Valor Econômico
Na ponta do lápis, as contas não fecham, a
menos que escolas, postos de saúde e outros serviços prestados à população do
DF deixem de funcionar
Há muito tempo não se via uma movimentação política tão intensa para salvar um banco quebrado. Desde que assumiu carteiras de créditos podres em negociação suspeita com o banco Master, o Banco de Brasília (BRB) se arrasta aos trancos e barrancos, com problemas de liquidez e de patrimônio. Como não há publicação de balanço (o último data do segundo trimestre de 2025) não se sabe ao certo o tamanho do buraco. Sabe-se, sim, que é expressivo, qualquer que seja a indicação de prejuízo que se queira considerar.
De acordo com o governo do Distrito Federal —
dono do BRB, com participação de 53,71% — o rombo é de R$ 8,8 bilhões.
Analistas do setor financeiro estimam um déficit de pelo menos R$ 12 bilhões, o
valor da carteira de créditos podres comprada do Master. Segundo o Ministério
da Fazenda, se liquidado, o BRB causaria prejuízo de R$ 17 bilhões ao Fundo
Garantidor de Crédito (FGC). O FGC, para lembrar, é alimentado com recursos dos
bancos com vistas a cobrir depósitos e aplicações de correntistas e
investidores em caso de falência de alguma instituição financeira até o limite
de R$ 250 mil.
O GDF, com a ajuda do Banco Central, da AGU e
do STF, vem empurrando o problema com a barriga, à espera de alguma solução
antes do primeiro turno das eleições, que têm a atual governadora Celina Leão
(Progressistas) entre os candidatos. A última novidade no rol de tentativas
para esticar a corda foi anunciada esta semana com a convocação de uma
Assembleia Geral Extraordinária (AGE) do banco para o próximo dia 24. Na pauta
consta a autorização para que os acionistas proponham ações de responsabilidade
civil contra os ex-administradores da instituição, tendo em vista a Operação
Compliance Zero, desencadeada pela Polícia Federal no inquérito das fraudes
praticadas pelo Banco Master.
O objetivo da AGE soa um tanto redundante,
uma vez que o ex-presidente do BRB envolvido nas operações com o Master está
preso e certamente responderá na Justiça pelos atos que tenha praticado,
incluindo o ressarcimento pelos danos causados ao banco que, no frigir dos
ovos, correspondem a prejuízos aos acionistas. Outros antigos gestores do BRB
por ocasião das fraudes são alvos de medidas cautelares.
A governadora espera que os grandes bancos
brasileiros possam salvar o BRB, apesar de nada terem a ver com as fraudes em
investigação. Ela busca um empréstimo de R$ 6,6 bilhões justamente junto ao FGC
— aquele que sofreria um rombo de R$ 17 bilhões com a liquidação do BRB — pelo
prazo de 15 anos, com dezoito meses de carência, e propõe juros atrelados à
evolução do IPCA mais 4,5% ao ano.
Os principais bancos entrariam no esquema
como garantidores do empréstimo via FGC ao BRB, tendo como contragarantia
recursos futuros do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e do Fundo de
Participação dos Municípios (FPM). Esses fundos envolvem recursos arrecadados
pela União que são depois repassados aos Estados, municípios e ao Distrito
Federal.
Estima-se que o GDF receberá de ambos os
fundos cerca de R$ 1,6 bilhão este ano, verba usada com educação, saúde,
saneamento e demais gastos do governo.
Na prática, bancos como Itaú, Bradesco,
Santander e Banco do Brasil, entre os maiores, entrariam em um esquema de
resultado duvidoso para salvar um banco estatal que se meteu em operações
fraudulentas por conta própria e que estará sempre sujeito às interferências
políticas do acionista majoritário, ao sabor dos próprios interesses. O BC não
pode assegurar que o “acordo” proposto pelo GDF será cumprido nem que resultará
positivo para as partes a médio prazo. Nem mesmo a governadora Celina pode
estar segura do sucesso da sua proposta, ainda que venha a ser eleita para o
próximo mandato.
Os problemas dos bancos estaduais no Brasil
são fartamente conhecidos. Um a um, foram desaparecendo por absoluta
impossibilidade de sobrevivência. No caso atual do BRB, um dos últimos
remanescentes, há um complicador adicional: as finanças do GDF estão totalmente
amarradas aos limites legais, o que impede gastos extras além do autorizado.
Por isso, precisou de uma lei específica para contratar aquela operação, com
previsão de custo astronomicamente alto.
Se for adiante, nos termos propostos pelo
GDF, o empréstimo custaria cerca de R$ 100 milhões por mês a partir de 2028, ou
seja, R$ 1,2 bilhão por ano. Esse valor corresponde ao montante estimado das
receitas que o GDF deve receber este ano com repasses do FPE. A receita
prevista com o FPM é muito menor, cerca de R$ 380 milhões. Na ponta do lápis,
as contas não fecham, a menos que escolas, postos de saúde e outros serviços
prestados à população do Distrito Federal deixem de funcionar.
É importante notar que os alardeados efeitos
de uma eventual liquidação do Banco de Brasília no Fundo Garantidor de Crédito
não passam por enquanto de ameaça velada. Se o BC achar que o BRB tem salvação,
pode optar por uma intervenção ou por um Regime de Administração Especial
Temporária (Raet), o que certamente desagradaria a governadora Celina Leão
neste momento. Se tiver de liquidar o BRB, o BC o fará munido dos fundamentos
técnicos que cabem em tal situação. Só não dá para entender a demora da
decisão, por tudo o que se conhece.
Já aqui seria o caso de perguntar a respeito
da conveniência de ser introduzido no uso do FGC algum tipo de salvaguarda de
modo a evitar abusos e desvios de função. Sim, porque se o governo do DF não
honrar com os compromissos que pretende assumir caberá aos grandes bancos fazer
os aportes necessários para evitar o colapso do fundo e, neste caso (e até
mesmo antes), dar as devidas explicações aos respectivos acionistas.
Do ponto de vista da finalidade para o qual
foi criado, faria sentido um escalonamento de valores para o ressarcimento dos
depósitos garantidos de acordo com as características da falência da
instituição financeira, se resultou de algum movimento externo e abrangente ou
se resultou de decisões tomadas deliberadamente dentro da instituição para
proveito próprio.
Também deveria ser proibida a divulgação da
cobertura do FGC como peça de propaganda para a venda de papéis ou qualquer
tipo de captação como foi largamente usada pelo dono do Master, Daniel Vorcaro.
É como se ele tivesse transformado o fundo garantidor de crédito em cúmplice
das suas falcatruas.
A mesma tábua de salvação pretende usar agora
o GDF em desesperada tentativa de não perder o BRB. Afinal, para os políticos,
um banco estadual funciona como se fosse a galinha dos ovos de ouro da fábula
de Esopo.

Nenhum comentário:
Postar um comentário