quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Dilma afronta mais uma vez a inteligência dos brasileiros, diz Aécio

- O Estado de S. Paulo / O Globo

Faltou em primeiro lugar humildade para a presidente para que ela pedisse desculpas aos brasileiros. A presidente deveria ter iniciado suas palavras se desculpando. Não apenas pela corrupção instalada na Petrobras durante o seu governo, como sugeri durante a campanha. A presidente deveria ter se desculpado pelos erros que cometeu e que trouxeram o país à grave situação em que ele se encontra e pelo fato de, movida apenas pelo interesse eleitoral e não pela preocupação com o bem-estar dos brasileiros, ter adiado medidas que, se tomadas há mais tempo, afetariam menos a vida de milhões de pessoas.

Quem escuta as palavras da presidente acha que o país chegou aonde chegou por obra do acaso. Não é verdade. Foi preciso muita incompetência, muita arrogância para desprezar os alertas feitos por tantos brasileiros para que chegássemos até aqui.

A presidente tenta se defender da acusação de ter sido protagonista do maior estelionato eleitoral da história do país. Tenta nos fazer crer que não prometeu o que prometeu e que não está fazendo o que está fazendo.

E, de forma inacreditável, sabemos hoje que o estelionato eleitoral foi duplo – o governo já vinha estudando as mudanças no seguro desemprego, abono salarial e pensões antes das eleições, mas não apenas negava a necessidade de mudanças como prometia que não iria fazê-las. Foi um estelionato eleitoral premeditado.

A presidente chega a afirmar que não descuidou da inflação.

A inflação média no governo Dilma foi de 6,2% ao ano, acumulando uma inflação de 27% e que, este ano, corre o risco de passar de 7% e estourar o teto da meta. A presidente não apenas descuidou da inflação como segurou preços da gasolina e da energia que serão reajustados agora. Em 2015 teremos um tarifaço graças à política artificial da presidente Dilma de controlar a inflação que foi um desastre duplo: não reduziu a inflação e deixou um prejuízo monumental para a Petrobras e Eletrobras.

Ela promete reforma do PIS/Cofins, mas acabou de aumentar esse tributo sobre importações e combustíveis. A única reforma que foi feita até agora foi o aumento da carga tributária na semana passada em mais de R$ 20 bilhões em um contexto de PIB estagnado.

Ao invés de combater a inflação, a paralisia da economia, a falta de confiança, a presidente pede que ministros combatam boatos.

Na verdade, a grande fábrica de boatos tem sido o PT, a candidata Dilma e seu marqueteiro na campanha de 2014. O que está acontecendo agora não é boato. É realidade. A presidente já editou de forma autoritária Medidas Provisórias que retiram direitos dos trabalhadores e aumentam impostos.

Não bastasse todo o jogo de cena, a presidente se apropria do trabalho de outros.

Quem combateu a corrupção não foi o governo, mas sim o polícia federal, Ministério Público e a Justiça Federal. O que o governo fez foi possibilitar a ocorrência da corrupção com o aparelhamento político das estatais para viabilizar um projeto de poder.

Para quem não compreendia as imensas contradições e as improvisações dos últimos trinta dias, ficou claro: Depois do fracasso do seu primeiro governo, a presidente Dilma não se preparou para um segundo mandato. E quem vai pagar a conta, mais uma vez, serão os brasileiros.

Senador Aécio Neves
Presidente Nacional do PSDB

Renan terá adversário do próprio PMDB

• Luiz Henrique vai disputar presidência do Senado com apoio da oposição

Cristiane Jungblut – O Globo

BRASÍLIA - Depois de dias de negociação entre oposição e um grupo dissidente do PMDB, o senador Luiz Henrique (PMDB-SC) lançou ontem seu nome para disputar a presidência do Senado, como alternativa ao senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que quer mais um mandato no comando da Casa. Os partidos de oposição - DEM e PSDB - buscavam há semanas um nome de dentro do próprio PMDB para tentar derrotar Renan. A manobra teve o aval do presidente nacional da legenda, senador Aécio Neves (PSDB-MG).

Luiz Henrique anunciou sua candidatura ontem à tarde, depois de ter conversado por telefone com Renan pela manhã e de ter almoçado com o líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE). O senador se encontra hoje, às 10h, com o presidente do Senado, a quem pretende derrotar. Em tom de provocação, Luiz Henrique disse que vai conversar com Renan para lhe "pedir voto".

A eleição para a presidência do Senado será no próximo domingo, em votação secreta. No sábado, o PMDB reunirá sua bancada para anunciar quem será o candidato oficial do partido. Segundo Luiz Henrique, sua candidatura é "irreversível" e será apresentada diretamente no Plenário do Senado caso a bancada do PMDB não a avalize.

- Estamos trabalhando (a candidatura) no PMDB, mas, se não conseguirmos viabilizar no PMDB, nos apresentaremos como candidato da instituição. É uma decisão irreversível. Na sexta-feira, deve ser o lançamento oficial, com uma chapa com nomes para todos os cargos - disse Luiz Henrique, avisando:
- Não é para protestar, é para disputar para valer.

A manobra do grupo - chamado de históricos do PMDB - preocupou a cúpula do PMDB e os aliados de Renan. Para o comando da campanha de Renan, Luiz Henrique tem "estofo", por ter sido presidente nacional do PMDB na década de 1990 e um dos fundadores do partido. O PMDB tem e terá a maior bancada do Senado, com 19 senadores. O tom foi de preocupação entre os aliados de Renan.

- Não é bom - resumiu um cacique do PMDB, apostando ainda no nome de Renan.

Os líderes da oposição comemoram. O líder do DEM no Senado, José Agripino Maia (RN), vinha negociando com ala dissidente do PMDB e ontem conversou com Luiz Henrique. A ideia era justamente ter um candidato do PMDB, com força para vencer Renan.

- O candidato é o Luiz Henrique. Mas ele não é o candidato da oposição. Ele é um nome do Senado como instituição. Ele tem mais história, mais condições de ganhar a eleição. Ele assusta mais (o grupo do Renan) - disse Agripino.

- O Luiz Henrique terá todos os votos do PSDB. Ele é o velho MDB da luta democrática - acrescentou o líder do PSDB, Aloysio Nunes Ferreira.

Luiz Henrique conversou por telefone com o presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, e disse que tem apoio de senadores do PSDB, DEM, PP, PSB e PDT. Ontem, depois da conversa com Renan e do surgimento de Luiz Henrique, o senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE), que havia se lançado como candidato alternativo a Renan disse que o PSB tem poucos votos e que é preciso esperar até sexta-feira para definir se sua candidatura será mantida ou não.

Aécio entra em campo para evitar debandada na Câmara

• Senador pediu ajuda a Alckmin e a FH para que deputados mantenham apoio a Júlio Delgado

Isabel Braga – O Globo

BRASÍLIA - A oposição enfrenta uma situação de impasse na disputa pela presidência da Câmara. Diante da pressão de parte dos deputados do PSDB para que o partido desembarque da candidatura de Júlio Delgado (PSB-MG) e apoie o candidato do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), o presidente do PSDB, senador Aécio Neves, entrou em campo e buscou ajuda até do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, e do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, para tentar conter a debandada. Cobrado na véspera pela cúpula do PSB, que o apoiou no segundo turno da eleição presidencial, Aécio conseguiu a promessa de Alckmin de que ligaria para os 14 deputados do partido em São Paulo para manter o voto em Delgado.

- Vamos manter o apoio a candidatura de Júlio Delgado. Essa é a melhor opção política para o partido, para a Câmara e para o país - disse Aécio nas conversas com quem o procurou para discutir o apoio do partido.

Cotado para reassumir a liderança do PSDB na Câmara, o deputado Carlos Sampaio (SP) não descarta a possibilidade de mudanças na decisão diante de fatos novos, mas diz que qualquer decisão será tomada em conjunto pelos partidos que estão neste bloco de oposição: PSDB, PSB, PPS e PV.

- Temos uma posição clara em favor do candidato das oposições. Cabem novas reflexões diante de fatos novos? Sim, mas o nosso time decidirá em bloco, sob a batuta de Aécio. Reflexões individuais sobre o melhor caminho para a oposição são legítimas, desde que conversadas com Aécio - disse Sampaio.

Um dos fatores que pesam na decisão de alguns deputados tucanos é a oferta que Eduardo Cunha fez para que o partido o apoie formalmente: a primeira vice-presidência da Câmara e também a escolha de comissões temáticas.

- Os blocos para a disputa dos demais cargos da Mesa Diretora e em comissões têm que ser fechados antes da eleição. No segundo turno, não dá mais - pressionou o deputado Sandro Mabel (PMDB-GO).

PSB avalia apoio a candidato do PMDB à presidência do Senado

• Partido recua da ideia de lançar nome próprio para a disputa da Casa se Luiz Henrique (SC) aceitar pontos defendidos pela legenda

Isadora Peron - O Estado de S. Paulo

Brasília - O PSB recuou da ideia de lançar candidato próprio à presidência do Senado, mas vai apresentar condições para apoiar o nome de Luiz Henrique da Silveira (PMDB-SC) na disputa. Entre os pontos considerados fundamentais pela sigla está o compromisso com a reforma política, com a reformulação do pacto federativo e com a democratização do Senado.

