domingo, 23 de setembro de 2012

Triste realidade - Merval Pereira


O relator do mensalão, ministro do Supremo Tribunal Federal Joaquim Barbosa, fez uma análise crua de nosso sistema partidário em seu voto na última quinta-feira, que infelizmente não se refere apenas à época em que ocorreram os fatos que agora estão em julgamento.

Quase dez anos depois do primeiro governo Lula, a triste realidade é que continuamos a ter um quadro partidário fragilizado pela força exagerada do Poder Executivo. Se hoje já não existem "mensalões" como os de 2003 (espera-se), exacerbou-se o uso dos ministérios e cargos como moeda de troca na política, de maneira que se banalizou a participação partidária na montagem de um governo, característica da coalizão. Segundo o relator Joaquim Barbosa em seu voto, "são amplamente conhecidas as complexidades das políticas partidárias brasileiras, pouco afeita a compromissos das agremiações partidárias". Essa é uma das graves questões com que nos deparamos, a completa inexistência de um programa governamental que cimente a união de partidos em torno de objetivos comuns, ou até mesmo de metas pontuais, como seria o caso de um acordo com o Partido Verde para a implantação de uma política ambiental.

O que, no começo do primeiro governo Lula, resolveu-se com a simples e pura compra de apoio político, hoje, estourado o escândalo, resolve-se com cargos e nomeações.

No fundo, é a mesma coisa. "(...) Afirmar que o recebimento de dinheiro em espécie não influencia o voto (...) é, a meu ver, posicionar-se a léguas de distância da realidade política nacional", comentou o ministro Joaquim Barbosa.

Diante de fatos provados, o ministro Joaquim Barbosa concluiu que "os parlamentares utilizaram de seus cargos para solicitar vantagem indevida ao PT, e receberam".

O comentário do ex-deputado Paulo Rocha, um dos réus do mensalão, é bastante sintomático de uma maneira de ser político instituída no Brasil. Ele admite que houve empréstimos fraudulentos, que houve "repasses", mas alega que tudo foi feito para pagamentos de dívidas de campanha.

Neste julgamento do mensalão, já foi estabelecido um consenso entre os ministros: não importa a destinação do dinheiro, a corrupção aconteceu da mesma maneira. Nas palavras de Joaquim Barbosa: "(...) podem ter utilizado (o dinheiro) de qualquer maneira, em campanhas, em caixa dois, como para fins de enriquecer pessoalmente ou para distribuir mesada a parlamentares de seus partidos ou para atrair deputados de outros partidos para suas bancadas, conforme a CPI dos Correios, o que significa que o dinheiro foi solicitado e foi recebido".

Ou, mais cruamente, disse Barbosa, "os parlamentares funcionavam como mercadorias nesse caso". O próprio julgamento do mensalão, com a punição dos responsáveis por esse episódio degradante, pode ser um dos muitos passos que estão sendo dados na direção certa.

A Lei da Ficha Limpa, por exemplo, pode ser considerada um marco nessa caminhada, assim como a cassação de Demóstenes Torres. Não é por acaso que o Tribunal Superior Eleitoral está promovendo a campanha do "voto limpo" na televisão, como maneira de estimular o eleitor a fazer sua escolha com base em valores éticos que muitas vezes são preteridos em favor de um voto "pragmático", que pode ser a raiz de um Congresso que mercadeja sua função.

Imunidade está deixando de ser impunidade.

A corrida paulista

A disputa da Prefeitura de São Paulo não esgota tão cedo a capacidade de surpreender. O PMDB está tendo sinais de vida da candidatura de Gabriel Chalita, que ainda nutre a esperança de ser visto como uma novidade mais consistente e menos arriscada que Celso Russomanno do PRB.

Os dois candidatos que disputam o segundo lugar, José Serra do PSDB e Fernando Haddad do PT continuam vacilando em relação à gradação que devem dar ao combate a Russomanno, com receio de que sua eventual queda nas pesquisas possa beneficiar no primeiro momento o adversário.

Mas, a 15 dias da eleição, não há mais tempo para dúvidas: a guerra contra Russomano será aberta. Inclusive por parte de Chalita do PMDB.

FONTE: O GLOBO

Depois do vendaval - Dora Kramer


Para ter sucesso na política, é mais importante demonstrar força do que propriamente ter razão. Posto em outras palavras, é esse o raciocínio que parece conduzir o PT na travessia do período mais difícil de sua existência.

Aos ouvidos mais ponderados, a gritaria do partido e companhia soa despropositada e algo amalucada. Tanto quando acusa o Supremo Tribunal Federal de golpista quanto quando convoca partidos aliados para assinar nota em defesa da "honra" e da "dignidade" do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, comparando o exame de um processo na Justiça a episódios da História que resultaram na instituição de uma ditadura no Brasil.

Mas o fato de terem perdido a calma e de invocarem o suicídio de Getúlio Vargas e a deposição de João Goulart para se fazer de vítimas não quer dizer que os petistas perderam o juízo. Deliram, mas com método e um objetivo preciso: salvar algum capital político para tocar a vida depois do vendaval do julgamento do mensalão. E para isso, mais importante que enfrentar com racionalidade o fato de que as condenações se avizinham com base na confissão de que o partido deu mesmo dinheiro para outras legendas e o fez mediante expedientes ilegais, é demonstrar capacidade de reação.

Lula não precisa de quem o defenda. É absoluto, popularíssimo, imbatível, o mais habilidoso, intuitivo e espetacular político já surgido na face da terra. Pelo menos assim reza a mítica. Ora, não seriam as assinaturas de presidentes de seis partidos em nota de protesto que lhe serviriam de muro de arrimo. Ainda mais tendo sido um deles (Carlos Lupi, do PDT) demitido do Ministério do Trabalho por suspeita de prevaricação, outro (Eduardo Campos, do PSB) acusado de "traidor" pelos petistas e um terceiro (Renato Rabelo, do PCdoB) pessoa boa, mas de expressão política, digamos, limitada.

Assinaram também os presidentes do PT, Rui Falcão, o do PMDB, Valdir Raupp, e o do PRB, Marcos Pereira. A influência do primeiro na ordem das coisas públicas é nenhuma. O segundo enfrenta contestação interna por ter posto o pé em ambiente onde o partido preferia não ser visto. E o terceiro vai levando do PT o sonho de ganhar a eleição em São Paulo.

Lula é maior que a tropa. Mas é com ela que conta. A outra parte do batalhão está também no banco dos réus, fora de combate e, pelo absoluto desinteresse do PT em defender seus aliados do PP, PTB e PR (antigo PL), está claro que lhes dispensa a companhia. Foram úteis para formar a maioria lá atrás, mas agora o destino dos valdemares, jacintos, pedros e genus pouco importa. Usaram, foram usados e que se virem porque daqui em diante são páginas viradas.

O PT cuida no momento de preparar o terreno para prosseguir. Daí a preocupação de preservar a imagem de Lula e de renovar as parcerias mostrando que não é pólvora molhada, não está isolado e pode, como fez logo depois do escândalo em 2005, dar a virada. Na política, já que na Justiça a batalha está perdida. Na ocasião, foi bem sucedido ao adotar como argumento de defesa a tese de que caixa dois é crime menor, porque "todo mundo faz". Não seria, assim, o pecador, mas uma vítima do sistema pecaminoso.

Como não quer, ou não pode, se penitenciar, resta ao PT dobrar a aposta e tentar de novo se fazer de mártir. Desta vez, das arbitrariedades de uma Justiça inconformada com o sucesso de um partido de massas. Justiça comprometida com o preconceito elitista e movida pelo escuso propósito de desmoralizar um projeto de raiz popular.

