sábado, 18 de julho de 2009

A crise não viaja

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Quando o então presidente da República José Sarney se afastava do País costumava-se dizer que "a crise viajou". Se a memória não falha, quem disse pela primeira vez a frase foi o então senador Fernando Henrique Cardoso.

Mas, agora, com Sarney na presidência do Senado, passe ele suas férias na ilha de Curupu ou no exterior, a crise não viajará nem arrefecerá. Bobagem imaginar que duas semanas de recesso do Congresso tenham o poder de amenizar uma situação que, em cinco meses, não fez outra coisa além de se agravar.

Ao presidente do Senado apetece considerar que a crise é resultado de "uma campanha pessoal do jornal O Estado de S. Paulo" que obrigou "outros jornais e televisão a repercuti-la".

A despeito da fidalguia do senador de atribuir ao Estado um poder de influência grande o bastante para arrastar atrás de si a concorrência; não obstante a descortesia de imputar aos demais veículos de comunicação nacionais e internacionais traços de indigência e carência de discernimento, sua avaliação do caso é tão certeira quanto o foi na análise que balizou sua decisão de ascender pela terceira vez à presidência do Senado.

Na "prestação de contas" do primeiro semestre de mandato apresentada ontem para um plenário pleno de cinco senadores, o presidente da Casa falou uma verdade: "Infelizmente, avaliei mal."

Lamentavelmente, foi a única dita em sua inteireza. No restante do discurso, Sarney variou entre a mentira, a meia-verdade e as tergiversações habitualmente de plantão.

O cotejo entre os fatos, seus atos, seu discurso de posse e sua prestação de contas o demonstra.Ontem afirmou ter sido candidato quase obrigado. "Fui convocado e aceitei minha candidatura para servir ao País."

No fim do ano passado, quando o amigo Marcos Vilaça ainda tentava demovê-lo da empreitada e convencê-lo a disputar a presidência da Academia Brasileira de Letras - um fecho de biografia muito mais seguro que o comando do conturbado Senado -, Sarney aludiu a razões familiares e concluiu: "O destino me leva à política."

Numa nova conversa com o amigo, em março último, deu-lhe razão, mostrou-se arrependido da escolha e aventou a hipótese de renúncia antes do término do mandato, ao completar 80 anos de idade, em abril de 2010.

Foram razões políticas e não deveres cívicos que fizeram Sarney atender aos apelos do PMDB - interessado no comando do Congresso todo -, ao DEM - empenhado em impedir que o PT ocupasse o cargo - e interpretasse como incentivo a estratégica neutralidade do presidente Luiz Inácio da Silva em relação à candidatura do correligionário Tião Viana.

Segue a prestação de contas de ontem com o presidente do Senado afirmando que em seu discurso de posse enfatizou "a necessidade de fazermos uma reforma administrativa" para fazer frente aos "sérios problemas que precisavam ser enfrentados".

No discurso de posse, Sarney não só não enfatizou como sequer citou reforma alguma. Só depois de lido o pronunciamento escrito é que anunciou de improviso o corte de 10% nas despesas.

Um mero factoide (no dia seguinte, manchete dos jornais) diante da enormidade das mazelas depois reveladas.

Naquele discurso, aliás, Sarney dizia que acima de tudo estava a "independência, a autonomia e a dignidade da Casa". Seria esse o seu lema, ainda que ao sacrifício dos "deveres de amizade, deveres políticos ou partidários".

A submissão ao Palácio do Planalto e a invocação de todos os deveres há cinco meses negados testemunham a quebra do compromisso assumido.

"As circunstâncias", disse ele ontem, transformaram a "reforma" em "pretensa crise de desmoralização do Senado" e inviabilizaram "a discussão dos grandes temas do nosso momento político".

Quais sejam, as medidas provisórias, as reformas política e tributária e a crise econômica mundial. Para esta última, Sarney nomeou uma comissão de notáveis, cuja única função seria imprimir majestade ao início do seu mandato, pois concretamente não haveria nada que pudesse propor. Como, de resto, não o fez e o mundo ainda assim se acalmou.

Sobre as MPs, sua única atitude foi dar ao Palácio do Planalto na companhia do presidente da Câmara, para saber de que forma seria mais conveniente ao presidente da República se conduzir o assunto no Congresso.

A respeito das reformas política e tributária, atribuir o fracasso à crise é retirar da leniência do Executivo e da indiferença do próprio Legislativo suas inestimáveis contribuições.

Mas, segundo as contas prestadas pelo presidente do Senado, a adversidade não o impediu "de tomar as medidas necessárias para a modernização" da Casa, o "saneamento dos graves problemas de natureza ética e legal que foram revelados" - na maioria, pela "campanha pessoal do jornal O Estado de S. Paulo".

Assegurou não ter titubeado em agir. E citou, uma a uma, as decisões tomadas sob intensa pressão. Entre as quais se inclui o afastamento de Agaciel Maia, ora em gozo de licença-prêmio.

Lula defende adversários históricos

Ana Paula Scinocca
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Presidente "esquece" o que disse e sai em defesa de Sarney, Maluf e até do ex-inimigo Fernando Collor

Se o presidente Lula chamasse o ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva para um debate sobre a honestidade dos políticos e o papel desempenhado por figuras como José Sarney, Paulo Maluf e Fernando Collor, o encontro terminaria mostrando, de maneira insólita, o quanto um diverge do outro. Ou quanto o Lula presidente resolveu adaptar aos tempos atuais tudo o que disse o Lula sindicalista e político da oposição ao longo de duas décadas - anos 80 e 90.

O Lula sindicalista denunciaria os "300 picaretas do Congresso", "o grileiro" Sarney e seu patrimonialismo, "a falta de honestidade" de Maluf, além de defender o impeachment de Collor, acusado de comandar um esquema com o ex-tesoureiro PC Farias. Desde que colocou a faixa presidencial, em 2003, Lula passou por uma série de experiências que o fizeram ir além da renúncia ao que disse. O presidente passou a julgar os políticos por critérios especiais, comportando-se com um juiz da história.

Para o senador Pedro Simon (PMDB-RS), um aliado de primeira hora do governo Lula, o presidente vive agora uma fase que merece uma reprimenda a la rei de Espanha. "Lula tem 80% de popularidade. Nunca um presidente teve esse índice. O sucesso deve ter subido à sua cabeça, pois só isso pode explicar o bando de bobagens e coisas que ele tem feito. Eu vou repetir o que o rei da Espanha (Juan Carlos) disse ao Hugo Chávez (presidente da Venezuela). Cala-te, cala-te Lula", disse o senador Pedro Simon (PMDB-RS).

A governabilidade máxima e a qualquer custo também ajudaria a explicar o comportamento.
Para o cientista político Marco Antônio Carvalho Teixeira, pesquisador da PUC-SP e da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Lula teve de fazer concessões antes mesmo de chegar à Presidência, o que definiu o estilo camaleônico atual. "O Lula tem defendido pessoas que têm importância em seus postos ou partidos. Tanto o presidente quanto o partido dele, o PT, tiveram que fazer concessões. Só que Lula se adaptou mais rápido a elas", avaliou Teixeira.

POLARIDADE

Na linha "esqueçam o que eu disse", o Lula presidente saiu nos últimos dias em defesa de adversários históricos, que ele tratava como inimigos, e de teses que sempre rejeitara. O Lula de hoje acha o Congresso "a caixa de ressonância da consciência política da sociedade no dia da votação" e as pessoas que lá estão, como o presidente José Sarney (PMDB-AP), a quem em 1986 chamara de "grileiro", de pessoa "com história e incomum". Ao mesmo tempo, como um político acima dos políticos, chamou os senadores de "pizzaiolos".

Lula também já "abençoou" Severino Cavalcanti (PP-PE), hoje prefeito de João Alfredo (PE), que se viu obrigado a renunciar ao comando da Câmara e ao mandato, em 2005, acusado de praticar "mensalinho" na Casa.

COLLOR

Na semana passada, em visita a Palmeira dos Índios, em Alagoas, sepultou as divergências com Collor - inclusive o fato de em 1989 o ex-presidente ter levado ao programa de campanha na TV a mãe de uma filha do então adversário fora do casamento -, para sair em defesa do hoje senador. Três anos atrás, com Collor à beira de ser eleito para o Senado, Lula sentenciou: "O que não vai melhorar é se o Collor se eleger senador."

Em Palmeira dos Índios, no último dia 14, de microfone na mão, Lula anunciou a mudança.

"Quero fazer justiça ao Collor", disse ele. Além da "justiça" a Collor, a quem o presidente elogiou pela sustentação política dada ao governo petista, Lula comparou o ex-presidente alagoano ao também ex-presidente Juscelino Kubitschek.

Com popularidade em alta, Lula diz o que quer, se contradiz, e não derrete sua gordura eleitoral.

Pelo contrário. Até aqui, segundo pesquisas, ele está na condição de maior cabo eleitoral da próxima eleição, no ano que vem.

O recesso começou tarde

Coisas da Política :: Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


O bem-vindo recesso parlamentar deveria ter começado no princípio do mês e terminar no início da campanha eleitoral do próximo ano, prazo mínimo para os eleitores e a população esquecerem a pior temporada do pior Congresso de todos os tempos.

Mas, baixando a terra e pisando com cuidado para não sujar os sapatos, ninguém saiu ileso da sucessão de escândalos que desmoralizou o Congresso, exibiu a fragilidade da oposição – que pode ser avaliada pelo 8 a 3, resultado de pelada, da composição da CPI da Petrobras, com o governo senhor da presidência e da relatoria. Quando recomeçar o espetáculo, com a CPI coberta pela poeira do cerrado, todo o elenco estará cuidando do voto para mais um mandato.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nos dias que passou em Brasília, cuidou mais da campanha da sua candidata, a ministra Dilma Rousseff, do que da papelada que não lê e da qual toma conhecimento pelo resumo de meia dúzia de linhas digitadas por seus assessores.

Na pré-campanha de um descaro sem paralelo, o presidente no azul do céu da popularidade, acima de 80% nas últimas pesquisas, vê-se no espelho como o dono do país. As viagens semanais, quando está no país, acompanhado da ministra Dilma, para as visitas às obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e o reforço do Minha Casa Meu Voto, ainda nos primeiros passos, com a promessa da construção de 1 milhão de residências populares, coadunam-se bem com o pacote do Bolsa Família, do Bolsa Escola, do aumento do salário mínimo, do Pró-Uni que promete universidade para todos.

