domingo, 10 de janeiro de 2016

Eliane Cantanhêde: O ‘compositor’

- O Estado de S. Paulo

O empreiteiro Léo Pinheiro, da OAS, é uma metralhadora giratória contra tudo e todos, mas sua vítima mais importante é o ex-governador da Bahia, ex-ministro da Defesa, atual chefe da Casa Civil e potencial nome do PT para a Presidência em 2018. Sim, ele, Jaques Wagner.

No coração de um governo que convive com um processo de impeachment, inflação muito acima do teto e do razoável, recessão que se alastra pelo segundo ano seguido e uma angustiante falta de rumo, Jaques Wagner trocou de personagem nas manchetes. Até 2015, ensaiava ser o ministro que dava o tom político do governo. Em 2016, virou o ex-governador suspeito de relações perigosas com empreiteiro onipresente.

Primeiro, as mensagens de Léo Pinheiro, que tinha intimidade com o poder, chamava o ex-presidente Lula de “Brahma” e referia-se a Jaques Wagner como “compositor”. Wagner pedia ajuda ao empreiteiro para campanhas na Bahia. Pinheiro recorria ao governador em suas obras no Estado e nas negociações em Brasília. Um troca-troca.

Depois, a notícia de que dois executivos da OAS migraram para o governo da Bahia, assumindo cargos com ingerência direta sobre obras públicas que a empreiteira disputaria e tocaria. Em círculos, sem intermediários: da OAS para o governo, do governo para a OAS.

E, ora, ora, não é que o Tribunal de Contas da União investiga uma obra superfaturada justamente da OAS de Léo Pinheiro no governo de Jaques Wagner na Bahia?!

Na sexta-feira, um disparo de grosso calibre: o peculiaríssimo Nestor Cerveró, que tinha cargo chave na Petrobrás e tem papel de destaque no bangue-bangue, diz que desviou propina para a campanha de Wagner em 2006. O presidente da maior companhia brasileira, José Sérgio Gabrielli, era do PT da Bahia...

Isoladamente, essas coisas são incômodas, mas não significam que Wagner meteu no bolso e não destroem a carreira de ninguém. O problema está no conjunto da obra, que cria uma névoa de suspeitas, mais um constrangimento num governo já tão acuado e mais um vírus na saúde abalada do PT. Além de responder uma por uma à opinião pública e à Procuradoria-Geral da República, o maior desafio do chefe da Casa Civil é preservar sua imagem.

Wagner não está sozinho na lista de Léo Pinheiro, que inclui os também ministros Edinho Silva (PT) e Henrique Eduardo Alves (PMDB) e três outros peemedebistas: o ex-ministro Edison Lobão e os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha.

Assim como Léo Pinheiro, evidentemente, também não está sozinho. Faz parte de uma gorda coleção de empreiteiros, executivos e lobistas presos, com a lista de delatores só crescendo. Vem aí Luís Eduardo Campos Barbosa da Silva, o “Robin”, e deve vir também Mauro Marcondes, da Operação Zelotes. Um homem-bomba atrás do outro.

Para quem está em dúvida, o Supremo Tribunal Federal acaba de dar uma forcinha a mais para que virem delatores e tentem atenuar penas que tendem a ser gigantescas. O presidente da corte, Ricardo Lewandowski, negou habeas corpus e manteve preso o megaempreiteiro Marcelo Odebrecht. Todos de barbas de molho - e doidos para abrir o bico.

É assim que, quanto mais aumenta o número de delatores, mais se multiplicam os nomes dos delatados. Mas, na leva atual, nenhum é mais importante para o governo Dilma e para o PT como Jaques Wagner. Lula diz que vai em 2018, mas pode não ir. Wagner é o plano B - o único plano B.

O PT ficou sem as opções de Dirceu e Antonio Palocci, caiu na esparrela Dilma Rousseff, alardeia que vai de Lula, mas avalia que, se não tem tu (Lula), vai de tu mesmo (Jaques Wagner). E sem Wagner? O partido se recusou a fazer aliança com o PSDB na hora certa e jamais admitiu apoiar um aliado, qualquer que fosse. Se lançar Ciro Gomes (PDT), por exemplo, estará selando sua sentença de morte.

Francisco Jordão: Sal de fruta

- Folha de S. Paulo

Depois de uma curta trégua para os festejos do final do ano, a primeira semana de janeiro foi de causar indigestão a muitos políticos com novas revelações da Operação Lava Jato.

Com o surgimento diário de novos detalhes e com um leque tão amplo de investigados, o começo de 2016 repete a sensação de medo e incerteza que pairou sobre os integrantes do Planalto e do Congresso durante o ano passado. Todos na expectativa para saber quem será o protagonista da vez.

Nesta semana, o todo-poderoso ministro da Casa Civil e braço direito de Dilma, Jaques Wagner, encabeçou a lista ao ser citado pelo ex-diretor da Petrobras e delator da Lava Jato, Nestor Cerveró, e também aparecer em mensagens do explosivo celular de Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS.

No governo e nos partidos aliados há um número tão grande de investigados e citados nas investigações que talvez seja mais fácil contar nos dedos quem nunca se envolveu na Lava Jato.

Conhecendo muito bem essa conta, Dilma criticou, em café da manhã com jornalistas, o que chamou de "vazamento e espetacularização" das denúncias que atingem integrantes do seu governo. Fez uso do discurso recorrente no meio político de culpar "vazamentos seletivos" sem entrar no mérito da acusação.

Entre um gole de café preto e um queijo branco, Dilma soltou sua bravata midiática ao dizer que os investigadores da Lava Jato podem virá-la "do avesso" que não irão encontrar nada. Para um discurso coerente, a presidente poderia pedir que a Polícia Federal virasse "do avesso" todos os ministros escolhidos por ela. Afinal de contas, se ela não põe a mão no fogo por seus mais próximos aliados, por que os escolheu?

O "grau de imprevisibilidade" está tão grande que poucos são os que se arriscam a falar publicamente sobre o que esperar do futuro. Uma coisa é certa. Perderam feio aqueles que apostaram que o noticiário político fosse esquentar só depois do Carnaval.

Luiz Carlos Azedo: No Inferno de Dante

• Uma advertência que poderia estar na porta do Congresso ou do Palácio do Planalto: “Deixai toda esperança, ó vós que entrais”

- Correio Braziliense

Protagonizada por verdadeiros mortos-vivos, em razão da Operação Lava-Jato, a política brasileira está vivendo uma espécie de Inferno de Dante, inclusive agora, com as recentes revelações sobre as mensagens do empreiteiro Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS, pela Operação Lava-Jato. A descrição de Dante é uma representação dos mortos da antiga Grécia em plena Idade Média, período em que o cristianismo era atazanado por almas penadas e demônios que habitavam suas profundezas em meio ao fogo e à expiação.

Esse mundo fantasmagórico foi descrito por Dante Alighieri entre 1304 e 1321, na primeira parte da “Commedia”, conjunto de 100 cantos épicos escritos em dialeto toscano, divididos em três volumes — Inferno, Purgatório e Paraíso —, que se tornaram conhecidos como “A Divina Comédia” a partir do século XVI. Alighieri nasceu em Florença, em 1265. Dedicou sua vida à política. No exílio, escreveu esse clássico da literatura, que contradiz a tragédia grega porque começa com um grande sofrimento e tem um final feliz.

O foco do poema é a busca de Dante por sua amada Beatriz, que começa pelo inferno, cuja descrição tem tudo a ver com a crise política e os personagens investigados pela Operação Lava-Jato. O inferno de Dante é composto por nove círculos, que se diferenciam por punições, danados, ambientes e demônios. Seu companheiro de viagem é Virgílio, autor de Eneida, o épico romano. Logo na chegada do Inferno se deparam com uma advertência que poderia estar na porta do Congresso ou do Palácio do Planalto: “Deixai toda esperança, ó vós que entrais”.

No primeiro círculo do inferno, chamado Limbo, estão aqueles que não foram batizados e os que nasceram antes de Jesus Cristo. Digamos que são os políticos de oposição que também receberam doações legais das empreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato ou estiveram no poder antes da eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Do segundo ao quinto círculo, encontramos os pecados cometidos sem culpa, pela ingenuidade ou ignorância. Minós, o juiz do inferno, escuta as confissões de cada pecador e pune os luxuriosos, que são jogados num turbilhão de vento violento. Podemos classificar nesse círculo os eleitores da presidente Dilma Rousseff e alguns de seus apoiadores arrependidos.

No terceiro círculo, Cérbero espanca os gulosos jogados na lama sob uma chuva incandescente. Digamos que aí esteja a chamada nova classe média, que apostou na ascensão social via empreendedorismo e quebrou. Na entrada do quarto círculo, o demônio Plutão defende o local e pune os ávaros e pródigos, digamos, tanto os crédulos que perderam dinheiro guardando-o na poupança como aqueles que abusaram do cartão de crédito, que agora empurram pesos enormes como castigo.

Dante e Virgílio descem mais e chegam ao rio de sangue fervente chamado Estige, no quinto círculo infernal: aqui são castigados os irados. São os petistas empedernidos que ainda defendem o partido e o governo, fervorosamente, nas ruas e nas redes sociais.

Os culpados
Flégias, da mitologia grega, possibilita a travessia de Dante e Virgílio para o sexto círculo do inferno, onde esta a cidade de Dite, uma espécie de transição dos pecados sem culpa para aqueles realizados com consciência. Aqui são queimados os hereges, dentro de tumbas desprovidas de tampas. São os petistas e aliados que estão se afastando do governo e do partido, por discordar há tempos do rumo das coisas ou porque resolveram pular do barco enquanto há tempo.

