sábado, 22 de agosto de 2026

Largada acirrada, por Bernardo Mello

O Globo

Levantamento divulgado nesta sexta-feira, o primeiro desde a definição das candidaturas, mostra uma relativa estabilidade nas intenções de voto

Com a campanha ao Palácio do Planalto oficialmente em curso desde o último fim de semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece em vantagem em um eventual embate direto contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), mas começa a corrida à reeleição pressionado pela piora da avaliação de seu governo. Pesquisa Datafolha divulgada ontem, a primeira desde a definição das candidaturas, mostra uma relativa estabilidade nas intenções de voto de Lula, Flávio e de outros aspirantes à Presidência. A imagem negativa do governo petista, no entanto, supera neste momento a percepção positiva, e o levantamento sugere um aumento do desgaste da gestão que é incomum em períodos eleitorais.

No cenário de primeiro turno, Lula aparece hoje com 39% das intenções de voto, e Flávio tem 33%. Essa diferença já chegou a ser de 10 pontos percentuais, em junho, embora os cenários não sejam diretamente comparáveis por mudanças na lista de candidatos. Ambos estão muito à frente do segundo pelotão, que tem um empate técnico entre Ronaldo Caiado (PSD), que oscilou positivamente, com 5%; Renan Santos (Missão), com 4%; Romeu Zema (Novo), com 3%; e Augusto Cury (Avante), 2%.

Curva distinta

Em um hipotético segundo turno, Lula aparece com 47% contra 43% de Flávio. Em julho, na última vez em que o instituto havia testado esse cenário, os percentuais eram similares (48% a 43%). Nesse meio-tempo, porém, o percentual dos entrevistados que avaliaram o governo Lula como “ruim” ou “péssimo” subiu de 38% para 41%, enquanto o percentual de “ótimo” e “bom” oscilou de 32% para 33%. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos.

Em agosto de 2022, numa etapa semelhante da campanha, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) tinha 30% de ótimo e bom, e 43% de ruim e péssimo, segundo o Datafolha. Embora seu saldo à época fosse pior que o de Lula atualmente, Bolsonaro vinha numa trajetória de melhora constante de avaliação, segundo a pesquisa. Em maio daquele ano, Bolsonaro tinha 48% de ruim e péssimo, e 25% de ótimo e bom. No caso de Lula, esses percentuais há três meses eram, respectivamente, de 39% e de 30%.

A melhora na avaliação de Bolsonaro há quatro anos, que se estendeu para o decorrer da campanha, veio a reboque de medidas de consideradas “eleitoreiras” à época, como a liberação de empréstimos consignados para beneficiários do Bolsa Família — e o aumento do benefício de R$ 400 para R$ 600 por família — e a redução compulsória de tributos, inclusive estaduais, sobre combustíveis. Essas medidas injetaram recursos na economia às vésperas da eleição, mas deixando buracos no orçamento para o mandato seguinte.

Lula também vem investindo em um “pacote de bondades” para aquecer a economia, com medidas que incluem facilitação de crédito para compra de automóveis e renegociação de dívidas de pessoas físicas e jurídicas.

Embora essas medidas venham sendo acompanhadas por oscilações positivas no índice de “ótimo” e “bom” do governo, nos últimos dias Lula passou a sofrer com o desgaste pelo avanço de investigação da Polícia Federal sobre uma suposta prática de tráfico de influência envolvendo um de seus filhos, Fabio Luis, conhecido como Lulinha (leia mais na página 6). Além do avanço da avaliação negativa de 38% para 41% neste mês, o Datafolha também identificou que o percentual dos que desaprovam o governo chegou a 50%, e hoje está numericamente acima da aprovação, que é de 47%. Esta é a maior distância desde maio, quando havia 51% de desaprovação e 45% de aprovação. Desde então, os índices vinham praticamente iguais, com a aprovação ligeiramente acima (49% a 48%) em julho.

Na série histórica do Datafolha, Flávio registrou uma queda de intenções de voto em maio, quando veio à tona seu pedido de R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, do Banco Master, sob pretexto de financiar um filme em homenagem ao pai. Desde então, apesar das oscilações na avaliação do governo Lula, o filho de Bolsonaro não conseguiu retomar o patamar de igualdade com o petista. Até abril, segundo os levantamentos, Flávio aparecia com índice de rejeição ligeiramente abaixo ao de Lula, e vinha encurtando a distância para o petista em um eventual segundo turno — o placar, à época, era de 46% para o atual presidente contra 45% para o opositor.

Desde o chamado “caso Dark horse”, porém, Flávio aparece estacionado com 43% das intenções de voto em um embate direto com Lula, com uma desvantagem que oscila de quatro a cinco pontos no período. Além disso, a rejeição do eleitorado a Flávio, conforme o levantamento do Datafolha, segue numericamente superior à de Lula: 46% dizem não votar de jeito nenhum no candidato do PL, ante 45% que dizem o mesmo sobre o petista.

O Datafolha também testou um cenário de primeiro turno com Pablo Marçal, que se apresentou como candidato pelo PRTB, embora esteja inelegível. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu nesta semana a participação de Marçal em debates e o acesso a recursos dos fundos eleitoral e partidário. Ao ser testado com os demais candidatos, ele marcou 2% na pesquisa.

Avaliação das campanhas

Apesar do desempenho na aprovação, o resultado trouxe certo alívio para a campanha à reeleição de Lula, que temia sofrer impacto nas intenções de voto por causa do caso Lulinha. A campanha de Flávio, por sua vez, avalia que o desgaste ainda vai atingir o petista e aposta no início do horário eleitoral, na próxima sexta-feira, para ampliar a exposição do tema.

Mesmo com desempenhos tímidos no primeiro turno, Caiado, Renan e Zema registram um patamar não muito distante do alcançado por Flávio quando são testados em simulações de segundo turno contra Lula. Nessas quatro hipóteses, o atual presidente bate em um teto, atualmente, de 47% a 48%, assim como no embate direto com o filho de Bolsonaro. Caiado chega a marcar 40% ao ser testado diretamente contra Lula, enquanto Renan e Zema ficam dez pontos atrás do petista.

Diferentemente de Lula e Flávio, o índice de rejeição ao trio fica em torno de 15%, segundo o Datafolha. Mas o levantamento indica um cenário de difícil rompimento da atual polarização.

A pesquisa foi contratada pela TV Globo e pelo jornal Folha de S. Paulo, e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-04496/2026. O Datafolha entrevistou mais de 2 mil pessoas em todo o país, entre terça e quarta-feira.

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