"Se houver compromisso do senador Luiz Henrique com essa pauta do PSB, nós daremos apoio. Se não houver compromisso, nós lançaremos a nossa candidatura", disse a líder da sigla na Casa, Lídice da Mata (BA). A candidatura de Luiz Henrique, apresentada nessa terça, 27, é uma dissidência dentro do PMDB, que já era representado na disputa pelo senador, e atual presidente da Casa, Renan Calheiros (AL). Luiz Henrique conta com apoio de legendas da oposição, de uma ala independente do PMDB e também, de forma velada, de parte da base aliada do governo.

Os seis senadores que formarão a bancada do PSB na próxima legislatura participaram da reunião e devem se encontrar com Luiz Henrique nesta quarta-feira, 28, para apresentar a pauta de reivindicações. Quando se lançou candidato nesta terça, o senador catarinense já havia elencado como prioridade a reforma política e mudanças no pacto federativo, que, em linhas gerais, define as obrigações da União, Estados e municípios.

Segundo Lídice, o objetivo do PSB ao cogitar lançar o nome do senador Antonio Carlos Valadares (SE) era "quebrar a inércia" do processo de eleição no Senado e fazer com que os candidatos se apresentassem para a disputa. Faltando cinco dias para a eleição, o atual presidente do Senado, Renan Calheiros, sequer oficializou a sua candidatura à reeleição, o que está previsto para acontecer somente no sábado, após a reunião do PMDB.

Até então sem adversário declarado, Renan estava mantendo a estratégia de ficar longe dos holofotes para evitar desgastes. O receio era virar alvo de críticas por ter sido um dos 28 citados pelo ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa em sua delação premiada, na qual detalhou como funcionava o esquema de corrupção na estatal. A eleição para o Senado será neste domingo, 1º de fevereiro.

Dia Nacional de Luta no Rio de Janeiro

• Centrais sindicais de todo o país realizam ato contra as Medidas Provisórias anunciadas pelo governo federal

No Rio, a concentração será às 14 horas na Candelária. Ugetistas do Rio marcarão presença neste importante ato pela defesa dos direitos dos trabalhadores.

Nesta quarta-feira, 28 de janeiro, as centrais sindicais de todo o país realizarão um protesto nacional pela revogação das Medidas Provisórias 664 e 665 anunciadas pelo governo federal no dia 30 de dezembro.

As MPs tratam de mudanças nas regras de pagamento do abono salarial, seguro-desemprego, seguro-defeso, pensão por morte e auxílio-doença. Batizado como Dia Nacional de Lutas por Empregos e Direitos, o ato acontecerá a partir das 14 horas. No Rio de Janeiro, a concentração será na Candelária no mesmo horário.

A União Geral dos Trabalhadores (UGT) e demais centrais sindicais estão programando, ainda, para o dia 26 de fevereiro uma nova edição da Marcha da Classe Trabalhadora.

Ato hoje
Dia 28 de janeiro, quarta-feira

Grande manifestação contra as Medidas Provisórias 664 e 665

Concentração às 14 horas na Candelária

Governo pode recuar no seguro-desemprego

• Lobby de centrais sindicais pode levar à redução do novo período mínimo do benefício, de 18 para 12 meses

Cristiane Bonfanti, Ana Paula Ribeiro e Clarice Spitz – O Globo

BRASÍLIA, SÃO PAULO e RIO - Diante da insatisfação das centrais sindicais, o governo estuda rever as regras que restringiram o acesso ao seguro-desemprego. A ideia é conseguir algum apoio dos representantes dos trabalhadores para aprovar, no Congresso Nacional, a medida provisória (MP) que alterou as normas. Uma das possibilidades em estudo é a redução, de 18 meses para 12 meses, do período aquisitivo para ter acesso ao seguro pela primeira vez. Em dezembro, ao anunciar a elevação desse período de seis para 18 meses, o governo foi muito criticado, especialmente pelas centrais sindicais.

- A redução desse período é uma das pautas das centrais sindicais e há uma chance real de isso acontecer - disse uma fonte do governo.

A avaliação interna é que, se houver uma mudança na regra para o acesso à primeira parcela, provavelmente isso atingirá o período aquisitivo exigido para se ter direito ao benefício pela segunda vez - que seria de 12 meses de trabalho nos 16 meses anteriores à dispensa injustificada.

O governo se dispôs a negociar as regras depois da reunião realizada no último dia 19, em São Paulo, com as centrais sindicais. Estas afirmam que o Executivo cometeu um equívoco ao restringir o acesso ao benefício, sobretudo em um momento em que a taxa de desemprego pode subir. E reclamam do fato de o governo ter feito as alterações por meio de MP, em vez de realizar uma discussão prévia no Congresso.

Na semana passada, em Davos, na Suíça, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, disse que o modelo do seguro-desemprego está "ultrapassado", o que causou ruído no próprio Palácio do Planalto e entre os sindicalistas. Há duas semanas, o Ministério do Trabalho divulgou estimativa apontando que as novas regras devem limitar o acesso de 2,27 milhões de trabalhadores ao benefício este ano. Isso representa 26,58% dos 8,55 milhões que pediram o seguro no ano passado.

- O governo está disposto a negociar - disse a fonte do governo.

Apesar de o governo ter sinalizado uma flexibilização das novas regras, as centrais sindicais estão pouco dispostas a dialogar e afirmam que não aceitam a redução dos direitos dos trabalhadores. No próximo dia 3, haverá um encontro entre representantes do Executivo e das centrais, em São Paulo, para discutir o assunto. E os sindicalistas fazem hoje uma marcha em diferentes capitais para pedir a revogação da MP.

- Queremos a revogação das propostas. Em 2013, quando o governo levantou a questão de melhorar o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), fizemos, junto com as outras centrais, uma série de propostas. O governo não deu a mínima e agora propôs essa medida provisória - disse o presidente da Força Sindical, Miguel Torres.

Ele defende algum tipo de compensação por parte das empresas beneficiadas pela redução do PIS/Cofins, mas que acabaram demitindo:

- O governo foge de alguns temas, como a taxação de grandes fortunas, mas concedeu desonerações tributárias sem o pedido de contrapartidas e aumentou os impostos pagos pela população.

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) também é contrária a qualquer tipo de alteração. O secretário de Finanças da entidade, José Quirino, disse que o governo deveria buscar soluções para reduzir a rotatividade dos trabalhadores, pois isso limitaria os gastos com o seguro-desemprego.

- Nossa expectativa é que o governo revogue as medidas apresentadas no fim do ano passado e não retire nenhum direito dos trabalhadores - disse Quirino, que ainda alfinetou Levy. - Acredito que o ministro está completamente desatualizado da realidade brasileira. Ele teria que se empenhar para reduzir a rotatividade. Quando isso acontecer, talvez seja menos necessário o seguro-desemprego, mas enquanto a rotatividade for alta temos que ter isso.

América do Sul: 12 meses para acessar seguro
Se de fato adotar a exigência de 12 meses para que o trabalhador tenha direito a obter o seguro-desemprego, o Brasil estará se equiparando aos demais países da América do Sul. Levantamento realizado pelo especialista em economia do trabalho da PUC-Rio e coordenador da plataforma DataZoom, Gustavo Gonzaga, mostra que hoje Brasil e Argentina são os países mais generosos do continente, por requererem um período mínimo de seis meses para a concessão do benefício.

Com algumas diferenças. No Brasil, o valor do benefício corresponde a 100% do salário mínimo. Já na Argentina, ele corresponde à metade do salário nos quatro primeiros meses, com piso entre 250 pesos e teto de 400 pesos. E o pagamento do benefício pode se estender a 12 meses.

Gonzaga ressalta, porém, que se o governo mantiver a decisão de alterar o período mínimo para 18 meses, o Brasil terá as regras mais rígidas do continente.

Hoje, Chile, Uruguai e Venezuela requerem um período mínimo de 12 meses para se ter direito ao benefício. No Chile, o trabalhador tem que ter ao menos 12 meses de contribuição, contínua ou descontínua, nos 24 meses anteriores à demissão. O benefício é pago em cinco parcelas, e o valor corresponde à metade do salário antes da demissão no primeiro mês, caindo depois para 45%, 40%, 35% e 30%.

Na Venezuela, são exigidos 12 meses de contribuição nos 18 meses anteriores à demissão. O valor corresponde a 60% do salário médio durante quatro meses, prorrogáveis desde que o trabalhador esteja fazendo curso de capacitação. Já no Uruguai, a concessão varia conforme o setor: na indústria e no comércio, o período mínimo é de seis meses; para trabalhadores rurais, de 12; e para domésticos, varia de seis a 12 meses.

Merval Pereira - Dilma contra os fatos

- O Globo

Depois de ficar quase um mês em silêncio, a presidente Dilma Rousseff reapareceu ontem exigindo de seus ministros que travem a batalha da comunicação, aprofundando dessa maneira as contradições de seu primeiro discurso do segundo mandato.

"Nós devemos enfrentar o desconhecimento e a desinformação, sempre e permanentemente. Nós não podemos permitir que a falsa versão se crie e se alastre. Reajam aos boatos. Levem a posição do governo à opinião pública. Sejam claros. Sejam precisos e se façam entender", determinou a presidente, que desde que foi reeleita não faz outra coisa a não ser criar mensagens desencontradas sem aparecer em público para esclarecer qual sua verdadeira posição.