A vaidade do improvisador fluente subiu à cabeça, e não é boa conselheira. A chalaça insultuosa de chamar os senadores que combatem o governo na CPI da Petrobras de "bons pizzaiolos" deflagrou a reação do plenário, inclusive dos aliados, com as exceções de praxe do cordão que cada vez aumenta mais. Vários senadores, inclusive da ala governista, subscreveram o requerimento do senador Cristovam Buarque (PDT-DF) propondo um voto de censura ao presidente. Advertido, Lula caiu em si e manifestou seu arrependimento pela frase infeliz.

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), passou o dia em seu gabinete, evitando comentar as novas denúncias contra ele e pessoas de sua família. E, ao deixar o gabinete, quando os repórteres perguntaram como se sentia com as férias parlamentares, desabafou: "Graças a Deus!".

É cedo para tentar especular sobre os próximos desdobramentos da crise do Congresso, na campanha eleitoral que deverá pegar fogo no próximo ano, depois da trégua das festas natalinas, da passagem de ano e do fim das férias escolares. Não é apenas a desmoralização do Legislativo que envolve os partidos e enxovalha lideranças atingidas por denúncias que estão sendo investigadas, que recomenda cautela nas análises, penduradas em tantas dúvidas.

O favoritismo da candidata Dilma Rousseff, herdeira da popularidade do presidente Lula e que começa a chegar às ruas das capitais e grandes cidades, ainda não foi submetido ao teste do confronto com as oposições. Enquanto o esquema governista tem uma candidata, com o apoio do presidente Lula, a oposição desperdiça o tempo com as hesitações entre dois e três pretendentes, incluindo o deputado Ciro Gomes (PSDB-CE), que confirma ser a Presidência sua ambição prioritária. O chove-não-molha entre os governadores José Serra, de São Paulo, e o mineiro Aécio Neves, engessa a oposição, fragilizada no Congresso e que se sustenta com a atuação vigorosa de meia dúzia de senadores e deputados. Poucos deputados. O presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP), é candidato declarado a vice-presidente na chapa oficial, com o apoio de Lula. E tem conseguido preservar a Casa do descalabro moral do Senado.

Um inesperado sinal de que a desmoralização do Congresso começa a chegar à rua: a passeata dos estudantes, promovida pela União Nacional de Estudantes e outras entidades – que reuniu 2 mil pessoas, pelos cálculos da Polícia Militar, e mais de 5 mil segundo os manifestantes – no desfile pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília, para o 51° Congresso Nacional da UNE. A UNE foi agraciada pela Petrobras e por órgãos públicos federais com a verba de R$ 920 mil. Não faltará dinheiro para a campanha oficial.

Anormal e imoral

Cristovam Buarque
DEU EM O GLOBO


No Brasil, é normal seus dirigentes serem vistos e sentirem-se como casta, com privilégios muito além dos direitos aos quais o povo tem acesso. Os serviços de saúde e educação à disposição das famílias dos eleitos são completamente diferentes daqueles dos seus eleitores.

Ninguém se espanta com o fato de o teto do salário no setor público ser 25 vezes maior que o piso salarial do professor — cujo valor, apesar de tão pequeno, até hoje, um ano depois de sancionado, ainda é contestado na Justiça, como inconstitucional.

É visto como natural que a parcela rica do Brasil tenha o maior índice de cirurgias plásticas de rejuvenescimento em todo o mundo e a parcela pobre não tenha acesso nem mesmo às mais fundamentais operações; que os 10% mais ricos tenham esperança de vida de 72 anos e os 10% mais pobres de apenas 45 anos. Todos aceitam que milhares peçam esmolas para comprar comida e remédios que enchem as prateleiras de farmácias e supermercados.

Considera-se normal que o 1% mais rico da população receba 20,5% da renda nacional e os 50% mais pobres recebam apenas 13,2%; que 19% das casas não tenham água encanada e 51% não tenham saneamento ou esgoto.

Aceitamos que 50 milhões dependam de ajuda no valor de R$ 182 por mês para a sobrevivência de toda a família, R$ 6 por dia, sem chance de trabalho com salário digno.

É natural que crianças vivam nas ruas, sejam mendigos, pivetes, prostitutas, trabalhadores, e não estudantes; que 11% delas cheguem aos 10 anos sem saber ler; e 60 abandonem a escola a cada minuto do ano letivo, antes da conclusão do ensino médio; e que, entre as que permanecem, muitas vejam a escola como um restaurantemirim que fornece merenda.

É aceito que os professores tenham a menor remuneração entre os profissionais com formação equivalente; que deem aulas em escolas sem água nem luz, raras com computadores e sistemas de vídeo. Ficou normal que as escolas tenham se transformado em campos de batalha, os professores sejam agredidos, as aulas viraram balbúrdia.

Mesmo sem guerra, nos acostumamos com 125 mil pessoas mortas por ano em consequência da violência. Aceita-se que o país com um dos cinco maiores territórios do mundo — além de litoral e espaço aéreo — não apoie suficientemente suas Forças Armadas para defenderem esse patrimônio.

Não discutimos sequer o fato de conviverem 4,5 milhões de universitários ao lado de 14 milhões de analfabetos adultos e 40 milhões de analfabetos funcionais; de que, 121 anos depois da abolição da escravatura, a cor da elite seja tão predominantemente branca quanto era durante a escravidão; é aceito como normal que as universidades sejam ocupadas, na imensa maioria, por jovens brancos e as prisões, por jovens negros; que em 120 anos da República, o Brasil tenha uma escola diferente para os ricos, na qualidade, da escola para os pobres; e que, depois de 20 anos de democracia, a corrupção seja vista como uma prática comum em todos os níveis da sociedade, especialmente entre os políticos.

É normal que nossas reservas florestais sejam devastadas sistematicamente; e que, apesar de todas as evidências da catástrofe do aquecimento global, abramos mão de bilhões de reais em impostos para viabilizar o aumento na venda de automóveis privados, sem buscar uma reorientação dessa indústria, como forma de manter o emprego do trabalhador, o bem-estar do consumidor e o equilíbrio ecológico, a serviço das próximas gerações.

É normal prender quem rouba comida ou remédio para os filhos e deixar solto quem rouba bilhões mas pode pagar bons advogados.

E é normal, nos dias de hoje, que os partidos que lutavam contra as injustiças tenham optado pelo abandono dos sonhos, entregando-se às mesmas práticas do passado e esquecendose de suas promessas. Na República, que comemora 120 anos, é normal que a justiça, a escola, a saúde, o transporte, a moradia, a cultura sejam tão diferenciados, conforme a classe social, que as pessoas não pareçam compatriotas.

No Brasil, o anormal é normal; por isso, o normal é anormal. E imoral.

Cristovam Buarque é senador (PDT-DF).

Sarney se diz injustiçado e culpa a imprensa

Gerson Camarotti
DEU EM O GLOBO

O CONGRESSO MOSTRA SUAS ENTRANHAS: Senador evita responder a apartes dos colegas e pede que respeitem seu silêncio

BRASÍLIA. O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), aproveitou o último dia antes do recesso parlamentar para, em discurso diante de um plenário vazio, com apenas cinco senadores, reafirmar que ficará no cargo para enfrentar a crise. Evitando usar as palavras renúncia e afastamento, Sarney disse que é a terceira vez que assume o comando do Senado e que sempre o encontrou em meio a crises. O senador acusou a imprensa de fazer uma campanha pessoal contra ele.

- Os desafios, a carga de trabalho, os insultos, as ameaças não me amedrontaram e não me amedrontam.

Para os poucos senadores presentes, ele leu o discurso "Uma prestação de contas" da cadeira de presidente, sem esconder o abatimento. Concluiu citando Sêneca, filósofo e escritor do Império Romano: "As grandes injustiças só podem ser combatidas com o silêncio, a paciência e o tempo".

Agradeceu aos partidos que sustentam sua gestão, inclusive o PT. E lamentou ter perdido o apoio do DEM. Disse que só disputou a eleição porque foi convocado pelo seu partido e admitiu, pela primeira, vez que avaliou mal os desafios da missão:

- Esqueceram o Senado para invadir minha vida privada e a de minha família.

Sarney tentou demonstrar que as turbulências não paralisaram a Casa, e enumerou 40 medidas tomadas por ele neste primeiro semestre para corrigir irregularidades e distorções administrativas. Ao ser questionado por jornalistas, ao deixar o plenário, Sarney pediu para que respeitassem o seu silêncio.

Ao discursar, enfrentou constrangimentos, em apartes de Cristovam Buarque (PDT-DF) e Álvaro Dias (PSDB-PR). O pedetista pediu que Sarney entregasse ao presidente Lula o balanço das atividades do Senado para que ele entenda que "não pode humilhar" a Casa, chamando senadores de pizzaiolos.

Evitando polemizar, Sarney respondeu que mandaria cópia do relatório a Lula e que transmitiria as observações do pedetista. Já Álvaro Dias demonstrou incômodo com as declarações do presidente do Conselho de Ética, Paulo Duque (PMDB-RJ), que disse não se preocupar com a opinião pública.

- Atue junto ao Conselho de Ética para que ele possa julgá-lo de forma transparente, imparcial e responsável que exige a sociedade brasileira, especialmente junto ao presidente do Conselho de Ética - pediu.

Sarney evitou responder. Mas lembrou de um episódio entre os dois, quando Dias o procurou no Maranhão, para convidá-lo a ingressar num partido que iria fundar. Diante desse relato, o presidente do Senado acrescentou que, se tivesse que procurar alguém para testemunhar sobre sua vida pública, escolheria o colega do Paraná.

Discurso de fiiliação do ex-Presidente Itamar Franco ao PPS

“Que importa saber qual o caminho que cada indivíduo segue para encontrar a verdade remota. Não há apenas uma estrada que conduza à sua solução.”
Quintus Aurelius, prefeito de Roma

Sinto-me feliz pelos inúmeros convites que recebi de várias agremiações, todas do mais alto valor cívico. Resolvi pelo PPS, presidido pelo meu líder na Câmara dos Deputados, Roberto Freire, quando exerci a Presidência da República.

Não há como desconhecer o passado de lutas do partido e do líder, sem nenhuma motivação que não fosse a ideologia, sem nenhum interesse contestável, fiéis à missão política maior que é a de defender os princípios democráticos.

Tocqueville disse que como o passado deixa de lançar luz sobre o futuro, o espírito do homem vagueia na obscuridade.

É oportuno analisar este pensamento, quando se COMEMORAM os 15 anos do plano real.

E, neste momento, informo que Três desafios eram prioritários, quando assumimos o governo federal, em dezembro de 1992:

-manter o Estado de Direito;

-recuperar a auto-estima do povo brasileiro;

-controlar a inflação e estabelecer o valor da moeda.

