domingo, 10 de agosto de 2014

Painel :: Bernardo Mello Franco

- Folha de S. Paulo

Freio de arrumação
O presidente eleito do STJ (Superior Tribunal de Justiça), Francisco Falcão, deve sacudir a corte com uma série de medidas após tomar posse, no próximo dia 1º. Ele promete dar freio às viagens internacionais de colegas e apurar quanto a atual gestão gastou em passagens e diárias no exterior. Além disso, vai desalojar um salão de beleza e uma academia de ginástica que funcionam na sede da corte, em Brasília. "Isso não era nem para existir. Tribunal não é lugar de salão de beleza", critica.

Tudo meu Falcão quer transferir o gabinete da presidência do oitavo para o nono andar, onde funcionam a academia e o salão que promete extinguir. "O espaço está subutilizado com coisas fúteis e passará a ser mais bem aproveitado pelo tribunal", diz.

Rádio corredor O ministro conta que se irritou ao ser questionado por colegas sobre o rumor de que instalaria um elevador panorâmico no prédio. "Isso não existe. Não farei obra nenhuma. Vou deslocar móveis que já existem e, no máximo, colocar algumas divisórias nos gabinetes."

Origens Falcão considera que causou incômodo nos últimos anos como corregedor do CNJ (Conselho Nacional de Justiça). Em abril, ele instalou investigação para apurar suspeita de abuso em viagens de ministros do STJ e suas esposas ao exterior. O caso foi arquivado sem punições.

Mudanças A partir de setembro, só o presidente e o vice terão autorização para viajar com despesas pagas pelo tribunal. "Vou divulgar tudo no Portal da Transparência, inclusive as viagens feitas nos últimos anos", anuncia o novo chefe da corte.

Empacou Apesar de ter passado por São Paulo em quatro dos seis últimos dias, Dilma Rousseff segue preocupada com sua campanha no Estado. Análises feitas para o PT não veem melhora no cenário eleitoral ou na imagem da presidente desde junho.

Na gaveta As pesquisas qualitativas do partido afirmam que o noticiário sobre o uso de verba pública no aeroporto de Cláudio (MG) machucou "de leve" a imagem de Aécio Neves (PSDB). O comitê de Dilma agora estuda formas de reavivar o caso na propaganda de TV para ampliar o desgaste do tucano.

Leite derramado Abatidos pelo caso Petrobras, petistas lamentam não ter indicado ao Tribunal de Contas da União ministros mais alinhados ao partido. Dos 9 titulares, 7 foram nomeados nos governos Lula e Dilma.

Entre as pernas A escolha mais lamentada é a de José Jorge, ex-senador do PFL (atual DEM), visto hoje como carrasco do Planalto. Em 2008, quando o governo tinha maioria no Senado, ele venceu disputa contra Leomar Quintanilha (PMDB).

Na seca A campanha de Alexandre Padilha, o candidato do PT ao governo paulista, gravou depoimentos de eleitores que sofrem com a falta d"água no Estado. A ideia é mostrar o problema a quem continua com o abastecimento regular em casa.

Tudo junto... A Secretaria dos Transportes Metropolitanos produziu parecer contrário à criação de vagões exclusivos para mulheres no Metrô e na CPTM, a companhia paulista de trens.

... e misturado Além de criticar a segregação, a pasta vê dificuldades para implantar a medida por causa do volume de passageiros. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) tem de sancionar ou vetar o texto nesta semana.

Menina do Rio Ciumeira à vista no PT do Rio. A ministra Marta Suplicy (Cultura) gravou vídeo pedindo voto para a deputada Jandira Feghali, do PC do B.
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Tiroteio
Faz 20 anos que o PSDB não permite uma investigação sobre corrupção no governo do Estado. Daremos satisfação aos paulistas.
DO DEPUTADO RENATO SIMÕES (PT-SP), sobre a instalação da CPMI no Congresso para investigar acusações de cartel em contratos de transportes.
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Contraponto
Sem pausa para o cafezinho

Com uma fatia magra do tempo de TV, o presidenciável Eduardo Campos (PSB) tenta aproveitar ao máximo cada chance de se exibir neste início da campanha. Na sabatina da CNI (Confederação Nacional da Indústria), na semana passada, o presidente da construtora Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo, fez uma pergunta enquanto o candidato terminava de dar um gole em uma xícara.

-Desculpe, estava tomando um cafezinho -disse ele.

-Pode terminar -respondeu o executivo.

-Mas aí eu perco os meus minutos... -devolveu Campos, provocando risos na plateia.

Brasília-DF:: Denise Rothenburg

- Correio Braziliense

Henrique no corner
O presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar Filho, começou a consultar os integrantes do colegiado sobre a escolha de uma terça ou quarta-feira antes da primeira semana de setembro apenas para votar o parecer que pede a cassação do mandato do deputado André Vargas (sem partido-PR). A ordem é deixar tudo pronto para que, se houver esforço concentrado em 2 de setembro, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, tenha condições de colocar o processo para apreciação no plenário.
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Essa bomba no colo era tudo o que Henrique não queria. Se o parecer de Júlio Delgado (PSB-MG) for votado, Henrique terá de colocar na pauta de votação e causará a ira do PT aliado a Vargas, que já foi secretário de comunicação do partido. E se for a plenário, dada a ausência de um número expressivo de deputados no esforço concentrado, todos saem no desgaste. O presidente da Câmara, entretanto, tem dito em conversas reservadas que sua função nesse caso é cumprir o regimento. Doa a quem doer.

Enquanto isso, nos bastidores...
O PT e os partidos aliados ao governo tinham acertado a suspensão do esforço concentrado. E o motivo é simples: a estrutura da sala Nereu Ramos, adaptada para receber as sessões da Casa enquanto o plenário estiver em reforma, não agradou à maioria das excelências. Como a turma desejava apenas uma desculpa para dedicação exclusiva à campanha eleitoral, até a floração dos ipês brancos serviria. Agora, se o Conselho de Ética conseguir marcar a reunião, Henrique terá de chamar os deputados a Brasília. Tudo para não ser acusado de querer ajudar o colega enroscado com a Operação Lava-Jato da Polícia Federal.

O cinturão de Graça
A presidente Dilma Rousseff não só defendeu a presidente da Petrobras, Graça Foster, como determinou que toda a sua equipe faça o mesmo. Sinal de que as declarações do Advogado Geral da União, Luiz Adams, sobre Graça perder condições de presidir a empresa em caso de bloqueio de bens não foram bem recebidas pela chefe dele.

Entre os sinceros...
...Os políticos de vários partidos estão com a sensação de que, embora Aécio Neves esteja empatado com Dilma Rousseff no Sudeste, ele ainda não "pegou" junto ao eleitorado paulista. "Se pegar, acabou", dizem os petistas.

Convers@ de Domingo
No site do Correio, uma conversa com o juiz Márlon Reis — um dos pais da Lei da Ficha Limpa — trata sobre o segundo round dessa guerra: o custo das campanhas, exposto no livro fruto de sua tese de mestrado: O nobre deputado _ relato chocante (e verdadeiro) de como nasce, cresce e se perpetua um corrupto na política brasileira.

O relax do João/ A contar pelo estado de espírito da equipe, a campanha de Dima Rousseff não enfrenta problemas. Responsável pelos programas de rádio e tevê da presidente-candidata, o publicitário e jornalista João Santana ainda tem tempo de jantar com a esposa, Mônica, no meio da semana. Dia desses, degustaram uma garrafa do italiano Amarone della Valpolicella, entre R$ 350 a R$ 400.

De volta/ O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, aproveitou as férias para viajar ao Paraguai de carro na companhia do irmão Apolinário a fim de percorrer os palcos da guerra do Paraguai. Eis um político que, invariavelmente, aproveita os momentos de descanso para um enriquecimento cultural.
Vai sobrar/ O senador Magno Malta que se prepare. Tem capixaba pronto para atribuir a ele qualquer desfecho eleitoral desfavorável ao governador-candidato Renato Casagrande no Espírito Santo.

Reforço aos laços/ A maioria dos políticos planejou dar uma pausa na campanha hoje para curtir a homenagem aos pais em família. Afinal, hoje é dia de lembrar daqueles que já partiram e desfrutar da presença dos que estão por perto. 

Feliz Dias dos Pais a todos!

Panorama político :: Ilimar Franco

- O Globo

A barreira
O socialista Eduardo Campos tem duas resistências para vencer. Sua assessoria diz que é preciso romper a crença de que só quem disputa o poder são PT e PSDB. Um marqueteiro paulista avalia que também é preciso vencer obstáculo que não é político, mas epidérmico. Ele diz que os eleitores do Sul e do Sudeste têm prevenção contra os políticos do Nordeste. Isso seria um resquício do trauma provocado pela eleição de Collor.

No ritmo dos candidatos
Os candidatos vão de rap, axé e forró nos seus jingles. Eduardo Campos aposta num rap onde os versos surgem em verde e amarelo e dizem: "Coragem para mudar o Brasil / Eu vou de Eduardo e Marina / Eduardo e Marina / São assim como você". Aécio Neves vai de axé tendo como pano de fundo um cartaz escrito “Muda Brasil” embalado pelos versos: "Aé Aé Aécio / a gente quer você / Aé melhor pra gente". Ao som de um forró, com cenas em movimento e fotos com o ex-presidente Lula, a presidente Dilma se derrete em sorrisos ao som do canto: “Eu te quero outra vez / te quero de novo / O que tá bom, vai continuar / O que não tá, a gente vai melhorar”.
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“O Ministério da Agricultura não será subordinado ao Ministério da Fazenda e nem mesmo ao Banco do Brasil como é hoje”
Aécio Neves
Candidato à Presidência (PSDB) e senador (MG), na sabatina da Confederação Nacional da Agricultura
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Sempre cabe mais um
O candidato do PSDB, Aécio Neves, anunciou o Superministério da Agricultura (volta da Pesca). Os militantes da reforma agrária desconfiam que ele também vai acabar com a pasta do setor. O time de Aécio quer evitar polêmica com o MST.

