gap que estamos
vendo hoje.
BBC News Brasil – Por que o novato Renan Santos tem desempenho similar ao dos dois ex-governadores do Caiado e do Zema.
Maurício
Moura - Porque ele conseguiu penetrar num nicho que
são homens de alta escolaridade, urbanos, que são muito fiéis a ele. E é um
nicho que foi construído ao longo do tempo com a inserção do MBL nas redes
sociais e, obviamente, o Caiado e o Zema não têm esse mesmo nicho. No caso do
Caiado, pelo menos ele vai muito bem no Estado dele. Ele é muito aprovado e
lidera as pesquisas em Goiás. E o Zema, em Minas Gerais, tem 12%.
Cada um tem seu
nicho, mas o nicho do Renan é bem estabelecido. A dificuldade vai ser expandir
esse nicho. Tem uma dificuldade óbvia de nível de conhecimento. Inclusive,
Caiado e Zema também são desconhecidos. E PT e o PL vão ter muito mais tempo de
televisão e recurso financeiro para a campanha.
E, obviamente,
candidatos de nicho têm propostas de nicho. Essas propostas têm ressonância com
grupo, mas, quando você quer ampliar seu espectro eleitoral, você tem que
ampliar seu espectro de propostas também.
Eu não sei se a gente vai ver isso no Renan. Se o Renan conseguir puxar deputados federais para o partido que está iniciando agora, eu acho que é um grande êxito a campanha dele.
BBC News Brasil – Agora que as candidaturas estão definidas nos Estados, qual a sua avaliação sobre a disputa pelo Senado? Há chance de ter uma maioria favorável ao impeachment de ministros do STF no próximo ano?
Maurício
Moura - É um tema que está pautando a eleição. Muita
gente não sabe o que faz o senador, mas sabe que o senador pode fazer o
impeachment no Supremo.
Sabemos que essa
eleição é muito complicada. Só um terço das pessoas sabe que vai votar para
dois senadores. A decisão do voto do Senado é muito próxima do dia da eleição.
Isso se acentuou depois que a campanha passou de 12 semanas para seis semanas
em 2018. É uma eleição muito complicada, que correlaciona ou com o voto de
presidente ou com o voto de governador.
As pesquisas hoje
dizem muito pouco sobre o Senado. Dizem basicamente o recall [lembrança do
nome] dos candidatos, porque as pessoas não estão engajadas. Agora, para tentar
responder à pergunta, eu acho que vai ter um aumento de bolsonaristas no
Senado, porque diversas candidaturas claramente bolsonaristas, que passam pela
própria Michelle no DF, Dellagnol (Novo) no Paraná, o Van Hattem (Novo) no Rio
Grande do Sul, Carlos Bolsonaro em Santa Catarina...
Se essas candidaturas tiverem êxito, obviamente elas vão ocupar um espaço que é de centro-direita, de um centrão. E, obviamente, esse tema vai ganhar relevância [no Senado]. Agora, eu não sei se haverá maioria, não.
BBC News Brasil – Em São Paulo, Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) estão bem nas pesquisas para o Senado, mas o governador Tarcísio Freitas (Republicanos) aparece com força para uma reeleição. E sabemos que, normalmente, um governador reeleito consegue eleger ao menos um senador. Essa vantagem de Marina e Tebet pode ser ilusória?
Maurício
Moura - Simone Tebet e Marina Silva foram duas
candidatas à Presidência da República, o que, obviamente, gera um recall
[lembrança] natural dos seus nomes.
A chance de ter
uma correlação do voto no Tarcísio com um dos senadores é enorme.
Eu acredito que a
disputa de Marina ou de Simone é pelo segundo voto. Eu acho que uma das duas
que conseguir ser o segundo voto de quem vota primeiro num senador do Tarcísio,
por exemplo, tem grande chance de ser eleita. Se elas ficarem confinadas ao
voto da esquerda, ao voto do Lula, aí aumenta a chance de ter dois senadores do
outro campo.
A questão é que o outro campo também está dividindo o voto. Tem o André do Prado (PL), tem Guilherme Derrite (PP), tem Ricardo Salles (Novo). Então, se por um lado eles tendem a correlacionar com o voto do Tarcísio, por outro lado eles estão se dividindo também. Mas eu acho que é importante deixar claro que as pesquisas de hoje dizem muito pouco sobre isso.

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