domingo, 24 de fevereiro de 2013

Eduardo: discurso pronto para 2014

Governador mostra que deve repetir plataforma testada por Geraldo Julio em 2012, do representante do "pós-petismo"

Gilvan Oliveira

O discurso adotado por Eduardo Campos (PSB) nessa largada antecipada à sucessão presidencial é exatamente o mesmo utilizado por Geraldo Julio (PSB) na campanha para prefeito do Recife, no ano passado. E, aqui, qualquer semelhança não é mera coincidência. Aquela campanha eleitoral serviu de grande laboratório para testar o discurso do projeto Eduardo 2014, de se apresentar como o representante da uma "política moderna", dissociada de brigas, de alguém capaz de dar um salto de qualidade à gestão no "pós-petismo", sem rupturas e sem colocar em risco avanços sociais construídas pelo aliado PT, ou até mesmo a estabilidade econômica do PSDB.

Segundo o cientista político Túlio Velho Barreto, da Fundação Joaquim Nabuco, Eduardo usou esse discurso já em 2010, quando disputou o governo contra Jarbas Vasconcelos (PMDB), estigmatizando o peemedebista como representante da "velha política", marcada mais por disputas ideológicas que por discussões administrativas. Na campanha de 2012, completa, essa estratégia foi reforçada e teve na candidatura de Geraldo seu teste de fogo.

O maior indicativo de que o governador colocará o mesmo discurso em prática, caso se confirme sua candidatura, foram as declarações dele durante o evento que reuniu prefeitos, parlamentares e lideranças de todo o Estado em Gravatá, no final da semana. A crítica à "velha rinha política", a ênfase em buscar uma administração "que entregue resultados concretos" e que construa um modelo de gestão focado em metas e desempenho pontuaram as afirmações do governador e de seus aliados. Foi a linha do discurso de Geraldo contra o PT, que deu certo no Recife.

A crítica à "rinha política" de Eduardo, ao se referir ao embate entre petistas e tucanos, na campanha de 2012 era utilizada em referência às "arengas" internas do PT pernambucano. A ênfase na qualidade da gestão, em formular metas e buscar resultados, na preocupação em "entregar o que prometeu", traz uma crítica velada à gestão Dilma Rousseff, cobrada por atrasos em obras, caso da transposição do Rio São Francisco. Ineficiência foi uma das principais censuras apresentada por Geraldo em relação ao governo petista de João da Costa.

Além do discurso, a campanha de 2012 dá outros indicativos de como seriam os movimentos de Eduardo. Ele não seria um opositor de Dilma Rousseff: se apresentaria como um aliado crítico, que converge com o PT nos valores "de esquerda", mas diverge no direcionamento administrativo, pregando não um rompimento, mas ajustes de rumos. Foi o que fez Geraldo em 2012. Em nenhum momento ele empunhou a bandeira de opositor do PT. Fez o discurso do meio termo: pregou o avanço com a preservação "do que deu certo".

"A mensagem é a seguinte: houve o momento do desafio da estabilidade econômica, vencido pelo PSDB, da adoção de políticas sociais, tocadas pelo PT, e que o próximo será de aliar essas conquistas com qualidade na gestão e crescimento econômico. E Eduardo se coloca como capaz de comandar essa nova etapa", avalia Túlio Velho Barreto.

O resultado das eleições no Recife mostrou que a oposição não conseguiu aderência no eleitorado capaz de convencê-lo a uma guinada. No plano nacional, a aposta do PSB é que o modo petista de governar está se desgastando, porém não o suficiente para levar o eleitorado a optar pela oposição, mas por alguém que faça ajustes, como no quadro recifense. E, por coincidência, a oposição local corresponde à nacional, com DEM, PSDB e PPS.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

PSB se equilibra entre ficar com Dilma e ser alternativa de poder

Socialistas tentam se fortalecer para, só em 2014, decidir se tentarão Presidência

Junia Gama

BRASÍLIA - Apesar de caminhar em direção ao lançamento da candidatura do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, à Presidência da República, o PSB não pretende adotar já no Congresso uma postura de embate direto com o governo Dilma Rousseff. Segundo a avaliação predominante no partido, é melhor ficar na base governista e se fortalecer, enquanto o PSB se organiza nos estados para ter palanques mais consistentes.

Se depender de setores importantes do PSB, a decisão sobre a permanência ou não na base aliada deverá ser tomada só em 2014, quando será possível saber se o partido está forte o bastante para tentar voo solo.

Os socialistas devem agir este ano num sistema de avanços e recuos, com seus parlamentares ora incitando a independência do PSB, ora ajudando Dilma a aprovar medidas para o crescimento econômico.

Nesse jogo de alternância, estão escalados dois líderes do PSB no Congresso com perfis antagônicos: o deputado Beto Albuquerque (RS), encarregado de "pisar no acelerador", e o senador Rodrigo Rollemberg (DF), que deverá conter as especulações sobre a candidatura de Campos. A ideia, dizem interlocutores de Campos, é não se tornar desde já um adversário do governo e, ao mesmo tempo, não desestimular os aliados do PSB.

Desde que assumiu a liderança da bancada na Câmara, este ano, Albuquerque adotou um discurso de embate ao governo e lançou a candidatura antecipada de Campos. Chegou a declarar que os socialistas não queriam o lugar de vice, mas sim a cabeça da chapa em 2014. Já Rollemberg, líder no Senado, diz que 2014 só deve ser discutido em 2014 e que a hora é de estar com Dilma.

Neste ano, Campos aposta num embate mais sutil, mantendo o apoio ao governo no Congresso quando considerar adequado, mas partindo para a divergência em casos específicos. O que ele não quer, ao menos já, é se somar à oposição. E o Palácio do Planalto deseja que Campos seja bem tratado para que não haja mágoas, de forma que um rompimento com o PSB não signifique apoio à candidatura de Aécio Neves (PSDB-MG), o que seria um pesadelo para o PT. Os dois ministérios ocupados pelo PSB (Integração Nacional e Portos) devem permanecer intocados na reforma ministerial planejada para março.

