terça-feira, 2 de setembro de 2014

Agripino já fala em apoiar Marina no 2º turno

• Coordenador de campanha de Aécio afirma que prioridade é derrotar "o mal maior, que é o PT", e irrita tucanos

- O Globo

SÃO PAULO e BRASÍLIA - Criou mal-estar no ninho tucano a declaração do coordenador da campanha de Aécio Neves à Presidência, Agripino Maia, que ontem acenou com apoio à ex-senadora Marina Silva, candidata do PSB, num eventual segundo turno entre ela e a presidente Dilma Rousseff. Diante da queda de Aécio nas pesquisas, Agripino reforçou o temor da campanha tucana de ficar para trás na corrida eleitoral, hoje liderada por PT e PSB.

- O sentimento que nos move e nos mantém unidos - PSDB, DEM e Solidariedade - é garantir a ida de Aécio para o segundo turno. Se não for possível, avalizar a transição para o segundo turno. Ou seja, com uma aliança com Marina Silva, por exemplo. É tudo contra um mal maior, que é o PT - disse Agripino, em entrevista publicada ontem no site do jornal "O Estado de S. Paulo".

Um dos coordenadores da campanha de Aécio, Alberto Goldman, classificou de "inconveniente" a declaração.

- Foi uma frase inconveniente, uma bobagem. Não se usa "se" em campanha - disse Goldman, em tom ríspido, ao chegar ontem ao debate entre os candidatos à Presidência.

Aécio evita comentar
Na saída do debate, questionado se apoiaria Marina no segundo turno, o candidato Aécio Neves respondeu:

- Eu prefiro estar no segundo turno.

O presidente do diretório regional do PSDB em São Paulo, Duarte Nogueira, procurou minimizar os efeitos danosos da declaração à campanha tucana. Após afirmar que "nem a Dilma está no segundo turno", disparou:

- Essa parte mediúnica não está do nosso lado.

Um líder tucano, que também foi ontem ao debate, desdenhou da participação de Agripino na campanha:

- Ele nem é do PSDB.

Aécio, por sua vez, evitou entrar na polêmica, em entrevista pouco antes de sua participação no debate.

- Não conheço essa declaração. Nós temos uma proposta para o Brasil. E, por ser a melhor para o Brasil, estou extremamente confiante de que será a vitoriosa. Nós buscaremos o apoio da sociedade brasileira também no segundo turno. No momento da reflexão maior, no momento da decisão do voto, vai prevalecer dentro daquelas alternativas que se colocam como mudança, aquela que é capaz de transformar esse sentimento de mudança em algo real e melhor para a vida dos brasileiros - afirmou.

R$ 43 milhões arrecadados
Numa clara crítica a Marina, o candidato do PSDB afirmou ainda que não quer "apresentar só sonhos à sociedade brasileira". A mudança de tom reflete uma nova tendência na campanha tucana, a de concentrar todos os esforços em tentar desconstruir a imagem da ex-senadora. Durante coletiva na sede da coordenação de campanha, Aécio ignorou a presidente Dilma.

O tucano classificou de sonhos as propostas apresentadas por Marina na sexta-feira:

- Não quero apenas apresentar sonhos à sociedade brasileira. Quero que esses sonhos de tantos brasileiros possam se transformar em realidade.

As mudanças no programa de governo feitas pela campanha de Marina, após a apresentação oficial de sua proposta de governo, também foram alvos de crítica. Ao ser questionado se faria mudanças após a apresentação, Aécio criticou:

- De forma alguma, até porque nosso programa não é improvisado. Nosso programa tem como base fundamental a coerência entre aquilo que estamos apresentando e com aquilo que, não apenas pensamos, mas praticamos durante toda a nossa vida.

A campanha de Aécio deve declarar, na segunda prestação de contas parcial, que o candidato recebeu até agora R$ 43 milhões em doações de pessoas física e jurídica. O tesoureiro José Gregori disse que, por enquanto, o fluxo de arrecadação está sendo mantido.

Aécio foi prejudicado pela polarização, dizem analistas

• Para eles, Dilma foi mais agressiva, mas não levou vantagem sobre Marina

Alexandre Rodrigues e Rafaela Marinho – O Globo

Em terceiro lugar na última pesquisa do Datafolha, que apontou Marina Silva (PSB) e Dilma Rousseff (PT) empatadas em primeiro lugar na corrida presidencial, o candidato do PSDB, Aécio Neves, não conseguiu usar o debate na TV ontem para reverter o momento frágil de sua candidatura. Terá de buscar uma nova estratégia para atrair a atenção dos eleitores nos próximos embates. A avaliação é de analistas políticos ouvidos pelo GLOBO após a exibição do programa do SBT/UOL/"Folha de S.Paulo".

- As pesquisas ficaram claramente refletidas no debate, com uma polarização entre Dilma e Marina. Aécio virou uma escada para que Dilma ou Marina falassem - avaliou a cientista política Christiane Romeo, professora do Ibmec-RJ. - Ele teve bons momentos, mas nada suficiente para disputar o protagonismo. Diferenciou-se pouco dos outros candidatos, que também miraram mais em Dilma e Marina. Aécio parecia não ter entrado na campanha ainda ou não ter entendido bem o novo cenário.

Para o cientista político Fernando Abrúcio, da FGV-SP, o debate teve uma dinâmica diferente da do embate da TV Bandeirantes, na semana passada, antes do Datafolha. Segundo ele, não há dúvidas de que o tucano ganhou pouco com sua participação e vai precisar encontrar uma forma de atingir Marina para buscar uma vaga no segundo turno. Por enquanto, avalia, ainda não conseguiu encarnar um personagem para isso, talvez temeroso de afastar os eleitores dela, caso chegue ao segundo turno.

Mais cobranças a Marina
Segundo Abrúcio, não só a polarização mudou, mas Marina foi mais cobrada. Por isso, avalia, os ganhos dela não ficaram tão claros quanto no debate anterior. Ontem, ela teve contradições apontadas até pelo Pastor Everaldo (PSC), que se dirige ao eleitorado evangélico.

- Não há ganhadores num debate, mas quem se beneficia dele. Aécio não se beneficiou. Ele ficou de lado, meio patinho feio. O debate ficou todo no governo Dilma e na figura de Marina, que só foi atacada de forma mais incisiva por ele no final. Aécio foi o menos perguntado entre os três principais candidatos. Pode até ser uma vantagem ficar mais protegido, mas é perigoso na condição dele. Se não fala, não fica mais conhecido - disse Abrúcio.

Para Sonia Fleury, professora de ciência política da Ebape-FGV, no Rio, o debate foi contaminado pela divulgação recente da queda do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre, deixando pouco tempo para temas que interessam mais ao eleitor, como saúde e educação. A discussão da mobilidade, por exemplo, acabou na superficialidade da troca de acusações entre Dilma e Aécio. Apesar dos dados desfavoráveis, Sonia avalia que a presidente conseguiu passar segurança na defesa do governo.

- Dilma conseguiu se comunicar melhor do que no debate anterior. Passou conhecimento sem citar tantos dados de difícil compreensão. Foi menos professoral e até um pouco emocional - analisou a professora da FGV.

Ricardo Ismael, cientista político da PUC-RJ, também viu mudança de postura em Dilma, que "agora precisa atacar para não perder". Para ele, a presidente foi mais agressiva.

- Ela partiu para cima, mas não levou vantagem porque Marina conseguiu neutralizar as acusações da presidente. E Marina também atacou Dilma, mostrando que não tem medo do confronto - avaliou Ismael, que acredita na continuidade do crescimento da candidata do PSB nas próximas pesquisas. - Se o debate tinha a chance de evitar esse crescimento, isso não aconteceu. Nem Dilma nem Aécio conseguiram colocar uma questão que abalasse profundamente Marina.

Sem perguntas a Aécio, Dilma e Marina polarizam debate

César Felício, Raphael Di Cunto e Luciano Máximo – Valor Econômico

SÃO PAULO - A presidente Dilma Rousseff (PT) e a candidata presidencial Marina Silva (PSB) polarizaram o debate promovido ontem pela rede de televisão SBT, o jornal "Folha de S. Paulo", o portal UOL e a rádio Jovem Pan. Terceiro colocado nas pesquisas, o senador Aécio Neves (PSDB) não recebeu perguntas das suas duas principais oponentes.

Em sua primeira intervenção no debate, Dilma afirmou que as propostas de Marina envolverão um gasto de R$ 140 bilhões e perguntou à ex-ministra: "De onde sairá o dinheiro?". Minutos depois, a presidente insinuou que a adversária é ambígua sobre o que defende. " O maior risco que uma pessoa pode correr é não se comprometer com nada. Quem governa tem de dizer como deve ser feito", disse a presidente.

Em sua segunda oportunidade de perguntar, a presidente novamente atacou Marina pela mesma vertente: " Das 242 páginas de seu programa de governo só há uma linha sobre o Pré-sal. Porque este despreza por um programa que pode dar R$ 1 trilhão ao Brasil? O petróleo não pode ser demonizado".

