Orçamento de 2027 reflete descrédito fiscal do governo
Por O Globo
Equipe econômica fala em ‘superávit efetivo’
e ensaia ajuste. Mas não convence nem o próprio Lula
A dívida pública brasileira está em 82,5% do
PIB, pela última medição do Banco Central. É o maior nível desde abril de 2021,
no período da pandemia — e um patamar mais de dez pontos percentuais acima do
herdado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É sempre importante lembrar
esse fato para avaliar o compromisso do governo com o controle das contas
públicas.
Confrontada com a escalada no endividamento, a equipe econômica costuma alegar que tem cumprido as metas fiscais estipuladas pelo arcabouço aprovado em 2023. E afirma que o déficit primário nas contas públicas melhorou de 2,4% do PIB no primeiro ano de governo para 0,5% na previsão para este ano. Os números estão corretos, mas são inócuos, tamanha a lista de despesas não consideradas no cálculo. Com as inúmeras exceções — criadas seja por necessidade, seja por conveniência política —, a dívida não para de subir.
Pressionada pelo calendário eleitoral, a
equipe econômica agora mudou um pouco o discurso. Ao apresentar o Projeto de
Lei Orçamentária Anual de 2027, criou um novo conceito. O governo prometeu para
o ano que vem um “superávit primário efetivo” de R$ 18,6 bilhões. Por efetivo,
entenda-se um resultado que inclui gastos antes excluídos da conta: parte das
despesas com Defesa e com precatórios, as dívidas da União reconhecidas pela
Justiça sem possibilidade de recurso. Claro que há algum avanço em apresentar
um cálculo mais próximo da realidade contábil do governo. Mas a mera criação de
uma nova categoria de superávit é prova do descrédito da política fiscal. E,
infelizmente, a novidade não resolve o problema. Nada impede que o governo
volte a engordar a lista de exceções no ano que vem se for conveniente.
Pelo que Lula tem dito e repetido, é
provavelmente o que ocorrerá se ele for reeleito. Em jantar com empresários na
segunda-feira, no Palácio da Alvorada, ele voltou a apresentar a questão da
dívida sob premissas falsas. Segundo ele, a responsabilidade fiscal não se
sobreporá a sua agenda social. Ora, não existe tal dicotomia. Ocorre justamente
o oposto. Os mais pobres são os que mais sofrem com os níveis altos dos juros,
resultado em boa parte do descontrole fiscal do governo. Basta ver o impacto
das taxas no endividamento das famílias. Entre as que recebem até três salários
mínimos, a proporção de endividados subiu para 84,9% em julho, ante 81,2% no
mesmo mês do ano passado. Mesmo com o novo Desenrola, o programa vitaminado de renegociação
de dívidas lançado pelo governo, a proporção de famílias brasileiras com
dívidas a vencer voltou a crescer, chegando a 82% do total.
O jantar no Alvorada foi organizado pelo
presidente do PT e coordenador da campanha de Lula, Edinho Silva, e pelo
ministro da Fazenda, Dario Durigan. Reuniu 16 representantes do mercado
financeiro e de vários setores da economia. Os integrantes do governo reiteraram
para a plateia o compromisso com um novo ajuste fiscal, da ordem de dois pontos
percentuais do PIB. Seria uma medida excelente para recobrar a credibilidade.
Aparentemente, embora não digam isso de modo explícito, eles já têm consciência
de que o modelo de crescimento econômico do PT, baseado no endividamento
público, tornou-se insustentável. Mas como convencerão a sociedade se não
conseguem convencer o próprio Lula?
Argentina avançará se Senado apoiar projeto
que disciplina missão do BC
Por O Globo
Lei aprovada na Câmara coíbe uso da
autoridade monetária para fins que sabotam controle da inflação
Ainda que desgastado pelos efeitos no mercado
de trabalho do bem-sucedido choque anti-inflacionário que impôs à Argentina, o
presidente Javier Milei obteve no final de agosto uma vitória importante na
Câmara dos Deputados para prosseguir com seu plano de estabilização. A aliança
partidária da Casa Rosada aprovou sua proposta para impedir que o Banco Central
(BC) continue a financiar gastos do Estado, do governo federal ou das
províncias. Se a lei for referendada no Senado, a Argentina se livrará do
mecanismo que equivale a imprimir moeda para cobrir rombos nas contas públicas,
nos moldes do que acontecia no Brasil até o Plano Real.
