sexta-feira, 22 de março de 2013

Entrevista - Jarbas busca apoio de Serra e do PMDB para Campos

Raquel Ulhôa

Jarbas sobre Campos: "A pecha de direita não pega, tem formação de esquerda enaltecida por Lula e sua marca tem sido a ousadia"

BRASÍLIA - Após 20 anos de rompimento, hoje o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) está empenhado e "inteiramente à vontade" na articulação da candidatura do governador Eduardo Campos (PE), presidente do PSB, à Presidência da República em 2014. O envolvimento é tanto que ele tentará atrair o ex-governador José Serra (PSDB) para o projeto, se a situação de "desconforto" do tucano no partido continuar.

"Acho que está no meu papel fazer isso. Quando a gente entra numa luta, entra para isso. Agora, vou respeitar a questão dele. Se ele se ajusta diante do PSDB, passa a ser ouvido e se torna uma voz no partido, não cabe a mim tentar puxar o Serra. Só posso fazer isso se ele estiver numa situação de desconforto. Aí eu faço", disse o senador, em entrevista ao Valor.

Amanhã, o senador oferece jantar para Eduardo Campos em sua casa em Recife, reunindo lideranças de vários segmentos, empresários, amigos e artistas.

Valor:O senhor se reaproximou de Eduardo Campos no fim de 2011 e em 2012 apoiou o candidato dele a prefeito de Recife, Geraldo Julio (PSB). Agora está empenhado na construção da candidatura dele a presidente da República?

Jarbas Vasconcelos: Totalmente integrado.

Valor: Desde que assumiu o Senado, em 2007, o senhor é dissidente do PMDB e atua na oposição. Apoiou os tucanos José Serra e Geraldo Alckmin para presidente. Por que agora não se engajar na campanha de Aécio Neves?

Jarbas: O próprio PSDB sequer está pacificado, unificado. Tem enorme dificuldade para se movimentar e ter um candidato que represente o partido no seu conjunto. Eu, em Pernambuco, tinha de escolher um adversário. Lutava contra o PT e contra o PSB, representado pelo presidente nacional e governador do Estado, Eduardo Campos. A gente estava conversando sobre uma possível coligação para 2014. A situação à qual o PT levou a cidade do Recife em 2012, de estrangulamento e contestação pela população, com o prefeito rejeitado pelo próprio partido, fez com que a gente antecipasse para 2012 uma coligação. O doutor Ulysses [Guimarães] dizia que a gente não pode ter muitos adversários, tem que saber escolher quem que você vai enfrentar. Foi o que fiz em Pernambuco.

Valor: Foi uma circunstância local. Mas por que abandonar a aliança nacional com o PSDB?

Jarbas: Mantive a mesma posição regional e nacional. É uma coisa estratégica para mim. Não foi fácil, porque eu tinha disputado uma eleição em 2010 e tinha sido esmagado nas urnas. Mas tinha que escolher um adversário e escolhi o PT.

Valor: As divergências políticas com Campos foram superadas?

Jarbas: Tinha muita coisa de pessoal pelo meio, muita birra, mas, afinal, a gente lutou junto [no passado], jogou pedra no mesmo local, foi combatente da ditadura. Fizemos parte da Frente Popular do Recife. Fui prefeito duas vezes. A primeira vez fui apoiado por ele e pelo avô, Miguel Arraes. Afinal de contas, fomos pemedebistas. Na prática, foi um reencontro nosso, após 20 anos separados. Voltamos a militar juntos. Estou inteiramente à vontade. Não fiz nenhuma barganha, ele não assumiu nenhum compromisso comigo, de reeleição ou não [para o Senado]. Nem eu assumi compromisso com ele.

Valor: Mas seu projeto natural é reeleição no Senado.

Jarbas: É...

Valor: Por que Eduardo Campos é boa opção? Com qual discurso ele fará oposição à presidente Dilma Rousseff, se ajudou a elegê-la?

Jarbas: Veja, a oposição continua desarticulada, sem unidade. Na única vez em que a gente se organizou, no período anterior, quando fui chamado pelo DEM e pelo PSDB a sentar numa mesa mais ampla, tivemos certa organicidade e derrubamos o chamado imposto do cheque [CPMF]. A gente nunca mais fez isso. Para tentar desestruturar isso que completou uma década de poder, a gente tem que contar com dissidência dentro do arco de forças deles. E a pessoa ideal é o governador de Pernambuco.

Valor: E por quê?

Jarbas: Primeiro porque a pecha de direita nele não pega. Tem formação de esquerda clara, respeitada e enaltecida por Lula. E a marca dele tem sido a ousadia. Percorreu um caminho da modernidade, atrai o setor empresarial e formadores de opinião pública de classe média, que reconhecem que o Brasil avançou, mas por um caminho tortuoso e incompleto. Houve melhoria de renda, as políticas sociais avançaram, mas o Brasil continua ruim na educação e péssimo na saúde. E a qualificação do emprego ainda é muito complicada. O Brasil precisa de ousadia, modernidade, competitividade, investimento em educação. O governador tem feito isso no Estado. Em Pernambuco lutava contra o PT e o PSB, mas a gente tem que escolher o adversário, foi o que fiz

Valor: O discurso, então, será o de avançar mais que Lula e Dilma?

Jarbas: Ele percebeu que essa coisa [governo do PT] é precária. Eu nunca vi Eduardo dizer que Lula e Dilma deixaram de avançar. Ele diz que participou disso aí [da eleição dos dois], que o país avançou, mas poderia ter avançado muito mais. Qualquer pessoa de bom senso sabe que o Brasil poderia ter avançado muito mais, se não fossem as loucuras de Lula. A mais recente culminou com a insanidade de lançar Dilma à reeleição com tanta antecedência, prestando um desserviço ao Brasil. Não havia necessidade de fazer isso agora, que Dilma está caminhando com as próprias pernas. Com esse lançamento, ele embaraça Dilma, porque o que ela fizer a partir de agora vai parecer eleitoral. E arrastou a oposição, debilitada e frágil, para essa luta. A oposição nem é articulada nem é forte. Não faz nenhum mal dizer isso. Eduardo surgiu muito em cima desse quadro. O Estado não pode ser instrumentalizado como está sendo. É justo o que fizeram com a Petrobras? A Petrobras pode até ter tido algum desvio em governos anteriores, mas não dessa monta, assim como o BNDES está sendo usado para dar dinheiro para empresas precárias.

Valor: Outros pemedebistas insatisfeitos com o atual comando do partido podem aderir a Eduardo Campos?

Jarbas: Vou ajudar nessa questão do PMDB. Há algumas pessoas inconformadas com a última convenção do PMDB [que reconduziu o vice-presidente da República, Michel Temer, para a presidência da legenda], que não foram contempladas. Pessoas que têm história dentro do partido, como as do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Mato Grosso do Sul. Vou tentar reunir essas pessoas e levá-las para ouvir Eduardo, o que ele pensa do Brasil, porque é dissidente do governo e porque acha que pode fazer mais. Acho que está todo mundo interessado em ouvir. É uma avalanche de pessoas interessadas em conversar com ele, ouvi-lo.

Valor: Por que não optar por Aécio?

Jarbas: A gente [da oposição] já demonstrou que não tem força. A gente já foi de Serra e Alckmin, mas o PSDB sequer faz a tarefa de buscar unidade, pacificar. O problema não é restrição a Aécio. Se o PSDB, o maior partido da oposição, não tem pacificação, como é que quer ter um candidato que atraia e unifique a gente?

Valor: Aécio e Serra tiveram uma conversa de três horas. O senhor não acredita em entendimento?

Jarbas: Acho que estão tentando, mas isso devia ter sido vencido, superado. Está tarde.

Valor: As dificuldades da candidatura de Aécio são maiores?

Jarbas: Aécio foi vítima da desarticulação da oposição de um modo geral e dos desencontros do PSDB. Ele não vai mudar o seu estilo. É uma pessoa cordata, civilizada, que jamais vai ser agressivo, contundente. Se ele tivesse encontrado uma oposição mais organizada, dura e combatente, e um partido modificado, é bem provável que tivesse despontado.

Valor: Eduardo Campos pode conquistar boa fatia da oposição?

Jarbas: Sim. Ele não iniciou a jornada, mas está no portal de uma estrada grande, rica e bonita, e vai depender muito dele e da gente, de quem estiver junto dele. Vamos ter um ano muito difícil em 2013, tanto a oposição como Dilma. Ela talvez muito mais que a gente, porque tem a caneta e o poder. A gente vai conviver com a inflação dando sinais de recrudescimento e falta de controle, um Produto Interno Bruto que foi vergonhoso e, se não tiver cuidado, se repete. Tem o problema da industrialização do país, precária, e a falta de competitividade. E o pior, o quinto problema: a questão pontual como ela comanda a área econômica. A economia de um país emergente e continental como o Brasil não pode ser administrada de forma pontual. Tem que ter planejamento estratégico, uma pessoa que fale menos do que o ministro da fazenda e um Banco Central mais centralizado. E tem a falta de investimento no setor elétrico. Imagine se esse país estivesse crescendo a todo vapor? Teria racionamento há muito tempo. Os portos e aeroportos não funcionam, as estradas estão intransitáveis, não tem estrada de ferro. Na proporção que [essa situação de dificuldades] crescer, havendo uma perspectiva de poder, ninguém vai se iludir. Pesquisa de opinião dando Dilma lá em cima não vai mexer com ninguém. Eduardo é uma alternativa concreta.