Marina procurou desmentir que pretenda interromper a exploração de petróleo em novos campos e procurou desviar o foco para as denúncias de irregularidades na Petrobras. "O maior perigo para o Pré-sal é o que foi feito em seu governo com a Petrobras, que perdeu seu valor de mercado e está sendo usado para ancorar a política econômica. A Petrobras está pagando caro pelas escolhas que fez. Hoje estas escolhas estão sendo investigadas pela justiça", disse, em uma referência a aquisições feitas pela Petrobras no exterior.

A candidata do PSB também elegeu Dilma como alvo. Disse que a petista se elegeu prometendo crescimento, juros baixos e baixa inflação. "Hoje temos crescimento baixo, inflação alta e juros em alta. O que deu errado em seu governo?", indagou. "O que deu certo é que tiramos 32 milhões de pessoas da pobreza", retrucou a presidente, acusada por Marina de "jamais reconhecer um erro".

Marina justificou a sua proposta de instituir a independência formal do Banco Central em função de supostos desacertos na condução da economia. " Este governo com suas políticas erráticas fez com que se tornasse preciso assegurar a autonomia (do BC". Segundo afirmou Dilma durante o debate, um Banco Central independente "só levará a uma dificuldade maior de regulação do sistema financeiro, uma das razões para a crise econômica global".

Aécio Neves foi relegado a um segundo plano até mesmo no bloco do debate em que os jornalistas convidados faziam perguntas a um candidato e escolhiam outro para comentar as respostas. Marina Silva foi questionada por não revelar o nome das empresas que contrataram palestras suas nos últimos três anos e Dilma, escolhida para comentar, disse que faltava transparência para a candidata do PSB. Aécio foi escolhido para comentar uma pergunta destinada ao pastor Everaldo (PSC), que tem 1% nas pesquisas. Everaldo responde a um processo judicial por agressão a uma ex-companheira. Aécio lembrou que apoiou a aprovação da lei Maria da Penha, que combate a violência de gênero.

O tucano teve uma oportunidade de estabelecer um confronto direto com suas principais oponentes quando foi perguntado sobre escândalos de corrupção em que o PSDB foi protagonista, como o das supostas propinas de multinacionais a funcionários do governo de São Paulo e o esquema conhecido como "mensalão mineiro". " Vamos construir para o Brasil um novo ciclo de governança. O Brasil vai tirar suas grandes empresas das páginas policiais dos jornais e devolvê-las às páginas de economia", disse, já provocando Dilma, escolhida para comentar a resposta.

Mesmo ao responder a perguntas de outros candidatos, Aécio procurou questionar a presidente sobre a baixa execução do orçamento de investimentos para a segurança pública (apenas 13%, segundo o tucano) e o investimento pequeno que o governo federal teria feito em Minas Gerais.

Quando pôde perguntar diretamente a Dilma, levou a disputa para seu reduto político e terra natal da presidente: acusou Dilma de ter prejudicado a administração em Minas. A presidente respondeu que o tucano "tinha memória fraca" e que "talvez não tenha estudado direito a matéria, talvez não saiba que as obras de mobilidade urbana foram feitas com recursos federais".

Dilma disse ainda que o governo federal financiou a ampliação de vagas em quinze presídios no Estado. Com displicência que parecia estudada, chamou Belo Horizonte de "BH", apelido pela qual a capital mineira é coloquialmente conhecida no Estado. "Desafio mostrar uma obra federal que tenha andado em Minas Gerais", disse Aécio, que governou o Estado entre 2003 e 2010. Dilma e Aécio estão estatisticamente empatados nas pesquisas em Minas Gerais e o candidato apoiado pelo tucano ao governo local, João Pimenta da Veiga (PSDB), poderia perder hoje a eleição no primeiro turno para o petista Fernando Pimentel.

O tucano só atacou diretamente Marina Silva no momento de fazer suas considerações finais, no final do debate. "Marina defende hoje teses que combatia há muito pouco tempo", disse.

Marina foi questionada com maior vigor pela quinta colocada nas pesquisas de opinião, Luciana Genro (P-SOL), que apontou semelhanças entre seu programa e a política econômica que marcou o segundo mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, para perguntar se a candidata não seria "uma segunda via do PSDB?". Segundo Luciana, os economistas que assessoram Marina na elaboração do programa são tucanos.

A candidata do PSB acusou a adversária de dogmática, incapaz de reconhecer acertos em oponentes, e confirmou que irá reforçar o chamado "tripé" inaugurado no segundo mandato tucano: câmbio flutuante, uso da política de juros como contenção inflacionária e superávits fiscais. "Temos que escolher lado, não se pode fazer nova política cedendo a banqueiros e usineiros. Não durou 24 horas e quatro tuítes do Malafaia sua posição em favor do direito de gays, lésbicas e simpatizantes", disse Luciana. A candidata se referia à correção feita no programa de governo de Marina depois que o pastor Silas Malafaia, um dos pregadores evangélicas mais ativos na mídia, ter criticado a proposta de se permitir casamentos homossexuais e criminalizar a homofobia.

Merval Pereira: Nova polarização

- O Globo

A candidata Marina Silva atravessa talvez o melhor momento de sua campanha, apesar de ter passado a ser o alvo dos adversários. Acontece que é muito difícil atacá-la por seus supostos defeitos, como tomar decisões com base na religião, e ela pode prometer tudo, como qualquer candidato de oposição faz. O fato de estar em ascensão nas pesquisas permite a Marina posar de vítima quando lhe interessa, e partir para o ataque quando e como quiser.

A presidente Dilma bem que tentou mostrar que as promessas de Marina não fecham as contas, mas para quem está à frente de um governo desastroso não é tarefa banal ensinar como as coisas devem ser feitas. Quando tentou mostrar que as promessas não cabiam no Orçamento do país, a presidente Dilma teve que ouvir que o corte de desperdícios e a racionalização dos gastos públicos dariam conta do recado.

A questão do petróleo, que poderia ser para Dilma o que foram as privatizações para o presidente Lula na disputa pela reeleição em 2006, é de difícil exploração desta vez, pois a situação caótica da empresa brasileira, com perda de valor na Bolsa, diretores presos e várias acusações de corrupção, não permite à presidente mostrar o erro da falta de prioridade que o programa de Marina dá ao pré-sal.

Também o abuso do uso político do pré-sal e da autossuficiência brasileira do petróleo, desmentida pela conta de importação, não permite a Dilma reagir com o rigor que deveria merecer o assunto. Os especialistas apontam que o programa da Marina tem nitidamente preconceito em relação ao petróleo e gás natural, o que, para o consultor Adriano Pires, um dos assessores do candidato do PSDB, é "uma visão míope e que poderá trazer grandes prejuízos ao país".

Marina até que corrigiu o rumo de seu discurso falando que o pré-sal deverá ser usado para desenvolvimento de novas tecnologias, mas colocou de lado, e a presidente Dilma não rebateu, os royalties para estados e municípios e a geração de empregos. Não fica claro na proposta de Marina se teremos continuidade nos leilões de petróleo, e sob que marco regulatório, mas o governo petista também perdeu um tempo enorme sem realizar leilões de blocos de petróleo.

Na realidade, diz Adriano Pires, o pré-sal é um bem necessário e qualquer país gostaria de ter reservas de petróleo como as brasileiras. O pré-sal e as fontes renováveis não são excludentes, mas nos governos petistas caímos no erro de dar destaque absoluto ao petróleo, tudo pré-sal, inclusive estimulando o uso de automóveis, dando subsídios às montadoras e controlando o preço da gasolina para conter a inflação, o que foi criticado por Marina no debate de ontem.

Mas se não for pressionada, podemos trocar de erro, dando prioridade para as energias renováveis e execrando o petróleo e o gás natural. A presidente Dilma ainda tentou vender a ideia de que investiu em alternativas energéticas como a eólica, afirmando que somos hoje o segundo país do mundo mais preparado para aproveitá-la, mas Marina nem deu bola.

O fato é que, como ressalta Adriano Pires, as energias renováveis não terão condições de sozinhas garantirem a segurança energética do país. E até o momento ninguém acusou Marina pela redução da capacidade das usinas hidrelétricas, pelo fato de as novas serem a fio de água, sem os grandes reservatórios que prejudicariam o meio ambiente, segundo critério imposto por Marina quando no Ministério do Meio Ambiente.

Isso obriga necessariamente a construção de térmicas, já que eólicas e solares são energias intermitentes. O segundo motivo pelo qual as energias alternativas não podem ter prioridade hoje é preço. As fontes renováveis de energia ainda são mais caras e, portanto, a sua entrada de maneira consistente tem de ser feita através de programas que não penalizam o consumidor nem tirem a competitividade da indústria, nem criem dificuldades e problemas na operação do sistema elétrico.

Mas nada disso foi discutido nos debates até o momento, e tudo indica que não será pois Marina paira acima dessas dúvidas técnicas, vendendo sonhos e vontade de mudança. Justamente o que 80% dos eleitores querem. Ela polarizou o debate com a presidente Dilma, como apontam as pesquisas, e deixou o candidato do PSDB em segundo plano.

Dora Kramer: Abalar o andor

- O Estado de S. Paulo

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso costuma dizer que no Brasil a sociedade se movimenta a partir de algum curto-circuito, produto de uma faísca qualquer em geral decorrente de algo imprevisível.