Quando o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, teve que desmentir que o governo preparava nova regra para a definição do salário mínimo, correu o boato de que fora Dilma, da praia onde descansava, que o desautorizou. Mas nunca foi esclarecido o episódio. Agora, em Davos, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, desmentiu duas ou três declarações atribuídas a ele, e não se sabe se foi ele mesmo quem resolveu assim, ou se foi a presidente Dilma quem o obrigou a fazê-lo.

A presidente Dilma continua com a mania de desmentir a realidade, como se estivesse a seu alcance. Apesar das mudanças de regras em benefícios sociais, Dilma afirmou em seu discurso que a medida não significa perda de direitos trabalhistas. O que o governo está fazendo, segundo ela, é "adequar o seguro-desemprego, o abono salarial, a pensão por morte e o auxílio-doença às novas condições socioeconômicas do país".

Como a fiadora do novo caminho que está tomando a economia brasileira, a presidente deveria ter feito há muito tempo o que fez ontem, embora de maneira acovardada e indireta. Custou-lhe admitir que está perseguindo um reequilíbrio fiscal, o que significa que alguma coisa estava desequilibrada nas contas do governo.

Mas ela justificou esse desequilíbrio, que não admitiu na campanha eleitoral, de maneira bisonha, afirmando que foi preciso perder o controle das contas governamentais para garantir o emprego e a renda, justamente o que está em risco depois de quatro anos de crescimento econômico pífio e desordem nas contas públicas.

De qualquer maneira, o fato de a presidente Dilma ter bancado as medidas já apresentadas pela nova equipe econômica é sinal de que ela sabe que não tem outro caminho. Agora, terá que convencer seus próprios aliados, especialmente no PT, de que o melhor para o país sair da enrascada em que se meteu é sustentar as "medidas corretivas" para o reequilíbrio fiscal da economia.

Ao abordar os problemas que seu governo vem enfrentando ainda no primeiro mês, a presidente manteve sua postura de alheamento da realidade, sem se referir em nenhum momento à ameaça de racionamento de energia. Para ela, só existe problema com a falta de água, e o governo federal entra na história como o grande benemérito, ajudando os governos estaduais a resolverem os problemas, inclusive São Paulo, o maior estado governado pela oposição.

Também em relação à Petrobras, a presidente Dilma continua tergiversando, como se nada tivesse a ver com os problemas que estão sendo investigados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. A preocupação da presidente em ressaltar que as empresas não podem ser destruídas quando se investiga casos de corrupção tem a ver não apenas com a Petrobras, mas principalmente com as empreiteiras que estão envolvidas no Petrolão.

Num dia em que a maior estatal brasileira se debatia em suas entranhas para tentar parir seu balanço financeiro referente ao terceiro trimestre de 2014, que já fora adiado duas vezes, com baixas contábeis provocadas pelo escândalo, a presidente Dilma reafirmou toda a política do pré-sal, com a manutenção da necessidade de cotas para maquinário nacional e investimentos mínimos de 30% em cada campo, impossível dentro da realidade financeira da empresa pós-petrolão.

Uma insistência em brigar com a realidade que demonstra que os percalços surgidos ainda não foram suficientes para que Dilma 2.0 caia na real.

Dora Kramer - Dízima periódica

• Depois de um mês em silêncio, Dilma nada disse de essencial

- O Estado de S. Paulo

Não se trata de exigir que a presidente da República seja sempre original. Mas, desta vez, Dilma Rousseff teria muitas questões novas a abordar com um mínimo de profundidade diante do País que vive crises de falta de água, de energia, assiste ao anúncio de medidas duras na economia, ouve notícias sobre aumento de impostos, elevação de tarifas e vê crescer o escândalo de corrupção envolvendo a Petrobrás.

No entanto, ontem, na primeira manifestação pública depois de mais de um mês de silêncio, tudo o que a presidente Dilma teve a oferecer à Nação foi uma passagem rápida pela agenda que interessa, falando em ajustes "corretivos" sem se referir ao que e por que está sendo corrigido.

No mais, o que disse na abertura da reunião inaugural do ministério do segundo mandato foi uma versão adaptada do discurso feito no dia da eleição, repetido por ocasião da diplomação e apresentando em texto mais detalhado na posse diante do Congresso em 1.º de janeiro.

Sim, falou dos ajustes. Mas para dizer que são "necessários, medidas para consolidar o projeto de governo vitorioso há 12 anos". Alguma palavra sobre a responsabilidade desse governo na necessidade dos apertos? Nenhuma. Todos os problemas resultantes de questões externas ou de circunstâncias internas decorrentes do clima. Seca, por exemplo.

Sim, falou dos cortes, do reequilíbrio fiscal, mas tangenciou as razões. Assegurou que o governo jamais "descuidou da inflação", que não houve mudança alguma - "nem um milímetro" - no projeto eleitoral, passou de leve pelas questões da água e da energia e exortou os ministros a esclarecerem toda e qualquer questão governamental junto à opinião pública.

Só para lembrar: os dois últimos (e primeiros neste segundo mandato) a ousarem transitar pelo terreno dos esclarecimentos, Nelson Barbosa e Joaquim Levy, foram instados a recuar das respectivas declarações.

Desse ponto em diante, a presidente ampliou a pauta para dar um passeio no discurso de sempre, abordando tópicos aqui e ali sem se deter seriamente em nenhum. No lugar de aprofundar a agenda atual em torno da qual há enorme interesse de toda a sociedade, Dilma Rousseff se pôs a anunciar pela terceira vez sua ideia de alteração da legislação de segurança pública, o pacote de combate à corrupção que vem prometendo enviar ao Congresso desde a campanha eleitoral e seu compromisso "com a lisura no trato do dinheiro público".

Como de praxe, citou a Petrobrás - "temos de apurar tudo" - e prometeu empenho na aprovação da reforma política. Falta de assunto não é porque assunto é o que não falta. Então só pode ser falta de vontade de falar das coisas como elas realmente são.

Voz passiva. Quando o nome do presidente da Transpetro, Sérgio Machado, apareceu nas investigações da Operação Lava Jato, o governo o afastou mediante licença, mas tratou de divulgar que ele não voltaria ao cargo.

O PMDB, padrinho da indicação na pessoa do presidente do Senado, Renan Calheiros, reagiu pedindo igualdade de tratamento em relação ao tesoureiro ao PT, João Vaccari Neto, integrante do Conselho de Administração da Usina Itaipu Binacional, também citado em denúncias da Lava Jato.
Isso aconteceu no ano passado. De lá para cá, Vaccari foi afastado do Conselho de Itaipu e a licença de Sérgio Machado, renovada por duas vezes. O petista perdeu o cargo; o pemedebista continuou licenciado no dele. Não se aplicou, portanto, o invocado princípio da isonomia.

Como a Constituição não confere ao presidente do Senado ascendência sobre a presidente da República, a aplicação de peso e medida diferentes só pode ter sido produto de uma decisão decorrente de jogo político. No momento marcando 1 a 0 para Calheiros no placar.

Vinicius Torres Freire - As boas novas de Dilma 2

• O discurso de Dilma 2 foi animador, se a gente esquecer o elogio do fracasso de Dilma 1

- Folha de S. Paulo

Vamos supor que a presidente Dilma Rousseff tenha acordado de sonhos intranquilos, os quais acabou por anotar quando acordou em uma madrugada de sono ruim e, enfim, transformou em parte do discurso que leu ontem na primeira reunião ministerial. Assim, a gente fica desobrigada de discutir essa versão revisionista mal-ajambrada da sucessão de equívocos econômicos que foi o seu primeiro governo, para dizer tudo de modo caridoso.

Como demonstração de desejo de paz na terra e de boa vontade, a gente então pode se concentrar nas notícias animadoras do discurso, ou pelo menos prestar atenção aos atos de contrição subliminares, que a presidente traduziu em boas novas.

A presidente disse que seu governo vai lançar um "Programa de Desburocratização e Simplificação das Ações de Governo". O colunista, a caminho dos 50 anos, era adolescente quando o Brasil teve um Ministério da Desburocratização. Era chefiado por Hélio Beltrão, que aparecia muito no "Fantástico", da Globo, antes ou depois de reportagens sobre a cura do câncer. O ministro então declarou extintos o espantoso "atestado de vida" e o reconhecimento de firmas, que, no entanto, resiste. Logo, a gente tende a ficar desconfiada da cura do câncer, quer dizer, da burocracia crônica, um dos desastres silenciosos da produtividade brasileira. Mas é um plano de reforma, entre outros lançados ontem pela presidente. Sob Dilma 1, não houve nem promessa disso, ao contrário.

A presidente prometeu também um plano ampliado de privatizações, ou melhor, concessões de infraestrutura: rodovias, portos, aeroportos, hidrovias, dragagem de portos. Sem ironia, trata-se um dos raros meios à disposição do governo de dar algum impulso ao crescimento econômico a partir de 2016.

O programa estará a cargo do ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, que os céus o alumiem, pelo menos, caso a gente enfrente a desgraça de um outro racionamento de eletricidade.