O Plano Real, em seu conjunto, não era estático. Ele preconizava a necessidade da reforma tributária e fiscal, visando liberar nosso parque produtivo de obstáculos burocráticos e também criava condições para um novo pacto federativo, nova maneira de dividir encargos e responsabilidades entre os Municípios, Estados e União.

A ausência dessas providências complementares, se reflete hoje no chamado “custo Brasil”, deixando os Estados e Municípios em situação constrangedora, em áreas como a educação, saúde e segurança.

Eis alguns fatos:

- Em fevereiro de 1994 é assinada a Medida Provisória da URV;

-abril de 1994 os juros alcançaram 60 % e a inflação mensal 50%;

-ainda em abril Era fechado o acordo com os credores externos;

- em Junho de 1994 é sancionada a Lei Anti-Truste;

-Finalmente, Em 1° de Julho de 1994, entra em vigor o Plano Real.

Não se pode modificar a história ou intimidar os historiadores, falseando versões sob argumentos personalistas.

A moderna sociedade industrial arrisca perder o indivíduo no meio da massa, favorecendo a sua alienação. o enfraquecimento dos partidos aumenta o isolamento do homem.

O amor a crítica e ao debate, o apego às prerrogativas da cidadania, o dever político no seu mais nobre e dignificante sentido, a irresistível vocação para a vida pública, não são privilégios dos mineiros.

Mas devemos orgulhar-nos, por todas as razões, do fato de ser a comunidade mineira, por influência dos fatores de ordem histórica e social, aquela onde o sentimento dos interesses coletivos, a compreensão do múnus cívico, e essa indomável e altiva tendência política nunca perderam sua forma e constância: Em Minas habituamos a ver o Brasil acima das conveniências.

Rosseau, em “os Devaneios do Caminhante Solitário”, já alertava para a destruição dos recursos naturais do Planeta. Mas também Dizia que a verdade geral e abstrata é o mais precioso de todos os bens. Sem ela o homem é cego; ela é a luz da razão.

Por outro lado, Hoje fala-se muito em meio-ambiente, ao se mencionar a sustentabilidade. aliás, Em nosso governo foi criado o Ministério do Meio Ambiente e da Amazônia Legal.

Mas, não se pode esquecer que o termo sustentabilidade abrange outras áreas do universo político, como o campo ético, o da educação e a retomada da consciência de um patrimônio moral e espiritual, tudo isso muito longe de uma desmedida ação compressora da publicidade governamental, rolo implacável, azeitado por recursos orçamentários em nível antes nunca vistos, levando à indiferença das elites e ao anestesiamento das massas.

Corremos perigo quando o Governo se expande em demasia e foge de suas responsabilidades, transformando-se em único defensor de interesses.

O Ministro de Negócios Estrangeiros da Alemanha, Joschka Fischer, o mais popular político do país durante o governo Schroder, revelando toda sua perplexidade com os rumos do continente, ao final dos anos 40, parafraseou a angústia de São Pedro e iniciou seu célebre e controverso discurso na Universidade Humbold de Berlim com o famoso “Quo Vadis”, no caso inquirindo a Europa.

Acredito ser o momento de fazer o mesmo, pois o Brasil vive hoje uma das mais importantes etapas de sua história, exigindo de nós um esforço conjunto do que verdadeiramente se caracteriza como sustentabilidade, pois vivemos hoje um autêntico jejum da atividade política autêntica – o exercício da cidadania.

Corre também perigo a democracia, quando o Governo age para assegurar a um partido político a manutenção do poder a qualquer custo, transformando-a numa espécie de sátrapa, onde impera um servilismo contumaz.

Está chegando a hora da regeneração política do País, aviltado por um populismo inconseqüente, o que não se casa, Por exemplo, com o abandono dos aposentados, que foram os que fizeram ontem o que hoje desfrutamos.

Está entre os mais respeitáveis valores republicamos o que diz que não pode haver aliança entre a política maior e àquela menor, que atende inconfessáveis interesses privados.

As reiteradas ações do governo, destinadas a favorecer o culto da personalidade, pode levar-nos a uma espécie de cesarismo caboclo, altamente comprometedor da saúde republicana.

O exercício do poder impõe a seu titular austeridade e gravidade, muito longe de uma certeza messiânica, de incontinências verbais, de esforços destinados a negar o passado e a contribuição de antecessores.

A República não aceita a existência de atos administrativos secretos, inconcebíveis pela violência contra a Constituição, onde princípio basilar exige a publicidade de todos os atos. nem estudos que afetam sobremaneira os estados.

Senhor governador, tenho certeza que vossa excelência está atento à questão da renovação das concessões de geração, transmissão e distribuição das empresas do setor elétrico, que afeta a cemig, três marias em particular e muito aos consumidores mineiros. parece que o governo federal, segundo se noticia, está dividido.

O PPS, líder Roberto, deve acompanhar de perto o desenvolvimento desse assunto.

Governador Aécio Neves:

“Seja um libertador de idéias reprimidas”.

Olhos na Estrela Polar acima do horizonte ou no sol do meio dia, pois, às vezes, a latitude política pode não ser confiável.

Obrigado amigos do PPS!

Obrigado aos que aqui vieram!

Como dizia o poeta e cancioneiro juizforano, Roberto Medeiros, pé no chão e olhos nas estrelas.
Lembremo-nos, Senhor Governador, dos versos de Geraldo Vandré:

“Quem sabe faz a hora não espera acontecer”.

Muito Obrigado!

Itamar Franco

Belo horizonte, 06 de julho de 2009.

Uma cilada

Paulo Pinheiro, vereador (PPS) no Rio.
DEU EM O GLOBO

Está no "Aurélio": cultura e o conjunto de características humanas que se criam e se preservam através da comunicação e cooperação entre indivíduos em sociedade. Portanto, privatizar a cultura vai contra a natureza do próprio termo usado pa­ra designá-la. Respiro aliviado por saber que 0 Teatro Municipal do Rio conseguiu escapar da cilada contida no argumento de que a transferência de gestão para a iniciativa privada daria mais transparência à sua administração.

É lamentável o fato de os governos preferirem entregar a terceiros as atribuições que, costitucionalmente, sempre foram suas. Em médio prazo, tal atitude só pode gerar a desqualificação das instituições publicas.

O primeiro semestre de 2009 foi marcado por discussões nas casas legislativas do Rio sobre os projetos que criam as Organizações Sociais - autorização concedida pelo poder publico.a entidades de direi­to privado sem fins lucrativos para executar atividades em diversas áreas. Na mesma época, a prefeitura optou por enviar à Câmara um projeto mais amplo, contemplando também a educação, a saúde,o meio ambiente e o esporte.

O objetivo de ambos os projetos está ligado ao interesse dos gestores públicos de fugir das amarras da Lei das Licitações, do rigor do regime jurídico único (estabilidade do funcionalismo publico) e das obrigações com os tribunais de contas.

É possível detectar incoerências entre os autores das duas propostas: enquanto o Estado pede autorização para habilitar pessoas jurídicas em OSs sem necessidade de experiência anterior, a prefeitura diz que só habilitara PJs com pelo menos dois anos de experiência.

A falta de coerência também esta presente em outro fato: na Alerj, pa­ra conseguir a maioria dos votos favoráveis, 0 governo aceitou retirar do projeto um dos seus principais equipamentos, 0 Teatro Municipal. Já na área municipal, foram retira­dos os mais importantes equipa­mentos das áreas de educação e saúde. Apesar de serem flagrantes incoerências, a retirada do Municipal, das escolas e dos hospitais desse imbróglio nos deixa um pouco menos preocupados.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil

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Os rios voam

Míriam Leitão
DEU EM O GLOBO


Seis da manhã no resto do país, lá ainda eram cinco, quando o carro entrou no campus da centenária Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

O motorista reduziu a velocidade: “Aqui a gente tem que ir bem devagar para não atropelar os bichos.

Preguiça ainda dá tempo de ver, mas cotia aparece do nada.” Assim deve se chegar à Amazônia: com respeito, devagar. A informação surge do nada.

Nossa maior floresta é a maior floresta do mundo. A gente só acha que aquele mundo é simples quando está longe; mais perto, mais difícil de entender ele é. Tenho ido lá para ver um pedacinho por vez. Desta vez, fui à reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Manaus.

No pouco que vi, aprendi muito. Fui, convocada pelo Globo Amazônia, um projeto que tem levado os repórteres da Rede para reportagens, reuniões, entrevistas, no local do nosso maior desafio. Madruguei para entrar ao vivo no Bom Dia Brasil.

A SBPC foi, quando o Brasil precisou, centro de resistência política. Hoje, porque disso o Brasil precisa, escolheu o tema: “Amazônia, Ciência e Cultura”. Numa reunião dessas, só se consegue ver uma parte daquele mundo de aulas, palestras, mesas-redondas e cursos. Os eventos ocorrem simultaneamente, o Campus é enorme.

Só a área verde é equivalente a 700 mil campos de futebol. As construções são em pontos diferentes e distantes, a logística da cobertura tem que ser estudada com cuidado.

Nas salas de aula, as explicações técnicas são dominantes, mas há a hora de ver o panorama. Foi assim que o professor Ângelo da Cunha Pinto, da UFRJ, numa aula sobre química das plantas, saiu dos taxóis e alcalóides à convocação de pesquisa em massa na Amazônia.

Os recursos de pesquisas fizeram como os portugueses, se concentraram no litoral.

Não que devam agora ser reduzidos os investimentos em centros de outras regiões, mas é preciso aumentar o que vai para a Amazônia.

Só 4,5% dos mestres e doutores do Brasil estão lá.

— Como Getúlio um dia pensou em ocupar a região com soldados da borracha, temos agora que convocar os mestres e doutores da Amazônia — disse.

A Academia Brasileira de Ciências tem feito a mesma convocação, a pioneira Bertha Becker tem apontado nessa direção há anos. Eles têm razão: não se protege o que não se conhece; não se transforma em valor econômico o que não foi entendido.

Entender é exercício caprichoso, que exige tempo. O erro do professor de Harvard Mangabeira Unger foi achar que sabia tudo, antes de ver de perto e com calma o que nos tem assombrado há séculos.

Ele tinha soluções prontas e frases feitas. Errou no diagnóstico e, pior, deixou remédios aviados que terão efeitos colaterais.

Mandar os cérebros na frente, explorar com a razão, ocupar com o entendimento.

Essa é a única coisa sensata a fazer diante de uma encruzilhada na qual estão os destinos do Brasil e do mundo.