Fonte: O Globo

Governistas brigam por mais espaço no ministério

"Conversam comigo para se valorizar do lado de lá. Eu finjo que sou bobo", diz Aécio, provável adversário de Dilma

Maria Lima, Fernanda Krakovics

BRASÍLIA Fidelidade canina à chapa governista, até agora, só mesmo do PCdoB. Com os principais atores da disputa presidencial de 2014 já entrando em campo, começou pesado o ataque especulativo de partidos da base governista, que procuram se cacifar melhor para levar alguma vantagem na reforma ministerial prometida para março.

Como dona da caneta das nomeações, a presidente Dilma Rousseff é quem mais está sendo atacada pelos partidos aliados periféricos, que foram "jogados fora" na época da chamada faxina ética, e agora veem a chance de dar o troco. Mas não são só PDT, PR, e PP que procuram se reposicionar conversando ora com o tucano Aécio Neves (MG) ora com o presidente do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Ou com todo mundo junto.

Até mesmo setores do PMDB, partido teoricamente casado com o PT na aliança que garante Michel Temer como vice de Dilma, sinalizam que podem inviabilizar a repetição da aliança formal, se não forem bem atendidos e compensados após seu fortalecimento nas eleições municipais e nas presidências de Câmara e Senado. É o caso do PMDB mineiro, que briga por um ministério desde que o deputado Leonardo Quintão renunciou à candidatura a prefeito de Belo Horizonte em favor do petista Patrus Ananias, ano passado.

- Conversam comigo para se valorizar do lado de lá. Eu finjo que sou bobo. O PDT também conversa aqui. Na verdade, está todo mundo conversando com todo mundo - diz Aécio Neves, provável adversário de Dilma em 2014.

No PMDB, a expectativa é que se cumpra a promessa feita pelos então candidatos Renan Calheiros (PMDB-AL) e Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), de que, após eleição das Mesas de Senado e Câmara, teriam mais força para cobrar mais espaço na Esplanada. O objetivo seria conseguir um ministério maior, para acalmar as bancadas.

- Estão todos conversando com todos, e o temor é que isso contamine também o PMDB. Alguns dos PMDB, como os mineiros, querem conversar com Eduardo Campos e Aécio. Esse negócio de casamento de 60 anos feliz já era. Para manter o casamento e a mulher feliz, de tempos em tempos tem que dar uma joiazinha para reacender a paixão. Se não, chega outro com um carrão mais bonito e descobre-se um novo amor - ilustra o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA).

A ofensiva dos mineiros já estaria surtindo resultado, depois que o ministro do Desenvolvimento e Comércio Exterior, o petista mineiro Fernando Pimentel, fez chegar essa preocupação ao Planalto e ao PT. Na conversa entre Lula e Henrique Alves, sexta-feira, em São Paulo, um ministério começou a ser negociado para os mineiros .

Fonte: O Globo

Dilma oferece 3 pastas para saciar apetite de aliados

Partidos menores conversam também com Eduardo Campos e Aécio

BRASÍLIA - Para saciar o apetite dos aliados assediados por adversários, a presidente Dilma Rousseff tem à mão, para negociar, ministérios para os quais fez indicações pessoais: Transportes, que o PR deseja retomar para voltar à base governista; Trabalho e Emprego, que o PDT de Carlos Lupi quer voltar a comandar; e Agricultura. Leonardo Quintão (PMDB-MG), por exemplo, poderia ir para a Agricultura no lugar de seu colega gaúcho Mendes Ribeiro. A vocação agrícola de Minas ajudaria a justificar a mudança.

No PR, o ex-ministro dos Transportes e presidente do partido, senador Alfredo Nascimento (AM), e o líder na Câmara, deputado Anthony Garotinho (RJ), já estiveram no Planalto negociando seus retornos à base, desde que tenham de volta o Ministério dos Transportes, alvo de cobiça também do PMDB. Mas o PR já estaria disposto a voltar por menos: retomar o poder apenas no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e na Valec, responsáveis pelas obras em rodovias e ferrovias. Mas não será fácil a presidente aceitar essa proposta, pois os dois órgãos foram focos de denúncias de corrupção em 2011.

- O que vai acabar acontecendo é que Dilma não vai dar nada para o PR. Mas Eduardo Campos já tem feito tratativas e conversas com o PR. Ele está negociando com os partidos jogados fora por Dilma - avisa um dos caciques do PR.

Já o comando do PDT quer emplacar o secretário-geral do partido, Manoel Dias, ligado ao presidente da sigla, Carlos Lupi, no lugar de Brizola Neto, no Trabalho. Sem apoio partidário, por ser considerado uma escolha pessoal de Dilma, Brizola Neto também perdeu sustentação na Força Sindical.

Segundo pedetistas, na conversa entre Dilma e Lupi, há duas semanas, a presidente ofereceu a possibilidade de o PDT trocar Brizola Neto por quem o presidente do partido queira. Mas, em contrapartida, pretende amarrar desde já o apoio do partido à sua reeleição. Lupi não teria aceito essa condição.

- Lupi conversa todo dia com Aécio e Eduardo Campos. Eu, pessoalmente, sou contra Dilma e vou até com o capeta - diz um pedetista dissidente.

Lupi, que perdeu o posto de ministro, mas continua encastelado no conselho do BNDES, aproveita o assédio da oposição para recuperar poder junto a Dilma, enquanto outros pedetistas espalham que negociam com Campos ou Aécio.

O PTB, outro partido da base aliada, sempre esteve dividido, mas parece mais decidido agora.

- O PTB vai com Eduardo Campos e não tem nem conversa - afirma o deputado Sílvio Costa (PTB-PE).

Fonte: O Globo

De dramas e personagens - Luiz Sérgio Henriques

Num tempo de autoproclamado neodesenvolvimentismo, apesar da modéstia das taxas de crescimento, pode-se prever que viveremos não 50 anos em 5, como na situação original, mas pelo menos 2 anos em 1 só, com a superposição de 2013 e 2014 num período mais ou menos contínuo de diferenciação de candidaturas, apresentação de programas divergentes e, por fim, eleições presidenciais propriamente ditas.

Sendo a política, na concepção de falecido político mineiro, sagaz e conservador, uma atividade que guarda relação com o fugaz desenho das nuvens, adivinhar o que nos reserva esse tempo compacto de dois anos é tarefa que assustaria até um autor acostumado a dramatizar ambições, imaginar golpes da fortuna, coreografar danças e contradanças na alma de personagens que não são nunca autores isolados de si próprios. Afinal, como lembrava Ulysses, o patrono da moderna democracia brasileira, as circunstâncias desempenham sempre função crucial, delimitando, corrigindo, ampliando ou mesmo anulando o papel que cada personagem se atribui no correr do drama.