Se o programa de concessões der certo, vamos esquecer enfim que a presidente não gostava nada dessa ideia até o início de seu governo, mas cedeu, dadas as premências da realidade, e privatizou algumas estradas e aeroportos.

Ainda não gostava muito dessa ideia quando procurou restringir de modo equivocado preços de negócios de rodovias ou geração de energia, por exemplo, o que atrasou a melhoria de estradas e a produção de eletricidade, além de derrubar ainda mais o investimento quando a economia brasileira já rastejava.

"Restringir de modo equivocado", ressalte-se a expressão, pois fazendo bons leilões e leis de concessão o preço acaba sendo bom, não havendo cartéis bandidos e amigos deles no governo.

A presidente prometeu ainda um "Plano Nacional de Exportações", com o objetivo de aumentar a variedade e o volume das exportações brasileiras. Muito bem, embora a gente não saiba o que virá dentro desse pacote.

No entanto, a gente sabe que, para exportar mais e melhor, muita vez é preciso importar também --considere-se o caso de sucesso da Embraer. Logo, a gente espera que a política comercial de Dilma 2 seja menos protecionista: que proteja a economia nacional de modo inteligente.

Luiz Carlos Azedo - Dilma no país das maravilhas

• Dilma tenta convencer a opinião pública de que as recentes medidas adotadas pelo novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy não são uma ruptura com a política executada no mandato passado

- Correio Braziliense

Lembram-se daquela musiquinha de Alice no país das maravilhas? Chama-se Um mundo só meu. A letra começa assim: “Se esse mundo fosse só meu, tudo nele era diferente!/Nada era o que é porque tudo era o que não é/E também tudo que é, por sua vez, não seria./E o que não fosse, seria. Não é?/No meu mundo você não diria: ‘Miau’/Diria: ‘Sim, dona Alice!’”.

Esse foi mais ou menos o sentido do discurso de Dilma Rousseff na reunião ministerial de ontem, na qual conclamou os ministros a travar a batalha da comunicação para convencer a população de que a imprensa não fala a verdade quando trata dos problemas do país. Como se os cidadãos fossem gatinhos, flores e passarinhos de um mundo encantado.

“Nós devemos enfrentar o desconhecimento e a desinformação sempre e permanentemente. Não podemos permitir que a falsa versão se crie e se alastre. Reajam aos boatos, travem a batalha da comunicação. (…) Sejam claros, sejam precisos, façam-se entender”, disse Dilma, em discurso transmitido por tevê e rádio do governo.

Dilma tenta convencer a opinião pública de que as recentes medidas adotadas pelo novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, nas áreas econômica, tributária, social e trabalhista não são uma ruptura com a política de expansão do gasto público e do consumo executada durante o seu mandato anterior.

Bastava olhar a fisionomia dos ministros ao ouvir o discurso para perceber que nem eles acreditam nisso. A fala presidencial foi pautada pelo marketing da campanha eleitoral, com a diferença de que não existe horário eleitoral gratuito para embrulhar o peixe do marqueteiro João Santana.

Em determinado momento, nem Dilma parecia convicta do que estava falando, a ponto de se irritar com o assessor responsável pelo teleprompter, equipamento acoplado à câmera de tevê que permite ao orador ler um texto. Depois de dar uma bronca pública no coitado, pedindo que exibisse o texto mais rapidamente, a presidente ameaçou ler o discurso no papel. Foi uma espécie de anticlimax retórico da reunião.

O ajuste
Dilma pediu aos ministros que digam que não houve recuo naquilo que foi apresentado na campanha eleitoral. “Vamos dizer a cada cidadão que não alteramos um só milímetro nosso projeto da eleição. Nosso povo votou em nós porque acredita que somos os mais indicados para fazer, porque acredita na nossa honestidade de propósitos.”

Na narrativa da presidente da República, não existe autocrítica. Tudo o que foi feito pelo governo visou o bem do país e foi devidamente legitimado pelo resultado eleitoral. O grande desequilíbrio provocado por gastos excessivos, preços administrados e maquiagens contábeis se justifica com a manutenção do emprego e da renda, não houve um “estelionato eleitoral”, como diz a oposição.

Se a presidente da República acredita nessa narrativa, vive realmente no mundo de Alice. O resultado, a médio prazo, será uma trombada com a nova equipe econômica, isto é, com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que já levou dois puxões de orelha por causa de declarações, em Davos, à imprensa internacional sobre o seguro-desemprego e as medidas que tomou.

Na concepção de Dilma, o ajuste fiscal é um “recuo organizado”, uma concessão às leis do mercado, mais ou menos como os bolcheviques fizeram na Rússia depois da guerra civil ao estimular a “livre produção mercantil” (experiência interrompida por Stalin, com as coletivizações forçadas e a estatização total da economia). Isso é música para a esquerda governista, que faz oposição ao novo ministro da Fazenda.

Para recuperar o crescimento da economia “o mais rápido possível”, disse Dilma, é preciso criar condições para a queda da inflação e das taxas de juros no médio prazo e garantir a continuidade da geração de emprego e renda. Não é fácil juntar uma coisa com a outra, como pretende, ainda mais no atual cenário econômico mundial. Que o digam os defenestrados ex-ministros da Fazenda Guido Mantega e a ex-ministra do Planejamento Miriam Belchior. Não é à toa que Luiz Gonzaga Belluzzo lidera as críticas dos economistas de esquerda à estratégia liberal de Levy.

Lava-Jato
O escândalo da Petrobras, centro das investigações da Polícia Federal na Operação Lava-Jato, foi abordado no discurso: “Temos de reconhecer que a Petrobras é a empresa mais estratégica para o Brasil. Temos que saber apurar, temos que saber punir, isso tudo sem enfraquecer a Petrobras, diminuir sua importância para o presente e para o futuro do país”, afirmou.

Dilma deu a entender que o governo ainda acredita num acordão com o Ministério Público Federal e o Supremo Tribunal Federal (STF) para salvar as empreiteiras envolvidas no escândalo: “Mas nós devemos punir as pessoas, não destruir as empresas. As empresas são essenciais para o Brasil”.

Eliane Cantanhêde - Autocrítica zero

• Dilma apresentou os inimigos da eficiência e dos resultados: ‘eventos internos e externos’

- O Estado de S. Paulo

Depois de sumir durante todo o dificílimo mês de janeiro, a presidente Dilma Rousseff reapareceu ontem como se nada tivesse acontecido, nem aumento de tarifas e impostos, crise de energia e água, flexibilização trabalhista... E o mais chocante na fala de Dilma foi o de sempre: a falta de autocrítica.

Quem ouviu a presidente falando em "era do conhecimento", "pátria educadora", "estratégia de crescimento", "estabilidade e credibilidade" e "pacto contra a corrupção" deve ter se perguntado: será que está tudo tão bacana assim e eu é que estou errado (ou errada)?

Não, não está tão bacana e quem está assustado tem razão. O Brasil não cresceu, estagnou. A inflação nunca ficou na meta, sempre ficou no teto da meta. Os juros galoparam, apesar de toda a propaganda. A responsabilidade fiscal deixou de ser importante. As contas externas desandaram. O setor elétrico virou uma bagunça. A Petrobrás se debate em águas profundíssimas.

Depois de demitir o ministro da Fazenda em plena campanha e de dar uma guinada e tanto na economia do primeiro para o segundo mandato, o mínimo que se poderia esperar da presidente reeleita da República é que batesse no peito e assumisse: mea culpa, minha máxima culpa.

Mas Dilma Rousseff é Dilma Rousseff e não é de admitir culpas, nem de aceitar responsabilidades, nem de ouvir ministros, assessores, aliados e, muito menos, críticos. Nem de ter humildade.

Então, ficamos assim. Deu tudo errado mesmo na economia e - já que o culpado número um, o mordomo Guido Mantega, já foi devidamente defenestrado - Dilma apresentou oficialmente à Nação os maiores inimigos da eficiência e dos resultados: "os eventos internos e externos".

Quais sejam: externamente, os problemas de crescimento dos Estados Unidos, da Europa, do Japão, da China e da Índia, mais a queda no preço internacional das commodities; internamente, o pior regime de chuvas da história, com impacto nos preços dos alimentos e da energia.

Há verdades aí? Inegavelmente, há. Mas são só meias verdades, como se o Brasil não tivesse um presidencialismo forte, o Estado não fosse tão determinante em tudo no Brasil, Dilma não tivesse a cabeça que tem. E... como se não sobrasse "incompetência, ideologia e corrupção", conforme o diagnóstico de nove entre dez cabeças pensantes que Armínio Fraga verbalizou no Estado domingo.

Além de não fazer autocrítica, Dilma requentou pela enésima vez o tal "Pacto contra a Corrupção", elencando as mesmas medidas moralizadoras que, na verdade, dependem mais do Legislativo do que do Executivo e são mais adequadas a palanques do que a reuniões de trabalho.

Para resolver todos os problemas (Pibinho, inflaçãozona, juros estratosféricos, aumento de impostos e corte de direitos trabalhistas), Dilma apresentou pelo menos uma proposta concreta aos seus chefiados: que confrontem a mídia e a imprensa! Segundo ela, é preciso "reagir aos boatos", combater "as falsas versões", reagir ao "desconhecimento e à desinformação".