Valor: Ele é pouco conhecido e o partido é pequeno, enquanto o PSDB, mesmo dividido, é maior, já ocupou a Presidência da República, governa Estados importantes. Como compensar isso?

Jarbas: Eduardo está num partido menor, num conjunto de forças menor, mas o tempo é favorável a ele. A gente já analisou isso. É bem dotada, inteligente, ousada. Sabe que vai ter tempo de debate. É importante ter as outras candidaturas, como Aécio e Marina Silva, para provocar o segundo turno. No segundo turno vai ser uma leitura interessante. A pergunta será: você quer continuar com isso aí, que avançou, mas não o suficiente?

Valor: E o ex-governador José Serra, de quem o senhor é amigo e sempre foi aliado político, está fora do processo eleitoral?

Jarbas: Não. Não acho que esteja fora do jogo, mas tem que ser buscado. Ele não teve um tratamento adequado após a eleição. Não tenho por que fazer ataques ao PSDB, mas estou dando minha opinião. Sou aliado e amigo. O PSDB está na obrigação de resolver isso, pacificar. Vou a São Paulo falar com ele em dez ou 15 dias. A gente tem uma deficiência grande de quadros. E quem tem uma pessoa como Serra nas suas hostes - e não estou falando só do PSDB, mas da oposição - não pode deixá-lo à margem. Serra tem que opinar, ser ouvido. Já disse e reitero: se tem um brasileiro preparado para dirigir o país, é Serra. Se ele vai ser ou não candidato à Presidência pela terceira vez, é outra coisa.

Valor: Se ele apoiar Aécio, vocês não estarão no mesmo palanque?

Jarbas: Estaremos apoiando candidatos diferentes. Mas farei o possível para ficarmos juntos.

Valor: Acredita que pode atraí-lo para o projeto de Eduardo Campos?

Jarbas: Está no meu papel tentar fazer isso. Quando a gente entra numa luta, entra para isso. Agora, vou respeitar a questão dele. Se Serra se ajusta diante do PSDB, passa a ser ouvido e a ser uma voz dentro do PSDB, não cabe a mim tentar puxá-lo. Não vou puxar uma pessoa com a capacidade e a dimensão do Serra para vir para o meu lado. Só posso fazer isso se ele estiver numa situação de desconforto. Aí eu faço. Mas espero que ele supere esses problemas dentro do partido.

Fonte: Valor Econômico

Campos se encontra com Serra em SP e irrita Aécio

Em movimento para viabilizar sua candidatura à Presidência, o governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB, Eduardo Campos, encontrou- se com José Serra (PSDB), sexta-feira, em São Paulo. A aproximação com o tucano ocorre no momento em que o senador Aécio Neves (MG) administra descontentamentos no PSDB que ameaçam seu projeto eleitoral em 2014. Aécio teria ficado "estupefato" ao saber do encontro.

Em novo lance, Eduardo Campos se aproxima de Serra e deixa PT inquieto

Malu Delgado, Bruno Boghossian e Bruno Lupion

Na prospecção para viabilizar a candidatura à Presidência em 2014, o governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB, Eduardo Campos, encontrou-se com o ex-governador José Serra (PSDB) na última sexta-feira, em São Paulo. A aproximação com o tucano ocorre num momento estratégico para Campos, em que o presidenciável do PSDB, Aécio Neves (MG), é obrigado a administrar descontentamentos internos do próprio Serra que ameaçam seu projeto eleitoral em 2014.

Os movimentos de Campos em direção a Serra provocaram fortes reações no PT e na ala do PSDB ligada a Aécio Neves.

Ainda que o PT tenha o conforto da popularidade da presidente Dilma Rousseff (63% aprovam a gestão e 79% aprovam a petista, segundo o CNI/Ibope), candidata à reeleição, petistas sabem que a disputa em dois turnos é incerta e trabalhosa. Tanto o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto Dilma tiveram de enfrentar segundos turnos com o PSDB para chegarem ao poder.

Segundo aliados do governador pernambucano, não há como ele medir as condições para se lançar candidato em 2014 sem considerar os passos da oposição. Um auxiliar de Eduardo Campos resume assim a ofensiva: "Para os tucanos, é bom que ele se candidate. Para ele, é bom flertar com o PSDB".

Campos já disse aos tucanos que tem interesse na manutenção da candidatura de Aécio. O presidente do PSB acredita que o nome do tucano na uma eletrônica ajuda a afastar a imagem de que ele seria um candidato de oposição a Dilma - papel desempenhado pela chapa do PSDB.

Aécio. O Estado apurou que Aécio soube nesta semana sobre o encontro de Campos e Serra, e teria ficado "estupefato", segundo um correligionário do tucano. Chegou ao mineiro a informação de que o encontro entre os dois fora intermediado pelo ex-senador catarinense Jorge Bornhausen (PSD).
"O eleitor nordestino é petista e dilmista e não vai entender Campos em oposição a Dilma", afirmou ontem o deputado federal e secretário-geral do PT, Paulo Teixeira, durante reunião da executiva nacional do partido em São Paulo. O petista citou a pesquisa CNI/Ibope divulgada na terça-feira, para afirmar que Campos não conseguirá viabilizar sua candidatura.

A colocação de Campos como candidato é um fato, na avaliação de um grupo de petistas, que poderia forçar um segundo turno em 2014.

O presidente nacional do PT, Rui Falcão, minimizou ontem os movimentos do aliado Eduardo Campos em direção aos tucanos, ainda que internamente o assunto sempre entre na pauta: "Ele é um líder nacional e é um direito dele se reunir com quem ; bem entender".

Palanque. A aproximação com José Serra faz parte de um movimento do pernambucano em busca de espaço no Sudeste. O PSB de Eduardo Campos já é aliado do governador Geraldo Alckmin e integra a coalizão tucana. Os aliados do presidente do PSB acreditam que Serra ainda tem influência eleitoral em São Paulo - apesar da derrota em 2012 - e que mantém boas relações com prefeitos de grandes cidades do interior paulista, o que poderia ajudar Eduardo Campos caso ele se aventure numa eleição presidencial e caso vá para o segundo turno. A novidade da candidatura de Campos, dizem aliados do governador, o torna um nome mais viável que Aécio em 2014.

Ter boa relação com tucanos em São Paulo é fundamental para o projeto de Eduardo Campos. Tanto que também está em curso nos bastidores uma negociação para o PSB apoiar a reeleição de Geraldo Alckmin e, em troca, obter a vaga de vice na chapa - o que abriria espaço para uma campanha casada entre Campos e Alckmin no Estado.

Alckmin e Serra não são do mesmo grupo político no PSDB e o governador tucano não assumiu até hoje uma postura explícita pró-candidatura Aécio Neves. Por via das dúvidas, Eduardo Campos flerta com as duas alas tucanas. Para Alckmin, uma coligação com o PSB na disputa pelo governo de São Paulo garantiria mais 1min04s em cada bloco de sua propaganda eleitoral de TV.

História. Serra é amigo dos Arraes desde a década de 60, quando chegou à presidência da UNE em 1964 com ajuda do então governador Miguel Arraes, avô de Campos. O governador manteve boa relação com Serra ao longo dos anos, apesar de ter se posicionado a favor de Dilma em 2010 quando o PSDB, com Serra candidato, pôs o tema aborto na campanha para atingir a petista. Em 2012, pressionado por Lula, Campos levou o PSB a apoiar Fernando Haddad contra Serra.

Ao chegar à reunião da executiva nacional do PT ontem, Francisco Rocha, coordenador da corrente CNB (Construindo um Novo Brasil), majoritária no partido, afirmou que Campos está indo na contramão de sua história política e da militância de sua família em Pernambuco. O petista cobrou coerência ideológica do aliado. "Agora vai sair de uma trajetória que é histórica na vida dele e da família dele para se agarrar com o Zé Serra em São Paulo? É demais para a minha cabeça", afirmou Rochinha. Segundo ele, o encontro entre Campos e Serra "mostra que os dois estão com problemas". "Na política, o Eduardo Campos não tem limites", emendou, citando também a aproximação do pernambucano com o senador de oposição Jarbas Vasconcelos (PMDB).

Fonte: O Estado de S. Paulo

Campos encontra Serra na busca de palanque em SP

Líder do PSB aproveita descontentamento do tucano com comando do PSDB

Gustavo Uribe, Germano Oliveira

SÃO PAULO - Em busca de uma composição que viabilize um palanque em São Paulo, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, reuniu-se na sexta-feira passada, na capital paulista, com o ex-governador José Serra. No encontro, foi discutido, segundo aliados de ambos, o cenário eleitoral do ano que vem, a economia nacional e o papel da oposição no Brasil. A reunião não foi informada ao governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que soube apenas ontem do encontro. Na avaliação de tucanos, o líder do PSB quer aproveitar o descontentamento de Serra com o comando do PSDB para obter o apoio de parcela da sigla em São Paulo.