Na posse de Milei, a inflação anual argentina
estava em 211,4%. Com as medidas de estabilização, ela desabou para 31,5% no
ano passado. Em julho último, a taxa anualizada estava em 33,8%. Ao mesmo
tempo, de sua entrada na Casa Rosada até o primeiro trimestre deste ano, a taxa
de desemprego subiu de 5,7% para 7,8%, e sua aprovação caiu de 53% para 38%. Em
2023, o PIB argentino encolheu 1,3%, índice que se repetiu em 2024, primeiro
ano do ajuste. No ano passado, a economia cresceu 4,4%, mas não o suficiente para
recuperar os postos de trabalho perdidos — ou a popularidade de Milei.
Ele promoveu um choque logo no começo de sua
gestão. Desvalorizou o peso em mais de 50%, cortou subsídios, liberou preços
administrados e reduziu o tamanho de um Estado inchado por sucessivos governos
peronistas. As medidas eram imprescindíveis. Ainda assim, o governo precisa
persistir no programa de ajuste para derrubar a inflação a patamares razoáveis.
Para isso, é fundamental cuidar das finanças públicas e evitar o descontrole
advindo do uso do BC para fins alheios ao papel de autoridade monetária, financiando
a gastança de governantes sem nenhum compromisso com a responsabilidade fiscal.
O projeto aprovado pela Câmara permite que
lucros obtidos pelo BC sejam distribuídos entre os governos, mas sob o
compromisso formal de os recursos serem destinados ao abatimento da dívida
pública. Também retira da lei um adendo feito na gestão Cristina Kirchner
(2007-2015) estabelecendo o “duplo mandato” para a autoridade monetária: além
do controle da inflação, o BC também tem como missão “promover o emprego e o
desenvolvimento econômico com equidade social”. Esse “duplo mandato” é um
equívoco com consequências perniciosas sobre o controle da inflação.
Para aprovar o projeto na Câmara, Milei e seu partido A Liberdade Avança contaram com o apoio de uma coalizão de centro-direita. No Senado, das 72 cadeiras, a coalizão peronista ocupa 25. Para conseguir os 37 votos necessários a sancionar as mudanças no BC, Milei terá de demonstrar capacidade de negociação maior que a empregada na formação da aliança na Câmara. Será uma votação vital para o governo e o país. A Argentina já demonstrou na prática que é impossível estabilidade política com caos econômico.
Pressa eleitoreira contamina debate sobre 6x1
Por Folha de S. Paulo
PEC da redução da jornada de trabalho passa
na CCJ do Senado, mas votação em plenário é incerta
A alegada urgência não passa de discurso de campanha; tempo maior de discussão fará bem ao exame da proposta e de seus efeitos
Teve sucesso apenas parcial o esforço do
governo para apressar a aprovação da proposta de emenda constitucional
destinada a reduzir a jornada máxima de trabalho.
Como queria Luiz Inácio Lula da
Silva (PT),
a Comissão de Constituição e Justiça do Senado deu
sinal verde na quarta-feira (2) à PEC que acaba com a escala de seis dias de
trabalho semanal, já votada pela Câmara dos
Deputados. Entretanto não há certeza quanto à data do exame
definitivo do diploma em plenário.
Sem acordo para que a tramitação fosse
concluída nesta semana, os parlamentares só deverão voltar ao tema, na melhor
das hipóteses para o governo, depois
do primeiro turno das eleições —e
assim restará a Lula, candidato a um quarto mandato, empenhar-se para que a
votação ocorra antes do segundo turno.
Uma eventual frustração de tal desejo fará
bem ao debate em torno da proposta, hoje irremediavelmente contaminado
por pressa e oportunismo eleitoreiro.
Petistas e aliados carimbam de inimigos do
povo os críticos da PEC, que não raro recorrem a subterfúgios para camuflar
suas posições —o PL de Jair
Bolsonaro chegou ao ridículo de defender jornada máxima de
quatro dias na tentativa de inviabilizar o avanço do texto na Câmara.
