sexta-feira, 13 de abril de 2012

Cada farinha no seu saco

O maior desejo do PT é transformar o escândalo do mensalão em conto da carochinha. O segundo maior é fazer colar na sociedade a impressão de que todas as forças políticas são iguais e nivelam-se por baixo. São estas as teses que o partido de Lula, Dilma e José Dirceu irá tentar fazer prosperar na CPI do Cachoeira.

Desde que veio a público, em maio de 2005, o mensalão assombra o PT. Feita por um dos maiores aliados dos petistas à época, a revelação de que o governo Lula funcionava à base da compra descarada de votos no Congresso desnudou a aura de moralidade que, por anos, acompanhara o partido.

Anos de investigações e um devastador parecer da Procuradoria-Geral da República acabaram por revelar em detalhes o funcionamento da "organização criminosa", com a participação de dezenas de próceres petistas. Mas, para o PT, isso nunca passou de uma "conspiração" das elites, da mídia, da oposição.

O partido sempre contemporizou com os acusados, deu-lhes apoio institucional e cargos de relevância no governo. Jamais puniu quem quer que fosse. Compactuou, recorrentemente, com os que se locupletaram com o dinheiro sujo, vindo, inclusive, dos mesmos jogos de azar de Carlinhos Cachoeira.

Mas a principal preocupação dos petistas, vocalizada, principalmente, pelo ex-presidente Lula, sempre foi fazer prosperar na sociedade a tese de que o mensalão foi uma "farsa", uma desimportante operação de contabilidade paralela de contas de campanha eleitoral. Nesta estratégia, interessa, especialmente, atrapalhar, postergar e azucrinar o julgamento do caso no STF, previsto para ocorrer neste ano.

O PT espera usar a CPI do Cachoeira neste seu estratagema, como ficou muito claro ontem, mais uma vez, com o discurso de Rui Falcão, presidente do partido. Para ele, a comissão servirá "para apurar esse escândalo dos autores da farsa do mensalão", informou O Globo. Não: a CPI cuidará de investigar como gente do mundo político se relacionou com - e, em alguns casos, se vendeu a - um contraventor cujas ligações com os petistas são íntimas desde a época do mensalão.

Senão, vejamos: até agora, afora o envolvimento do senador Demóstenes Torres, prontamente expurgado pelo DEM dos quadros da oposição, são petistas ou seus aliados os principais implicados na teia de corrupção tecida pelo bicheiro baseado em Goiás.

O mais graúdo destes envolvidos é o governador petista do Distrito Federal. Aliás, ligar o nome de Agnelo Queiroz, agora alcunhado "01", a escândalos já se tornou redundância. Hoje, os jornais - com destaque para a Folha de S.Paulo - publicam farto material com suspeitas de que sua desgovernada gestão é alimentada por propina paga por uma empreiteira.

A mesma empresa, a Delta Construções, é, também, a maior beneficiária do PAC e foi a empresa que mais recebeu recursos do governo federal nos últimos três anos: R$ 2,43 bilhões desde 2009, segundo O Estado de S.Paulo. Surgem, daí, indícios de que as portentosas cifras que acompanham o programa podem servir para algo distinto da construção de obras, que, de resto, nunca ficam prontas mesmo.

Na lista de petistas muito enrolados, há também auxiliares de Agnelo e um assessor direto da ministra Ideli Salvatti, outro nome do governo do PT que rima com escândalo e que terá, agora, de explicar no Congresso a compra suspeita de lanchas fantasmas. E há, ainda, o deputado comunista e ex-delegado Protógenes Queiroz.

Não custa lembrar que esta animada ponte aérea PT-Cachoeira é ativa há muito tempo. O contraventor quase conseguiu emplacar a legalização dos jogos de azar no país: a proposta foi defendida pelo Planalto lulista em 2004 e só foi abortada depois que Cachoeira protagonizou vídeo em que é achacado por Waldomiro Diniz, assessor de José Dirceu na Casa Civil.

Está evidente que o PT pretende manobrar a CPI do Cachoeira e embaralhar o jogo do mensalão. É um escárnio que o partido cujo governo afogou-se em seguidos casos de corrupção ao longo dos últimos anos pretenda acuar a oposição, fazendo dela o suposto alvo das investigações. É o PT fazendo o que mais gosta: juntar no mesmo saco farinhas que não se misturam.

Fonte: Instituto Teotônio Vilela

Vapor de Cachoeira não navega mais :: Fernando Gabeira

O vapor de Cachoeira do verso de Caetano Veloso é uma lembrança nostálgica de um navio que ligava Salvador ao Recôncavo Baiano. Lançado em 1819, um grande feito para a época, o vapor de Cachoeira não volta nunca mais. Já o de Carlinhos Cachoeira apenas sofreu uma avaria. Pode voltar em forma de submarino ou qualquer embarcação anfíbia.

O vapor de Cachoeira tinha muitos dos defeitos e mais poder que alguns partidos políticos. Tinha bancada parlamentar, acesso e contatos no governo, preenchia cargos e influenciava a promoção de coronéis da Polícia Militar. Os fragmentos de gravações indicam também que Cachoeira tinha algo mais do que os partidos pequenos: um esquema de informação próprio que vazava escândalos para a imprensa, com a esperança de moldar imagens na opinião pública.

Pode-se argumentar que, ao contrário dos partidos, Carlos Cachoeira não tinha um programa. Não havia nada escrito porque não precisava. Programas, dizia o velho Brizola, também podem ser comprados. Cachoeira nunca se interessou em comprar um. Mas é exatamente a prática cotidiana no vácuo de propostas políticas reais que torna o partido de Cachoeira um novo tipo de ator no cenário nacional. A forma como articulou a bancada de Goiás, suprapartidariamente, é inédita. O projeto de regulamentação da loteria que lhe interessava partiu de um senador, foi relatado por um deputado e ainda dependeria da supervisão de Demóstenes Torres.

Num único momento parlamentar, senti a bancada goiana atuar em conjunto. Foi para derrubar um projeto de Eduardo Jorge e meu que proibia o amianto no Brasil. Era um movimento contrário ao que penso, mas não posso negar seu caráter democrático nem a preocupação legítima com os interesses de seus eleitores. Goiás tem mina de amianto em Minaçu e os deputados temiam o desemprego e o declínio econômico na cidade.

Não se conhece, fora de Goiás, a extensão da influência de Cachoeira. A verdade é que nenhum órgão de imprensa foi lá conversar com as pessoas, sentir a atmosfera, indagar sobre as forças típicas do Estado. Confesso que tenho mais perguntas que respostas. Um esquema tão intrincado e complexo merece um estudo maior, que só a íntegra das gravações pode esclarecer - ou, ao menos, indicar pistas.

E o Demóstenes, hein? É a pergunta que todos fazem na rua, resignados com o peso do argumento de que todos os políticos são iguais, até mesmo os que incluem a dimensão ética em sua atuação parlamentar. O desgaste que ele produziu na oposição é arrasador. Não se limita ao célebre "são todos iguais". Avança para outra constatação mais perigosa: se os críticos são como Demóstenes, toda a roubalheira denunciada por eles não passa de maquinação. A sincera constatação popular "são todos iguais" torna-se um dínamo para múltiplas conclusões políticas. A mais esperta delas é: logo, são todos inocentes.

Depois de tudo o que Demóstenes fez, a partir do fragmentos ouvidos, eram inevitáveis as mais variadas repercussões no cotidiano político, em ano de eleição.

O esquema, no conjunto, precisa ser conhecido e pode ser iluminado por uma CPI. Carlos Cachoeira tinha influência nos governos de Goiás e de Brasília, detinha um poder regional. Era bem mais que um bicheiro. Apresentá-lo assim, desde o início, não combinava com o tipo clássico consagrado pela ficção: camisa aberta no peito, colar de ouro, mulatas deslumbrantes, amor à sua escola de samba. Cachoeira, além dos negócios legais, já usava a internet como ferramenta. Organizava loterias federais, disputava a bilhetagem eletrônica no transporte coletivo e mantinha um site de jogos, hospedado na Irlanda.

Ele usa muito melhor os instrumentos do seu tempo do que os bicheiros tradicionais, com seus anotadores sentados em caixotes, esperando a chegada da polícia em nova campanha contra o jogo do bicho, dessas que sempre morrem na próxima esquina, ou na próxima manchete. Os bicheiros sempre desconfiaram da legalização porque tinham medo da pesada concorrência que as novas circunstâncias trariam.

Empresário da era eletrônica, Cachoeira tinha um partido sem programa e decidiu legalizar seu negócio de forma que bicheiros tradicionais nem sequer sonhavam: escrevendo a lei, mobilizando a sua bancada, cuidando da tramitação, dos detalhes formais, garantindo a supremacia no futuro.

