Folha de S. Paulo
Ao revogar visto de embaixadora brasileira,
os EUA decidem reverter a ordem prevista na lei internacional
Governo Trump usa alavanca para que a direita
ganhe as próximas eleições no Brasil
A única explicação plausível para que o governo Trump tenha decidido revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington é a aposta no caos como alavanca para que a direita ganhe as próximas eleições no Brasil e, assim, a onda neotrumpista latina possa inundar o Planalto Central. Este, ao menos, é o sonho de Marco Rubio, secretário de Estado americano.
Não se trata de um segredo. Em junho, Rubio afirmou
em audiência no Senado dos EUA que o Brasil "no meio de um
ciclo eleitoral" não está entre as nações amigáveis aos EUA. Erra quem
tenta ver nas ações da extrema-direita racionalidade maior que isso; o método é
o caos.
Se o governo dos EUA quisesse mostrar
desagravo com a condução da política externa brasileira, poderia ter escolhido
a via da lei internacional, que existe e se chama declaração de persona non
grata. Escolheu, no entanto, a via mais nuclear: revogar o visto da embaixadora
e, portanto, virtualmente expulsá-la.
Pela Convenção de Viena sobre Relações
Diplomáticas —tratado que rege o tema, em seu Artigo 9º, descreve o passo a
passo—, os EUA poderiam declarar a embaixadora persona non grata, e o Brasil
teria a opção civilizada de retirá-la. A cláusula preserva, de um lado, a
soberania de não se ter quem não se quer em seu território e, de outro, o
respeito aos ritos diplomáticos pacíficos que substituem medidas coercitivas.
Tampouco procede a razão dada pelos EUA para
a revogação do visto da representante brasileira, qual seja a demora em
conceder o aval (agrément) para o embaixador
nomeado pelos EUA para o Brasil, Daniel Perez. A praxe é que o país
que envia o diplomata certifique-se de que ele possui o aceite do país para
onde irá, e caso o país de destino não aceite, sequer precisa justificar a
negativa. É o que expressamente prevê o Artigo 4º do Tratado de Viena.
De novo, os EUA decidem reverter a ordem prevista na lei internacional e fazer com que o Brasil concorde calado. Incomoda-lhes que o Brasil se veja como igualmente soberano num mundo acostumado à subserviência.

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