Além de evidente apelo popular, o assunto
envolve tanto objetivos meritórios quanto questões complexas como
viabilidade e efeitos colaterais. Merece, pois, análise mais técnica
e serena.
Em países mais desenvolvidos, a conquista de
maior tempo livre para o lazer veio, em geral, como decorrência de maior
produtividade dos trabalhadores. Imposições legais, das quais o Brasil é
pródigo em exemplos, podem ser contornadas por informalidade e queda de
remunerações.
Estudos indicam que haveria perdas para a
economia, cujos desempenho e perspectivas imediatas já não são animadores.
Mesmo que os danos totais sejam considerados absorvíveis, alguns setores, do
comércio à construção civil, sofreriam mais.
A alegada urgência em votar a PEC não passa
de discurso de campanha. O fim da jornada 6x1 e das 44 horas de trabalho
semanais, até pouco tempo atrás, jamais fizera parte das prioridades das
principais forças políticas do país — incluindo o PT, que, em seus quatro
mandatos presidenciais anteriores, ignorou o tema.
A bandeira veio a ganhar força nas eleições
municipais de 2024, quando proporcionou um cargo de vereador, com boa votação,
a um candidato do PSOL no
Rio de Janeiro. Lula só abraçou a causa no final do ano passado.
É, de resto, duvidoso que a benesse, já
exaustivamente propagandeada pelo governo, possa mudar os sofríveis índices de
popularidade do mandatário. Não o fizeram as isenções do Imposto de Renda, o
Gás do Povo, o fim da "taxa das blusinhas" e uma série de estímulos
ao crédito. Seja como for, é temerário tratar com açodamento algo tão
importante como as relações de trabalho.
Decisão de Toffoli expõe excessos da Justiça
Eleitoral
Por Folha de S. Paulo
Medida que proibiu campanha de Renan,
revertida em seguida, era tecnicamente frágil e ensejava suspeição
Distribuição do caso seria caminho sensato
para preservar imagem da corte; hipertrofia e paternalismo da legislação
estimulam judicialização
O ministro Dias Toffoli,
no Tribunal Superior Eleitoral, proibiu por algumas horas o candidato à
Presidência Renan Santos (Missão)
de fazer campanha nas plataformas digitais e de participar de debates.
O postulante não declarou dentro do prazo a
lista completa de suas contas em redes sociais, e o ministro entendeu que isso
inviabilizava o registro da candidatura. A tese é juridicamente frágil e foi
criticada por especialistas.
Não há dúvida de que Renan descumpriu
determinação da Justiça. De acordo com uma regra editada pelo TSE em
2024, plataformas não podem sugerir conteúdos postados por candidatos a pessoas
que não sejam seguidoras dessas contas. Por razões operacionais, a restrição só
pode ser aplicada a contas que tenham sido oficialmente atribuídas a um
candidato.
Até faria sentido tratar a transgressão no
âmbito da propaganda ilegal, mas não num processo sobre registro de
candidaturas.
Segundo
levantamento da Folha, pelo menos 1.481 candidatos a vários
cargos (7% do total) estão em situação semelhante à de Renan —modificaram sua
lista de contas desde o início do período de campanha, embora não seja possível
saber se foram cometidas irregularidades.
Outros 2.719 (13%) não informaram nenhuma
conta. Talvez de fato não tenham, mas hoje não é comum ver políticos sem
inserção no mundo digital.
O imbróglio também pode ganhar ares
antirrepublicanos. Renan tem criticado duramente tanto Toffoli como Alexandre de
Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), por suas
conexões com Daniel Vorcaro.
Um juiz prudente teria declarado suspeição
por motivo de foro íntimo, levando à distribuição do caso para um colega com
relação menos atribulada com o candidato. Teria sido um caminho simples para
preservar a imagem da corte eleitoral, mas o ministro preferiu não percorrê-lo.
Pelo menos teve a sensatez de rever sua própria decisão em tempo relativamente
curto.
O incidente só foi possível porque a Justiça
Eleitoral brasileira peca por hipertrofia e paternalismo. Quase
tudo, do layout dos santinhos ao impulsionamento digital, tem previsão em lei
ou em regulamentação do TSE, o que, obviamente, não impede interpretações
conflitantes.