Houve época em que a primeira encarnação da social-democracia brasileira, chegada ao poder em 1995 na esteira de bem-sucedido plano de estabilização, requeria para si um poder que durasse 20 anos. Vinte anos, diziam, é o tempo que seria necessário para a reforma integral do capitalismo brasileiro num sentido que diminuísse drasticamente o poder do Estado - simbolicamente sintetizado na era Vargas, a qual se projetava, com a roupagem do autoritarismo militar, para o "Estado Novo da UDN" - e libertasse a sociedade capitalista de uma tutela tornada anacrônica. Prolongar a tutela seria tolher as energias e deformar a nova sociedade já plenamente burguesa, assim como antes sucedia ao corpo das crianças por causa do imemorial costume de enfaixá-las a pretexto de lhes garantir crescimento saudável.

A segunda encarnação da social-democracia, no poder há dez anos, não ambicionou nem ambiciona menos. Para realizar seu programa, nunca, jamais tentado na História do Brasil, de desenvolvimento e inclusão social acelerada, especialmente por meio do consumo popular, os mesmos 20 anos ou mais de poder continuado seriam o mínimo requerido. Até nisso esses irmãos siameses desavindos ferozmente, como não raro acontece nos enredos bombásticos, se parecem. Fratelli, coltelli - dizem expressivamente os italianos.

Um dos mais argutos observadores da vida brasileira (cf. Luiz Werneck Vianna, A Modernização sem o Moderno - Análises de Conjuntura na Era Lula, Editora Contraponto & Fundação Astrojildo Pereira, 2011) entendeu aquela ambição dos novos donos do poder como um "Estado Novo do PT", entidade omnívora capitaneada por um partido de esquerda que, uma vez assentado na Presidência da República, pretendeu assimilar tudo e o contrário de tudo, renunciando, no mesmo movimento, a ser fator de ativação da vida cívica e do "progresso intelectual de massas". Nada mais distante, por sinal, da elaboração refinada e complexa de uma nova hegemonia e de um equilíbrio social e econômico mais avançado, que exigem, acima de tudo, escrupuloso respeito às normas do Estado Democrático de Direito, o que exclui o "subversivismo elementar" evidenciado, por exemplo, não só na operação dos fatos rotulados como "mensalão", como na reação juvenil e intempestiva às decisões da Suprema Corte, pedra fundamental na defesa dos princípios da Carta de 1988.

Vitórias eleitorais sucessivas podem ser alicerçadas menos numa estratégia hegemônica de longo fôlego do que na criação de mitos extemporâneos - afinal, todo Estado Novo, seja da UDN, seja do PT, demanda alguma forma de DIP e o devido aparelho intelectual. A coalizão de poder produzida por tais vitórias, no entanto, costuma ter um déficit programático que se acentua dramaticamente em conjunturas críticas. Ainda em 2010, a dissidência aberta por Marina Silva sinalizava que a este neodesenvolvimentismo de perfil baixo falta, e talvez de modo insanável, a perspectiva da requalificação ambiental. E num contexto em que a palavra de ordem é "destravar" investimentos, o horizonte pode se restringir ainda mais, a ponto de o meio ambiente, definitivamente, passar a ser muito mais obstáculo a ser cancelado do que recurso para a renovação da economia e reformulação do modo de viver.

A dissidência de Pernambuco, ainda por ser medida e pesada, introduz um personagem saído do coração da mudança eleitoral induzida pelo petismo e seu sistema de bolsas. Pode-se argumentar que pouco se sabe deste PSB dos nossos dias, cuja relação com o venerável partido de Hermes Lima e João Mangabeira é, na prática, inexistente. Argumento forte, a exigir respostas sólidas dos seus líderes, assim como de Marina Silva se espera uma articulação partidária de tipo "orgânico", para que a ação política se descole da área ambiental em sentido estrito e se dirija, apropriadamente, ao conjunto da sociedade.

A aceleração de tempos que marca o final das tramas é sempre a ocasião propícia em que truques se esgotam, máscaras caem e destinos se redefinem. Daqui por diante, as duas social-democracias, com as unilateralidades que protagonizaram nos respectivos ciclos de poder, podem não estar mais sós no palco e, por conseguinte, se ver impedidas de reencenar o surrado duelo de privatistas e estatistas, usado de modo meramente instrumental por falta de discurso menos maniqueu.

Novos atores, no ponto de partida destes dois anos cruciais, ensaiam atropeladamente as suas falas, e o fato de ainda parecerem em busca de uma peça ou de um autor, dadas as circunstâncias, não é necessariamente mau sinal. Por ora, muito pelo contrário, são eles que afastam o pesadelo de um monólogo interminável a governar a nossa vida.

Luiz Sérgio Henriques, tradutor, ensaísta, um dos organizadores das obras de Gramsci no Brasil. É vice-presidente da Fundação Astrojildo Pereira e editor do site Gramsci e o Brasil.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Avanços ilusórios - Merval Pereira

Durante os governos petistas, a estrutura econômica brasileira iniciou ou aprofundou tendências que comprometem a capacidade de desenvolvimento do país no longo prazo, afirma o professor titular de Economia Internacional da UFRJ Reinaldo Gonçalves em análise da economia brasileira nos 10 anos de governos petistas em trabalho intitulado "Brasil Negativado, Brasil Invertebrado: Legado de 2 governos do PT".

Estas tendências, entre outras, segundo ele, são desindustrialização; reprimarização das exportações; maior dependência tecnológica; desnacionalização; perda de competitividade internacional; crescente vulnerabilidade externa estrutural; maior concentração de capital e política econômica marcada pela dominação financeira.

Até mesmo no campo social o professor da UFRJ vê ilusão onde o governo vende "conquistas notáveis". Para ele, as políticas distributivas não atingem a estrutura de concentração de riqueza e não alteram a distribuição funcional da renda (salários versus juros, lucros e aluguéis). No que se refere ao desenvolvimento social, tomando o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) como referência, Gonçalves constata "a total ausência de ganhos do país relativamente ao resto do mundo".