O PSB faz parte da base aliada de Alckmin na Assembleia Legislativa e está à frente de 30 prefeituras, a maior parte delas em composição com o PSDB. O diagnóstico é de que, caso se lance candidato, o governador de Pernambuco precisará de um palanque no estado, que poderá ser o de Gilberto Kassab (PSD), candidato ao governo estadual, e aliado de Serra.

Nos últimos meses, o dirigente do PSB tem articulado cada vez mais encontros com empresários e políticos. No próximo dia 5, por exemplo, falará a prefeitos em Santos, em evento que terá a participação também de Aécio Neves, pré-candidato do PSDB a presidente. Apesar da movimentação de Campos, o secretário-geral do PT, Paulo Teixeira, disse ontem, na reunião da Executiva do partido, que o voto no Nordeste é "petista" e "dilmista", e que o governador de Pernambuco terá dificuldade de viabilizar sua candidatura à Presidência.

Fonte: O Globo

Candidatura de Campos é 'boa', diz Serra

Após encontro com governador, tucano afirma que presença dele na disputa seria boa 'para o Brasil e para a política'

Aproximação ocorre no momento em que a cúpula do PSDB tenta viabilizar Aécio Neves, desafeto de Serra

Daniela Lima

SÃO PAULO - Um dos principais nomes do PSDB, o ex-governador José Serra disse ontem à Folha que a candidatura do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), à Presidência da República nas eleições de 2014 seria "boa para o Brasil e boa para a política".

Serra, que tem evitado discutir em público o cenário político nacional e concorreu duas vezes ao Planalto por seu partido, deu a declaração ao confirmar que se reuniu com Campos na última sexta-feira, em sua casa, na capital paulista. O encontro foi revelado pela colunista da Folha Eliane Cantanhêde.

A assessoria de Campos disse que se tratou de "uma conversa sobre o Brasil". A versão do ex-governador de São Paulo vai na mesma linha. "Foi uma conversa cordial sobre o Brasil, a política e a economia", disse Serra.

O tucano negou que, durante o encontro, Campos tenha falado sobre sua candidatura presidencial ou discutido alianças eleitorais.

Serra disse que, "apesar do distanciamento político", foi muito amigo do avô de Campos, o governador Miguel Arraes (1916-2005), e que recebeu abrigo da família em Paris na ditadura militar, quando os dois estavam exilados.

A aproximação de Serra e Campos ocorre num momento em que a cúpula do PSDB trabalha para viabilizar a candidatura do senador mineiro Aécio Neves. Seus aliados veem como maior obstáculo ao projeto a falta de unidade na sigla em torno do senador.

Serra e Aécio são desafetos. Eles se encontraram na última segunda-feira em São Paulo, mas a conversa resultou apenas no acerto de um novo encontro, em abril. Aécio chega hoje a São Paulo para uma nova rodada de conversas com líderes tucanos.

Presidente nacional do PSB, Eduardo Campos ainda não admite ser candidato à Presidência, mas dá cada vez mais sinais de que vai concorrer contra Dilma Rousseff.

O PSB é parte da coalizão que sustenta o governo Dilma, mas nos últimos meses Campos criticou publicamente a condução da economia. Um dia antes do encontro com Serra, num jantar com empresários, Campos disse que dá para fazer "muito mais" que o atual governo.

Às críticas à política econômica se somaram movimentos de aproximação com a oposição. O pernambucano já esteve com o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) e mantém conversas frequentes com o presidente do PPS, deputado Roberto Freire (PE). Campos também despertou a simpatia de alas do DEM.

Os acenos de Campos a esses setores perturbam aliados de Aécio. Eles temem eventual divisão na oposição, o que poderia fragilizar o mineiro.

Segundo tucanos próximos a Serra, ele tem dito que Campos não prejudica o PSDB, porque ajudaria a tirar votos de Dilma e forçar a realização de um segundo turno nas eleições presidenciais. Alckmin concorda com essa avaliação.

Fonte: Folha de S. Paulo

Revista receita 'remédio de Minas' ao Brasil

Fernando Nakagawa

LONDRES - A revista britânica The Economist publicou reportagem elogiosa ao senador Aécio Neves, presidenciável do PSDB em 2014, na edição que começou a ser vendida ontem no Reino Unido. Com o título "O remédio de Minas", a publicação diz que Aécio executou um "choque de gestão" em Minas Gerais.

"Graças, em parte, a esse sucesso em Minas Gerais, Mr. Neves está perto de se tornar o candidato do PSDB, o principal partido da oposição, na eleição presidencial do próximo ano", diz o texto. A reportagem sugere que a gestão do tucano pode ser positiva para o Brasil. "Uma dose do remédio de Minas pode fazer bem ao Brasil." Segundo a revista, Aécio usa como lema "gastar menos no governo e mais nos cidadãos".

O texto também contrapõe o "emagrecimento" da máquina pública que Aécio produziu em Minas ao "inchaço" da esfera federal. "Desde que o PT assumiu o poder o número de ministérios aumentou de 26 para 40 e a folha de pagamento cresce incansavelmente."

Fonte: O Estado de S. Paulo

Aécio administra pressões para montar novo comando do PSDB

João Domingos

BRASÍLIA - Sem resolver a crise de desconfiança entre os grupos de Minas Gerais e de São Paulo, o PSDB ainda tem de administrar a ameaça de cisão no partido na véspera da eleição do novo presidente, ao que tudo indica, o senador mineiro Aécio Neves. Nos bastidores, aposta-se que o atual vice- presidente da executiva nacional, o ex-governador Alberto Goldman (São Paulo), será convidado a permanecer no cargo.

Aliado de José Serra, Goldman disse ontem, no entanto, que só aceita ser indicado para o mesmo cargo se for para formar o consenso e se houver a certeza de que a futura executiva vai de fato trabalhar e não entrar num "jogo de faz de conta". Segundo ele, "a executiva hoje não funciona como coletivo". Afirmou que no ano passado ela só fez duas reuniões e, neste, tem uma programada para a semana que vem.

O senador mineiro afirmou ontem que, aos poucos, o PSDB está chegando a um consenso sobre a formação da nova executiva nacional do partido, que deverá ser comandada por ele. Lembrou que na segunda-feira terá um novo encontro com o governador Geraldo Alckmin.

Na última terça-feira, Alckmin convidou Aécio a ir até o Palácio dos Bandeirantes. De lá, os dois sairão juntos para um seminário do PSDB.

Manaus. Em outra frente de desgaste, o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, ameaça deixar o PSDB caso seja aprovada a unificação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) interestadual.

Virgílio alega que a Zona Franca de Manaus seria muito prejudicada com a aprovação da proposta enviada pela presidente Dilma Rousseff porque não teria mais tarifa diferenciada.

O governador Geraldo Alckmin apoia a unificação das tarifas, sob o argumento de que ajudará a acabar com a guerra fiscal entre os Estados. Arthur Virgílio havia se estranhado com Alckmin durante a campanha eleitoral porque o governador defendeu a extinção da Zona Franca. Na época, ele também ameaçou deixar o partido.

Arthur Virgílio já foi procurado pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos, também presidente do PSB, que vem trabalhando a montagem de palanques diversos nos Estados na tentativa de viabilizar sua candidatura a presidente da República. Campos conversou na sexta-feira também com José Serra, que tem comandado a resistência à passagem do comando tucano aos mineiros. Mas Aécio reagiu e foi a Serra na segunda-feira seguinte, obtendo do ex-governador á promessa de que o partido não vai rachar.

Aécio disse ontem que Arthur Virgílio não sairá do partido. "Vamos conversar na semana que vem. Eu tenho certeza de que ele será um dos principais pontas - de lança de nosso projeto de apresentar novas propostas para o Brasil na disputa do ano que vem", afirmou o senador.

Aécio lembrou ainda que o projeto que propõe a unificação do ICMS é polêmico e não deverá ter um desfecho rápido, porque não há consenso entre os governadores.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Palanque armado para Dilma

Débora Duque

Uma estrutura grandiosa começou a ser montada ontem para o evento da próxima segunda-feira (25) em que a presidente Dilma Rousseff (PT) fará a inauguração simbólica da Adutora do Pajeú, obra hídrica que está funcionando desde o pós Carnaval. Um palco está sendo armado no Parque de Exposições e a expectativa do prefeito Luciano Duque (PT) é de que 10 mil pessoas visitem o local para ver e ouvir a presidente, potencial candidata à reeleição em 2014. Associações de moradores e sindicatos de trabalhadores estão sendo mobilizados para arregimentar a claque que aplaudirá a petista, que volta a Pernambuco um ano depois da última visita e com um cenário político repleto de constrangimentos. A maré de sorte da presidente é tanta que até choveu em Serra Talhada ontem. "Uma chuva boa, que deu para deixar a vegetação bem verdinha", comemorou Duque.

O prefeito que tem crescido como liderança política do partido - chegou ao PT há pouco mais de um ano, vindo do PR -, defende a postura da presidente de ignorar as investidas do governador Eduardo Campos (PSB) no cenário nacional, buscando se cacifar para disputar o posto máximo da República em 2014. Para Luciano Duque, Dilma está demonstrando muita tranqüilidade quando escolhe vir a Pernambuco nesse momento. "Repare que ela não demitiu uma só pessoa do PSB da gestão federal. Está sendo muito sabida, agindo tranquilamente. Acredito que o melhor disso virá depois. Tenho convicção de que o governador continuará no nosso campo político e na aliança com o PT", afirmou.