No sétimo círculo, se deparam com o Minotauro de Creta e com o rio Flegetonte. O minotauro é o guardião dos três vales, onde estão os culpados por violência. No primeiro estão os homicidas, no segundo os suicidas e no terceiro os violentos contra Deus. Em linguagem figurada, é claro, respectivamente, seriam os quadros do PT que fracassaram na condução das políticas públicas; os parlamentares que ainda põem a cara a tapa pra defender o governo; e os sindicalistas da CUT e líderes dos movimentos sociais que lutam para preservar as benesses do poder.

Quando Dante e Virgílio chegam ao oitavo círculo ou Malebolge, encontram os fraudulentos. São sedutores, aduladores, simoníacos, adivinhos, corruptos, hipócritas, ladrões do sagrado, maus conselheiros, semeadores da discórdia e os alquimistas. Nessa turma estão os envolvidos na Lava Jato e os que deram cobertura política para as falcatruas: diretores da Petrobras, lobistas, doleiros, ministros e ex-ministros, governadores, senadores e deputados suspeitos de operar ou de se beneficiar do esquema de corrupção.

O nono círculo está na parte mais funda, onde são punidos os traidores. Aqui deságuam os rios Estige, Flegetonte e Aqueronte, que formam o rio Cocito. É a única parte do inferno que é fria ao extremo. Nela está Lúcifer, aprisionado da cintura para baixo, com suas grandiosas asas e três cabeças. Cada boca mastiga um dos traidores: Judas, Brutus e Cássio. Até agora há 40 delatores na Lava-Jato. Esse, porém, pode ser o lugar dos que fizeram um pacto com o diabo, como Fausto de Goethe (Mefistoles), mas essa já é outra obra literária. É outro demônio!

Miriam Leitão: O que encarar

- O Globo

A presidente Dilma Rousseff disse uma coisa e, logo após, o seu oposto. Ficou difícil entender. Ela disse: “Nós precisamos encarar a reforma da Previdência”, com a fixação da idade mínima, para em seguida dizer que “outro caminho é o 85/95”. As duas afirmações se anulam. A segunda fórmula é deixar tudo como está, porque é isso que vigora desde que foi derrubado o fator previdenciário.

Dilma não é o exemplo da clareza de manifestação de pensamento, então é preciso caminhar nesse chão pedregoso de palavras incertas em busca do significado. Encaremos. Ela começou dizendo: “Nós vamos encarar a reforma da Previdência, sempre considerando que ela tem a ver com modificação.” A última palavra da frase leva ao entendimento de que ela quer mudar o modelo atual. “Primeiro na idade, no comportamento etário da população. Nós estamos envelhecendo mais e morrendo menos.” Ela quer dizer que o quadro etário está mudando porque os brasileiros estão vivendo mais e morrendo mais tarde. É fato. Isso coloca para o Brasil um inarredável encontro com este tema difícil.

Assunto árido é reforma da Previdência. Economista ou demógrafo que a defende recebe mensagens de ódio como se ele fosse culpado, quando está apenas entregando a mensagem de que precisamos falar sobre isso. Jornalista que escreve sobre o tema também é criticado, mas isso é do jogo.

A presidente Dilma estava indo razoavelmente bem na explicitação do seu pensamento até que ele ficou tortuoso. “Não é possível que a idade média de aposentadoria no Brasil seja 55 anos. Os países desenvolvidos, emergentes, todos buscaram aumentar a idade de acesso à aposentadoria”. De fato, 55 anos é cedo demais e, se é a média, significa que muita gente se aposenta com menos do que isso. E há uma inversão da ordem. Os mais pobres se aposentam por idade, mais tarde, portanto. Os que sempre tiveram inserção no mercado de trabalho formal passam a receber o benefício mais cedo. A presidente completou: “E o outro caminho é o 85/95. Nos dois casos, uma coisa tem que ser considerada: não se pode mexer nos direitos adquiridos”. Aí, complicou.

A fórmula que permite à mulher se aposentar quando a soma da idade com o tempo de trabalho der 85, e ao homem 95, já está em vigor. Ela abre a possibilidade de uma mulher se aposentar até mais cedo do que a média atual. O governo vetou a forma proposta pelo Congresso e em seguida propôs uma alteração, o 85/95 progressivo, mas vai aumentar o gasto da Previdência, em relação ao período do fator.

O déficit do Regime Geral da Previdência Social, dos trabalhadores do setor privado, saltou 38,9% entre 2014 e 2015 em termos reais, ou seja, excluindo da conta os efeitos da inflação. O rombo acumulado de janeiro a novembro nesses anos, último dado divulgado pelo Tesouro, aumentou de R$ 65,7 bilhões para R$ 91,3 bilhões.

Durante muito tempo, os que são contra a reforma diziam que tudo era culpa da Previdência Rural. Alegavam que sem os aposentados rurais o problema não existiria. Mas até a Previdência Urbana passou a ter déficit, em parte pelo aumento do número de aposentados e queda dos contribuintes, com o desemprego. A Previdência dos funcionários públicos também tem um déficit de R$ 67 bilhões e para apenas um milhão de aposentados.

Qualquer governante diante de números tão assustadores não tem outra saída a não ser encarar o problema. A presidente Dilma, em reuniões com a equipe econômica, na época do ministro Joaquim Levy, se deixou convencer de que a reforma da Previdência é necessária, mas fica dando sinais contraditórios. Dilma mesma tem dito que isso sairá da comissão que montou para propor uma solução. A comissão nem tem se reunido e jamais demonstrou ter entendido a gravidade do nó previdenciário.

Viver mais é uma vitória. O aumento da expectativa de vida é resultado de acertos de políticas públicas. Não se pode transformar o avanço em um rombo que ameaça o país. Para encarar isso, é preciso que a presidente tenha uma proposta e a defenda. Não pode dizer algo e o seu oposto, como fez nessa entrevista. Será difícil a tramitação de reforma em época como essa. Mais difícil ainda se a fala da presidente for tão hesitante.

Rolf Kuntz*: São Paulo caiu do cavalo e mudou. Bicicleta serve?

- O Estado de S. Paulo

O corpo humano é formado por cabeça, tronco e membros, e o primeiro desses componentes é em geral o mais útil para a formulação e a execução de políticas públicas. Mas a presidente Dilma Rousseff, talvez por modéstia ou parcimônia, prometeu apenas “lutar com unhas e dentes” para manter uma expectativa positiva em relação à economia. Só se poderia tomar como implícita a referência à cabeça – e ao cérebro, portanto – se o histórico de sua administração fosse menos desastroso. A declaração foi feita numa reunião com a imprensa, na quinta-feira, e ela de fato usou o verbo “manter”. Foi uma escolha estranha, porque a expectativa é muito ruim, como em 2015 e também na maior parte do ano anterior. Além de unhas e dentes, ela indicou também a CPMF como ferramenta indispensável para a política econômica nos próximos meses. Todo o governo, disse também a presidente, está empenhado em garantir um 2016 melhor que o ano anterior. Faltou explicar mais claramente como esse governo, sob seu comando, poderá produzir algo melhor que o estrago dos últimos cinco anos.

A inflação de 10,67% no ano passado, a maior depois de 2002, foi consequência de uma longa acumulação de erros. Boa parte dessa taxa é explicável pela correção dos preços administrados, contidos politicamente por muito tempo. Esses preços aumentaram em média 18,06% em 2015. O ajuste mais espetacular foi o das contas de eletricidade, com alta de 51%. A decisão populista de conter esses e outros preços, como os da gasolina e do gás, impôs grandes perdas à Petrobrás, a empresas do setor elétrico e ao próprio Tesouro. O conserto seria inevitável e doloroso.

Mas a inflação é explicável também por outros erros e abusos. O governo gastou demais, concedeu benefícios fiscais e financeiros de forma tão imprudente quanto ineficaz, criou insegurança entre empresários e investidores, prejudicou a imagem do País e contribuiu para a instabilidade cambial. Apesar da intervenção do Banco Central no mercado, o dólar subiu cerca de 50% em um ano, pressionando os preços internos. Mas a maior e mais constante demonstração de irresponsabilidade e imprevidência foi mesmo a gestão desastrosa das contas públicas, principal combustível da inflação brasileira. A contabilidade criativa, desenvolvida no Ministério da Fazenda e principalmente na Secretaria do Tesouro, nesse período, tornou-se conhecida também no exterior. Poderá servir de exemplo, assim como as pedaladas, em qualquer exposição sobre como destruir um orçamento.

Mas o virtuosismo do governo consistiu principalmente em combinar a disparada dos preços com a mais prolongada e mais desastrosa recessão da economia brasileira. A produção industrial, estagnada entre 2011 e 2014, encolheu 7,7% nos 12 meses terminados em novembro de 2015. Os novos dados da indústria foram também divulgados no começo do ano. Em novembro, a indústria geral produziu 12,4% menos do que um ano antes, segundo os últimos números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Agora o governo promete uma retomada do crescimento até o fim do ano. Mas quanto a economia poderá crescer, nos próximos anos, de forma sustentável? Não muito, porque o potencial produtivo do País diminuiu nos últimos anos.
Não só para aumentar, mas também para manter esse potencial, os brasileiros deveriam ter investido muito mais em bens de capital, isto é, em máquinas e equipamentos, e em obras de infraestrutura. Nos 12 meses até novembro a indústria de bens de capital produziu 24,1% menos que nos 12 meses anteriores. Na comparação de novembro de 2015 com novembro de 2014 a queda chega a 31,2%. Mais atualizados, os números do comércio exterior mostram uma queda de 20,2% no valor da importação de bens de capital em todo o ano passado.