A mesma moeda
A equipe de Eduardo Campos, cuja tarefa é superar Aécio Neves, avalia que ele ganhou pontos nas sabatinas da indústria e da agricultura. Pois ninguém acreditaria que os tucanos fariam uma política para reindustrializar o país. No PSB, a crença é de que FH, Lula e Dilma adotaram como política o câmbio valorizado e isso detonou a produção nacional.

Sonho de sogra
Muitos petistas estão surpresos com o jingle da campanha de Alexandre Padilha para o governo de São Paulo. No embalo de um forró, a letra se refere a ele como “a esperança da família" e diz que ele “é bom moço" e “é bom de serviço".

Rio: atravessando a avenida
Os candidatos ao governo vão de samba-enredo nas suas trilhas sonoras. O do governador Pezão diz que ele “tá na boca do povão”. O de Garotinho, que “nosso governador vai voltar” e o de Crivella que “o Rio vai estar em boas mãos”. Já Lindberg diz que ele “fará do jeito certo” em três versões: samba-funk, pop rock e um rap com forró.

Trio elétrico baiano
O de Rui Costa tem vídeo onde seu boneco dança o arrocha com a mão na testa. O forró de Paulo Souto canta que a esperança que chegou à capital (ACM Neto) agora chegará a todo mundo. Lídice da Mata promete: não é passado nem mesmice.

Preparar o terreno
Aécio Neves começa na próxima terça-feira, pelo Maranhão, um roteiro que vai a quatro estados do Nordeste. Antes, foi enviada uma precursora para fazer pichações, colar cartazes e entregar panfletos para serem distribuídos por militantes.

A presidente Dilma vai se reunir na segunda, em São Paulo, com militantes estudantis. E na quarta, em Brasília, com os movimentos de mulheres.

Ferreira Gullar: Guerrear é preciso?

• A TV mostra quarteirões transformados em ruínas por bombas e foguetes. Que sentido tem isso?

- Folha de S. Paulo - Ilustrada

Diante das guerras que se travam hoje no mundo, sou obrigado a me perguntar por que, depois de séculos de massacres, o homem continua, como nos primórdios da civilização, a se armar e guerrear. Aliás, não apenas continua, torna-se mais capaz de matar, valendo-se de armas cada vez mais sofisticadas.

Logo me vem à mente a bomba atômica, que só não foi usada na escala que os belicistas pretendiam, porque, neste caso, quase ninguém sobreviveria. E os estadistas querem a guerra desde que ela não os atinja pessoalmente. Eles decidem por fazê-la, mas quem morre são os soldados e o povo em geral. Os chefões, quase nunca.

Costumo dizer que frequentemente me surpreendo com o óbvio, e isso acontece agora, quando a televisão me bombardeia diariamente com o número de mortos pelas bombas e foguetes na faixa de Gaza, na Síria, na Líbia, no Iraque, na Ucrânia.

Surpreendo-me com a quantidade de dinheiro que os países gastam com armamentos. E não só com armamentos, mas também com as forças armadas. Todos os países têm permanentemente centenas de milhares de soldados que constituem os efetivos militares. Eles fazem parte do Estado, como elemento fundamental dele, e constituem carreiras a que milhares e milhares de pessoas dedicam suas vidas.

Com isso, gastam-se fortunas, com a finalidade de fazer guerra. Claro, se for preciso. Mas a verdade é que essas forças são formadas e mantidas com essa finalidade: a defesa da pátria pelas armas, se for o caso. E por que isso? Porque a guerra é uma possibilidade permanente para os Estados, todos, sem exceção.

Mas por quê? Que os povos selvagens vivessem se matando, dá para entender. Por exemplo, os índios do Brasil neolítico, que eram nômades, viviam do que colhiam na natureza, eram obrigados a se deslocar para outras regiões em busca de alimentos. Se houvesse outra tribo ali, a guerra entre as duas era inevitável. Mas e hoje, por que a guerra?

As razões são as mais diversas. Ou é um louco como Hitler, que sonhava dominar o mundo, ou é concepção religiosa que leva líderes a atacar seus vizinhos, ou disputa de mercado. Mas, depois de tanta guerra que já houve, por essas e outras razões, resultando na morte de milhões de pessoas, parece que muito pouco o homem aprendeu com isso.

É certo que uma boa parte dos países --particularmente aqueles que sofreram na carne as consequências das últimas guerras-- evita lançar mãos das armas para impor seus interesses, mas mesmo estes continuam a produzir armamentos, cada vez mais sofisticados e mais mortais. A cada dia surgem notícias de aviões de guerra invisíveis aos radares, foguetes com velocidade e alcance inimagináveis, armas essas que anulam qualquer possibilidade de defesa.

Que significa isso, senão que a guerra é possível a qualquer momento, embora não se saiba entre que países e por que razão? Para que aquelas armas sejam concebidas e produzidas, os governos investem em pesquisa tecnológica e na formação de cientistas que dedicarão sua inteligência, seus conhecimentos e sua vida a produzir instrumentos de destruição. Mas não só os governos, há também empresas privadas que investem em armamentos, que vendem para diferentes países e com isso ganham fortunas. Muitos desses países mal têm recursos para atender as necessidades básicas de seu povo mas, ainda assim, compram armas e mantêm exércitos prontos para a guerra.

Desse modo, a guerra, quer ocorra ou não, é fator importante da economia mundial. Mesmo o Brasil, que não se caracteriza como um país belicoso, produz e vende armas para outros países. Deve-se concluir, portanto que a hipotética eliminação da guerra, por tornar a produção de armas desnecessária, não conviria a esses países, mesmo porque conduziria a uma grave crise na economia em escala planetária.

Isso, portanto, está fora de cogitação. E a televisão, a cada momento, dia após dia, nos mostra populações em pânico, mulheres desesperadas tentando escapar com seus filhos, das bombas que explodem à sua volta. E mostra também quarteirões inteiros de cidades transformados em amontoados de ruínas por bombas e foguetes. Que sentido tem isso?

José de Souza Martins: DNA da listra

• Ficção transforma animais perigosos como leões e tigres em seres dóceis e simpáticos

- O Estado de S. Paulo- Aliás

De quem é a culpa? Já começou a caça ao responsável pelo acidente entre o tigre Hu e o menino de 11 anos de idade que, embora advertido, mexeu com ele no Zoológico de Cascavel. O menino foi atacado, ferido e teve o braço direito amputado na altura do ombro. O garoto imprudente foi o único que teve o bom senso de defender o tigre prisioneiro, pedindo que não fosse sacrificado.

Muitos pais educam os filhos para serem adultos precoces, mais valentes do que uma criança deve ser. É inútil ser um valentão que não sabe seguir regras de prudência em relação ao perigo e ao que é perigoso. Outros querem que seus filhos sejam gênios antes de ser crianças. Mas será essa criança um falso gênio se não souber jogar fubeca, brincar de roda, jogar bola.

O episódio reflete o que é próprio do sociologicamente complicado e fascinante mundo dos relacionamentos entre gente e bicho. Mesmo nas sociedades mais urbanizadas e mais distantes do modo de vida rural e agrícola a importância dos animais cresceu na vida das pessoas. Há um decisivo papel afetivo dos bichos de estimação na vida de crianças, especialmente as solitárias, as órfãs e as acolhidas em abrigos. Não só crianças. Também idosos, abrigados em instituições, conseguem se reerguer do eventual desamparo adotando um animal de estimação. A companhia de animais de estimação tem surpreendentes efeitos terapêuticos em pessoas, de todas as idades, que se sentem desprotegidas e abandonadas.

Há também o efeito reverso de pessoas que sofrem porque privadas da companhia dos animais que estimam. Nem sempre funcionários públicos obrigados a promover essa separação conseguem compreender a função afetiva do animal de estimação. Antes da implosão de alguns edifícios da Penitenciária do Estado, em São Paulo, fiz duas excursões pedagógicas com meus alunos da USP ao local. Tanto para fotografar grafitagens, escritos e objetos abandonados quanto para um exercício de compreensão sociológica das mensagens contidas na diversidade de evidências da presença dos que se foram. Chamou a atenção de todos o número de gatos abandonados. Muitos presos tinham gatos de estimação como único elo com o mundo dos sentimentos propriamente humanos. Removidos os presos, as autoridades não permitiram que os levassem consigo.

A mesma dolorosa situação tem ocorrido nas expedições dos fiscais do Ministério do Trabalho aos locais de ocorrência da escravidão por dívida, especialmente na região amazônica. Localizadas as vítimas em acampamentos na mata, havendo as que têm consigo a família, são recolhidas e reconduzidas a seus lugares de origem. Na remoção, são os fiscais proibidos de embarcarem os animais que na roça toda criança tem, apesar do desespero, do choro e dos apelos. Abandonados, morrerão ou de fome ou atacados por outros animais. E as crianças sabem disso.

Animais de estimação passaram a fazer parte da própria estrutura social, humanizados por seus donos. O imaginário do cinema e das histórias em quadrinhos transformou bichos até perigosos como leões, ursos, cobras e tigres em seres dóceis e simpáticos. O menino de Cascavel, pelo comportamento que teve com o leão, que acariciou e tentou ter com o tigre, como se fossem animais domésticos e de brincadeiras, mostrou que assimilara essas inocentes e perigosas ilusões. O testemunho dos circunstantes indica isso com clareza. A própria existência dos zoológicos faz parte dessa cultura de animais humanizados.