Somente da área rural de Serra Talhada são esperadas cinco mil pessoas. O evento também deve atrair moradores dos municípios vizinhos como Salgueiro, Cabrobó e Floresta. Ainda que elogie a postura da presidente, Luciano Duque evita entrar em rota de coalizão com o governador pernambucano. O prefeito entende como legítima a postura do governador de criticar a gestão Dilma. "O que o governador está fazendo é discutir os problemas do Brasil e isso é válido. Quem não joga, não tem torcida. Mas da mesma forma que o governador tem um projeto para o País, o PT tem um projeto de muitos anos que está dando certo", sentenciou.

A entrega simbólica da adutora está marcada para às 10h30. A comitiva da presidente contará com o reforço do ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho (PSB), que tem atuado como bombeiro na relação da presidente com o governador. O senador petista Humberto Costa, interlocutor constante do ministro, e o deputado federal João Paulo (PT) também estarão presentes.

Almoço com Eduardo ainda indefinido

A passagem da presidente Dilma Roussef (PT) por Pernambuco, na segunda-feira (25), deve ir muito além dos atos públicos e administrativos. Apesar da agenda corrida, a petista recebeu um convite oficial da assessoria do governador Eduardo Campos (PSB) para um almoço em sua residência. O cerimonial do Planalto ainda não confirmou a presença da presidente. O encontro de caráter mais reservado aconteceria durante o intervalo dos eventos em Serra Talhada, Sertão do Pajeú, e em São Lourenço da Mata, Grande Recife.

Do lado presidencial, uma das questões que estão sendo avaliadas é o tempo para conciliar todos os compromissos em território pernambucano num único dia. Seu desembarque acontecerá, pela manhã, no aeroporto do município de Salgueiro, Sertão Central. De lá, a previsão é que ela siga de helicóptero para Serra Talhada, no Sertão do Pajeú, onde participará, às 10h30, da inauguração da primeira etapa da Adutora do Pajeú. Ao lado do ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra Coelho (PSB), Dilma também deve anunciar novas ações de enfrentamento à seca.

Caso confirme sua ida ao almoço com o governador, ela retorna ao Recife e, em seguida, parte para São Lourenço da Mata, onde inaugura um novo trecho da BR-408, que liga à Cidade Copa. O evento está marcado para as 15h30.

Os detalhes da programação da visita presidencial serão apresentados hoje pela equipe do Palácio do Planalto. A coletiva acontecerá às 16h no hotel Atlante Plaza, em Boa Viagem. A equipe de precursores da Presidência chegou ontem ao Recife para traçar o roteiro que será percorrido por Dilma. Por enquanto, não consta na agenda a participação em atos públicos no Recife. A expectativa é que ela retorne a Brasília na noite de segunda.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

A guerra pelo comando do PT

Rachas internos do partido passam a ser expostos com a formalizações de candidatura para a presidência da legenda

Karla Correia

A corrente petista Mensagem ao Partido deve formalizar hoje a candidatura do deputado Paulo Teixeira (SP) à presidência da legenda, na eleição interna que acontece em novembro deste ano. A coincidência entre o início da próxima gestão e o ano da campanha da presidente Dilma Rousseff pela reeleição tende a acirrar a disputa e evidencia, desde já, os rachas internos.

Sem alarde, outras correntes petistas, situadas mais à esquerda no espectro intrapartidário, já negociam nos bastidores o lançamento de outras candidaturas para fazer frente ao atual comandante da sigla, Rui Falcão, que disputará a reeleição como representante da ala majoritária do PT, reunindo as tendências Construindo um Novo Brasil (CNB), Novo Rumo e Partido de Lutas e Massas, e com o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Integrante da corrente Novos Rumos, Falcão assumiu a presidência do partido em abril de 2011 no lugar de José Eduardo Dutra. Um dos principais interlocutores de Dilma no início do governo, Dutra derrotou José Eduardo Cardozo - atual ministro da Justiça e outro conselheiro frequente da presidente - no processo de eleição direta (PED) de 2009.

Teixeira deve ser apenas o primeiro candidato a despontar como oposição a Falcão. Comandante da corrente Militância Socialista, Renato Simões é cotado para disputar o cargo no PED marcado para 6 de novembro. A tendência Articulação de Esquerda trabalha pelo nome de Valter Pomar para o comando do PT. Já a Movimento PT, à qual pertencem a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, e o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (SP), estuda lançar a deputada Fátima Bezerra (RN) para a disputa.

A candidatura de Paulo Teixeira reunirá a Mensagem ao Partido, comandada pelo governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, à Democracia Socialista. As duas correntes já disputaram duas vezes consecutivas o PED com de Eduardo Cardozo. Foram derrotadas nas duas vezes pela CNB. Principal líder da Mensagem, Tarso Genro assumiu a presidência do PT em 2005, logo depois do escândalo do mensalão, adotando um discurso de defesa da refundação do partido.

Na disputa oito anos depois, Teixeira evita fazer qualquer menção ao mensalão e coloca a reeleição de Dilma como projeto fundamental da legenda. “Para essa eleição, a principal proposta será a apresentação de um programa que dê suporte à campanha de Dilma Rousseff pela reeleição”, diz Teixeira. “As duas correntes têm dado contribuições valiosas à trajetória do PT e acredito que este seja o momento para que essas contribuições sejam reconhecidas pelo partido”, afirma o deputado.

Em um momento em que o PT busca “virar a página” em relação ao mensalão e ao julgamento da Ação Penal 470, no Supremo Tribunal Federal (STF), o discurso da tendência adota contornos mais suaves. Mudanças drásticas, como as defendidas por Tarso Genro em 2005, também não fazem parte da plataforma de Teixeira, que apoia bandeiras já tradicionais do partido, como a reforma política e a regulamentação de um controle social para os meios de comunicação.

Revista britânica elogia Aécio

The Economist, uma das principais revistas da Inglaterra, sugeriu em reportagem desta semana, que a eleição do senador Aécio Neves (PSDB-MG), em 2014, seria uma alternativa para melhorar a economia brasileira. A publicação afirma que, ao assumir o governo de Minas Gerais, em 2002, ele encontrou o estado à beira da falência, com um deficit de R$ 940 milhões, mas formou um grupo de gestão que conseguiu reverter a situação. Entre outras coisas, a revista também assinala que Aécio fundiu secretarias para poder administrar melhor. Entretanto, a The Economist considera que o PSDB, partido pelo qual ele foi eleito e ajudou a eleger seu sucessor, é considerado elitista. “A dose do remédio de Minas pode ser boa para o Brasil, se os sintomas não piorarem rapidamente”, diz a revista.

Fonte: Correio Braziliense

A dramática queda do investimento na indústria - Roberto Freire

Como se já não fossem suficientemente preocupantes o baixo índice de crescimento econômico, os repiques inflacionários, a elevada carga tributária e o acelerado processo de desindustrialização que vêm afetando o país nos últimos anos, uma pesquisa de intenção de investimento feita pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) revela que a indústria brasileira de transformação investirá, em 2013, 9,5% menos do que em 2012. De acordo com o estudo levado a cabo pela entidade junto a 1,2 mil empresas, o valor total de investimentos do setor em nossa economia deverá cair de R$ 218 bilhões para R$ 197,3 bilhões. Os números vêm à tona pouco depois de a presidente Dilma Rousseff anunciar 15 pacotes com medidas para incentivar o setor produtivo, com o alarde e pirotecnia peculiares ao governo petista, incluindo a liberação de R$ 33 milhões para financiar projetos nas áreas de inovação, pesquisa e desenvolvimento.

Neste caso, a propaganda não funcionou mais uma vez. Segundo a pesquisa da Fiesp, os empresários ainda têm muito receio em investir e apontam, entre os principais motivos para a insegurança, o peso dos tributos, a baixa expansão do Produto Interno Bruto (PIB), perda de mercado para produtos importados e falta de infraestrutura adequada. Essa situação desconfortável é resultante das opções equivocadas feitas desde o governo Lula, que escolheu o populismo barato ao incentivar o consumismo para fazer crescer o mercado interno e deixou o investimento em segundo plano. Para piorar, o aumento desenfreado do consumo gerou uma pressão inflacionária que já começa a afetar o bolso dos brasileiros.

O descalabro do setor industrial do país infelizmente não é uma novidade. Em2012, a produção física, que já havia ficado estagnada no ano anterior, caiu 2,8%, e a balança comercial registrou o maior déficit de sua história (US$ 50,6 bilhões).Com isso, a indústria hoje representa apenas 13,3% do PIB brasileiro, o menor percentual dos últimos 50 anos. Só o setor de máquinas e equipamentos deve sofrer uma queda no investimento industrial de 16,4%, passando de R$ 160 bilhões para R$ 133,8 bilhões entre o ano passado e o atual. Um cenário que já é tão preocupante ganha contornos ainda mais dramáticos quando se tem conhecimento de estudos recentes dando conta de que o nível de investimento do Brasil em relação ao PIB é bem inferior ao de outras nações com economias de perfil semelhante, como China, Índia, Colômbia, México, Peru, Rússia e África do Sul. Continuamos no fim da fila, sem perspectivas de mudança enquanto o governo seguir patinando na condução desastrosa de sua política econômica.

