Folha de S. Paulo
Quando o presente é o assunto, o visionário
vira fascista
A conversa fica tensa e a amabilidade dá
lugar à crítica agressiva à imprensa profissional
Durante 1 hora e 24 minutos, o homem mais
rico do planeta expôs à editora-chefe da revista The Economist suas ideias
sobre o futuro e o presente. Criador do sistema de pagamentos eletrônico
Paypal, Elon
Musk é proprietário da Tesla,
que fabrica carros elétricos; do aplicativo de mensagens X (antigo Twitter)
—além de fundador da empresa SpaceX,
que pretende revolucionar a tecnologia espacial para fazer dos seres humanos
uma espécie interplanetária, capaz de colonizar Marte.
Durante os primeiros sete meses desta segunda administração Trump, Musk chefiou o Departamento de Eficiência Governamental (Doge, na sigla em inglês) —o qual, a pretexto de reduzir desperdícios, fechou agências estatais, cortou recursos e destruiu muitos órgãos federais importantes. A entrevista pode ser vista em The Insider, publicação digital exclusiva para os assinantes do semanário britânico.
Na primeira parte, a conversa é amena: o
trilionário discorre sobre o futuro, quando robôs e inteligência artificial
serão os motores da sociedade da abundância, o dinheiro perderá a razão de
existir e será possível garantir renda a todos e cada um dos terráqueos para
fazer o que bem entenderem com seu tempo livre.
Algo semelhante à sociedade comunista
imaginada por Karl
Marx, na qual as pessoas poderiam caçar pela manhã, pescar à tarde, cuidar
do gado ao anoitecer e criticar depois do jantar, sem se tornarem caçadores,
pescadores, pecuaristas ou críticos. Só que, agora, no trajeto até o radioso
futuro, substitua-se a liderança do Partido Comunista pela condução dos
iluminados do Silicon Valley.
Na segunda parte, quando a entrevistadora
aterrissa as perguntas no presente, o Musk visionário vira fascista, defensor
do duro controle à imigração; do encolhimento da capacidade reguladora do
Estado; da substituição dos freios e contrapesos da democracia representativa
pelo pulso firme do líder político. A conversa fica tensa e a amabilidade dá
lugar à crítica agressiva à imprensa profissional.
Tendo apoiado candidatos do Partido Democrata à Presidência —Barack
Obama, Hillary Clinton e Joe
Biden— Musk aderiu a Donald Trump nas
eleições de 2024. E se tornou defensor da Alternativa para a Alemanha (AfD) e
de outros partidos europeus de extrema direita. Sua trajetória não é singular:
acompanha o movimento de empresários como Jeff
Bezos (Amazon), Mark Zuckerberg (Meta), Tim Cook (Apple), entre outros que abandonaram os
democratas e se passaram para o lado dos republicanos.
Não se trata só de cálculo eleitoral. A
mudança de lealdade político-partidária é, também, abandono da democracia
liberal representativa por um ideário político que percebe suas regras como
parceiras da ineficiência e obstáculos à aceleração tecnológica. No lugar do
governo limitado da maioria, flertam com um sistema que aumente a incidência
política de quem esteja à frente da criação de novas tecnologias: uma espécie
de tecnocracia da era digital, ainda que acoplada a um líder mercurial,
sabidamente incapaz de concluir um raciocínio.
A desconfiança em relação à igualdade
política, que a democracia representativa garante, não é nova no pensamento
americano. Mas nunca esteve ancorada em tanto —e tão concentrado— poder
econômico.

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