Diminuíram, portanto, ao mesmo tempo as compras de bens de capital tanto nacionais quanto estrangeiros. O investimento privado começou a ratear bem antes de 2015. A indústria de máquinas e equipamentos andou mal durante todo o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, embora o governo tenha mantido até este ano o Programa de Sustentação de Investimento (PSI).

Lançado em 2009, quando o País começava a sair da recessão, esse programa durou muito mais que o previsto inicialmente. Foi financiado com recursos transferidos pelo Tesouro para o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Envolveu subsídios importantes, mas produziu resultados abaixo de pífios, até porque a maior parte do dinheiro foi destinada a empresas grandes e mais capazes de se financiar por outros meios. O foco das políticas nunca foi o melhor atributo dos governos petistas.

Quanto ao investimento público, é um caso bem conhecido de fiasco, explicável quase exclusivamente pela incompetência do governo, porque o dinheiro previsto em cada ano jamais foi totalmente aplicado. Resultado: taxa de investimento em torno de 20% do produto interno bruto (PIB) durante alguns anos e bem abaixo disso no fim do primeiro e no começo do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Sem capital físico e sem produtividade o crescimento só pode ocorrer por milagre. Se milagre for uma questão de merecimento, haverá uma fila enorme na frente do Brasil.

No segundo semestre de 2015, duas agências de classificação rebaixaram o crédito do Brasil ao grau especulativo. Nas duas ocasiões, a presidente, seguindo a opinião do ministro Nelson Barbosa, havia cometido tolices na política orçamentária. Agora ela promete um esforço para diminuir o desajuste das contas públicas e estimular o investimento. A principal novidade no governo, hoje, é o ministro Barbosa na Fazenda. O mesmo governo poderá fazer algo mais sério? São Paulo, segundo se conta, converteu-se depois de cair do cavalo. A presidente anda de bicicleta. Na falta de cavalo, bicicleta serve?
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* Rolf Kuntz é jornalista

Vinicius Torres Freire: Ano curto de dinheiro e ideias

- Folha de S. Paulo

Feijão com arroz e um bifinho de crédito estatal, talvez um torresmo. Parece que é isso que será a política econômica de 2016, na melhor da hipóteses. Pelo menos é a impressão que fica da primeira semana de 2016 dos novos economistas de Dilma Rousseff. Caso a presidente não caia, ela promete ainda oferecer um churrasco na Previdência, um projeto para fixar uma idade mínima para a aposentadoria.

Na política, logo de cara há uma nova rodada de dinamitação do governo, visível no que está sendo feito com o ministro Jaques Wagner (Casa Civil), o que vai piorar muito até o fim do recesso, até o Carnaval, a julgar pelo que dizem envolvidos nesses vazamentos e investigações. Não vai sobrar apenas para Wagner.

Note-se que o governo não é muito mais que Dilma, Wagner e Nelson Barbosa, ministro da Fazenda. O restante do ministério ou cuida de interesses setoriais do mundo privado, ou já está avariado, ou é uma chusma de inúteis, para dizer o mínimo. Após a fritura de Wagner, virá ainda o tumulto da Quaresma do impeachment.

A metade final do ano será ocupada por Olimpíada e eleição municipal. Ou seja, o ano terá uns três meses. Talvez seja tempo até demais, dado o vazio de ideias.

Na economia, o feijão com arroz com bifinho magro de frango é muito pouco para lidar com um PIB que deve ser 2% menor em 2016, pelo menos. Caso a produção, o PIB, fique no mesmo tamanho que tinha no trimestre final de 2015, caso fique estagnada, esta será a recessão de 2016: uns 2%. Uma economia assim menor tende a empregar menos.

Em suma, pode ser que o PIB volte a crescer no trimestre final do ano, mas a sensação térmica nas ruas será bem pior. De qualquer modo, as perspectivas de retomada de crescimento serão medíocres, pois a peste da dívida pública crescente estará carcomendo ainda o país. De resto, quase tudo mais na administração estará parado, pois não há governo faz anos.

Até que aqui, o que os economistas de Dilma Rousseff insinuam pelos jornais e nas internas é que não querem fazer marola. Querem dar um pouco mais de crédito estatal para a construção civil e colocar para andar alguma concessão de infraestrutura. O possível para atenuar a recessão.

No mais, vão cortar gasto na boca do caixa e tentar aumentar imposto, CPMF ou o que estiver à mão, a fim de atenuar o rombo fiscal.

Ou seja, a perspectiva neutra por enquanto é de sarneyzação, de economia em deterioração contínua, mas não explosiva, de governo desmoralizado e sem iniciativa, de ruína da elite política, de impasse até a eleição seguinte.

A presidente agora falar em arrumar um pouco da Previdência, fixando uma idade mínima de aposentadoria. Não deve mexer no assunto antes de resolvido o impeachment.

Afora o sururu político que o plano vai causar da esquerda à direita, aposentadorias precoces são apenas um dos problemas previdenciários. A fim de haver algum resultado imediato e amplo, seria necessário fazer um pacote de reformas. Além de a presidente ter escassa compreensão dos problemas fiscais, ter um plano assim dependeria de haver um programa de governo, um governo com bastante gente capaz e apoio político.

Não há.

Sérgio Besserman Vianna: 1929 versus 2008

• Não é o mercado que é ‘mau’, a vida é que é dura

- O Globo

Em 2008, enquanto economistas liam a espuma dos oceanos e discutiam se a recuperação seria em V, W ou em sopa de letrinhas, historiadores econômicos procuravam ler as correntes mais profundas dos oceanos e apontavam que havíamos entrado na terceira grande recessão da história do capitalismo.

De 1873 a 1896, o sistema capitalista viveu a primeira grande crise, chamada de Grande Depressão. Foram 23 anos... Em 1929, o nome foi cooptado, e o que conhecemos como Grande Depressão hoje em dia é a crise que determinou os rumos da economia global até, no mínimo, 1945, com a Conferência de Bretton Woods, mas, mais precisamente, até o fim dos anos 1950, quando as moedas globais recuperam a conversibilidade.

Não há nenhum motivo para supor que a grande crise de 2008 seja muito diferente em extensão e consequências no tempo, embora o seja, claro, em sua realidade concreta. Mas não há como tentar entender o que se passa no mundo sem considerá-la.

Para começar, ela jogou na lata do lixo a dicotomia esquerda versus direita, expressa na polarização estatização versus privatização. Se a queda do Muro de Berlim e a revelação do sistema soviético como apenas um modo de acumulação de capital mais ineficiente já havia abalado a identidade entre estatização e visão de mundo “de esquerda”; a crise de 2008 fez o oposto exato: se o tamanho do Estado fosse de cerca de 3% do PIB global, como em 1929, e não de cerca de 20% (como no século XXI), teria sido impossível salvar o sistema financeiro e estaríamos imersos em uma grande depressão. A tese do “Estado mínimo” tampouco vale alguma coisa.

Visões de mundo de esquerda ou direita continuarão a fazer sentido, mas no século XXI é meio ridículo considerar “Estado versus setor privado” como parte desse debate.

No Brasil, a leitura da História acabou sendo adicionalmente prejudicada pelo conflito político-eleitoral. Enquanto a oposição, parcialmente equivocada, atribuía a crise brasileira apenas aos nossos graves equívocos de política econômica, o governo defendia a malfadada nova matriz econômica, repetindo, como farsa, o “keynesianismo antes de Keynes”, que, de fato, ajudou muito na recuperação da economia brasileira nos anos 1930. Naquela década, fez todo sentido gastar mais do que se arrecadava.

Mas foi um período em que o mundo partiu-se, dividiu-se em blocos econômicos antagônicos ou competitivos entre si, abrindo espaço para ações singulares de algumas nações. Hoje, com a globalização irreversível dos mercados, não é preciso ser especialista em teoria dos jogos para compreender que nações com comportamentos desviantes em política econômica seriam e serão punidas pela macroeconomia global. Não é o mercado que é “mau”, a vida é que é dura...

A nova matriz econômica, assim como sua ressurreição sob a forma da proposta de utilização das reservas internacionais para recuperar o crescimento, são formas de “keynesianismo” que Keynes refutaria.
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Sérgio Besserman Vianna é economista

Seletividade e honestidade – Editorial / O Estado de S. Paulo

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, mandou a Polícia Federal (PF) investigar o “vazamento seletivo” de informações da Operação Lava Jato sobre conversas comprometedoras de dois ministros instalados no Palácio do Planalto com o ex-presidente da empreiteira OAS, conhecido como Léo Pinheiro, já condenado a 16 anos de prisão pelo juiz Sergio Moro, por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Em 2014, Jaques Wagner, ministro-chefe da Casa Civil, então governador da Bahia, e Edinho Silva, ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, então tesoureiro da campanha presidencial de Dilma Rousseff, trocaram com o então presidente da OAS mensagens que ficaram gravadas no celular do empresário, envolvendo o famoso toma lá dá cá: de um lado, doações em espécie para campanhas eleitorais do PT, de outro, a liberação de recursos federais e outras vantagens para a empreiteira.