Na democracia, cabe aos eleitores, não a magistrados, definir quem serão os governantes. A Justiça deveria intervir apenas em situações de abusos muito graves, não na forma de microgerenciamento do pleito, estimulando a judicialização.
Gonet tem de sair da PGR
Por O Estado de S. Paulo
O caso Master tornou inviável permanência de
um procurador-geral que não cumpre os requisitos indispensáveis para fiscalizar
o poder: imparcialidade e independência
Não é de hoje que o sr. Paulo Gonet não
inspira a confiança necessária para o exercício do cargo de procurador-geral da
República, mas o escândalo do Banco Master tornou sua situação insustentável.
Gonet tem de deixar o cargo, e é melhor que o faça de maneira voluntária, de
modo a evitar o aprofundamento da grave crise moral e ética que envolve a alta
cúpula do sistema de Justiça do País.
Mensagens apreendidas pela Polícia Federal
revelam uma relação calorosa entre Gonet e o banqueiro Daniel Vorcaro, marcada
por manifestações de carinho e convescotes requintados. “Paulo” aparece também
nas tentativas de Vorcaro de mobilizar o ministro Alexandre de Moraes para
obstruir investigações. Não há prova de que Gonet tenha atendido a esses
pedidos. Há, porém, um fato que independe dessa dúvida: foi Gonet quem pediu ao
Supremo o arquivamento sumário da apuração, sem exame do mérito, com argumentos
que causariam inveja a um advogado de Moraes – e de si mesmo.
O constrangimento seria grave mesmo se
tivesse surgido do nada. Não é o caso. A PGR de Gonet opera com ampla
elasticidade na aplicação de princípios e critérios conforme os personagens
envolvidos. Em alguns casos, exibe rigor, iniciativa e furor punitivo. Em
outros, sobretudo quando certos ministros do Supremo estão sob escrutínio,
multiplicam-se escrúpulos probatórios e engavetamentos. O legalismo de Gonet
parece ter hora, lugar e destinatário.
Não que esteja sempre juridicamente errado. O
mistério é por que certas ortodoxias só são invocadas em determinados
processos. É certo que se pode questionar, como fez Gonet, a decisão do relator
do caso Master no STF, ministro André Mendonça, de determinar diretamente à
Polícia Federal a produção de um relatório de inteligência focado em mensagens
do ministro Alexandre de Moraes. No entanto, o mesmo Gonet até agora não viu
nenhum problema no famigerado “inquérito das fake news”, conduzido de maneira
arbitrária há anos por Moraes.
Ademais, o procurador-geral tolerou todo tipo
de expansão de competência do Supremo em investigações sobre cidadãos sem foro,
mas bastou que uma delas atingisse Lulinha, o filho do presidente Lula, para
que ele subitamente invocasse o princípio do juiz natural e pedisse que o caso
fosse remetido à primeira instância.
A Procuradoria existe para fiscalizar o poder
– muito especialmente o poder togado. Seu chefe precisa ser capaz de contrariar
justamente aqueles com quem convive no topo da República. Mas Gonet tem sido
valente para baixo e servil para cima. Imparcialidade e independência são as
duas qualidades quintessenciais de um procurador. Gonet aparentemente trocou
ambas por um prato de lentilhas – e também por uísque caro, charutos e uma
viagem a Londres, com tudo pago, para um dos filhos, sob o generoso patrocínio
do banqueiro Vorcaro.
Isso também explica por que a discussão não
se esgota com a ausência, por ora, de uma prova cabal de corrupção. A
promiscuidade com Vorcaro e a participação do próprio Gonet no destino
processual de um relatório que o menciona criam uma questão séria de suspeição.
A lei prevê a substituição do procurador-geral em situações desse tipo. Prevê
também, entre os crimes de responsabilidade do procurador-geral, emitir parecer
quando legalmente suspeito, ser patentemente desidioso e proceder de modo
incompatível com a dignidade e o decoro do cargo. Cabe apurar se houve a
consumação desses tipos. No entanto, para concluir que Gonet perdeu as
condições de chefiar a PGR, o que se sabe já basta.