Pode dar certo? Depende de a sociedade compreender, ou não, que o Supremo está dizendo ao Brasil que as instituições são maiores e podem mais que qualquer um: homem, mulher, governo ou partido.

Nunca antes. Muito já se viu nesse Brasil, mas presidente da República responder a voto de ministro do Supremo, francamente, é a primeira vez.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Depois do julgamento - Tereza Cruvinel


Se há poucas dúvidas sobre o desfecho, muitas são as indagações sobre o pós-julgamento

Na medida em que o Supremo avança rumo ao desfecho que parece inexorável para o julgamento da Ação Penal 470 — a condenação a penas pesadas de todos os réus, exceto uns poucos coadjuvantes —, vão surgindo sinais de que a radicalização política, ao invés de arrefecer, vai se intensificar depois do julgamento. Não pode dar em boa coisa a combinação entre o escárnio exibido pela oposição e o rancor, por ora contido, da militância petista, afora a mágoa de outros feridos na batalha. Despontam também preocupações com as consequências jurídicas da flexibilização de provas e garantias que o STF vem praticando, abrindo caminho para uma anômala judicialização da política.

Com as indicações de um desfecho severo, cresce o júbilo de alguns segmentos com o andar da carruagem, num arco que vai dos partidos adversários (PSDB, DEM e PPS) ao anônimo cidadão indignado com a "roubalheira dos políticos", passando pelos meios de comunicação. Mas talvez seja o Ministério Público a instituição mais exultante com a dinâmica do julgamento, na expectativa de que ele trará mudanças positivas para o combate à corrupção, pondo fim à complacência do Judiciário. O presidente da Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR), Alexandre Camanho, é um legítimo tradutor dessa satisfação institucional. Diz ele:

"Acredito que este julgamento porá fim a 20 anos de indulgência do Judiciário para com a corrupção. A Justiça é mais lenta que a sociedade e leva um longo tempo para acolher o sentimental social sobre determinados assuntos. Estamos felizes porque, finalmente, o STF ouviu o Ministério Público em vez de brincar o jogo dos sete erros, como gostam de fazer os juízes."

Ele explica a comparação com o conhecido jogo de encontrar discrepâncias entre desenhos quase iguais. Apresentada uma denúncia, os juízes passavam a procurar falhas e erros formais, sempre secundários, para recusá-la. E há também, diz ele, o jogo da "catianga": na mesa de truco, um jogador sempre ganhava no grito dizendo essa palavra e puxando todas as cartas. Um outro o imitou, gritou um "catianga", mas foi atropelado por um berro: "Catianga real!". Blefou de novo e recolheu as cartas. Ou seja, sempre que o Ministério Público decifrava o jogo, os juízes mudavam a regra, mantendo a complacência. É compreensível a satisfação de procuradores dedicados a combater o ilícito, enfrentando uma Justiça paquidérmica e indiferente.

Receios com a nova ordem. Já não havendo dúvidas sobre a trilha do julgamento, preocupações com suas consequências reúnem políticos, juristas e intelectuais, embora ainda pese a inibição para externar críticas ao Supremo. O cientista político Wanderley Guilherme segue em voo quase solo, questionando a heterodoxia do julgamento. Em entrevista publicada na sexta-feira pelo jornal Valor econômico, ele garante: "Não haverá, nunca mais, outro igual, porque esse é um julgamento de exceção, que ignora o sistema eleitoral vigente e reage à democracia que criamos".

Os ministros, de fato, vêm revelando total desconhecimento (real ou proposital, sabe-se lá) sobre o funcionamento do sistema político, a dinâmica do Congresso e o processo legislativo, que guardam tão estreita relação com os delitos que estão sendo julgados. Não buscaram conhecer, ou, pelo menos, não explicitaram conhecimento a respeito do sistema eleitoral e do modelo de financiamento das campanhas. Parecem ignorar que o presidencialismo brasileiro exige a formação de coalizões, ainda que reunindo partidos ideologicamente opostos. Que, na Câmara, a maioria absoluta é de 257 votos. Tendo apenas 151, logo, um deficit de 106 votos, por que a coalizão governista comprou o apoio de apenas sete não petistas? A discussão dessas questões lançaria mais luz sobre a intrincada novela do mensalão, servindo, pelo menos, para separar do joio algum trigo.

Se há poucas dúvidas sobre o desfecho, muitas são as indagações sobre o pós-julgamento. Há receios com o impacto da nova jurisprudência que o STF está criando, contraditória inclusive com votos passados de seu decano, Celso de Mello, sobre as instâncias inferiores. Ela não abrirá caminho para a "justiça do inimigo", principalmente lá no interior, onde juízes são frequentemente alinhados com um grupo político local? A teoria do domínio do fato, que já se diz, permitirá a condenação de José Dirceu, não será usada para justificar perseguições? Daqui para a frente, os bancos delinquentes (e foram tantos os delitos do setor nos últimos 20 anos) serão julgados com a mesma severidade que o Banco Rural? Tratará o STF de demonstrar que não fez um julgamento de exceção, aplicando a outros processos os mesmos procedimentos usados na Ação Penal 470? Sobram indagações, mas, agora, poucos se preocupam com o que virá. Poucos se expressam temendo ser patrulhados como "defensores de mensaleiros". Um sinal de que a radicalização está mesmo no horizonte.

A marcha. A temperatura subiu na semana passada, com a ofensiva da oposição, a nota dos partidos governistas e a nota da presidente Dilma, corrigindo o voto do relator Joaquim Barbosa quanto a declarações suas. Vai atingir fervura com o julgamento de Delúbio, Genoino e Dirceu na semana eleitoral, a próxima.

Dispersão. O PSDB e o PT lideram as disputas, mas devem, ambos, conquistar menor número de prefeituras de capitais. As pesquisas sugerem aumento da dispersão do poder municipal entre um grande número de partidos. Pior para a reforma política, sem a qual o STF ainda julgará mais mensalões.

Disputa. Na briga por votos, a questão é: o que vale mais perante o eleitor, os indicadores de melhora na vida das famílias, trazidos pela Pnad, ou os intestinos do mensalão, com narração de Joaquim Barbosa?

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

Em Recife, Geraldo lidera e Daniel já ultrapassa Humberto


Daniel ultrapassa Humberto

Rodada realizada nos dias 20 e 21 revela troca de posições na segunda colocação. Geraldo Julio, do PSB, continua na liderança

Uma troca de posições na vice-liderança da corrida pela Prefeitura do Recife é a principal novidade registrada na nova rodada da pesquisa Jornal do Commercio/Instituto de Pesquisa Maurício de Nassau (JC/IPMN), realizada nos dias 20 e 21 deste mês, com 1.079 eleitores da capital pernambucana. O candidato do PSDB, Daniel Coelho, ultrapassou o seu concorrente do PT, Humberto Costa, e assumiu a segunda colocação, com 22% das intenções de voto, contra 16% obtidas pelo petista. Na amostragem anterior, publicada no dia 13 de setembro, Humberto tinha 22%, e Daniel vinha em terceiro, com 15%. A margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais para mais ou para menos.

A liderança da disputa permanece com o candidato do PSB, Geraldo Julio, que agora aparece com 38% das intenções de voto, um ponto percentual a menos que no levantamento anterior. Já o representante do DEM, Mendonça Filho, ganhou um ponto em relação ao dia 13 passado, e se mantém em quarto lugar com 6% das citações. O número de eleitores que pretendem votar em branco ou anular o voto ficou em 9%, e outros 8% dos entrevistados não souberam ou não quiseram responder sobre a sucessão.