Com sua iniciativa de levantar suspeitas sobre o modo como vieram a público aquelas informações, Cardozo revelou uma curiosa preocupação seletiva em relação às investigações de corrupção. O que parece incomodá-lo é a notícia do envolvimento de dois ministros petistas e palacianos. Pois sua nota oficial ignora o fato de que pelo menos mais duas altas autoridades da República, ambos do PMDB, aparecem na mesmíssima investigação: um terceiro ministro, o do Turismo, Henrique Eduardo Alves, e – não poderia faltar! – o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. A nota informa que “a abertura imediata de inquérito policial” se justifica pelo fato de que as mensagens vazadas, “em princípio, estão protegidas por sigilo legal”.

Essas investigações instruíram o processo que já transitou em julgado na Justiça Federal do Paraná com a condenação à prisão de Léo Pinheiro e outros diretores da OAS. Voltam agora a chamar a atenção porque foram encaminhadas à Procuradoria-Geral da República (PGR), uma vez que envolvem investigados que desfrutam de foro privilegiado. Caberá à PGR decidir se apresenta denúncia ao Supremo Tribunal Federal (STF).

José Aldemário Pinheiro Filho, vulgo Léo Pinheiro, cultivava amplo círculo de relações nas três esferas governamentais. Até o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, é mencionado nas mais de 600 páginas de transcrição das mensagens gravadas no celular do ex-empreiteiro, ao lado de dezenas de ilustres figuras da República, boa parte filiada ao PT e ao PMDB.

A preocupação dos petistas com o que classificam de divulgação “seletiva” de nomes investigados pela PF tem a ver com o fato de que a maior parte desses nomes é de políticos ligados aos partidos da base de apoio do governo. Tentam os petistas passar à opinião pública a ideia de que a PF e o Ministério Público Federal (MPF), com a indispensável “cumplicidade” dos meios de comunicação, poupam a oposição e “criminalizam” o governo do PT e os partidos que o apoiam numa manobra articulada pelas “elites” para prejudicar os “interesses populares”. De fato, praticamente só dá governistas nos mensalões e petrolões da vida. O próprio PT já teve dois ex-presidentes e dois ex-tesoureiros mandados para a prisão. A tigrada, afinal, levou ao pé da letra, só que no sentido de se lambuzar, a velha advertência de que, sendo o governo o detentor da chave do cofre, é ele que tem o poder de corromper e motivos para ser corrompido. Já a oposição não tem o que oferecer concretamente.

A decisão de Cardozo de mandar a PF investigar o “vazamento seletivo” – decidiu-se que o vazamento é “seletivo” antes mesmo de investigar – reflete a mesma preocupação da presidente Dilma Rousseff, por ela sutilmente manifestada no encontro com os jornalistas, na quinta-feira pela manhã: “A impunidade começou a ser ameaçada e, doa a quem doer, as coisas são apuradas. Temos que manter o direito de defesa e acabar com a escandalização. Mas tenho medo da espetacularização e dos vazamentos, porque os vazamentos não se dão em um quadro de apuração de responsabilidades”.

Dilma deveria se preocupar menos com os vazamentos e mais com a insistência com que se vangloria de que sobre sua conduta “não paira embaçamento algum”, porque isso não é mérito, é obrigação. E nunca é demais lembrar que ser honesto implica não admitir que haja desonestidade no próprio entorno.

Reforma insuficiente – Editorial / Folha de S. Paulo

Durante quase uma década adversária na prática do equilíbrio das contas públicas, a presidente Dilma Rousseff (PT) indicou que seu governo estuda um plano para definir uma idade mínima e mais elevada de aposentadoria.

Trata-se de bem-vinda mudança de posição, embora esteja longe de produzir resultados concretos. Dilma insinuou que o assunto ainda será debatido; de resto, o Congresso se vê dominado pela agenda do impeachment, e a presidente não há de querer melindrar de pronto as organizações sociais de esquerda que apoiam seu governo.

Não há dúvida de que é preciso fixar uma idade mínima de aposentadoria bem mais elevada que os pouco mais de 50 anos com que, em média, hoje se deixa de trabalhar.

Mesmo que o efeito direto da mudança não seja sentido tão cedo nas contas públicas, inclusive porque haverá inevitáveis regras de transição, ela contribuirá para restaurar a confiança no futuro econômico do país.

Um plano de reforma previdenciária, porém, não pode parar aí. Deve abordar também a revisão das pensões por morte, cuja despesa média é muito mais elevada no Brasil do que nos países da OCDE, entre os mais ricos do mundo.

Os benefícios aqui são integrais, fixos e desvinculados da idade e da situação social do pensionista –não importa que seja jovem, capaz de trabalhar ou diminua seu número de dependentes. A população, obviamente, não pode arcar com essa prodigalidade.

Outro aspecto central diz respeito aos reajustes além da inflação. Os benefícios assistenciais não podem contar com ganhos reais automáticos. Aumentos, portanto, devem se desvincular do salário mínimo, sendo concedidos de acordo com os planos da política social e com o crescimento das receitas.

Por fim, é crucial realizar mudanças na Previdência Rural, regime com normas muito diferentes das vigentes para o setor urbano. Na prática, as exigências de contribuição e comprovação de tempo de trabalho são mínimas.

Trata-se, no fundo, de programa de renda mínima para idosos do campo. Gasta o mesmo que 3,5 vezes o Bolsa Família. O benefício equivale ao salário mínimo, o quíntuplo do pagamento médio do Bolsa Família. Seu deficit em 2015 deve chegar a R$ 93 bilhões (ante R$ 6,4 bilhões da Previdência Urbana).

Tal programa precisa ser repensado, e suas contas, revistas. Devem ser averiguadas as condições em que são concedidas as aposentadorias; seus reajustes precisam ser limitados à taxa de inflação. A alteração provocará alguma inevitável polêmica constitucional.

Trata-se de reforma politicamente difícil, sem dúvida. Contudo, ajudaria o Estado a recuperar sua capacidade de fazer política social eficaz, contribuiria para a reorganização das contas públicas no curto e no longo prazo e facilitaria a recuperação da confiança econômica.

Espera-se que a presidente Dilma Rousseff leve a ideia adiante –e que o Congresso a receba com a responsabilidade que o tema merece.

Mensagens sugerem ação de Wagner por empreiteira em fundos de pensão

• Diálogos de executivos da OAS citam atual chefe da Casa Civil como intermediário de interesses da empresa em negócio com Funcef, fundo dos funcionários da Caixa

Beatriz Bulla e Daniel Carvalho - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - As conversas obtidas no celular do ex-presidente da OAS José Adelmário Pinheiro Filho, o Léo Pinheiro, mostram suposta atuação do atual ministro da Casa Civil, Jaques Wagner (PT), na intermediação de negócios entre a empreiteira e fundos de pensão.

Em um dos diálogos, o executivo e outro integrante da empresa não identificado falam na atuação do ministro e então governador da Bahia para possibilitar um negócio milionário com a Funcef (Fundação dos Economiários Federais) - fundo de pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal.

As menções ao nome do ministro e conversas diretas entre Pinheiro e Wagner foram reveladas na quinta-feira passada pelo Estado. Os diálogos indicam, por exemplo, que o então governador da Bahia teria ajudado a OAS na liberação de recursos do governo federal. Ele também teria intermediado o financiamento de campanhas municipais em Salvador em 2012, no período em que esteve no governo estadual. Os investigadores identificaram que, nas conversas, os executivos usam as iniciais JW como uma das maneiras para se referir a Wagner.

“Que ótimo, como foi na Funcef, o nosso JW me perguntou. Bjs.” O emissário da mensagem escreve de um número não identificado pelos investigadores. A resposta, cerca de três minutos depois, partiu de um número da OAS a Pinheiro: “Ótimo. Foi aprovado para contratação do avaliador, deloite. Agora, precisaremos de JW, na aprovação final. Bjo”.

As conversas são de julho de 2013. Quatro meses depois, em novembro do mesmo ano, a diretoria executiva da Funcef aprovou a compra de cotas de até R$ 500 milhões em um fundo da OAS - o FIP OAS Empreendimentos. A Funcef confirma ter feito um aporte de R$ 200 milhões, com participação de 11,76% no FIP. Na ocasião, além da análise interna, a Funcef contratou a consultoria Deloitte para fazer uma avaliação econômico-financeira da OAS, o que serviu para determinar o valor do investimento.

Um ano antes, as mensagens já mostravam conversas sobre “fundos” entre o ministro e o empreiteiro. Em novembro de 2012, Léo Pinheiro enviou mensagem direta para celular identificado como de Wagner na qual fala sobre “demanda vinda dos Fundos”, sem identificação sobre que situação específica era tratada.

“Governador, Desculpe a ‘invasão’. Na semana passada houve uma demanda vinda dos Fundos, que o Bernardo Figueiredo estaria falando para algumas pessoas sobre nossa relação com os Fundos. Queria saber se nosso amigo de ontem sabia de algo.

Ele nunca tinha ouvido nada. Tive com o Bernardo e o problema era o Trem Bala. Que foi esclarecido. Obrigado pela hospitalidade. Abs.”, escreveu Pinheiro a Wagner. Por mensagem, o governador respondeu: “Voce é sempre bem vindo JW”.

Bernardo Figueiredo foi diretor geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), mas teve sua recondução vetada pelo Senado em 2012, mesmo com a indicação da presidente Dilma Rousseff. Após a rejeição dos senadores, Figueiredo ajudou o Planalto a montar a Empresa de Planejamento e Logística (EPL), que presidiu desde a criação até o fim de 2013, após uma série de rumores de divergências com o governo. Ele foi um dos entusiastas do projeto do Trem de Alta Velocidade, o trem-bala, que ligaria Campinas (SP) ao Rio de Janeiro (RJ) - projeto que nunca saiu do papel.