Com o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), numa viagem anterior, aprendi o que é o BoomColapso. A tese, recentemente publicada na “Science”, mostra com estatísticas irrecorríveis que a ocupação desordenada, feita por motosserras, correntões e fogo, produz surtos de crescimento seguidos de colapsos. As áreas atacadas dessa forma medieval até crescem, por pouco tempo; até produzem riqueza, apropriada por poucos; mas depois retornam a quadros agravados de pobreza e violência. O progresso é breve; a destruição e miséria, permanentes.

O Brasil é dividido em regiões e estados para organizar a geografia e a política, mas, na vida real, o Brasil é uma continuidade por terra, mar e ar. Blocos de umidade se formam sobre a Amazônia, correntes de ar levam a umidade para o resto do país nos “rios voadores”. Nem todo vapor de água será chuva, por isso os cientistas falam em umidade precipitável.

Diante de um mapa mundi , o professor Pedro Leite da Silva Dias explicou que sobre três regiões do mundo se formam imensas massas de umidade: Amazônia, África e Indonésia. Essa água em forma gasosa é transportada para outras regiões do globo terrestre. São responsáveis em grande parte pelas chuvas do mundo. Como se dá essa formação de massas úmidas? Como elas são transportadas? De onde exatamente vêm? Os cientistas estão estudando isso há anos. Já no fim dos anos 70, o professor Eneas Salati fez modelos. Em 1985, uma parceria entre a NASA e o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), aprofundou os estudos dos JBNs, Jatos de Baixo Nível.

O professor José Marengo batizou os JBNs com o feliz nome de “rios voadores”. A nova e complexa metodologia de pesquisa foi explicada pelo professor Marcelo Moreira numa aula tão técnica que tive saudades da “banda diagonal endógena”. Achei que os economistas são simples, e o economês, língua corrente. O desafio da pesquisa é captar no ar o vapor de água, condensá-lo, para estudar fisicamente as gotas.

— Precisamos conversar com as moléculas, perguntar de onde elas vêm. Elas têm características diferentes dependendo da origem — explicou, claro como água limpa, Pedro Leite Dias.

Mas quem vai pegar gotas no ar? Quem é o louco? Gerard Moss entra em cena.

Suíço, no Brasil há duas décadas, apaixonado por rios e florestas, Moss foi empresário, hoje voa pela ciência.

Meu espaço acabou.

Amanhã eu conto o resto.

Com Alvaro Gribel

Tensão se amplia em Honduras com anúncio da volta iminente de Zelaya

EFE E AFP
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Segundo Chávez, líder deposto retornaria ao país ?nas próximas horas?, complicando ainda mais possível acordo

A expectativa da volta do presidente deposto Manuel Zelaya causou ontem uma nova escalada de tensões em Honduras. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, afirmou, em visita à Bolívia, que o retorno de Zelaya era iminente e disse que o líder deposto estaria disposto "a arriscar a vida" para isso. "Zelaya disse que nas próximas horas entrará em Honduras e estamos com ele. É preciso apoiá-lo", disse Chávez.

Em resposta, o presidente de facto de Honduras, Roberto Micheletti, acusou países da região de "infiltrar uma grande quantidade de gente" em seu país para cometer "atos guerrilheiros". Ele disse que 56 nicaraguenses teriam sido presos em protestos contra seu governo em Tegucigalpa e advertiu que o Exército e a polícia hondurenhos estariam preparados "para repelir tentativas de intervenção estrangeira" no país.

"Temos certeza de que o apoio estrangeiro (a Zelaya) já está dentro de Honduras", afirmou Micheletti à rede de rádio e TV colombiana RCN. "As manifestações aqui nunca haviam sido tão violentas e além disso foram usados lemas de países da América do Sul."

Chanceler do governo destituído, Patrícia Rodas tinha dito na quinta-feira que Zelaya poderia até já estar em Honduras e seu objetivo era estabelecer uma nova sede para sua administração, de onde ele lideraria a "batalha final contra os golpistas". Horas mais tarde, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, acusou o Exército hondurenho de ter realizado um movimento militar "impressionante" na fronteira.

O porta-voz das Forças Armadas de Honduras, Ramiro Archaga, negou a informação. E a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, pediu que outros países não interfiram em Honduras e advertiu contra "ações que poderiam levar à violência".

Ontem pela manhã, 500 simpatizantes de Zelaya bloquearam as principais estradas de acesso a Tegucigalpa pelo segundo dia consecutivo. O governo de facto adiantou o salário dos professores numa tentativa de evitar que eles se juntassem aos manifestantes.

ENCONTROA escalada da tensão aumenta a pressão sobre o encontro, previsto para hoje, na Costa Rica, entre representantes dos governos de Zelaya e de Micheletti. Mediador das negociações, o presidente costa-riquenho, Oscar Arias, propõe a formação de um governo de reconciliação em Honduras e diz que a normalização da situação deve passar pela volta de Zelaya ao poder.

Sindicatos hondurenhos ameaçam iniciar uma greve geral se não houver acordo até amanhã. Mas as posições dos dois lados parecem irreconciliáveis. Zelaya quer voltar ao poder de forma incondicional, embora tenha dito na ONU que não pretende se eleger novamente. Micheletti - que é apoiado pelas Forças Armadas, a Suprema Corte e o Congresso - diz que pode deixar o cargo, que assumiu após o golpe, desde que Zelaya não volte.

"Se Zelaya desistir de incitar um movimento revolucionário no país e de voltar (ao poder) eu cedo meu cargo", afirmou Micheletti à RCN. "Não queremos ficar como os venezuelanos, os equatorianos e os bolivianos. Queremos um país livre e democrático."

Zelaya foi expulso de Honduras no dia 28 por militares que o enviaram de pijama para a Costa Rica. Segundo os golpistas a ação foi necessária porque o presidente queria violar a Constituição hondurenha, organizando uma consulta popular sobre uma emenda que lhe permitiria se eleger novamente. Para os golpistas, a iniciativa seria uma indicação de que Zelaya pretendia seguir o caminho de Chávez, seu aliado nos últimos anos.

Agora, a oposição hondurenha acusa o venezuelano de estar por trás dos planos do presidente deposto para voltar ao país secretamente. Os EUA também condenaram o golpe, mas têm aconselhado Zelaya a só retornar a depois de um acordo.

No dia 5, Zelaya tentou entrar em Honduras, mas seu avião foi impedido de aterrissar em Tegucigalpa e ele foi obrigado a ir para El Salvador.

Os EUA vão para o spa

Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - Na conversa que teve com seu colega Luiz Inácio Lula da Silva, em Áquila, durante as multicúpulas do G8 e cia., o presidente Barack Obama transmitiu um recado claro: que o mundo não conte mais com o consumo norte-americano para tocar a vida. Lula deve ter ficado impressionado, a julgar pelos comentários que fez no dia seguinte, durante sua entrevista coletiva.

Ontem, Lawrence Summers, um dos principais nomes da assessoria presidencial, avançou alguns detalhes sobre o que será a economia do G1, que continuam sendo os Estados Unidos, se os planos de Obama forem de fato adiante.

"A economia americana reconstruída tem que ser mais orientada para a exportação e menos para o consumo; mais orientada para o meio ambiente e menos para a energia fóssil (menos petróleo); mais orientada para a biotecnologia e para o software e menos para a engenharia financeira; mais orientada para a classe média e menos para o crescimento da renda que favorece desproporcionalmente uma fatia muito pequena da população", afirmou Summers.

Fácil e bonito de falar, difícil de fazer. Mesmo assim, eu votaria, em 2010, em quem defendesse esse tipo de conceitos, desde que tivesse credibilidade para fazê-lo. Pena que credibilidade e política, no Brasil, raramente se encontram.

A construção dessa nova economia não é um problema apenas dos Estados Unidos. A crise demonstrou a plena vigência de um ditado que alguns afoitos davam por ultrapassado, o que diz que, quando os Estados Unidos espirram, o mundo pega pneumonia.

Pegou. Agora que os Estados Unidos se encaminham para um tremendo spa/academia, o mundo será de novo afetado, para o bem e para o mal. O diabo é que ninguém, no Brasil, está pensando em como adaptar-se a um país de apetite menos pantagruélico.

Argentina x Brasil?

Cesar Maia
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


OS JORNAIS argentinos -"Clarín" e "La Nación"- publicaram, em dois dias, artigos questionando as relações entre os EUA e a América do Sul, pró-Brasil, e contra a Argentina.

Dia 8 de julho, no "Clarín", ("Brasil, um aliado sui generis"), o professor Fabian Calle diz que a política externa interamericana EUA/ Brasil é apenas o desdobramento da estratégia do general Golbery do Couto e Silva durante o regime militar. Cita o recente informe "A Second Chance. US policy in the Americas" e afirma que os EUA, como potência mundial, têm o Brasil como "primus interpares" sulamericano. Lembra a reunião Obama-Lula em que ficou clara a imagem transmitida de Brasília como um poder brando.

"A visão de Golbery era o destino do Brasil como uma potência ocidental com estreitas ligações com Washington e com graus de manobra para consolidar sua hegemonia sulamericana e garantir aos EUA um status não desestabilizador." "O ponto era reforçar a hegemonia regional do Brasil sobre a Argentina", e conclui afirmando que, "em pleno século 21, a história das grandes potências não parece convalidar visões lineares de delegação".

Dois dias depois, no "La Nación", o professor Carlos Escudé vai mais longe. Diz que o Brasil nasceu com vantagem ao ficar independente sem crise. Mas que nos anos 1890 a Argentina o superou. Um trabalhador argentino trabalhava a metade de um belga ou alemão e um terço do italiano para comprar o mesmo.

Em 1937 o PIB per capita argentino era superior aos de Áustria e Finlândia, o dobro do italiano e o triplo do japonês. Nos dois casos, o Brasil não era sequer listado. No plano militar, em 1920, a Argentina mobilizaria imediatamente 379 mil homens e o Brasil, 136 mil. Isso valeria para toda a década de 30.

Escudé afirma que o ponto de inflexão foi a Segunda Guerra. Os EUA privilegiaram o Brasil. A neutralidade Argentina teria aberto uma política de sanções dos EUA. A Argentina teria sido privada dos insumos necessários a seu desenvolvimento industrial (departamento de Estado 1945: "essencial não permitir a expansão da indústria pesada na Argentina").

Cita Roosevelt em 1944: "Estou totalmente de acordo que deveríamos proceder duramente com a Argentina. Ao mesmo tempo, é essencial fortalecer o Brasil. Isso deve incluir armas e munições. "Por isso o Brasil emergiu como potencia regional." No final do artigo, Escudé alivia e diz que hoje as relações com o Brasil são de cooperação comercial, e não geopolíticas.