Pensando bem, era assim que se fazia na Petrobrás. Enquanto PTs, PMDBs, Cerverós, Paulos Robertos e doleiros faziam a festa, toda a energia estava concentrada em desmentir a mídia e reagir aos "boatos" e à "desinformação". O resultado está aí.

Tivesse o governo ouvido os alarmes de especialistas e da mídia, a Petrobrás não teria chegado a um fundo do poço tão fundo. Tivesse Dilma ouvido os alarmes de especialistas e da mídia, a economia não estaria tão medíocre quanto está.

Boa sorte aos 39 ministros!

Fernando Exman - Duas ondas que o governo precisa furar

• Planalto teme desdobramentos da Operação Lava-Jato

- Valor Econômico

A presidente Dilma Rousseff passou as últimas semanas em reuniões fechadas para definir as prioridades a serem assumidas por seus ministros, enquanto aguarda a arrebentação de duas ondas relacionadas à Operação Lava-Jato - uma econômica e outra política. Os potenciais danos provocados por esses dois fenômenos, ainda considerados imprevisíveis no Palácio do Planalto, estão relacionados ao silêncio que Dilma rompeu ontem na abertura da reunião ministerial, ao discurso feito na Granja do Torto e a algumas das principais preocupações da presidente.

Dilma e seus auxiliares diretos ainda buscam estimar o impacto sobre o Produto Interno Bruto (PIB) das investigações de irregularidades nas relações entre a Petrobras e seus fornecedores. Ainda não sabem, por exemplo, com quais empresas poderão contar para executar grandes obras, aumentar os investimentos do país e até mesmo evitar o aumento da taxa de desemprego.

Além da própria Petrobras, as maiores construtoras brasileiras foram citadas na operação da Polícia Federal e a crise enfrentada pela estatal já coloca em xeque outros segmentos da indústria. Não à toa, é tratada com imensa cautela dentro do governo a discussão sobre a possibilidade de as empresas denunciadas serem consideradas inidôneas e, assim, passarem a enfrentar obstáculos para manter e assinar contratos com o Estado. Dilma ontem foi clara. Quer pessoas punidas, não empresas. Não a economia nacional.

A outra onda, política, explica em parte o motivo de Dilma ter iniciado o seu segundo mandato recolhida e limitando o alcance da discussão sobre a estratégia do governo a um núcleo reduzido de ministros. A presidente nunca foi afeita à articulação política. Evitou envolver-se diretamente nas negociações com o Congresso nos últimos quatro anos, e a falta de diálogo com o Executivo sempre foi uma queixa dos parlamentares governistas.

Dilma até chegou a sinalizar que mudaria de comportamento. Agora, no entanto, há uma nova conjuntura. O governo não sabe se os seus principais interlocutores no Congresso Nacional e nos partidos aliados serão arrastados pelo chamado petrolão, depois de a Procuradoria-Geral da República apresentar ao Supremo Tribunal Federal (STF) sua denúncia contra os políticos que possuem foro privilegiado e estão citados no caso.

As autoridades do Palácio do Planalto limitam-se a acompanhar pela imprensa os movimentos do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Mas já têm uma certeza: obviamente não haverá vácuo de poder, novas lideranças buscarão se consolidar com rapidez e o governo pode não ter muito tempo para agir em meio a uma agenda legislativa complexa.

Se de fato Janot apresentar sua denúncia em fevereiro, por exemplo, as discussões sobre a punição dos parlamentares envolvidos nos desvios de recursos da Petrobras e a criação de uma nova Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) coincidirão com o início da tramitação da medida provisória que define novas regras para a concessão de benefícios trabalhistas e previdenciários. O governo já está ciente de que não conseguirá aprová-la sem ajustes, pois a MP é alvo de críticas das centrais sindicais e até mesmo de integrantes da base.

Outra dura batalha a ser enfrentada pelo Executivo no Congresso envolverá uma nova prorrogação da Desvinculação de Receitas da União (DRU), mecanismo que permite ao governo desvincular até 20% das receitas das contribuições sociais - exceto as previdenciárias - para o orçamento fiscal. Tais verbas têm sido essenciais para o governo atingir a meta de superávit primário e dão mais liberdade ao Executivo no manejo dos seus recursos.

Em 2011, Dilma encontrou grandes dificuldades para aprovar a prorrogação da DRU. Só enviou ao Congresso em maio daquele ano a proposta de emenda constitucional (PEC) que manteria o dispositivo até 31 de dezembro de 2015. Tarde, se considerado o lento rito de tramitação de PECs no Parlamento e o grande número de votos necessários para a sua aprovação.

Àquela época, a então ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, sugeriu à presidente que projetos idênticos tramitassem de forma simultânea na Câmara e no Senado para evitar o pior. Dilma chegou a questionar a eficácia da ideia, mas não tinha alternativa. A base aliada conseguiu aprovar a proposta no fim daquele ano, praticamente às vésperas do início do recesso parlamentar e do prazo para a DRU expirar.

O governo poderia ter aprendido com o episódio, mas, pelo menos até agora, não há sinal de como o Palácio do Planalto pretende conduzir as negociações para prorrogar novamente o mecanismo. Tudo isso diante do olhar atento dos mercados em relação à determinação do governo Dilma Rousseff em entregar o ajuste fiscal prometido, num período em que o Executivo deve colecionar insatisfações entre deputados e senadores. Parlamentares já demonstram indisposição para aprovar medidas impopulares propostas pelo governo, principalmente diante de um quadro econômico recessivo, querem celeridade na ocupação dos escalões inferiores da máquina federal e enfrentarão restrições à liberação de suas emendas ao Orçamento.

Enquanto não vê "precificados" esses dois fatores que prejudicam o início de seu segundo mandato, Dilma busca tomar providências administrativas que só dependem do Executivo ou podem ser destravadas com gestões relativamente simples junto a outros Poderes. A mais importante delas é o início do processo de recuperação da confiança de empresários e investidores com o anúncio do ajuste fiscal. Dilma também quer acelerar concessões na área de infraestrutura e prometeu facilitar o ambiente de negócios do país.

O Palácio do Planalto tenta medir se o que se avizinha são apenas duas ondulações ou maremotos de maior magnitude. A resposta será capaz de determinar o destino da segunda administração da presidente Dilma Rousseff.

Elio Gaspari - A deslegitimação da política

• Torrando suas credibilidades os doutores e doutoras estão destruindo os grandes partidos, e isso pode ser bom

- O Globo

Em seu conhecido artigo intitulado “Considerações sobre a Operação Mani Pulite", que está na rede, o juiz Sérgio Moro disse que a prisão da teia de corrupção que permeava a vida italiana desde o fim da Segunda Guerra “levou à deslegitimação de um sistema político corrupto". A “Operação Mãos Limpas" começou em 1992. Dois anos depois, os partidos Democrata- Cristão e Socialista, que controlavam a maioria parlamentar desde 1945, ficaram com 11% e 2% dos votos e dissolveram-se.

A política brasileira corre o risco de entrar num processo semelhante. A credibilidade do PT ficou do tamanho das promessas de campanha da doutora Dilma. A do PMDB, do tamanho que sempre teve. (Quem souber qual é ganha uma viagem só de ida a um paraíso fiscal.) A do PSDB, pode ser medida pela confiança que os cidadãos de São Paulo têm nas declarações do governador Geraldo Alckmin sobre a crise da água. Isso no que se poderia chamar de estrutura administrativa. Olhando-se para os costumes, desde que o PT se viu diante da crise do mensalão, mostrou-se incapaz de lidar com o tema da moralidade. O mesmo vale para a maneira sonsa como o tucanato lida com o cartel dos fornecedores de equipamentos pesados em São Paulo. O PMDB tem como abre-alas o deputado Eduardo Cunha, candidato à presidência da Câmara.

Pode-se argumentar que as coisas nunca foram diferentes. Esse conformismo omite dois fatos essenciais. Em 2013 o Supremo Tribunal Federal formou a bancada da Papuda, mandando empresários e políticos para a cadeia. Desde o ano passado o Ministério Público e a Polícia Federal conduzem a Operação Lava-Jato, que colocou o instituto da colaboração premiada no instrumental da República para combater a corrupção. Essa novidade decorre da primeira, pois se parte da turma do colchonete da carceragem da Polícia Federal em Curitiba não temesse o efeito Papuda, jamais contaria o que já contou.

A ruína moral das grandes empreiteiras já aconteceu. Dentro de pouco tempo virão as prisões de novas celebridades e a abertura de processos contra parlamentares, ou mesmo governadores. Isso num ano de recessão econômica, com racionamento de água em diversas metrópoles e a ameaça de novos apagões. Para complicar a situação, a doutora Dilma apropriou-se da agenda econômica de Aécio Neves, cuja demonização foi decisiva para reelegê-la.

Sempre que se fala na faxina da Operação Mãos Limpas italiana vem o argumento misteriosamente fatalista: depois dela, Silvio Berlusconi tomou conta da política italiana. Ou seja: deixe-se tudo como está porque, do contrário, a choldra elegerá um Berlusconi. Em primeiro lugar, o Brasil já teve dois (Fernando Collor e Jânio Quadros). É difícil que compre um terceiro. Ademais, Berlusconi está solto, porem condenado a sete anos de cadeia e afastado da vida política. Essa porta abriu-se no Brasil.