O desapontamento com que dez entre dez economistas do país recebem o resultado da pesquisa da Fiesp é curioso e nos remete à reação dessas mesmas pessoas quando foram feitas as primeiras críticas ao modelo econômico adotado por Lula. Na ocasião, embevecidos por níveis de crescimento que já não se mostravam sustentáveis à época, muitos desses especialistas acusavam as vozes dissonantes de torcerem contra o país. Hoje, diante de um cenário desolador, talvez percebam que quem trabalhou contra o desenvolvimento brasileiro foi o próprio governo petista.

Deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS

Fonte: Brasil Econômico

Pacto federativo - Merval Pereira

A disputa pelos royalties do petróleo vai desencadear necessariamente debate mais aprofundado sobre a nova distribuição dos fundos de participação dos estados e dos municípios, que está ocorrendo no Congresso ao mesmo tempo em que se espera a decisão do STF sobre a questão dos royalties. Ambas as discussões deveriam ser feitas juntas, mas o clima emocional impede que se pense o país como um todo no momento em que cada um quer um pedaço de um tesouro que continua enterrado.

É previsível que, seja qual for o resultado do julgamento do STF, continuará havendo insegurança jurídica que pode afetar, no limite, os futuros leilões de áreas exploratórias. O deputado Marcelo Castro, do PMDB do Piauí - o mesmo PMDB do governador Sérgio Cabral -, conseguiu reunir pouco mais de 200 assinaturas e protocolou uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que altera toda a divisão dos royalties decorrentes da exploração de petróleo no mar, incluindo áreas já licitadas e do pré-sal. Pela proposta, 30% dessas receitas ficam com a União; 35%, para todos os estados; e 35%, para os municípios, segundo os critérios dos fundos de participação (FPE e FPM).

A nova emenda constitucional seria a terceira legislação sobre o mesmo tema lançada nos últimos três anos, uma vez que, hoje, temos uma lei (nº 12.734/2012), suspensa por liminar do STF, e uma medida provisória (MP 592/2012), que foi editada pela presidente Dilma na ocasião do veto.

Para o especialista Adriano Pires, da consultoria CBIE, essa incerteza legal/regulatória com certeza terá impacto sobre a decisão das empresas quanto à participação nos futuros leilões. Mesmo que a decisão final do STF saia antes do leilão de maio, o risco regulatório não estará eliminado, analisa ele.

"Caso os estados não produtores saiam perdendo, eles se juntarão à PEC que começa a tramitar. Caso os perdedores sejam os produtores, o risco para as empresas eleva-se ainda mais, já que a Assembleia Legislativa do Estado do Rio sinalizou com a criação de uma taxa, jogando para as empresas o custo da guerra federativa."

Além desses fatores, sempre há o risco de os descontentes impedirem a realização do leilão com liminares de última hora. Na opinião de Pires, toda essa confusão é resultado da falta de empenho da União em resolver o conflito federativo, que se instalou com a mudança no marco regulatório do setor de petróleo após a descoberta do pré-sal. "Não há a menor dúvida de que o montante que a União teria que desembolsar, para resolver a questão e dar segurança jurídica aos investidores é muito menor do que o que já foi gasto com desonerações ou com o financiamento do BNDES para setores ou empresas eleitos pelo governo para serem agraciados", critica.

Já para o economista Mauro Osório, professor da UFRJ, é importante o Estado do Rio "adotar um protagonismo na discussão de um novo pacto federativo para o país". É importante ressaltar, diz ele, que, ao contrário do que alguns pensam, o Estado do Rio não é privilegiado no cenário federativo, em termos da relação receita pública/PIB, estando apenas na 21ª posição.

Ao estudar a receita pública municipal per capita, através de dados do Finbra/MF, Osório destaca que, na média, os municípios fluminenses apresentaram, em 2011, receita pública per capita de R$ 2.160,10, contra receita pública per capita para a totalidade dos municípios do Sudeste de R$ 2.009,67.

Na opinião de Osório, o Estado do Rio deve procurar trazer para a pauta do país a questão federativa, com a discussão sobre o critério dos fundo de participação (FPE e FPM). Para ele, a regra atual é bastante prejudicial aos municípios com grande densidade populacional, o que é um dos motivos que fazem com que São Gonçalo, que conta mais de um milhão de habitantes, tenha apresentado receita pública per capita, em 2011, de apenas R$695,60.

Ao mesmo tempo, devemos discutir, diz o professor, no âmbito do estado, novas formas de distribuição interna dos royalties, entre os municípios, pois ela ocorre de forma muito desequilibrada, inclusive dentro de uma mesma região. No Norte Fluminense, por exemplo, enquanto Quissamã apresentava, em 2011, receita pública per capita de R$10.225,11, São Fidélis apresentava R$1.600,32.

Fonte: O Globo

O jogo de Kassab - Denise Rothenburg

Os pessedistas se preparam para lançar candidatos ao governo de vários estados, inclusive Kassab em São Paulo, de forma a consolidar o partido. Para isso, vão precisar de um suporte que não atrapalhe seus planos. É aí que entra a parceira Dilma

De passagem por Brasília esta semana, o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab comentou com amigos muito reservadamente que pretende concorrer ao governo paulista. A principal justificativa é a velha máxima de que “time que não joga não tem torcida”. Logo, partido que não concorre, não divulga projeto e nem conquista eleitores. Empatado com o PSDB em número de deputados, o PSD se define hoje como a terceira força política do país. Tem raízes no campo, conversa bem com o PSB de Eduardo Campos, mas, para continuar firme no objetivo de se firmar como jogador que tem um diferencial na hora do campeonato, vai continuar com a presidente Dilma Rousseff, em 2014.

Até o momento, seis diretórios do partido já fecharam apoio a presidente, como informa a edição de hoje do Correio: Ceará, Pará, Mato Grosso, Rondônia, Bahia e Rio Grande do Norte. A ideia da cúpula partidária é fechar todos os estados até o fim do ano, a fim de se apresentar numa convenção nacional como um dos primeiros a fechar formalmente o apoio à reeleição da presidente.

Esse entusiasmo todo do PSD com Dilma traz embutido um projeto de poder. Os pessedistas se preparam para lançar candidatos a governos estaduais em vários estados, de forma a consolidar o partido. Tanto é que Kassab pretende sair candidato para servir de inspiração aos demais. E esses candidatos precisarão de um suporte, ou, pelo menos, de alguém que não atrapalhe seus planos. É aí que entra a parceira Dilma.

O cálculo do PSD é que, como parceiro de primeira hora da reeleição da presidente Dilma Rousseff, ela não poderá negar presença nos palanques desses candidatos do PSD pelo país afora, tampouco aquela famosa foto do santinho eleitoral. Ainda que esses candidatos sejam adversários do PT, reza a norma da boa convivência que Dilma circule com petistas e aliados. E, assim, Kassab pretende usar o PT para mostrar seu partido.

Um exemplo dessa necessidade de boa convivência está em Santa Catarina. O governador Raimundo Colombo, hoje no PSD, é candidato à reeleição e aliado da presidente. Logo, Dilma não poderá se dar ao luxo de permanecer apenas ao lado dos petistas liderados pela ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti. O mesmo vale para São Paulo, onde o PT investirá pesado para tomar um nicho de poder tucano, hoje encarnado na figura do governador Geraldo Alckmin.

Enquanto isso, no PT…

Resta saber se os cálculos do PSD vão se confirmar. Conforme dissemos aqui, ontem, a convivência de palanques será o grande teste do PT. Em 2010, os aliados que tentaram essa dupla personalidade da candidata tiveram dificuldade. O exemplo mais notório foi na Bahia. Lá, o então ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, calculou que haveria uma neutralidade de Dilma na campanha, uma vez que ele era aliado. Não deu certo. Os eventos de Geddel com Dilma careciam de emoção e eram todos meio clandestinos. Enquanto isso, a campanha dela com o petista Jaques Wagner era alegre e cheia de energia. Uma questão de afinidade, obviamente, não só de Dilma, muito maior com o seu partido, o PT, do que com qualquer outra agremiação. Veremos como será logo ali.

E o PR, hein…

Frustrada a expectativa do PR de resolver seu espaço no governo esta semana. Assim, Dilma vai cumprindo o script de que, popular, sempre pode ter mais calma para ceder aos aliados, avaliando todos os reflexos de suas atitudes. Agora, tem pelo menos até terça-feira para pensar. Da parte do PR, o roteiro está pronto, a bancada apresentará o nome do deputado Luciano Castro, de Roraima, como o único de consenso.

E o PMDB…

O partido do vice-presidente Michel Temer está contente com a Secretaria de Aviação Civil (SAC) nas mãos de Wellington Moreira Franco, mas reinvidica ainda a Infraero, que continua no lusco-fusco entre o Ministério da Defesa e a SAC. O PMDB deseja, pelo menos, um pedaço da estatal. Até nesses pontos, o PSD promete ser diferente. Kassab tem dito a amigos que, na hora de entrar institucionalmente num hipotético segundo governo Dilma, ela poderá escolher quem quiser para o posto considerar importante. Fica aí escrito para ser cobrado depois.