Cachoeira tem negócios clandestinos e legais. A maneira como se organizou para tocá-los é típica do pragmatismo de muitos partidos políticos: buscar a proximidade com o governo. Sua proposta era deslocar Demóstenes para o PMDB e aproximá-lo do Planalto. Houve algumas conversas sobre isso nas eleições de 2010. Para Demóstenes seria a morte política por incoerência, talvez mais suave que o atropelamento súbito pelos fatos.

Apesar de sua prisão e da desgraça de Demóstenes, Cachoeira continuou desdobrando a tática de aproximação. Tanto ele como Demóstenes escolheram advogados que, além de sua competência, são amigos íntimos do governo. Uma escolha desse tipo nunca é só técnica. É também política. Representa uma bandeira branca de quem não busca conflitos e anseia por uma saída controlada para um escândalo que ameaça governos do PSDB e do PT.

Leis são como salsichas, é melhor não ver como são feitas. Essa célebre frase atribuída a Bismarck é uma constante na crítica aos Parlamentos. Em caso de um escândalo de intoxicação alimentar, é importante saber como foram feitas. Se Carlinhos Cachoeira foi capaz de criar suas leis, aprovando-as no âmbito estadual e levando-as à esfera nacional, o que não podem outros grupos poderosos e articulados?

Essa vulnerabilidade da democracia, de um modo geral, se torna uma inquietação alarmante no caso singular do Brasil. O momento aponta para a desaparição dos partidos programáticos e abre o caminho para os núcleos de todo tipo, principalmente o partido de tirar partido.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Criação de CPI do Cachoeira preocupa Dilma e divide petistas

A criação de uma CPI para investigar o empresário Carlinhos Cachoeira e suas relações com políticos preocupa Dilma Rousseff e provoca racha no PT.

O temor da presidente é que aliados insatisfeitos usem a comissão para pressionar o governo. Entre os petistas, há divergência quanto ao apoio declarado pelo partido a CPI

CPI do caso Cachoeira preocupa Dilma e divide bancada do PT

Presidente ficou contrariada ao saber de reunião em que ministros e a cúpula do partido decidiram apoiar investigação

Temor é que comissão vire palco de aliados insatisfeitos; PT e PMDB devem assumir postos de controle

Catia Seabra, Natuza Nery e Andreza Matais

BRASÍLIA - A criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o empresário Carlos Cachoeira e suas relações com políticos começou a preocupar a presidente Dilma Rousseff e rachou o PT, seu partido.

Petistas disseram à Folha que a presidente não gostou de a CPI ter sido anunciada durante sua viagem aos EUA, nem da participação de alguns de seus principais ministros em reunião na semana passada que tratou do tema.

Na ocasião, petistas como Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral), Ideli Salvatti (Relações Institucionais) e Gleisi Hoffmann (Casa Civil) se encontraram com a cúpula do partido e decidiram apoiar a investigação.

A adesão do PT à CPI foi incentivada pelo ex-presidente Lula com o objetivo de fragilizar a oposição no ano do julgamento do mensalão, escândalo que abateu toda a cúpula do partido em 2005.

Segundo petistas, Dilma proibiu seus ministros, porém, de se manifestar sobre CPI logo que retornou de Washington, anteontem.

Ela também manifestou desagrado com a ideia da CPI como uma revanche ao mensalão. Tanto que reprovou o depoimento do presidente do partido, Rui Falcão, segundo quem é necessário usar a CPI para desmascarar os autores "da farsa do mensalão".

Ontem, ele afirmou que não vinculava uma investigação à outra.

Faca no pescoço

A disposição de Dilma, porém, é de não impor obstáculos à instalação da comissão, prevista para terça, sob o argumento de que não há como detê-la agora.

O temor do governo é que aliados insatisfeitos usem a CPI como palco para colocar a "faca no pescoço" do Planalto, convocando ministros e quebrando sigilo de pessoas como Olavo Noleto, assessor da Presidência -que admitiu ter conversado com um aliado de Cachoeira.

Em reunião ontem em Brasília do comando do PT, ficou definido que o partido tentará controlar os postos-chave da CPI. Apesar disso, cinco petistas recusaram ser relatores da comissão.

O mais cotado ontem era o ex-líder do governo na Câmara, Candido Vaccarezza (PT-SP), ou o deputado Hugo Leal (PSC-RJ). Para a presidência, o PMDB escolheu o senador Vital do Rego (PB).

Apesar de reclamação de petistas à atuação pró-CPI de dirigentes da sigla, a nota oficial da executiva nacional conclama a militância a defender" a comissão. Questionado se tinha consultado Dilma, Falcão afirmou que citou a reunião com os ministros.

Para além do discurso oficial, petistas avaliam que contratos do Executivo com a Delta, citada nas investigações como próxima à Cachoeira, podem ser alvos da CPI.

Essa preocupação já teve efeito ontem, com a exclusão do nome da construtora do requerimento de criação da comissão. O texto final fala apenas em investigar "agentes públicos e privados" e, além da Monte Carlo, cita uma investigação anterior da PF sobre Cachoeira, a Vegas.

Petistas trabalharam por essa inclusão sob o argumento de que os indícios que ela reúne são danosos à oposição.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

PT associa 'setor da mídia' a criminosos e defende regulação

Partido afirma que relações reveladas pelo caso Cachoeira comprovam "urgência" de medidas de controle da imprensa

Em evento ontem no Planalto, no entanto, a presidente Dilma Rousseff defendeu a liberdade de imprensa

Catia Seabra, Márcio Falcão

BRASÍLIA - O PT vai usar a instalação da CPI do Cachoeira para voltar a investir contra a mídia. A disposição está expressa em documento divulgado ontem pela cúpula do partido.

Redigido pelo comando petista, o texto cita a investigação do esquema de Carlos Cachoeira, acusado de exploração do jogo ilegal, a pretexto de voltar a cobrar a fixação de um marco regulatório para os meios de comunicação.

"Agora mesmo, ficou evidente a associação de um setor da mídia com a organização criminosa da dupla Cachoeira-Demóstenes, a comprovar a urgência de uma regulação que, preservada a liberdade de imprensa e livre expressão de pensamento, amplie o direito social à informação", diz a nota.

Mesmo sem dar nomes, o alvo primário do PT é a revista "Veja". Em grampos já divulgados do caso, um jornalista da publicação tem o nome citado por membros do grupo do empresário.

A revista já publicou texto informando que Cachoeira era fonte de jornalistas, inclusive do chefe da sucursal de Brasília, Policarpo Júnior, e que não há impropriedades éticas nas conversas.

Integrantes da Executiva do PT e congressistas do partido defendiam que a "Veja" fosse investigada na CPI.

O cálculo político petista inclui o raciocínio segundo o qual o bombardeio sobre mídia e oposição poderá concorrer na opinião pública com o julgamento do mensalão -o esquema de compra de apoio político ao governo Lula descoberto em 2005, que deve ser apreciado pelo Supremo Tribunal Federal neste ano.

O próprio presidente petista, Rui Falcão, falou que a CPI deve investigar "os autores da farsa do mensalão".

Há a intenção de questionar reportagens sobre o mensalão usadas como prova judicial. A estratégia é tentar comparar a produção de reportagens investigativas, que naturalmente envolvem contato de jornalistas com fontes de informação de várias matizes, a práticas criminosas.

Para tanto, segundo a Folha apurou, réus do mensalão como o ex-ministro José Dirceu instruíram advogados a buscar menções à revista e à mídia nas apurações da PF sobre o caso Cachoeira. Dirceu vai a evento no final de semana sobre regulamentação da mídia em Fortaleza.

O movimento do PT contrasta com discurso da presidente Dilma Rousseff. Ontem, em cerimônia do Minha Casa, Minha Vida, ela defendeu a liberdade de imprensa.

"Somos um país que convive com a liberdade de imprensa, somos um país que convive com a multiplicidade de opiniões, somos um país que convive com a crítica."

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

PT decide concentrar ataques em Demóstenes

Resolução aprovada ontem pelo comando da sigla fala em "impedir operação abafa"

Bruno Borghossian

Após anunciar apoio à criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as ligações políticas do contraventor Carlinhos Cachoeira, o PT declarou que pretende concentrar seus ataques no senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) e nos meios de comunicação.

Em uma resolução aprovada ontem em Brasília, o comando nacional petista afirma que deve impedir uma "operação abafa" em torno de Demóstenes e expor "a associação de um setor da mídia" com Cachoeira.

"Cabe ao PT impedir que se consume uma operação abafa em torno do envolvimento do senador Demóstenes Torres com a organização criminosa comandada pelo notório Carlos, alcunhado de Carlinhos Cachoeira", diz o texto.