A deslegitimação que vem por aí abalará primeiro o PT. Na mesa do juiz Moro há denúncias que abalarão também o PMDB e o PSDB, isso para se falar só dos três maiores partidos. A Operação Mãos Limpas italiana varreu partidos políticos minados pela corrupção e fortaleceu o regime democrático. Até onde a vista alcança, no Brasil acontecerá a mesma coisa.
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Elio Gaspari é jornalista

José Nêumanne - Um 'dois mil e cinzas' com sede, suor e trevas

- O Estado de S. Paulo

Dilma Rousseff não sabe o que perdeu deixando de ir ao Fórum Econômico Mundial, em Davos. Pois, não indo, não teve a chance de ouvir o primeiro-ministro da Itália, Matteo Renzi, pedir aos governantes coragem para mudar, para reformar. "Há uma janela e um período de oportunidade excepcional e o papel dos políticos é atender o momento, carpe diem, em que podemos escolher o futuro", disse ele. Ela preferiu comparecer à posse do cocalero Evo Morales na presidência da Bolívia a aprender com o europeu o óbvio ululante de que para decepar os nós górdios da economia há que antes reduzir os ônus da política.

Nos Andes, ela ouviu o colega vizinho asseverar com franqueza: "Na Bolívia, não mandam os 'Chicago boys'". Enquanto isso, nos Alpes, um "Chicago boy" da melhor estirpe, o ministro da Fazenda dela, Joaquim Levy, vulgo "mãos de tesoura", encantou o chamado mercado neocapitalista mundial por sua coragem de dar notícias ruins aos cidadãos brasileiros, mal eles foram expulsos da Disneylândia eleitoral dos petralhas. Enquanto o subordinado gozava seus cinco minutos (talvez de dois a três anos) de poder e glória, a chefe saboreava sua volta à segurança da clandestinidade. Depois de um ano inteiro prometendo ao Zé Mané mundos e fundos para arrebanhar votos, sob os auspícios do marqueteiro João Santana (o poeta Patinhas do Bendegó), nada como fugir para um lugar onde não tinha de explicar que era tudo "mentirinha de marketing". Sem deixar de aplicar os beliscões de praxe para mostrar quem manda.

Levy é economista e pensa que tem a força. Dilma, que se acha economista, é que manda e desmanda. Manda quem pode, quem tem juízo obedece. No palanque, ela jurou que devolveria os excessos inflacionários tungados do contribuinte no Imposto de Renda. À sombra e água fresca do palácio, vetou a correção de 6,5% para facilitar a tarefa de tirar R$ 20 bilhões desviados da Petrobrás para partidos, incluindo o dela, do bolso do cidadão que, sem padrinho, morre pagão.

Em Davos, Christine Lagarde, diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), encheu a bola do ministro brasileiro apoiando suas "medidas impopulares". Fê-lo antes de Dilma, que só aprovou o subordinado em público na reunião ministerial de ontem. Com isso, o Partido dos Trabalhadores (PT) teve tempo para imitar o "multipresidente" Ulysses Guimarães, que dava as cartas no governo Sarney enquanto liderava a oposição. A candidata jurou de pés juntos que não daria cabo de nenhuma conquista dos trabalhadores. A presidente repetente mandou escrúpulos e promessas às favas, dificultando o acesso ao seguro-desemprego, quando há indícios de risco para o emprego.

Alérgica à política, jejuna em contabilidade e avessa a economizar, a presidente não deu explicações satisfatórias da traição à classe operária. Mas seus áulicos tentaram minimizar os efeitos deletérios da falseta assegurando que as conquistas dos trabalhadores não foram afetadas porque a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) não foi alterada. Falácia cínica! A CLT não é uma "conquista dos trabalhadores", mas uma concessão do ditador Getúlio Vargas ao operariado para manipulá-lo a seu bel-prazer utilizando pelegos. Encarregado de consertar a lambança, Levy tentou dar sua contribuição teórica à tentativa de logro dela, assegurando: "O seguro-desemprego é um benefício ultrapassado". Será? Pode até ser, mas isso nada tem que ver com a tunga. E, além de também ser outra falácia cínica, permitiu que ela lhe mostrasse que elogios de Lagarde não bastam para garanti-lo no cargo.

Só agora ela saiu da clandestinidade, mas ficou no palácio, para dizer a seus 39 ministros que teve de permitir a um auxiliar egresso da oposição que corte gastos com dor para manter seus programas sociais. Mas nunca pediu desculpas ao cidadão que votou nela e paga a conta pelo óbvio malogro.
Joaquim Levy era da segunda divisão da assessoria econômica do tucano Aécio Neves, derrotado por ela na eleição. O chefe dessa assessoria, Armínio Fraga, fez eco a Lagarde ao dizer que o ex-companheiro é "uma ilha no mar de mediocridade" que é o segundo governo Dilma. Se verdadeira, a afirmação traz uma boa e uma má notícia. A boa é que, como o governo anterior foi o pior de todos os tempos, dificilmente o atual terá como superá-lo em mediocridade. A ruim é que é mais provável que piore, sim!

O ex-ministro de Minas e Energia Edison Lobão, por exemplo, nunca condicionou à duvidosa brasilidade de Deus a chuva no sertão que virou país. Ou terá sido este país que virou sertão, eis a questão. Pelo visto, Lobão foi à aula de Geografia em que foi ensinado que Nordeste é Brasil e em muitos anos não chove no semiárido, apesar das súplicas dos sertanejos a São José, que criou o filho do Próprio. O devoto amazonense Eduardo Braga, que espera a interferência divina para pôr fim à "crise hídrica", foi substituído na tarefa de pedir à população que aguente a falta de luz e água com resignação, e que devia caber a Dilma, pela ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, ainda mais insignificante do que ele.

Nossa presidente não foi a Paris repudiar o terror nem consolou os pais de Alex Schomaker, morto por bandidos no Rio. Mas criou uma crise diplomática porque a Indonésia fuzilou o traficante Marco Archer. Ressuscitou os lemas fascistoides "alma coletiva" e "pátria educadora", mas cortou R$ 7 bilhões no orçamento da Educação quando 500 mil jovens tiraram zero na redação do Enem, acesso a um ensino superior cada dia mais inferior.

Ela falha e não se manca; e quanto mais erra, mais desmandos pratica. Reuniu o Ministério para desejar um feliz "dois mil e cinzas" negando o que prometeu e prometendo mais do mesmo sem oferecer garantias de que o fará. Devia aprender com Churchill, morto há 50 anos, que a dar só tem "sede, suor e trevas". Foi o que Renzi ensinou na Suíça.

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*José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor

Míriam Leitão - Combater os fatos

- O Globo

No mesmo dia em que, na avenida Chile, no Rio, a Petrobras se reunia para reconhecer uma perda de bilhões de dólares causada pela corrupção, a presidente Dilma Rousseff, na Granja do Torto, em Brasília, proclamava que seu governo foi o que mais combateu o problema. Ela reuniu 39 ministros para dizer que vai promover o "reequilíbrio fiscal" e para convocá-los para uma batalha da comunicação.

Uma semana depois de o Brasil ter vivido um apagão que acendeu a luz vermelha sobre a crise de energia - negada pelo governo desde o ano passado -, a presidente Dilma reservou uma única frase do seu discurso ao problema. Disse que o governo está tomando "todas as ações cabíveis para assegurar o fornecimento de energia".

Há um ano, quando os reservatórios das hidrelétricas estavam em 40%, muitos especialistas, e até empresas do setor, pediam algumas medidas "cabíveis". Por exemplo, a racionalização do uso de energia, que permitisse poupar água nos reservatórios, e o desligamento das térmicas mais caras. Hoje, todas as térmicas permanecem ligadas, e os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste estão com apenas 17% de água armazenada.

Sobre a crise hídrica, ela falou mais de uma vez e fez a separação das águas. Disse que o suprimento é atribuição dos estados, e que o Governo Federal está ajudando todos os governadores, principalmente os do Sudeste, onde o problema é mais grave.

O país vive dois anos de uma terrível seca, e alguns governos estaduais, como o de São Paulo, postergaram medidas necessárias para mitigar seus efeitos e evitar o pior. Em parte,a falta de chuvas é que está reduzindo a água nos reservatórios das hidrelétricas. Mas existe também uma parte da crise da energia que não tem a ver com a chuva, mas com os erros de gestão do governo que várias vezes expliquei neste espaço.

Há muito o que fazer em Brasília nas várias frentes em que o país tem baixo desempenho. Mesmo assim, os ministros foram convocados pela presidente para combater o que se diz do governo. "Reajam aos boatos, travem a batalha da comunicação", conclamou a presidente. "Não permitam que a falsa versão se crie e se alastre". Os ministros devem, segundo a presidente, "enfrentar o desconhecimento, a desinformação sempre e permanentemente", e devem "levar a posição do governo". Pelo visto, a opinião governamental é a verdade; o resto é desconhecimento, boato, desinformação.

