O Globo
O pedido da primeira-dama teve enorme
repercussão e politizou a discussão sobre o Discord, que deveria ser tratada
tecnicamente
Na quinta-feira da semana passada, Janja da
Silva pediu o banimento do Discord pela morte de uma menina de 13 anos. O
pedido da primeira-dama teve enorme repercussão e politizou um tema que deveria
ser tratado tecnicamente, agora que temos um arcabouço regulatório moderno com
o ECA Digital.
Parte da esquerda correu para apoiar o banimento — uma medida autoritária e completamente desproporcional —, enquanto parte da direita correu para denunciar o banimento como medida típica de autocracias e ditaduras. A medida cautelar da ANPD, que suspendeu temporariamente uma funcionalidade do Discord, foi técnica e proporcional, mas sua recepção foi contaminada pela gritaria da política. Sob a fumaça do fogo cruzado, foi difícil perceber que o Discord continua no ar, que a medida é reversível (se condições forem cumpridas) e que há mecanismo de recurso para a empresa. Mais importante: a ANPD poderia ter pedido ao Judiciário a suspensão do Discord e não pediu.
O ECA Digital estabelece que as plataformas
têm um dever de cuidado e que precisam gerir riscos de seus produtos e serviços
com acesso provável de crianças e adolescentes. Induzida por um grupo de
adolescentes, a menina se automutilou e depois se suicidou numa live no Discord
assistida por mais de 200 pessoas. A criptografia nas lives em canais privados
foi implementada depois da promulgação do ECA Digital e às vésperas de sua
entrada em vigor. Com isso, o Discord diminuiu sua capacidade de detectar atos ilícitos
nos servidores e, de acordo com o novo arcabouço regulatório, deveria ter feito
uma avaliação de riscos e adotado medidas compensatórias.
No começo da semana, a ANPD convocou a
plataforma a explicar as medidas adotadas de gerenciamento de risco daquele
produto. O Discord alegou que adotava essencialmente duas medidas: um botão de
denúncias e um sistema de detecção de comportamentos de alto dano. O botão de
denúncias mostrou-se inócuo numa situação em que apenas a vítima coagida e os
abusadores estavam presentes. E o mecanismo de detecção de comportamento de
risco falhou miseravelmente. Os registros internos do Discord mostram que o
servidor da live recebeu pontuação de risco de 0,12, ao passo que o limiar para
identificação automática era de 0,95.
Vale a pena estender-se nesse ponto. O
sistema do Discord usa uma série de métricas para tentar identificar um
comportamento danoso: sinais comportamentais, relações entre contas, padrões de
rede e metadados (a descrição é abstrata de propósito, para agentes
mal-intencionados não conseguirem fraudar o sistema).
A sensibilidade desse sistema de detecção
pode ser calibrada: se for menos sensível, pega apenas comportamentos danosos
inequívocos, mas deixa passar aqueles que emitem sinais fracos, como o caso da menina;
se for mais sensível, pega a maioria dos comportamentos danosos, mas também
muitos falsos positivos. Esses falsos positivos precisam depois ser filtrados
com supervisão humana, e isso encarece a operação.
Esse é o nó regulatório. Deixada às forças de
mercado, a empresa encontrará um equilíbrio entre proteção e custo muito menos
protetivo. A supervisão regulatória atua, então, para criar incentivos para que
se proteja mais a infância — ameaçando aplicar multa se as medidas preventivas
forem consideradas débeis.
A ANPD determinou a suspensão cautelar da
funcionalidade de live criptografada até que a empresa apresente medidas
técnicas efetivas e obtenha uma autorização para reativação. O documento da
ANPD sugere soluções como calibragem mais sensível do sistema de detecção de
comportamento danoso e controles de idade combinados a restrições de produto —
o que aponta para restringir a transmissão criptografada a usuários adultos
verificados.
A atuação da ANPD, como se vê, foi de
natureza técnica e regulatória, com diretrizes e abordagens inspiradas nos
modelos europeu e britânico. Nada disso é comparável às ações de autocracias
como o governo russo, que proibiu o Discord por não remover mais de 940
publicações, incluindo “propaganda LGBTQ+”.
O ECA Digital foi aprovado no Congresso em
raro consenso entre esquerda e direita, porque seu objeto era a proteção da
infância. Esse consenso não sobreviveu ao primeiro teste. Bastou uma
manifestação estridente da primeira-dama para converter a primeira decisão
técnica importante do ECA Digital em mais uma disputa entre esquerda e direita
sobre regulação versus liberdade de expressão. Todo o barulho, porém, é por
nada. A proibição do Discord nunca esteve em discussão na ANPD, e a indução ao
suicídio nunca fez parte da liberdade de expressão.

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