De acordo com o cientista político Adriano Oliveira – professor da UFPE e um dos coordenadores da pesquisa – os novos números sugerem dois cenários distintos para o desfecho da eleição no Recife: ou a disputa seguirá para um segundo turno entre Geraldo Julio e Daniel Coelho, ou o candidato socialista liquidará a fatura logo no primeiro turno. Para isso, ele necessitaria galgar mais quatro a cinco pontos percentuais. “A ultrapassagem de Daniel sobre Humberto mostra um avanço do tucano sobre o eleitorado do PT, algo que não era tão previsível, já que os petistas têm um eleitorado razoavelmente cativo no Recife”, analisa. Oliveira, advertindo, porém, que não pode ser descartada uma recuperação de Humberto, que permita a sua ida ao segundo turno contra o socialista. Tudo dependerá das estratégias que o PT venha a adotar para confrontar o adversário tucano. “No momento, essa briga pela segunda colocação favorece uma vitória de Geraldo Julio no primeiro turno”, acrescenta o professor.

Espontânea

A pesquisa espontânea – na qual o eleitor é indagado sobre o candidato de sua preferência, sem receber o auxílio de uma lista de nomes – também foi registrada a inversão de papéis na segunda colocação. Humberto Costa, que aparecia na amostragem anterior com 20% das citações, agora tem 15%, caindo para terceiro, enquanto Daniel, que tinha 13%, subiu para 21%, assumindo a vice-liderança. Geraldo Julio recebeu os mesmos 36% de citações obtidos na amostragem anterior, e Mendonça Filho caiu de 6 para 5%. Declararam voto em branco ou nulo 10% dos entrevistados, enquanto 12% não souberam ou não quiseram opinar.

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

PT deve ficar fora do segundo turno em Porto Alegre


Desde a democratização, partido atingia patamar de 30% dos votos; pesquisas indicam que teto chega a 10%

Júnia Gama

PORTO ALEGRE - Enfraquecido na disputa pelas principais capitais nas eleições municipais deste ano, o PT pode ficar de fora de um segundo turno em Porto Alegre pela primeira vez desde a redemocratização do país. Apesar de petistas na cidade não admitirem, membros do comando do partido já trabalham com a hipótese, tendo em vista as últimas pesquisas de intenção de voto, que indicam que o PT não passa de 10%, longe do histórico piso de 30% que a legenda costumava ter no município. Além do cenário pouco promissor para o primeiro turno, há um racha em relação a quem será apoiado pelo partido no segundo turno.

Isso porque, antes de chegar à decisão de lançar o deputado estadual Adão Villaverde, as disputas internas desequilibraram o partido. O PT dividiu-se, e houve segmentos que defenderam, na falta de nomes de relevância, não lançar candidato próprio. Desta vertente surgiu uma subdivisão entre os que pretendiam apoiar o prefeito José Fortunati (PDT) e o grupo que queria uma aliança com Manuela D"Ávila (PCdoB). Vencida a hipótese, ao menos três nomes do PT brigaram pelo posto de candidato: além de Villaverde, o presidente do PT estadual, Raul Pont, e o presidente municipal do partido, Adeli Sell.

A ausência da presidente Dilma Rousseff na campanha gaúcha - considerada essencial pelos petistas - também preocupa, já que, além da força institucional do cargo, trata-se de seu domicílio eleitoral. Dilma decidiu manter distância da campanha para não melindrar os outros candidatos, que também são da base e reivindicam sua simpatia.

- A presidente Dilma nos apoia, não por causa da relação pessoal, mas porque tem um acordo político e programático conosco. Os outros candidatos estão usando a relação com ela para tergiversar - ataca Villaverde.

FONTE: O GLOBO

Derrotar Virgílio é questão pessoal para Lula, que entrou na campanha em Manaus


Ex-presidente ataca tucano, e Dilma pede votos para Vanessa

Fernanda Krakovics

BRASÍLIA Ao participar de comício na quarta-feira em Manaus, o ex-presidente Lula deixou claro o significado da disputa na capital amazonense. Mais importante que eleger a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB) é derrotar Arthur Virgílio (PSDB), líder da oposição em seus governos. Vanessa cresceu dez pontos e empatou com o tucano, segundo a última pesquisa Ibope. Já Virgílio manteve 29% de intenção de votos.

Desde terça, a campanha do PCdoB exibe inserção de TV em que a presidente Dilma pede votos para a candidata.

- Vanessa, se você não fosse de partido aliado, se eu nunca tivesse te visto e soubesse que teu adversário é quem é, eu viria aqui te apoiar para derrotá-lo - disse Lula, no palanque.

Um dos principais rancores de Lula em relação a Virgílio é a derrubada da CPMF. Mas também houve o episódio em que, no Senado, em 2005, o líder do PSDB ameaçou dar uma "surra" em Lula.

Em 2010, Lula se empenhou para derrotar Virgílio, que tentava se reeleger para o Senado e perdeu para Vanessa.

Virgílio tentou desqualificar a pesquisa do Ibope e minimizar a participação de Lula e Dilma na campanha:

- A fala (de Lula) foi extremamente grosseira e o excesso de amparo a Vanessa não fica bem.

No comício, Lula disse que Virgílio "não gosta do cheiro de pobre", que é agressivo e já bateu em camelô.

FONTE: O GLOBO

PT corre o risco de encolher


Partido, que hoje tem sete capitais, é favorito em apenas três. Ao priorizar a disputa em São Paulo, sigla cedeu terreno a adversários. DEM vê a chance de se recuperar após perder integrantes para o PSD

Karla correia

Mesmo no comando do governo federal, contando com a alta popularidade da presidente Dilma Rousseff e com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva como cabo eleitoral nos palanques prioritários da legenda, o PT vislumbra uma forte possibilidade de encolher nas eleições para prefeito nas capitais, no quadro que se desenha na reta final do primeiro turno. O partido que hoje comanda sete prefeituras está na dianteira das pesquisas de intenção de votos em apenas três: Goiânia, Rio Branco e João Pessoa. E corre o risco de ficar fora do segundo turno em São Paulo, a disputa escolhida como prioridade da sigla.

Aos pesadelos do PT, soma-se o fato de que o partido que está na frente em um maior número de capitais é o PSDB, força política que tradicionalmente polariza as disputas com os petistas. Candidatos tucanos têm dominado os pleitos em cinco capitais, inclusive Vitória, hoje governada pelo PT. "Ainda é muito cedo para cravar que o PT está diminuindo nessas cidades", minimiza o secretário de Organização do partido, Paulo Frateschi.

Na avaliação de Frateschi, a situação da legenda na campanha repete um comportamento já tradicional da sigla em disputas eleitorais. "Somos um partido de chegada, estamos acostumados a virar disputas nos últimos 10 dias da corrida", afirma o secretário, reconhecendo que a militância demorou a ir para as ruas reforçar as candidaturas petistas.

Um sintoma da desmobilização se fez sentir em São Paulo, onde Lula chegou a dizer no palanque do petista Fernando Haddad estar sentindo falta de militantes entregando panfletos e agitando bandeiras. "Não podemos pensar que a televisão vai resolver tudo", disse Lula. "Ele entrou na hora certa. Um chamado desse é suficiente para o partido entrar em campo", acredita o secretário do PT.

A reação dos oposicionistas, no entanto, não se restringe ao PSDB. Depois de perder quadros e tempo de televisão com a criação do PSD e ter seu ocaso decretado por analistas políticos, o DEM ressurge com chance de eleger três prefeitos de capitais, um deles já no primeiro turno: João Alves, em Aracaju. "Mais do que o cansaço de material de partidos como o PT, nós estamos apostando na qualidade dos nossos quadros. Quem ficou no DEM depois da sangria causada pelo PSD foi a essência do partido, os nomes mais tradicionais", diz o presidente da sigla, José Agripino Maia. "Reconheço que vivemos um ano pesado, mas soubemos nos recompor e, em certa medida, ganhar com o que parecia ser uma perda", avalia Agripino, que cita como principal exemplo o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD). "Ele saiu do partido e foi apoiar o José Serra (PSDB) como se fosse o grande cabo eleitoral da disputa. Agora, está sendo escondido pela campanha", desdenhou o democrata.