A resolução menciona o suposto envolvimento de Cachoeira com o governador goiano, Marconi Perillo (PSDB), mas não cita o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT).

Apesar de acusar a imprensa de tentar ocultar as acusações feitas a Demóstenes, o documento elaborado pela executiva nacional petista cita gravações realizadas pela Polícia Federal que foram divulgadas por jornais, revistas e emissoras de televisão nas últimas semanas.

"As gravações divulgadas até o momento envolvem o próprio governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), bem como apontam estreitas ligações entre o meliante Cachoeira e veículos de comunicação", afirma.

"Farsa do mensalão". O texto segue o tom de um vídeo gravado pelo presidente nacional do PT, Rui Falcão, divulgado anteontem. Sem citar nomes ou partidos, ele afirma que a CPI deve investigar "os autores da farsa do mensalão", a quem chama de "falsos moralistas".

"A bancada do PT na Câmara e no Senado defende uma CPI para apurar esse escândalo dos autores da farsa do mensalão", afirma Falcão. "É preciso que a sociedade organizada, movimentos populares, partidos políticos comprometidos com a luta contra a corrupção, como é o PT, mobilizem-se para impedir a operação abafa, e para desvendar todo o esquema montado por esses criminosos, falsos moralistas que se diziam defensores da moral e dos bons costumes."

O presidente do PT afirma que a investigação deve "apurar todos os vínculos desse senador (Demóstenes) e de políticos de diferentes partidos com o jogo do bicho, com o contrabando e com informações privilegiadas de operações policiais".

Na resolução divulgada ontem, o PT cita a suposta "operação abafa" em torno de Demóstenes para cobrar a regulação dos meios de comunicação.

"Ficou evidente a associação de um setor da mídia com a organização criminosa da dupla Cachoeira-Demóstenes, a comprovar a urgência de uma regulação que, preservada a liberdade de imprensa e a livre expressão de pensamento, amplie o direito social à informação", diz o texto.

O documento também defende o funcionamento da Comissão da Verdade e a aprovação da proposta que criminaliza a homofobia, "paralisada por fortes pressões fundamentalistas".

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Brejeiro (Ernesto Nazareth) - Conjunto Época de Ouro

Sem controle:: Merval Pereira

Antes mesmo de começar, a CPI Mista sobre as atividades do bicheiro Carlinhos Cachoeira já está provocando seus estragos. O ex-delegado Protógenes Queiroz, que personifica na Câmara o justiceiro implacável contra a corrupção, foi apanhado num grampo da Polícia Federal no papel de amigo de fé do ex-sargento da Aeronáutica Idalberto Matias de Araújo, vulgo Dadá, o principal operador do bicheiro.

Como nesse caso as atividades legais se misturam com as ilegais, assim como o assessor palaciano Olavo Noleto, subchefe de Assuntos Federativos da Secretaria de Relações Institucionais, alegou negociações políticas para explicar sua conversa com um braço-direito de Cachoeira, também Protógenes disse que sua relação com Dadá era "profissional".

Por "profissional" entenda-se o submundo do crime organizado, onde Dadá, que hoje está na cadeia, pontificava como o principal homem encarregado pelo esquema do bicheiro pelas escutas telefônicas.

Dadá, aliás, andou envolvido no esquema de escutas do escritório eleitoral da candidata Dilma Rousseff no Lago Sul de Brasília, levado por Amaury Ribeiro Junior, o autor do livro "Privataria tucana", que Protógenes também quer investigar em outra CPI.

Quer dizer, Protógenes poderá ser alvo de investigações de suas próprias CPIs, assim como Demóstenes está sendo vítima de sua dupla atuação política, misturando o lado legal com o ilegal.

Também o PT viu confrontada sua intenção ao apoiar a CPI quando tentou reduzir sua abrangência, querendo retirar dos fatos determinados a serem analisados as empresas públicas e privadas, deixando apenas as relações de Cachoeira com os políticos para serem investigadas.

Essa tentativa de "redução de danos" mostra bem quais são as intenções do PT ao apoiar a convocação da CPI. Para pegar o governador tucano Marconi Perillo, um desafeto de Lula, eles abrem mão do também governador petista Agnelo Queiroz, numa análise de custo-benefício que seria favorável se pudessem restringir o chamado escopo das investigações.

Um dos principais alvos dessa tentativa de blindagem é a construtora Delta, a empreiteira que se tornou a responsável pela maioria das obras do PAC no governo Dilma, mas que tem perto de R$ 4 bilhões em repasses desde o governo Lula.

Mais de 80% desse total são contratos do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), do Ministério dos Transportes, órgão envolvido em denúncias diversas de corrupção no governo da presidente Dilma, o que por si só indica o potencial de desgaste que essa empreiteira leva consigo para a CPMI.

O governador do Rio, Sérgio Cabral, amigo do empresário Fernando Cavendish, dono da Delta, é outro que não está nada satisfeito com a existência da CPI.

Também o presidente do PT, Rui Falcão, teve que recuar diante da repercussão negativa de sua disposição declarada de usar a CPI do Cachoeira para rebater o que classificou de "farsa do mensalão".

Aliás, essa tática escancarada pelos blogueiros governistas parece ter se tornado um verdadeiro "tiro no pé".

Ao se vangloriarem de estarem "melando" o mensalão, esses governistas nada mais fazem do que revelar o temor que têm do julgamento do Supremo Tribunal Federal.

Mas, mesmo embaraçado com a evidência de má-fé política na condução da CPI, Falcão insiste que existe "uma grande pressão" para que se julgue o mensalão "num prazo curto", como se isso fosse criticável.

A ironia involuntária do presidente do PT, pois o processo já leva nada menos que sete anos, fez lembrar uma frase célebre de Getulio Vargas, que classificou de "curto espaço de tempo" os 15 anos em que governou, de 1930 a 1945.

Na outra ponta da mesma crise, a reunião do Conselho de Ética do Senado para o processo de cassação do mandato do senador Demóstenes Torres (sem partido) mostra como aquela Casa também sofre do "vício da amizade", conforme definição do ex-corregedor da Câmara Edmar Moreira, também sem partido, o "deputado do Castelo".

O senador Demóstenes, apesar de ser hoje pouco mais que um zumbi a vagar pelas passagens secretas do Congresso, com receio de ser visto, sente-se em condições de questionar a burocracia do Conselho de Ética, pois conhece o regimento melhor do que ninguém.

Demóstenes participou pela manhã da reunião, aparecendo de repente, qual um fantasma, para assustar seus companheiros, e disse que provará sua inocência, e a tática de constrangê-los parece ter dado resultado.

Nada menos que cinco senadores recusaram-se a assumir o cargo de relator do processo: Lobão Filho, do PMDB, alegou questões de "foro íntimo". Seu pai, o ministro Edson Lobão, já declarara que "esse negócio de julgar seus pares é muito complicado".

O mesmo ocorreu com os senadores Gim Argello, do PTB, Cyro Nogueira, do PP (esse recusou por telefone, nem se deu ao trabalho de comparecer), Romero Jucá e Renan Calheiros, ambos do PMDB.

O jeito foi fazer um sorteio, e o petista Humberto Costa acabou tendo que pegar o abacaxi.

Para um Congresso que decidiu abrir uma CPI por razões diversas, menos buscar uma correção de rumos, convenhamos que o roteiro está perfeitamente dentro do previsível.

FONTE: O GLOBO

Prejuízo social clube:: Dora Kramer

Onde havia a dúvida, o presidente do PT, Rui Falcão, instituiu a certeza: a defesa enfática da criação da CPI para investigar a rede de traficâncias do contraventor Carlos Augusto Ramos, vulgo Cachoeira, não pode ser tomada como um retorno do partido às lides da ética na política.

Significa, antes, uma tentativa de socializar desde já os prejuízos decorrentes do julgamento do processo do mensalão. De onde se conclui que o PT não faz as pazes com a legalidade, mas apenas volta a se utilizar da bandeira sob a qual fez carreira.

Até quarta-feira essa era apenas uma ilação. Uma versão corrente entre adversários de governo ou oposição, tornada oficial por Falcão em um vídeo divulgado na internet pedindo apoio para a investigação "do escândalo dos autores da farsa do mensalão".

Um recibo com certidão firmada em cartório. Tão completamente explícito que até petistas mais ajuizados manifestaram contrariedade. Entre eles o senador Jorge Viana, que foi ao ponto: "Ela (a CPI) não pode estar vinculada ao tema mensalão, pois esse é um problema que nós no PT temos uma versão e o Brasil tem outra".

Questão que caberá o Supremo Tribunal Federal resolver dizendo de que lado está a razão. Sem a interferência de ensaios canhestros de desvio de foco ou atos de pressão, cujo primeiro resultado é a exposição pública dos propósitos baixos do partido.