É a análise do sociólogo, que poderia se encaixar na onda de preferência do eleitorado por Marina Silva, mas que certamente não seria conveniente ao discurso do político engajado na campanha do tucano Aécio Neves.

De qualquer modo, a tese permanece e suscita uma indagação. Seria Marina capaz de desencadear o tal curto-circuito renovador ou sua força se encerra no brilho da faísca?

Nas próximas cinco semanas o esforço da campanha do PSB será o de consolidar a primeira hipótese no coração do eleitorado, enquanto o PT e o PSDB vão apelar para a racionalidade do público a fim de demonstrar que a segunda é a mais correta.

Em resumo, na versão dos adversários o voto em Marina Silva seria um contrato de alto risco para o Brasil. Se o eleitor vai se deixar convencer são outros quinhentos.

Muitos políticos experientes e vários analistas de pesquisas não querem ainda emitir opiniões definitivas em público, mas nos bastidores a impressão predominante é a de que a onda veio para ficar e ela está eleita.

Isso não significa que nas campanhas as toalhas já tenham sido jogadas. O PT aposta na força do governo. O PSDB desenvolve o raciocínio de que Marina estaria vivendo o auge do entusiasmo pelo desejo do "novo" e que a partir de agora a tendência do eleitor seria a de prestar mais atenção a questões objetivas de governabilidade.

Os dois adversários já abandonaram o tratamento cerimonioso e desde o fim de semana passaram a citar Marina nominalmente em suas críticas. O tucano dedicou o horário eleitoral do sábado a levar o público a refletir sobre dois tipos de escolha: a emotiva e a realista.

Começou por atacar a questão do voto útil, dizendo: "Não basta tirar o PT do poder". Fez um gesto de delicadeza - "respeito muito a Marina" - a fim de não se atritar com os eleitores dela, mas pôs em dúvida sua capacidade de governar.

Tanto tucanos quanto petistas agarram-se à esperança de que Marina neste mês e alguns dias até a eleição seja levada a descer do altar em que se encontra entronizada, pela necessidade de se confrontar com o mundo real.

O combate será no campo das cobranças de conteúdo. Aí suas contradições, acreditam, ficariam expostas como vulnerabilidades graves para o exercício da Presidência.

Mau momento. Candidato ao Senado pela Bahia, integrante da ala do PMDB anti-PT, Geddel Vieira Lima atribui a "setores insanos do partido" a notícia de que os pemedebistas aliados a Aécio Neves já estariam se movimentando para aderir à candidatura de Marina Silva.

"Eleição em dois turnos obedece a um ritual. Se o meu candidato (Aécio) não passar para o segundo turno, aí discutimos uma posição. Agora, com o processo do primeiro turno ainda em curso, tocar nesse assunto é puro oportunismo."

Aos fatos. A presidente Dilma Rousseff diz que está muito preocupada com o programa de governo de Marina, "no que se refere tanto à criação de empregos quanto à questão da indústria nacional".
Na realidade, "no que se refere" à candidata do PSB a preocupação da presidente é mesmo quanto à questão dos índices de intenções de votos das pesquisas.

Linha torta. A candidata do PSB usou sete palavras - "uma falha processual na editoração do texto" - e uma construção confusa para explicar a retirada do apoio a causas LGBT inscritas no programa de governo. Para falar claro bastaria um "erramos".

Eliane Cantanhêde: O segundo turno chegou

- Folha de S. Paulo

O segundo turno já começou. Isso ficou evidente no debate desta segunda (1º/9) entre os presidenciáveis, quando Dilma Rousseff perdeu os pruridos e partiu para cima de Marina Silva, e Marina Silva não se fez de rogada e bateu firme no governo da adversária.

Em segundo plano, o tucano Aécio Neves estreou uma nova fase. Em vez da polarização PT-PSDB, com Marina no meio, o que se viu foi Dilma e Marina frente a frente, com Aécio tentando sobreviver entre as duas favoritas. Ele centrou fogo em Dilma, deixando à presidente a missão de bater em Marina. No fim, colocou-se como opção ao "fracasso" do governo e às "contradições" de Marina.

Dilma, enfim, cedeu à pressão de Marina para reconhecer os erros: "Pode parecer que estou plenamente satisfeita. Não estou". E Marina, enfim, saiu da zona de conforto em que trafegava desde 2010, mas se saiu bem ao explicar os pagamentos que recebe por palestras e ao se equilibrar entre o tripé econômico desprezado por Dilma e os avanços sociais. De avião, ninguém falou.

Propaganda na TV funciona a favor das reeleições porque todo governante, por pior que seja, tem sempre o que mostrar: a obra tal, o programa qual. Mas debate funciona contra, porque todo governante, por melhor que seja, também tem o que esconder. E o que é vantagem se transforma em desvantagem: os adversários se unem para apontar o dedo contra quem está no poder.

Debate é forma e conteúdo. Marina estava firme, segura, mantendo um discurso que tem pouco de concreto, mas fala à alma de uma grande maioria sedenta por mudança.

Alguém precisa dizer a Dilma, se é que Dilma sabe escutar, que a cara mal humorada, às vezes parecendo vermelha de raiva, não ajuda a convencer o telespectador nem a humanizar a sua figura. Ainda mais se, na propaganda do PT, atua como a vovó boazinha que faz macarrão e, no debate, assume o ar de lobo mau.

Não muda nada, mas é divertido.

Luiz Carlos Azedo: É cedo, ainda!

• Dilma Rousseff ainda tem capacidade de reação, uma vez que o governo, por mais fracassado que seja, sempre é a forma mais concentrada de poder, quando nada por “arrecadar, normatizar e coagir”.

Correio Braziliense

O que mais espanta na campanha eleitoral é a fragilidade do dispositivo eleitoral governista, que entrou em colapso tão logo foi iniciado o horário eleitoral gratuito, ao contrário do que todos previam, tamanha a vantagem em tempo de televisão e rádio e em recursos financeiros da presidente Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição.

Marina Silva (PSB), com menos de tempo de televisão, surpreendeu a todos. Além de ultrapassar Aécio Neves, o candidato do PSDB, está empatada com Dilma Rousseff, no primeiro turno, embora tenha menos recursos financeiros e apoio político. Isso quer dizer que a eleição está decidida? Não, ninguém vence eleições de véspera.

É preciso contar os votos nas urnas. Há muita campanha ainda pela frente, sujeita a imprevistos capazes de “desconstruir” a imagem de uma candidata. Foi quase o que aconteceu com Marina Silva, por exemplo, após o lançamento de seu programa de governo, em São Paulo. O evento foi um sucesso no maior colégio eleitoral do país, pois revelou surpreendente vigor de campanha em território tucano, mas a repercussão do conteúdo foi um desastre.

Uma proposta particularmente causou estresse: o casamento gay. O texto divulgado era favorável, por isso, não poderia deixar de ser manchete dos jornais, segundo a famosa regra de que a notícia existe quando o dono morde o cachorro. Resultado: pressionada pelos pastores evangélicos que a apoiam, Marina teve que desautorizar o texto e revisar a proposta.

Armadilhas como essa estão onde menos se espera numa campanha eleitoral. Os maiores desastres são causados pelo fogo amigo ou por trapalhadas dos próprios aliados. Marina transita numa faixa estreita da política — a chamada terceira via —, ao dar uma no cravo e outra na ferradura, sempre corre o risco de levar na cabeça.

E ainda há as entrevistas e os debates, como o de ontem, onde se corre risco de vida eleitoral, uma vez que qualquer deslize pode ser fatal. Por tudo isso, é muito cedo para dizer que a eleição está decidida, que Marina será a próxima presidente da República. Seria preciso combinar com Dilma, Aécio e, sobretudo, os eleitores.

Colapso governista
Teoricamente, Dilma Rousseff ainda tem capacidade de reação, uma vez que o governo, por mais fracassado que seja, sempre é a forma mais concentrada de poder, como nos ensina o jurista italiano Norberto Bobbio, quando nada por “arrecadar, normatizar e coagir”.

Ocorre que o processo eleitoral mitiga o poder da União, como se ele fosse se desagregando e se transferindo, gradativamente, para os candidatos aos governos estaduais, às assembleias legislativas, à Câmara e ao Senado, na medida em que se aproxima a eleição. No dia da votação, esse poder estará nas mãos dos eleitores.

Muitos interesses e tendências operam nos subterrâneos das eleições para a Presidência, na qual a força mais determinante deveria ser o sistema de poder encabeçado pela presidente Dilma. Em tese, a petista contaria com a vantagem estratégica da máquina federal sob seu comando, com milhares de militantes ocupando cargos comissionados.

Mas não é isso que acontece. A máquina começa a dar sinais de neutralidade na disputa eleitoral. A partidarização de órgãos e serviços pelo PT e aliados esbarra no chamado espírito público dos servidores, segundo a máxima “weberiana” de que cabe à burocracia zelar pela legitimidade dos meios de exercício de poder: não pode pôr os objetivos dos políticos acima disso, quando eles se movem como se os fins justificassem os meios.

Além disso, os sindicatos controlados pelo PT enfrentam dificuldades para mobilizar os trabalhadores por causa da recessão econômica e, também, porque foram cooptados pelo governo. O afastamento das bases ficou patente em algumas greves selvagens ocorridas nos últimos anos e pelo fato de que muitos sindicatos já escaparam ao controle petista.