Aliados. Outro problema que o PT enfrentará é o avanço de legendas aliadas na esfera federal. O PSB, que rompeu aliança com o partido em três capitais, apresentando candidaturas próprias, tem nomes considerados competitivos em ao menos seis. O provável crescimento da sigla preocupa o governo federal e a cúpula petista por representar a consolidação do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), como liderança política nacional, com poder para influenciar a construção da chapa governista em 2014 ou lançar candidatura própria à Presidência.

O PDT aparece com três candidatos em primeiro lugar nas pesquisas — o mesmo número que hoje apresentam PT e PMDB. O resultado desse avanço poderá influenciar uma redistribuição de forças na Esplanada, ao fim das eleições. "O número de capitais é importante, mas a força do partido no interior não pode ser desconsiderada", diz o presidente do PMDB, Valdir Raupp, apostando que o partido irá se manter no topo do ranking das legendas e somar mais de mil prefeituras neste ano. "Continuaremos sendo a principal força da base aliada nos municípios", afirma Raupp.

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

Ex-algoz do PT agora sofre na eleição de Curitiba


No mês passado, a campanha à reeleição de Luciano Ducci (PSB) distribuiu panfletos que associavam Fruet ao episódio do mensalão

Um dos relatores da CPI dos Correios, que investigou o mensalão em 2005, o candidato do PDT à Prefeitura de Curitiba, Gustavo Fruet, recebeu o apoio do PT nestas eleições municipais e virou alvo de críticas de adversários.

No mês passado, a campanha à reeleição de Luciano Ducci (PSB) distribuiu panfletos que associavam Fruet ao episódio do mensalão, em julgamento pelo Supremo Tribunal Federal desde agosto. O folheto apontava que o homem que "queria ver Lula e petistas na cadeia" virou "aliado dos amigos de José Dirceu", e exibia uma imagem do candidato ao lado de fotos de Dirceu, Marcos Valério, Delúbio Soares, José Genoino e outros réus do processo. A coligação do candidato pedetista entrou na Justiça Eleitoral e conseguiu a retirada dos panfletos de circulação.

Dias depois, um novo panfleto - produzido também pela coligação do atual prefeito - começou a circular pela capital paranaense: "Gustavo Fruet mudou de lado. Ele agora está com o PT".

Na última pesquisa Ibope, divulgada dia 14, Fruet aparece em terceiro lugar na disputa municipal, com 16% das intenções de voto. Ducci, o atual prefeito da cidade, lidera a disputa, com um ponto de vantagem sobre o candidato do PSC, Ratinho Júnior (31% ante 30%).

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Popularidade de Dilma não transfere votos


Presença da presidente na TV não beneficiou candidatos que apoia; especialistas descartam influência

Sérgio Roxo

SÃO PAULO Apesar de aprovada por 75% da população, segundo pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT), divulgada em agosto, a presidente Dilma Rousseff não tem se mostrado, pelo menos por enquanto, uma cabo eleitoral eficiente nas eleições deste ano. A sua presença no horário eleitoral trouxe pouco resultado para os candidatos em pesquisas de intenção de voto.

Dilma estreou na televisão nestas eleições no dia 10, nas campanhas dos petistas Fernando Haddad, em São Paulo, e Patrus Ananias, em Belo Horizonte. A pesquisa do Datafolha sobre a disputa pela prefeitura paulistana realizada no próprio dia 10 (antes da participação da presidente, que só ocorreu no programa da noite) e no dia 11, mostrava Haddad com 17% de intenção de voto, empatado tecnicamente, em segundo, com o tucano José Serra, que tinha 20%.

Depois do depoimento no programa do dia 10, a ajuda de Dilma para o candidato do PT em São Paulo foi concentrada nos spots (inserções realizadas durante a programação regular das emissoras), que, na avaliação dos marqueteiros políticos, é mais eficiente. Mas o levantamento do Datafolha, feito nos dias 18 e 19, mostrou que a estratégia não deu resultado. Haddad apresentou oscilação negativa de dois pontos percentuais nessa pesquisa e viu Serra subir para 21%, isolando-se em segundo lugar.

Em Belo Horizonte, a última pesquisa divulgada também indicou que o impacto da ajuda de Dilma não foi significativo. Patrus, que tinha 25% no levantamento do Vox Populi realizado entre 25 e 27 de agosto, aparece, na pesquisa feita entre 14 e 16 de setembro, com 28%. A elevação é só meio ponto superior à margem de erro da pesquisa, de 2,5 pontos, e ainda insuficiente para impedir que o prefeito Márcio Lacerda (PSB) vença a eleição no primeiro turno.

Eleição de prefeito é imune à gestão federal

Para especialistas, os números das pesquisas confirmam a tese de que não há influência de políticos nas eleições de outras esferas de poder.

- Não há transferência de voto para cargo diferente. Um presidente popular elege um presidente, mas não um prefeito - diz o cientista político Alberto Carlos Almeida, autor do livro "A cabeça do eleitor".

Para o cientista político Cláudio Couto, professor da Fundação Getúlio Vargas, a forma como o ex-presidente Lula conseguiu eleger Dilma, que nunca havia disputado uma eleição, fez com que os petistas tivessem esperança de que a tese da não transferência de popularidade caísse por terra nestas eleições.

- A própria participação intensa do Lula na campanha do Haddad endossa que a eleição do prefeito não tem relação com a gestão federal. O eleitor distingue as coisas - analisa o professor.

- O eleitor não fica esperando a Dilma indicar o candidato para decidir em que vai votar - conclui Almeida.

Coordenador da campanha de Haddad, Antonio Donato reconhece que a ajuda de Dilma não é decisiva para o sucesso do candidato.

- Quem se elege é o candidato, e não as pessoas que o apoiam - afirma.

Donato ressalta, porém, que a campanha petista em São Paulo ainda será beneficiada:

- Nunca imaginamos que a entrada da presidenta Dilma teria um efeito imediato. Mas, com certeza, ela ajuda construir a imagem do nosso candidato, que é desconhecido. O resultado vai aparecer lá na frente.

Presença na campanha de aliados

A campanha de Patrus entende que a participação da presidente, que nasceu em Belo Horizonte, tem sido positiva, apesar de a última pesquisa ainda indicar vitória de Lacerda no primeiro turno. A prova seria a reação da campanha adversária, que ameaçou levar ao ar uma gravação antiga de Dilma elogiando Lacerda.

Dilma já apareceu em programas de, pelo menos, mais três candidatos, dois de outros partidos. A direção do PT disse não estar controlando a participação nas campanhas. O Palácio do Planalto informou também não ter o levantamento das gravações feitas pela presidente.

Desde o dia 14, Dilma tem aparecido nos spots de Eduardo Paes (PMDB). O impacto da participação, porém, não pode ser medido porque não foram divulgadas novas pesquisas. Em Manaus, ela apareceu no programa de Vanessa Grazziotin (PCdoB), na última segunda-feira. No mesmo dia, estreou na propaganda de Nelson Pelegrino (PT) em Salvador.