Aliás, não deixa de ser interessante imaginar e até verificar como é que os animais dos zoológicos veem os humanos que os visitam. Fui certa vez ao zoológico de São Paulo com minhas filhas ainda pequenas. Admirávamos o gorila que, solitário no fundo de seu imenso terreno sem vegetação, e bem longe, parecia olhar admirado para os visitantes. A uma certa distância de nós e bem encostadas à cerca, uma senhora bem vestida, a chamada “perua”, exageradamente vistosa e espalhafatosa, fazia em voz alta comentários hilariantes sobre o animal para as duas filhas pequenas. Apontava para o gorila, destacava-lhe a feiura e dava estridentes gargalhadas. Lá de longe o gorila olhava, já agora fixando nela a atenção. De repente, disparou em sua direção. Com um movimento rápido de braço apanhou no meio do terreno um punhado de fezes e com o mesmo movimento atirou-as na mulher. Foi certeiro. Sem dúvida, aquele pobre e solitário gorila tinha se tornado gente.

O homem é um animal, como os outros animais, com a diferença de que é um animal racional, explicava d. Olga, minha dedicada professora do segundo ano primário. Naquela época, isso tinha sentido. Lembro-me bem de que, durante a ditadura militar, um dos presos políticos, submetido a tortura, conseguiu enviar à Sociedade Protetora dos Animais uma petição em que pedia a proteção da entidade. Sendo ele da espécie Homo sapiens, da ordem dos primatas, da classe dos mamíferos e do reino animal, reclamava o direito de ser tratado ao menos como animal, já que não o era como ser humano.

*José de Souza Martins é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP, Doutor Honoris Causa da Universidade Municipal de São Caetano do Sul e autor, entre outros, de 'A sociabilidade do homem

Para um amor no Recife - Teresa Cristina e Grupo Semente

Vinicius de Moraes: A bomba atômica

e = mc2
Einstein

Deusa, visão dos céus que me domina
… tu que és mulher e nada mais!
(Deusa, valsa carioca.)
I
Dos céus descendo
Meu Deus eu vejo
De paraquedas?
Uma coisa branca
Como uma forma
De estatuária
Talvez a forma
Do homem primitivo
A costela branca!
Talvez um seio
Despregado à lua
Talvez o anjo
Tutelar cadente
Talvez a Vênus
Nua, de clâmide
Talvez a inversa
Branca pirâmide
Do pensamento
Talvez o troço
De uma coluna
Da eternidade
Apaixonado
Não sei indago
Dizem-me todos
É A BOMBA ATÔMICA.

Vem-me uma angústia.

Quisera tanto
Por um momento
Tê-la em meus braços
A coma ao vento
Descendo nua
Pelos espaços
Descendo branca
Branca e serena
Como um espasmo
Fria e corrupta
Do longo sêmen
Da Via Láctea
Deusa impoluta
O sexo abrupto
Cubo de prata
Mulher ao cubo
Caindo aos súcubos
Intemerata
Carne tão rija
De hormônios vivos
Exacerbada
Que o simples toque
Pode rompê-la
Em cada átomo
Numa explosão
Milhões de vezes
Maior que a força
Contida no ato
Ou que a energia
Que expulsa o feto
Na hora do parto.
II
A bomba atômica é triste
Coisa mais triste não há
Quando cai, cai sem vontade
Vem caindo devagar
Tão devagar vem caindo
Que dá tempo a um passarinho
De pousar nela e voar...
Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar!

Coitada da bomba atômica
Que não gosta de matar
Mas que ao matar mata tudo
Animal e vegetal
Que mata a vida da terra
E mata a vida do ar
Mas que também mata a guerra...
Bomba atômica que aterra!
Pomba atônita da paz!

Pomba tonta, bomba atômica
Tristeza, consolação
Flor puríssima do urânio
Desabrochada no chão
Da cor pálida do helium
E odor de radium fatal
Lœlia mineral carnívora
Radiosa rosa radical.

Nunca mais, oh bomba atômica
Nunca, em tempo algum, jamais
Seja preciso que mates
Onde houve morte demais:
Fique apenas tua imagem
Aterradora miragem
Sobre as grandes catedrais:
Guarda de uma nova era
Arcanjo insigne da paz!
III
Bomba atômica, eu te amo! és pequenina
E branca como a estrela vespertina
E por branca eu te amo, e por donzela
De dois milhões mais bélica e mais bela
Que a donzela de Orleans; eu te amo, deusa
Atroz, visão dos céus que me domina
Da cabeleira loura de platina
E das formas aerodivinais
— Que és mulher, que és mulher e nada mais!
Eu te amo, bomba atômica, que trazes
Numa dança de fogo, envolta em gazes
A desagregação tremenda que espedaça
A matéria em energias materiais!
Oh energia, eu te amo, igual à massa
Pelo quadrado da velocidade
Da luz! alta e violenta potestade
Serena! Meu amor, desce do espaço
Vem dormir, vem dormir no meu regaço
Para te proteger eu me encouraço
De canções e de estrofes magistrais!
Para te defender, levanto o braço
Paro as radiações espaciais
Uno-me aos líderes e aos bardos, uno-me
Ao povo, ao mar e ao céu brado o teu nome
Para te defender, matéria dura
Que és mais linda, mais límpida e mais pura
Que a estrela matutina! Oh bomba atômica
Que emoção não me dá ver-te suspensa
Sobre a massa que vive e se condensa
Sob a luz! Anjo meu, fora preciso
Matar, com tua graça e teu sorriso
Para vencer? Tua enérgica poesia
Fora preciso, oh deslembrada e fria
Para a paz? Tua fragílima epiderme
Em cromáticas brancas de cristais
Rompendo? Oh átomo, oh neutrônio, oh germe
Da união que liberta da miséria!
Oh vida palpitando na matéria
Oh energia que és o que não eras
Quando o primeiro átomo incriado
Fecundou o silêncio das Esferas:
Um olhar de perdão para o passado
Uma anunciação de primaveras!

sábado, 9 de agosto de 2014

Opinião do dia: Karl Marx

Hegel parte do Estado e faz do homem o Estado subjetivado; a democracia parte do homem e faz do Estado o homem subjetivado. Do mesmo modo que a religião não cria o homem, mas o homem cria a religião, assim também não é a constituição que cria o povo, mas o povo a constituição. A democracia, em um certo sentido, está para as outras formas de Estado como o cristianismo para outra religiões. O cristianismo é a religião ’preferencialmente’, a essência da religião, o homem deificado como uma religião particular. A democracia é, assim, a essência de toda constituição política, o socializado como uma constituição particular; ela se relaciona com as demais constituições como gênero como suas espécies, mas o próprio gênero aparece, aqui, como existência e, com isso, como uma espécie particular em face das existências que não contradizem a essência. A democracia relaciona-se com todas as outras formas de Estado como com seu velho testamento. O homem não existe em razão da lei, mas a lei existe em razão do homem, é a essência humana, enquanto nas outra formas de Estado o homem é a existência legal. Tal a é a diferença fundamental da democracia. "

Karl Marx (1818-1883), Critica da filosofia do direito de Hegel, p. 50. Boitempo Editorial, 2005

Lucro da Petrobrás cai 20% no 2º tri e fica abaixo das expectativas

• Estatal registrou um lucro líquido de R$ 4,959 bilhões no período e contrariou a projeção dos analistas, que esperavam alta nos ganhos; no semestre, lucro foi de R$ 10,3 bilhões, uma retração de 25%

André Magnabosco - Agência Estado

O maior volume produzido de petróleo e gás no território nacional contribuiu para que a Petrobrás registrasse lucro líquido de R$ 4,959 bilhões no segundo trimestre deste ano, mas não foi suficiente para que o resultado trimestral apresentasse elevação quando comparado ao segundo trimestre do ano passado. Nessa base comparativa, o lucro teve retração de 20%. O resultado veio bem abaixo das estimativas dos analistas ouvidos pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, que projetavam uma alta média de 11% nos ganhos da estatal.

O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortizações) ajustado da Petrobrás, indicador que melhor dimensiona a capacidade de geração de caixa de uma empresa, totalizou R$ 16,246 bilhões no trimestre, queda de 10,2% sobre o mesmo período do ano passado (R$ 18,09 bilhões).

Já a receita líquida trimestral atingiu R$ 82,298 bilhões, marca inédita para a companhia. O resultado superou o antigo recorde, de R$ 81,545 bilhões no primeiro trimestre deste ano, e a marca de R$ 73,62 bilhões do segundo trimestre do ano passado.

No acumulado do primeiro semestre, o lucro da estatal somou R$ 10,352 bilhões, retração de 25% em relação ao mesmo período do ano passado (R$ 13,894 bilhões). O balanço foi afetado negativamente pela diferença de preços entre os combustíveis vendidos no Brasil e o valor pago pela Petrobrás no exterior e pela contabilização do Plano de Incentivo ao Desligamento Voluntário (PIDV) anunciado no início deste ano. Pesou a favor da estatal, por outro lado, o efeito positivo do dólar mais alto nas receitas, o maior volume de produção e o reajuste de combustíveis aplicado em novembro passado.

Investimento. Os investimentos da Petrobrás somaram R$ 41,499 bilhões no primeiro semestre, montante 6% inferior ao registrado no mesmo período de 2013. A maior parte dos investimentos foi direcionada à área de Exploração e Produção (E&P), com o equivalente a R$ 26,926 bilhões (65% do total). Na sequência aparecem as áreas de Abastecimento, com aporte de R$ 9,486 bilhões (23% do total) no período, e de Gás e Energia, com R$ 2,590 bilhões (6% do total).

