O Globo
Candidatos fogem de confronto e encerram
entrevistas ao ouvir questões incômodas
Flávio Bolsonaro estava à vontade. Escoltado
por Paulo Skaf, desfilou pelos salões da Fiesp como novo escolhido do
empresariado paulista. O senador esbanjou bom humor até se deparar com um grupo
de repórteres. Mudou de semblante ao ouvir uma pergunta sobre o caso “Dark
horse”, que revelou suas relações com Daniel Vorcaro.
“Gente, olha só... vocês vão parar no tempo?”, reagiu, sem disfarçar a irritação. “Não adianta, vocês não vão me colocar na mesma página desse cara. Hoje o governo Lula é que deve explicações. Vão cobrar explicações dele”, ordenou, antes que uma assessora encerrasse a entrevista.
O candidato do PL engrossou com os
jornalistas na noite de segunda-feira. Na manhã de terça, foi a vez de Lula
abandonar uma coletiva após ser questionado sobre os rolos do filho Fábio Luís.
O presidente havia caminhado até os repórteres ao fim da cerimônia do Dia do
Soldado. Falou o que quis sobre soberania e investimentos em Defesa. Ao ouvir
uma pergunta sobre Lulinha, deu as costas e bateu em retirada.
Lula e Flávio são muito diferentes, mas têm
adotado táticas semelhantes. Querem fazer campanha no olimpo, a salvo do
escrutínio e do contraditório. Por isso, fogem de entrevistas longas, sabatinas
e debates. Preferem falar em ambientes controlados, onde não precisam enfrentar
temas incômodos.
O presidente passou a abrir o palácio a
youtubers e influenciadores que só faltam lhe pedir autógrafo. O senador
reeditou as lives em que o pai pregava para a bolha da extrema direita. No
domingo, os dois se uniram no boicote ao debate da Band. Usaram desculpas
variadas: a presença de nanicos, o risco de pegadinhas, o formato previamente
aceito por seus próprios assessores.
O mau comportamento dos presidenciáveis já
foi imitado por candidatos a governador. Eduardo Paes e Sergio Moro também
faltaram aos primeiros debates no Rio e no Paraná. Esconderam-se atrás da
liderança nas pesquisas, descrevendo como estratégia o que foi apenas soberba e
desrespeito ao eleitor.
Se pudessem, Lula e Flávio se limitariam a
recitar discursos e gravar peças de propaganda. Os dois só confirmaram presença
na bancada do Jornal Nacional, onde falarão nos próximos dias, porque sabem que
o custo da ausência seria maior.

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