FONTE: O GLOBO

Depois das eleições, PT e presidente terão que administrar eventuais crises com a base aliada


Relação tende a se complicar também com PMDB, que prevê eleger menos 10% de prefeitos do que em 2008

Paulo Celso Pereira

BRASÍLIA - Depois do mensalão e do resultado das eleições nas capitais, até agora aquém das expectativas, o PT e a presidente Dilma Rousseff terão que administrar uma conturbada relação com sua base aliada. Após a crise com o PSB causada pelos rachas em Belo Horizonte, Recife e Fortaleza, o PT deve chegar ao fim do primeiro turno enfrentando uma convivência complicada também com seu maior aliado no Congresso, o PMDB. A dificuldade nos grandes centros levou Dilma e o ex-presidente Lula a gravarem na TV para candidatos petistas e aliados em cidades-chave.

Alguns exemplos são Salvador e Mossoró, segunda maior cidade do Rio Grande do Norte e terra do líder do PMDB na Câmara e candidato à presidência da Casa, Henrique Eduardo Alves. Lá, a candidata do PSB, com apoio do PT, começou a veicular na TV um depoimento de apoio da presidente. O líder do partido ficou irritadíssimo.

Na última terça-feira, um grupo de caciques peemedebistas jantou em Brasília. Entre eles, estavam o líder do partido no Senado, Renan Calheiros (AL), o presidente do partido, Valdir Raupp (RO), o ministro Moreira Franco, os irmãos Geddel e Lúcio Vieira Lima (BA), o ex-ministro Eliseu Padilha e o senador Vital do Rêgo (PB). A reunião foi marcada pelas reclamações devido à ação do PT nas eleições. A avaliação geral entre peemedebistas é que, dificilmente, o partido conseguirá chegar a um número próximo ao de 2008, quando elegeu cerca de 1.200 prefeitos. A expectativa é que haja uma redução de cerca de 10%. Nada que tire do partido o posto de sigla com mais prefeitos do país, mas, ainda assim, uma redução sensível.

Isso representaria uma redução automática das bases eleitorais dos deputados da legenda. Afinal, como os prefeitos e vereadores são os grandes cabos eleitorais dos deputados nas eleições gerais, a perda de apoio nas bases significa que eles precisarão buscar votos de outra forma - valendo-se, por exemplo, de emendas parlamentares e ocupação de cargos públicos.

- A política não segue o calendário gregoriano. Para todo mundo, depois de 2012, vem 2013. Na política, depois de 2012, vem 2014. Aquela preocupação de que as eleições poderiam contaminar a relação está ocorrendo, especialmente pela entrada de Dilma, porque ela chefia um governo de coalizão. É diferente do Lula, que hoje é só um militante partidário. E o pior é que estão fazendo chantagem com o povo. Ela entra na TV dizendo que, se querem creche, têm que votar no candidato da Dilma - afirmou um parlamentar peemedebista que participou do jantar na terça-feira e pediu para não ser identificado.

Os peemedebistas dizem reservadamente que a tendência é que a relação com Dilma fique mais tensa. Uma frase de Renan definiu as intenções pós-eleitorais dos peemedebistas.

- A gente tem que ser como a PragMarta: saber apoiar o governo, mas ter resultado com esse apoio - afirmou o senador, referindo-se à nova ministra da Cultura, Marta Suplicy.

Trata-se de uma versão mais objetiva do discurso que vem sendo adotado pelo PSB. Os socialistas vêm afirmando que a perspectiva de expansão do número de prefeitos, especialmente nas capitais, obrigará o governo a rever o tratamento dado ao partido. Os integrantes do PSB esperam que o governo passe a considerá-los o principal aliado. O PMDB, que hoje ocupa essa posição, também acha que tem muito pouco e espera expandir seus espaços. O líder do PT, Jilmar Tatto, minimiza a possibilidade de crise:

- Não vão ficar sequelas. Diferentemente de uma avaliação anterior, as relações estão boas. O PT atrai em função da sua força popular e social - diz Tatto, que acredita que a relação seguirá firme enquanto o governo estiver bem avaliado.

FONTE: O GLOBO

Em BH, clima de reta final


Lacerda e Patrus reúnem grande número de militantes em praças de BH, num sinal de que a campanha deve ficar mais acirrada nos próximos dias


Paula Takahashi


Lacerda fez caminhada da Praça da Liberdade à Praça da Savassi

Com o mote de entrada da primavera, o candidato à reeleição, prefeito Marcio Lacerda (PSB), realizou caminhada na manhã de ontem acompanhado por cerca de 1,5 mil apoiadores embalados por bateria de escola de samba, mestre sala e porta-bandeira. O candidato a vice, Délio Malheiros (PV), não participou da marcha, pois cumpria agenda de campanha no Vale do Jequitinhonha. A pé, Lacerda percorreu o trajeto que partiu da Praça da Liberdade e foi encerrado no encontro das avenidas Cristóvão Colombo e Getúlio Vargas, na Praça da Savassi. Durante todo o percurso ele segurou a faixa com os dizeres: "Marcio com as mulheres de BH."

Na Praça da Savassi, o prefeito falou sobre o plano de governo lançado na sexta-feira. "É um plano consistente com mais de 200 páginas que está disponível para acesso da população no nosso site", anunciou. Questionado sobre a prioridade que será dada à mobilidade urbana, Lacerda reforçou que o maior volume de investimentos na próxima gestão será destinado a área. "A mobilidade é o grande desafio que temos para as gestões seguintes. Os nossos maiores investimentos no segundo mandato serão na mobilidade", garantiu, sem detalhar os projetos previstos para o setor.

Quanto à origem dos recursos que serão utilizados para bancar os R$ 6 bilhões previstos no programa de governo, ele reafirmou que um terço virá da própria prefeitura. "O restante são financiamentos e repasses", disse. "A maioria desses financiamentos já está negociada, assinada ou em fase final de negociação. Ou seja, precisaremos de um adicional que representa uma parte menor do total", acrescentou. Ele garantiu ainda que, no caso de ser reeleito, detalhará, ainda este ano, como os 12 capítulos que correspondem às 12 áreas priorizadas no plano de governo, serão executados nos próximos quatro anos.

Sobre novas obras de revitalização da cidade, como a realizada na Praça da Savassi, ele garantiu que são importantes para tornar mais acolhedores os pontos tradicionais de BH. "É preciso limitar o espaço para os automóveis e deixar uma área mais agradável para as pessoas. Garantir espaço para o pedestre, bicicleta e para a convivência", afirmou.

Ao ser questionado sobre a possibilidade de restrição do espaço público, o prefeito rebateu. "Existe alguma restrição de uso da Praça da Savassi? Apenas se alguém quiser fazer um evento para milhares de pessoas, com som e ingressos. Aí sim precisa de ter licenciamento, mas o dia a dia aqui é absolutamente livre", afirmou. Ele finalizou a marcha dando a volta nos quatro cantos da Praça da Savassi e seguiu para outros compromissos de campanha.

FONTE: ESTADO DE MINAS

Serra e Haddad partem para o vale-tudo por vaga no 2º turno


Confronto em SP busca votos de antipetistas e de eleitores tradicionais

Thiago Herdy

SÃO PAULO - Com a liderança de Celso Russomanno (PRB) inabalada a duas semanas das eleições, José Serra (PSDB) e Fernando Haddad (PT) partiram para a canelada e iniciaram o vale-tudo pela outra vaga no segundo turno da disputa pela prefeitura de São Paulo.

O clima esquenta com Serra buscando garantir o voto antiPT na cidade, público que os petistas estimam em torno de 30% do eleitorado. Haddad corre atrás do eleitorado tradicional do partido, cerca de um terço dos eleitores.

O discurso da coordenação das duas campanhas é afinado quando o tema é Russomanno, dono de 35% dos votos, segundo o último levantamento do Datafolha: insistem que alguém precisará bater no primeiro colocado nas pesquisas para conseguir ir ao segundo turno. A análise leva em conta os votos roubados pelo político do PRB de tradicionais redutos do PT e do PSDB. Mas, enquanto nenhum dos lados levanta a espada contra Russomanno, os golpes certos dos próximos dias serão contra o adversário de sempre.