Artigos como esses, em meio à crise política argentina, devem prevenir os canais político-diplomáticos de forma a que nossa imprevisível América Latina não acorde surpreendida, mais uma vez.

Cesar Maia escreve aos sábados nesta coluna.

João Nogueira – Espelho

Vale a pena ver

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http://www.youtube.com/watch?v=17qD-DULlTU

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Estadista pelo avesso

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Reza a boa norma da política que o estadista até leva desaforo, mas não carrega mágoas para casa. Sobrepõe as questões de Estado a ofensas pessoais. Sacrifica o individual em nome do coletivo.

É sábio para distinguir situações e, mediante o cotejo de perdas e ganhos, calibra suas atitudes de modo a equilibrar responsabilidades e necessidades.

O presidente Luiz Inácio da Silva, a despeito da celebração de suas habilidades no ramo, não possui esses atributos.

Antes, exibe características opostas e age exatamente no sentido contrário ao do governante cujo objetivo primeiro é o zelo pelo bem-estar físico, espiritual, cultural e moral dos governados.

O presidente é hábil no terreno da autoajuda de efeito imediato, comanda como ninguém o espetáculo do crescimento da própria popularidade, mas mostra-se desprovido da noção do que seja a construção de um legado de avanços de longo prazo em benefício de toda a sociedade.

Há exemplos anteriores às mais recentes exorbitâncias que agora, tardiamente, depois de um longo período de celebração de tais atos como manifestação de genial pragmatismo político, provocam reações gerais de desagrado.

Quando se sentiu pessoalmente atingido por uma reportagem do correspondente do New York Times, Lula não hesitou em confundir-se com o Estado e expor o País ao ridículo ordenando a cassação do direito do jornalista ao visto de permanência no Brasil.

Sofreu pesadas críticas e pôs o pé no freio do autoritarismo que se delineava no início do primeiro mandato. Os mesmos reparos, no entanto, não sofreu nas inúmeras vezes em que confundiu a necessidade altiva de passar por cima de idiossincrasias ideológicas com a pequenez da irresponsabilidade de passar a mão na cabeça de infratores.

Distribuiu "cheque em branco", avalizou práticas criminosas, deu abrigo a gente expulsa do poder público por desrespeito ao bem público, afrontou o Judiciário, chamou de hipócritas as restrições ao uso eleitoral da máquina administrativa, reclamou que o excesso de fiscalização faz mal ao Brasil, ignorando o mal que a impunidade secular faz ao País.

Com isso, esvaziou o valor dos princípios, aos quais costuma tratar com zombaria chamando de "principismo" e, assim, tudo se tornou permitido e as críticas ao esfacelamento ético perderam o sentido. Ou pior, adquiriram um caráter de puro farisaísmo.

Lula não fez isso sozinho. Contou com a colaboração de um razoável consenso segundo o qual os vencedores, principalmente se populares, são inimputáveis.

O presidente se sentiu à vontade e, portanto não há razão para surpresa quando Lula acelera na defesa de tudo e todos cuja representação é a desonra, imaginando que isso lhe garantirá ganhos eleitorais e um lugar privilegiado na História.

O que surpreende é que não consiga enxergar o perigo do exagero. Cumprir um dever de solidariedade a um aliado como o senador José Sarney é uma coisa. Poderia fazê-lo dentro do limite da sóbria moderação de Estado.

Mas, não, optou por jogar-se nos braços da impostura ao ponto de produzir aquela frase sobre Sarney não ser uma pessoa comum, que não lhe rende nada além de perdas.

Sarney, nesta altura com muito pouco ou quase nada a perder, fica bem. Ele, Lula, dono de um enorme capital, desperdiça patrimônio à toa.

Da mesma forma, é perdulário na derrama de elogios e afetos para Fernando Collor.

Para quê? O estadista que engole desaforos em nome de um projeto compartilha palanque em Alagoas, não hostiliza o antigo adversário e dá por cumprido o ofício da boa convivência e do respeito ao voto do eleitorado local.

O governante que exacerba e perde a medida é o mesmo que confessa a "mágoa" com o Senado pela derrubada da CPMF, porque, por falta do dinheiro do imposto do cheque, não pôde "melhorar a saúde".

Na realidade, Lula não se conforma é com a derrota política. A ajuda à saúde pública poderia ter dado apoiando o projeto do ministro José Gomes Temporão, de modernização da gestão do setor, largado no Congresso à posição contrária dos corporativistas de plantão, petistas à frente.

As pessoas percebem essas coisas. Pois é como diz o outro: não se engana todo mundo o tempo todo.

Em vão

Um dos principais, senão o principal motivo pelo qual o senador José Sarney resolveu ser presidente do Senado pela terceira vez, foi o de acreditar que no cargo teria influência sobre a Polícia Federal, na investigação envolvendo um de seus filhos.

Pois Fernando Sarney foi indiciado pela PF sob acusação de organizar quadrilha para atuar dentro do aparelho de Estado em prol de empresas privadas interessadas em ter acesso privilegiado a contratos com estatais.

Sarney achou que ao presidente do Senado ainda seriam devidas velhas reverências. Mais um de uma série de equívocos cometidos a partir da ultrapassada premissa de que o poderoso tudo pode. Foi-se o tempo.

Ataque a senadores desagradou ao Planalto

Maria Lima, Adriana Vasconcelos e Gerson Camarotti
DEU EM O GLOBO

O CONGRESSO MOSTRA SUAS ENTRANHAS: Oposição se refere a Lula com adjetivos mais pejorativos, diz Almeida Lima

BRASÍLIA. O plenário do Senado foi palco de reação irada contra as declarações do presidente Lula, que, na véspera, chamara alguns senadores de "bons pizzaiolos". Onze senadores de vários partidos, inclusive da base, subscreveram requerimento de Cristovam Buarque (PDT-DF) pedindo um voto de censura.

No governo, a avaliação feita é que o presidente cometeu um erro político com seu "deslize verbal", no dizer de um ministro. As declarações, feitas ao comentar a CPI da Petrobras, reacenderam a crise no Senado, e isso é tudo o que o governo quer evitar agora. O próprio presidente Lula teria mostrado arrependimento, por não ter avaliado a repercussão da frase.

Já o presidente José Sarney (PMDB-AP) manteve-se indiferente ao debate em plenário e às novas denúncias conta ele. Passou o dia trancado em seu gabinete se preparando para o recesso que começa hoje.

O líder do PSDB, Arthur Virgilio (AM), protocolou nova denúncia contra Sarney no Conselho de Ética, para investigar informação de que gravação da Polícia Federal mostra o envolvimento de Sarney na nomeação do namorado de sua neta Maria Beatriz em cargo do Senado,por meio de ato secreto. Sarney não comentou essa nova denúncia.

Tucano teme ação de Paulo Duque durante o recesso

Para Virgilio, essa era a prova que faltava para ligar Sarney aos atos secretos nomeando parentes. Ele teme que o presidente do Conselho, Paulo Duque (PMDB-RJ), engavete as denúncias contra Sarney no recesso:

- Deixamos cinco requerimentos para levar qualquer decisão do senador Paulo Duque ao plenário do Conselho, apesar de ele ter dito que só tratará do assunto em agosto. No plenário do Conselho o voto é aberto.

O voto de censura, previsto no regimento da Casa, tem que passar pela Comissão de Constituição e Justiça e pelo plenário para ser aprovado, antes de ser endereçado ao presidente.

Demóstenes Torres (DEM-GO) apresentou voto idêntico. Tramitam na Casa outros quatro pedidos de votos de censura: um contra o "top top" do assessor Especial da Presidência Marco Aurélio Garcia e outros três contra discursos de Lula - Ninguém está aqui querendo dar um golpe. Mas se Lula fosse primeiro-ministro, cairia. O que vai acontecer é uma consequência histórica e moral. Vai ficar registrado para a História. Daqui a 100 anos vão saber que protestamos contra um gesto de desprezo do presidente pelo Senado - disse Cristovam.

- Se Lula tivesse dito que existem alguns pizzaiolos eu avalizaria, porque são os impostos pelo governo nas CPIs que enterram as investigações. São os pizzaiolos governistas, os fieis escudeiros que se comportam como cães de guarda - apoiou Álvaro Dias (PSDB-PR).

Da tropa de choque do PMDB, Almeida Lima (SE) atacou:

- E eu achei até pouco, porque os senadores da oposição se referem a Lula com adjetivos muito mais pejorativos.

É puro deboche

Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


SÃO PAULO - Uma vez, quando se discutia se o mandato do então presidente José Sarney deveria ser de quatro ou cinco anos, escrevi que o Brasil havia se transformado em uma república bananeira, vistas as manobras sórdidas em favor do mandato mais longo.

Hoje, sou obrigado a pedir desculpas às repúblicas bananeiras. O Brasil é pior. Ou pelo menos sua política é pior. Virou deboche. Só pode ser deboche a eleição de Paulo Duque para presidir o Conselho de Ética do Senado, a julgar pela entrevista que deu à Folha. Espremendo bem as declarações, seu conceito de ética é mais ou menos assim: roubar pouco é ético.

Só se roubar muito pode, assim mesmo eventualmente, ser investigado pelo Conselho de Duque. Aliás, o conceito de muito ou pouco também é relativo, já que o ínclito senador orgulha-se de ter nomeado 5.000 pessoas para cargos públicos e ainda acrescenta que todas estão felizes. Pudera.

Trata-se, claramente, de um caso único no mundo de caçador de talentos republicanos, um disseminador de felicidade às custas do seu, do meu, do nosso dinheirinho.

Na véspera, aquela foto do abraço Lula/Collor já era um deboche. Deu nojo, mas nem escrevi a respeito primeiro porque nojo é mau conselheiro, segundo porque sabia que o leitor dispensaria intermediários para julgar a debochada cena. Estava certíssimo, como dá prova o "Painel do Leitor" de ontem, em que Silvério Oliveira diz tudo: "Eles se merecem".

Como se o deboche fosse pouco, ainda ficamos sabendo que o presidente não sabe o que diz. Não, não é alguma iniciativa golpista da oposição. Trata-se de avaliação de um dos sumo-sacerdotes do culto à personalidade de Lula, o senador Aloizio Mercadante, para quem o que o presidente disse (sobre os senadores) "não expressa o que ele efetivamente pensa". Ou seja, não sabe se expressar.