Quando considerado apenas o segundo trimestre, os investimentos somaram R$ 20,915 bilhões, retração de 14,1% em relação ao mesmo intervalo do ano passado.

A Petrobrás planeja investir R$ 94,6 bilhões em 2014, montante 9% inferior ao desembolsado no ano passado (R$ 104,4 bilhões). Em 2013, contudo, a Petrobras investiu R$ 6 bilhões apenas no pagamento em bônus de assinatura referente à participação da estatal no consórcio que venceu o leilão do campo de Libra. A Petrobras assumiu 40% do bônus total pago pelo consórcio, no valor de 15 bilhões.

Produção. A produção de petróleo e gás natural da Petrobrás subiu 2,7% no segundo trimestre deste ano, comparado ao igual período do ano passado, alcançando 2,38 milhões de barris por dia. Frente ao trimestre anterior, a alta foi de 3%.

A produção de petróleo estatal vem crescendo de forma sustentada, saindo de 1,926 milhão de barris por dia (bpd) em março para 2,008 milhões de bpd em junho, ou seja, acréscimo de 82 mil bpd de produção ao longo do segundo trimestre do ano, conforme ressaltou a presidente da empresa Maria das Graças Foster, em carta que acompanha o balanço do segundo trimestre da empresa.

No trimestre terminado em junho foram conectados 17 poços marítimos, número 31% superior ao do primeiro trimestre do ano, quando foram conectados 13 poços. Ao longo do segundo semestre deverão ser conectados mais 33 poços. "Meta plenamente factível uma vez que estes poços, em sua maioria, já se encontram perfurados e completados. Além do que, nossa frota de PLSVs (Pipe-laying Support Vessels), embarcações necessárias para realizar estas conexões, era de 11 unidades em 2013, atualmente já são 14. Serão 19 unidades até dezembro", diz a presidente da empresa na carta.

Segundo a presidente, estes avanços que farão com que a empresa entregue neste ano de 2014 uma produção de petróleo de 7,5% superior ao realizado no ano de 2013.

Após declaração de Adams, Dilma sai em defesa de Graça Foster

• Para a presidente, diretora da Petrobras não cometeu irregularidades

Germano Oliveira e Geralda Doca – O Globo

ITURAMA (MG) e BRASÍLIA - Um dia depois de o advogado-geral da União, Luis Inácio Adams, declarar ao GLOBO que a presidente da Petrobras, Graça Foster, não terá condições de permanecer no cargo se tiver os bens bloqueados pelo Tribunal de Contas da União (TCU), a presidente Dilma Rousseff voltou a defender a dirigente da estatal ontem. Dilma afirmou que, para o governo, Graça Foster não cometeu nenhuma irregularidade, e que não há contra ela qualquer processo.

O ministro José Jorge, do TCU, apresentou esta semana voto defendendo o bloqueio dos bens de Graça Foster no processo que investiga prejuízos causados à estatal na compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. O TCU acabou adiando a votação do bloqueio depois da sustentação oral feita por Adams na sessão da última quarta-feira.

— Eu acho que, nesse momento, o Adams estava defendendo Graça Foster e provando o absurdo que é. Uma pessoa íntegra, correta, competente e capaz, reconhecida não só pelo governo, mas por todo o mercado, não pode ser submetida a esse tipo de julgamento. Eu acredito que tem, por trás, outros interesses — disse Dilma, em Iturama, Minas. — Acho que é absurdo colocar as diretorias da Petrobras submetidas a esse tipo de procedimento. Só 0,05% de todos os projetos que transitaram na CGU pediram a indisponibilidade de bens. A posição do governo é clara. Nós não achamos que pese contra Graça Foster qualquer processo de irregularidade, sequer um processo de irregularidade.

A presidente se irritou com a pergunta e encerrou a entrevista coletiva que concedia perto do canteiro de obras da Ferrovia Norte-Sul, em Iturama.

Outros setores do governo também criticaram a declaração de Adams de que o possível bloqueio dos bens de Graça Foster inviabilizaria a permanência dela no comando da empresa. De forma reservada, assessores do Planalto disseram que Dilma ficou irritada com o tom da entrevista do ministro. Ao GLOBO, Adams defendeu o trabalho e a conduta da presidente da estatal, mas afirmou que um eventual bloqueio dos seus bens por parte do TCU afetaria a legitimidade dela para se manter à frente da Petrobras.

Conselho faz defesa pública
Nas condições atuais, Adams disse não ver motivos para o afastamento de Graça. Para auxiliares do Planalto, no entanto, a declaração do chefe da AGU pôs o governo em situação desconfortável caso o TCU decida pelo bloqueio de bens. Auxiliares da presidente consideraram ainda que Adams acabou abrindo uma brecha para a oposição reforçar seu discurso contra a dirigente.

Em nota, a Petrobras informou no site oficial que o conselho de administração da empresa, reunido ontem, refutou especulações sobre o afastamento de Graça do cargo: “A Petrobras comunica que seu conselho de administração, reunido nesta data (8/8), refuta quaisquer especulações sobre a saída da presidente Maria das Graças Silva Foster”.

A inclusão de Graça na lista dos dirigentes da Petrobras que estão com bens bloqueados seria votada porque o TCU admitiu que houve um erro na sessão anterior em que a corte aprovou a indisponibilidade do patrimônio de ex-dirigentes da estatal. Conforme revelou O GLOBO, na primeira votação, o TCU deixou de incluir Graça por uma falha da relação dos diretores da Petrobras em 2008, quando parte da transação de compra de Pasadena foi aprovada.

No texto do TCU, o ex-diretor Ildo Sauer foi considerado responsável por uma transação sob investigação e, por isso, teve seu patrimônio bloqueado. Mas, na época, Sauer não estava mais na direção da estatal. O cargo dele era ocupado justamente Graça Foster.

Para Dilma, punição do TCU a Graça Foster seria 'absurda'

• Petista sugere que há 'outros interesses' por trás de pressões contra a estatal

• TCU deverá decidir se inclui presidente da estatal na lista de diretores com bens bloqueados

João Alberto Pedrini, Valdo Cruz, Natuza nery e Samantha Lima – Folha de S. Paulo

ITURAMA (MG), BRASÍLIA e RIO - A presidente Dilma Rousseff disse nesta sexta (8) que a possibilidade de o TCU (Tribunal de Contas da União) decretar o bloqueio de bens da presidente da Petrobras, Graça Foster, é um "absurdo" e sugeriu que há "outros interesses" por trás das pressões contra a cúpula da estatal.

"Ela não pode ser submetida a esse tipo de julgamento, que eu acredito que tenha por trás outros interesses. Eu acho um absurdo colocar a diretoria da Petrobras submetida a esse tipo de procedimento", afirmou, durante ato de campanha em Iturama (MG).

A presidente não disse a que "outros interesses" se referia. "A posição do governo é clara. Nós não achamos que a Graça tenha cometido qualquer irregularidade", afirmou.

No final de julho, depois de meses de investigação sobre o caso, o TCU condenou 11 diretores e ex-diretores da Petrobras a devolver US$ 792 milhões (R$ 1,6 bilhão) por prejuízos na compra da refinaria de Pasadena, nos EUA. Eles tiveram seus bens bloqueados.

Graça Foster não estava nesta lista, mas, logo depois, o relator do caso no TCU, José Jorge, disse que foi um erro excluí-la. O tribunal voltou a analisar a questão na quarta (6), mas o relator adiou a tomada de uma decisão.

Graça é amiga da presidente e uma das poucas pessoas que costuma se hospedar no Palácio da Alvorada, residência oficial, quando pernoita em Brasília. Para o Planalto, o episódio é uma tentativa de desgastar Dilma por meio da presidente da estatal.

Por isso, nos últimos dias, a pedido de Dilma, segundo interlocutores, o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, foi ao TCU defender, durante reunião do tribunal, que os bens de Graça e de outros atuais diretores não deveriam ser bloqueados.

Na quinta (7), Adams chegou a dizer que o bloqueio tornaria "inviável" a permanência de Graça na presidência da estatal, alegando que a medida tiraria sua legitimidade para comandar uma empresa movimenta bilhões.

Na sexta (8), o ministro disse que foi mal-entendido. Sua intenção era, segundo ele, fazer uma advertência sobre os impactos negativos sobre a estatal caso essa decisão seja tomada. Segundo ele, não há nenhuma norma ou lei que determine a saída da presidente caso o bloqueio seja aprovado.

O TCU nega que esteja analisando a questão com objetivos políticos e que vai discutir se houve erro ao não incluir a presidente da estatal na lista dos dirigentes que ficaram com os bens indisponíveis.

Segundo a Folha apurou, uma ala do TCU concorda com os argumentos do Planalto e tende a votar contra o bloqueio dos bens. Mas, caso o TCU o decrete, o governo acredita que o Supremo Tribunal Federal deverá derrubar a decisão.

Segundo assessores, a presidente da estatal não teve participação direta na definição da operação, o que deve ser levado em conta caso o assunto chegue ao Supremo.

Nesta sexta, preocupado com os efeitos negativos da informação de que Graça poderia deixar a empresa, a estatal divulgou comunicado aos acionistas informando que o Conselho de Administração da empresa "refuta, por inverídicas, quaisquer especulações sobre a saída da presidente Maria das Graças Silva Foster".