O procurador-geral dispõe de enorme margem
para decidir quando investigar, denunciar ou arquivar. Essa liberdade só é
legítima enquanto houver confiança de que a mesma régua vale para aliados,
adversários, ministros e cidadãos comuns. Quando toda nova manifestação sobre o
mesmo círculo de poder suscita a pergunta sobre como Gonet agiria caso os
personagens fossem outros, a autoridade do cargo já virou pó.
Gonet deveria poupar a instituição e
renunciar. Se preferir agarrar-se ao posto, o Senado tem competência para
examinar se suas condutas configuram crimes de responsabilidade e,
eventualmente, afastá-lo.
A natureza de Lula fala mais alto
Por O Estado de S. Paulo
Em jantar com empresários, Lula falha em
demonstrar compromisso com a responsabilidade fiscal num 4.º mandato e indica
estar satisfeito com o pouco que seu governo fez até agora
Enciumado com a repercussão do encontro entre
investidores e seu principal adversário, o candidato do PL à Presidência,
Flávio Bolsonaro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recentemente recebeu
pesos-pesados da economia para um jantar no Palácio da Alvorada, a fim de
tentar convencê-los de que tem, sim, compromisso com a responsabilidade fiscal.
Falhou miseravelmente.
No jantar, Lula mais ouviu do que falou, mas
o pouco que disse mostra que o encastelamento dos últimos três anos e meio lhe
fez mal. Embora esteja em plena campanha pela reeleição e as pesquisas indiquem
uma disputa acirrada por votos, o presidente parece muito incomodado com as
cobranças inerentes ao cargo, como as justificadas desconfianças sobre seu real
comprometimento com o reequilíbrio das contas públicas.
Os dados não permitem que seu discurso
pretensamente fiscal seja tomado pelo valor de face. Afinal, a dívida pública
aumentou mais de 11 pontos porcentuais durante seu terceiro mandato, saindo de
71,38% do PIB, em janeiro de 2023, para 82,51% do PIB, em julho passado,
segundo o Banco Central – e isso a despeito de sua equipe econômica se jactar
do cumprimento das metas fiscais.
Tal desempenho ensejaria, na melhor das
hipóteses, a admissão de que o arcabouço fiscal não funcionou como esperado. No
jantar com empresários, no entanto, Lula passou longe de um mea culpa. Ao
contrário. Vangloriou-se do fato de ter sido o único presidente, entre os
países do G-20, a entregar superávits primários em oito anos de governo.
O petista se referia, por óbvio, ao período
em que governou o País entre 2003 e 2010. Mas levar esse desempenho em
consideração exigiria ignorar que os últimos três anos e meio foram de
expressivos déficits primários, e é espantoso que Lula não perceba que está
abusando da boa-fé de seus interlocutores.
Eis o principal motivo pelo qual a taxa
básica de juros está atualmente em escorchantes 14% ao ano. Criar condições
para a redução da Selic passa, necessariamente, pela aprovação de reformas
estruturais capazes de mudar a dinâmica das despesas da União e conter a
trajetória da dívida. Não se trata de uma obsessão deste jornal, mas do que
pregam dez em dez economistas e especialistas em contas públicas.
Demonstrar comprometimento com as contas
públicas, portanto, exige mais do que palavras. Lula precisa sinalizar que um
eventual quarto mandato será completamente diferente do atual. Afinal, ao
contrário de seus oponentes, que ainda podem contar com o benefício da dúvida
na seara fiscal, Lula tem contra si o fardo do terceiro mandato e de seus
pífios resultados fiscais para carregar.
Mas Lula, paradoxalmente, parece muito
satisfeito com o pouco que fez até agora, o que talvez explique sua irritação
com as cobranças que tem recebido sobre a situação das contas públicas. Tanto é
que as tímidas e vagas propostas de corte de despesas que surgiram no jantar
não vieram do presidente, mas de integrantes de sua equipe.
Segundo o Estadão/Broadcast, o ministro do Planejamento, Bruno
Moretti, disse que a ideia, num quarto mandato, é realizar um ajuste
equivalente a dois pontos porcentuais do PIB, enquanto o vice-presidente
Geraldo Alckmin pregou que esse trabalho precisa ser feito de maneira célere
para que os juros caiam rapidamente.
