quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Flávio conta com mãozinha do PT, por Julia Duailibi

O Globo

Nesta semana, os mais lúcidos aliados de Lula lamentavam a entrega de munição ao adversário

O PT prestou um serviço para Flávio Bolsonaro. O candidato do PL estava em baixa, sem conseguir nenhuma aliança e passando o chapéu pelo Centrão em busca de um vice. Até que o Q.G. de Lula colocou a bola no pé do adversário. À moda Vorcaro, uma lobista do INSS conseguiu chegar com seus tentáculos à antessala do gabinete presidencial — isso depois de já ter alcançado a família do presidente. Flávio, tóxico para os mais versados na arte da política depois do caso “Dark Horse”, viu que daquele limão dava para fazer uma limonada.

Ciente do estrago potencial que o discurso sobre Lulinha, INSS e afins pode trazer à campanha do PT, o candidato do PL fabricou um vice e tentará vendê-lo ao público como o xerife da investigação que tentou desvendar quem roubou o dinheiro dos aposentados. O deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) foi o relator da CPMI do INSS e chegou a pedir o indiciamento do filho do presidente. Isso por si só já era uma peça de propaganda para quem pretende surfar no caso. Mas a abertura de três inquéritos no STF envolvendo Lulinha e o dinheiro que a lobista do INSS emprestou, em tese, a Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, deram musculatura ao personagem.

Há dúvidas sobre a qualidade do escolhido e sobre quanto ele pode agregar à campanha — ou, no limite, até desagregar. Fora que o INSS também é telhado de vidro para o governo Bolsonaro. Mas, num cenário de escassez de possibilidades, o candidato do PL inventou um vice que, por enquanto, ajuda no discurso contra Lula, principalmente entre os eleitores independentes, que definem a eleição. Segundo a Quaest divulgada ontem, Lula perdeu 7 pontos percentuais, entre julho e agosto, nesse eleitorado, enquanto Flávio avançou 3 — o presidente tem 33% das intenções de voto dos independentes no segundo turno, ante 30% de Flávio.

É fato que Flávio não tem a menor condição de se colocar como arauto dos bons costumes e da ortodoxia no manejo dos recursos públicos depois do escândalo da rachadinha, do emprego da parentada dos milicianos no gabinete e, mais recentemente, do flagra do pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro — milhões que até hoje não se sabe ao certo onde foram parar. A questão aqui, porém, é o impacto que o discurso da corrupção tem entre os independentes que o PT precisa conquistar. E o caso INSS, a própria campanha admite, atrapalha essa conquista.

A indicação de Gaspar até ajuda num impasse que o PL tinha com aliados sobre uma das duas vagas para a disputa pelo Senado por Alagoas — o deputado queria concorrer como senador e dificultava a composição local com a chapa montada por Arthur Lira (PP-AL), que também concorrerá. Mas a ajuda que o PL dá a Lira em seu estado não se compara à ajuda, involuntária, que o PT deu à campanha de Flávio. Tanto que, nesta semana, os mais lúcidos aliados de Lula lamentavam a entrega de munição ao adversário. O assombro maior, no entanto, era perceber como os erros do passado não serviram de alerta para muita gente do entorno presidencial. Agora, o estrago político está feito.

 

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