O grupo que trabalha com o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ainda deverá se debruçar sobre as trocas de mensagens para identificar a que negócio cada um dos diálogos se refere e verificar se há indícios de irregularidades na atuação de Wagner.

Termos. Por meio de sua assessoria, Jaques Wagner informou que “não vai se pronunciar, pois não conhece os termos exatos do material que está sendo divulgado”. Quando as mensagens começaram a ser divulgadas, o ministro emitiu nota declarando-se tranquilo e à disposição do Ministério Público Federal e das autoridades para prestar esclarecimentos.

A assessoria de imprensa da Deloitte informou desconhecer o teor da menção à empresa e, por isso, disse não ter como se pronunciar. O ex-presidente da EPL Bernardo Figueiredo não foi localizado pela reportagem. A defesa de Léo Pinheiro, da OAS, afirmou que não iria se manifestar sobre o caso.

Por meio de assessoria de imprensa, a Funcef informou que o procedimento de estudo da oportunidade de negócio, com as devidas análises técnicas internas e externas até a finalização do processo e deliberação pela diretoria executiva, consumiu um ano e quatro meses, e foi realizado com “total rigor técnico”.

“Refutamos qualquer ilação em relação a qualquer interferência externa em toda cadeia do processo decisório da Funcef. Em relação ao suposto diálogo que faz menção à Funcef, desconhecemos o teor e a origem das citações”, diz a nota da assessoria da Fundação.

O ministro e os diálogos

Fundos de pensão
Julho de 2013

Situação: Léo Pinheiro e outro integrante da OAS não identificado falam na atuação de Jaques Wagner, então governador da Bahia, para possibilitar um negócio milionário com a Funcef, fundo de pensão dos funcionários da Caixa

Número não identificado: “Que ótimo, como foi na Funcef, o nosso JW (Jaques Wagner) me perguntou. Bjs.”

Número da OAS para Pinheiro: “Ótimo. Foi aprovado para contratação do avaliador, deloite. Agora, precisaremos de JW, na aprovação final. Bjo.”
Novembro de 2012

Situação: Pinheiro e Wagner conversam sobre “fundos”

Léo Pinheiro: “Governador, Desculpe a ‘invasão’. Na semana passada houve uma demanda vinda dos Fundos, que o Bernardo Figueiredo estaria falando para algumas pessoas sobre nossa relação com os Fundos. Queria saber se nosso amigo de ontem sabia de algo. Ele nunca tinha ouvido nada. Tive com o Bernardo e o problema era o Trem Bala. Que foi esclarecido. Obrigado pela hospitalidade. Abs.”

Jaques Wagner: “Voce é sempre bem vindo JW.”

Eleições municipais

Outubro de 2012

Situação: Pinheiro fala com fundador da OAS sobre apoio no 2.º turno da eleição para a prefeitura de Salvador. A conversa cifrada faz menções a valores para pagar campanhas

Léo Pinheiro: “O Compositor (Jaques Wagner) me ligou ontem, disse-lhe que estava fora e que MR iria procurá-lo x MK (Mário Kertész, candidato do PMDB à prefeitura de Salvador em 2012) (saldo). Se resolveríamos parte com o nosso apoio ao Andarilho (Nelson Pellegrino, candidato petista à prefeitura de Salvador em 2012) ou qual seria a solução?”

Léo Pinheiro: “O valor é muito alto. 3.600 Street Brown”

Verba dos Transportes

Outubro de 2014

Situação: A cinco dias do 2.º turno das eleições presidenciais, Pinheiro pede a Wagner para intermediar liberação de verba dos Transportes

Pinheiro para Wagner: “Governador, se for possível, peço seu apoio. Abs.”

Jaques Wagner: “Ok, vou fazê-lo. Abs.”

Este ano promete

Eloísa Machado de Almeida* - O Estado de S. Paulo

Em 2015, o Supremo Tribunal Federal esteve no centro do debate político brasileiro, sobretudo pelos desdobramentos da Operação Lava Jato e pelos questionamentos do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Os primeiros dias deste janeiro, com as novas revelações da Lava Jato, mostram que não será diferente em 2016. Os inquéritos relacionados à operação poderão sofrer avanços significativos. Neste ano, as primeiras denúncias oferecidas contra o senador Fernando Collor e o deputado Eduardo Cunha deverão ser analisadas e, caso recebidas, ambos os parlamentares se tornarão oficialmente réus. Isso pode vir a estimular as Comissões de Ética a analisar uma possível quebra de decoro e até eventual perda de mandato.

Os demais deputados e senadores investigados, dado o volume de diligências realizadas sob a supervisão do ministro-relator, Teori Zavascki, também devem ter definidos os seus destinos pelo tribunal, ainda mais se levarmos em conta que a demora injustificada na investigação não só prejudica os investigados, como pode permitir a ocorrência da prescrição, uma prova da ineficiência da Justiça.

Já o processo de impeachment deve continuar repercutindo no tribunal, pois mesmo com a regulação proposta pela última decisão, muitas questões ainda estão abertas, especialmente quanto ao rito do impeachment abordado, porém não esgotado na decisão do Supremo. A depender dos acontecimentos, não se pode afastar a possibilidade, ainda, do tribunal ser instado a se pronunciar sobre o mérito do pedido de impeachment, como a justa causa para o pedido e a efetiva prática de crime de responsabilidade.

Mas as atribuições e competências do STF vão muito além desses casos. Trabalho escravo, demarcação de terras quilombolas, redução da idade penal, reforma prisional, correção de planos econômicos, dentre muitos outros casos relevantes, seguem aguardando por um desfecho. Para o Supremo, 2016 promete.

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*Eloísa Machado de Almeida é professora e coordenadora do Supremo em Pauta FGV Direito SP

‘Época’: Dilma teria garantido empréstimo a empreiteira

• BNDES liberou verba para Andrade Gutierrez atuar em Moçambique

- O Globo

Reportagem publicada pela revista “Época”, na edição deste final de semana, revela como o governo teria atuado para assegurar que um investimento do grupo Andrade Gutierrez se viabilizasse em Moçambique, por meio de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). De acordo com a revista, a presidente Dilma Rousseff, em viagem ao continente africano em março de 2013, recebeu pedido do presidente de Moçambique, Armando Guebuza, para permitir o financiamento de US$ 320 milhões ao empreendimento da empresa brasileira, para construção da barragem de Moamba Major. Porém, as regras do banco dificultariam a realização.

A reportagem da “Época”, afirma que, em setembro de 2013, em reunião da Câmara de Comércio Exterior, o então ministro do Desenvolvimento Indústria e Comércio, Fernando Pimentel, fez prevalecer entendimento favorável à flexibilização de garantias para conceder o empréstimo. Pimentel é governador de Minas.

Doação de R$ 20 milhões
Em julho de 2014, durante a campanha eleitoral, diz a reportagem, o financiamento ao empreendimento na África foi concedido pelo BNDES. Segundo a “Época”, no mês seguinte à assinatura do contrato com o BNDES, no dia 20 de agosto, às 8h54m, Edinho Silva, então tesoureiro da campanha presidencial à reeleição de Dilma, visitou Otávio Marques de Azevedo no escritório da Andrade Gutierrez, em São Paulo. Nove dias depois, a empreiteira realizou uma transferência no valor de R$ 10 milhões para a campanha de Dilma. Em seguida, do dia 23 setembro a 22 de outubro de 2014, a construtora doou ao todo mais R$ 10 milhões, em três parcelas. Entre as empreiteiras brasileiras, a Andrade foi a principal contribuidora da reeleição de Dilma, desembolsando quase o triplo do total repassado pela UTC.

Questionada por ÉPOCA a respeito da negociação, a Presidência informa, por meio de sua área de comunicação, que o governo Dilma sempre teve como estratégia expandir as exportações de produtos manufaturados e bens e serviços para os mercados da África e América Latina. “Seguindo essa diretriz, com total autonomia e sem nenhuma ingerência de qualquer instituição do governo, o Cofig (Comitê de Financiamento e Garantia das Exportações, colegiado responsável por avaliar as condições de financiamentos do governo federal a operações de exportação) e a Camex tomam suas decisões”, diz a nota, que segue: “Cabe ainda ressaltar que as doações feitas à campanha de 2014 não tem nenhuma relação com as ações de governo.”

Em nota, o BNDES afirma que o controle na concessão dos créditos à exportação se baseia em critérios técnicos e tem permitido apoio às empresas brasileiras com uma inadimplência extremamente baixa. E também que “não é incomum que uma operação seja aprovada na Camex e depois transcorra, até a contratação, um prazo similar ao observado na operação”.

Também procurado pelo GLOBO, o Planalto reafirmou que as doações feitas à campanha de 2014 “não tem qualquer relação com as ações de governo”. E que a política de Comércio Exterior do governo Dilma foca na América Latina e na África.

Caciques do PMDB estão em pé de guerra a dois meses da convenção

• Senadores articulam substituição de Temer da presidência do partido

Maria Lima e Cristiane Jungblut - O Globo

Insuflados pela movimentação promovida pelo Palácio do Planalto para garantir apoio contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff, os caciques do PMDB estão em pé de guerra, divididos entre os grupos do vice-presidente Michel Temer, beneficiário direto do impedimento de Dilma, e o de Renan Calheiros (AL), presidente do Senado e visto como fiel da balança contra o processo de cassação de Dilma.