O Brasil Negativado também aparece em outro importante indicador de desempenho econômico, a inflação. Durante os governos petistas a taxa média de inflação é 6,1% (preços ao consumidor). Segundo o estudo, a taxa de inflação no Brasil é maior do que média mundial em 6 anos e maior do que a mediana mundial em 9 anos.

A melhora na distribuição de renda, na visão de Gonçalves, não é vigorosa ou sustentável em decorrência da própria natureza do modelo de desenvolvimento, que envolve trajetória de desempenho fraco e instável. Ele alega que os indicadores capturam fundamentalmente os rendimentos do trabalho e os benefícios da política social, e a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (PNAD), que serve de base para o cálculo dos indicadores de desigualdade, subestima os rendimentos do capital (juros, lucros e aluguéis).

Segundo o estudo, a distribuição da riqueza, muito provavelmente, não se alterou tendo em vista a vigência de elevadas taxas de juros reais no governo Lula, o reduzido crescimento do salário médio real, a concentração de capital e a ausência de medidas que inibam práticas comerciais restritivas (abuso do poder econômico) das grandes empresas.

Também como exemplo de concentração de capital e de riqueza, Gonçalves ressalta que no início do século XXI o valor dos ativos totais dos 50 maiores bancos era igual aos ativos totais das 500 maiores empresas; em 2011 os ativos dos 50 maiores bancos eram 78% mais elevados do que os ativos das 500 maiores empresas.

A base de dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) com coeficientes de Gini (que mede a desigualdade) num painel de 110 países mostra que, apesar de haver queda da desigualdade na América Latina na primeira década do século XXI, os países da região continuam com os mais elevados indicadores de desigualdade de renda no mundo.

Em meados desta década, lembra Reinaldo Gonçalves, 4 entre os 5 países com maior desigualdade estão na região (Colômbia, Bolívia, Honduras e Brasil). No conjunto dos 10 países mais desiguais, há 8 países latino-americanos. Segundo o levantamento, o Brasil experimentou melhora marginal na sua posição no ranking mundial dos países com maior grau de desigualdade entre meados da última década do século XX e meados da primeira década do século XXI, saiu da 4ª posição no ranking mundial dos mais desiguais para a 5ª posição.

Gonçalves ressalta que os avanços que ocorrem no Brasil não implicam ganhos em relação ao resto do mundo durante os governos petistas. Ele toma como exemplo o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do PNUD. Embora ao longo do período 2000-11 o IDH do Brasil tenha aumentado de 0,665 em 2000 para 0,718 em 2011, este mesmo fenômeno ocorreu com a maioria dos países. Em consequência, destaca Gonçalves, não há mudanças nas diferenças entre o IDH do Brasil, que se manteve praticamente estável (70ª posição) durante os governos petistas, e a média dos IDHs dos outros países.

Fonte: O Globo

Tudo pelo eleitoral - Dora Kramer

Sob a direção da presidente Dilma Rousseff, efeitos especiais a cargo do ex-presidente Luiz Inácio da Silva e aplausos da arquibancada, o Brasil está assistindo à reprise de um filme cujo desfecho é conhecido: o prejuízo vence no final.

Economistas, empresários e especialistas no tema vêm alertando para os desacertos na condução da política econômica, para o excesso de intervencionismo estatal, para os efeitos nefastos da manipulação de dados, para o abandono, enfim, dos alicerces de uma estabilidade a duras penas construída desde o início da década dos 90.

O governo não lhes dá ouvidos. Ao contrário: menospreza os alertas, qualifica a todos como inimigos de um projeto de País "glorioso", inovador e progressista. Nas palavras da presidente Dilma Rousseff, as críticas decorrem da "falta de compreensão dos conservadores".

Na verdade, quem não parece compreender a distinção entre o que é bom para o País e o que é bom para o partido no poder é o governo, com sua clara opção por proporcionar satisfação imediata aos seus eleitores (reais e potenciais) em detrimento das bases sobre as quais foi construído o edifício da estabilidade.

Quais foram elas? Sistema de livre movimentação de preços, controle fiscal e foco firme e constante no combate à inflação.

Da segunda metade do segundo mandato de Lula para cá houve uma clara troca de prioridade. Deixou-se de lado o conceito de crescimento com estabilidade para privilegiar o agrado ao eleitor a qualquer custo, notadamente à chamada nova classe média que sustenta em alta a popularidade, obviamente rende votos e assegura a sobrevivência política não só do PT, mas de todo o espectro partidário de sua área de influência.

O preço congelado dos combustíveis agrada ao consumidor, ainda que ponha em risco o desempenho da Petrobrás; a redução das tarifas de energia agrada ao consumidor, ainda que leve a um aumento de consumo e comprometa as empresas de energia; a interferência no Banco Central para forçar a baixa de juros, mesmo quando seria necessária uma margem de autonomia para calibrar a demanda, agrada ao consumidor de bens a prestação, mas põe em risco a meta de inflação.

Preço baixo é bom e todo mundo gosta, mas tem um custo que não é visível (ainda) ao público. Uma hora aparece, e da pior maneira possível. Como para manter essa situação o governo tem que entrar com dinheiro, o resultado é o aumento do gasto público, o descontrole fiscal. Daí para a volta de um cenário de inflação alta, o perigo é concreto.

Trata-se de uma lógica populista que seduz o eleitor, rende vitória nas urnas. Em contrapartida, planta as sementes do desajuste que, mais dia menos dia, apresenta a conta.

Queira o bom senso que os atuais locatários do poder, a pretexto de "construir" um Brasil de faz de conta em nome de vitórias eleitorais, não levem o Brasil de volta aos tempos de desorganização interna, descrédito internacional e aos malefícios decorrentes das concessões ao imediatismo que provoca sensação de bem estar agora e adiante pode levar a pique o patrimônio de todos.

Adeus às ilusões. Os tucanos que ficaram encantados com as mesuras da presidente da República a Fernando Henrique Cardoso no início do governo acabaram de ver a vida como ela é.

No rugir do palanque, Dilma Rousseff não teve dúvida: "Não herdamos nada, construímos tudo", disse, compartilhando a versão criacionista sobre o surgimento do Brasil sob a ação divina do PT.