O primeiro a ligar o forno

Editorial
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Mesmo no clima geral de achincalhe da política e da atividade parlamentar, consequência inevitável da parceria entre o presidente Lula e o coronelato que controla o Senado da República, ele passou da conta ao dizer que "todos eles (os senadores da oposição) são bons pizzaiolos". Lula respondia à pergunta de um jornalista sobre a possibilidade de a CPI da Petrobrás - a seu ver, "uma irresponsabilidade" - acabar em pizza. A grosseria incomodou até os seus companheiros, como o líder petista Aloizio Mercadante, que se viu constrangido a soltar uma nota para criticar a "frase infeliz". Mas o que chama a atenção no episódio, além da absoluta naturalidade com que o presidente se permite ofender uma instituição legislativa, embora apequenada, é o fato de ser ele o primeiro a ligar o forno onde pretende ver incinerados os derradeiros vestígios de autonomia do Senado, no que possam contrariar os esquemas de poder do Planalto.

O comportamento rombudo da maioria governista na imposição dos nomes do presidente e do relator do inquérito parlamentar sobre a Petrobrás é um exemplo disso. Outro, na mesma linha, está na escolha do novo presidente do Conselho de Ética, no qual 10 dos 15 membros integram o bloco da situação. Comprovando que o governo está determinado a não deixar aberta nem uma fresta sequer para o exame, no colegiado, das denúncias contra o senador José Sarney - de quem Lula se tornou arrimo -, o líder do PMDB, Renan Calheiros, fez eleger um pau-mandado, o seu correligionário do Rio de Janeiro Paulo Duque. Ele chegou ao Senado como segundo suplente do atual governador Sérgio Cabral e não pretende se candidatar em 2010. Nas últimas semanas, ninguém o superou na defesa de Sarney, nem em ênfase nem em primarismo.

O maranhense, Duque chegou a dizer, "é diferente dos outros senadores" por ter criado a TV Senado, "que permite que eu me dirija a todo o povo brasileiro". E arrematou: "Isso não tem preço." Tudo se faz com a maior desfaçatez. Calheiros, obviamente de comum acordo com Lula, vetou o nome de Antonio Carlos Valadares, do PSB de Sergipe, indicado pela liderança petista, porque este, que deverá disputar a reeleição, poderia se mostrar menos propenso a bloquear um processo por quebra de decoro parlamentar contra Sarney. O presidente do Senado mentiu ao negar que tivesse responsabilidades administrativas na fundação que leva o seu nome e que desviou R$ 500 mil do patrocínio cultural de R$ 1,3 milhão recebido da Petrobrás. Sarney é também suspeito de envolvimento na edição dos famigerados atos secretos, nos 14 anos em que a diretoria-geral da Casa foi ocupada pelo seu apadrinhado Agaciel Maia.

Essas suspeitas se adensaram com a revelação, na edição de ontem deste jornal, de que gravações da Polícia Federal (PF) autorizadas pela Justiça captaram telefonemas do empresário Fernando Sarney, primogênito do senador, para Agaciel. As interceptações foram feitas no curso da Operação Boi Barrica, que levou a PF a indiciar o empresário, que cuida da rede de comunicação da família, por lavagem de dinheiro, tráfico de influência e formação de quadrilha. A operação foi desencadeada para apurar o uso de recursos ilícitos nas eleições de 2006, quando Roseana Sarney era candidata ao governo do Maranhão. Dois dias antes do segundo turno, Fernando teria sacado R$ 2 milhões em dinheiro vivo. Há outras acusações escabrosas.

Entre março e abril de 2008, a filha do empresário, Maria Beatriz, tratou com o pai e com o avô da nomeação do namorado Henrique Bernardes para o lugar do meio-irmão Bernardo que tinha se demitido. Sarney é instruído a encaminhar o currículo do namorado da neta a Agaciel. Pouco depois, ele foi nomeado por ato secreto. O detalhe que vale por um tratado sobre a mentalidade do clã, pela qual os seus membros têm uma espécie de direito natural sobre o patrimônio comum dos brasileiros, é o argumento usado por Maria Beatriz para justificar a nomeação de Bernardes: afinal, a vaga pertencia à família. É o caso de dizer que, se o filho de Sarney cometeu o crime de formação de quadrilha, o senador, a parentela e os agregados passaram anos formando família, compulsivamente, sob o teto do poder público. Pelo menos 10% dos 663 atos secretos no Senado favoreceram parentes e aliados políticos do seu tripresidente por quem Lula assará pizzas de todos os tamanhos e sabores.

Senado avalia voto de censura a Lula

Eugênia Lopes, Brasília
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Frase “bons pizzaiolos” usada pelo presidente resulta em requerimento

Um dia após derrotarem o governo na indicação de um diretor da Agência Nacional de Águas (ANA), os senadores voltaram a retaliar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que criticou a oposição pela criação da CPI da Petrobrás e os chamou de "bons pizzaiolos". O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) apresentou requerimento de voto de censura contra Lula.

Pelo menos 11 senadores assinaram o requerimento que, agora, será analisado pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), antes de ser levado a plenário. "Esse voto de censura visa à história. Daqui a 50 anos, os historiadores vão ver essas declarações que Lula deu", disse Cristovam. "Existem aqueles que podem ser pizzaiolos e ele sabe quais são. Em geral, são os que estão mais próximos a ele hoje. E existem aqueles que não são. Ele generalizou e ofendeu toda a nossa instituição."

Indignados, os senadores fizeram questão de observar que Lula chamou de "pizzaiolos" os parlamentares que são da base aliada. Na CPI da Petrobrás, a maioria governista é expressiva, são oito votos do governo contra apenas três da oposição.

"Na medida em que o Lula diz que vai dar pizza, está criticando os próprios companheiros de governo. Só vai dar pizza se a maioria quiser e a maioria está com ele", disse o senador Antonio Carlos Valadares (PSB-SE).

Às vésperas do recesso parlamentar e com o plenário praticamente vazio, Cristovam conseguiu assinaturas de parlamentares não só de oposição. Membros do PTB, do PDT e do PMDB apoiaram o voto de censura, além do DEM e do PSDB.

"Esse requerimento mostra a nossa indignação", comentou o senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR). "Normalmente se censura um filho, uma pessoa subalterna. Aqui, como somos iguais, são poderes iguais. Estamos censurando o chefe do Executivo, porque realmente não soube se comportar como tal."

O único a defender Lula foi o líder do PTB, Gim Argello (DF). "O negócio é que o presidente fala a linguagem popular, mas ele não teve intenção de ofender os senadores", afirmou.

PSDB vai ao Conselho de Ética contra Sarney pela 4ª vez

Eugênia Lopes, Brasília
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Motivo agora é um grampo da PF que levanta a suspeita de envolvimento do senador em negociações para nomeação de namorado de sua neta

O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio Neto (AM), anunciou ontem que vai apresentar na semana que vem nova denúncia ao Conselho de Ética contra o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP). O tucano quer que o conselho investigue a participação de Sarney nas negociações que levaram o então diretor-geral do Senado, Agaciel Maia, a nomear o namorado da neta do senador para um cargo na Casa, conforme publicou ontem o Estado. Às vésperas do início do recesso parlamentar, Sarney preferiu não aparecer ontem no plenário, frustrando a expectativa de que fizesse um balanço sobre as atividades do Senado no primeiro semestre.

"Vamos ver se a água mole em pedra dura tanto bate até que fura", afirmou o líder tucano. É a terceira denúncia que ele apresenta contra Sarney no Conselho de Ética. O ceticismo de Virgílio em relação ao conselho tem motivos. Dos 15 integrantes do colegiado, dez são da base aliada e estão dispostos a salvar Sarney.

Além disso, o recém-eleito presidente do conselho, senador Paulo Duque (PMDB-RJ), já sinalizou a disposição de mandar arquivar tanto as denúncias quanto a representação do PSOL contra o presidente do Senado por falta de decoro. Pelo regimento, Duque tem poderes para barrar a investigação logo no início, mas a oposição já avisou que vai recorrer.

NA BERLINDA

Os cinco senadores de oposição já deixaram assinado recurso na eventualidade de Duque determinar, durante o recesso, o arquivamento das denúncias e da representação. "Tomamos essa precaução porque como vamos estar em recesso e cada senador é de um Estado diferente, seria difícil reunir as assinaturas da oposição", disse o líder do DEM, José Agripino Maia (RN). Em sua avaliação, a nova denúncia torna a situação de Sarney mais grave.

Agripino está certo de que as férias parlamentares irão "acalmar" a pressão sobre Sarney, mas avalia que o peemedebista continuará na berlinda. "Os fatos contra Sarney continuam consistentes, mesmo havendo recesso. O que irá apenas ocorrer é um lapso de tempo nessa pressão", disse.

Virgílio, que foi ontem para Manaus, pretende entrar com a representação na próxima segunda-feira no Conselho de Ética. Reportagem publicada ontem pelo Estado revela gravações reunidas pela Polícia Federal durante a Operação Boi Barrica, com telefonemas entre Fernando Sarney, um dos filhos do senador, para o ex-diretor Agaciel Maia. Nas escutas telefônicas, existem referências diretas a nomeações de parentes e agregados do clã Sarney por ato secreto.

A primeira reunião do Conselho de Ética está marcada para 5 de agosto. O órgão terá de analisar as denúncias apresentadas pelo líder tucano e a representação do PSOL contra Sarney. Em duas denúncias, Virgílio solicita ao Conselho que apure a suposta responsabilidade de Sarney na edição dos 663 atos secretos, além da suspeita de ter usado o cargo para favorecer a Fundação José Sarney. O PSOL pede a punição de Sarney por quebra de decoro no caso dos atos secretos. O partido também pediu a abertura de processo contra o ex-presidente Renan Calheiros.

PROTESTO

Estudantes da Universidade de Brasília (UnB) promoveram um protesto ontem no Senado. Eles trajavam camisetas brancas com letras da frase "Fora Sarney". Seguranças arrancaram o aluno que vestia o "S" - a frase ficou "Fora Arney".

UNE, com verba oficial, festeja Lula

Lisandra Paraguassú e Tânia Monteiro, Brasília
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Evento anual da entidade recebeu apoio de sete ministérios, da Caixa, dos Correios e da Petrobrás

Aos gritos de "Dilma presidente" e "Lula, guerreiro do povo brasileiro", os cerca de 3 mil estudantes que se reuniram ontem na abertura do 51º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) mostraram uma adesão inquestionável ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com algumas poucas reivindicações e vários elogios, deixaram claro de que lado estão. Algum desavisado poderia pensar tratar-se de uma convenção petista.

Ovacionado ao se levantar para fazer seu discurso, o presidente chegou a pedir que parassem. "Vocês vieram aqui para trabalhar ou para gritar?", brincou o presidente.