Planalto agora admite que dois servidores atuaram na CPI

• Mas mantém versão de que eles não elaboraram perguntas aos depoentes

Carolina Brígido e Simone Iglesias – O Globo

BRASÍLIA O Palácio do Planalto admitiu ontem que escalou dois funcionários da Secretaria de Relações Institucionais para atuar na CPI da Petrobras, mas negou que eles tenham elaborado ou participado da elaboração de perguntas ou respostas usadas pelos senadores e deputados governistas e pelo depoentes na CPI.

Os dois servidores são o secretário-executivo da Secretaria, Luiz Azevedo, e o assessor Paulo Argenta. Ambos foram designados pelo governo para atuar diretamente no trabalho da comissão de inquérito, participando de reuniões no Senado. O governo diz considerar a participação dos servidores algo “absolutamente normal” e “dentro da legalidade”.

— Azevedo e Argenta tiveram total liberdade da Secretaria de Relações Institucionais para ir ao Senado falar com senadores e assessores. Tudo foi feito dentro da legalidade e faz parte do jogo político — disse ontem um auxiliar direto da presidente Dilma Rousseff. — Eles não fizeram as perguntas. Com relação às respostas, tem razão a presidente Dilma quando diz que ninguém no Planalto teria condições de fazê-las porque elas são muito técnicas.

Reuniões com Berzoini
No Palácio do Planalto, a avaliação é que faz parte das atribuições da Secretaria de Relações Institucionais defender o governo no Congresso Nacional e que esta postura tem que ser fortalecida em situações de embates, como as CPIs. Um integrante do governo lembra que, antes de a comissão de inquérito ser criada, em 28 de maio, várias reuniões ocorreram na Secretaria de Relações Institucionais, que fica no quarto andar do Palácio do Planalto, com o ministro Ricardo Berzoini, chefe da Secretaria de Relações Institucionais, Azevedo, deputados e senadores da base aliada, para tentar impedir que fosse instalada.

As funções de Azevedo e Argenta na CPI, segundo o Planalto, eram de ajudar na elaboração do cronograma de trabalho, tentar impedir ou retardar a votação de requerimentos que não interessassem ao governo, e assistir às reuniões (tarefa de Argenta), para levar informações ao governo sobre a desenvoltura dos depoentes e dos deputados e senadores aliados, e também sobre a atuação da oposição. Segundo o Planalto, a grande maioria dos depoimentos foi transmitida pela “TV Senado” e por sites de notícias, o que legitima a atuação dos funcionários.

Ex-diretor controlava 1.832 contas da Petrobras

• Segundo BC, Costa ainda é responsável por algumas delas

Eduardo Bresciani – O Globo

BRASÍLIA - O ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa — que foi preso na Operação Lava-Jato da Polícia Federal e é um dos principais alvos das CPIs da Petrobras — controlava nada menos que 1.832 contas bancárias da companhia, segundo documento do Banco Central obtido pelo GLOBO. O dado revela o poder de Costa, que ficou no cargo de maio de 2004 a abril de 2012.

De acordo com o documento, contas da companhia continuaram vinculadas a Costa mesmo após sua exoneração do cargo. Em algumas contas, ele aparece até hoje no BC como responsável. A Petrobras informou que o estatuto prevê a representação da empresa pelos diretores, e que os bancos informaram à estatal que Costa não constaria mais nos registros bancários.

Mais de 90% das contas correntes que eram geridas por Costa são do Banco do Brasil. São 1.726 registros no maior banco público do país. Centenas delas só tiveram o vínculo retirado no sistema do BC no dia da deflagração da Operação Lava-Jato da Polícia Federal, em 17 de março deste ano.

Costa foi preso três dias depois, pela suspeita de que tentava destruir provas. A PF identificou depósitos de empresas fornecedoras da Petrobras, principalmente com contratos para a construção da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, para empresas controladas pelo ex-diretor ou pelo doleiro Alberto Yousseff. Costa foi também presidente do conselho de administração da refinaria.

As contas no Banco do Brasil que só deixaram de ser controladas por Costa no dia da operação da PF estão localizadas em dez agências diferentes nos seguintes estados: Rio de Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Sergipe, Bahia, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Norte, além do Distrito Federal. O mesmo ocorreu nos bancos BNP Paribas e Santander.

O levantamento indica que algumas contas da Petrobras continuam até hoje nos dados do Banco Central tendo Paulo Roberto como responsável, representante ou procurador. Isso ocorre nos bancos Bradesco, Itaú e Santander. Nos dois primeiros, os registros localizados são de agências do Rio, enquanto no terceiro a agência fica na capital paulista. Centenas de outras contas, a maioria do Banco do Brasil, só foram desvinculadas de Costa em 2013, mais de um ano depois da saída dele da Diretoria de Abastecimento. Além dos bancos citados, Costa aparece como administrador nos registros de Sudameris e Real, que foram incorporados posteriormente por Santander, BTG Pactual e Votorantim.

O documento do BC não informa o volume de recursos movimentado por Costa nem a data das movimentações. A listagem serviu como base para a quebra de sigilo bancário. No caso da CPI Mista da Petrobras, o pedido foi de quebra de sigilo de todas as contas operadas por ele desde 2005. Por isso, a comissão deve ter acesso à movimentação dessas contas.

A Petrobras afirmou, em nota, que o estatuto da empresa estabelece que dois diretores, em conjunto, têm poderes para representá-la. Disse ter recebido informações dos bancos mencionados de que Costa não figura mais como representante desde sua saída da empresa, em 2012. A estatal sustentou ainda não haver registro de movimentações feitas por ele.

“O estatuto da Petrobras estabelece que dois diretores em conjunto têm poderes para representar a empresa. Contudo, os bancos citados confirmaram que o ex-diretor Paulo Roberto Costa não consta como representante da Petrobras desde a sua saída da diretoria da empresa. As contas relacionadas pertencem à Petrobras. Entretanto, nos nossos controles e nos dos referidos bancos não há registro de qualquer movimentação realizada pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa”, informou a companhia, por escrito.

Graça Foster é alvo de inquérito da PF

• Ministério Público e Polícia Federal apuram se presidente da Petrobrás cometeu crime de falso testemunho em depoimento no Senado

Andreza Matais, Fábio Fabrini - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - A Polícia Federal instaurou inquérito para investigar se a presidente da Petrobrás, Graça Foster, omitiu do Senado informações relacionadas à compra da refinaria de Pasadena (EUA) e sobre a existência de contratos celebrados pela empresa de seu marido, Colin Foster, com a estatal.

O inquérito foi aberto após pedido do Ministério Público Federal encaminhado em junho, conforme informou ao Estado a assessoria de imprensa dessa instituição. Antes disso, Graça Foster havia prestado depoimento à Comissão de Infraestrutura do Senado.

A presidente da Petrobrás ainda pode responder a outro inquérito, que deve ser aberto na próxima semana, para investigar a denúncia de que teria combinado com senadores da base aliada na CPI da Petrobrás as perguntas que lhe seriam feitas na comissão investigativa.

O MPF no Distrito Federal já abriu inquérito nas áreas cível e criminal para apurar essa suspeita - esse caso tem outros ex-diretores da estatal como alvo.

A assessoria da PF informou que este caso está em análise. A corporação não quis comentar o inquérito já aberto sobre o depoimento de Graça no Senado.

Ontem, ao defender a permanência de Graça Foster no comando da Petrobrás, a presidente Dilma Rousseff afirmou que "não há qualquer processo que pese contra" a presidente da estatal (mais informações abaixo).

Audiência. O Ministério Público e a Superintendência da PF no Distrito Federal vão investigar se Graça Foster prestou informações falsas aos senadores, o que poderia configurar crime de falso testemunho. O alvo dessa apuração é o depoimento dela prestado em maio à Comissão de Infraestrutura do Senado.

Na audiência, Graça afirmou que o Conselho de Administração da Petrobrás não teve responsabilidade na compra de Pasadena. Em 2006, o colegiado aprovou a compra de 50% da refinaria por US$ 360 milhões. Após litígio, a Petrobrás adquiriu a segunda metade por US$ 889 milhões. O custo total do negócio foi de US$ 1,2 bilhão.

No mesmo depoimento, os senadores questionaram a presidente da Petrobrás sobre contratos da estatal com a empresa C.Foster Serviços e Equipamentos, pertencente ao marido de Graça Foster. Ela afirmou que a C.Foster não celebrou contratos com a Petrobrás.

Segundo a denúncia que motivou a abertura de procedimento no MPF e depois a do inquérito policial, a Petrobrás tem negócios com a C. Foster Serviços e Equipamentos. "A senhora Graça Foster foi muito além dos atos de improbidade alhures elencados. Ela, nitidamente, operou tráfico de influência para favorecer a empresa de seu marido no firmamento de 43 contratos com a Petrobrás, sendo 20 deles sem licitação", escreveu o senador Mário Couto (PSDB-PA), autor de representação ao MPF que desencadeou a investigação oficial.

Ontem a estatal informou que, até o momento, "a presidente da Petrobrás não teve conhecimento da abertura do mencionado inquérito".

Petista diz que depende da 'graça de Deus' para governar

- Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Em busca do voto evangélico para sua reeleição, a presidente Dilma Rousseff fez nesta sexta-feira (8) um aceno aos religiosos ao dizer que "todos os dirigentes desse país dependem do voto do povo e da graça de Deus".

A petista participou de congresso da Assembleia de Deus Ministério de Madureira, com mais de 5.000 pastoras e missionárias da ala comandada pelo bispo Manoel Ferreira, que apoia seu adversário Pastor Everaldo (PSC). Apesar de sustentar que o Estado brasileiro é laico, ela citou duas vezes um salmo que diz que "feliz é a Nação cujo Deus é o senhor".