Além das negociações para a recondução de Leonardo Picciani (RJ) à liderança do partido na Câmara, os três principais caciques do Senado — Renan, o líder Eunício Oliveira (CE) e o segundo vice-presidente da Casa, Romero Jucá (RR) — já fecharam um acordo que dá a Eunício a vaga de presidente do Senado, no lugar de Renan, a partir do ano que vem; e a Jucá a vaga de Temer na presidência do partido já em março. Mas, para tal, será preciso derrotar o vice-presidente, que reina soberano no comando do partido desde 2001.

— Já combinaram com os russos? O líder mais forte hoje no partido é o Michel. A unidade é incondicional nesse momento. Hoje, mais de 80% do partido, que olha além dos interesses da Câmara e do Senado, quer unidade. Discussão de nomes é para depois — diz o secretário geral do PMDB, o ex-ministro Eliseu Padilha, principal articulador do grupo de Temer.

A guerra desembocará na convenção nacional do PMDB, em março, quando serão eleitos os novos dirigentes do Diretório e da Executiva Nacional. Temendo um impacto negativo das fraturas na eleição municipal deste ano, decisiva para o fortalecimento do projeto do partido para as eleições de 2018, os peemedebistas apelam para que o racha seja evitado. Em público, o discurso das principais lideranças do PMDB é que o instinto de sobrevivência e o projeto de candidatura própria ao Planalto em 2018 exigem consenso, mas a guerra fria é clara.

— Não há disputa dentro do Senado. Temos um acordo: eu, Renan e Jucá sobre presidência do Senado. Sobre a presidência do partido eu não estarei na disputa. O melhor caminho, e eu defendo isso, seria o entendimento geral na questão da liderança da Câmara e na sucessão da direção do partido — diz Eunício.

Críticas ao Vice
Mas o líder do PMDB no Senado lembra que os diretórios têm pesos diferentes na eleição do presidente do partido.

— Cada estado é uma célula — ressalta Eunício.

Temer enfrenta um PMDB do Senado coeso, irritado com as decisões do vice-presidente dentro da Executiva do partido. A reclamação é que Temer estaria agindo em apoio ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e que tentou mudar regras sobre a filiação de novos deputados para interferir na disputa pelo cargo de líder do partido na Câmara. Na ocasião, Renan reagiu e chegou a chamar Temer de “coronel”.

O grupo contra Temer, liderado pelo PMDB do Senado, se articula e acredita que hoje o vice não teria votos suficientes para se manter no comando do partido. Mas os próprios senadores sabem que, no PMDB, a negociação ocorre até o final.

Jucá diz que é “cedo” para se falar da convenção. Nos bastidores, o grupo que deseja a renovação admite que o ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves (RN), seria uma alternativa do lado do bloco pró-Temer, mas a operação da Polícia Federal em sua residência tornou a manobra difícil. Do lado dos rebeldes, Jucá, mesmo sendo investigado pela LavaJato, é apontado como o mais conciliador. O grupo de insatisfeitos também têm alguns deputados.

Janela partidária
A primeira reação do grupo do Senado será na volta ao Congresso após o recesso. Renan vai promulgar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que abre uma nova janela de 30 dias para filiações partidárias. A PEC foi aprovada pelo Senado em dezembro. O prazo de 30 dias passa a contar assim que a PEC for promulgada. Os peemedebistas dizem que será um “troco” para a decisão sobre os suplentes que poderiam entrar na bancada da Câmara como forma de mudar novamente os votos sobre o líder.

As divergências explodiram no caso da destituição e recondução de Picciani. No dia 17 de dezembro, após a volta de Picciani à Função, Renan saiu de sua postura discreta e saiu atacando Temer:

— E essa decisão da bancada é a demonstração de que, por mais que o Michel tentasse, quisesse ser coronel, não conseguiria, porque tem que decidir sobre a vontade das pessoas. Não bastar distribuir cargos para isso. A volta do Picciani é a confirmação de que quem tentou ser coronel no PMDB não conseguiu. A tentativa de setores de ser coronéis do PMDB fracassou. O PMDB é um partido democrático, sem dono, sem coronel.

Picciani é o mais cotado para liderança na Câmara

• Ala anti-Dilma do PMDB terá dificuldades em eleição de fevereiro

Júnia Gama - O Globo

A ala peemedebista que faz oposição ao governo Dilma Rousseff pode sofrer uma derrota na volta do recesso do Legislativo, em fevereiro, quando será escolhido o novo líder do partido na Câmara. Depois de uma operação que tirou o cargo de Leonardo Picciani (PMDB-RJ) durante uma semana, levando Leonardo Quintão (PMDB-MG) à liderança do partido — com as bênçãos do vice-presidente Michel Temer e do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) —, os dissidentes no PMDB enfrentam dificuldades para encontrar um nome de consenso para o posto.

O Palácio do Planalto, por considerar o posto estratégico no enfrentamento do impeachment e de outras batalhas no Congresso este ano, trabalha nos bastidores para manter Picciani, um aliado que defende uma posição clara contra o afastamento da presidente. A avaliação no governo é que, com o esfriamento do apelo pelo afastamento da presidente Dilma e sem um candidato forte para antagonizar com Picciani, sua recondução ao cargo se torne cada vez mais provável.

Há também uma análise no núcleo palaciano de que Michel Temer não deverá entrar de cabeça para eleger um antigovernista para a liderança, já que ele próprio está em busca de votos para se reeleger à presidência nacional do PMDB e um embate com o diretório do Rio de Janeiro poderia dificultar a empreitada.

Já o grupo dissidente, embalado por Eduardo Cunha, quer emplacar um nome de Minas Gerais que não esteja comprometido com o governo e possibilite um número maior de votos pró-impeachment no PMDB. A expectativa na semana passada era que os dissidentes conseguissem fechar um consenso na bancada mineira, o que acabou não ocorrendo. O deputado Newton Cardoso Junior (PMDB-MG) tem trabalhado para viabilizar seu nome na liderança e se reuniu nos últimos dias com Cunha e com Temer. Mas Newton tem tido dificuldades na bancada mineira para obter apoio, já que a ala ligada a Leonardo Quintão ainda quer para levá-lo ao posto.

Novas reuniões estão marcadas para esta semana. Deputados de outros estados passaram a ser cogitados para a disputa, mas o grupo anti-Dilma já admite, reservadamente, que ficou enfraquecida a possibilidade de derrotar Picciani. Com isso, tentarão inviabilizar a recondução do líder alegando que isto só poderá ocorrer se ele obtiver dois terços dos votos. Esse discurso já foi citado por Eduardo Cunha ao GLOBO e vem sendo repetido pelos dissidentes.

Temer pede a deputados que baixem as armas


  • Vice inicia reaproximação com o líder Picciani, que Cunha tentou derrubar

- O Globo

Ciente da insatisfação dos caciques do Senado, o vice-presidente Michel Temer voltou a dedicar sua atenção para onde sempre teve seu lastro político: a Câmara. Na última semana, Temer pediu a deputados que baixem as armas em relação à disputa pela liderança e “deixem a poeira baixar para enxergar o horizonte”. O vice também telefonou para os principais caciques do partido — inclusive os do Senado — pedindo que tentem um acordo até a convenção de março.

O vice-presidente iniciou, inclusive, uma reaproximação com o líder do PMDB na Casa, Leonardo Picciani (RJ), que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, tentou derrubar. Mas alguns peemedebistas duvidam que o pai de Leonardo, Jorge Picciani, que controla o PMDB do Rio, “perdoaria” a manobra contra seu filho, que chegou a ser destituído da liderança e depois a reassumiu.

Aliados de Temer alardeiam, no entanto, que ele tem o apoio do prefeito do Rio, Eduardo Paes, do governador Luiz Fernando Pezão e do ex-governador Sérgio Cabral.

— O general do Michel é o Eduardo Cunha, que ainda tem o controle de parte da bancada — diz um peemedebista.

Perda de diretórios
Esta semana, Temer se encontrou até com o ministro Jaques Wagner, da Casa Civil, no que foi visto como uma tentativa do governo de superar o malestar do fim do ano.

— Ele quer fazer as pazes com todo mundo — disse um interlocutor de Dilma.

Senadores, no entanto, dizem que Michel está muito fragilizado com a perda de apoio de diretórios importantes, como os de Rio, Paraná, Ceará, Amazonas, Maranhão, Alagoas, Pará, Paraíba, Tocantins, Roraima, Rondônia, Sergipe e Pernambuco. Para completar, Santa Catarina e Minas Gerais estariam divididos. Os peemedebistas do Senado dizem que Padilha e o ex-ministro Moreira Franco, outro braço-direito de Temer, não têm votos e nem a simpatia do partido. Mas aliados do vice minimizam:

— Daqui até março duas palavras vão ditar o quadro: LavaJato. Não estou falando de ninguém que está sendo investigado ou que será candidato. Em tempo de Lava-Jato, é tempo de mergulhar e todo mundo só vai falar de unidade. Então isso aí vai ser levado em banho-maria. Antes de março ainda tem janeiro e fevereiro. Tem que conversar, conversar e, na hora de assinar o contrato, vai depender da Lava-jato, que vai influenciar o ambiente político dentro e fora do PMDB — disse o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA).

Temer põe ‘pé na estrada’ pelo controle do PMDB

• Vice vai iniciar giro pelo País para tentar consolidar apoio para sua recondução ao comando do partido e impedir movimentações de grupo de Renan

Erich Decat - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Com mapa dos representantes do PMDB que têm poder de voto nas mãos, o vice-presidente da República, Michel Temer, iniciará no fim deste mês um giro pelo País na tentativa de consolidar apoio a sua recondução ao comando da legenda e de impedir as movimentações do grupo do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL).