As vozes dissonantes foram poucas. De um lado, um grupo minoritário contrapunha ao nome da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, para a presidência em 2010 o do deputado Ciro Gomes (PSB-CE) - que integra a base aliada do governo. Mas mesmo esse grupo de estudantes se entusiasmou e começou a tirar fotos de Lula assim que o presidente entrou no auditório do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, ontem, em Brasília.

"O presidente Lula é o primeiro a participar de um congresso da UNE em 71 anos de história", destacou a presidente da entidade, Lucia Stumpf, ligada ao PC do B. Não há registros, no entanto, de outro presidente que tenha sido convidado para a cerimônia. Lula e o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Luiz Dulci, foram convidados a pôr a mão no gesso em um molde que ficará exposto na nova sede da UNE, no Rio. Como Lula e Dulci demoraram muito, o gesso endureceu e os dois tiveram dificuldades para tirar a mão da massa.

APOIO

Dominada há décadas pelo PC do B, que elegeu a maioria dos presidentes desde a reconstrução da entidade, em 1979, e pelo PT, que tem o segundo maior grupo, a UNE virou base do governo desde a primeira eleição de Lula, em 2002. Nunca antes a entidade teve uma relação tão próxima com o governo federal.

Essa proximidade se traduz em recursos. Desde 2004, a UNE já recebeu R$ 10 milhões da União. Desses recursos, R$ 7 milhões foram repassados somente nos últimos 14 meses. O 51º Congresso da entidade, que começou ontem em Brasília, foi organizado com o apoio de sete ministérios, além de instituições como a Caixa Econômica Federal, Correios, o Programa Nacional de Segurança com Cidadania (Pronasci) e a Petrobrás. Um projeto de lei que tramita no Congresso ainda vai liberar recursos federais para financiar a reconstrução da sede da entidade no Rio de Janeiro.

Em seu discurso, que durou pouco mais de meia hora, o presidente Lula elogiou a independência da UNE. "A Lucia (Stumpf) fez seu discurso como se eu não estivesse aqui. E fez mais forte porque eu estava aqui. Numa relação democrática,civilizada, ninguém pode ser dependente de ninguém", afirmou o presidente.

"Eu sou amigo de vocês e vocês meus amigos. Vocês são uma entidade com autonomia e no momento em que vocês não concordarem comigo é para dizer na minha cara ?não concordo, sou contra? e vão para rua fazer passeata. Não tem nenhum problema", completou.

Com os estudantes concentrados em pedir mais investimentos na área da educação, defender o petróleo encontrado na camada pré-sal e exigir a abertura de um número maior de vagas no programa Universidade para Todos (ProUni), não se ouviu durante as cerca de duas horas em que Lula e seus 11 ministros estiveram no centro de convenções gritos de "Fora Sarney". A manifestação contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), que tem contado com o apoio do presidente para se manter no cargo, só ocorreu mais tarde, em frente ao Congresso.

A presidente da UNE aproveitou para dizer que a entidade não compartilha alguns pontos de vista do presidente Lula, que além de liderar a movimentação em defesa de Sarney até abraçou no início desta semana o hoje senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL), removido da Presidência da República com a ajuda de estudantes que ficaram conhecidos como os "caras-pintadas".

"Nós não nos somamos a ele (Lula) na defesa de Fernando Collor nem de Sarney. Nós repudiamos o que Collor representa na história do Brasil", afirmou Lucia. "Por isso vamos convocar um grande debate para exigir uma reforma política que dê acesso ao jovem ao Congresso Nacional. Os jovens que estão lá hoje são os filhos, os netos, os juniores (das oligarquias políticas)", completou.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil

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Mediador propõe governo de reconciliação em Honduras

Gustavo Chacra, Nova York
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Sugestão de Arias para resolver crise será levada amanhã à mesa de diálogo; Micheletti diz que rejeitará proposta

Enquanto simpatizantes do presidente deposto Manuel Zelaya intensificaram as ações contra o governo de facto em Honduras - ao bloquear estradas de acesso a Tegucigalpa e outras cidades importantes do país -, em San José, na Costa Rica, o presidente costa-riquenho e mediador do conflito, Oscar Arias, declarou ontem que a saída para o impasse deve incluir necessariamente a volta de Zelaya à presidência e propôs a criação de um governo de reconciliação.

A proposta foi feita após o presidente de facto de Honduras, Roberto Micheletti, dizer que estava disposto a deixar o cargo que assumiu após o golpe do dia 28, desde que o governante deposto não reassuma a presidência.

No entanto, Micheletti rejeitou estabelecer um governo de "reconciliação nacional" para resolver a crise política. "Não aceitamos que nenhum país nos faça imposições. Nós temos uma posição firme e não mudaremos de modo algum", disse o presidente de facto.

Segundo declarações feitas por telefone ao Estado desde Tegucigalpa, não há clima internamente para que Zelaya retorne. As Forças Armadas, a Suprema Corte e o Congresso ainda estão unidos na oposição ao presidente deposto, apesar de estarem abertos a concessões para aliviar o isolamento de Honduras, um dos países mais pobres da América Latina.

"Micheletti está disposto a renunciar ao cargo para dar o poder a outra pessoa (que não seja Zelaya). Mas essa não é uma solução, pois o restabelecimento constitucional passa pela volta de Manuel Zelaya ao poder", afirmou Arias a um programa de rádio.

Para ele, Zelaya deve também abandonar sua pretensão de levar adiante o projeto de uma consulta sobre a convocação de uma Assembleia Constituinte. Amanhã, comissões representando os dois lados devem ser reunir para prosseguir com as negociações, iniciadas uma semana atrás, quando Micheletti e Zelaya se reuniram separadamente com Arias.

Em Tegucigalpa, a tensão continua a se acentuar. Após Zelaya ter conclamado seus partidários à insurreição contra o governo de facto, manifestantes bloquearam as estradas e sindicatos ameaçaram iniciar uma greve geral se não houver acordo até domingo. O governo restabeleceu o toque de recolher. Cresce o temor de que se iniciem conflitos armados caso Zelaya tente entrar por terra em Honduras.

"O que se fala é que Zelaya poderia voltar com a ajuda (do presidente nicaraguense, Daniel) Ortega", disse o professor da Universidade Nacional Autônoma de Honduras, Benjamin Santos.

Segundo o analista, tudo dependerá de quem o presidente deposto está disposto a ouvir. Se seguir aliados como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, pode tentar voltar. Já o governo de Barack Obama e Arias aconselham Zelaya a esperar por uma solução. O jornal El Heraldo, mais importante de Honduras e contrário a Zelaya, informou ontem ter tido acesso a planos para "desestabilizar o país mediante ações armadas de grupos irregulares, ligados ao narcotráfico e provenientes da Venezuela".

O analista hondurenho Graco Pérez afirma que provavelmente "Zelaya não retornará". O consenso, acrescenta Peter DeShazo, diretor de América Latina do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington, "é que qualquer solução passa pelas eleições". A votação está prevista para novembro.

Tigre de papel

Míriam Leitão
DEU EM O GLOBO


Nem a China está comemorando o crescimento chinês. O instituto oficial de estatísticas disse que o crescimento é desigual e instável e que a retomada não foi para todo o país, nem todos os setores. O Congresso do Povo disse que o governo tem que evitar o “crescimento extraordinário” do crédito. Na China, nem o governo acha que a crise acabou por causa dos 7,9% do PIB do segundo trimestre

Não se pode ser superficial com crise tão grave. Ela continua sendo a pior em 80 anos. O que está acontecendo é uma redução das previsões de queda da maioria dos países, e uma ligeira melhora no crescimento chinês.

Mas a China cresceu 13% em 2007, e deve crescer entre 7% e 8% este ano e no próximo.

Parece muito para o mundo não chinês, mas para os padrões do país esse resultado é ruim. O economista Nouriel Roubini faz uma série de ponderações sobre o desempenho da China que vale a pena registrar. As importações foram dominadas por commodities neste primeiro trimestre e se aproveitaram dos preços baixos. Agora, os preços subiram; a demanda internacional dos produtos manufaturados chineses continua fraca; os estoques aumentaram; e a tendência é o país reduzir a compra de commodities. A China aumentou tanto o incentivo à exportação quanto as barreiras às importações. Isso contribuirá para um dos riscos atuais: o protecionismo.

Houve aumento de investimentos, mas depois de forte apoio do governo e pelo uso de lucros retidos. Isso pode tirar fôlego das empresas para investimentos em 2010.

A China está em melhor posição do que a maioria dos países para estimular a demanda, diz Roubini. O consumo das famílias é baixo, 36% do PIB, e o nível de poupança é reconhecidamente alto. Só que, paradoxalmente, parte da compulsão de poupar vinha de um problema: uma rede social deficiente em saúde, educação e aposentadoria. Investindo nessas áreas, o governo poderá reduzir a tendência à poupança na população.

O país continua correndo os riscos de deterioração fiscal, reservas altamente concentradas em dólar, câmbio quase fixo e crescimento abaixo do potencial. Esse último item afeta diretamente países da América Latina, Ásia e África. Se a China crescer menos, também importará menos commoditites. No Brasil, os efeitos são imediatos no setor de mineração.

Gráficos enviados ao blog (http://www.miriamleitao.com.br/) pelo Banco Fator mostram claramente os efeitos da crise sobre a China. Apesar das taxas serem altas quando comparadas com o resto do mundo, elas representam desaceleração no contexto chinês.

A produção industrial teve alta acumulada no primeiro semestre de 7%, mas no mesmo período de 2008 a taxa estava acima de 15%. As vendas no varejo que chegaram a crescer 23% desaceleraram para 15% no acumulado até junho.

“Não se espera que o ritmo (do PIB) observado entre 2003 e 2007 (acima de 10% ao ano) volte a vigorar rapidamente”, diz relatório do banco.

O secretário-executivo do Conselho Empresarial BrasilChina (CEBC), Rodrigo Maciel, disse a Bruno Villas Bôas, do blog, que a desaceleração da economia tinha duas origens: uma externa, fruto da crise, e outra interna, que era o colapso do setor imobiliário.

O governo elevou impostos, reduziu crédito e tirou benefícios no ano passado para conter a expansão do setor e evitar o superaquecimento da economia.

— O governo chinês também pediu para os bancos segurarem crédito, entre outras medidas. Mas a partir do final de 2008, com a crise, o governo chinês adotou uma política de explodir investimentos — disse Maciel.