A presidente afirmou: "estamos diante da necessidade de promover um reequilíbrio fiscal" e tomar "medidas de caráter corretivo". Sim, o país precisa. Só falta entender por que ela dizia que não era necessário ajuste fiscal, que as contas estavam perfeitamente em ordem. Falta à presidente admitir que suas escolhas no primeiro mandato são parte integrante do desequilíbrio fiscal em que o país está agora. E isso não é boato, nem versão; são os fatos.

Parte do discurso foi um inútil desfile de números do sucesso do atual governo aos ministros, como se estivesse no palanque, tentando angariar votos. É hora de trabalhar, já estamos em fevereiro. Até agora, o que o país viu foi uma sucessão de números ruins: déficit comercial, déficit em transações correntes, economia estagnada, aumentos de preços, aumento de impostos e de juros, contas públicas que não fecham, e a maior empresa do país sem ter ainda o direito de divulgar um balanço auditado.

Melhor seria que os ministros fossem convocados a trabalhar, em vez de participar de uma suposta batalha da comunicação. O país precisa de resultados e não de 39 ministros repetindo números fabricados para escamotear as várias crises do país. A propaganda eleitoral acabou. É hora dos fatos.

Celso Ming - Tempos de austeridade

- O Estado de S. Paulo

Na sua primeira reunião do Ministério deste seu segundo mandato, a presidente Dilma defendeu nesta terça-feira o plano de austeridade agora em marcha, na contramão do que fez ao longo de toda a campanha eleitoral.

Reconheceu que a obtenção de um superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) de 1,2% do PIB, ou de cerca de R$ 66,3 bilhões, exigirá “um esforço brutal” da população. Mas tomou esse caminho, disse ela, em nome da criação de bases sólidas para a retomada do crescimento econômico.

A primeira pergunta está em saber por que não fez isso antes. Ela explica que teve de enfrentar dois fortes choques externos e um interno, com aumento das despesas públicas: “Absorvemos a maior parte das mudanças dos cenários nas contas fiscais”.

Os choques externos foram a derrubada dos preços das matérias-primas (commodities), que reduziu as receitas com exportações, e o aumento do valor do dólar. O choque interno foram os estragos produzidos pela seca. É curiosa a avaliação desse choque do dólar. Ao longo dos três primeiros anos, seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, denunciou o choque contrário, o da desvalorização do dólar, a que denominou de guerra cambial. O que se vê agora é que choque cambial há sempre, qualquer que seja o movimento do dólar nos mercados.

Se tivesse sido por esses fatores, então a presidente teria de insistir na política anterior, porque tanto os choques externos como o interno estão sendo reforçados. À baixa das matérias-primas, acrescenta-se agora o mergulho vertical dos preços do petróleo. E a alta do dólar em relação às outras moedas fortes vai se intensificar ainda neste semestre, quando se espera que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) comece a retirar os US$ 4,5 trilhões emitidos desde 2008 para reativar a economia americana.

A presidente Dilma apenas não quer reconhecer, como vem cobrando a senadora Marta Suplicy, que sua política anterior estava errada, até mesmo para os objetivos do seu partido. Se “a razão de ser da gestão responsável da política econômica é o crescimento”, como disse, é forçoso admitir que faltou responsabilidade a uma gestão que levou aos crescimentos econômicos medíocres dos últimos quatro anos.

No resto, foi até mais sincera do que se esperava e, além disso, correta. Foi sincera, por exemplo, ao reconhecer que tem um projeto de poder que é o de garantir as rédeas do governo para novas temporadas. Trata-se, portanto, de produzir o ajuste, corrigir o rumo da política econômica, alavancar o crescimento econômico e, com a casa em ordem, produzir as condições políticas para seguimento do seu projeto: “As (novas) medidas vão ampliar o projeto vitorioso nas urnas”.

Falta saber se a nova profissão de fé na solidez dos fundamentos da economia é produto de mudança das convicções da presidente Dilma ou se é apenas uma concessão tática destinada a ganhar um mínimo de confiança dos empresários e do consumidor.

Até agora, todas as manifestações da presidente Dilma foram na direção oposta. Quem pedia solidez fiscal e determinação no combate à inflação era acusado de fazer o jogo dos banqueiros contra o interesse dos pobres e da criação de empregos. Ainda não está afastado o risco de recaídas presidenciais.

Tese de petista pode acelerar processo do petrolão – Editorial / O Globo

• Ex-ministro Gilberto Carvalho acusa empreiteiras de corruptoras, e, com isso, pode estimular executivos a assinar acordos de delação premiada

O ex-ministro Gilberto Carvalho, o que na despedida do cargo de secretário-chefe da Presidência da República saiu-se com o brado “não somos ladrões!”, aproveitou uma reunião fechada com militantes, assistida pelo GLOBO, para desenvolver rebuscada tese inspirada na mais fina teoria conspiratória, a fim de explicar o petrolão.

Para Carvalho, conhecido no PT pelas ligações com os chamados “movimentos sociais”, haveria uma “central de inteligência” a serviço de interesses obscuros, para levar petistas às “barras dos tribunais”. Um exemplo citado pelo ex-ministro foi o noticiário das investigações em curso na Justiça sobre o possível uso de uma empresa do ex-ministro José Dirceu para a captação de dinheiro de propina cobrada a empreiteiras que prestam serviços à Petrobras.

Esperemos o resultado das investigações. Mas cabe o registro de que Dirceu já foi levado “às barras dos tribunais”, o Supremo, e condenado como mensaleiro, num julgamento em que exerceu todo o direito constitucional de defesa. E cumpre prisão em regime semiaberto. O devido processo legal foi respeitado à risca, sem qualquer sanha — condenatória ou absolutória.

No entendimento maniqueista do ex-ministro, os altos funcionários da Petrobras foram vítimas de empreiteiras corruptoras, atuando em cartel. Mas uma curiosidade nisso tudo é que o outro lado, as empresas, detalha, com seus advogados, enredo oposto: a Petrobras, pelo cacife financeiro que tem, é que teria induzido a formação do cartel.

Na verdade, nenhuma das teses se sustenta isoladamente, e os dois lados no escândalo precisam ser responsabilizados pelo assalto à Petrobras.

A ideia de que honestos diretores da estatal terminaram vítimas do feitiço corruptor de malévolas empreiteiras é ilusória. O apadrinhamento político-partidário de diretores como Paulo Roberto Costa (PP), Nestor Cerveró (PMDB), Renato Duque (PT) e até do ex-presidente da estatal José Sérgio Gabrielli (PT) já prova a interferência de outros interesses nas decisões de investimento da companhia. A cobrança e o pagamento de propinas para partidos e políticos já deixaram há tempos de ser ilações, pois constam, pelo menos, da delação premiada do ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa.

A tese de Gilberto Carvalho reforça a tentativa petista de jogar a responsabilidade do escândalo sobre empreiteiros. É um tiro pela culatra porque, sentido-se ameaçados, executivos das empresas podem ser incentivados a assinar acordos de delação, para se beneficiar de penas atenuadas e escapar dessa manobra. Assim, o petrolão seria desvendado de forma mais rápida.

Na verdade, esta é uma história em que não há mocinhos. Daí a necessidade de as punições serem generalizadas, nas diversas esferas judiciais e administrativas.

PT alimenta um falso conflito – Editorial / O Estado de S. Paulo

Todo o debate suscitado pelas medidas de austeridade econômica e fiscal reafirmadas, com o aval da presidente Dilma Rousseff, na primeira reunião ministerial do segundo mandato realizada ontem em Brasília, parece excluir qualquer possibilidade de conciliação entre política econômica e fiscal eficaz e projetos sociais indispensáveis à redução das desigualdades.

Para os petistas inconformados com a decisão de Dilma de colocar nas mãos de uma equipe econômica "ortodoxa" a responsabilidade de promover as correções de estratégia política e de natureza fiscal que permitam a retomada do crescimento econômico, Dilma Rousseff está traindo o compromisso original do PT de combater as injustiças sociais. Ou seja: ou bem o governo cumpre a lei e administra suas contas com seriedade ou bem o governo cuida dos pobres. E quem defende a primeira hipótese está, é claro, contra os pobres.

Os primeiros quatro anos de Dilma foram uma tentativa claramente malograda de governar "à moda do PT", tentando controlar a inflação com medidas artificiais como o arrocho das tarifas públicas, abusando da contabilidade criativa para desfigurar as contas públicas, bancando programas demagógicos como o dos "campeões nacionais", do qual as desventuras de Eike Batista são a melhor tradução. Fazendo tudo, enfim, para, na contramão dos fundamentos que permitiram um bom desempenho econômico e social dos primeiros anos de Lula, reinventar a roda e impor a "política do PT".

Mesmo diante do retrocesso que os dados tornam indesmentíveis, os petistas insistem em pedir mais do mesmo. E o fazem, basicamente, a partir de duas motivações distintas: de um lado, os ideológicos, adeptos do capitalismo de Estado, para os quais qualquer tentativa de controle dos poderes dos governantes constitui afronta à defesa dos fracos e oprimidos. De outro lado, a corrente amplamente majoritária dos oportunistas obcecados pela ideia de perpetuar os privilégios de que desfrutam há 12 anos como membros da nomenklatura lulopetista. Para estes, a questão é simples: entre o discurso da austeridade e o dos projetos sociais, qual é o que dá voto?