Na campanha de 2010, a petista enfrentou resistência dos religiosos pela polêmica em relação ao aborto. No governo, chegou a travar embates com evangélicos no Congresso e acabou recuando, como na distribuição de material com conteúdo sobre orientação sexual em escolas, chamado de "kit-gay".

A petista diz que teve educação católica, não é praticante, mas no aperto "apela para Nossa Senhora".

No ato desta sexta, Dilma rezou o Pai Nosso, disse acreditar no poder da oração e contar com preces a seu favor. A petista elogiou o trabalho social da Assembleia de Deus e exaltou vários programas sociais do governo.

Dilma não tratou do aborto no evento. Líder do PMDB na Câmara, o deputado Eduardo Cunha (RJ), presente ao ato, agradeceu a derrubada de uma portaria do Ministério da Saúde que, na interpretação de religiosos, flexibilizava a interrupção da gravidez.

A presidente foi aplaudida por mais de dez vezes peloas presentes. "Saímos de alma lavada", disse o bispo Manoel Ferreira. Pastoras contaram à reportagem que receberam orientação da igreja para não se manifestar contra Dilma.

Paulo Skaf insiste que Dilma não terá palanque do PMDB em SP

• Candidato diz que aceitar presidente ao seu lado confundiria o eleitor

- O Globo

SÃO PAULO - O candidato do PMDB ao governo de São Paulo, Paulo Skaf, reiterou que não vai dar palanque à presidente Dilma Rousseff (PT). Em sabatina realizada pelo jornal "O Estado de São Paulo", Skaf voltou a afirmar que o PT é um adversário. Para ele, aceitar Dilma ao seu lado "confundiria o eleitor". Até os materiais de campanha do PMDB ao governo paulista não terão nenhuma referência à Dilma ou ao PT.

- Sempre reterei que PT e PSDB são meus adversários. Então, eles não estarão no meu palanque. Mas o meu voto é o voto do meu partido.

A crise entre o PMDB e o PT começou no final de julho, quando Skaf, em sua conta no Facebook, ironizou a possibilidade de apoiar a campanha de reeleição da presidente. A vinculação do material desagradou o vice-presidente da República, Michel Temer, e deflagrou uma crise no partido.

O material mostra o candidato dentro de um vagão do metrô quando é indagado: "Skaf, e esse papo de apoiar o PT?". Na sequência, ele sorri e responde com um bordão provocativo: "Sabe de nada, inocente!".

Ao GLOBO, na terça-feira, interlocutores do vice-presidente informaram que ele esperava um passo atrás de Skaf para tentar manter um canal de comunicação com o PT, visto por Temer fundamental em um eventual segundo turno. Incomodado, Skaf se limitou a dizer:

- Meu voto pessoal é com o presidente do Temer - disse, sem se referir ou citar Dilma.

Ele negou ter sido enquadrado pelo vice-presidente:

- Eu falo com ele diariamente. Eu o considero um amigo. Não é perfil do vice-presidente enquadrar pessoas. E também não meu perfil receber enquadramento de ninguém. Mas deixo claro que o PT e PSDB são meus adversários. Até porque confundiria o eleitor.

Eduardo Campos faz críticas à política econômica do governo

• Candidato diz que inflação está corroendo o salário do trabalhador

- O Globo

GARANHUNS (PE)- O candidato do PSB à presidência, Eduar do Campos, fez críticas on tem à política econômica e afirmou que a inflação regis trada no governo da presi dente Dilma Rousseff está corroendo o salário do tra balhador, que, segundo ele, "não dá mais para o mês to do", Campos fez o comentá rio no município de Gara nhuns, localizado a 230 qui lômetros da capital de Per nambuco, onde ele partici pou de carreata.

Inaugurada nova casa
Na cidade, ele inaugurou uma casa de Eduardo e Mari na e, antes de partir em car reata, conversou rapida mente com a imprensa, disse aos jornalistas que a peque na desaceleração da inflação no mês de junho não foi sufi ciente para reanimar a eco nomia.

— A inflação no teto, no momento em que o Brasil tem uma paralisia da econo mia, que começa a derreter empregos, e a gente sabendo que, no gabinete, na gaveta da presidente Dilma, estão retidos aumentos do com bustível e da energia. É claro que não tem o que comemo rar — disse o presidenciável, acrescentando que a reto mada do crescimento exige a combinação de inflação na meta e "câmbio ajudando o país a exportar mais".

Campos diz que segurança 'não é só na Copa'

• Em município com alto índice de violência, candidato critica política federal para o setor

Patrícia Bastos- O Estado de S. Paulo

ARAPIRACA (AL) - O candidato à Presidência pelo PSB, Eduardo Campos, criticou ontem a política de segurança do governo federal durante as atividades de campanha no município de Arapiraca, no interior de Alagoas, uma das cidades com maior índice de violência do País, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Em encontro com jovens ontem de manhã, Campos disse que "tem que ter segurança pública todo dia, não só na Copa", e condenou a redução de policiais na região de fronteiras.

"No Brasil, existem hoje muitas Faixas de Gaza. Os jovens, os negros, os pobres estão morrendo, e o que já foi feito em relação a isso? A presidenta Dilma tirou três mil homens da Polícia Federal que vigiavam as fronteiras do País, impedindo a entrada de drogas e armas", afirmou, antes de anunciar que seu programa de governo prevê a criação de um Fundo Nacional de Segurança Pública, ao qual Estados poderão recorrer para reduzir os índices de violência.

"Não adianta mandar um avião com homens da Força Nacional que vão embora 60 dias depois. Isso não é fazer segurança pública", reforçou, dizendo ainda que, no período em que foi governador de Pernambuco, a capital Recife saiu de uma das cidades mais violentas do País para um dos municípios que tiveram a maior queda na quantidade de mortes violentas.

Acompanhado pelo candidato ao governo de Alagoas Benedito de Lira (PP), Campos ganhou bolo e uma camiseta da Agremiação Sportiva Arapiraquense (ASA) de presente - ele faz aniversário amanhã.

O candidato mais uma vez assegurou a continuidade do programa Bolsa Família, responsabilizando funcionários do governo petista por "disseminar" que o programa de transferência de renda seria extinto.

Nordeste. "Nossa intenção é ampliar o Bolsa Família e fazer pelo Nordeste o que a presidenta poderia ter feito nos últimos quatro anos e não fez, porque ela olha para o Nordeste como um curral eleitoral.

Mas somos gente e merecemos respeito. Queremos Bolsa Família, mas também queremos trabalho, indústria, segurança e acesso à água."

No encontro com trabalhadores rurais, as lideranças locais falaram das dificuldades enfrentadas por causa da seca nos últimos anos e pediram que Campos se comprometa com o perdão das dívidas dos agricultores familiares. "Fico assombrado com as cobranças sociais feitas aos trabalhadores do campo. O governo parece que não percebeu que passamos por três anos de seca em que o que foi investido se perdeu. É preciso reverter esse quadro para que o governo não viva apenas da propaganda do Bolsa Família, que, aliás, é a única proposta da presidenta Dilma."

Em seguida, reclamou da atual política econômica e disse que, depois de encerrado o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, do qual Campos participou como ministro, o País retrocedeu. "O que a gente vê é que a inflação está de volta e, enquanto isso, a presidenta Dilma deu mais de R$ 6 bilhões para o setor elétrico, que tem um péssimo serviço prestado. E esse dinheiro vai sair do bolso da população.

Não podemos permitir que o Brasil perca as conquistas obtidas no passado. Já são 20 anos de governo do PT e PSDB, é preciso mudar. Precisamos ter um governo que olhe para os mais necessitados", ressaltou.

Após os dois encontros, o candidato à Presidência pelo PSB inaugurou um comitê de campanha na cidade.

Aécio critica Dilma e diz que maioria é pessimista

• Tucano visitou centro de dependentes químicos

Cristina Camargo – Folha de S. Paulo

BOTUCATU (SP) - Em resposta ao discurso da presidente Dilma Rousseff de que "a verdade vai vencer o pessimismo", o presidenciável Aécio Neves (PSDB) disse nesta sexta (8) que a maioria da população é pessimista.

"Assisti ontem a declarações da presidente que mais uma vez disse que a responsabilidade sobre o ambiente no Brasil é dos pessimistas. Então, somos mais de 75% de pessimistas", disse o tucano durante ato em Botucatu (SP).

"É bom que fique claro que o pessimismo não é em relação ao Brasil. O pessimismo é em relação ao governo. A este governo que fracassou."

Aécio fez campanha nesta sexta ao lado do governador Geraldo Alckmin (PSDB), candidato à reeleição, e do ex-governador José Serra (PSDB), que disputa vaga no Senado. Ele visitou uma clínica para dependentes químicos e protagonizou uma cena curiosa. Após dizer frases de apoio aos pacientes, Aécio desafiou um deles a jogar sinuca: "Se eu matar essa bola, você tem que prometer ficar firme no tratamento", propôs. Errou três vezes.

Um de seus assessores então ajeitou as bolas, e Aécio conseguiu "matar" a bola 13, número do PT. Foi aplaudido pelos aliados, assessores e cabos eleitorais que o seguiam.

Os pacientes Bruno Alberto, 25 anos, e Ediel Henrique, 29, contaram ao presidenciável detalhes sobre seus respectivos tratamentos. Logo após a conversa, Ediel perguntou: "Mas quem é ele?".

Em seguida, Aécio, Alckmin e Serra caminharam pelo centro de Botucatu, tomaram café numa padaria e abraçaram as pessoas que os abordaram.

