O Globo
A essa altura, não é mais possível levantar
qualquer tipo de dúvida de que Lulinha estava fazendo negócios em nome de sua
posição familiar.
A mais recente pesquisa de opinião do DataFolha, divulgada neste fim de semana, indica que a disputa presidencial está virtualmente empatada, com um detalhe realçado pela própria empresa: ela não pegou a reação dos eleitores sobre as suspeitas que atingem o filho do presidente Lula. A essa altura, não é mais possível levantar qualquer tipo de dúvida de que Lulinha estava fazendo negócios em nome de sua posição familiar, e que a lobista Robert Luchsinger era sua representante – ela mesmo disse “eu sou o Lulinha” em uma conversa que a PF obteve. Também surgiram nos últimos dias diálogos sobre pagamentos para Lulinha. Portanto, não há mais dúvida de que havia negócios através do chefe de gabinete do presidente, o Marcola, que até teve que sair do governo, e de pessoas instaladas no Ministério da Saúde.
Todos os pagamentos feitos pelo esquema da
lobista o ex-chefe de gabinete de Lula tem colocado na conta de um suposto
empréstimo, que já teria sido saldado, mas que, mesmo assim, é um desvio da
função que exercia, embora o próprio presidente Lula tenha tentado minimizar,
perguntando: “Quem nunca pediu um empréstimo a um amigo?”. Mas surgiu um quadro
avaliado pela própria lobista em 100 mil euros, que ultrapassa em muito o valor
da dívida que Marcola ( que não se perca pelo nome) diz ter contraído com ela.
A questão é tão grave que a defesa de Lulinha
quer levar o caso para a primeira instância da Justiça, numa clara tentativa de
evitar o julgamento pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e utilizar os muitos
recursos existentes para inviabilizar uma provável condenação. O caso de
Lulinha trouxe à baila novamente o do sitio de Atibaia, pois a família Bittar
está envolvida em mais essa mal contada negociata. A mesma pessoa que dizia
morar no Sítio, para livrar Lula da acusação de que seria o seu proprietário
oculto, aparece agora tendo alugado uma casa em Brasília usada pela lobista
Roberta Lutzinger e seu grupo para fazer negócios, casa que Lulinha frequentava
com frequência.
O presidente Lula tem tido reuniões com o
advogado Marco Aurelio Carvalho, que preside o grupo Prerrogativas, de
advogados petistas, e está encarregado da defesa de Lulinha, o que mostra que
já entendeu que o caso lhe diz diretamente respeito. Tecnicamente, é correta a
ideia de mandar o processo do Lulinha para a primeira instância, mas se o STF
atender a essa exigência do Procurador Geral da República, terá que acabar com
todo o inquérito das Fake News, que há sete anos investiga, prende e arrebenta
todos, com ou sem foro privilegiado. Também o julgamento dos envolvidos na
tentativa de golpe deveria ser anulado, pois nenhum deles tinha foro
privilegiado, a não ser as autoridades civis e militares. Portanto, será uma
decisão que poderá trazer consequências sérias para outros processos
estacionados nas Fake News, que já deveria ter acabado há muito tempo.
São consequências que a atuação política
incoerente do STF provoca. A proteção da democracia justificou uma série de
decisões polêmicas, mas chega um momento em que uma presumida blindagem de suas
excelências se transforma em ofensa à Constituição que juraram defender. Por
que a PGR não se pronunciou sobre o caso do blogueiro do Maranhão, cujo
processo está no Supremo sem que ele tenha foro privilegiado? O suposto
atingido, o ministro Flavio Dino, é vítima, e essa condição não atrai o
julgamento para o Supremo. Vamos ver como o STF lida com suas próprias
contradições. Fica claro que o inquérito das Fake News, a partir de certo
momento, foi usado como maneira de pressionar politicamente críticos e opositores.
Estamos vivendo um momento anômalo, em que a interpretação de cada juiz
determina uma decisão, e chegamos a esta contradição.

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