Ordens de Lula, sedento que está o ex-presidente de desmoralizar personagens e ações-chave no desmonte da imagem proba do PT? É o que consta e o que faz sentido, partindo-se do princípio de que Rui Falcão não lançaria mão de uma ofensiva tão escancarada sem um forte muro de arrimo a escorá-lo.

Aliou-se à defesa da tese difundida pelo réu mor do processo, José Dirceu, e saiu "denunciando" a existência de uma "operação abafa", organizada pelos meios de comunicação para impedir as investigações sobre as relações da rede Cachoeira com o mundo político em geral, com um órgão de imprensa em particular (a revista Veja) e, se possível, resvalar no Judiciário melhor ainda, na perspectiva dos que são vistos como "autores da farsa do mensalão".

Um truque conhecido, esse de partir para a ofensiva usando armas com sinal trocado a fim de aplicar vacina nas próprias mazelas.

Se possibilidade real de CPI passou a existir, se a rede de traficâncias está se revelando ampla e profunda, se personagens são desmascarados e negócios suspeitos vêm à tona é justamente por ação dos meios de comunicação.

Um ato categórico de acobertamento quem cometeu foi Rui Falcão ao citar nominalmente apenas os adversários, Demóstenes Torres (ex-DEM) e Marconi Perillo (PSDB), deixando de lado o petista Agnelo Queiroz.

A manobra de construção de um atalho que leve a uma derivação de curso deu certo uma vez com a história engendrada pelo então ministro da Justiça, hoje advogado de Cachoeira, Márcio Thomaz Bastos e contada por Lula. Na condição de presidente da República, não teve pejo em confessar crime eleitoral para tentar na ocasião como agora socializar e, assim, neutralizar o prejuízo.

Agora está ainda mais à vontade como eminência parda e militante da causa de fortalecer a tese de que o esquema de desvios e fraudes montado para financiar campanhas partidárias e, assim, cooptar uma base aliada substancial no Congresso, foi pantomima inventada por inimigos municiados por bandidos.

Ora, se foi mesmo uma farsa para que tanto esforço. Melhor deixar que a Justiça a desconstrua com a força dos fatos. Difícil que ministros do Supremo se deixem engambelar, preferindo referir-se nas impressões que na precisão das provas.

O mirabolante plano dado a conhecer por Rui Falcão parece partir do pressuposto de que o PT tem gordura para queimar dada a força política de Lula e a popularidade da presidente Dilma Rousseff.

É um lado da história. O outro é que se a oposição está no osso isso significa que tem muito menos a perder do que quem detém o poder. Risco por risco, com a CPI o do governo é maior.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Clima de CPI:: Eliane Cantanhêde

A capa da Folha de ontem confirma o clima de CPI.

Na manchete, "Gravação da PF indica pagamento de propina no DF", sobre suposto envolvimento do governo petista com o esquema Cachoeira, aquele que está em todas.

Logo abaixo, em "Câmara convoca Ideli para explicar compra de lanchas" e "Governo paulista suspende compras da PM sob suspeita". Ao lado, em "Roseana usa jato de empresário para viagem oficial aos EUA".

É uma avalanche (ou cachoeira) de desvios, favorecimentos, negócios escusos, ligações perigosas entre público e privado. A sensação do leitor/eleitor é a de que o mundo está de cabeça para baixo, enquanto o Congresso usa a CPI do Cachoeira como manobra política, sem o propósito real de investigar e punir.

A pergunta que não quer calar é: a quem interessa a CPI? Ao Planalto? Aos governistas? À oposição? A nenhum deles, só a nós, jornalistas, e a você, eleitor, leitor, ouvinte e telespectador, que carrega uma robusta carga tributária nas costas.

O PMDB quer uma CPI para assistir de camarote -ou melhor, na presidência da comissão- o desespero do PT e da oposição. Já caíram na rede e nas gravações um governo do PT (o do DF) e um do PSDB (Goiás), um senador do DEM e deputados de diferentes siglas.

É como se Cachoeira tivesse concluído, em algum momento da vida, que tudo se compra, todos têm um preço. E saiu por aí comprando empresas, negócios, jogos, governos, parlamentares, promotores, assessores de vários níveis, agentes da polícia e da Receita. Almas e consciências. Fora o que ainda não se sabe...

Ainda bem que, acima desse submundo, há um mundo real em que o Brasil avança. As grávidas de fetos anencéfalos não serão mais submetidas à escolha entre uma tortura medieval de nove meses e a fogueira penal. E a lei seca está voltando.

A CPI aproximaria esses dois mundos, melhorando a realidade. Mas... a quem interessa mesmo?

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Dilma busca aliados para enfrentar a banca:: Maria Cristina Fernandes

Minutos depois de ser empossado, em 27 março de 2006, no Ministério da Fazenda, Guido Mantega ligou para o secretário-executivo da Pasta, Murilo Portugal. Queria conversar sobre o posto que assumiria. "Não tenho o que conversar porque estou demissionário", disse-lhe Portugal que, até aquele momento, havia sido o segundo de Antonio Palocci no ministério.

Ao desligar, Mantega relatou o telefonema sem esconder a contrariedade, compartilhada pelos colegas de governo que estavam ao seu lado. Entre eles, a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.

Mantega continua no mesmo lugar e Portugal virou presidente do sindicato dos bancos. A trombada pública aconteceu ontem, quando Mantega subiu o tom para reagir às condições do sistema financeiro para a redução do spread, mas a rota de colisão começou a ser traçada cinco anos atrás, quando Dilma Rousseff ajudaria a remontar a equipe econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva depois da saída de Palocci.

A crise de 2008 imbicaria novamente a curva de juros para cima, reduzindo a marcha da colisão no segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.

Com a posse de Dilma, porém, a rota estava traçada e foi publicamente exposta pela presidente da República: a política monetária é a vantagem comparativa do Brasil num mundo que já derrubou os juros e ainda não tirou o pé da lama.

A curva descendente do Copom, a redução dos juros cobrados pelos bancos públicos e a subida de tom do ministro da Fazenda, Guido Mantega, com a Febraban são apenas a confirmação do norte perseguido por Dilma Rousseff desde que começou a ter ingerência para além dos megawatts.

O que só agora começa a ganhar contornos claros é que a presidente, frequentemente criticada por inabilidade, monta uma ampla aliança política para isolar o sistema financeiro na guerra do spread.

Essa aliança passa pela recuperação do poder dos Estados com a troca do indexador de suas dívidas e o afrouxamento das condições em que incentivos tributários estaduais podem vir a ser concedidos. É a reversão de um processo iniciado duas décadas atrás com a implantação do Real.

Para conter a explosão de demandas - e de sua face monetária, a inflação - trazida pela Constituição de 1988, a estabilidade da economia neutralizou a política.

O país vinha do trauma do impeachment, que abortou o mandato de Fernando Collor, o único governador de Estado eleito para a Presidência da República desde a redemocratização.

Foi aquela crise política que abriu caminho para um plano de estabilidade monetária que esvaziou a federação. Teve como pressupostos o Fundo de Estabilização Financeira (FEF), que daria origem à DRU e canalizaria recursos de Estados e municípios para o Tesouro nacional, a Lei de Responsabilidade Fiscal, o acordo da dívida e a privatização dos bancos estaduais.

Com os cofres esvaziados, dívidas a pagar, limites rígidos para contrair novas e proibidos de usar recursos fiscais para atrair empresas, os Estados foram desprovidos de poder político na mesma velocidade em que cresceu sua dependência da União.

A subversão dessa ordem não está em jogo e tampouco se corre o risco de as finanças estaduais voltarem a ser a casa da mãe joana. Até porque o governo federal não parece estar interessado em abrir mão da concentração de recursos políticos e fiscais gerada pelo esvaziamento dos Estados.

O que está em curso, com a discussão da troca do indexador das dívidas estaduais e municipais e o afrouxamento das condições em que incentivos tributários podem ser concedidos pelos Estados, é a recuperação dos governadores como atores políticos capazes de engrossar o setor produtivo no cabo de guerra com o sistema financeiro.

Reabilitados no seu poder de conceder incentivos e investir na infraestrutura de seus Estados, os governadores podem voltar a ser interlocutores das federações industriais e sindicatos que ao longo dos últimos anos têm batido um bumbo surdo na toada do desenvolvimento.

A aliança é reforçada também pela posse em julho do primeiro presidente bancário da história da CUT. Em entrevista a Raphael Di Cunto, publicada hoje no Valor, Wagner Freitas diz que a investida contra o spread bancário será a principal bandeira da entidade sob sua presidência.