Discutir isso na presença de Lula é uma
coisa; ouvir tais promessas saírem da boca do presidente é outra. Mas tudo o
que o petista fez, como esperado, foi reclamar das taxas de juros, mantidas em
nível extremamente elevado na tentativa do Banco Central de conter os efeitos
de sua política fiscal expansionista e de suas políticas de crédito direcionado
sobre a demanda e a inflação.
Mais difícil que atacar os juros é propor uma
agenda impopular, mas necessária para que o País possa ter taxas que não
afastem investimentos nem contenham o crescimento econômico. Elegantes, os
convidados corroboraram as críticas de Lula, mas não ousaram responsabilizar a
gastança de seu governo pelo problema. Deixaram o Palácio da Alvorada como
chegaram – sem qualquer perspectiva sobre o futuro do País.
A China contra o G-20
Por O Estado de S. Paulo
Chineses esnobam comunicado do bloco que pede
contenção de ‘superávits excessivos’
O evento preparatório para a reunião de
líderes do G-20 em dezembro em Miami – a conferência de ministros da Fazenda e
presidentes de bancos centrais dos países do grupo – terminou em 1 contra 19.
Ou, em outras palavras, a China contra o resto.
De um modo geral, o bloco, que reúne cerca de
85% do PIB global, Brasil incluído, concorda que “os países devem adotar
iniciativas para eliminar políticas e práticas que exacerbam desequilíbrios”,
como destaca trecho do comunicado divulgado após o encontro.
Por desequilíbrios, os membros do G-20
referem-se, em particular, a países “com superávits externos persistentes e
excessivos”. E a China, que se opôs ao comunicado final, é o grande expoente
dessa prática. O gigante asiático caminha a passos largos para superar em 2026
seu assombroso feito de 2025: o superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão.
Há anos a China inunda o mundo com os mais
diversos produtos que fabrica a custos mais competitivos do que os das
indústrias de países desenvolvidos e emergentes. Tanto países da Europa quanto
o Brasil sofrem com o peso acentuado de importações chinesas, que vão de
artigos têxteis a veículos híbridos.
Não resta dúvida de que as exportações
chinesas são um problema para países do mundo todo. Também é de conhecimento
público que a China precisa passar a consumir mais do que produz.
Mas, se o diagnóstico do G-20 sobre o
problema que a China impõe ao mundo é correto, a solução que os EUA exortam os
demais países a adotar já se provou ineficaz até mesmo para a economia
americana.
Durante a reunião preparatória, realizada em
Asheville, na Carolina do Norte, o secretário do Tesouro americano, Scott
Bessent, defendeu que mais países façam o que os EUA fizeram e ergam eles
também uma muralha tarifária contra a China.
Ocorre que, além de inconstitucional, o
tarifaço do presidente Donald Trump não fez as indústrias retornarem aos EUA e
ainda resultou em perdas para o americano médio, que agora convive com mais
inflação.
Ademais, enquanto Trump impõe e retira a seu
bel-prazer tarifas sobre países com os quais os EUA mantêm relação comercial
superavitária – caso do Brasil –, mantém com a China uma trégua tarifária que
teoricamente vai até 10 de novembro.
A chance de que o prazo da trégua seja
ampliado não é pequena. Em meados deste mês, Trump receberá o presidente
chinês, Xi Jinping, na Casa Branca. Segunda maior economia do mundo, atrás
apenas dos EUA, a China dispõe de ferramentas para enfrentar o protecionismo de
Trump que faltam a outros países.
O placar de 19 a 1 no comunicado do G-20 escancara, porém, que o desconforto com a China é generalizado. Certamente, seria mais proveitoso para os EUA deixar de alienar parceiros comerciais históricos, como o Canadá e o Brasil, e ampliar os esforços conjuntos para resistir às exportações chinesas que afetam a todos, exigindo mais ações concretas e menos bravatas.