Munição petista contra Serra guardada para o fim da campanha está pronta para vir à tona. Os temas preferidos da coordenação de Haddad envolvem Paulo Preto, ex-diretor da Empresa de Desenvolvimento Rodoviário S.A do Estado de São Paulo (Dersa) e apontado por petistas como arrecadador informal da campanha de Serra à presidência em 2010; e o caso de Hussein Aref, ex-diretor do Departamento de Aprovação das Edificações de São Paulo suspeito de enriquecimento ilícito.

Aref foi nomeado na gestão de Serra na prefeitura e deixou a administração do prefeito Gilberto Kassab (PSD) neste ano.

- São muitos os temas para colocarmos na mesa. O que segura o Serra é uma âncora chamada Kassab. Vamos mostrar que o projeto político Serra-Kassab é um só - afirma um dos coordenadores petistas, citando o índice de rejeição do atual prefeito, de 44% dos eleitores, de acordo com o Datafolha.

FONTE: O GLOBO

Crescimento de tucano dá novo fôlego à campanha


Petista diz que mensalão não influencia eleitores do partido

SÃO PAULO - Os 21% de intenção de voto creditados a Serra contra 15% de Haddad, na última pesquisa Datafolha, deram ânimo extra à campanha do tucano. Desde a última semana, Serra centra ataques no petista, vinculando no rádio e na TV peças com menções ao julgamento do mensalão, aos problemas enfrentados pelo ex-ministro da Educação na condução do Enem e à sua passagem pela Secretaria de Finanças do governo de Marta Suplicy, para dizer que ele não é tão novo como apregoa a campanha petista.

Quando Serra chamou de "bilhete mensaleiro" a proposta de bilhete único para o transporte, que consta do programa de governo de Haddad, o petista respondeu de forma imediata e direta pelo rádio, acusando o adversário de agir de má-fé. O mesmo não acontecerá em relação às críticas sobre a condenação de petistas pelo STF no mensalão.

- Vamos responder tratando do comportamento ético do adversário, mas sem mencionar este episódio. Isso não tem atingido o nosso eleitor. Temos um foco, que é trazer o eleitor do PT de volta - afirma um coordenador petista.

Do lado dos tucanos a avaliação é outra:

- A superexposição do mensalão na mídia está forçando a sociedade a uma reflexão profunda do ponto de vista ético e moral. Os gurus políticos do Haddad estão sendo condenados pelo Supremo. Nossa estratégia (de confronto com Haddad) será mantida - garante um dos coordenadores do PSDB.

Os dois lados despistam a guerra declarada, alegando que não se trata de ataque, mas de prestação de serviço de utilidade pública ao paulistano. Correm atrás de outra unanimidade que domina o sentimento do eleitor paulistano hoje: a necessidade de mudança.

FONTE: O GLOBO

Marina adia planos para novo partido e preocupa aliados


Temor é o de que não haja tempo suficiente para legalizar a sigla com vistas às eleições de 2014

Gustavo Uribe

SÃO PAULO - Com um capital eleitoral de 20 milhões de votos, conquistados na eleição presidencial de 2010, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva pretende deixar para 2013 a discussão sobre a criação de um novo partido, o que tem causado preocupação entre seus aliados. Em conversas com parlamentares, ela, que deixou o PV no ano passado, disse que vai aguardar o fim destas eleições para avaliar melhor a questão. Essa demora tem levado aliados a temer o risco de a legenda não ser criada a tempo de concorrer em 2014.

Nas últimas semanas, deputados e senadores de PV, PT, PDT, PSOL, PSDB e PPS procuraram aliados de Marina para ajudar na fundação da sigla. Para concorrer, o novo partido precisa reunir, no mínimo, 482 mil assinaturas de apoio e ter seu pedido deferido pela Justiça Eleitoral até outubro de 2013. O PSD, criado pelo prefeito Gilberto Kassab, levou oito meses para cumprir os requisitos exigidos pela legislação eleitoral.

No ano passado, uma ala do PPS ofereceu a Marina a estrutura do partido para lançá-la à sucessão presidencial. Ela tem dito, porém, que só voltará à vida partidária se for numa sigla nova.

- Ainda não está clara a natureza desse partido e ainda não está clara a disposição da Marina Silva em criá-lo. Essa discussão vai se colocar depois das eleições municipais, porque, antes, está todo mundo focado no processo eleitoral - disse o deputado federal Alfredo Sirkis (PV-RJ).

Se não for possível criar a tempo uma nova legenda, aliados de Marina admitem duas alternativas: o Partido Ecológico Nacional (PEN), fundado este ano, e o Partido do Meio Ambiente (PMA), que já recolhe assinaturas. O presidente nacional do PMA, Jurandir Silvério, diz que a sigla já reuniu 128 mil assinaturas certificadas e espera conseguir as 354 mil restantes até abril. O dirigente da futura legenda relata que membros da sigla tem conversado com aliados de Marina e diz que a estrutura do partido está à disposição, caso ela queira disputar a sucessão presidencial em 2014.

- Há integrantes do nosso partido que têm conversado com aliados da ex-ministra e já fizeram o convite. O partido não só teria a Marina Silva como candidata, como modificaria a estrutura dos nossos diretórios para agregar os seus aliados. Cederíamos espaços na hierarquia da sigla - disse Silvério.

Há um mês, em encontro com os deputados federais Alessandro Molon (PT-RJ) e José Antônio Reguffe (PDT-DF), Marina disse que gostaria de contar com os parlamentares em sua nova empreitada. Na conversa, afirmou que a nova sigla, que poderia ser lançada em 2013, seria proveniente do movimento suprapartidário lançado por ela em 2011. Ela já conversou também com a vereadora Heloísa Helena (PSOL-AL) e o deputado federal Walter Feldman (PSDB-SP).

Ao GLOBO, Marina afirmou que, neste momento, pretende discutir apenas o seu movimento suprapartidário e reconheceu que há pessoas, que integram a iniciativa, defensoras da criação de uma nova legenda.

- É precipitado pensar em fazer um partido político com a lógica puramente eleitoral. Estou discutindo um movimento suprapartidário. O movimento é democrático. Uma parte, se quiser fazer o partido, pode fazê-lo, mas não será o movimento - disse Marina

FONTE: O GLOBO

Reeleições 'ad infinitum'? - Sergio Fausto


Cresce na América do Sul uma onda de supressão dos limites constitucionais a reeleições sucessivas. Essa onda é impulsionada pela ideia-força de que presidentes-redentores precisam permanecer no poder até que a sua missão esteja concluída. A defesa de reeleições sucessivas faz parte de uma narrativa épica e maniqueísta que opõe elites antinacionais a forças populares e nacionalistas.

Hugo Chávez, da Venezuela, tenta reeleger-se pela terceira vez em outubro próximo, depois de quase 14 anos no poder. Em 2009, contrariando resultado de referendo popular, arrancou a reeleição sem limites do Congresso. Em julho último, Rafael Correa confirmou que buscará um terceiro mandato nas eleições presidenciais do próximo ano. A Constituição do Equador permite apenas uma reeleição, mas Correa alega que seu primeiro mandato foi obtido sob a vigência da Constituição anterior. Se reeleito, terá assegurado dez anos de permanência no poder. Evo Morales, da Bolívia, vale-se do mesmo argumento para justificar a possibilidade de disputar um terceiro mandato nas eleições de 2015. Se reeleito, terminará seu terceiro mandato em 2020, 15 anos após a sua primeira vitória eleitoral.