Esses tucanos, entre os quais se incluem diplomatas, alguns intelectuais e até gente inteligentíssima na economia (pais do real), mas ingênua na política, chegaram a considerar seriamente os gestos de Dilma como sinal de que ela logo se afastaria de Lula.

Fonte: O Estado de S. Paulo

O melhor cabo eleitoral do PT é a oposição - Elio Gaspari

Anunciado como se pudesse vir a ser o discurso do então desconhecido companheiro Obama na convenção democrata de 2000, o grito de guerra do senador Aécio Neves foi um pronunciamento pedestre. Suas críticas à década petista têm alguma procedência, mas terminam caindo na armadilha de quem tem muitas opiniões sem que elas formem um ponto de vista. Viu o futuro no retrovisor. Se a exibição das contradições morais, políticas e econômicas do comissariado levasse a algum lugar, Lula não teria sido reeleito, muito menos colocado os postes Dilma Rousseff no Planalto e Fernando Haddad na prefeitura de São Paulo.

O tucanato continua encantado pela crença segundo a qual se uma pessoa ficar com duas vezes mais raiva do PT, terá direito a dois votos nas próximas eleições. Só a falta de assunto explica o fato de os tucanos terem caído numa finta petista, aceitando uma antecipação precoce e descosturada da sucessão presidencial do ano que vem.

Tome-se o espaço que o senador dedicou à Educação. Exatamente 21 palavras: "O governo herdou a universalização do ensino fundamental, mas foi incapaz de elevar o nível da qualidade na sala de aula". Médio. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, o Inep, em 2007 havia 7,1 milhões de crianças matriculadas na zona de mau ensino, com avaliações abaixo de 3,7 no Índice de Desenvolvimento do Ensino Básico. Em 2011, esse número baixou para 1,9 milhões. Há tucanos que fazem melhor? Em Minas Gerais, com certeza. Em Alagoas, não.

Do outro lado da mesa estão as políticas sociais do governo. Se a oposição admitir que algumas delas funcionam, todo mundo lucra, sobretudo ela. Dois exemplos: o desempenho escolar das crianças beneficiadas pelo Bolsa Família, e a discussão do estímulo à criação do turno único nas escolas.

A velha demofobia ensina que dar dinheiro a pobre é assistencialismo barato. No século XIX dizia-se que a abolição da escravatura estimularia o ócio e a embriaguez dos negros. Hoje há gente que acredita que o Bolsa Família remunera a preguiça da miséria e, como o ensino público é ruim, as crianças fogem das aulas ou, quando comparecem, não aprendem. É a ignorância a serviço da demofobia. Em 2011 a evasão escolar da meninada do programa no ensino básico da rede pública foi de 2,9%. Já a evasão no universo das escolas públicas, segundo o Censo Escolar, ficou em 3,2%. No desempenho, perderam de 86,3% a 83,9%. Indo-se para o ensino médio, a garotada do Bolsa Família fez melhor tanto no desempenho (79,9% x 75,2%) como na evasão (7,1x10,8%).

Enquanto a oposição mostra-se incapaz de erguer a bandeira do turno único, o governo correu atrás da expansão do tempo integral nas escolas onde a maioria dos alunos são beneficiados pelo Bolsa Família. Em 2010 havia 10 mil escolas públicas com esse regime. Nelas, só 2.869 (29%) tinham maioria de alunos cobertos pelo programa. Em 2012, as escolas com tempo integral triplicaram (32 mil) e 17.575 (54%) são frequentadas por crianças do Bolsa Família. Isso foi conseguido com recursos do Orçamento e parcerias com prefeitos. Nem um tostão federal foi gasto com tijolos, quadras de esporte ou salas para diretores. Muito menos com clipes publicitários ridículos.

E o mensalão? Pois é, pobre não sabe votar. Ou será que sabe, apesar do mensalão?

Subiu no telhado

A caciquia tucana deu-se conta de que a reeleição do governador paulista Geraldo Alckmin está subindo no telhado.

O único alívio do PSDB está na rivalidade dos comissários Alexandre Padilha (Saúde) e Aloizio Mercadante (Educação) pela cadeira.

Pista

A Comissão da Verdade dispõe de um prato cheio para conferir a atuação do consulado americano em São Paulo durante a ditadura. Estão na internet dezenas de telegramas do vice-cônsul Francis Lambert e do cônsul-geral Frederick Chapin.

Um estava no posto em 1971, quando a ALN incendiou seu carro. Seus telegramas são um prodígio de mistificação, vendendo mentiras para encobrir a tortura. Chapin, que assumiu em 1972, virou o jogo, denunciando o porão. Ele foi mais longe: em 1976 procurou D. Paulo Evaristo Arns para informá-lo que se preparava algo contra o PCdoB. No dia seguinte deu-se o massacre da Lapa, numa operação em que foram assassinadas duas pessoas dentro de um aparelho.

Vaticanólogo

Os vaticanólogos são uma espécie que aparece às vésperas dos conclaves, acertam quando apostam no favorito (Bento XVI, Paulo VI ou Pio XII) e somem quando percebem que esqueceram de mencionar o cardeal escolhido (João Paulo II, João Paulo I e João XXIII).

A sucessão de Bento XVI vitaminou em Pindorama um vaticanólogo que estava fora do noticiário desde 2003. É o empresário Giancarlo Nardi. Na sua primeira encarnação ele frequentou os autos da Operação Anaconda, que pegou o juiz Rocha Mattos e quitanda de venda de sentenças.

Pio XII e os negros que chegariam a Roma

Fala-se muito na remota possibilidade de um papa africano ao mesmo tempo em que se acusa a Igreja Católica de não mudar. Vai aí um exagero, tanto em relação aos avanços ocorridos como em relação ao atraso em que andou o Papado.

Em janeiro de 1944, quando as tropas aliadas estavam a caminho de Roma, o secretário de Estado, cardeal Luigi Maglione, chamou ao Vaticano o embaixador inglês para transmitir-lhe um pedido de Pio XII. Segundo o telegrama que o diplomata mandou para Londres, Sua Santidade "esperava que não houvesse negros na pequena guarnição que permaneceria em Roma durante a ocupação".

