Folha de S. Paulo
Governo ruim, política horrível e azares
resultaram em ruína que assombra país até hoje
Clima e economia mundial podem dificultar
ainda mais conserto econômico necessário
Dilma
Rousseff deu muita chance para o azar que degradou ainda mais a
situação econômica e política a partir de 2014. Seu governo foi desastroso, mas
Dilma teve azar de enfrentar a campanha para sua deposição, que começou assim
que foram fechadas as urnas. A gente é tentada a dizer que é difícil a
repetição das condições desse desastre que nos assombra até hoje, na economia e
na política. Mas um pouco de cheiro de queimado dá medo de incêndio.
As taxas de juros aumentaram nos EUA. São a torneira do capital do mundo, que pode nos causar sedes. Estão nos níveis mais altos em cerca de 20 anos no caso dos prazos mais longos. Não há perspectiva de alta descabelada, mas estão em alturas que dificultam um tanto mais a nossa vida quanto a câmbio e juros. Crescemos pouco em anos de ambiente externo favorável. E se a maré vira?
Vem
por aí El Niño de intensidade inédita em um século —essa é a previsão. El
Niño forte não quer dizer, necessariamente, que chuvas e secas vão arruinar
safras ou encarecer a eletricidade. Mas o risco é grande. Para piorar, o país
não colocou o setor elétrico em ordem, ao contrário, e o agro está endividado.
O ritmo
de crescimento da economia mundial em 2027 não deve mudar de modo
significativo, dizem previsões (hum), nem haveria baixa relevante do preço de
commodities que pagam nossas contas externas (petróleo, grãos, carnes, ferro),
afora o caso de petróleo, embora previsão de preço de commodities seja o que se
sabe. Recorde-se que a receita do governo com petróleo paga também naco enorme
das despesas federais.
A dívida
pública terá saltado de uns 72% do PIB para ao menos 82% sob Lula 3, isso
em anos de crescimento econômico, quando deveria cair. Com crescimento menor,
será muito mais difícil consertar as contas públicas. Governo, empresas e
famílias endividadas com uma taxa de juros horrível a perder de vista sugerem
que o "ajuste", se vier, provocará grande desgaste político, para
dizer a coisa de modo ameno.
Dilma 1 arrebentou as contas públicas, degradou
a contabilidade pública, buliu com o Banco Central, na prática tabelou preço de
combustíveis e energia, desestruturou o setor elétrico, criou isenções fiscais
e subsídios daninhos, fez o diabo. Reeleita, cometeu estelionato eleitoral dos
maiores. Sua avaliação nas pesquisas evaporou com a mentira e o choque
econômico, que abalou ainda mais expectativas, confiança e atividade
econômicas. O
colapso deu mais gás à campanha de deposição.
Eduardo Cunha, que agora ressuscitou das
trevas e então presidia a Câmara, passou a aprovar a "pauta-bomba"
(que explodia as contas públicas), com apoio da oposição quase inteira. O PT era contra o
plano Dilma 2. A economia afundou ainda mais com o tumulto político, uma
espiral do inferno. Houve mais.
A economia mundial mal das pernas e a baixa
do ritmo da China derrubaram o preço de commodities (ferro, petróleo) e o valor
das exportações. Secas graves encareceram a energia elétrica. A crise da
Petrobras (arruinada por intervenção estatal, péssima administração e
roubança), a corrupção nas empreiteiras e a Lava Jato travaram empresas e
obras. Foi um desastre político e econômico total e vitamina para a extrema
direita. O
centrão, central nessa ruína, ganhou mais poder.
Considerem o caso de Dilma, que morreu
politicamente nessa conjunção dos infernos, e o do país avariado até hoje. É
preciso acordar antes da hora do pesadelo.
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