'Precisamos arrecadar mais', afirma Aécio

• Tucano, que recebeu R$ 11 milhões em doações, o maior valor entre os candidatos, diz que obteve 'pouco ainda' para 'fazer frente' aos adversários

René Moreira - O Estado de S. Paulo

BOTUCATU (SP) - O candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, reagiu ontem com ironia à pergunta sobre o fato de ter sido o presidenciável que mais obteve doações para a campanha até agora. "Arrecadamos muito pouco ainda, precisamos arrecadar mais para fazer frente a esses que estão aí...", disse Aécio, durante visita a Botucatu, no interior de São Paulo.

Na largada da campanha eleitoral, Aécio arrecadou ao menos R$ 11 milhões em doações de empresas e pessoas físicas, mais que a presidente Dilma Rousseff, cuja prestação parcial registrou entradas de R$ 10,1 milhões. Eduardo Campos (PB) obteve R$ 8,2 milhões.

Ontem, o tucano voltou a fazer críticas a Dilma, sua principal adversária na disputa presidencial. "É hora de a presidente sair do casulo, dos eventos programados e armados". E ao sair às ruas, prosseguiu o tucano, rebatendo declarações da candidata petista à reeleição contra a oposição, ela verá "que o pessimismo ao qual se refere não é da oposição, é dos brasileiros em relação ao seu governo, não em relação ao País".

Aécio caminhou pelas ruas centrais da cidade, ao lado do governador Geraldo Alckmin (PSDB), e fez uma visita ao Centro de Referência de Dependentes Químicos. Em outra crítica ao atual governo, ele disse que a petista "fracassou na conduta da economia e na gestão do Estado brasileiro".

Empatado. O candidato tucano disse ainda que muitas pesquisas já o colocam em empate técnico com Dilma em um eventual segundo turno. "Meu nome vem crescendo de forma consistente em todas as pesquisas. E o dado mais interessante é que no segundo turno houve uma aproximação maior, apesar de muitas pesquisas já mostrarem empate técnico", acrescentou.

Ele afirmou também que não tem pressa quanto ao crescimento de seus índices nas pesquisas de opinião: "Não tenho pressa, quero ganhar a eleição em 5 de outubro e, se não der, vai ser no segundo turno. Agora o que estamos fazendo é isso, andar nas ruas, olhar e conversar com as pessoas."

Para ele, com o horário eleitoral sua candidatura e as de outros oposicionistas vão crescer nas pesquisas. "Não tivemos ainda a exposição que todos terão ao longo da campanha.

‘Sou candidato a vice, não a subpresidente’, diz Aloysio Nunes

• Vice na chapa do candidato à Presidência Aécio Neves, o líder do PSDB no Senado disse que será um assessor de Aécio

Maria Lima, Paulo Celso Pereira e Sergio Fadul – O Globo

BRASÍLIA — Com fama de mal humorado, o candidato a vice-presidente na chapa de Aécio Neves, o líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes, encerrou a entrevista ao GLOBO, nesta terça-feira, cantarolando um samba eternizado na voz de Moreira da Silva para criticar a obsessão do ex-presidente Lula em eleger “postes” e manter o PT no poder. “O Lula é o Piston de gafieira”, brincou o tucano, cantando a música que diz: “Quem está fora não entra, quem está dentro não sai”.

Apesar de reconhecer que Lula esgotou a capacidade de tirar da cartola mágica um candidato ungido como sendo portador da felicidade do povo, como a presidente Dilma Rousseff e o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, Aloysio diz que ele é um grande líder e um adversário a ser temido. E que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não transfere votos, mas é um selo de qualidade na campanha tucana.

Em outro momento, ao afirmar que o trio Geraldo Alckmim, José Serra e Aécio Neves está afinado e feliz, cada um tocando sua campanha de vento em popa, citou uma expressão francesa: tout bien dans votre peau (todos bem em sua pele). Aloysio tem diferenças de perfil com Aécio — não tem problema em assumir posições polêmicas na contramão da opinião pública —, mas disse que não será eleito sub-presidente, e sim vice. Não pretende ocupar um cargo executivo, como José Alencar no Ministério da Defesa.

O tucano diz que será um assessor de Aécio, com quem se dá muito bem e por quem tem laços profundos de afeto. Os dois primeiros dois anos de governo , diz, serão muito difíceis, mas só a eleição de Aécio já criará um clima de retomada de confiança. “O problema é se a presidente Dilma for sucedida por ela mesma”.

Como equilibrar o discurso das "medidas duras" e não assustar servidores e beneficiados de programas sociais?

A simples vitória da Oposição já vai dar um novo clima de confiança no País. Hoje não só os analistas do Santander, mas a dona de casa que vai no supermercado, tem horror a permanência da Dilma no Planalto. Aécio vai tomar as medidas corretas. Ninguém toma medidas duras porque gosta. Vai ter que equilibrar as contas públicas porque simplesmente não dá mais para continuar como está.

Ele vai ter coragem de dizer que os dois primeiros anos vão ser muito duros e que só no terceiro será possível respirar?

Quem assumir o governo depois de Dilma vai encontrar dificuldades imensas: inflação alta, contas públicas desarrumadas, a indústria no buraco, balança comercial deficitária. O problema é se a presidente Dilma for sucedida por ela mesma, porque já mostrou incapacidade de fazer um diagnóstico da situação e atribui sempre a causas externas os maus resultados do seu governo. Quem não tem um diagnóstico correto da situação não tem condições de remediar os males. Ela não tem agenda, não tem medidas de longo prazo. É um governo que vive as apalpadelas.

É um risco qualquer candidato que a suceda seja visto como salvador da pátria e não consiga atender as expectativas?

Felizmente chegamos a um nível de amadurecimento, ou talvez de descrença na classe política, que ninguém mais acredita em salvador da pátria. O que queremos é um bom governo. Não seria pedir demais um bom governo.

Esse novo escândalo da CPI da Petrobras, ele encobre ou neutraliza o efeito negativo do problema do aeroporto de Cláudio para Aécio?

O problema de Aécio com o aeroporto de Cláudio foi ter feito um voo com o aeroporto ainda não homologado.

Dilma foi trazida novamente para o olho do furacão com essa confusão da CPI denunciada pela revista Veja?

Eles são uns trapalhões, essa é a verdade. E cada trapalhada, o tiro sai pela culatra. É um ultraje à instituição (do Senado). Um ultraje a um dos poderes mais importantes do Senado, que é o poder de investigação . Fico imaginando se uma farsa grosseira como essa acontece numa comissão de inquérito do Senado americano, qual seria a reação do presidente do Congresso? Hoje tivemos senadores do Governo dizendo aqui que isso é normal, que é assim que se faz. Eu acho isso uma indecência!

Qual vai ser a presença desses elementos na Campanha? Quanto o PSDB vai abordar as falhas do governo e o quanto tem que projetar para o futuro?

A tônica da nossa campanha será sempre projetar para o futuro. Mas para projetar o futuro tem que corrigir o que está errado e dizer sua opinião sobre as causas que levaram ao estado de degradação política e econômica que estamos vivendo. As duas coisas são indissociáveis. O caso da Petrobras mostra bem isso: o loteamento dos cargos para pessoas incompetentes e os maus resultados da empresa.

Mas a presidente Dilma adotou o slogan: a verdade vai vencer o pessimismo.

Dilma não entregou o que prometeu, não foi a grande gestora que foi apresentada na campanha, os resultados do governo dela em todas as áreas são muito ruins ou insuficientes. A frustração e a sucessão de escândalos pode levar ao voto da oposição, mas também pode levar ao desencanto, a apatia e ao abandono da cena política. Podem dizer: isso aqui é uma farsa! Uma CPI que se esperou tanto terminar nessa pizza miserável, estragada, podre? Isso alimenta o desalento.

Houve o episódio do blogueiro que veio interpelá-lo e o senhor acabou perdendo as estribeiras. O senhor teme uma degradação ainda maior do nível da campanha?

Pra baixo da cintura não fomos nós que levamos. Agora, eu temo por baixarias homéricas do outro lado. Já começou na internet, um exército de robôs replicando mentiras e notícias falsas para destruir a reputação dos adversários. Publicaram ao meu respeito coisas diametralmente opostas do que eu fiz na realidade: "Aloysio votou contra a PEC do trabalho escravo", mas eu fui relator da PEC do trabalho escravo; "Aloysio votou contra a comissão da verdade", e eu fui o relator da comissão no Senado; "Aloysio é homofóbico", eu sou o sujeito mais avesso a qualquer tipo de preconceito que existe no mundo! Disseram que votamos contra o Mais Médicos e é mentira. Votamos a favor e apresentamos uma emenda obrigando os cubanos a fazerem o Revalida.

Falta proposta?
Sim! O discurso se esgotou , o que ela tem a propor para o futuro? A reeleição tem essa função: não deu certo, troca. Não tem segunda época, não tem recuperação como se tem na escola onde é proibido colar.

Eles usaram a tática do medo. Acha que isso pode ter bom resultado?

Ah! Isso não cola mais . Essa não é a realidade do País. As pessoas sentem que as coisas melhoraram e vem melhorando ao longo dos anos. Só que não é mais suficiente. Começa a patinar.

O senhor é a favor da manutenção da reeleição?

Sou a favor.

O senhor evita adotar posições apenas por serem populares, já Aécio tem um jeito mineiro, de diálogo com todas as forças. Essa diferença de perfil, num eventual governo, pode dar problema?

Entre o Aécio e mim? Sou candidato a vice-presidente, não a sub-presidente. Minha função é colaborar e eu tenho com ele a mais absoluta identidade nas questões fundamentais.

O vice José Alencar chegou a ocupar outros cargos, foi ministro da Defesa...