A propaganda fascista apresentava os soldados americanos como macacos que saqueavam museus. O Papa estaria mais preocupado com casos de estupros praticados por negros, não necessariamente americanos. Tropas de todas as cores e nações estupraram mulheres na Europa, inclusive a FEB. Dois pracinhas violentaram uma menina de 15 anos e um deles matou-lhe o tio. Foram condenados à morte, voltaram para o Brasil e acabaram indultados.

Quem viu "Duas Mulheres", de Vittorio De Sica, pode lembrar que Sophia Loren e sua filha foram violentadas por soldados marroquinos, africanos e negros.

Não há documento capaz de informar se o pedido de Pio XII tramitou no comando aliado. Os negros americanos entraram em Roma, inclusive uma jornalista.

Fonte: Folha de S. Paulo

Arte e análises velhas - Míriam Leitão

A arte da capa do folheto e dos cartazes comemorativos dos 10 anos do PT foi comparada à estética gráfica dos regimes totalitários de direita e de esquerda. Parece mesmo. Aquelas fotos enormes das duas cabeças em um corpo, e um povo miúdo em comemoração, evoca a idolatria personalista de regimes autoritários. O texto é ainda mais discutível.

A versão de que a virtude absoluta está de um lado, e toda a maldade se concentra nos adversários, é bizarra. Hoje, após quase três décadas de democracia, o país foi exposto ao contraditório, teve decepções, aprendeu nuances, vê com espírito crítico mesmo aqueles nos quais vota.

É fazer pouco da inteligência dos brasileiros. Eles não são adoradores infantilizados de líderes macrocéfalos, mas cidadãos capazes de pensar criticamente.

A história democrática recente não está dividida em dois períodos - os anos desastrosos e os anos gloriosos. É uma simplificação grosseira, só aceitável em regimes que controlam a opinião pública, o que é impossível na democracia. Há nuances, virtudes e defeitos nos dois períodos de governo. Há diferenças até dentro de um mesmo período presidencial. O período Palocci é diferente da gestão Mantega, por exemplo, com superioridade para o primeiro, que preservou a estabilidade da moeda, conquistada no governo anterior. O segundo tem tomado decisões perigosas na área fiscal e monetária.

No texto, há um trecho que diz: "A teoria do bolo, de que somente após a economia crescer seria possível distribuir, se tornou uma referência a não ser questionada." Tal teoria do bolo não foi invenção de nenhum adversário do PT, mas do seu neoamigo Delfim Netto.

Os redatores da cartilha não conseguem provar a tese de que um período concentrou renda e o outro distribuiu. Nos números que contrapõe, admite que houve redução da desigualdade, medida pelo Índice Gini, nos dois períodos. Houve mais redução no governo Lula, mas o processo virtuoso começou após a estabilização da moeda. Só é possível fazer políticas sociais eficientes quando há inflação sob controle.

O PT tem erros a omitir e virtudes a exibir. Fiquemos na segunda parte: a ampliação da rede de proteção social. Mas os dados do próprio governo mostram que o programa anterior estava transferindo R$ 4 bilhões no fim do governo Fernando Henrique. No governo Lula, R$ 15 bilhões, e agora, R$ 23 bilhões. O programa mudou de nome e foi ampliado e aperfeiçoado. Omite-se que a ideia original da campanha de 2002 era distribuir vales para trocar por alimentos. Felizmente, a ideia obsoleta foi abandonada.

O texto alega que nos anos petistas foi feita a organização das finanças públicas, o que na verdade foi um trabalhoso esforço que consumiu anos até se chegar à Lei de Responsabilidade Fiscal. Isso tem sido ameaçado pela alquimia contábil. Em dado momento da cartilha, eles dizem que nos anos petistas o crescimento do PIB por habitante foi de 2,2%. No final desta semana, será confirmado que em 2012 o PIB per capita teve crescimento zero.

Peça de propaganda publicitária não é para dialogar com sinceridade, mas para construir uma versão a ser vendida ao eleitorado. O problema é que faltam 18 meses para o período oficial da campanha eleitoral e o governo precisa governar.

Explicações maniqueístas têm um defeito básico: elas anulam o espaço para a conversa inteligente. O início extemporâneo de campanha põe em risco a ação sóbria do governo para corrigir o rumo na direção do que o país quer, seja quem for que o governe: desenvolvimento com moeda estável.

Fonte: O Globo

Para a frente - Tereza Cruvinel

Nos rituais da largada eleitoral, na semana passada, PT e PSDB se agrediram muito, mas tinham um objetivo comum: manter a polarização recíproca, que marca a política brasileira desde 1994. Desta vez, terão menor controle sobre essa variável. Mas a corrida de 19 meses agora seguirá, com momentos de maior ou menor aceleração. Amanhã, o senador Aécio Neves volta ao palco recebendo o ex-presidente Fernando Henrique para o primeiro dos seminários mensais que o PSDB fará em Minas. Os seminários viraram biombos para a campanha antecipada. Na quinta-feira, o ex-presidente Lula e talvez a própria presidente Dilma participam, em Fortaleza, do primeiro dos 13 seminários organizados pelo PT, ainda celebrando os 10 anos no poder. No fim de março, começam os do PSB, denominados “diálogos para o desenvolvimento”. A Rede de Marina Silva também faz os seus.

Tratemos então de avaliar o que houve e tentar enxergar, até onde a vista alcança, o que está no horizonte, para uns e para outros.

Para o campo governista, a largada cumpriu alguns objetivos. Para começar, enterrou o “queremismo” de parte da militância que sonhava com a volta de Lula. Lançando Dilma, ele acabou com isso. Voltou com a performance de grande comunicador, embora a voz já não seja a mesma, e com fome de briga. O PT exibiu unidade e ânimo novo, depois do infortúnio com o mensalão. Dilma é que, apesar da roupa vermelha e do acento crescentemente eleitoral em seus discursos, precisará muito de seu treinador, Lula. Como diz um aliado, ela entrou na campanha, mas não levou, ainda, sua coalizão.

Aécio saiu no lucro, pois não precisou nem produzir uma festa. Com o discurso no Senado, ganhou um banho de luz da mídia, contentou os tucanos que lhe cobravam postura mais agressiva e inibiu os concorrentes internos. Com o seminário de amanhã e novas bênçãos de Fernando Henrique, vai tornando sua candidatura natural e inquestionável. Mostrou-se afiado para atacar o governo, mas, daqui para a frente, precisará também apresentar alternativas.