Fonte: Correio Braziliense

Tira cá, dá lá – Eliane Cantanhêde

A "agenda positiva" do Congresso, que reuniu governadores e depois prefeitos para discutir finanças, evaporou. O que prevalece é a "agenda negativa" de sempre.

O pastor Feliciano, aquele que tem processos, que faz "brincadeiras" racistas e homofóbicas e que irritou a opinião pública nacional, continuava até ontem, impassível, na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Nessa condição, até embaixador estrangeiro recebeu.

O presidente da Câmara, Henrique Alves, tentou botar o partido de Feliciano, o PSC, contra a parede: "Virou um clima de radicalização. Essa Casa tem que primar pelo equilíbrio, pela serenidade, pela objetividade, pelo trabalho parlamentar. Do jeito que está, se tornou insustentável", declarou. Mas não estava dando certo.

Enquanto isso, em vez de "primar pelo equilíbrio, pela serenidade, pela objetividade", a Câmara tratava de recuperar rapidamente os tostões perdidos com o fim, em parte, do 14º e do 15º salários dos parlamentares --além de compensar as recentes mexidas nas horas extras.

De um lado, os deputados aumentavam a cota de atividades parlamentares --ou seja, a cota deles próprios.

De outro, articulavam a criação de 44 novos cargos comissionados (não bastassem os quase 1.500 existentes, segundo o deputado Chico Alencar) e mais 15 funções especiais para servidores de carreira (não bastassem os mais de 10 mil servidores em gabinetes e lideranças, idem).

Basta uma simples máquina de calcular, dessas de somar, diminuir, multiplicar e dividir, para chegar ao resultado desanimador: aquele oba-oba todo do fim do 14º e do 15º foi só para ganhar manchetes e criar ilusões. As despesas continuam, com novos nomes e variados destinos. Tudo, no fundo, fica na mesma.

Quando surgiu a dúvida sobre o que fazer da "sobra" do 15º deste ano, Henrique Alves reagiu: "Não sei. Taí uma boa pergunta". Agora ele sabe, nós sabemos. A resposta da Câmara veio bem rápida.

Fonte: Folha de S. Paulo

Rápidos no gatilho - Dora Kramer

A desfaçatez anda de tal forma despudorada que a Câmara nem esperou esfriarem os corpos dos recentemente extintos dois salários extras por ano, para torná-los cadáveres insepultos na forma de aumento de verbas compensatórias à "perda" de suas excelências.

Há dois tipos de contas a serem feitas: uma é numérica, a outra política. A Câmara fica devendo nas duas.

Com a primeira promete uma economia de R$ 27,4 milhões deixando de pagar os salários adicionais, mas vai gastar quase tudo (R$ 21 milhões) só com o reajuste daquela cota para despesas extraordinárias que não raro é usada para gastos ordinários - no sentido pejorativo do termo.

Isso sem falar na criação de novos cargos (59), duas novas estruturas (Corregedoria Autônoma e Centro de Estudos e Debates Estratégicos da Casa). A título de verniz, criou-se um tipo de ponto para controlar melhor o pagamento de horas extras dos funcionários do Legislativo.

Positivo? Sem dúvida, mas risível e até provocativo o aperto em face do afrouxamento na rubrica das benesses aos parlamentares que, segundo pesquisa recente, estão em segundo lugar entre os mais caros do mundo.

Mas dizíamos que há uma conta numérica e outra política. Nesta também o saldo é negativo. Confirmou-se a necessidade de adotar parcimônia em elogios quando o Congresso se curva à necessidade de dar cabo a exorbitâncias. Viu-se pela rapidez no gatilho para anular a economia e criação de duas esquisitices.

"Corregedoria Autônoma"? Alto lá: há uma corregedoria em funcionamento e que, pelo visto, foi posta sob desconfiança de atuar sem a necessária independência.

"Centro de Estudos e Debates Estratégicos da Casa"? Espera aí: não seria o Parlamento já um centro de estudos e debates? Não são o estudo e o debate funções do Legislativo junto coma prerrogativa de legislar e fiscalizar?

Ou bem estão sendo criadas instâncias inúteis, ao molde de sinecuras, ou mal estão sendo criadas instâncias com sobreposições de funções. Ao molde de sinecuras.

Ironia do destino. O repórter Felipe Recondo, do Estado, não precisou se envolver em torpeza alguma, como sugeriu o verbo "chafurdar" usado pelo presidente do Supremo Tribunal Federal ao reagir com grosseria à abordagem recente do jornalista, para encontrar um indício do "conluio" entre juizes e advogados de que fala Joaquim Barbosa.

Bastou cumprir o seu papel ao noticiar a existência de e-mail em que um advogado integrante do Conselho Nacional de Justiça informava a um juiz sobre uma decisão que dizia respeito à filha dele.

Ação e pensamento. A presidente exercitou com exuberância o lema do "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço" ao pretender ensinar o padre-nosso ao vigário na visita ao papa Francisco.

Falou dos pobres em viagem de comitiva com 52 pessoas hospedadas em hotel de luxo. Invocou valores em meio à reabilitação de gente afastada do governo na dita "faxina ética" e patrocina distribuição de ministério em troca de apoio eleitoral.

E o pior... É que Marco Feliciano vai ter mais votos do que nunca na próxima eleição. Nesse caso, a pressão constrange, mas não resolve. Ou pode até ter efeito contrário ao pretendido, conferindo mais e mais notoriedade ao deputado junto a determinado tipo de público.

O sentido popularidade não necessariamente se coaduna com o conceito de qualidade.

Aumento de verbas e cargos na Câmara toma salários, extras cadáveres insepultos.

Fonte: O Estado de S. Paulo

O freio de mão da corrida presidencial - Maria Cristina Fernandes

A tonelada da mandioca subiu quase 200% com a safra quebrada pela seca, mas, a julgar pela última pesquisa CNI/Ibope, o nordestino não culpa a presidente Dilma Rousseff pela carestia.

É naquela região, segundo maior colégio eleitoral do país (27% do total), que a presidente colhe seus melhores índices de popularidade. Ruma para se aproximar dos míticos indicadores obtidos por Luiz Inácio Lula da Silva. Naquela região, Lula deixou o governo com 86% de popularidade. Dilma tem 72%.

A presidente alcança esse patamar a despeito do peso que a questão federativa ganhou no debate político. A desoneração, uma das armas das quais este governo tem se valido para enfrentar a economia em crise, reduz os repasses dos impostos compartilhados com Estados e municípios.

Se há um discurso que une políticos da região é que a política industrial de Dilma, mais ampla do que a de seus dois últimos antecessores, é feita à custa dos Estados menos desenvolvidos do país.

Com os devidos matizes de quem pretende disputar audiência nacional, esse discurso incensa o governador de Pernambuco nas rodas de sua vizinhança.

Na sua última incursão brasiliense, deu grande amplitude a outra face do mesmo discurso, a de que políticas federais de grande popularidade são executadas por Estados e municípios que não têm receita para honrar as contrapartidas.

Entra na conta de gastos sociais que lustram a popularidade presidencial às expensas dos cofres locais, por exemplo, o piso nacional de professores.

Com simpatizantes em todos os cantos da Federação, foi esse discurso que deu impulso para a derrubada dos vetos presidenciais à redistribuição dos royalties do petróleo.

É dos representantes dessas regiões que surgem sinalizações de perda de prestígio da presidente entre seus aliados. Esses sinais, propagados em manchetes e colunas de jornal, dão conta de uma base de apoio prestes a se estilhaçar nos cacos de uma sucessão presidencial multipolar.

O cenário se confronta com a pesquisa desta semana que mostra um divórcio ainda por ser compreendido entre os eleitores e seus representantes regionais. Por mais que deputados e governadores se queixem, a popularidade da presidente não apenas resiste como cresce.

As notícias mais lembradas pela população são um caminho para se entender esse divórcio. Foram três as captadas pela pesquisa. A mais lembrada de todas foi o incêndio na boate de Santa Maria que matou 241 pessoas.

A tragédia, ocorrida há quase dois meses, levou uma presidente visivelmente comovida aos leitos das vítimas.

Mas foi nas duas outras notícias mais lembradas, a redução da tarifa de energia e desoneração da cesta básica, que a presidente exercitou a leve mas persistente guinada na sua política de comunicação.

Mais solta no teleprompter, Dilma parecia se dirigir à dona de casa contra interesses de homens "alarmistas", "pessimistas" e "sem fé no Brasil". Seguiu mais ou menos a mesma lógica do Bolsa Família, que escolhe a mãe como titular da conta pela maior probabilidade de que o dinheiro vá parar no supermercado.

O discurso de gênero ficou ainda mais evidente no dia internacional das mulheres, quando anunciou a desoneração da cesta básica.

Aliou o anúncio da medida de impacto direto no dia a dia das famílias com o figurino de paladina da Justiça contra as mulheres vítimas de violência - "Se vocês agem assim por falta de respeito ou por falta de temor, não esqueçam jamais que a maior autoridade deste país é uma mulher, uma mulher que não tem medo de enfrentar os injustos nem a injustiça, estejam onde estiverem".