Juros em alta ampliam dívidas e elevam os
riscos globais
Por Valor Econômico
Países emergentes, como o Brasil, são atingido pelo “efeito contágio” das taxas externas
As taxas de juros de médio e longo prazos
estão subindo nas principais economias do mundo — exceto China, onde fazem o caminho
contrário —, como resultado de endividamento crescente e desequilíbrio fiscal
contínuo. A tendência traz desafios para países emergentes, como o Brasil, que
além de seus problemas domésticos é atingido pelo “efeito contágio” das taxas
externas, em especial dos títulos do Tesouro americano, tidos como livres de
risco, a partir das quais se acrescenta o prêmio para empréstimos e aplicações
em portfólio. A alta dos juros externos limitam o quanto os juros domésticos
podem cair sem provocar saída massiva de capitais e movimentos cambiais
desestabilizadores.
A causa básica primordial dos juros em
ascensão é a inflação, que, após o salto com a pandemia, e acumulação de
enormes déficits públicos para combatê-la, não voltou à órbita comportada das
metas nos países desenvolvidos. Há 65 meses, por exemplo, ela está acima dos 2%
perseguidos pelo Federal Reserve, o banco central americano. Quando tanto na
União Europeia quanto nos EUA e no Reino Unido a inflação parecia voltar à
normalidade, o mundo econômico e político foi abalroado pela chegada de Donald
Trump ao comando da maior economia do mundo. A eclosão da guerra de Trump e
Israel contra o Irã desestabilizou os mercados, e a inflação voltou a ganhar
fôlego. Nos EUA, está em 3,7% (gastos pessoais de consumo), e na Europa subiu a
3,3% (agosto).
A resposta dos bancos centrais foi elevar
juros ou interromper sua queda. No primeiro caso, se coloca o Banco Central
Europeu, que deve elevar mais uma vez as taxas na reunião da semana que vem. O
presidente do Fed, Kevin Warsh, sinalizou que deverá seguir o mesmo caminho se
a inflação não cair logo, e os investidores avaliam que, se não já, nos
próximos meses as chances são de que os juros voltem a subir.
Inflação maior, que eleva juros, não conta
toda a história. Os países desenvolvidos acumulam déficits fiscais e dívidas
altas e crescentes. A dívida líquida dos Estados Unidos é de 99% do PIB (a
bruta é de US$ 40 bilhões, 125% do PIB), a do Japão, 134%, a da França, 108% e
a do Reino Unido, 94%. O endividamento, necessário para combater a grande crise
financeira, depois a pandemia, não foi danoso antes porque foi feito a taxas de
juros muito baixas ou mesmo negativas. Quase duas décadas de baixo custo do
dinheiro deram a impressão de que isso era fruto de forças estruturais que se
prolongariam no tempo. Tudo indica, porém, que essa era terminou.
Deter agora o endividamento é muito mais
complicado porque estão em ação necessidades prementes de mais gastos. A
demografia amplia os gastos públicos em todos os países desenvolvidos, com mais
força no Japão. A política externa de Trump, de cada país por si (e os EUA
contra), obrigou a um aumento generalizado dos gastos com defesa, em especial
na Europa, que além disso enfrenta uma guerra em seu território, com a invasão
da Ucrânia pela Rússia.
Não é só o orçamento militar que está
crescendo. A transição energética para enfrentar as mudanças climáticas exige
investimentos acelerados e urgentes na substituição de combustíveis fósseis em
execução. Boa parte das despesas tem de ser financiada com emissão de dívidas
dos Estados, que agora passaram a disputar recursos no mercado com as big
techs, artífices da revolução tecnológica da Inteligência Artificial. Elas
investiram US$ 450 bilhões e querem captar US$ 750 bilhões, a prazos longo e
com rating de grau de investimento. “Todo mundo aumenta captações quando os
custos estão cada vez mais altos”, constata Eric Robertsen, estrategista-chefe do
banco britânico Standard Chartered. “A situação fiscal não melhora em parte
alguma, e até que isto mude as taxas longas estão sem âncora.”
Os EUA intervieram para sustentar o iene no
fim de agosto, mas também para evitar que seus próprios títulos tivessem de
pagar mais juros com sua venda pelo Tesouro do Japão, que detém US$ 1 trilhão
neles. Os papéis de 10 anos do Japão subiram para 3%, a maior taxa desde 1996.