Resta a militância do PT, que foi às ruas no processo eleitoral de 2010, logo após a crise do mensalão, quando os líderes envolvidos no escândalo foram defenestrados da direção do partido e, em alguns casos, da própria legenda.

Ocorre que, durante o julgamento do mensalão, eles foram reabilitados, apesar de condenados pelo Supremo Tribunal Federal, e isso queimou o filme do PT.


Para agravar a situação, Dilma não tem empatia com os militantes petistas e esconde a bandeira do partido na tevê. Supostamente, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderia reverter essa situação, mas parece que espera um pedido de Dilma para liderar a volta às ruas. Afinal, Lula ainda é o trunfo que lhe resta.

Raymundo Costa: A minoria estável de Marina Silva

• Candidata é primeira opção e meio para tirar PT do poder

- Valor Econômico

A ideia da renúncia seguida do apoio a Marina Silva ronda o candidato Aécio Neves. Em áreas afins de sua campanha e do próprio PSDB, esta saída é vista como a melhor maneira de despachar o PT já no primeiro turno, sem correr o risco de uma eventual virada no segundo turno.

Aécio tem prazos. Assim como o PT, o candidato do PSDB apostou na polarização e se deu mal. O candidato do PSDB ainda acredita numa resposta positiva do eleitorado, em meados de setembro, quando avalia que sua propaganda eleitoral começará a apresentar resultados. De qualquer forma, o programa de Aécio, cada vez mais, fala para Minas Gerais.

Mal na disputa presidencial, Aécio também enfrenta problemas em Minas, onde seu candidato ao governo do Estado, Pimenta da Veiga, está comendo poeira no rastro de Fernando Pimentel, o único petista a liderar a corrida para o governo do Estado, nos quatro maiores colégios eleitorais. O próprio Aécio não tem o desempenho esperado em Minas. Em algum momento da campanha, o candidato terá de se concentrar na campanha mineira, de modo a assegurar sua base de regional de apoio para as próximas eleições.

Também não é certo, à esta altura, que se Aécio desistir e apoiar Marina a fatura será liquidada no primeiro turno. Hoje a presidente está consolidada no segundo turno, graças sobretudo ao forte apelo que seu nome mantém nas regiões Norte e Nordeste. O problema da presidente é que ela não amplia nem para o primeiro nem para o segundo turno, conforme demonstram as últimas pesquisas.

É improvável que Aécio aceite algum tipo de acordo com Marina já no primeiro turno, mas o simples fato de a proposta circular nas áreas afins ao candidato, eleitores fiéis que agora pensam no voto útil em Marina, dá uma ideia do tamanho do apoio que se delineia em torno da candidata do PSB. Na hora que o PT perder a eleição, a disponibilidade dos outros partidos para se aproximar é grande.

No segundo turno, a tendência do PSDB é apoiar Marina Silva e ajudá-la a governar, se ela for eleita, como apontam as pesquisas. Ao contrário do que aconteceu em 1992, quando era oposição e se recusou a compor com o governo Itamar Franco, o PT tem muitos interesses em jogo e deve pensar com mais receptividade a ideia de dar apoio congressual a Marina. O problema é que Marina se tornou a primeira opção ao PT. O mercado financeiro é parceiro de Marina porque não quer o PT no governo.

Nos cálculos dos políticos mais experientes, Marina não precisará compor com o PT. Ela pode fazer maioria tranquila com partidos médios e apoios nos maiores, mas, sobretudo, vai jogar luz sobre o Congresso. Pelo que se diz na campanha, Marina terá uma agenda dura, a fim de levar as pessoas da rua, os manifestantes de junho. É evidente que haverá gente no Congresso tentando esconder com mão de gato, mas será muito mais difícil com uma relação transparente.

Dilma, no momento, tem maioria instável no Congresso. Pode-se afirmar que Marina deve ter uma minoria estável. Ela também vai contar com o apoio da mais tradicional sigla brasileira, o PG, o Partido do Governo, aquele que está com qualquer que seja o presidente no Palácio do Planalto. Mas a candidata do PSB também quer inverter a lógica adotada pela presidente para a nomeação dos ministros.

Assim, não será o PSDB, por exemplo, que vai dizer "eu quero fulano". Marina vai escolher, até porque poderá dizer que não tem interesse na reeleição. É uma negociação que não está sobre a mesa. E quando fala que não quer disputar um segundo mandato, Marina Silva desarma os partidos e seus eventuais candidatos em relação a ela. Pode montar um ministério de melhor qualidade. Eduardo Campos, o candidato cuja morte virou de ponta cabeça a sucessão presidencial, era mais gestor e menos equipe. Marina, que o sucedeu, é menos gestora mas tem mais equipe.

O PSDB deve declarar apoio a Marina Silva no segundo turno da eleição, se as pesquisas atuais forem confirmadas em 5 de outubro. A dúvida no entorno da candidata do PSB é sobre o apoio do PT. Afinal, Lula é candidato declarado em 2018. O fato de Marina não querer disputar um novo mandato ajuda um entendimento, se houver convencimento de que ela não cederá a pressões para permanecer, caso faça um bom governo.

A situação do PT hoje é muito diferente daquela vivida quando o partido teve de decidir se apoiava ou não Itamar Franco, após o impeachment de Fernando Collor. Não se trata simplesmente de uma questão de manter cargos, isso também existe, mas de projetos e políticas em andamento que são muito caras ao partido. Diz um integrante da coordenação da campanha de Dilma: "Na época do governo Itamar nós éramos oposição. Agora, com um monte de gente no governo, nós vamos ficar".

Em meio ao pessimismo que se abateu sobre o PT, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz que "ainda" é possível a presidente Dilma Rousseff conquistar a reeleição em outubro. Lula também é mais condescendente com a candidata do que muitos de seus companheiros de partido e da coordenação da campanha eleitoral da presidente.

Segundo Lula, há pelo menos três outros fatores, além da candidata, que jogam contra a presidente, nesta eleição. A primeira é a má avaliação que a população tem da classe política, o que acaba atingindo também quem está no poder, que de certa forma representa o status quo condenado pela maioria dos eleitores.

O segundo aspecto destacado por Lula, em conversas no Instituto Lula, é "o monte de rejeição" do PT, um partido cujos principais líderes estão presos, condenados que foram no julgamento do mensalão. Líderes, aliás, cuja experiência em campanhas eleitorais está fazendo falta agora ao PT, sobretudo em São Paulo

O terceiro aspecto é a "economia desandando", na prática já em recessão técnica. O ex-presidente achava que o PT poderia chegar à eleição com a situação econômica um pouco melhor. E o Volta, Lula? "Não tem jeito". É Dilma até o fim. Lula só gostaria que a candidata fosse um pouco mais afável.

Arnaldo Jabor: O bicho vai pegar em quem?

- O Globo

O Brasil se move por acaso. Os rumos da história, se é que tem rumos, tendem a se enrolar em si mesmos e só fatos, traumas inesperados disparam a mutação. Que quer dizer essa frase? Que não são apenas as 'relações de produção' que explicam nossa marcha, mas os detalhes, as ínfimas causas, as bobagens casuais e tragédias intempestivas fazem o Brasil andar.

Getúlio deu um tiro no peito e adiou a ditadura por dez anos. Jânio tomou um porre e pediu o boné, um micróbio entrou na barriga do Tancredo e mudou nossa vida, encarando o Sarney por cinco anos, o Collor foi eleito por sua pinta de galã renovador e acabou 'impichado' por suas maracutaias. Roberto Jefferson mostrou sua carteirinha de corrupto, se denunciou junto com os mensaleiros e mudou a paisagem política. E agora Marina Silva pode ser presidente, em vez da presidenta.

Com a população mal informada em sua maioria (não falo dos miseráveis e analfabetos, mas de gente de terno e gravata) sobre as complexas questões da política e da economia, a emoção e a catarse movem o País.

Agora, estamos na expectativa; somos o país do eterno suspense: Marina vai ser eleita ou não? Será que o efeito "tragédia" vai se evaporar? A grande mudança seria, claro, a social-democracia apta a desfazer as boquinhas e os pavorosos erros com que o PT nos brindou. Aécio, se eleito, pode trazer a agenda correta. Mas, se Marina ganhar, teremos um outro tipo de mudança, uma virada para um "novo" desconhecido, uma virada psicológica e cultural inesperada. Não adianta analisar Marina com os instrumentos de análise costumeiros.

Agora, em vez dos óbvios vexames do PT, estamos diante do mistério Marina.

Marina é 'sonhática'ou não? Marina é populista? Marina é de esquerda ou não? Nada. No entanto, amigo leitor, Marina pode ser o olho de um furacão que, claro, jamais conseguirá renovar a velha política sólida; mas ela pode criar um 'caos' na vida política. Talvez até um "caos progressista" pelo avesso. Que é isso que quero dizer? Marina pode vir a bagunçar mais a bagunça existente, mas poderá ser uma "bagunça crítica", que pode trazer uma espécie de "destruição criadora" nesta zorra instalada.