Eu já fui secretário quando fui vice-governador . No governo Fernando Henrique o Marco Maciel não foi ministro, mas colaborou muito com o presidente. Eu não tenho nenhuma pretensão de ocupar cargo executivo.

As pesquisas mostram que Dilma está em dificuldades até no ABC, reduto do petismo. O ex-presidente Lula está perdendo força?

Lula garganteou sua capacidade de eleger um poste. Só que os postes que ele elegeu não aprenderam a governar: Haddad, e na minha opinião, Dilma Rousseff. Essa capacidade do Lula demiúrgica de tirar da cartola mágica um candidato ungido como sendo portador da felicidade do povo, essa capacidade se esgotou. Padilha seguramente é mais um poste que não vai se acender. Agora, o Lula é uma pessoa importante, um líder político com enorme capacidade, é um adversário temido.

O senhor acha que as pessoas perderam o encantamento que tinham em relação a ele?

Acho que sim. Aqueles que estudam e se informam com mais cuidado sabem que o desastre da Dilma teve precedentes, ela não improvisou . O Lula que armou todo o cenário e a bomba acabou estourando nas mãos dela. Mas ele continua sendo uma pessoa de carisma inegável.

O senhor foi o primeiro majoritário a se eleger colocando o Fernando Henrique como figura central da campanha. O que de fato ele agrega a uma campanha eleitoral?

Eu era desconhecido e precisava mostrar qual era a minha família política, qual era minha turma, em que corrente da política eleitoral paulista se inseria minha candidatura. E o Fernando Henrique era a grande diferença. Ele está para o PSDB como o Lula está para o PT. São duas figuras que exercem uma identificação política nessas duas correntes. O Lula está justamente entronizado no panteão dos petistas, e nós temos muito orgulho de ter o Fernando Henrique como uma referência para nós em termos de valores políticos, de compreensão de Brasil. Agora, eles não são candidatos, nem Lula nem Fernando Henrique. Nosso candidato é o Aécio Neves, e o candidato do PT é a Dilma Rousseff. Fernando Henrique não transfere votos porque não é candidato, mas ele é um selo de qualidade.

O PT tem tentado cunhar que o PSDB é o partido da elite. O senhor concorda?

A Dilma é da elite, o Lula é da elite. Lula não trabalha na fábrica há mais de 40 anos , é da elite sindical e econômica. Nós ganhamos do PT em várias paradas duras. Nas eleições municipais ganhamos em Manaus, em Belém, Teresina, Maceió, em Salvador com um aliado nosso, em Aracaju. Em 2010 o Serra teve mais de 40 milhões de votos. Em duas eleições levamos para o segundo turno e Fernando Henrique ganhou no primeiro. Eles não tem o monopólio do acesso ao povo. Isso é conversa do Lula, demagogia! Ele é da elite, foi entronizado, é o queridinho do mercado financeiro, tem um banqueiro para chamar de seu, manda no Santander, mandou demitir funcionário, o que é pior. O seu grande amigo, o Botin, sabujamente se ajoelhou e mandou embora a moça. Imagina essa condução do governo! Eu tenho mil críticas a condução da economia, a mediocridade na educação, ao desastre na saúde, a omissão na segurança pública. Mas pior que a incompetência é essa cultura política que leva a presidente da República a apontar o dedo para um presidente de banco e dizer: preciso ter uma conversa com o senhor porque teve uma análise que apontou aquilo que todos sabiam! È como você quebrar o termômetro que apontou a febre ! Isso para mim é terrível! Se os boletins fossem favoráveis? Então é assim: dá dinheiro para nossa campanha , mas fica de bico calado! Esse é o tipo de cultura política antidemocrática.

O senhor foi escolhido vice para evitar que Aécio fosse cristianizado. O quanto isso tem de verdade? E acredita que paulista vai votar em mineiro?

Olha, eu fui escolhido candidato porque tenho uma ou outra qualidade. Entre essas qualidades não está o fato de eu ser avalista da lealdade de Geraldo Alckmin ou José Serra, porque ele não precisa disso. O fato é que o Aécio, antes de ser escolhido candidato, ele ganhou o PSDB . Realizou 18 reuniões regionais , com uma disciplina beneditina, onde transmitiu a confiança de que ele era um bom candidato a presidente. Ele trabalhou! Nunca houve por parte do Serra ou Geraldo uma tentativa de retaliar por causa do resultado eleitoral de Minas, que se deveu a uma série de circunstâncias que não necessariamente devidas ao empenho do governador na época . O que queremos é ganhar as eleições.

Hoje Aécio é quase um paulista... Ele sai vitorioso de São Paulo?

Eu não tenho dúvida nenhuma! Nós vamos votar nele sim. Os paulistas vão votar no Aécio . O Serra teve em São Paulo 1.8 milhão de votos a mais. Foi uma candidatura contra a corrente. Lula no auge da popularidade, economia crescendo a 7% , o desejo de continuidade e o governo nas mãos de alguém apresentada como uma grande gestora. Hoje as condições são inteiramente contrárias e o partido está unido. O Alckmin está muito bem, o Serra empenhadíssimo na campanha , há a volta do orgulho de ter um senador do porte do Serra, e o Aécio é um excelente candidato , é um sujeito que chega e encanta! Tem bom discurso, toca nos pontos certos, carismático.

Estão todos bem na sua própria campanha, não é?

Todos muito bem, cada um como dizia o francês , tout bien dans votre peau ( todos bem em sua pele)

Como o senhor explica o tamanho da rejeição da presidente no estado de São Paulo e a popularidade de Alckmin um ano depois das manifestações de junho , depois de 20 anos do PSDB no governo, da fadiga de material , crise hídrica e denúncias no metrô?

Hoje a política, em grande parte , se desdramatizou. Todas as grandes correntes políticas já tiveram experiências de governo. Não existem mais grandes ideologias como motor de movimentos de eleitorados. O PT desmoralizou a própria ideia da utopia , ainda bem. Então o que o povo quer hoje é um bom governo, que administre bem, que seja honesto, que escolha um boa equipe, que planeje, que cobre resultados, que dialogue, que ouça a sociedade , que agregue. É isso que o povo quer! Qualidade de vida, serviços decentes. O Alckmin é a encarnação disso. 

O grande desejo do Lula de ganhar em São Paulo vai ter que esperar...

A obsessão do Lula de ganhar a eleição estadual? Ah! Essa? Esquece!

O senhor acha que o caminho natural de Eduardo Campos é que ele se aproxime de Aécio num segundo turno?

As pesquisas mostram hoje que no segundo turno há uma grande convergência do eleitorado que não quer Dilma e deseja uma mudança, seja para um lado ou outro. Ninguém comanda voto de ninguém no segundo turno. Você evita quem você rejeita.

Mas até por uma questão de convergência política, porque depois o País precisa ser governado...

Claro! Aí a disposição do Aécio é somar, e ele tem temperamento e tradição política para isso .

O vice José Alencar era polêmico, com posições as vezes contrárias ao governo. Michel Temer é mais introvertido. Qual será seu estilo como vice -presidente?

O vice -presidente Michel Temer é o chefe de um partido político, uma compensação que simbólica que o PT tem, em relação ao fato de que o PMDB, sendo um gigante no Congresso, é um anão no governo. Ele exerce um papel grande na agregação do partido, embora com dificuldades crescentes como se viu agora na convenção. Marina Silva, eleita vice-presidente, será ao mesmo tempo a vice e uma rival, porque o sonho dela é ser presidente da República desde que tenha um partido para chamar de seu, está hoje hospedada no PSB. Eu não. Não tenho ambição política de ser presidente da República, sou alguém que adquiriu uma experiência considerável na minha vida pública, intelectual , na trajetória da minha existência. E tenho com o Aécio não só uma afinidade política, mas uma sintonia afetiva muito grande. Eu não quero cargo. Quero fazer o que for mais útil , ser um colaborador, o que não impede que possa dar um palpite errado ( risos). Zé de Alencar foi um símbolo que o Lula deu ao empresariado para dizer: toda aquela estória que eu pregava antes era besteira e agora sou um homem bem comportado, agora sou da elite, está aqui meu empresário. Foi o símbolo de uma aliança social.

Como será, na formação do governo, tirar hábitos tão arraigados de receber ministério de porta fechada, de emparedar o presidente, governar sem essa troca permanente?

Sou a favor do voto distrital na reforma política. Há um sentimento de que esse tipo de eleição proporcional já não dá mais , que o que se gasta hoje ninguém mais está disposto a pagar. Em São Paulo se fala numa campanha de deputado estadual de R$5 milhões, federal, R$8 milhões. Isso é impossível, completamente fora de propósito. A ânsia de nomeações pode ser combatida também com a redução dos cargos a nomear. Você mata dois coelhos numa só cajadada. Faz economia e restringe o mercado político. O que importa mais na relação com o Congresso é a atitude do presidente. Tem que ter uma agenda clara para melhorar o País, propor ao Congresso essa agenda com clareza, como fez o Fernando Henrique quando assumiu , o Lula no seu primeiro mandato. Mobilizar apoios políticos em função desta proposta, recorrendo inclusive a opinião pública. O presidente tem um poder enorme de se comunicar com o povo, tem um papel pedagógico que não pode ser subestimado, tem que ser bem utilizado. Fernando Henrique reuniu os partidos para discutir as propostas de emendas constitucionais e reformas e pediu apoio a elas. Agora , a participação dos partidos no governo é algo necessário e desejável , mas dentro de determinados limites. Você não pode nomear qualquer um, tirar um ministro bem avaliado para, sabe-se lá o que significa atender um partido, como é o caso do ministro César Borges, que ia bem , honrado e bom ministro. O presidente é quem tem que dar o tom.