Folha de S. Paulo
Pela lei e pela lógica, inquéritos contra
Lulinha deveriam estar na primeira instância
A tendência, porém, é ministros do STF
manterem as investigações sob sua guarda
Pelo que foi vazado até aqui, as suspeitas contra Fábio Luís Lula da Silva, o popular Lulinha, ganharam embaraçosa materialidade. Não acho que o caso levará muitos petistas a desistir de votar em Lula, mas poderá custar votos entre eleitores desalinhados, que tendem a ser decisivos num eventual segundo turno. O que serve de consolo para a campanha de Lula é que seu principal adversário, Flávio Bolsonaro, também está envolvido em suspeitas e muito mais diretas —não é mesmo, irmão Vorcaro?
Mas não é o quadro eleitoral que eu gostaria
de discutir hoje e sim o STF. Pela letra
fria da legislação, os inquéritos contra Lulinha não deveriam estar sob
supervisão da corte, mas sim de um juiz de primeira instância. Nem Lulinha nem
seus cossuspeitos têm prerrogativa de foro especial. A própria PGR, que teve
acesso a todo o papelório, já recomendou que o caso seja remetido à primeira
instância, mas, ao que tudo indica, André
Mendonça e Flávio Dino,
os ministros do STF que controlam as investigações, irão mantê-las sob sua
guarda.
O argumento de que "pode ser" que
pessoas com foro venham a ser implicadas é problemático. Em termos estritamente
lógicos, não podemos descartar que o papa esteja envolvido. Mas isso obviamente
não nos autoriza a transferir o caso para o âmbito do direito canônico. Num
sistema funcional de foro especial, inquéritos ficam sob a guarda do juiz
natural e só sobem na hipótese de envolvimento constatado de autoridade. As provas
até então coletadas, é igualmente óbvio, precisariam ser preservadas.
Por que então o STF não segue a lei nem a
lógica? Inquérito é poder, e, da Lei de Ferro das Oligarquias à Escolha
Pública, há toda uma família de teorias da ciência política que tentam explicar
por que elites, depois que se envolvem em jogos políticos, não apenas não abrem
mão de poder como tentam expandi-lo. Em algum sentido, lutam pela própria
sobrevivência.
O triste é que, quanto mais os Poderes se
aprofundam nessa disputa, menos funcional a República vai se tornando.
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