Até o senador Aécio Neves (PSDB-MG), principal liderança do partido que operou a lógica da federação subordinada, hoje diz que a União virou rentista dos Estados e reclama de juros superiores àqueles pagos pelas empresas ao BNDES.

Pelo teor das propostas feitas pelo sindicato dos bancos, está claro que esta é uma guerra que requer aliados até da oposição. Entre as condições para que o spread seja reduzido há muitas que dependem do Congresso e outras tantas que enfrentariam infinitas batalhas judiciais, como a exigência de que a previdência complementar dos correntistas entre como garantia do crédito.

Muitas dessas garantias são de difícil execução e os bancos sinalizam que, sem elas, não há redução de spread à vista. Enquanto isso, como os juros efetivamente já estão caindo, não é difícil para o governo convencer a opinião pública de que a diferença entre o custo de captação e o de empréstimo vai para um bolso que não é o do correntista.

Vitor Belous, leitor do blog Casa das Caldeiras (www.valoronline.com.br), é um exemplo do campo fértil para o discurso do governo. O leitor comenta a alegação de inadimplência para a formação do spread: "As instituições emprestam mais do que a renda mensal do cliente comporta, ultrapassando 30% do comprometimento mensal do tomador. Os bancos pregam em seus informes publicitários o uso consciente do crédito, mas a realidade dentro das agências é outra, bater metas".

Dilma, com os aliados que tem, é bem-sucedida na imagem de que combate a corrupção. É de se supor que também seja capaz de angariar apoio da opinião pública ao isolar quem pinta de vermelho as contas correntes. Na pior das hipóteses, já conseguiu que a banca, agora, se disponha a conversar.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Crônica de uma asfixia anunciada :: Rogério Furquim Werneck

Nos últimos 20 anos a carga tributária da economia brasileira foi multiplicada por 1,5. Passou de 24% para 36% do PIB. Um aumento de nada menos que 12 pontos percentuais do PIB. Não há hoje no mundo outra economia emergente relevante com carga tributária tão alta quanto a do Brasil. E o pior é que a carga continua a aumentar. Só no ano passado, o salto foi da ordem de 1,5% do PIB.

"A elevação sem fim da carga tributária vai acabar sufocando o crescimento econômico do país." Tal advertência vem sendo repetida ad nauseam há muitos anos. E, no entanto, a maior parte da opinião pública tem reagido a esse prognóstico com a fleuma de quem toma conhecimento de que o sol está em inexorável processo de esfriamento. A percepção típica tem sido a de que a advertência aponta para um problema importante a ser enfrentado no futuro distante, quando, de fato, passar a merecer atenção.

A má notícia, para quem tinha tal percepção do problema, é que o futuro chegou. A elevação sem fim da carga tributária está, afinal, sufocando o crescimento da economia brasileira. Não da economia como um todo. Por enquanto, o que vem sendo claramente sufocado é o dinamismo de boa parte da indústria de transformação. Até mesmo Brasília parece ter-se dado conta disso.

Com o anúncio do pacote da semana passada, o governo reconheceu de forma cabal que muitos segmentos da indústria já não têm mais condições de arcar com a parte que lhes cabe na carga tributária que vem sendo imposta à economia. O agronegócio, a mineração e a extração de petróleo continuam tendo perspectivas promissoras. E, apesar de toda a voracidade da extração fiscal, a produção de serviços, resguardada da concorrência externa, vem conseguindo manter o crescimento. Parte da indústria, contudo, exposta à concorrência das importações, vem perdendo competitividade a olhos vistos, depauperada pela tributação exagerada e pelo custo Brasil despropositado, decorrente, em grande medida, da deficiência com que os três níveis de governo se desincumbem dos papéis que lhes cabem na oferta de serviços públicos e na expansão da infraestrutura.

O problema é que o governo mostra total despreparo para lidar com os desafios de uma agenda de redução efetiva da carga tributária. Porque, simplesmente, não contava com isso. Muito pelo contrário, vinha apostando todas as fichas na possibilidade de manter a arrecadação crescendo bem acima do PIB, para que o gasto público pudesse continuar em rápida expansão, em consonância com seu projeto político.

O que mais impressiona nesse despreparo é a negligência com que o governo trata possibilidades concretas de redução de carga tributária. Nas últimas semanas, voltaram a ganhar destaque as queixas da indústria contra a brutal carga tributária que recai sobre energia elétrica e serviços de telecomunicação. A reação do governo federal tem sido a de alegar, mais uma vez, que há muito pouco o que a União possa fazer a esse respeito, já que a maior parte do problema decorre das alíquotas extorsivas de ICMS com que os estados taxam tais insumos.

No entanto, ao mesmo tempo em que vem fazendo tais alegações, o governo vem negociando com os governadores a adoção de novas regras de indexação das dívidas dos estados com a União. Como era fácil prever, a abertura dessa caixa de Pandora já deu lugar a um festival de propostas irresponsáveis de renegociação das dívidas estaduais, como bem ilustra o projeto que ganhou corpo no Senado. Mas, apesar do risco de perda de controle da renegociação, tudo indica que o governo vai mesmo oferecer aos estados um pacote de bondades, com redução dos encargos das suas dívidas com a União. O que parece inexplicável, contudo, é que até agora não tenha havido a mais vaga menção à possibilidade de que a redução desses encargos esteja de alguma forma vinculada à diminuição das absurdas alíquotas de ICMS cobradas pelos estados sobre energia elétrica e telecomunicações. Como se isso pouco importasse ao governo federal. E não fosse crucial para o país.

Rogério Furquim Werneck é economista e professor da PUC-Rio.

FONTE: O GLOBO

Voluntarismo financeiro:: Celso Ming

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, mostrou nesta quinta-feira que o governo pode endurecer seu jogo com os senhores do dinheiro. Desta vez, expôs seu descontentamento com a falta de determinação dos banqueiros em derrubar o spread (diferença entre o que pagam pelos recursos e o que cobram nos empréstimos).

Por disposição de ofício, banqueiro não gosta de parecer brigão. Prefere trabalhar na moita, passando a impressão de que está de bem com todos, mesmo quando o governo Dilma dá sinais de que se prepara para entrar em rota de colisão com o setor. Para o governo, banqueiros estão na contramão em dois objetivos de política econômica.

O primeiro deles é a repentina redução de interesse dos bancos privados em ampliar operações de crédito, justamente num momento em que a atividade econômica ficou mais fraca. Ou seja, para o governo, os bancos não colaboram na execução de uma política anticíclica.

Os bancos privados se mostram menos interessados na expansão do crédito até mesmo nos segmentos em que as garantias são de melhor qualidade, como o do financiamento de veículos, na medida em que conta com a proteção proporcionada pelo estatuto da reserva de domínio. (Se deixa de pagar suas prestações, o credor tem de entregar seu veículo ao banco, um processo relativamente rápido.)

Entendem que, depois da rápida escalada que durou dez anos, em que avançou de 26,8% para 48,8% do PIB, o mercado de crédito se estreitou. Esse estrangulamento pode ser aferido hoje pelo aumento dos índices de inadimplência – de 5,8%, no início de 2011, para os atuais 7,6%. Entre perder mercado e perder rentabilidade, os bancos preferem perder mercado. Por isso, parecem menos propensos a atender o governo nesse quesito.

A segunda fonte de descontentamento do governo Dilma com os bancos é um problema crônico: são os juros escorchantes cobrados no crédito, que conspiram contra o interesse do governo de derrubar os juros e os custos de produção da economia.

Para atacar essas duas fontes de descontentamento, o governo mobilizou os bancos oficiais, hoje com cerca de 44% do mercado nacional de crédito. Quer que Banco do Brasil e Caixa Econômica atuem mais agressivamente no crédito, seja expandindo suas operações, seja derrubando os juros cobrados dos tomadores.

A decisão de chamar para a briga demonstra certa fraqueza do governo. Sempre que apela para o voluntarismo ou para falsas quedas de braço, produz mais espuma que substância. É preciso, também, atacar as condições técnicas que mantêm os spreads bancários na altura em que estão.

Por outro lado, acionar os bancos oficiais para tentar acirrar a concorrência num setor que opera com altos níveis de cartelização leva o risco de criar distorções. Quando criou e depois manteve a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) a juros artificialmente baixos, o governo montou o monopólio do BNDES regado com recursos (fundings) oficiais e matou o mercado de financiamento de longo prazo (exceto pelo crédito habitacional).

E é esse o risco que correm os segmentos de crédito de curto prazo.

CONFIRA

Falta de resposta. Também nos Estados Unidos o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) vem emitindo dólares com o objetivo de desobstruir o crédito sem, no entanto, obter grande sucesso.