Por fim, numa evidência de que, desta vez, a polarização pode ser efetivamente quebrada, o governador Eduardo Campos, do PSB, embora ainda não assuma sua candidatura como os outros, entrou na festa largada a partir de um seminário (claro!) com prefeitos no agreste pernambucano. Condenou a antecipação e, é claro, a polarização, que chamou de “velha rinha”.

Questões que contam

Eleição não é aritmética, mas alguns elementos contam muito.

Máquina — Disputar a reeleição no cargo é uma vantagem avassaladora. Dilma é uma presidente popular, mas isso não basta. Seu governo é bem avaliado, no que pese o baixo crescimento da economia. Mesmo assim, a grande máquina federal conta muito, e o PT aprendeu a usá-la. Aécio contará com os governos estaduais tucanos, mas Dilma, sem dúvida, leva vantagem.

Coligações — A união de muitos partidos determina o tempo de televisão e passa a ideia de que o candidato é o mais forte, o preferido. Dilma teve o apoio de 10 partidos em 2010, batendo o próprio Lula. Deve perder o PSB, mas ganhará o PSD. Entretanto, ainda precisa acomodar todo mundo no governo, na reforma que vem adiando. Aécio deve reproduzir a aliança histórica do PSDB com o DEM e o PPS. Afora algumas pequenas siglas, a oferta de aliados será escassa, o que vale também para Campos.

Televisão — Isso é fundamental. Em 2010, Dilma teve 10 minutos em cada edição de 25 minutos do horário eleitoral, contra sete minutos de Serra e um minuto e pouco de Marina Silva. Deve ampliar esse tempo, mesmo perdendo o PSB, pois outros partidos cresceram sob o fermento do poder. Aécio e Campos devem ter menos tempo que Serra em 2010.

Palanques estaduais — Candidatos a presidente precisam de palanques estaduais. De bons candidatos a governador e a senador. A antecipação nacional está acelerando os arranjos locais. Como no Rio, onde a base dilmista já rachou: o PT lançou a candidatura de Lindbergh Farias d o governador Sérgio Cabral, do PMDB, lançou seu vice, Pezão. Disputando os outros aliados, os dois partidos anunciam que terão Francisco Dornelles, do PP, como candidato a senador. Ele finge que não ouve, mas dificilmente romperá com Cabral.

Agendas positivas

Chove lá for a, mas o presidente do Senado, Renan Calheiros, vai dando curso à sua agenda de recuperação política da Casa. Depois dos primeiros pontos da reforma administrativa, que economizará alguns milhões, e das medidas de transparência, anunciou providências legislativas que foram aplaudidas até por um falcão adversário — Randolfe Rodrigues. O regimento será reformado, permitindo sessões especiais mais longas para debates temáticos. Em breve, entra em pauta projeto do próprio Senado, exigindo a prestação de contas anual das agências reguladoras, estas caixas-pretas. E, ainda, a regulamentação do papel constitucional do Senado na formulação da política tributária.

Na Câmara, Henrique Eduardo Alves pensa colocar em votação o fim dos 14º e 15º salários dos deputados, que seriam compensados pela equiparação aos vencimentos dos ministros do STF. Teria sido desaconselhado pelo líder do PMDB, Eduardo Cunha: esta equiparação agora só vai gerar agenda negativa. Na outra Casa, Renan teria avisado que ela não será votada, para conter o desgaste.

Fonte: Correio Braziliense

Encruzilhada - Amir Khair

Este ano começou mal para a equipe econômica. Está espremida entre combater a inflação em ascensão ou continuar estimulando a economia para escapar da semiestagnação nos dois últimos anos.

É uma nova encruzilhada. Há que decidir com firmeza e clareza a política a ser adotada. Não parece que isso esteja ocorrendo. A recente mudança no câmbio, procurando segurar o real para não ultrapassar R$ 2, sinalizou que o Banco Central (BC) não se encontra em condições de enfrentar a inflação com os instrumentos que já usou: Selic e medidas macroprudenciais.

Elevar a Selic não parece ser o caminho adequado em face dos reiterados comunicados do BC de que ela ficaria por longo tempo em 7,25%. Entrar novamente com medidas macroprudenciais para segurar o crédito, como feito em 2011, também não parece ser o caminho, uma vez que o governo reiteradas vezes vem apelando aos bancos para elevar suas operações de empréstimos.

Sobrou o câmbio para controlar a inflação. Isso contraria a política de defesa da indústria contra a penetração do produto importado. A perplexidade com essa mudança na política cambial foi geral, obrigando a novo contorcionismo de explicações do ministro da Fazenda e do presidente do BC. O primeiro, ao afirmar que a inflação se combate com a Selic (???), e o segundo a dizer que não está usando o câmbio para segurar a inflação e, se necessário, a Selic poderia ser elevada (???).

Isso desgasta o governo, aumenta o descrédito na equipe econômica e não resolve nada. É necessário ter clara e firme posição na condução da política econômica e, ante a ascensão natural da inflação no início de cada ano, o governo devia afirmar que:

a) a inflação será crescente neste início do ano;

b) ela está dentro das estimativas do governo e ficará dentro da meta;

c) o câmbio não será usado para combater a inflação, mas sim para não prejudicar mais ainda a competitividade das empresas;

d) a prioridade do governo é o crescimento econômico.

O desafio do governo não me parece ser o de combater a inflação. Já asfixiou o que pôde sua principal empresa, expondo-a a vexames e críticas de toda sorte e errou novamente ao não corrigir adequadamente os preços dos combustíveis, mantendo a Petrobrás como principal biombo da inflação.

É chegada a hora de o governo partir com decisão no seu principal objetivo, que é tirar a economia da estagnação em que se encontra. Para isso, não há outro caminho senão aproveitar o potencial de consumo inexplorado.

Sim, consumo é a mola mestra do crescimento e é sua expansão que mobiliza o empresário a investir caso sua empresa precise atender à demanda crescente sobre seu produto e a capacidade de produção se encontra no limite. É só aí que a empresa investe, pois, se não o fizer, perde mercado, deixa de faturar e vê o lucro cair.