Para falar em termos de "contradições negativas", que eles tanto amam, o caos que Lula, Dilma e o PT criaram na vida nacional pode ter sido o gatilho para uma revisão em busca de um modelo melhor. Se Marina vencer, será sabotada continuamente pelos vagabundos que se instalaram no Estado, será confrontada pelas barreiras fisiologistas dos parlamentares, talvez quebre a cara tentando. Mas, mesmo que fracasse, teremos um "caos mais moderno", tirando do poder a velha cartilha regressista dos nossos bolivarianos. Mesmo que ela se perca na selva dos meliantes da política, não será mais irracional que os atuais governantes. O súbito surgimento inconcebível dessa moça da floresta e suas abstratas declarações são uma prova encarnada do delírio político do País. Com a queda do avião, houve uma grande reviravolta trágica que resultou em uma comédia de erros. Ninguém sabe o que vai nos acontecer.

Podemos decifrar, analisar, comprovar crimes ou roubos, mas nada se move, porque a maior realização deste governo foi justamente a desmontagem da Razão. Se bem que nunca antes nossos vícios ficaram tão explícitos, nunca aprendemos tanto de cabeça para baixo. Já sabemos que a corrupção no País não é um "desvio" da norma, não é um pecado ou crime; é a norma mesmo, entranhada nos códigos e nas almas. O caudilhismo sindicalista de Lula serviu para entendermos melhor nossa deformação. Os comentaristas ficam desorientados diante do nada que os petistas criaram com o apoio do povo analfabeto. Os conceitos críticos como "democracia, respeito à lei, ética" viraram insuficientes raciocínios contra um cinismo impune. Lula com seu carisma de operário sofredor nos decepcionou, revelando-se um narcisista egoísta e despreparado, enquanto o melhor governo que tivemos, do FHC, ficou no imaginário da população como um fracasso, movido pela campanha de difamação sistemática e pela babaquice dos tucanos que não se defenderam. Os petistas têm mania da ideologia da contramão. Fizeram tudo ao contrario do óbvio, movidos por uma ridícula utopia revolucionária, quando na realidade só fizeram avacalhar o País.

Meu Deus, que prodigiosa fartura de novidades fecundas como um adubo sagrado, belas como nossas matas, cachoeiras e flores. Ao menos, estamos mais alertas sobre a técnica do desgoverno que faz pontes para o nada, viadutos banguelas, estradas leprosas, hospitais cancerosos, esgotos à flor da terra, tudo como plano de aceleração do crescimento. Fizeram tudo para a reestatização da economia, incharam a máquina pública, invadiram as Agências Reguladoras, a Lei de Responsabilidade Fiscal, em busca de um getulismo tardio, com desprezo pelas reformas, horror pela administração e amor aos mecanismos de "controle" da sociedade, esta "massa atrasada" que somos nós. A esquerda psicótica continua fixada na ideia de "unidade", de "centro", ignorando a intrincada sociedade com bilhões de desejos e contradições. Acham que a complexidade é um complô contra eles, acham a circularidade inevitável da vida uma armação do neoliberalismo internacional.

Os petistas têm uma visão de mundo deturpada por conceitos acusatórios: luta de classes, vitimização, culpados e inocentes, traidores e traídos. Petistas só pensam no passado como vítimas ou no futuro como salvadores e heróis. O presente é ignorado, pois eles não têm reflexão crítica para entendê-lo. Reparem que Dilma na TV só fala do que "vai fazer", se for eleita. Por que não fez antes, nos 12 anos da incompetência corrosiva? A solução é mentir: números falsos, contabilidade falsa. 

Antigamente, se mentia com bons álibis; hoje, as tramoias e as patranhas são deslavadas; não há mais respeito nem pela mentira. É isso aí, amigos, o bicho vai pegar. Em quem?

José Casado: Amargura e Preconceito

• Frustrado com ‘o povo’, Lula receitou a ‘desconstrução’ de Marina no estilo Collor. Dilma agora usa a Presidência para vaticínios apocalípticos sobre a economia

- O Globo

"Companheiros e companheiras" - ele disse ao séquito do partido que partilhava o lombo de um caminhão. Lula fez a pausa estudada e completou: "Eu acho que está na hora de vocês darem um jeito."

O político que se considera o mais popular do Brasil dava vazão à sua amargura com o eleitorado: "Eu não posso entender como é que o povo reclama tanto da educação, que o povo reclama tanto do transporte, que o povo reclama tanto da saúde, que o povo reclama tanto da segurança e o (Geraldo) Alckmin tem 50% nas pesquisas de opinião pública. Alguma coisa está errada!"

Aconteceu na noite fria de quarta-feira (28), em São José dos Campos, no Vale do Paraíba, durante um comício do candidato do PT ao governo paulista, Alexandre Padilha (45 pontos abaixo de Alckmin). Com Lula no palanque, o partido esperava reunir dez mil pessoas no centro, no horário da saída do trabalho. A audiência ficou restrita a meia praça, incluídos "plaqueiros" com R$ 30 de diária.

Lula não escondia a frustração. Pesquisas, inclusive as do próprio PT, confirmavam a ameaça real de uma expressiva derrota dos seus candidatos tanto na disputa presidencial quanto na maioria dos 19 estados onde concorrem (com destaque para São Paulo), além de eventual redução da bancada no Congresso (103 cadeiras, atualmente) e nas assembleias (149).

Na noite anterior o Ibope retratara o declínio da presidente-candidata Dilma Rousseff, sua alta rejeição e a ascensão de Marina Silva. À frente da matriz de São José, Lula falou das pesquisas. E, sem citar o nome de Marina, deu a receita sobre como se "fazer alguma coisa".

Indicou a fórmula da disseminação do medo ("não deixem o Brasil voltar ao que era antes de 2002, os mais jovens não sabem o que era o Brasil antes de eu chegar à Presidência"), e da introdução da adversária na galeria dos aventureiros (definiu-a como "alguém que não é político"). Nas horas seguintes, o PT começou uma guerrilha para "desconstrução" de Marina. O estilo é idêntico àquele que Fernando Collor impôs a Lula na disputa de 1989, com uma novidade - pitadas de preconceito religioso.

Dilma, candidata cuja taxa de rejeição já supera a soma das suas intenções de votos, parece ter se esquecido de que é presidente. Abandonou o roteiro do "otimismo" e passou a usar a Presidência como tribuna para profetizar o caos. Agora emite vaticínios apocalípticos diários sobre a economia em um eventual governo adversário, embora sua administração exiba um dos três piores índices de crescimento econômico dos 125 anos da história republicana.

Na vida real, Lula e Dilma tentam dissimular um fato relevante que emergiu com as manifestações de rua do ano passado, ganhou corpo nesta campanha e, em boa medida, independe do resultado das urnas dentro de quatro semanas: sobram indícios do fim de um ciclo na política brasileira.

Além de confirmar um desejo majoritário por mudanças, as mais recentes pesquisas indicam que Marina, com apenas dez dias de campanha, ultrapassou Dilma e lidera com até 18 pontos de vantagem na fatia do eleitorado cuja renda mensal varia entre R$ 1.400 e R$ 3.600, não tem plano de saúde e trabalho assalariado. Sinalizam o ocaso da hegemonia que a máquina eleitoral petista ergueu sobre a maioria pobre.

'Uma nova política global já está aí, amorfa" diz o historiador Silvio Pons

• Em livro, professor italiano analisa a história do comunismo internacional e o fim da União Soviética

• ‘A rejeição da política como solução para a vida me preocupa’, afirma o historiador Silvio Pons

Leonardo Cazes – O Globo (1/8/2014)

RIO - Silvio Pons começou seus estudos na Universidade de Florença, na década de 1970, quando novas pesquisas sobre a experiência soviética se multiplicavam pelo continente. Aluno de Giuliano Procacci, o historiador é especialista na política externa da União Soviética e hoje ocupa o cargo de diretor da Fundação Instituto Gramsci, na Itália. Em entrevista ao GLOBO, durante passagem pelo Rio de Janeiro para lançar o livro “A revolução global: história do comunismo internacional (1917-1991)” (Contraponto/Fundação Astrojildo Pereira), ele aponta que a origem da crise da URSS foi política, mais do que econômica, e analisa o imaginário político comunista marcado pelas guerras.

Conte algo que não sei.

As guerras foram o grande fator de ascensão das revoluções comunistas no século XX, não as crises do capitalismo. A Revolução Russa está ligada à Primeira Guerra Mundial; a Revolução Chinesa, à Segunda Guerra. Nenhuma revolução surgiu a partir da Grande Depressão, em 1929, ou do choque do petróleo nos anos 1970. O avanço comunista na Indochina, nessa época, está relacionado às duas guerras anteriores na região.

Essas guerras impactaram o pensamento comunista?

A imaginação política comunista ficou muito marcada pela guerra desde o início. Houve uma combinação entre ideologia e experiência. Havia uma visão catastrófica do capitalismo. Para os comunistas, a História era violenta, o capitalismo era violento. Essa seria a origem dos conflitos e por causa deles haveria revolução. É diferente do fascismo, que via a guerra como um projeto de conquistas territoriais.

Então essa é a raiz do autoritarismo desses regimes?