Desinteresse. Na crise, os bancos temem expandir suas operações de crédito com medo da incapacidade dos clientes de honrar o pagamento da dívida. Os consumidores, por sua vez, relutam em tomar mais crédito, porque já estão excessivamente endividados e também assustados com o risco de perder o emprego. E as empresas também se afastam do crédito, porque o desemprego alto aponta para consumo mais fraco.

Atraso. Isso significa que já não basta uma enorme oferta de recursos para que o crédito imediatamente responda. Isso sugere que, em época de crise, mesmo uma política monetária expansionista opera com atraso maior do que em tempos normais. É o que o Banco Central do Brasil já vinha dizendo em seus documentos.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Desânimo na feira mundial:: Vinicius Torres Freire

Comércio global vai crescer menos em 2012, sinal de que os tempos bicudos ainda não ficaram para trás

A economia mundial melhora. O que isso quer dizer? Cresce algo mais, na média, dos que nos anos de colapso, e a quanto custo: trilhões despejados pelos bancos centrais, uns trilhões em dívidas novas de governos, dinheiro doado a bancos e grossos investidores. Na média, melhora mesmo devido à China e vizinhos, à Índia e não muito mais.

Porém, a Organização Mundial do Comércio mandou avisar que o comércio mundial emperra.

A OMC disse que o volume de comércio deve crescer menos de 4% em 2012, ante os 5% de 2011.

Mas o crescimento do comércio vinha acelerando. Era a globalização, ou um aspecto dela, certo?

No último ano bom do boom do início do século, 2007, o comércio mundial crescera 7%. No colapso de 2008, desacelerou para 2,8%, em parte devido à mordida da recessão, em parte devido abrupto desaparecimento do crédito, cortesia da inépcia e da bandalha da finança mundial. Em 2009, houve feia regressão, queda de 12%, recuperada pelo crescimento de 14% de 2010.

Ou seja, o comércio mundial quase não cresceu entre 2008 e 2010.

Os tropeços de 2011 ocorreram em quase toda parte. No Japão, grande ator do mercado mundial, as exportações praticamente não cresceram, dado o desastre do tsunami e a decorrente desorganização das cadeias produtivas. Na China, também prejudicada pelos problemas no Japão, o ritmo do aumento de exportações baixou a um terço da velocidade de 2010. Nos Estados Unidos, caiu pela metade.

Logo, a desaceleração de 2011 poderia ser atribuída em parte a motivos pontuais, não recorrentes. Em parte, também os sustos europeus desanimaram empresários e consumidores, reduzindo o crescimento em outras partes do mundo, por aqui no Brasil inclusive.

Em 2012, o mundo vai ter de encarar os prejuízos provocados por uma recessão europeia da qual ainda não se sabe o tamanho, embora não pareça radical, "tudo o mais constante" e desde que não ocorra naufrágio da armada espanhola.

A China, aparentemente, vai crescer um pouco menos que em 2011, mas não lá muito menos. O clima nos Estados Unidos despiora, sujeito a mudanças no decorrer do período. Mas, recorde-se, no ano passado discutia-se a hipótese de uma nova recessão americana. Os "emergentes", Brasil inclusive, devem andar um pouquinho mais rápido que no ano passado.

Logo, é de se perguntar pelos motivos da mediocridade do crescimento do comércio mundial (aliás, note-se que a OMC diz que há risco pesado de o comércio mundial crescer ainda menos que os 3,7% que prevê para 2012).

"Protecionismo"? Pode ser. Mas o fato é que, na média, a economia mundial vai crescer mesmo menos que em 2011. A grande draga será a Europa, mas os latino-americanos, na média, vão ter um desempenho pior neste ano.

Para piorar, em tese ou em teoria, um ritmo menor no comércio implica um ritmo também menor no aumento da eficiência econômica. Comércio serve também para reduzir custos, certo?

Não, não se trata de anunciar catástrofe, nem parece haver alguma à vista. Mas de temperar as euforias que vêm dos povos dos mercados, que muita vez nada têm a ver com a vida real.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Preço do dinheiro:: Míriam Leitão

Os dois bancos públicos se dizem preparados para tomar cliente dos bancos privados. O Banco do Brasil vai mandar SMS para quem ultrapassar o limite do cheque especial, ou usar o crédito rotativo por longo período, para convidar a refazer seu crédito a taxas menores. A Caixa Econômica dará juros ainda mais baixos quanto maior for o relacionamento com a instituição. Eles já estão sendo procurados por clientes do setor privado.

Entrevistei ontem na GloboNews o vice-presidente de Gestão Financeira e Relações com Investidores do Banco do Brasil, Ivan de Souza Monteiro, e o vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal, Márcio Percival Alves Pinto. Os dois garantem que não temem a formação de bolhas nem o risco de perda de rentabilidade das instituições. Informam que além da renegociação de dívidas por juros mais baixos e prazos maiores estão oferecendo aos clientes educação financeira para orientar os investimentos.

Essas medidas têm a vantagem de disparar uma competição maior entre os bancos, através de taxas de juros menores - ontem mesmo o HSBC também anunciou cortes. Por outro lado, há o risco de que as empresas públicas sejam usadas para atender às políticas de governo e venham a ter prejuízo, que acabará sendo coberto pelo contribuinte, como já aconteceu no passado.

Os dois vice-presidentes dos maiores bancos públicos do país garantem que não estão correndo risco, que tudo foi analisado há muito tempo e que o processo de redução de taxas tem sido contínuo desde 2008.

- A conjuntura internacional é de juros negativos, e aqui dentro o regulador tem reduzido também as taxas básicas de juros para níveis historicamente baixos. O desafio hoje é como manter o crescimento, manter os empregos, e o crédito ajudará nisso - diz Ivan Monteiro.

- Nessa situação nova, em que temos uma crise lá fora e uma situação de tranquilidade aqui dentro, não se pode manter taxas de juros que são incompatíveis com todos os outros determinantes, como a Selic, os juros futuros, a perspectiva do país, a composição da dívida pública - afirma Márcio Percival.

O vice-presidente da Caixa contou que com a oferta mais abundante e a custos menores aos clientes a CEF conseguiu sair de 6% do mercado, em 2008, para 12%, agora, e deve terminar o ano em 14%. Ivan Monteiro, do BB, diz que o banco tem 20% do mercado e sempre foi líder entre funcionários públicos:

- A livre opção bancária para funcionários públicos criou um desafio. O movimento que estamos fazendo agora é também para defender nossa base de clientes.

O grande truque nessas reduções de taxas do BB será a convocação de clientes para sair das modalidades mais caras de crédito, trocando-as por opções mais baratas. Quem estiver há dois meses usando mais do que 50% do seu limite de cheque especial, ou estiver há dois meses não pagando integralmente o cartão de crédito, será chamado para receber empréstimo. Transforma a dívida mais cara em crédito mais barato, de 3%, e refinancia em 24 meses.

Na Caixa, os juros do cheque especial já caíram de 7% para 3,5% e podem chegar a 1,35% dependendo da intensidade do relacionamento com o banco.

- Em vez de foco na rentabilidade do produto, estaremos de olho na rentabilidade do cliente para o banco - disse Márcio.

A Caixa não mexeu no produto em que é líder, o crédito imobiliário. Segundo Márcio Percival, é porque os juros desse produto são administrados e já bem baixos. No final do mês, a instituição fará um grande leilão de imóveis que além de taxas diferenciadas terá até uma novidade: serão imóveis mobiliados.

Os dois dirigentes recusam a ideia de que isso é incentivo ao endividamento excessivo que pode levar à formação de bolhas como as que arruinaram outras economias.

- O endividamento das famílias está em apenas 22% da renda. Isso é um nível baixo. A gente pode pensar em bolhas quando os ativos estiverem se valorizando muito acima da renda - afirma Márcio.

Lembrei que isso ocorre nos imóveis. Ele admitiu que certos segmentos desse setor precisam mesmo ser olhados com bastante atenção.

Os dois bancos aumentaram a base de clientes e participação no mercado desde a crise. Mas estiveram envolvidas em episódios problemáticos. O BB comprou o Banco Votorantim, que estava com dificuldade de se financiar no auge da crise, e no final de 2011 exibiu dados de alta inadimplência na carteira de automóveis. A Caixa se envolveu em um caso mais complicado: comprou uma participação no Banco PanAmericano, que depois revelou ter um enorme rombo.

- Aquilo foi caso atípico, foi fraude. Deu um choque grande no sistema e afetou a imagem da instituição, mas não teve repercussão financeira negativa - diz Percival.

A verdade é que a Caixa pagou R$ 740 milhões por um banco quebrado e depois teve que fazer aportes bilionários na instituição. Caixa e BB negam, claro, que tenham reduzido juros a mando da presidente Dilma. Alegam que vinham derrubando as taxas e captando mais clientela desde a crise, quando os bancos privados se retraíram. Apesar de falarem a mesma língua, no intervalo da gravação, seus assessores correram para cochichar instruções a cada um dos entrevistados. Ao fim do programa, eles foram cercados por funcionários do estúdio querendo detalhes das novas taxas. Sinal do apelo que tem essa proposta de queda do preço do dinheiro.