Enxergar um conflito inconciliável entre a ortodoxia no controle das contas públicas e a promoção do desenvolvimento social é, na verdade, uma tendência, resquício da "guerra fria" do século 20, que continua dividindo o pensamento universal em duas correntes: os "ortodoxos", ou "neoliberais", de um lado, e os "desenvolvimentistas", de outro.

Essa questão é central na mais recente e elogiada obra do economista francês Thomas Piketty, O capital no século XXI, baseada em ampla pesquisa sobre desigualdade e distribuição de renda. Crítico da inflexibilidade do "determinismo econômico", principalmente quando se trata de questões relacionadas ao tema do livro, o autor tampouco preconiza a intervenção estatal na economia como solução para todos os males da desigualdade.

Piketty entende que "a dinâmica da distribuição de renda revela uma engrenagem poderosa que ora tende para a convergência, ora para a divergência", e que as principais forças convergentes, aquelas que tendem a reduzir a desigualdade, "são os processos de difusão do conhecimento e investimento na qualificação e na formação da mão de obra". Estes são, insiste o autor, os principais instrumentos "para aumentar a produtividade e ao mesmo tempo diminuir a desigualdade".

Para o economista francês a economia está longe de ser uma ciência exata e deveria ser considerada "subdisciplina das ciências sociais". Por outro lado, os sociólogos, historiadores, antropólogos, cientistas políticos e tantos outros cientistas sociais deveriam dar maior atenção aos estudos econômicos e "parar de fugir em pânico no momento em que um número aparecesse".

E o livro termina com uma reflexão que espelha o conflito alimentado principalmente por quem acha que austeridade é coisa de inimigo dos pobres: "Aqueles que possuem muito nunca se esquecem de defender seus interesses. Recusar-se a fazer contas raramente traz benefícios aos mais pobres".

Mercado de trabalho dá sinais de enfraquecimento – Editorial / Valor Econômico

A expansão do mercado de trabalho foi uma das principais bandeiras da presidente Dilma Rousseff na campanha de reeleição de 2014. A poucos dias do segundo turno, em carreata no Rio de Janeiro, a presidente disse que a decisão dos eleitores seria entre os que "colocam as pessoas no centro de tudo e defendem o emprego e os salários" e os que "se ajoelharam para o FMI". Ironicamente, porém, o ano passado foi marcado pelo menor registro de criação de emprego desde 2002.

Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) informam que foram criadas 396,9 mil novas vagas em 2014, pouco mais de um terço do registrado em 2013. Nos quatro anos do primeiro mandato de Dilma, os novos empregos formais totalizaram 5,3 milhões, incluindo os dados entregues fora do prazo, número inferior aos 7,4 milhões abertos no segundo mandato e aos 5,6 milhões do primeiro mandato do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva.

A criação de postos formais de trabalho está em queda desde o início da administração de Dilma e reflete a perda de vitalidade da economia, que teve um crescimento médio anual inferior a 1,5%, na contramão da escalada de estímulos fiscais e monetários distribuídos pela presidente. O desempenho foi pior no ano passado, quando a economia enfrentou recessão no primeiro semestre, influenciado pela paradeira das atividades ocasionada pela Copa do Mundo, e resultado fraco no segundo, afetado pelo clima de indefinição gerado pela disputa eleitoral. Mas dezembro, tradicionalmente um mês ruim para o mercado de trabalho, marcado pelas demissões dos temporários contratados para o fim do ano, registrou o fechamento de 555,5 mil vagas e foi fundamental para o resultado ruim do ano.

O mercado de trabalho foi um verdadeiro espelho da economia em 2014. A indústria da transformação foi o segmento que mais perdeu vagas no ano passado, 163,8 mil, abalada pela queda de 3,2% da produção industrial de janeiro a novembro. A construção civil foi o segundo setor mais afetado, com redução de 106,5 mil vagas no ano.

O setor de serviços contrabalançou, com a criação de 476,1 mil vagas, seguido pelo comércio, com 180,8 mil novos postos. Nos quatro anos do governo Dilma, os serviços foram os responsáveis por metade dos empregos criados, com 2,69 milhões de novas vagas. Segundo o professor Jorge Arbache (Valor 12/12/2014 e 19/01/2015), o setor de serviços responde por nada menos que 70% do Produto Interno Bruto (PIB), 74% da força de trabalho e por 83 de cada 100 novos postos de trabalho formal. Tanta relevância na economia, porém, é uma anomalia, segundo o professor.

Arbache explica que o padrão de crescimento da economia brasileira na última década, puxado pela expansão da renda, desenvolveu a demanda por serviços de baixo valor agregado como cabeleireiro, telefonia celular e internet, enquanto que os serviços sofisticados perderam espaço com o enfraquecimento da indústria. Os serviços que predominam são de baixa produtividade e valor agregado. Mas até o setor de serviços vem perdendo o fôlego.

O desempenho mais fraco do mercado de trabalho ainda não se reflete nos dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dada a diferença de metodologia e de abrangência das duas pesquisas. Enquanto o Caged engloba o emprego formal em todo o país, a PME acompanha também o informal em seis regiões metropolitanas.

Mas é inevitável que a situação do mercado de trabalho seja levada em conta na definição do ajuste econômico que foi tema da reunião ministerial realizada ontem. As perspectivas para a economia neste ano já são até mais pessimistas do que o resultado esperado para 2014 por causa das medidas fiscais necessárias para ajustar as contas públicas, da elevação dos juros, das restrições de energia e de abastecimento de água e do cenário internacional. Pesquisa Focus divulgada nesta semana revelou a redução da taxa projetada para o PIB deste ano de 0,38% para 0,13%.

Normalmente otimista, o ministro do Trabalho, Manoel Dias, evitou fazer previsões sobre o mercado de trabalho neste ano. Provavelmente não quis correr o risco de errar, como aconteceu em 2014, quando começou o ano prevendo a abertura de até 1,5 milhão de vagas, reduziu posteriormente o número para 1 milhão, e não acertou.

Freio de desarrumação – Editorial / Folha de S. Paulo

Sem anúncio prévio ou justificativa oficial, sem negociar com instituições envolvidas ou avisar jovens interessados, o governo federal decidiu mudar as regras para o financiamento do ensino superior.

Por meio de três portarias no final de dezembro, o Ministério da Educação (MEC) estabeleceu, por exemplo, que o subsídio estatal será concedido apenas a quem obtiver uma nota mínima no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).

Fixou, ademais, um novo calendário para os repasses do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Agora, entidades que tiverem pelo menos 20 mil matrículas bancadas por verbas públicas receberão pagamentos com intervalo mínimo de 45 dias --antes eram mensais.

Ao final do ano, terão sido pagas as mensalidades de janeiro a julho. As demais devem ser reembolsadas somente em 2016.

Se as inovações do MEC se limitassem ao campo dos critérios para concessão do benefício, talvez fosse possível debater as medidas sob a perspectiva de um necessário aprimoramento do Fies.

Enquanto a exigência de uma pontuação mínima é bem-vinda por catalisar melhorias do corpo discente, outros mecanismos poderiam ter sido adotados para desestimular a procura por carreiras saturadas e incentivar inscrições em cursos estratégicos.

Contudo, a modificação no fluxo de pagamentos revela a verdadeira motivação do governo: diminuir os gastos federais para recuperar as combalidas contas públicas.

Não se discute a necessidade de reequilibrar o Orçamento. O problema está na falta de transparência e na farsa democrática.

A presidente Dilma Rousseff (PT) reelegeu-se gabando-se da expansão do ensino superior, e o Fies contribuiu para isso. Destinado a camadas sociais intermediárias, cobra juros de 3,4% anuais, entre outras condições generosas.

De 2010, quando 76 mil alunos recorreram ao programa, a 2014, quando cerca de 700 mil o fizeram, são mais de 1,8 milhão de contratos de financiamento na rede privada. Em valores corrigidos, os desembolsos nesse período saltaram de R$ 1,1 bilhão para R$ 13,5 bilhões.

Quem votou em Dilma contando com essa agenda terá razão em se sentir traído. As instituições de ensino ainda tentam se articulam para reduzir o desfalque, mas um baque na oferta de vagas parece inevitável. Quanto aos novos alunos, estes nem podem se inscrever no Fies, pois o site está fora do ar.

Casuarina / Lenine - Eu quero é botar meu bloco na rua

Fernando Pessoa - Vendaval

Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!

Indômita praia, que a raiva do oceano
Faz louco lugar, caverna sem fim,
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!

Mas dura planície, praia atra em fereza,
Só têm a tristeza que a gente lhes vê
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.

Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles — teu pulso divida
Minh'alma do mundo!

Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar -
Fosse pr'onde fosse, pra longe da idéia
De eu ter que pensar!

Abismo da noite, da chuva, do vento,
Mar torvo do caos que parece volver -
Porque é que não entras no meu penssamento
Para ele morrer?

Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, é vento; do chão da existência,
De ser um lugar!

E, pela alta noite que fazes mais'scura,
Pelo caos furioso que crias no mundo,
Dissolve em areia esta minha amargura,
Meu tédio profundo.

E contra as vidraças dos que há que têm lares,
Telhados daqueles que têm razão,
Atira, já pária desfeito dos ares,
O meu coração!

Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!