Segundo apurou o Estado, o vice tem hoje o apoio de cerca de 60% do partido. Com o receio de ter a liderança partidária posta em xeque e diante da proximidade da Convenção Nacional da legenda, prevista para março, Temer montou um grupo específico para cuidar da sua campanha, que contará com a participação do presidente da Fundação Ulisses Guimarães, Moreira Franco, e do ex-ministro Eliseu Padilha.

O tour deve começar pela Região Sul, onde historicamente o vice detém maior número de apoio. A princípio, as viagens serão feitas com recursos da legenda. Segundo o secretário-geral do PMDB, deputado Mauro Lopes (MG), além das visitas às principais capitais do País, a campanha também deve contar com uma estrutura de call center para efetivar contatos com representantes do partido nas cidades em que Temer não puder visitar. De acordo com um aliado, Temer vai procurar delegados da sigla para saber o que eles acham da direção atual e até encomendou pesquisas.

A decisão de Temer pelo início da campanha ocorre de olho nas sinalizações de que o grupo liderado pelo senador Renan Calheiros lançará um candidato para disputar o comando da cúpula da legenda. Entre os nomes cotados está o do senador Romero Jucá (RR).

Rio. No tabuleiro da batalha interna, os dois lados disputarão os votos dos representantes do Rio de Janeiro, Estado que conta com o maior número de delegados na convenção. No cenário atual, Temer está em desvantagem na corrida pelos votos dos peemedebistas fluminenses. Lideranças do PMDB do Estado ressaltam que não ficou no esquecimento a manobra do vice, realizada no fim do ano passado, para tentar tirar o deputado Leonardo Picciani (RJ) da liderança da bancada da Câmara. Segundo integrantes da legenda, se houver disputa na convenção, o Rio irá apoiar o movimento liderado por Renan.

Com receio de haver um acirramento na disputa pelo comando do PMDB, Temer passou a adotar, nesta primeira semana do ano, um discurso de “unidade” e “harmonia”. “Ele vai pregar a unidade partidária ressaltando que o PMDB é o maior partido do Brasil se estiver junto, se estiver desunido não vai ter peso para bancar a posição de ser uma alternativa ao PT e ao PSDB em 2018”, afirmou o deputado Osmar Terra (PMDB-RS), aliado do vice.

A passagem de Temer pelos diretórios estaduais também servirá para ele ouvir a sigla a respeito de um possível desembarque do governo. “Ele não vai tocar no tema, mas é óbvio que essa questão vai entrar nas discussões, os companheiros vão se colocar”, disse Darcísio Perondi (PMDB-RS).

Após apoiar Aécio, família Picciani se une por Dilma

• Com patrimônio declarado de R$ 27 milhões, Jorge, Leonardo e Rafael pregam ‘coerência'

Luciana Nunes Leal - O Estado de S. Paulo

RIO - Na eleição municipal de 1985, Jorge Picciani, morador da periferia carioca, formado em contabilidade e estatística e produtor rural em uma fazenda no interior do Estado, decidiu entrar para a política. Filiou-se ao PSB e foi às ruas fazer campanha para o ex-deputado Marcelo Cerqueira, que disputava a prefeitura, e para o jornalista João Saldanha (PCB), candidato a vice. Picciani tinha um filho de cinco anos, Leonardo, outro de três, Felipe, e Rafael estava a caminho. Cerqueira não foi eleito, mas o novato militante gostou da experiência.

Passados 30 anos, Jorge, de 60, foi eleito seis vezes deputado estadual, é presidente do PMDB-RJ e da Assembleia Legislativa. Leonardo, aos 36, cumpre o quarto mandato de deputado federal. Rafael, de 29, é deputado estadual como o pai, licenciado para ocupar a secretaria de Transportes da capital fluminense. Felipe, de 34, cuida dos negócios da família. Em 2011, nasceu o caçula Arthur.

Paralelamente à trajetória política, Picciani construiu um patrimônio que, da pequena fazenda em Rio das Flores (RJ), transformou-se em um conglomerado pecuário, especializado em genética bovina. De 2011 em diante, os negócios foram ampliados para setor de mineração. Os três políticos da família somavam, em 2014, um patrimônio de R$ 27,431 milhões, a maior parte proveniente da holding Agrobilara, que tem como nome fantasia Grupo Monte Verde, do qual Jorge Picciani é presidente. As informações estão na declaração de bens enviada à Justiça Eleitoral.

Conhecida na política fluminense, sob a liderança do patriarca Jorge, a família Picciani ganhou destaque nacional em meados do ano passado, quando se aproximou da presidente Dilma Rousseff e reforçou o movimento contra o impeachment. Com o governador Luiz Fernando Pezão e o prefeito Eduardo Paes, Picciani pai fez do diretório estadual o principal esteio de Dilma no PMDB.

Líder do PMDB na Câmara, Leonardo foi destituído no início de dezembro e reconduzido uma semana depois, com a ajuda do governo e de Pezão e Paes, que liberaram secretários para assumir vagas na Câmara e reforçar o grupo pró-Picciani. Em fevereiro, o líder tentará a reeleição com uma bancada dividida entre governistas, aliados de Picciani, e oposicionistas, próximos do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (RJ), e do vice-presidente Michel Temer.

A recondução de Leonardo será uma vitória do governo e manterá os Picciani em papel de destaque na articulação contra o impeachment. Caso contrário, Leonardo estará em minoria na bancada de 66 deputados e perderá influência na condução do processo. Jorge Picciani afirma que a liderança do PMDB não é questão de vida ou morte. “O fundamental é manter a coerência. Nossa posição contra o impeachment não vai mudar”, disse.

A incerteza sobre o futuro da liderança não afasta a decisão de que, independentemente do resultado, o clã Picciani estará unido em defesa de Dilma, assim como esteve afinado, em 2014, na campanha do tucano Aécio Neves para presidente. E, no início do ano passado, trabalhou pela eleição de Cunha para o comando da Câmara.

Encerradas as eleições, Picciani criticou o PSDB pelo processo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em que questionava a lisura do pleito e também reprovou o movimento de Aécio e dos tucanos em defesa do impeachment. “Quando a eleição acaba, o resultado tem que ser respeitado”, sustenta. A aliança com o PSDB no plano nacional foi um ponto fora da curva das alianças da família, que apoiou Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 e 2006 e Dilma em 2010, quando Jorge Picciani foi candidato ao Senado. Embora fizesse parte da chapa de Dilma, Picciani não teve apoio de grande parte dos petistas, que se dedicaram apenas à campanha de Lindbergh Farias (PT), que acabou eleito.

Aezão. Quatro anos depois, Picciani liderou a dissidência do PMDB e criou o movimento Aezão, que unia Aécio Neves e Pezão. O deputado estadual Luiz Paulo Corrêa da Rocha, presidente do PSDB da capital, destacou que, embora a campanha de Aécio ganhasse com a aliança, o PMDB do Rio também foi favorecido na campanha de Pezão.

Depois disso, na visão do deputado federal Otávio Leite, presidente do PSDB fluminense, sob a liderança de Picciani, o PMDB do Rio, com exceção de Eduardo Cunha, assumiu uma “face petista”. “Os principais líderes do PMDB do Rio são mais Dilma do que setores do próprio PT. É típico do PMDB estar à sombra do poder”, afirmou.

A deputada Clarissa Garotinho (PR-RJ) endossa a associação dos Picciani com o pragmatismo. Representante de outro clã da política fluminense, a parlamentar diz que o crescimento do PMDB do Rio deu-se com a filiação de seu pai, Anthony, e da mãe, Rosinha, após as eleições de 2002. O rompimento foi após a campanha que elegeu Sérgio Cabral governador em 2006. “A tática de rachar é típica do Picciani”, disse.

Em relação a Cunha, o afastamento da família Picciani começou em julho passado, quando o presidente da Câmara anunciou o rompimento com o governo. A relação azedou de vez quando ele ajudou a derrubar Leonardo da liderança da bancada. Agora, o clã tem relação apenas protocolar com Cunha, mas Picciani evita comprar briga em público com o correligionário. “Do ponto de vista pessoal, continuo querendo bem a Eduardo. Me surpreende, sim, do ponto de vista político. Ele poderia ter dado uma grande contribuição ao País na presidência da Câmara.”

Na Assembleia Legislativa do Rio, Picciani tem boa relação com a oposição e ajudou Pezão a aprovar projetos que tentaram aliviar a gravíssima crise econômica do Estado. É aliado do governador, mas critica a gestão de Pezão. No plano federal, repete que faz questão de não indicar nomes ao governo, embora lhe tenha sido oferecido desde 2002. Em vez de nomeações, pediu apoio ao filho na relatoria de projetos importantes na Câmara.

Em 2014, com Jorge e Rafael candidatos à Assembleia, o clã montou uma delicada geografia eleitoral: o pai, que tinha forte votação na capital, abriu espaço para o filho. Resultado: Jorge repetiu a votação de 2006, última vez que havia sido eleito deputado estadual, e o filho, mesmo com menos votos do que em 2010, se reelegeu.

/ Colaboraram Vinicius Neder e Marcio Dolzan

Negócios da família Picciani incluem boi e brita

• Patrimônio é de mais de R$ 27 milhões, segundo as declarações de bens do patriarca, Jorge Picciani, e dos filhos Leonardo e Rafael

Antonio Pita - O Estado de S. Paulo

RIO - De uma fazenda de leite e café no município fluminense de Rio das Flores, na década de 1980, o braço político da família Picciani ergueu um patrimônio de mais de R$ 27 milhões, segundo as declarações de bens do patriarca, Jorge Picciani, e dos filhos Leonardo e Rafael, prestadas à Justiça Eleitoral em 2014. A evolução se deu a partir de 1998, com investimentos em melhoria genética de gado nobre, e a partir de 2011, com a aquisição de participação na mineradora Tamoio, fornecedora de brita para importantes obras da Olimpíada no Rio.