Foi essa a imagem que a ajudou a conquistar como simpatizantes de seu governo um terço dos eleitores que não a tiveram como primeira escolha em 2010. É como se a presidente tivesse incorporado uma Marina Silva a seu palanque, ainda que não se possa dizer que esses novos simpatizantes resistam ao leque de opções de uma campanha presidencial.

Na imagem milimetricamente construída de Dilma versão 2.14 está embutida a ideia de que a presidente possa vir a ser a herdeira da utopia que em 2010 ainda estava colada em Lula e, se raspou a imagem de algum dos candidatos em disputa, foi a da ex-senadora do PV.

Além disso, seu mandato não registra avanços na pauta dos direitos homossexuais nem da descriminalização do aborto, o que pode confortar parte do eleitorado que dela fugiu por desconfiar da ex-guerrilheira duas vezes divorciada.

Tem muito chão até que esses 63% que a aprovam sejam incorporados como eleitores em 2014. Esse eleitor permanecerá a seu lado se as razões pelas quais aproximou-se da candidata que não era a sua permanecerem. Vai rodar em outra freguesia se esses quase 20 meses que faltam para a reeleição contradisserem aquilo que se viu até agora.

A primeira condição é manter as pessoas empregadas. Pela numeralha de fevereiro, que, além do emprego em alta, mostra 95% dos reajustes acima da inflação (Valor, 21/03), não é improvável que consiga.

A segunda é garantir os direitos do empregado que consome. Pela guerra que se trava em torno do loteamento das agências reguladoras responsáveis pela fiscalização de serviços públicos concedidos à iniciativa privada, é muito difícil que consiga mantê-las a salvo das ingerências.

A terceira das condições que terá a cumprir para fazer coincidir popularidade e voto é segurar as parcelas do eleitorado que ganhou com a faxina do início do governo. A mexida que fez e está por fazer no ministério revela as concessões da presidente para acomodar seus aliados de 2014.

Nesse quesito, a presidente pode acabar se beneficiando de uma carona do Judiciário. Assim como o julgamento do mensalão ajudou, aos olhos da classe média, a mantê-la afastada do petismo tradicional, o foco do Judiciário sobre personagens emblemáticos da aliança governista, como o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), pode acabar fazendo o serviço que a destemida presidente custa a executar.

Fonte: Valor Econômico

Trabalho de casa – Marina Silva

É necessário distinguir o mero crescimento --efêmero, superficial, reversível-- do verdadeiro desenvolvimento econômico e social.

Muitas vezes, o alinhamento político e a busca de resultados imediatos obscurecem a análise de governos e oposições, que se atracam em disputas pelo crescimento em vez de buscarem consenso para estender à sociedade benefícios do desenvolvimento. E não resta dúvida de que, nos últimos 20 anos, mesmo quando o crescimento não foi exuberante, o desenvolvimento econômico do Brasil avançou e vem criando condições para superar fragilidades sociais e históricas.

Tramita agora no Congresso, em fase final de votação, a PEC que equipara os direitos das empregadas domésticas (por que sempre usamos no feminino?) aos dos demais trabalhadores. Sim, temos até hoje um regime trabalhista que divide cidadãos com mais e com menos direitos em função de sua ocupação. Sempre houve um forte apelo para corrigir essa injustiça, mas os mais refratários à ampliação desses direitos sempre evocavam os custos elevados e o receio de que muitos trabalhadores perdessem o emprego. Assim, as conquistas vêm a conta-gotas.

Conheço bem esse drama. Aos 17 anos, quando fui empregada doméstica, não tinha noção do que eram direitos trabalhistas, sentia apenas gratidão pela família que me acolhia em sua casa e me dava emprego. Ainda sou grata, mas sei que milhões de pessoas que realizam o trabalho doméstico não podem constituir um gueto social, numa relação de servidão incrustada no século 21.

Agora temos um contexto favorável. Mais de 15 anos de baixa inflação, com melhoria de distribuição de renda, avanços importantes nos programas de transferência de renda e baixo nível de desemprego são fatores de estabilização do desenvolvimento econômico que fornecem lastro para a conquista de direitos trabalhistas.

Lembro que o senador Suplicy, primeiro a pregar no deserto para convencer a sociedade a adotar programas de renda mínima, já chamava a atenção para esse efeito: o trabalhador, tendo a garantia de uma renda de subsistência, pode rejeitar condições inadequadas de trabalho. Isso vale para o emprego doméstico, mas precisa avançar também em outras situações de extrema precariedade, como carvoarias ilegais e atividades em zonas rurais e remotas. Mesmo nas periferias urbanas persistem situações de trabalho em condições similares à escravidão.

São situações que não deveriam existir mais num país que chega ao século 21 reivindicando o direito de estar no time do Primeiro Mundo.

Transformar o crescimento em desenvolvimento, e dar a esse a sustentabilidade que advém da justiça social, é o trabalho de casa inadiável de nossa sociedade.

Fonte: Folha de S. Paulo

Sinal de alerta - Míriam Leitão

As agências de classificação de risco erram muito, mas desta vez o rebaixamento das notas do BNDES, BNDESPar e Caixa Econômica, pela Moody"s, toca num ponto que tem sido objeto de constante preocupação de vários economistas brasileiros: o uso excessivo dos bancos públicos pelo governo e a criação de distorções pelas alquimias fiscais feitas para fingir que eles estão sendo capitalizados.

O lucro do BNDESPar ficou 93% menor no ano passado. Um espanto, por ser uma carteira com participação das maiores empresas brasileiras. Em algumas, ele tem uma fatia exorbitante do capital. O lucro do BNDES também ficou 9,55% menor e só não caiu mais porque houve jeitinho contábil. O Conselho Monetário Nacional autorizou o banco, no final de 2012, a atualizar com menos frequência o valor das ações que possui. Ele não precisa mais fazer marcação a mercado de um pedaço dos seus ativos. Assim, a ação de uma empresa pode cair na bolsa, que no balanço do BNDES nada muda. O lucro ficou R$ 2,3 bilhões maior por causa disso.

A Caixa Econômica teve lucro de R$ 6,1 bilhões em 2012, com crescimento de 17% sobre o ano anterior. O problema é que, segundo a Austin Rating, também houve jeitinho contábil para se chegar a essa cifra, como mostrou o repórter Ronaldo D"ercole, do GLOBO. Mais de um terço desse lucro, ou R$ 2,6 bilhões, veio de crédito fiscal, uma espécie de abatimento de imposto, feito pela Receita, por créditos provisionados pela Caixa. O montante fugiu ao padrão e foi alto demais para um único ano. A concessão de crédito da Caixa subiu 42%, muito acima da média do resto do mercado. O banco sofreu pressão do governo para empurrar a economia.

O BNDESPar registrou R$ 3,35 bilhões de baixa contábil em 2012 por perda ou desvalorização de ativos que comprou. O caso mais conhecido é o do LBR-Lácteos, uma empresa que não tem ações cotadas em bolsa, e que logo depois de virar sócia do governo entrou em recuperação judicial.

Não é a falta de lucro em determinado ano que induz a um rebaixamento, mas o fato de que os bancos públicos têm sido capitalizados com ativos de baixa liquidez, naquele troca-troca de créditos que o governo tem feito quando tem mais um daqueles surtos de delírio contábil.

Enquanto faz escolhas discutíveis com o valioso dinheiro público, o BNDES vai piorando seu balanço. A dívida do banco com o Tesouro Nacional disparou em cinco anos, de R$ 6,5 bilhões, em 2008, para R$ 371 bi, em janeiro deste ano. Segundo o economista Felipe Salto, da Tendências Consultoria, o custo para o Tesouro com os empréstimos ao BNDES chegou a R$ 15 bilhões no ano passado. É que o governo se endivida a taxas de mercado e empresta ao BNDES ao custo da TJLP. Pega dinheiro mais caro do que empresta, e o prejuízo é transferido para todos nós.

- Trata-se do mesmo valor do programa Bolsa Família. Mas esse gasto não foi aprovado pelo Congresso, nem foi discutido com a sociedade. É um custo que não está devidamente contabilizado no Orçamento - disse o economista.

A Caixa Econômica se envolveu naquela enorme e jamais explicada trapalhada do Banco PanAmericano, quando comprou 49% de um banco que estava falido e que precisou de R$ 4,3 bilhões do Fundo Garantidor de Crédito para não quebrar. Se quebrasse, a Caixa ficaria com os bens indisponíveis. E depois teve que fazer novas operações para fortalecer o banco, depois de salvo.

No começo deste ano, o governo fez uma manobra fiscal complexa em que acabou capitalizando a Caixa com uma série de ações que estavam na BNDESPar. Nisso, ela virou sócia até de frigorífico. O BNDES empresta muito a poucos. O grau de concentração é cada vez mais alto. Essa coluna já tratou inúmeras vezes dos excessivos empréstimos e capitalizações das empresas do grupo JBS para fazer o nosso campeão da carne.