Isso contribui para explicá-lo, mas não só. Havia o ethos do sacrifício, de se preparar para tempos difíceis para que houvesse dias melhores. O autoritarismo também estava ligado à ideia comunista de uma guerra civil mundial inevitável. A noção do comunismo como uma modernidade alternativa ao capitalismo não se referia apenas à construção de uma sociedade melhor, mas também a uma preparação para essa guerra que viria. Esse foi o foco da modernização soviética feita por Josef Stalin, por exemplo.

O senhor vê a principal razão do fim da União Soviética em uma crise política, mais do que econômica. Por quê?

Nos anos 1980, não havia recessão econômica na União Soviética, mas estagnação. Hoje na Europa também há estagnação, e nem por isso a União Europeia vai acabar. As raízes da desagregação estão nas muitas contradições na relação entre o Estado soviético e os partidos e os Estados comunistas. É o choque entre um projeto de revolução mundial e os interesses de um Estado. Quando há a ruptura entre a China e a União Soviética (em 1963), acaba a unidade do movimento comunista internacional. Ali, ele perde a sua legitimidade como um projeto global de alternativa ao capitalismo. Em maio de 1968, a crise do comunismo já existia, mas não foi compreendida.

A China hoje pode ser considerada um país comunista?

Sim e não. Há legado do comunismo na China, que não pode ser entendida sem a revolução. Há um partido comunista, um comitê central. Mas, a partir dos anos 1980, o país abandonou o projeto global de uma modernidade anticapitalista e fez sua transição para um autoritarismo de mercado. A China abandonou a característica básica do comunismo no século XX, sua ambição universal.

Em todo o mundo, as pessoas parecem desiludidas com a política. A utopia faz falta?

A rejeição da política como solução para a vida me preocupa, talvez porque eu esteja ficando velho (risos). Mas não devemos ser nostálgicos da era das grandes ideologias. O fim do comunismo legou uma falta de fé em qualquer transformação política, pois era uma experiência hiperpolítica que falhou. Creio que uma nova política global já está aí, amorfa e dispersa, e vai emergir em algum momento de formas que ainda não conhecemos. A Primavera Árabe foi um exemplo disso.

Daniel Aarão Reis: A necessária reconstrução da utopia socialista

Quando se desagregaram o socialismo soviético e seus clones históricos na Europa Central e na Ásia, e apesar da existência remanescente de ditaduras que se conservaram, invocando princípios revolucionários, em Cuba e na Coreia do Norte, instalaram-se tempos difíceis e pessimistas para todos os adeptos da gesta socialista, concebida no século XIX.

Mesmo os críticos mais radicais do socialismo realmente existente, muitos dos quais questionavam o próprio caráter socialista daqueles regimes, foram alcançados, por tabela, pelo desmoronamento surpreendente do colosso soviético e pelas mutações não menos inesperadas por que passava o antigo Império do Meio. Como se fossem imensas árvores, de fundas raízes, a queda de uma e a transformação da outraarrastaram consigo tudo o que fora ligado ou associado às tradições socialistas. O desmoronamento repercutiu intensa e negativamente em todo o campo da opinião simpática à, ou partidária da, ideia socialista, tanto mais porque tais processos seriam potencializados, em chave triunfalista, pelos poderosos meios de comunicação identificados com o capitalismo.

Ao mesmo tempo, contudo, como não há perdas sem ganhos, despejaram-se os horizontes daquelas pesadas hipotecas que sombreavam a proposta de construção do socialismo. Para os que mantiveram, segundo a recomendação do revolucionário sardo, o otimismo da vontade, mediado embora pelo pessimismo da razão, abriram-se perspectivas fascinantes e inovadoras, capazes de semear o terreno para a formulação da crítica do passado e de novas alternativas históricas para o futuro.

Mesmo porque, ao contrário do que imaginavam certos “cães de guarda”, não findara a história nem se havia atenuado a lógica predadora e desigual do capitalismo a suscitar continuamente contradições e oposições, desafios e espírito crítico.

É exatamente deste espírito crítico, de que tanto carece a reelaboração da utopia socialista, que este livro está permeado.

Silvio Pons, consagrado professor de História do Leste Europeu, na Universidade de Roma II (Tor Vergata), autor de numerosas obras sobre o socialismo soviético e o movimento comunista internacional, em especial no contexto da Guerra Fria, nos apresenta nas páginas que se seguem um rigoroso balanço histórico do modelo socialista soviético e do comunismo internacional no século XX, da revolução de outubro à dissolução da União Soviética.

O que impressiona, em primeiro lugar, é a diversidade e a qualidade das fontes exploradas, onde se destacam os arquivos russos (Arquivos da Internacional Comunista e do Partido Comunista da União Soviética, Arquivos de Estado para Relações Exteriores, História Contemporânea e História Política e Social), os de alguns importantes partidos comunistas da Europa Central e Ocidental e os de instituições dedicadas à história do comunismo, como a Hoover Institution, em Stanford, a Fundação Gorbachev, em Moscou, e a Fundação Feltrinelli, em Milão. Este variado corpus documental oferece sólida base empírica para as análises e interpretações do Autor. Por outro lado, Pons estabelece diálogo com atualizada bibliografia, compreendendo estudiosos contemporâneos de variados vínculos institucionais e origens nacionais, garantindo ao texto um raro padrão de excelência internacional, mesmo que, em determinados momentos, suas afirmações possam merecer reservas ou considerações críticas, o que é inevitável em debates deste nível de qualidade.

Em narrativa densa, através de seis capítulos, estendendo-se do “tempo da revolução” (1917/1923) ao “tempo da crise (1968/1991), passando pelos “tempos” do Estado (1924/1939); da guerra (1939/1945); do império (1945/1953) e do declínio (1953/1968), complementada por um prólogo e um epílogo, Silvio Pons oferece um painel amplo e penetrante de uma história de guerras e revoluções, de imensas esperanças e de grandes frustrações, de tentativas coroadas de êxito e de erros catastróficos, de análises adequadas e de equívocos insanáveis, procurando compreender, associando-se a um empreendimento iniciado já nos anos 1920 e 1930 por estudiosos de distinta orientação, como e porque puderam ter sido geradas tiranias abomináveis no ventre de uma proposta originalmente comprometida com a justiça, a liberdade e a igualdade.Como e porque uma proposta de futuro pôde se aninhar no passado de uma forma tão drástica em relativamente tão pouco tempo. Em síntese: como o socialismo fracassou no século XX.

Quatro questões parecem-me fecundas no estudo de nosso autor. Elas têm sido recorrentemente investigadas e analisadas por diferentes pesquisadores, os quais, em alguma medida, sintetizam as preocupações de Silvio Pons e com muitos dos quais, aliás, ele dialoga.

A primeira diz respeito às bases históricas e sociais do autoritarismo socialista. A segundatem a ver com as relações entre o Estado soviético e o movimento comunista internacional, asdifíceis interações entre nacionalismo e internacionalismo no contexto da história do comunismo no século XX. A terceira trata da inevitabilidade, ou não, do desmoronamento histórico do modelo soviético. E a quarta, finalmente, aborda o papel histórico que terá sido desempenhado pelo comunismo e pelo “modelo soviético” ao longo do século passado.

As considerações a respeito destes temas, evidentemente, não esgotam de modo algum, longe disso, o conteúdo do livro que você tem em mãos. Apenas as faço como uma introdução ao livro de Silvio Pons, como se fora um estímulo à reflexão sobre a obra que escreveu.
I
O autoritarismo comunista, como se sabe, tem bases múltiplas, teóricas, históricas, sociais, nacionais e internacionais. Estudá-las, em sua complexa interação, é contribuir para compreender a dinâmica ditatorial assumida por um projeto que tinha, porém, em seus inícios, a igualdade social e a liberdade política como objetivos entrelaçados.

A sublevação do povo de Petrogrado, em fevereiro de 1917, dando início ao processo da revolução russa, foi marcada por uma surpreendente – e vigorosa – afirmação da organização autônoma das gentes – plasmada nos conselhos de operários e soldados, os sovietes das cidades, dos quartéis e das trincheiras, comprometidos, como parlamentos plebeus, com a liberdade de expressão e de organização e com a disputa contraditória de ideias e de programas. Num segundo momento, este processo de auto-organização alcançaria as massas camponesas e as nações não russas,as quais multiplicariam comitês e organizações que eram resultado e fator das disputas políticas, desenvolvidas em atmosfera de grande liberdade, apesar de contratendências autoritárias, cuja existência, de resto, era inevitável, considerando-se a escassíssima – quase irrelevante – tradição democrática no solo social e político do Império russo, não fora este último conhecido como o “cárcere dos povos”.

Contudo, a atmosfera de liberdades, que tanto impressionava os contemporâneos, nativos ou visitantes, cedo esvaiu-se, esvaziou-se, transformando-se os sovietes – de parlamentos legislativos e executivos – em meras fachadas, colonizadas pelos bolcheviques, aparelhos de ratificação de vontades elaboradas em outros centros de poder.

Como isto pudera ter acontecido em tão breve tempo?