Os papéis de 10 anos do Tesouro dos EUA pagam agora 5,26%, o maior rendimento
desde 2007, antes da grande crise financeira. Na Europa, os investidores cobram
mais dos títulos da França que dos da Itália, que tem uma dívida maior, pelo
seu passado de sistematicamente desrespeitar o teto fiscal da zona do euro e
enfrentar eleições em 2027, com chances de vitória da direita anti-UE. No Reino
Unido, os juros dos títulos de 30 anos aumentaram para 5,9%, os maiores desde
os anos 90, e os de 10 anos, para 5,25%, os mais altos em 18 anos.
Há vários fios desencapados na economia global que aumentam riscos de choques. Uma elevação rápida dos juros no Japão (de 1% hoje) reduz a rentabilidade do mais usado “carry trade” na praça, que tem o Brasil como um dos destinos importantes de aplicação. Usados como proteção para aplicações mais arriscadas em renda variável, com grande peso no mercado dos EUA, papéis de renda fixa, como os bônus soberanos, perdem essa função com inflação instável e juros em alta. Juros altos em algum momento podem desfazer a euforia das bolsas americanas e forçar uma reprecificação de ativos que pode ser bastante turbulenta. Em um mundo perigoso, o Brasil deveria reforçar suas defesas e fortalecer o seu flanco mais vulnerável: a situação fiscal.
O acordo que o mundo não cumpriu
Por Correio Braziliense
Cada décimo de grau que deixarmos de emitir
representa vidas que não serão perdidas, ecossistemas que não serão destruídos,
cidades que não serão inundadas
Em 2015, quase 200 países se reuniram em
Paris e assumiram um compromisso histórico: manter o aquecimento global abaixo
de 1,5°C em relação à era pré-industrial. O acordo foi celebrado como um marco
civilizatório, a prova de que a humanidade era capaz de se unir diante de uma
ameaça comum. Onze anos depois, o Programa das Nações Unidas para o Meio
Ambiente (Pnuma) admite, pela primeira vez em um documento oficial, que esse
limite será ultrapassado. O desafio, diz o relatório, não é mais evitar o
excesso, e, sim, administrá-lo.
É difícil não sentir o peso dessa frase.
Administrar o excesso significa aceitar que falhamos no objetivo central que
nos propusemos. As emissões de gases de efeito estufa continuam crescendo. Os
combustíveis fósseis seguem sendo subsidiados por governos que assinaram o
Acordo de Paris. As metas climáticas nacionais, na maioria dos casos, não foram
cumpridas. A coordenação global que o momento exigia nunca chegou, substituída
por promessas de cúpulas, relatórios sem força vinculante e a política do
calendário eleitoral, que empurra as decisões difíceis para a próxima
administração.
O mundo já está pagando a conta. Os três
últimos anos foram os mais quentes já registrados. As ondas de calor que
mataram dezenas na Europa, as enchentes que submergiram Porto Alegre em 2024,
as secas que devastaram comunidades no Nepal e os sinais do Super El Niño que
se forma neste momento são os primeiros pagamentos de uma dívida climática
acumulada por décadas de inação. O planeta está enviando avisos em linguagem
cada vez menos sutil e, ainda assim, a resposta política permanece aquém da
urgência.
A tentação, diante de uma notícia como esta,
é a resignação. Se o limite foi ultrapassado, se o Acordo de Paris não
funcionou, se os governos não agiram quando ainda havia tempo, para que
insistir? Essa lógica é compreensível. E é precisamente o raciocínio que não
podemos nos dar ao luxo de seguir. Cada décimo de grau que deixarmos de emitir
representa vidas que não serão perdidas, ecossistemas que não serão destruídos,
cidades que não serão inundadas. A diferença entre 1,6°C e 2°C é catastrófica.
E a diferença entre 2°C e 2,5°C, mais catastrófica ainda.
Superar o limite de 1,5°C é uma derrota. Não pode ser uma desistência. O momento exige luto pela meta perdida, pelas oportunidades desperdiçadas, pelas vidas que já foram e pelas que serão afetadas. Mas exige, acima de tudo, que esse luto não se converta em paralisia. Reduzir emissões agora ainda importa. Proteger florestas ainda importa. Financiar a transição energética nos países mais vulneráveis ainda importa. O mundo que vem será mais quente do que queríamos. Mas o quanto mais quente depende, ainda, das escolhas que fizermos e das ações que vamos tomar.

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