Os casos de piora dos ativos e passivos e de interferência em bancos públicos são muitos. Tudo tem sido assunto para alertas sucessivos de especialistas. O que a Moody"s fez, ao rebaixar o BNDES, BNDESpar e Caixa, é confirmar temores de brasileiros. Seria bom que o governo entendesse do que se fala, afinal de contas.

O número que melhor ilustra o fracasso das injeções de dinheiro no BNDES é a queda de 4% no investimento em 2012. A formação Bruta de Capital Fixo, sinônimo de investimentos, está em queda há dois anos em relação ao PIB: saiu de 19,5% em 2010 para 18,1% em 2012.

Fonte: O Globo

A oportunidade para a ação de pacificar a Síria - Fernando Henrique Cardoso e Martti Ahtisaari

Os Brics deveriam enviar uma mensagem clara a Assad, instando-o a assegurar total acesso humanitário.

E inaceitável que o dia 15 de março tenha assinalado os dois anos de um conflito sangrento e impiedoso na Síria que a comunidade internacional, até agora, não foi capaz de pôr fim.

O sofrimento de cidadãos comuns deveria nos comover e chocar de maneira profunda, tendo em vista as centenas de inocentes mortos diariamente e os milhares - muitos deles crianças abandonadas -fugindo dos combates, em busca de refúgio nos países vizinhos. Mais de 70 mil mortos, 1 milhão de refugiados, 2 milhões de refugiados internos. As estatísticas da ONU não dão conta da amplitude do sofrimento humano. E no entanto, face a este desastre que se agrava a cada dia, as Nações Unidas continuam em um impasse, bloqueadas por três vetos duplos no Conselho de Segurança e incapazes de chegar a um acordo sobre como pôr fim às hostilidades.

Diante de tal situação, o caminho mais fácil seria a desesperança. No entanto, embora não haja respostas fáceis para a crise síria, acreditamos que ainda existem oportunidades para uma mudança positiva de direção. A quinta cúpula anual dos Brics, que reunirá os líderes do Brasil, Rússia, índia, China e África do Sul, em Durban, África do Sul, nos dias 26 e 27, é uma grande oportunidade.

No ano passado, quando os líderes dos Brics se reuniram em Nova Délhi, sua declaração final expressou "profunda preocupação" com a situação na Síria e se comprometeu a "facilitar a adoção de um processo político abrangente liderado pela Síria".

Na medida em que nenhum processo político realista foi posto em prática, a cúpula deste ano é uma oportunidade para as potências mundiais emergentes demonstrarem seu compromisso e solidariedade com o povo da Síria em seu momento de maior necessidade. Fazendo isso, estes países estarão contribuindo para pôr fim à escalada crescente de violência.

O que estamos pedindo, como membros do grupo The Elders, não significa manifestação de apoio ou oposição ao regime de Bashar Assad. Pelo contrário, trata-se de reconhecer os interesses humanitários e dar prioridade à proteção da população civil. O acesso irrestrito da ajuda humanitária a todas as partes do território sírio, coordenado pela ONU e autorizado pelo governo - de modo que a ajuda chegasse qualquer momento, em qualquer lugar e pelos meios mais eficazes - é um chamamento ao qual nenhum líder, na verdade nenhum ser humano, poderia, em sã consciência, negar-se a fazer.

Um problema crítico, sobre o qual tem havido pouco debate público, é que o governo sírio não permitiu à ONU nem a outros organismos internacionalmente reconhecidos a coordenação da assistência através das fronteiras até as áreas onde esta se faz mais urgentemente necessária. De acordo com o direito humanitário internacional, a ONU não pode prestar assistência humanitária sem a autorização do governo do país. Apesar do trabalho corajoso de organizações locais, da ONU, do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e de algumas ONGs internacionais, ainda em condições de trabalhar na Síria, a ajuda continua a não chegar aos que mais precisam dela, encurralados que estão tanto nas áreas controladas pelo governo como pela oposição.

Na cúpula dos Brics, os líderes deveriam enviar uma mensagem clara ao presidente Bashar Assad, instando-o a assegurar às agências da ONU um total acesso humanitário. Este imperativo é ainda mais urgente dado o impasse no Conselho de Segurança da ONU. Deveria ser do interesse, tanto do governo de Damasco como dos que se lhe opõem, garantir que os civis sírios tenham acesso a alimentação, cuidados de saúde e abrigos adequados. Mais importante ainda, deve ficar claro que esta é sua obrigação moral e legal, pela qual poderão ser responsabilizados no futuro, caso não atuem.

Garantir a imparcialidade da ajuda humanitária e sua entrada e circulação por todo o país a cargo da ONU é a única forma de assegurar uma resposta efetiva à escalada.

Se as nações que fazem parte dos Brics chegarem a um acordo sobre uma abordagem comum para lidar com as dimensões humanitárias da crise síria já terão dado uma contribuição importante para a melhoria do bem-estar de milhões de pessoas afetadas pela guerra civil e proporcionarão um grande apoio aos esforços notáveis do nosso companheiro Elder, Lakhdar Brahimi, como enviado de paz.

Supondo que possam mobilizar a vontade política necessária para dar este primeiro passo essencial, encorajamos os líderes do Brasil, Rússia, índia, China e África do Sul a ir mais longe e usar sua influência coletiva para ajudar a alcançar um acordo político na Síria. Tal demonstração de liderança global seria uma grande conquista, a favor do povo da Síria, o que só faria reforçar o prestígio político dos BRICS aos olhos do mundo.

Fernando Henrique Cardoso e ex-presidente do Brasil. Martti Ahtisaari é ex-presidente da Finlândia e prêmio Nobel da paz. Ambos são membros do grupo The Elders (www.theelders.org), que é formando por líderes independentes e trabalha por paz, justiça e direito humanos.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Elizeth Cardoso - Bachianas brasileiras nº 5 (Heitor Vila Lobos

Balada de amor perfeito - Paulo Mendes Campos

Pelo pés das goiabeiras,
pelo braços das mangueiras,
pelas ervas fratricidas,
pelas pimentas ardidas,
fui me aflorando.

Pelos girassóis que comem
giestas de sol e somem,
por marias-sem-vergonha,
dos entretons de quem sonha
fui te aspirando.

Por surpresas balsaminas,
entre as ferrugens de Minas,
por tantas voltas lunárias,
tantas manhãs cineárias,
fui te esperando.

Por miosótis lacustres,
por teus cântaros ilustres,
pelos súbitos espantos
de teus olhos agapantos,
fui te encontrando.

Pelas estampas arcanas
do amor das flores humanas,
pelas legendas candentes
que trazemos nas sementes,
fui te avivando.

Me evadindo das molduras,
de minhas albas escuras,
pelas tuas sensitivas,
açucenas, sempre-vivas,
fui te virando.

Pela rosa e o resedá,
pelo trevo que não há,
pela torta linha reta
da cravina do poeta,
fui te levando.

Pelas frestas das lianas
de tuas crespas pestanas,
pela trança rebelada
sobre o paredão do nada,
fui te enredando.

Pelas braçadas de malvas,
pelas assembléias alvas
de teus dentes comovidos
pelo caule dos gemidos
fui te enflorando.

Pelas fímbrias de teu húmus,
pelos reclames dos sumos,
sobre as umbelas pequenas
de tuas tensas verbenas,
fui me plantando.

Por tuas arestas góticas,
pelas orquídeas eróticas,
por tuas hastes ossudas,
pelas ânforas carnudas,
fui te escalando.

Por teus pistilos eretos,
por teus acúleos secretos,
pelas úsneas clandestinas
das virilhas de boninas,
fui me criando.

Pelos favores mordentes
das ogivas redolentes,
pelo sereno das zínias,
pelos lábios de glicínias,
fui te sugando.

Pelas tardes de perfil,
pelos pasmados de abril,
pelos parques do que somos,
com seus bruscos cinamomos,
fui me espaçando.

Pelas violas do fim,
nas esquinas do jasmim,
pela chama dos encantos
de fugazes amarantos,
fui me apagando.

Afetando ares e mares
pelas mimosas vulgares
pelos fungos do meu mal,
do teu reino vegetal
fui me afastando.

Pelas gloxínias vivazes,
com seus labelos vorazes,
pelo flor que desata,
pela lélia purpurata,
fui me arrastando.

Pelas papoulas da cama,
que vão fumando quem ama,
pelas dúvidas rasteiras
de volúveis trepadeiras
fui te deixando.

Pelas brenhas, pelas damas
de uma noite, pelos dramas
das raízes retorcidas,
pelas sultanas cuspidas,
fui te olvidando.

Pelas atonalidades
das perpétuas, das saudades,
pelos goivos do meu peito,
pela luz do amor perfeito,
vou te buscando.

Paulo Mendes Campos (Belo Horizonte, 28 de fevereiro de 1922 - Rio de Janeiro, 1 de julho de 1991) - Além de poeta, foi cronista, jornalista e tradutor. Publicou em poesia: 'A Palavra Escrita', 'Testamento do Brasil' e 'O Domingo Azul do Mar'. Destacou-se nas crônicas, que, ao lado de Rubem Braga, Fernando Sabino e outros, mudaram a maneira de fazer crônicas no Brasil. Diversos livros com reuniões de suas crônicas como 'O Cego de Ipanema', 'Os bares morrem numa quarta feira', foram republicados.