sábado, 22 de agosto de 2026

Se essa livraria fosse minha, por Eduardo Affonso

O Globo

Jamais terei uma: me contento com ir trazendo um pouco de cada uma para dentro de casa

Alguém um dia olhou para uma livraria e disse: “É uma janela”. Talvez pensasse no Drummond de “O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar”. Ou, mais modestamente, no clichê das janelas da alma. Não importa: numa livraria cabe o mundo, por grande que ele seja. Por ela se enxerga a invisível, intangível, inexistente alma humana.

Mas janela é uma portinhola, uma januella — a pequena janua, como os romanos chamavam a porta da rua, passagem do reino de dentro ao de fora, numa evocação ao deus de duas caras, Janus, que vê ao mesmo tempo o futuro e o passado. Janela é por onde se espia; livraria é mais: é por ali que se entra. Para avistar o já feito — na estante dos fundos, destinada aos clássicos — e vislumbrar o por fazer, na banca da entrada, território do que só existirá depois de lido.

Pode ser que haja mundo afora livrarias chamadas Window ou Ventana, pelas quais sopra o vento. Ou Finestra, Fenêtre, Fenster, a fresta através da qual entra a luz. Não sei se haverá Puerta, Door, Tür. Ou apenas Janua, nome que eu daria à minha livraria, se tivesse uma.

Feito uma ponte, pela janua se cruza de uma margem a outra — da curiosidade ao conhecimento, do exposto ao sol ao protegido das intempéries. Talvez eu pensasse no Guimarães Rosa de “O real não está na saída nem na chegada” ou no Fernando Brant de “Meu caminho é de pedra, como posso sonhar?” e minha hipotética livraria se chamasse Travessia. Porque o lugar em que livros transitam de um dono a outro não é avenida, rua ou praça: é uma travessa. Uma transversal, que transporta a outro porto, atravessa assuntos. Bem no meio desse caminho há de ter uma pedra — para quem olha pedra e vê pedra, quem se educa pela pedra, quem dá às pedras costumes de flor, quem sabe que pedra só não voa porque não quer, não porque não tem asa.

Livraria é também lugar que ilumina. Onde a verdade (qualquer das múltiplas verdades) brilha, e o que era obscuro se torna evidente. E cada prateleira, vitrine, bancada está pejada de argumentos. Por todo canto haverá cogitações, enredos, controvérsias. Argument, em inglês, não seria um bom nome, ainda que ideias possam (e devam) brigar feio nas seções de História, de Filosofia. Minha livraria imaginária poderia se chamar Evidência, não fosse o risco de alguém supor que pensei em Chitãozinho e Xororó — que nem são os autores da canção, mas já desisti de argumentar.

Jamais terei uma livraria: me contento com ir trazendo um pouco de cada uma para dentro de casa. Daí haver, à espera de um pouso decente na estante da sala, livros em situação de mesa de cabeceira, de escrivaninha, de bancada do banheiro. E uma pilha no chão, como folhas secas. Ou junto à fruteira, entre mandarinas e berinjelas. Parte para o vício solitário da leitura, parte para a ilusão de que terei tempo de ler tudo.

Um kindle liberaria espaço, daria folga à minha rinite, combateria a obesidade das traças e me permitiria levar uma Alexandria nas viagens, sem excesso de bagagem. Mas e a textura do pólen, a gramatura, o cheiro da celulose? O prazer do dedo percorrendo o parágrafo, se demorando na margem, preparando o bote para a página seguinte? A volúpia de sentir a laminação, o verniz, o porte da lombada, a encadernação a resistir às investidas?

Livrarias e sebos são um pouco minha casa. Taí: a livraria que não terei se chamaria Casa. Lar da árvore que morreu e nasceu livro, deu vida a tantas vidas e não terá morrido em vão.

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