Entre as medidas voltadas ao setor imobiliário, o governo reduziu o tamanho da entrada necessária para compra do imóvel, que caiu de 35% para 20% do total. Também reduziu o volume de capital que as construtoras precisam ter em caixa para executar uma obra. Na compra de imóveis, o imposto foi reduzido de 1,5% para 1%: — O governo investiu pesado em grandes obras de infraestrutura, como rodovias, portos, usinas de energia.

São investimentos em ativo fixo, que cresceram 33% na primeira metade do ano, maior taxa em cinco anos.

Isso incentiva a indústria de base, responsável por uma grande fatia da economia.

Mas nada disso é capaz de eliminar os desafios que a China tem pela frente. Como explicou o diretor da Câmara de Comércio e Indústria BrasilChina, Kevin Tang, desde a crise, cerca de 20 milhões de empregos foram eliminados.

Mais desemprego é sinal de aumento de tensões sociais.

Além disso, a China terá que suprir a redução do consumo americano. As economias americana e chinesa tinham uma relação de mútua dependência: os americanos aumentavam o consumo e produziam déficit, os chineses produziam para atender esse consumo e poupavam. Com a poupança, financiavam o endividamento americano. Agora, as famílias americanas voltaram a poupar. Têm dívidas e medo do futuro. A China terá que estimular seu próprio consumo e alterar a base da indústria, focando internamente.

Não é trivial: — Algumas mudanças são culturais e não acontecerão de uma hora para a outra — explicou Tang.

É isso que o próprio governo alerta, quando o escritório de estatísticas avisa que o crescimento não chega a todas as partes, é desigual e instável, e quando o Congresso do Povo afirma que bolhas de crédito são perigosas.

Quem discordaria?

Com Alvaro Gribel

Crise faz criação de empregos formais no país despencar 78% no semestre

Geralda Doca
DEU EM O GLOBO

Foram abertas 299 mil vagas com carteira, pior resultado da última década

BRASÍLIA. A crise econômica levou o mercado formal de trabalho brasileiro a registrar, no primeiro semestre de 2009, seu pior desempenho nos últimos dez anos. Foram criados 299.506 empregos, o que representou queda de 78% na comparação com o registro de igual período do ano passado (1,36 milhão). Segundo dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), em junho foram abertas 119.495 vagas - abaixo das 136 mil anunciadas anteontem pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e das projeções do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, de um número superior ao de maio (131.557).

O motivo para o desempenho aquém do imaginado, explicou o ministro, foi a indústria de transformação, que contratou menos que o esperado. Este é o setor mais atingido pela crise, com uma queda de produção no semestre superior a 13%.

- Em maio, esperávamos uma recuperação melhor da indústria, principalmente em São Paulo e no setor de produção de alimentos, o que não ocorreu - lamentou Lupi.

Com apenas duas mil contratações no mês passado, a indústria ficou atrás dos setores agropecuário, que registrou saldo de 57.169 vagas, e de serviços, com 22.877. Também perdeu para a construção civil (18.321) e o comércio (17.522). Os subsetores do parque fabril mais prejudicados são as indústrias metalúrgica, mecânica, de materiais de transporte e de borracha, fumo e couros.

Indústria fecha 144 mil postos. Serviços contratam

No acumulado do ano, a indústria também foi o segmento que mais fechou postos de trabalho, com saldo negativo de 144.477 vagas. O comércio aparece em segundo lugar, com a eliminação de 32.978 postos. O setor que está puxando o emprego formal neste ano é o de serviços, que respondeu pela contratação líquida de 235.435 trabalhadores com carteira assinada, com destaque para ramos ligados ao turismo.

Apesar da desaceleração do mercado formal de trabalho no semestre, Lupi prevê que 2009 fechará com saldo positivo de um milhão de vagas, apostando na recuperação da produção industrial a partir deste mês. Segundo ele, há indicativos nesta direção, como a redução no nível dos estoques industriais na esteira dos incentivos dados pelo governo, como a redução do IPI para automóveis e artigos da linha branca.

Pela segunda vez consecutiva, o Caged mostrou elevação no nível de emprego formal em todas as regiões do país, com destaque para o Sudeste, com abertura líquida de 72.002 postos. Na região, Minas Gerais respondeu pela maior geração de empregos com carteira, 45.596 contratações, devido principalmente à safra do café. São Paulo ficou em segundo lugar, com 27.602, seguido pelo Rio de Janeiro, com 5.455 vagas.

Já no Espírito Santo houve a eliminação de 6.651 mil postos de trabalho. O Distrito Federal e o Rio Grande do Sul também registraram saldos negativos.

Interior emprega mais. Renda da mulher é menor no país

Devido ao desempenho do setor agropecuário, as maiores oportunidades de emprego no mês passado se concentraram no interior do país, que respondeu por 80.406 postos de trabalho, contra 25.535 no conjunto das nove áreas metropolitanas pesquisadas (Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre).

Ao divulgar os dados do Caged, Lupi aproveitou para informar que o salário médio do mercado formal de trabalho subiu 0,57%, na comparação entre os primeiros semestres de 2008 e 2009, saindo de R$741,57 para R$745,80. As mulheres, no entanto, recebem 89% do valor auferido pelos homens com carteira assinada. Sem entrar em detalhes, Lupi revelou que os números mostram que os salários pagos aos admitidos são inferiores aos dos demitidos.

Retração em São Paulo foi de 15,06% em junho

Paulo Justus
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A queda na arrecadação federal em São Paulo foi mais acentuada que a média do País. Relatório apresentado ontem pela Receita Federal mostrou que os R$ 21,2 bilhões arrecadados em junho no Estado representam uma queda real (descontada a inflação) de 15,06% em relação ao mesmo período do ano passado. No primeiro semestre, o recuo foi de 8,17% comparado a igual período de 2008.

De acordo com o superintendente da Receita Federal em São Paulo, Luiz Sérgio Fonseca Soares, a queda maior na arrecadação se deve ao alto grau de industrialização do Estado. "Também sofremos uma redução da carga tributária neste ano, ao contrário do que ocorreu em 2008", disse.

As informações foram repassadas em coletiva de imprensa anunciada às pressas pela Receita ontem, dois dias depois da demissão da secretária do órgão, Lina Vieira. De acordo com Soares, a divulgação dos resultados já estava prevista antes da demissão da secretária.

O superintendente paulista, que foi colocado no cargo por Lina em setembro do ano passado, negou que o evento para os jornalistas fosse um ato de desagravo à ex-secretária. "Admiro muito a atuação de Lina Vieira, mas o trabalho é mais importante que as pessoas",afirmou, acrescentando que coletivas nunca foram realizadas antes por falta de condições técnicas.

Soares também negou a existência de pressões internas na Receita para a nomeação do substituto da secretária. "Não cabe a nós aprovar ou desaprovar o nome do secretário da Receita. Isso seria deslealdade institucional", disse.

Desde que assumiu o cargo, Soares concentrou a atuação da fiscalização nos grandes contribuintes, conforme diretrizes de Lina Vieira. Como resultado, os créditos das fiscalizações das grandes empresas em São Paulo subiram de R$ 1 bilhão no primeiro semestre de 2008 para para R$ 2,8 bilhões nos primeiros seis meses de 2009. Já os créditos provenientes da autuação de contribuintes pessoa física caíram de R$ 702 milhões para R$ 254 milhões nas mesmas bases de comparação.

Decifrando o enigma da crise

Luiz Carlos Mendonça de Barros
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Se o atual padrão de ajuste de custos se mantiver, teremos um mercado mais forte e um menor nível de pessimismo

OS PRIMEIROS resultados da atividade econômica global na primeira metade de 2009 começam a ser divulgados. Ontem, ficamos sabendo que o PIB chinês cresceu a uma taxa anualizada de 16,5% entre abril e junho passados. Nos três primeiros meses do ano, o gigante asiático havia crescido 6,1%, e, no último trimestre de 2008, apenas 1,5%. Uma recuperação impressionante.

Mas são alguns vetores desse crescimento que chamam a atenção do analista mais cuidadoso.

As vendas no varejo cresceram no segundo trimestre deste ano em relação a 2008 a uma taxa anualizada de 24%. Nesse mesmo período, a China passou a ser o maior mercado mundial de venda de automóveis, superando os Estados Unidos. Ainda do lado da atividade econômica voltada para o consumo interno, é importante ressaltar o crescimento de quase 20% ao ano na construção de imóveis residenciais.

Sabemos que a chave para um crescimento sustentado na China está no aumento do consumo interno e na redução da dependência das exportações industriais. Por isso, os analistas acompanham com lupa essa mudança de dinâmica no crescimento chinês. Os dados divulgados ontem vão nessa direção, embora apenas a manutenção desse movimento em prazo mais longo será prova definitiva de sucesso.

Em uma economia dirigida por um governo central forte e com sólida visão estratégica de longo prazo, a política econômica está direcionada para acelerar a transição para esse novo modelo de crescimento. O susto dos últimos meses de 2008 e da parte inicial de 2009 alertou o governo dos riscos que corre se não tiver sucesso no reequilíbrio agora buscado. Aposto nessa direção e acredito no crescimento chinês nos próximos anos.

Nesse sentido, reproduzo ao leitor da Folha a informação de que o valor de mercado das empresas chinesas, negociadas nas Bolsas de Valores, já supera o das japonesas -e perde apenas para as norte-americanas.

Mas a atenção dos mercados não está voltada apenas para os dados macro das principais economias do mundo. Entramos no período de divulgação dos resultados trimestrais das principais empresas negociadas nas Bolsas de Valores nos Estados Unidos. Em época de crise de confiança na maior economia do mundo, seus lucros e, principalmente, as previsões para o resto do ano são informações decisivas.

A legislação norte-americana nessa questão não foi enfraquecida pela onda ultraliberal dos últimos anos, e as informações passadas aos mercados são vistas com grande credibilidade.

Embora o número de empresas que já divulgaram seus balanços seja ainda muito pequeno, alguns padrões estão aparecendo. O primeiro é a força dos lucros dos bancos, principalmente dos resultados de tesouraria obtidos em razão dos juros baixíssimos nos mercados interbancários e da melhoria nas condições de crédito. Com isso, os prejuízos com a inadimplência crescente de seus devedores estão sendo compensados, sem comprometer ainda mais sua estrutura de capital.

Além disso, outro padrão aparece nos resultados já divulgados das empresas não financeiras. O ajuste de custos nos últimos três meses, principalmente no volume de emprego e no nível dos salários, está sendo maior do que o esperado pelos analistas. Se esse padrão se mantiver até o fim, poderemos ter um mercado mais forte nas próximas semanas, o que pode reduzir ainda mais o pessimismo que vivemos nos últimos meses.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, 66, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).