A essa onda de supressão de limites a reeleições sucessivas se junta agora Cristina Kirchner. As próximas eleições presidenciais na Argentina só ocorrerão em outubro de 2015. Antes, porém, a presidente precisa mudar a Constituição para ter direito a disputar um terceiro mandato. Caso ela consiga seu intento de mudar a Constituição e se reeleja mais uma vez, a permanência dos Kirchners na Casa Rosada se estenderá por 16 anos, se contarmos o mandato de seu antecessor e marido, o falecido Néstor Kirchner.

O "reeleicionismo" de Cristina Kirchner vem acompanhado da ascensão de La Cámpora, organização de jovens dirigentes e militantes políticos que invoca o legado da antiga Juventude Peronista (JP). A JP foi a ala radicalizada do peronismo que se integrou parcialmente às organizações armadas de esquerda entre o final dos anos 1960 e o início dos anos 1970, e terminou massacrada pela extrema direita e pelos militares durante a ditadura argentina. Há sincero fervor ideológico entre seus militantes. Eles se veem como protagonistas de uma história épica, como fica claro neste trecho extraído do site da organização. "Debemos considerarnos privilegiados por la Historia: hoy tenemos que dar la batalla ideológica de todos los tiempos: un país para pocos o un país para todos. Tenemos la oportunidad de continuar la pelea histórica por la redistribución del ingreso y la justicia social". La Cámpora introduziu uma narrativa ideológica e mística que faltava ao kirchnerismo. A luta pela (re)reeleição de Cristina é um desdobramento lógico dessa visão da História argentina.

Claro que La Cámpora é diferente dos Batallones Revolucionarios de Hugo Chávez, assim como o "cristinismo" é distinto do "chavismo" e este do nacionalismo indigenista de Evo Morales. Existe, no entanto, um traço comum a esses líderes, partidos, movimentos e seus adeptos que nos permite agrupá-los numa mesma "família política", a despeito de diferenças importantes entre eles. A partir de uma leitura maniqueísta da História, todos se creem incumbidos da missão autoatribuída de redimir seus países de mazelas seculares. Se não eles, ora, quem mais teria virtude e vontade suficientes para fazê-lo?

No desempenho dessa missão, o líder ocupa um lugar único. A missão entrega-lhe uma legitimidade especial, acima das instituições democráticas. E ele ou ela se entrega à missão com suas qualidades supostamente excepcionais. A Venezuela é o caso extremo, mas não singular, de fusão entre líder e missão histórica. Nos demais países referidos, são cada vez mais fortes tendências na mesma direção. Nesse contexto, não surpreenderiam novas extensões - ao infinito, quem sabe - do direito à reeleição, como fez Hugo Chávez. Se a superação de mazelas seculares requer tempo e poderes excepcionais ao líder, por que não remover ou enfraquecer restrições à permanência e ao exercício do poder dos presidentes-redentores? Se a missão assim o requer, se a correlação de forças assim o permite, por que render-se ao "fetichismo institucional", como recém-escreveu Ernesto Laclau, o pai intelectual do kirchnerismo?

Esses processos não têm produzido ditaduras. Afinal, continuam a se realizar eleições periódicas e formalmente livres e o confronto de ideias permanece aberto. Mas implicam a coação judicial à oposição e à imprensa, o uso político e arbitrário dos instrumentos de fiscalização e repressão do Estado, o envenenamento da atmosfera política pela estigmatização dos adversários como "inimigos do povo e da nação". As maiores vítimas são práticas, instituições e culturas políticas democráticas, destruídas onde existiam e sufocadas onde poderiam germinar.

O Brasil, felizmente, está fora dessa onda (assim como o Chile, o Uruguai, o Peru e a Colômbia). Uma das razões dessa diferença está na ausência de bases políticas e culturais para articulação de uma narrativa política épica de permanente enfrentamento entre dois blocos políticos opostos. O "nunca antes na História deste país" de Lula veio sempre temperado pelo molho da conciliação e diluído pela peculiar lógica da metamorfose ambulante.

Articulou-se, isso sim, uma narrativa em torno do "golpe das elites" para uso em momentos "oportunos". Ela é retomada agora, quando parece certa a condenação de próceres do PT pelo Supremo Tribunal Federal. Com as candidaturas do partido claudicando nas principais capitais e uma até aqui mal explicada "denúncia" de Marcos Valério à revista Veja, PT e aliados emitiram sexta-feira uma nota acusando as oposições de "golpismo" e comparando a conjuntura atual à que precedeu o suicídio de Getúlio Vargas.

Mas essa não é uma narrativa épica e maniqueísta. É apenas grosseiramente falsa, embora não deixe de ser perigosamente antidemocrática.

Diretor executivo do iFHC; é membro do GACINT-USP

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Entrevista: Ferreira Gullar - Uma visão crítica das coisas


"O poeta diz que o socialismo não faz mais sentido, recusa o rótulo de direitista e ataca: Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é"

Um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, Ferreira Gullar, 82 anos, foi militante do Partido Comunista Brasileiro e, exilado pela ditadura militar, viveu na União Soviética, no Chile e na Argentina. Desiludiu-se do socialismo em todas as suas formas e hoje acha o capitalismo "invencível". E autor de versos clássicos — "À vida falta uma parte / — seria o lado de fora — / para que se visse passar / ao mesmo tempo que passa /. e no final fosse apenas / um tempo de que se acorda / não um sono sem resposta. / À vida falta uma porta". Gullar teve dois filhos afligidos pela esquizofrenia. Um deles morreu. O poeta narra o drama familiar e faz a defesa da internação em hospitais psiquiátricos dos doentes em fase aguda. Sobre seu ofício, diz: "Tem de haver espanto, não se faz poesia a frio".

0 senhor já disse que "se bacharelou em subversão" em Moscou e escreveu um poema em que a moça era "quase tão bonita quanto a revolução cubana". Como se deu sua desilusão com a utopia comunista?

Não houve nenhum fato determinado. Nenhuma decepção específica. Foi uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo, não só comigo, mas no contexto internacional. É fato que as coisas mudaram. O socialismo fracassou. Quando o Muro de Berlim caiu, minha visão já era bastante crítica. A derrocada do socialismo não se deu ao cabo de alguma grande guerra. O fracasso do sistema foi interno. Voltei a Moscou há alguns anos. O túmulo do Lenin está ali na Praça Vermelha, mas pelo resto da cidade só se veem anúncios da Coca-Cola. Não tenho dúvida nenhuma de que o socialismo acabou, só alguns malucos insistem no contrário. Se o socialismo entrou em colapso quando ainda tinha a União Soviética como segunda força econômica e militar do mundo, não vai ser agora que esse sistema vai vencer.

Por que o capitalismo venceu?

O capitalismo do século XIX era realmente uma coisa abominável, com um nível de exploração inaceitável. As pessoas com espírito de solidariedade e com sentimento de justiça se revoltaram contra aquilo. O Manifesto Comunista, de Marx, em 1848, e o movimento que se seguiu tiveram um papel importante para mudar a sociedade. A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produza riqueza é o trabalhador e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas. A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista. Mas é um equívoco concluir que a derrocada do socialismo seja a prova de que o capitalismo é inteiramente bom. O capitalismo é a expressão do egoísmo, da voracidade humana, da ganância. O ser humano é isso, com raras exceções.
O capitalismo é forte porque é instintivo. O socialismo foi um sonho maravilhoso, uma realidade inventada que tinha como objetivo criar uma sociedade melhor. O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível. A força que toma o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. Não tem cabimento.

0 senhor se considera um direitista?

Eu, de direita? Era só o que faltava.A questão é muito clara. Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é. Pensar isso a meu respeito não é honesto. Porque o que estou dizendo é que o socialismo acabou, estabeleceu ditaduras, não criou democracia em lugar algum e matou gente em quantidade. Isso tudo é verdade. Não estou inventando.