FONTE: O GLOBO

Difícil, mas não há outro caminho :: Washington Novaes

No emaranhado de notícias sobre as crises que cercam o mundo de hoje - clima, uso insustentável de recursos naturais, economia europeia - sobrevêm informações que despertam a esperança de que, apesar de tudo, se possa caminhar. Ou, pelo menos, definir - como nas discussões sobre a Conferência Rio+20 - rumos mais adequados.

Pode-se começar pela notícia (Estado, 24/3) de que a Fundação Getúlio Vargas-São Paulo passará a calcular o índice de Felicidade Interna Bruta, mais amplo que o de evolução do produto interno bruto (PIB), restrito a fatores econômicos, e que passará a ser apenas um dos componentes do novo índice, ao lado dos valores e custos ambientais, gastos com segurança pública, desastres naturais e outros. É um avanço importante. Desde a década de 1990, pelas mesmas razões, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) vem calculando o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que inclui a esperança de vida ao nascer, taxas de alfabetização de adultos e de matrículas no ensino, ao lado do PIB per capita.

Há pouco tempo o presidente da França encarregou uma comissão integrada pelos Prêmios Nobel Amartya Sen e Joseph Stiglitz, entre outros cientistas, de propor novo índice para medir o desenvolvimento que inclua esses novos fatores, a eles acrescentando o valor do trabalho doméstico, principalmente das mulheres, o valor do trabalho informal e outros. São caminhos para incorporar às políticas públicas ângulos que ficam de fora quando se dá prevalência absoluta a fatores apenas econômicos. Agora, divulga-se também (Folha de S.Paulo, 2/4) que a própria ONU "começa a implementar resolução que busca um "padrão holístico" para medir o desenvolvimento dos países", capaz de também de "mensurar a felicidade e o bem-estar dos povos". O tema será discutido na Rio+20, inclusive por Stiglitz. Brice Lalonde, secretário executivo da conferência, pensa que ali será adotado um mandato de três anos para que a ONU defina indicadores alternativos ao PIB que incluam o peso dos impactos naturais.

Certamente não será fácil nem simples definir como valorar recursos e serviços naturais, incluí-los nas contabilidades nacionais e internacionais, estabelecer critérios para cobrar o custo de impactos nessa área, dizer quem vai pagá-los - cada país, cada empresa, cada pessoa? O exemplo da tentativa europeia de taxas as emissões geradas na aviação e na navegação marítima é muito indicativo: onde se taxará - no país de origem, no destino ou nos países intermediários? Pode-se avançar também para o campo do comércio exterior: onde taxar as emissões geradas pela produção de bens exportados - no país de origem dos recursos ou nos países de destino, consumidores?

Ao que parece, os organizadores da Rio+20 esperam que ao final dos debates se produzam "pelo menos" quatro relatórios "de destaque" (Instituto Akatu, 3/4): uma carta oficial de compromissos dos países com o desenvolvimento sustentável; recomendações da sociedade civil aos governos; ações que possam ser assumidas pelos governos, empresas e cidadãos; e a lista de intenções e metas de desenvolvimento de cada país para seu âmbito interno - tal como enunciou a secretária do Ministério do Meio Ambiente Samyra Crespo.

Se os princípios em discussão chegarem à prática, encontrarão panoramas difíceis, como o apontado pelo professor Ricardo Abramovay, da USP, segundo quem "a extração de recursos da superfície terrestre cresceu oito vezes durante o século 20, atingindo um total de 60 bilhões de toneladas anuais, considerando apenas o peso físico de quatro elementos: minérios, materiais de construção, combustíveis fósseis e biomassa" (Eco 21, fevereiro/2012). Insustentável. É o que começam a dizer tantos economistas sobre a finitude dos recursos materiais. Pelo mesmo caminho, diz o Instituto Carbono Brasil (Fabiano Ávila, 30/3), o aumento do PIB dos países emergentes tem ocorrido com "exploração abusiva da biodiversidade e dos recursos minerais". No caso brasileiro, ao aumento de 34% no PIB entre 1990 e 2008 teria correspondido um queda de 46% no "capital natural" no mesmo período. E acrescenta: "Se todos os fatores sociais, energéticos e manufaturados fossem levados em conta, o "crescimento real" do Brasil seria de apenas 3%". É a conclusão da Conferência Planeta sob Pressão, realizada em Londres.

Pena que num momento como este nossa presidente da República atribua a "fantasias" as críticas de vários setores à construção de hidrelétricas como Belo Monte e outras amazônicas e diga que essas elucubrações distantes da realidade não serão discutidas na Rio+20. Porque, na sua visão, as críticas partem de quem acredita que o desenvolvimento ocorrerá apenas com energia solar (abundante) e eólica (já a preços competitivos) - até porque, segundo ela, não é possível "estocar vento".

O ex-ministro professor José Goldemberg já considerou o discurso da presidente "um mau presságio" para a Rio+20. E tem razão. O que se esperava é que, numa conferência como essa, o governo discutisse a matriz energética nacional; estudos como o que produziram a Unicamp e o WWF já em 2006, mostrando que o País pode economizar cerca de 50% da energia que consome - quase 30% com programas de eficiência e conservação de energia (tal como fez no apagão de 2001); 10% reduzindo as inacreditáveis perdas nas linhas de transmissão (próximas de 17%); e mais 10% repotenciando antigos geradores de usinas, a custos muito mais baixos. E que o governo se dispusesse a discutir o plano de expansão de usinas nucleares, no momento em que quase todo o mundo as abandona (porque são perigosas, caras e sem destinação para o lixo nuclear).

Mas não se deve perder a esperança - mesmo porque não há outro caminho.

P. S. - No artigo da semana passada mencionei incorretamente a data da entrevista do professor Vinicius M. Netto ao caderno Aliás. A correta é 5 de fevereiro de 2012. Peço desculpas.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Greve em estádios preocupa Fifa

Onda de greves em obras de estádios da Copa preocupa a Fifa. Ontem, trabalhadores cruzaram os braços em Salvador. Em Fortaleza, a greve já dura dez dias

Onda de greves é nova preocupação

Fonte Nova e Castelão estão com as obras paralisadas e operários da Arena das Dunas pararam por 11 dias; COL e Fifa temem atrasos ainda maiores

Anna Ruth Dantas, Almir Leite, Carmen Pompeu e Tiago Décimo

As greves que pipocaram nos últimos dias em obras de estádios da Copa de 2014 é o novo motivo de apreensão da Fifa e do Comitê Organizador Local (COL). Ontem, os trabalhadores da Arena Fonte Nova, em Salvador, cruzaram os braços, reivindicando melhorias salariais e das condições de trabalho. A reforma do Castelão, em Fortaleza, tida como a obra em arena mais adiantada, está parada há dez dias. E os operários da Arena das Dunas, em Natal, a mais atrasada, retomaram as atividades na tarde de ontem após dez dias parados.

O COL observa com atenção a situação. "O Comitê Organizador Local monitora de perto o andamento das obras nos estádios e vem acompanhando com atenção as paralisações"", disse o órgão ao Estado, por meio de nota. "Seguimos trabalhando com as sedes na expectativa do término dessas paralisações, para que não sejam afetados os cronogramas de entrega dos 12 estádios da Copa do Mundo da Fifa.""

A greve na Fonte Nova está ligada à paralisação dos trabalhadores da construção pesada no Estado da Bahia, que atinge cerca de 300 obras. A assembleia que decidiu pela interrupção dos trabalhos foi realizada na manhã de ontem no estádio. Os operários querem 20% de reajuste salarial e aumento do valor da cesta básica de R$ 130 para R$ 250, entre outras reivindicações.

A Fonte Nova tem 56% das obras concluídas, segundo último levantamento do Ministério do Esporte. No dia 27 receberá visita de comitiva da Fifa, com parte da inspeção que determinará se a arena poderá ou não receber jogos da Copa das Confederações em 2013. A entrega do estádio está prevista para dezembro e a Secopa local não acredita que haverá atraso.

O mesmo já não ocorre em Fortaleza. Os dez dias de paralisação levaram ontem o consórcio formado pelas empresas Galvão Engenharia e Andrade Mendonça, a manifestar preocupação. Diz o consórcio que, se a greve se prolongar, "poderá prejudicar o cumprimento do marco (prazo), gerando prejuízos irreparáveis ao futebol cearense"".

