quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Razões da deflação de agosto e o futuro próximo, por Míriam Leitão

O Globo

A deflação de agosto é uma boa notícia, mas pode não se repetir nos próximos meses. O fato é que não há sombra de descontrole inflacionário

A inflação deu ontem um refresco num país premido por urgências e números preocupantes. O IPCA-15 registrou uma deflação de 0,4%. Os preços caíram em quase todos os segmentos, inclusive o de alimentação, com vários preços encolhendo, mas o mais importante para os economistas é que a inflação de serviços está cedendo. Há uma razão específica que ajudou a levar para a deflação: o bônus de Itaipu. Mesmo assim, o efeito baixista foi geral.

O bônus de Itaipu é um recurso proveniente da sobra dos resultados da hidrelétrica binacional, dividido meio a meio entre o Brasil e o Paraguai. Aqui, ele se transforma num desconto na conta de luz. Não explica toda a deflação, mas em parte sim. Só que isso acontece uma vez e, no mês de setembro, a tendência é subir, exatamente pela comparação do preço de um mês com o do mês anterior.

— Sem o bônus de Itaipu, o índice ficaria em torno de zero, o que já seria um número bom. O resto está bem também. A alimentação no domicílio em 12 meses está subindo pouco mais de 3%. Os serviços subjacentes estão caindo em 12 meses, estão em torno de 5%, tendo ficado muito tempo acima de 6%. Isso permite a queda dos juros na próxima reunião em 0,25pp – diz o economista José Roberto Mendonça de Barros.

O indicador divulgado ontem, que antecipa em parte o que acontecerá com o IPCA de agosto, veio com várias boas notícias. Gastos com habitação caíram 1,41%, puxados pela queda da energia em 6,25%. O grupo de transportes caiu 1%, com redução de passagens aéreas e combustíveis. O grupo alimentação e bebidas teve deflação de 0,57%, com diminuição de quase 1% na alimentação no domicílio, e queda de preços de 27% no tomate, 25% na batata inglesa, de 17% na cenoura e de 2,31% no café.

É natural a queda de preços de alimentos em agosto, mas já há alguns preços subindo devido aos problemas climáticos. O excesso de calor na Europa, por exemplo, dizimou a safra de beterraba, o que eleva o preço do açúcar no mercado internacional.

— O El Niño está atacando o mundo inteiro. A gente certamente vai ter uma inflação de custo da alimentação. Mesmo que aqui não tenha o El Niño tão grave, algum efeito ele terá. O fenômeno climático pode atrasar o plantio no Brasil, por causa da seca em áreas tradicionais de produção agrícola — diz José Roberto.

Pelo Focus da última semana, a expectativa é de que em agosto o IPCA completo do mês tenha uma deflação de 0,18%. Para setembro, a estimativa é de 0,52% e em outubro 0,33%. O que os números estão dizendo é que a inflação tem caído e, apesar de não haver previsão do mercado de um índice dentro do intervalo de flutuação da meta, esse resultado não é impossível.

Este ano, porém, é de muitos imponderáveis, um deles a guerra do Irã que inflacionou os preços e deixou um permanente estado de alerta refletido na volatilidade dos preços do petróleo. A guerra que Trump não ganhou até o momento, apesar de ter pensado que seria um passeio, provocou efeitos negativos no mundo inteiro e aqui também.

Um ambiente mais benigno de inflação pode até ajudar eleitoralmente o presidente Lula, contudo, como houve muitos aumentos de preços, mesmo quando o índice registra queda, não traz alívio significativo para o orçamento das famílias. Fica apenas menos pior. Há outros itens engolindo parte dos orçamentos familiares, como os juros do endividamento.

O mais importante é que quando um índice tem uma queda tão consistente, o Banco Central fica mais seguro para continuar sua trajetória de queda dos juros, ainda que tenha vindo de forma homeopática. Para os próximos meses, os vetores da inflação podem ser os preços do petróleo, uma eventual alta do câmbio provocada pela instabilidade eleitoral e os eventos climáticos extremos.

Mesmo assim se pode dizer que nos últimos três meses, já descontando a sazonalidade, a inflação tem estado em patamar mais baixo do que a expectativa do mercado. Nos últimos doze meses, a inflação pelo IPCA-15 está em 4,24% dentro do intervalo permitido pela meta.

Nos próximos meses, é possível que a inflação volte a ficar fora desse intervalo de flutuação e a maior probabilidade é terminar o ano acima desse patamar. Mas é certo dizer que não há qualquer sombra de descontrole inflacionário. Ela está em queda lenta para o cumprimento da meta no futuro.

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Tudo que ela escreve, é ruim