E Cuba?

Não posso defender um regime sob o qual eu não gostaria de viver. Não posso admirar um país do qual eu não possa sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há uma porção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas, obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum. É difícil para as pessoas reconhecer que estavam erradas, que passaram a vida toda pregando uma coisa que nunca deu certo.

Como o senhor define sua visão política?

Não acho que o capitalismo seja justo. O capitalismo é uma fatalidade, não tem saída. Ele produz desigualdade e exploração. A natureza é injusta. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce inteligente, o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. A capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade, porque é só a produção da riqueza que resolve isso. A função do estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar.

Qual a sua visão do governo Dilma Roussef?

Dilma é uma mulher honesta, não rouba, não tem a característica da demagogia. Mas ela foi posta no poder pelo Lula. Assim, não tem autoridade moral para dizer não a ele. Nesse aspecto, é prisioneira dele.

Como o senhor avalia a perspectiva de condenação dos réus do mensalão?

O julgamento não vai alterar o curso da história brasileira de uma hora para a outra. Mas o que o Supremo está fazendo é muito importante. É uma coisa altamente positiva para a sociedade. Punir corruptos, pessoas que se aproveitaram de posições dentro do governo, é uma chama de esperança.

O senhor se identifica com algum partido político atual?

Eu fui do Partido Comunista, mas era moderado. Nunca defendi a luta armada. A luta armada só ajudou mesmo a justificar a ação da linha dura militar, que queria aniquilar seus oponentes. Quando fui preso, em 1968, fui classificado como prisioneiro de guerra. O argumento dos militares era, e é, irrespondível: quem pega em armas quer matar, então deve estar preparado para morrer.

O senhor condena quem pegou em armas para lutar contra o regime militar?

Quem aderiu à luta armada foram pessoas generosas, íntegras, tanto que algumas sacrificaram sua vida. Mas por um equívoco. Você tem de ter uma visão critica das coisas, não pode ficar eternamente se deixando levar por revolta, por ressentimentos. A melhor coisa para o inimigo é o outro perder a cabeça. Lutar contra quem está lúcido é mais difícil do que lutar contra um desvairado.

Como se justifica sua defesa da internação o tratamento da esquizofrenia?

As pessoas usam a palavra manicômio para desmoralizar os hospitais psiquiátricos. Internei meu filho em hospitais que têm piscina, salão de jogos, biblioteca. Mesmo os públicos não têm mais a camisa de força ou sala com grades. Tive dois filhos esquizofrênicos. Um morreu, o outro está vivo, mas não tem mais o problema no mesmo grau. Controlou com remédio, e a idade também ajuda. A esquizofrenia surge na adolescência e se junta à impetuosidade. Com o tempo, a pessoa vai amadurecendo. Doença é doença, não é a gente. Se estou gripado, a gripe não sou eu. A esquizofrenia é uma doença, mas eu não sou a esquizofrenia. Posso evoluir, me tornar uma pessoa mais madura, debaixo de toda aquela confusão. O esquizofrênico com 50 anos não é o mesmo de quando tinha 17.

Qual o pior momento na sua convivência com filhos esquizofrênicos?

Quando a pessoa entra em surto, ela pode se jogar pela janela. Meu filho, o Paulo, se jogou. Hoje ele anda mancando porque sofreu uma lesão na coluna. Ele conversava comigo, via televisão, brincava, lia meus poemas. Em surto, não tinha controle. Queria estrangular a empregada. Nessas horas, a única maneira é internar e medicar. Nesse estado, sem nenhum socorro, o esquizofrênico pode fazer qualquer coisa.

A família pobre faz o quê, se não tem mais onde internar?

Se mantiver a pessoa em casa, ela poderá tocar fogo em tudo, pegar uma faca e tentar assassinar o pai. Poderá fugir para a rua, desvairada. Essa política contra os hospitais psiquiátricos tem como resultado prático uma tragédia em que os ricos internam seus filhos em clínicas particulares e os pobres morrem na rua. Quando ouço alguém dizer que as famílias internam os filhos porque querem se ver livres deles, só posso pensar que essa pessoa gosta dos meus filhos mais do que eu. Nunca viu meu filho, mas ama meu filho mais do que eu. Absurdo. Você não sabe o que é uma família ter um filho esquizofrênico. Além do problema do tratamento, existe o desespero de não saber o que fazer. Os hospitais psiquiátricos continuam a existir porque os médicos sabem que não há outra saída. Não se interna um doente para que ele fique vinte anos lá dentro, mas sim três dias, três meses. Meus filhos nunca ficaram internados além do tempo necessário. Eles voltavam para casa normais. Era uma alegria. Nenhuma família quer ter seu filho preso.

Como foi a primeira vez que se defrontou com a doença?

O primeiro surto do Paulo foi no exílio, em Buenos Aires. Um dia, no apartamento, a gente estava brincando, a bola desceu pela escada, ele saiu para pegá-la e não voltou. Desci, ele tinha sumido. Em que direção eu ando? Voltei para casa e fiquei chorando, não sabia o que fazer. Paulo ficou meses sumido. Isso foi em 1974, logo que cheguei a Buenos Aires. Terminei encontrando-o preso. No desvario, ele tentou roubar um carro — não sabia nem dirigir — e foi preso. Fez greve de fome. Estava esquelético. O policial disse que era preciso uma ordem para soltá-lo, porque era menor. Mas deixou que eu levasse meu filho, porque sabia que ele estava doente. Levei o Paulo para casa. Ele entrou e começou a arrebentar a janela. Morávamos no 5o andar. Ele foi internado. Até o dia em que, esperto como é, sumiu do hospital, para sempre. Foi encontrado em São Paulo. Saiu de Buenos Aires sem um tostão, com a roupa do corpo. Esses episódios não têm fim.

Como é seu método para fazer poesia?

Já fiquei doze anos sem publicar um livro. Meu último saiu há onze anos. Poesia não nasce pela vontade da gente, ela nasce do espanto, alguma coisa da vida que eu vejo e que não sabia. Só escrevo assim. Estou na praia, lembro do meu filho que morreu. Ele via aquele mar, aquela paisagem. Hoje estou vendo por ele. Aí começo um poema... Os mortos veem o mundo pelos olhos dos vivos. Não dá para escrever um poema sobre qualquer coisa. O mundo aparentemente está explicado, mas não está. Viver em um mundo sem explicação alguma ia deixar todo mundo louco. Mas nenhuma explicação explica tudo, nem poderia. Então de vez em quando o não explicado se revela, e é isso que faz nascer a poesia. Só aquilo que não se sabe pode ser poesia.

A idade é uma aliada ou uma inimiga do poeta?

Com o avanço da idade, diminuem a vontade e a inspiração. A gente passa a se espantar menos. Tem poeta que não se espanta mais, mas insiste em continuar escrevendo, não quer se dar por vencido. Então ele começa a escrever bobagens ou coisas sem a mesma qualidade das que produzia antes. Saber fazer ele sabe, mas é só técnica, falta alguma coisa. Não se faz poesia a frio. Isso não vai acontecer comigo. Sem o espanto, eu não faço. Escrever só para fazer de conta, não faço. Eu vou morrer. O poeta que tem dentro de mim também. Tudo acaba um dia. Quando o poeta dentro de mim morrer, não escrevo mais. Não vou forçar a barra. Isso não vai acontecer. Toda vez que publico um livro, a sensação que tenho é de que aquele é o definitivo. Escrever um poema para mim é uma grande felicidade. Se não acontecer, não aconteceu.

FONTE: REVISTA VEJA

Joan Manuel Serrat - Pare

Tabacaria – Fernando Pessoa


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.

Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928