O Globo
Nesta semana, os mais lúcidos aliados de Lula lamentavam a entrega de munição ao adversário
O PT prestou um serviço para Flávio Bolsonaro. O candidato do PL estava em baixa, sem conseguir nenhuma aliança e passando o chapéu pelo Centrão em busca de um vice. Até que o Q.G. de Lula colocou a bola no pé do adversário. À moda Vorcaro, uma lobista do INSS conseguiu chegar com seus tentáculos à antessala do gabinete presidencial — isso depois de já ter alcançado a família do presidente. Flávio, tóxico para os mais versados na arte da política depois do caso “Dark Horse”, viu que daquele limão dava para fazer uma limonada.
Ciente do estrago potencial que o discurso
sobre Lulinha, INSS e afins pode trazer à campanha do PT, o candidato do PL
fabricou um vice e tentará vendê-lo ao público como o xerife da investigação
que tentou desvendar quem roubou o dinheiro dos aposentados. O deputado Alfredo
Gaspar (PL-AL) foi o relator da CPMI do INSS e chegou a pedir o indiciamento do
filho do presidente. Isso por si só já era uma peça de propaganda para quem
pretende surfar no caso. Mas a abertura de três inquéritos no STF envolvendo
Lulinha e o dinheiro que a lobista do INSS emprestou, em tese, a Marcola,
ex-chefe de gabinete de Lula, deram musculatura ao personagem.
Há dúvidas sobre a qualidade do escolhido e
sobre quanto ele pode agregar à campanha — ou, no limite, até desagregar. Fora
que o INSS também é telhado de vidro para o governo Bolsonaro. Mas, num cenário
de escassez de possibilidades, o candidato do PL inventou um vice que, por
enquanto, ajuda no discurso contra Lula, principalmente entre os eleitores
independentes, que definem a eleição. Segundo a Quaest divulgada ontem, Lula
perdeu 7 pontos percentuais, entre julho e agosto, nesse eleitorado, enquanto
Flávio avançou 3 — o presidente tem 33% das intenções de voto dos independentes
no segundo turno, ante 30% de Flávio.
É fato que Flávio não tem a menor condição de
se colocar como arauto dos bons costumes e da ortodoxia no manejo dos recursos
públicos depois do escândalo da rachadinha, do emprego da parentada dos
milicianos no gabinete e, mais recentemente, do flagra do pedido de dinheiro a
Daniel Vorcaro — milhões que até hoje não se sabe ao certo onde foram parar. A
questão aqui, porém, é o impacto que o discurso da corrupção tem entre os
independentes que o PT precisa conquistar. E o caso INSS, a própria campanha
admite, atrapalha essa conquista.
A indicação de Gaspar até ajuda num impasse
que o PL tinha com aliados sobre uma das duas vagas para a disputa pelo Senado
por Alagoas — o deputado queria concorrer como senador e dificultava a
composição local com a chapa montada por Arthur Lira (PP-AL), que também
concorrerá. Mas a ajuda que o PL dá a Lira em seu estado não se compara à
ajuda, involuntária, que o PT deu à campanha de Flávio. Tanto que, nesta
semana, os mais lúcidos aliados de Lula lamentavam a entrega de munição ao
adversário. O assombro maior, no entanto, era perceber como os erros do passado
não serviram de alerta para muita gente do entorno presidencial. Agora, o
estrago político está feito.

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