Silvio Pons aponta dois processos maiores, entrelaçados e decisivos: a cultura política da revolução catastrófica e a lógica da guerra civil, incompatíveis com os valores democráticos. As guerras, por mais comprometidas originalmente com a conquista de liberdades, não tendem, por natureza, a se coadunar com as liberdades democráticas. Na vigência destas, o adversário derrotado é preservado e, mais do que isto, garantido, para poder, em momento seguinte, tornar-se vitorioso no quadro da alternância de poder, pressuposto básico dos regimes democráticos. Nas guerras, ao contrário, o adversário se transforma em inimigo que urge destruir e aniquilar definitivamente. Daí decorrem imperativos hierárquicos, verticais, sumários. A ordem substitui a persuasão, a disciplina uniformizadora prevalece sobre a diferença, a decisão centralizada e rápida mata o debate. Num momento posterior, em outro movimento, o da revolução pelo alto em fins dos anos 1920, a perspectiva da construção de um Estado demiurgo, centralizado e ditatorial, como agente transformador das condições econômicas, sociais, políticas e culturais, selou em definitivo a sorte das liberdades e da democracia na experiência soviética.

Tais referências, trabalhadas e criticadas com acuidade pelo Autor, nos remetem para o plano das opções do partido bolchevique dominante, cedo convertido em partido único, fundido ao Estado, o partido-Estado, numa construção original que, antes de surpreender os críticos, confundiu os próprios revolucionários, muitos dos quais se viram involuntariamente arrastados na torrente estatista revolucionária, figurada na famosa metáfora de Lenin, vendo-se como o motorista de um carro rolando ladeira abaixo, sem freios, de pouco adiantando manter comandos formais que não se faziam obedecer na prática.

Na conformação do autoritarismo que se foi afirmando, haveria, talvez, que apontar mais duas dimensões.

A das tradições social-democratas – das quais, recorde-se, os bolcheviques eram apenas um ramo. Inebriados pelo cientificismo triunfante do último quartel do século XIX, os social-democratas ousaram transformar a política em ciência, uma ciência que se queria, petulantemente, certa e bem sabida, exata, como era próprio do ar do tempo. Os social-democratas não apenas transferiram estas concepções científicas para o campo imprevisível e imprevisto da política, mas também não tardaram em investir-se como seus únicos guardiões, daí decorrendo a ideia – falaciosa – de que eram os únicos representantes de trabalhadores, cujos movimentos, ao contrário, caracterizavam-se por múltiplas diferenças e identidades.

A outra dimensão refere-se às demandas sociais, históricas. O Leviatã que se formou na União Soviética revolucionária não foi obra somente da vontade do partido bolchevique dominante, ou da de Stalin, conforme o primário diagnóstico de N. Khruschev, mas igualmente, ou principalmente, expressão da vontade de amplas camadas e classes que, embora reprimidas, participaram ativa e conscientemente da construção do Estado. Em movimento inédito na história daquele país e do mundo, plebeizaram-se as principais instituições políticas, como apontou N. Werth. Combinando o messianismo religioso dos russos com o científico dos bolcheviques, chancelou-se um processo de modernização acelerada, sob ritmos demenciais, articulado com o objetivo grandioso de uma revolução mundial (M. Lewin). Ensejaram-se, assim, mudanças radicais, desmentindo uma certa historiografia liberal- conservadora, segundo a qual o Estado soviético não foi senão a repetição do mesmo, a continuação, com outras roupagens, do Estado czarista.

O que se quer dizer, em resumo, é que as chaves para a elucidação do autoritarismo comunista passam pela dupla compreensão da cultura política hegemônica – o catastrofismo revolucionário associado à ilusão purificadora e regeneradora da guerra, mais a “cientifização” da política – e das bases sociais e históricas que potencializaram esta cultura no solo histórico e nas circunstâncias conjunturais russas.
II
Acompanhando a melhor historiografia, Silvio Pons bem assinala que na insurreição de Outubro, elo essencial do processo revolucionário russo, houve uma aposta – o eventual triunfo dos bolcheviques seria complementado e, num segundo momento, liderado pelas revoluções na Europa Central e Ocidental. Fazia parte das concepções universalistas vigentes. O socialismo seria internacional ou não seria.

Aposta perdida. Esperanças, não totalmente ilusórias, ainda foram cultivadas até outubro de 1923, quando, pelo menos a curto prazo, desapareceu a hipótese de revolução na Europa.

Restaram os povos dominados pelo colonialismo ou dependentes, em outras modalidades, das grandes potências capitalistas. A Ásia e, em especial, a China, mereceram atenção particular. Para incentivar a revolta anticolonial e anti-imperialista, havia a Internacional Comunista, fundada em 1919, e o Estado soviético, consolidado em 1922. Haviam falhado em “promover” a revolução na Europa. Teriam, agora, uma segunda chance na China e na Ásia.

Num primeiro momento, para todos, e para todo o sempre, para muitos, não havia contradição antagônica entre a URSS e o Movimento Comunista Internacional. Ambos se apoiariam e, do seu mútuo agenciamento, brotaria a revolução mundial. Havia ali um compartilhamento de referências, um coerente universo, que favorecia o centralismo e a uniformidade. Assim se fez a Internacional Comunista. Incorporadas as concepções catastróficas, transformou-se logo numa máquina de guerra, e, como tal, militarizada, hierárquica.

A questão, registrou Pons lucidamente, é que, tanto na Europa como na Ásia, afloravam situações extremamente diversas, difíceis de caber em moldes pré-fabricados e de obedecer a centros hierárquicos. A II Guerra e suas exigências mascararam o processo, mas não impediram o florescimento da diversidade. A dissolução da Internacional, em 1943, apenas superficialmente reconheceu as evidências de uma crescente diferenciação. Permaneceram, ocultas, as ambições centralistas e uniformizadoras, intrinsecamente inseparáveis das concepções políticas vigentes. Com a transformação da União Soviética em superpotência e a instauração da Guerra Fria e da bipolaridade, reforçaram-se o universalismo e o centralismo. Como numa espiral, reproduziam-se, em escala ampliada, os mesmos problemas e as mesmas tendências, anteriores à II Guerra Mundial, agora exacerbados. Aspirações particulares eram travadas e sufocadas. Nesta atmosfera, alternativas transformavam-se em dissidências, logo expelidas do “mundo socialista” – foi o caso da Iugoslávia, em 1948. As demais democracias populares – que não eram democráticas nem populares – passaram por enquadramentos e expurgos que as fizeram cópias empobrecidas da matriz, garantidas pela presença do exército soviético.

Depois da morte de Stalin, no contexto das aberturas promovidas na URSS, pareceu possível ampliar aqueles horizontes. A ideia de um policentrismo, proposta pelos comunistas italianos, muito mais adequada ao processo histórico real, chegou a ser cogitada, mas não prevaleceu. Para se impor, carecia de uma revisão, pela base, de tradições arraigadas. Não havia força política suficiente para viabilizar tal objetivo.

Nesta atmosfera, a diversidade tinha dois caminhos – ocultava-se ou se tornava um cisma. A trajetória dos comunistas italianos foi emblemática da opção por um aggiornamento disfarçado –a unidade na diversidade. A dos chineses explodiu num cisma. Sintomaticamente, por não rever em profundidade as concepções historicamente compartilhadas, reproduziu, em sua área de influência, o controle e, no limite, o sufocamento das particularidades. Beijing converteu-se numa nova Moscou.

Não foi possível, no entanto, em qualquer variante, deter o processo histórico de contínua diferenciação, determinada pela dinâmica da internacionalização do capital. As múltiplas reuniões e conferências comunistas assumiam, cada vez mais, um caráter patético, no afã de estabelecer programas e denominadores comuns. Fachadas inviáveis, escondiam o sol com a peneira. Quando a Guerra Fria acabou, já o movimento comunista internacional, de fato, desaparecera como fator político relevante, como bem observou A. Tchernaiev, assessor de M. Gorbachev, citado por Pons.

Restou um paradoxo, o da incapacidade dos comunistas, campeões do internacionalismo, de apresentar propostas revolucionárias a um mundo cada vez mais internacionalizado. Ao sustentar teimosamente antigos paradigmas, tornaram-se irrelevantes.
III
Enredado em suas contradições, o socialismo soviético seria insuscetível a autorreformas? A corrente liberal conservadora, capitaneada por L. Shapiro e R. Pipes, incorporando e, em certa medida, exacerbando e deformando a crítica de H. Arendt ao totalitarismo, sempre foi muita assertiva a este propósito – o modelo soviético só se extinguiria por pressões externas, como o seu clone nazista. A própria ideia de movimento interno à sociedade soviética era tendencialmente descartada, eis que se encontrava inerme, como lobotomizada, nas mãos de um Leviatã,sem fraturas.

M. Lewin fez a crítica destes propósitos. A sociedade soviética movia-se, o que se evidenciou nas tentativas de mudança efetuadas mesmo antes da morte de J. Stalin por S. Kirov, no começo dos anos 1930, e por N. Voznessenski, no imediato pós II Guerra Mundial. Limitados e frustrados ensaios. Seriam, porém, retomados em maior escala, depois da morte do tirano, no quadro do degelo, empreendido sob liderança de N. Khruschev, entre 1956 e 1964. Mais tarde, com escopo muito mais profundo e ambicioso, viriam a perestroika (reestruturação)e a glasnost (transparência), lançadas por M. Gorbachev, a partir de 1985 e 1987. Também fracassaram. E seu fracasso precipitou o desmoronamento surpreendente do colosso.