O secretário especial da Copa no Ceará, Ferruccio Feitosa, pensa diferente: acredita que a paralisação não comprometa o cronograma até 2014. O estádio é um dos escolhidos para a Copa das Confederações e a previsão de entrega é o mês de dezembro.

A greve, porém, pode se prolongar. O Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção de Estradas, Pavimentação e Obras de Terraplenagem (Sintepav) diz que as negociações com o consórcio não avançaram e que os operários vão continuar em greve - haverá nova assembleia na segunda-feira.

Os servidores almejam, entre outros itens, um salário base igual para os trabalhadores dos 12 estádios da Copa. "Reivindicamos a pauta nacional, que inclui o salário unificado dos trabalhadores. Houve descumprimento do acordo porque algumas empresas pagaram o valor único e outras não"", diz o presidente do Sintepav, Raimundo Nonato.

Em Natal, a greve, por aumento salarial e para pedir a readmissão de 12 trabalhadores demitido na paralisação anterior, foi encerrada ontem à tarde. Os operários enfim cumpriram a liminar a favor do consórcio que toca as obras dada na segunda-feira pelo Tribunal Regional do Trabalho, que determinava a volta imediata ao trabalho. Mas não está descartada nova paralisação.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Copa, copo e corpo :: Cristovam Buarque

No espaço de poucas horas, o mundo tomou conhecimento de dois fatos ocorridos no Brasil. Em outro tempo, não haveria repercussão, mas, em função da próxima Copa do Mundo, os fatos tiveram destaque internacional e podem trazer consequências graves para o País.

Primeiro, a aprovação na Câmara dos Deputados de lei que autoriza a venda de bebidas alcoólicas nos estádios durante a Copa. Ao tomar conhecimento dessa decisão, que ainda passará pelo crivo do Senado, o mundo soube que o Brasil tinha uma lei que proibia essa venda. O mundo percebeu que estamos dispostos a abrir mão de um bom princípio, em nome de sediar os jogos, e até abrir mão da própria soberania, para submeter-se à vontade da Fifa e seus patrocinadores.

Se a venda de bebidas fosse uma boa ideia, ela seria autorizada independentemente da Fifa, de forma autônoma e soberana, e se a venda de bebidas é nociva ela não deveria ter sido permitida. Além disso, em nenhuma hipótese deveríamos passar a ideia de submissão à vontade estrangeira.

A Fifa tinha informação e quando decidiu pela Copa no Brasil sabia que a venda de cerveja já era proibida nos estádios. Portanto, ou a Fifa aceitava esta regra ou alguém assegurou, sem consultar o Congresso, que a lei seria modificada. Neste caso, além de falta de soberania, têm-se um gesto de desrespeito ao Poder Legislativo. Nossos representantes da Confederação Brasileira de Futebol ()CBF) deveriam ter proposto a mudança ao Congresso Nacional, antes de assinar qualquer compromisso.

Agora, cria-se uma dificuldade: se o Congresso recusar a venda de bebidas, o governo atropelará a decisão do Congresso por intermédio de uma medida provisória na véspera da Copa, ou a Fifa retirará os jogos do Brasil? Além disso, a Câmara dos Deputados deixou aberta a possibilidade de cada Estado decidir se autoriza ou não a venda da bebida. O que acontecerá ao Estado onde a Assembleia Legislativa decidir pela proibição da venda de cerveja?

A segunda notícia de repercussão internacional foi a decisão do Supremo Tribunal da Justiça (STJ) de que um estuprador não pode ser condenado como estuprador ao ter relações sexuais com "menor prostituta". O STJ considerou que no caso de "menor prostituta" o ato deve ser tratado como sexo consentido, mesmo com crianças de 12 anos de idade. O simples reconhecimento da existência de prostituição de menores já é um fato grave e negar a criminalidade do estupro, passa ao mundo a mensagem de que existe prostituição de menor e de que isso é sexo consentido, não é estupro.

Se a decisão é resultado de interpretação pessoal de um juiz de Alta Corte, o fato é muito grave, mas, se ao invés de interpretação pessoal houve uma decisão de acordo com o que diz a Lei, a gravidade é ainda maior. Tratar-se-ia não de decisão de um juiz, mas de uma legalidade nacional que, ao não considerar o fato como estupro, aceitaria a exploração sexual de menores. Seria um ordenamento jurídico monstruoso que não protege a menor ou o menor.

Também é grave o momento em que a decisão foi tomada, mandando recado aos que estão se programando para virem a Copa da Fifa.

A conjugação de autorização de venda de cerveja e de descriminalização do estupro de menores em condição de prostituição acena aos turistas que o Brasil é um País da tolerância.

Muitos poderão imaginar que o Brasil oferecerá aos turistas Copa, copo e corpo.

Cristovam Buarque é professor da UnB e senador pelo PDT-DF

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Cine PE anuncia participantes e discute liga de festivais

Sete dias de festival, 40 filmes (26 curtas e 14 longas), sendo 7 longas e 18 curtas em competição, 3 homenageados, 250 convidados, custo de R$ 2 milhões e público estimado de 30 mil pessoas que passarão pelo Teatro Guararapes de 26 de abril a 2 de maio. A 16.ª edição do Cine PE Festival do Audiovisual tem tudo para ser, mais uma vez, um grande evento. Fazendo jus à sua fama de maior público dos festivais brasileiros, será também sede da inédita reunião e do lançamento oficial da Nova Frente dos Festivais, a FF. Inicialmente batizada de Frente dos Grandes Festivais de Cinema do Brasil (FGF), a entidade quer fortalecer os grandes eventos cinematográficos do País e tem até agora como membros o Cine PE, os festivais de Gramado, Brasília, Rio e Cine Ceará.

"Queremos ainda incluir festivais de São Paulo, como Paulínia, Mostra de São Paulo, de Minas e até o Anima Mundi... É importante que os grandes unam forças", declarou o diretor do Cine PE Alfredo Bertini, um dos responsáveis pela iniciativa, durante lançamento oficial do 16.º Cine PE, realizado na quarta, na Cinemateca Brasileira. Quando questionado se a liga é a Série A dos festivais brasileiros, Bertini respondeu: "Claro! Houve reclamações de que o ''grandes'' era soberba em relação aos outros. Temos dois logotipos feitos, um com G outro sem. Vamos decidir no Recife qual manteremos. Sou favorável ao G. Respeito os pequenos, mas me sinto grande."

Por grandes, entenda-se eventos que, de acordo com o manifesto do FF, são reconhecidos na cadeia produtiva do audiovisual, considerados expressões socioeconômicas; realizam-se como festivais (e não como mostras), têm programação ampla, formam plateias e aperfeiçoam mão de obra, respeitam a diversidade das produções e mobilizam público. "O objetivo é trabalhar ações de cooperação nacional e internacional, fortalecer a união e não a competição. Criar um pool que possa negociar com grandes festivais do mundo, com patrocinadores... Quem sabe um dia não depender de patrocínio público, como ocorre com Cannes, por exemplo. Pense na força e na diversidade de todos esses festivais juntos, na visibilidade que dão a patrocinadores."

Se depender dos longas em competição, que neste ano são quatro cariocas, um paulista e dois pernambucanos, a diversidade está garantida. Já entre os homenageados, estão os diretores Cacá Diegues e Fernando Meirelles, e o ator Ney Latorraca. De Cacá, será exibida uma cópia nova de "Xica da Silva"; de Meirelles, "Xingu", produzido por ele e com direção de Cao Hamburger; de Latorraca, "Beijo no Asfalto", de Bruno Barreto.

OS LONGAS:

"À Beira do Caminho" (RJ)
Direção de Breno Silveira

"Boca" (SP)
Direção de Flávio Frederico

"Corda Bamba - História de Uma Menina Equilibrista" (RJ)
Direção de Eduardo Goldenstein

"Estradeiros" (PE)
Documentário de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira

"Jorge Mautner - O Filho do Holocausto" (RJ)
De Heitor D’Alincourt e Pedro Bial

"Na Quadrada das Águas Perdidas" (PE)
De Wagner Miranda e Marcos Carvalho

"Paraísos Artificiais" (RJ)
Direção de Marcos Prado

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Amor eterno:: William Shakespeare

Impedimentos não admito para a união
de corações fiéis: amor não é amor
quando se altera ao perceber alteração
ou cede em desertar quando o outro é desertor.
Oh! Não, ele é um farol imóvel tempo em fora
que as tempestades olha e nem sequer trepida;
é a estrela para as naus, cujo valor se ignora,
mau grado seja a sua altura conhecida.
O amor não é joguete em mãos do tempo, embora
face e lábios de rosa a curva foice abata;
não muda em dias, não termina numa hora,
porém, até o final das eras se dilata.

Se isto for erro e o meu engano for provado
Jamais terei escrito e alguém terá amado.