sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Terapia de guichê, por José de Souza Martins*

Valor Econômico

O Brasil é, a seu modo, inovador na questão de filas e suas práticas correlatas. Somos criativos

Nossa sociedade gosta de filas e de esperas, provavelmente mais do que muitas outras. Um jeito de puxar conversa com o vizinho de fila e ocupar o tempo da espera para ser atendido com queixas e reclamações justamente contra filas e esperas. O típico assunto para matar tempo e falar sobre tema de falta de assunto.

Quase sempre, para pôr a culpa no funcionário do banco, da repartição pública ou do hospital pela lentidão no atendimento.

O Brasil é, a seu modo, inovador na questão de filas e suas práticas correlatas. Somos criativos. Quase sempre, nessas pequenas questões populares, o somos pelo avesso do que usualmente são os nativos de países desenvolvidos. A começar pelo fato de que sentimos compulsão de preencher o tempo vazio que é o de uma prática entre momentos de obrigação do trabalho.

Essa ocupação de desocupado até mesmo fica em nossa memória para sempre. Motivo de lembranças e de comentários ocasionais, de reforço de uma ocorrência nova que lembre antiga. Às vezes até como comentário educativo para filhos e netos.

Houve uma época, na adolescência, em que me cabia pagar na agência da prefeitura a conta de água de lá de casa todo mês. Lembro-me de detalhes de uma história de fila. Todos muito irritados na fila lenta, para pagar a conta de água racionada.

Um senhor à minha frente, quando lhe tocou a vez de ser atendido pelo caixa, que o conhecia, perguntou-lhe a que vinha: “Vim pagar o ronco da água”, respondeu agressivo. Quando se abria a torneira vinha somente um ronco pelo cano. De fato, paga-se pelo ronco, pois ainda não havia registros para medir a água consumida. Era uma mensalidade, com água ou sem água.

A conversação de fila tornava-se assim um fato político, onde quer que ocorresse.

Quando finalmente o serviço de água se tornou acessível a todos, ficou a frustração pela falta de assunto para a maledicência contra o governo, fosse ele o responsável ou não pelos problemas das queixas. Todos se vangloriando pelo fato do problema ter acabado como resultado das queixas e reclamações de fila. A queixa de fila era supostamente poderosa em si mesma.

A maledicência da prosa de fila vinha e vem ainda da cultura rústica de roça. Ninguém pode estar em presença de outra pessoa, parado, sem dirigir-lhe a palavra, ignorando-a. É esse entre nós profundo desrespeito. Além do que, sinal de soberba, coisa de gente metida a besta, que se acha superior aos outros. E frequentemente se acha mesmo.

Em nossas filas, onde ainda existem, ao chegar ao guichê ou à entrevista o cliente encaixando comentários pessoais no meio do atendimento. Para incluir assuntos tão descabidos e irrelevantes quanto a receita de um caldinho de peixe ótimo para curar falta de apetite. Ou xarope caseiro de guaco para curar tosse na hora do sono. É claro, sabemos desde sempre que chá de erva cidreira combate a insônia e xarope de maracujá resolve problemas cardíacos.

O sujeito vai ao hospital para fazer uma consulta e quem acaba ouvindo diagnóstico e receita é o médico, tratado como paciente do consulente impaciente.

Sempre que vou ao Hospital Universitário da USP para fazer meus exames periódicos de laboratório, em jejum, no final passo na lanchonete para o café da manhã. Numa das vezes, estava sentado perto de um médico, no trabalho desde muito cedo, que descera para tomar um lanche. Da outra ponta do salão, um sujeito grita: “Doutor! Mamãe está curada!”.

O médico levantou os olhos com expressão de indagação tentando lembrar-se quem era mamãe. “Lembra? O sr. viu os exames dela e diagnosticou que ela estava com câncer. Demos nela um banho de oração, refizemos os exames e o câncer sumiu.”

A fila e a espera, sua correlata, deram lugar a uma “medicina” paralela e popular, que chamo de “terapia de guichê”, em que o protagonista “se cura” do imenso buraco de fala que surgiu entre nós em decorrência do descompasso entre a reclusão da casa e o vazio da rua e dos estabelecimentos comerciais e de serviços em que a pessoa é apenas uma coisa que paga e recebe, que se coisifica na impessoalidade da relação.

É esse um dado da realidade social da alienação e do estranhamento entre a pessoa e o mundo em que vive. E, também, da anomia, situações e momentos em que a realidade parece destituída de regras sociais, embora as tenha no automatismo do silêncio.

Os recintos das filas e esperas se institucionalizaram entre nós de modo oposto ao que ocorreu em outros países. Aqui, parte dessa terapia se manifesta na cultura da burla de filas. Somos a favor das filas para burlá-las, especialmente em cinemas e teatros. Furar a fila é uma técnica de esperteza só nossa. O espertalhão se aproxima de algum conhecido, puxa conversa e vai ficando.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

Um comentário:

Mais um amador disse...

Muito bom.