O Estado de S. Paulo
A expressão mar de lama é antiga na política brasileira, mas voltou com força na atual campanha eleitoral. Nos anos 50, quando foi criada, servia para definir crises de corrupção sistêmica. Na acepção atual, descreve o ambiente no qual se movem candidatos à Presidência.
Cada um no eixo Lula-Bolsonaro acredita ter
mais sujeira para jogar no outro e, assim, obter decisiva vantagem eleitoral.
Mas as pesquisas qualitativas sugerem um outro fenômeno: quando confrontados
com esse tipo de mar de lama, eleitores tendem a ver todos como iguais.
Especialmente os “de centro”, que, assume-se, vão decidir o pleito.
Pode-se argumentar que as acusações de corrupção que chegam à antessala de Lula têm outro quilate do que as suspeitas envolvendo qual a destinação final do dinheiro que o candidato Flávio Bolsonaro pediu para um ex-banqueiro que comandava um esquema criminoso. Mas aqui não é este o ponto.
O ponto é o envolvimento de instituições de
Estado nesse cenário – que os cínicos dirão ser o cenário costumeiro e imutável
da luta política. De fato, a luta suja depende hoje especialmente do Supremo
Tribunal
Federal, onde tramitam os processos dos
principais escândalos, e da Polícia Federal, incumbida de investigá-los.
Não se trata, porém, das atribuições
constitucionais de cada uma dessas instâncias. Mas, sim, da percepção de que
cada uma atua como parte numa guerra aberta que julgam poder conduzir à medida
que aceleram ou obstruem investigações, ameaçam adversários com operações
policiais ou oferecem proteção e, desta maneira, tentam influenciar resultado
de eleições.
O STF rachou de maneira provavelmente
irreparável nesse processo, com a “ala de força” (Alexandre de Moraes, Gilmar
Mendes e Flávio Dino) empenhada numa campanha de isolamento de quem considera
seu perigoso adversário, André Mendonça. Essa campanha ultrapassou há muito os
muros da Corte e está nas ruas.
Deixou também de ser um conflito típico da
luta pelo poder dentro do Judiciário (sempre houve) e ganhou a feição de um
grande acordão político que inclui hoje os presidentes das duas Casas
Legislativas, com apoio tácito de dirigentes de partidos do Centrão. Medo de
investigações, barganhas políticas tradicionais e o primado das oligarquias
regionais criaram uma convergência de interesses na vitória de Lula nas
próximas eleições.
É uma aposta de considerável risco, pois a
eleição está hoje no fio da navalha, mesmo com o ligeiro favoritismo de Lula
nas pesquisas. Mais ainda: o envolvimento de instituições de Estado na luta
política acirra aspectos graves para o que vem depois das eleições, não importa
o vencedor. Trata-se da própria legitimidade delas, pois não há quem saia limpo
depois de mergulhar num mar de lama.

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