Era inevitável o fim da União Soviética? Para o arguto G. Kenan, citado por Pons, desde fins dos anos 1940, a luz daquela estrela ainda brilhava, mas seu núcleo já se apagara. O fato, registrado também pelo nosso Autor, de que os sucessores de J. Stalin dele procuravam se demarcar e se afastar, demonizando-o, ao contrário dos herdeiros de Lenin, que sempre o reivindicaram, mesmo se batendo entre si, era indício seguro de que estava em jogo uma falência sistêmica.

O fato é que o socialismo soviético, segundo análises predominantes ao longo dos anos 1970, parecia em crescimento, cada vez mais forte, suscitando esperança entre seus aliados na África e na Ásia e temores entre as potências capitalistas e mesmo em setores importantes das esquerdas democráticas. Seu parceiro e rival, a China, consolidado o cisma, depois das convulsões da revolução cultural, em fins daquela mesma década empreendia autotransformações de vulto (a política das Quatro Modernizações, aprovada em 1978), cujo alcance global ainda não era entrevisto, mas com virtualidades já reconhecidas.

É certo, como observa Pons, que as guerras entre os comunismos asiáticos (Vietnã contra Cambodja e China contra Vietnã, sem contar o ressoar dos tambores de guerra entre a URSS e a China) evidenciavam o reforçamento da cultura catastrófica e militarista, e o mesmo se poderia dizer do expansionismo da União Soviética, de que a invasão no Afeganistão, em 1979, era a expressão mais acabada. A corda estava sendo esticada além dos limites razoáveis, tendia a arrebentar. A China o teria reconhecido – suspendeu rapidamente as hostilidades contra o Vietnã, abdicou do terceiro-mundismo militante e revolucionário, confinou o maoísmo no passado, mesmo que mantendo reverência formal ao grande timoneiro, e passou a se dedicar quase exclusivamente, em chave nacionalista, ao processo de modernização de seus imensos território e população.

O mesmo não aconteceu com a União Soviética, e isto teria representado o seu fim, sobretudo porque enveredou por um processo reformista que punha em questão as características básicas que, até então, haviam feito a sua força. Se não o tivesse feito, argumenta Pons, poderia ainda durar no tempo, embora já sem dinamismo. Ao fazê-lo, ao questionar e pôr em risco os fundamentos de sua força, soçobrou sem remédio.

Pons tem razão ao afirmar que “a propaganda antiocidental (dos soviéticos) se revelava vazia e insensata, voltada pra denunciar um capitalismo que não mais existia ou para celebrar um socialismo que quase ninguém desejava”. E o mesmo se pode dizer quando pondera que “a erosão política, cultural e simbólica do comunismo precedeu, e não sucedeu, sua crise [...] como sistema econômico”. Gorbachev o reconheceu: era preciso capturar a “alma” dos soviéticos para o socialismo, em especial a da juventude, e democratizar o sistema para reformá-lo. Não foi possível. O gigante – e as estátuas que celebravam sua glória – vieram abaixo.

Mas na afirmação do fim inevitável, “fatal”, do modelo soviético não haveria um grão de história retrospectiva? O que determinou, de fato, a desagregação do modelo? O fato de ter questionado seus fundamentos? Ou o de não ter havido a capacidade de formular políticas concretas que viabilizassem as mudanças desejadas? Talvez ainda sejam necessários muitos anos para um diagnóstico mais seguro ou consensual.
IV
O modelo soviético viveu e morreu. É possível chegar a alguma conclusão sobre o seu papel histórico?

Entre os habitantes que viveram os rigores da ditadura soviética, na matriz ou entre os clones, há controvérsias entre os que nenhuma nostalgia sentem de um tempo sem liberdades, marcado pela onipotência da polícia e pelos privilégios dos apparatchiks, e os que recordam em chave positiva um ambiente considerado por eles de ordem, paz, prosperidade relativa, direitos sociais assegurados e prestígio internacional. Entre estes juízos contraditórios, não é, e não será, possível encontrar unanimidade. Talvez eles nos deixem entrever as fraquezas e os pontos fortes de um regime que desapareceu.

E. Hobsbawm gostava de dizer que o Estado soviético tolhera as liberdades dos “seus”operários, ao mesmo tempo em que promovia, pela ameaça que encarnava, os direitos sociais e políticos na Europa Ocidental. Nesta argumentação, o warfarestate – soviético – haveria contribuído, malgré lui-même e indiretamente, para a construção e consolidação do welfare state – o Estado do bem-estar social, promovido pela social-democracia, pela democracia-cristã e pelos liberal-sociais europeus.

Silvio Pons permite-se questionar esta avaliação, formulando a hipótese, não verificável, de que seria plausível imaginar conquistas ainda mais significativas num quadro em que inexistisse o socialismo soviético. Neste raciocínio, a ameaça dos tanques soviéticos podia favorecer avanços (“entreguemos os anéis para salvar as mãos”), mas também os limitava (“não queremos aqui o modelo soviético”). Há um grão de verdade nesta assertiva, mas, como se sabe, é muito difícil formular uma históriacontrafactual.

Seria possível elaborar melhores juízos nas vastas regiões do outrora chamado “terceiro mundo”: a América Latina, a África e a Ásia? Quanto aos chineses, nem vale a pena indagar como avaliam o socialismo soviético. No Império do Meio, os soviéticos não deixaram saudades. Entretanto, do ponto de vista mais amplo das lutas de libertação nacional ou dos processos de descolonização, para além dos erros cometidos, e não apenas pelos soviéticos, mas também pelos nativos (desde que se escape de uma lógica simplista e unilateral), a União Soviética, mesmo quando não era um aliado direto, proporcionando apoio político, militar e diplomático, foi um fator de contenção e de inibição dos “velhos colonialismos”. Neste preciso sentido, representou um dado positivo nas relações internacionais. É verdade que os Estados Unidos também viram com bons olhos o desmoronamento dos impérios europeus, mas as evidências mostram como apoiaram, em diferentes conjunturas (França no Vietnã; Portugal em suas colônias), Estados e tropas coloniais. Já a URSS, desde os anos 1920, não tinha nenhum interesse na permanência do “mundo colonial e neocolonial”e por isso contribuiu, e muito, direta ou indiretamente, para o fim dos impérios. Por outro lado, seu modelo estatista impressionou diferentes lideranças do “terceiro mundo”, que adotaram muitos de seus aspectos para grande dano de uma atmosfera de liberdades civis e políticas, pois o nacionalismo estatista terceiro-mundista, para além de assegurar, em determinados momentos e espaços, direitos sociais, caracterizou-se, quase sempre, por uma lógica autoritária.

Talvez valesse ainda aduzir que o experimento socialista soviético perdeu a luta contra o nacionalismo. Ao contrário do que sonhavam, e previam, os socialistas oitocentistas, o século XX não registrou o triunfo do internacionalismo socialista. Não só isto não aconteceu, mas também ali onde o socialismo vigorou fortaleceram-se as tendências nacionalistas, e é fazendo uso do nacionalismo que ele até hoje sobrevive onde isto foi possível.

Frente a este problemático balanço crítico, Kiva Maidanik, de origem ucraniana, mas que se autoidentificava orgulhosamente como bolchevique e soviético, afirmava, amargurado, pouco antes de morrer: “Pelo menos aprendemos o que não se deve fazer”, sublinhando sempre, e enfaticamente, a partícula negativa. No futuro saberemos se o diagnóstico do velho Kiva tinha fundamento.

É verdade que se perdeu a certeza nos “amanhãs que cantam”. Se alguma coisa as experiências novecentistas demonstraram, é que, ao contrário do que muitos imaginavam, o mundo, definitivamente, “não marcha para o socialismo”.

Resta a possibilidade de ainda apostar. No quadro das contradições suscitadas por um capitalismo que reitera sua natureza de sistema predador e desigual, cabe aos que se mantêm fiéis a uma perspectiva alternativa, ensaiar, tateantes, a experiência de novos caminhos, comprometidos com a necessária reconstrução da utopia socialista.

Para este objetivo, Silvio Pons, empreendendo rigorosa análise crítica do comunismo do século passado, propõe uma valiosa contribuição


Maio, 2014.

Daniel Aarão Reis
Professor titular de História Contemporânea na Universidade Federal Fluminense

Caetano Veloso - Desde que o samba é samba

Mário Sá Carneiro: Rodopio

Volteiam dentro de mim,
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas tôrres de marfim.

Ascendem hélices, rastros...
Mais longe coam-me sois;
Há promontórios, farois,
Upam-se estátuas de herois,
Ondeiam lanças e mastros.

Zebram-se armadas de côr,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor...

Cristais retinem de mêdo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços...
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segrêdo.

Luas de oiro se embebedam,
Rainhas desfolham lirios;
Contorcionam-se círios,
Enclavinham-se delírios.
Listas de som enveredam...

Virgulam-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Há missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.

Silvam madeixas ondeantes,
Pungem lábios esmagados,
Há corpos emmaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos de anseantes...

(Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas -
Um lenço, fitas, dedais...)

Há elmos, troféus, mortalhas,
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.

Há vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, paúes, ravinas
Que não ouso percorrer...

Há vácuos, há bolhas de ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas -
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!...

Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'