A família tem fazendas no Rio, Minas e Mato Grosso, reunidas na empresa Agrobilara, referência no melhoramento genético das raças nelore e gir leiteiro. As ações do conglomerado representam a principal valorização do patrimônio – de 2006 a 2014, cresceram quase seis vezes, saindo de R$ 6,5 milhões para mais de R$ 24 milhões. Também são sócios da empresa o filho Felipe, que administra os negócios da família, e Márcia, ex-mulher de Picciani, mãe de Leonardo, Felipe e Rafael. Os R$ 27 milhões não incluem bens de Márcia e Felipe.

Bens. Em 2010, o ex-governador Anthony Garotinho (PR), ex-aliado e hoje adversário do clã, questionou o patrimônio da família, pelo fato de as declarações de bens de Leonardo e Rafael informarem o mesmo número de cotas da Abilara (2.020 para cada um), com valores diferentes. As cotas de Rafael valiam R$ 1,7 milhão. As de Leonardo, R$ 712 mil. À Procuradoria Regional Eleitoral, a família informou que Rafael já era sócio da Agrobilara desde 2004, enquanto Leonardo era sócio com o pai de outra empresa, Agrovás, que se incorporou à Agrobilara em 2008. Segundo a família, houve redistribuição de cotas para que todos os sócios tivessem a mesma quantidade, mas com valores patrimoniais diferentes.

Em 2004, a Agrovás, fazenda em São Félix do Araguaia (MT), foi incluída na lista de propriedades com trabalhadores em condições análogas à escravidão, feita pelo Ministério Público do Trabalho. A fiscalização identificou 55 funcionários sem carteira assinada, sendo 14 sem qualquer documentação – entre eles, um adolescente sem acesso a escola.

A família fez um acordo judicial que envolveu o pagamento de R$ 250 mil para financiar iniciativas do Ministério Público do Trabalho voltadas à erradicação do trabalho degradante. Segundo Jorge Picciani, os trabalhadores tinham sido contratados por um empreiteiro para construir 20 casas para funcionários da fazenda. “Nosso erro foi não ter exigido do empreiteiro que todos tivessem carteira de trabalho e que fosse cumprida a legislação trabalhista.”

Derrotado na eleição de 2010 para o Senado, o patriarca assumiu a presidência do PMDB-RJ em 2011 e voltou as atenções para os negócios da família. A Agrobilara adquiriu 35,5% das ações da empresa Tamoio Mineração, em Jacarepaguá, zona oeste do Rio. A empresa fornece brita para as obras do Parque Olímpico e da via expressa BRT Transolímpica, também na zona oeste, executadas por empresas privadas contratadas pela prefeitura. Picciani nega que a proximidade com o prefeito e companheiro de partido Eduardo Paes tenha influenciado na escolha da Tamoio.

Importância no cenário nacional é relativa, avalia pesquisador

• Para Ricardo Ismael, Jorge Picciani tende a continuar no Legislativo estadual, deixando para Leonardo e Rafael candidaturas futuras a prefeito, governador ou senador

O Estado de S. Paulo

Para o cientista político Ricardo Ismael, da PUC-Rio, a família Picciani se destaca como aliada diante da fragilidade do governo Dilma Rousseff, mas tem importância relativa no cenário nacional. 

“Leonardo Picciani está em Brasília, é líder do PMDB, tem força na circunstância do momento. O Planalto vai fazer de tudo para mantê-lo líder. Leonardo tem a liderança contestada por grande parte do PMDB, mas tem a bênção do Palácio do Planalto e é favorito para se manter líder. Mas, olhando para a frente, isso não vai fazê-lo mais popular no Rio de Janeiro”, diz Ismael.

Segundo o pesquisador, Jorge Picciani tende a continuar no Legislativo estadual, deixando para Leonardo e Rafael candidaturas futuras a prefeito, governador ou senador. “O pai está convencido de que não pode tentar cargo majoritário e agora vai apostar nos filhos. A liderança de Leonardo ainda vai ser testada e Rafael tem muito o que caminhar.”

O PMDB que ainda está com Dilma, na avaliação do professor, deverá se afastar da presidente a partir do ano que vem. Peemedebistas da situação e da oposição defendem candidatura própria para presidente em 2018.

Ferreira Gullar: Um susto

- Folha de S. Paulo

A primeira manhã deste novo ano não foi das melhores para mim. É que minha gata, chamada Gatinha, sumiu.

Moro em Copacabana, a uma quadra e meia da praia e a uma quadra do Copacabana Palace, isto é, não muito longe do palanque e do local onde se realizam os shows do final do ano. Ali se junta uma multidão de espectadores. Não preciso dizer o que acontece à meia-noite do dia 31 de dezembro, quando se deflagra o fulgurante espetáculo da queima de fogos, comemorativo da passagem do ano.

Maravilha! Mas nem tudo é de fato maravilhoso para quem, como eu, mora onde moro.

Mal anoitece e as pessoas, às dezenas, às centenas, começam a passar sob minha janela em direção à praia. E esse número vai crescendo à medida que se aproxima da meia-noite. Já eu, aqui no meu apartamento, mal suportando o calor infernal, não tenho como ir para a casa de alguém, nem ninguém consegue vir para minha casa.

O bairro está praticamente fechado. Cláudia, minha companheira, que mora no Flamengo, não teve como vir até aqui a pé, já que a distância é grande e o calor insuportável. Lamentamos a situação por telefone e decidimos, dentro em breve, mudar de bairros.

Conversa de tempo de crise. A verdade é que minha neta Celeste e seus dois filhos, que já estavam no bairro, vieram para cá e aqui ficaram até pouco antes do foguetório, quando foram para a avenida Atlântica. Eu, que não suporto barulho, fiquei aqui mesmo, vendo o espetáculo pela televisão.

O locutor afirmava que 2 milhões de pessoas ocupavam a praia de Copacabana para assistir à queima de fogos. Exagero. A televisão, anos atrás, afirmava que eram 1 milhão de espectadores; depois, passou para 1 milhão e meio e, nos últimos anos, aumentou para 2 milhões. Mas parece que vai parar por aí porque, senão, em breve haverá mais gente assistindo ao foguetório do que a população da cidade.

É uma mentira sem importância, mas pega mal para um veículo cuja função é informar o público, e não enganá-lo. A consequência foi que, este ano, passaram a afirmar que, no Réveillon de Salvador, havia 1 milhão e meio e, em Fortaleza, 1 milhão...

A verdade é que a avenida Atlântica mede 3.800 metros de extensão, e que a grande concentração de gente é em frente ao Copacabana Palace, onde fica o palco. O resto da avenida tem muito menos gente, dispersa pelas pistas e calçadas próximas aos edifícios. Parte desse espaço é também ocupada por ambulâncias, camburões e mesas e cadeiras dos restaurantes e bares. Pelas contas que fiz, mesmo que toda a avenida estivesse ocupada só por gente, esse total não alcançaria 500 mil pessoas. Quando se sabe que dez Maracanãs lotados somam 750 mil, não há o que discutir.

Mas deixa para lá. O que importa mesmo é que o foguetório deste ano bateu todos os recordes de explosões, atordoando os moradores do bairro, particularmente os que, como eu, residem perto da praia. Na sala, onde fiquei vendo o espetáculo pela televisão, o barulho era suportável, mas quando fui até a área de serviço, nos fundos do apartamento, levei um susto, tal o impacto das explosões que parecia um bombardeio aéreo.

Foi quando entendi por que a gatinha sumira. Se quando soa a campainha da porta ela se assusta e corre para o quarto dos fundos, o que não terá pensado ao ouvir aquelas explosões terríveis?

Coitadinha, pensei comigo. E saí a sua procura. Fui até o meu quarto onde durmo e ela também. Espiei debaixo da cama, ela não estava. Espiei debaixo do guarda-roupa, também não estava lá. Quem sabe ela se escondeu atrás da mesa de cabeceira, ou embaixo da televisão ou...

Não estava em parte alguma. Comecei a ficar grilado. Pode ser que esteja no escritório, pensei, e fui até lá. Também não estava. Por via das dúvidas, procurei-a nos dois outros quartos, onde ela não vai nunca. Nem sinal.

Assustado, voltei para a sala, sentei-me na poltrona e fiquei a pensar. Fugir, não fugiu, porque as portas estavam trancadas. Será que morreu de susto?

Foi então que ela surgiu na sala, soltou um miado e pulou no meu colo, ronronando. Abracei-a, aliviado.

Nazim Hikmet: Hoje é domingo

Hoje é domingo.
Hoje me deixaram ir ao pátio, para o sol,
Pela primeira vez.
Pela primeira vez em minha vida
Eu me choquei ao ver
O céu,
Quão longe está,
E que azul,
Que vasto é.
E lá fiquei a observá-lo,
Imóvel, pasmo.
Depois sentei-me sobre a terra
Com respeito e devoção.
Sentindo contra as costas a parede branca.
Quem quer saber das ondas que anseio por rolar,
Quem quer
Saber das lutas e do amor,
Quem quer
Sentir a liberdade?
Agora,
É só o solo, o sol e eu...
Estranhamente alegre sob o céu.
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Nazim Hikmet (1902-1963), o mais renomado poeta turco.

Teresa Cristina - Corra e Olhe o Céu