Falar em investimento é falar em investimento no setor privado (responsável por 80% do investimento total) e não em investimento do governo federal (5% do investimento total). Além do mais, o investimento privado procura ser feito ao custo mais baixo e o público é, normalmente, feito com custos elevados, especialmente em grandes obras, circunscritas a meia dúzia de grandes empreiteiras.

Mas, para deslanchar o consumo, é necessário remover seu freio: as taxas de juros do crédito. Atenção, não se trata do juro da Selic, que algumas análises a confundem como sendo o juro da economia. Não é. O juro da economia é o da ponta do tomador. Vale sempre repetir isso. E esse juro se encontra elevado e, em elevação em várias modalidades, como demonstrei em artigo anterior.

Não dá para crescer 4% com essa trava de juro elevada. A taxa de juro ao consumidor só há poucos meses ficou abaixo de 100%, segundo a Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac). Ao final de 2012, estava em 89%.

O governo parecia que iria dobrar o sistema bancário privado por meio do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, ao fazer essas instituições baixarem suas taxas de juros.

Mas, após pequena redução de juros, os maiores bancos privados voltaram nos últimos meses a elevar suas taxas. Veja tabela indicando a taxa de juro média anual cobrada pelos quatro maiores bancos privados (Itaú, Bradesco, Santander e HSBC).

Se o governo quiser mesmo retomar o crescimento perdido, deve, sem hesitação, baixar as taxas de juros ao consumidor. Ao iniciar isso em abril de 2012, parece que ficou satisfeito com os resultados alcançados nos primeiros meses de campanha e, depois, se descuidou e as taxas voltaram a subir.

Insisto na via da remoção do freio ao consumo em vez do apelo ao investimento privado. O empresário, como afirmei, é pragmático na decisão de investir e, com capacidade ociosa, como muitos estão, não investem. Pode apelar o governo quanto quiser.

Os que acenam com o fantasma da inflação sabem que ela é sazonalmente maior no primeiro quadrimestre (cerca de 40% da inflação do ano) e, se o governo quiser combatê-la segurando a demanda, vai afundar ainda mais o parco crescimento da economia. Essa via da encruzilhada deve ser sumariamente descartada.

De outro lado, de pouco adiantará desonerar ainda mais as empresas na cota patronal com o chapéu da Previdência Social e não à custa, como deve, do Tesouro Nacional. Isso já está fazendo ressurgirem as análises apocalípticas sobre o futuro da Previdência Social.

Será que as empresas que foram desoneradas estão passando a economia de tributos ao consumidor? Não creio. Talvez a melhor forma seja desonerar os produtos da cesta básica, anunciado pela presidente. Além de contribuir para a redução da inflação, vai permitir melhor consumo das camadas de menor renda.

Para ir adiante ante a encruzilhada (inflação ou crescimento), o governo deve escolher a via do crescimento, onde pode atuar e obter resultados. Quanto à inflação, não se corre riscos de descontrole como atestam até as análises mais pessimistas.

Ademais, ao contrário de 2012, neste ano tudo indica que a boa safra agrícola pode contribuir para manter a inflação dentro da meta (2,5% a 6,5%). Vale acompanhar.

Fonte: O Estado de S. Paulo

História e tempo real - Eduardo Portella*

Em coletânea de colunas publicadas no GLOBO, jornalista narra o desenrolar do julgamento do mensalão

O novo livro de Merval Pereira, “Mensalão” (Editora Record) — que será lançado na Livraria da Travessa do Shopping Leblon na terça, dia 26, às 19h —, é um manual de cidadania, destinado a todos os que, embora diante de uma democracia moralmente agonizante, resistem e apostam no amanhã. Porque, em meio aos destroços de um cotidiano politicamente enfermo, ainda é possível identificar saídas recuperadoras. Não por intermédio da mera reciclagem do lixo, mas pela restauração, pela reoxigenação de verdades nas quais continuam a acreditar o homem, o indivíduo social, os verdadeiros cidadãos, a insubstituível Justiça, o Estado de Direito. Aqui se escreve a história transparente do espantoso delito praticado contra os bons costumes democráticos. Aqui aparecem, à luz do dia, “tenebrosas transações” que se escondiam na escuridão da noite dos negócios partidários.

Queira-se ou não, goste-se ou não, o fato é que o super episódio “mensalão” alcançou surpreendente e instrutiva repercussão na opinião pública nacional e mesmo internacional. A nossa imprensa livre — ainda bem que livre —, tem sido impecável na cobertura dessa até então encoberta trama contra o projeto democrático republicano.

O livro de Merval Pereira é o painel alarmante e incontestável de uma grande falcatrua. “Desvio de dinheiro público” que, quando lava o dinheiro, suja a alma. Se fizermos um balanço criterioso, isento, entre o que a população inerte ganha com a assistência social, dirigida ou não, e o que perde com a corrupção, explícita ou não, os resultados serão escandalosamente desfavoráveis para os desprotegidos.

Opinião pública como fiscal

O ministro Celso de Mello, decano do Superior Tribunal Federal, não vacilou em esclarecer, com a sua habitual precisão: “corruptos e corruptores, (são) os profanadores da República, os subversivos da ordem institucional, os delinquentes marginais da ética do Poder, os infratores do erário, que portam o estigma da desonestidade. E, por tais atos, devem ser punidos exemplarmente na forma da lei”.

A Justiça soube resistir às pressões do Estado fatiado. E evitou que ela mesma fosse fatiada. Vale agora fazer justiça à Justiça. Ficou claro que os protagonistas, os coadjuvantes, e até os extras, da cena pública, estavam todos unidos na partilha da degradação política. Logo, de nada adianta chorar o leite derramado, nem reclamar da “judiciarização” da política. Quando os mandatários políticos se envolvem em ações criminosas, essa “judiciarização” torna-se inevitável. E permitiu estabelecer um divisor de águas entre os magistrados íntegros e os comissários destituídos de saber e imaginação.

Será que as coisas estão mudando? É provável. A ministra Carmen Lúcia disse, a certa altura do campeonato, que “o Brasil mudou”. Deus lhe ouça, dizemos nós.

O que não se pode mais dizer é que o mensalão foi uma “farsa”. Ele foi uma evidência cruel, um tiro no pé da democracia. Só não foi no coração graças à Procuradoria Geral da República e ao Supremo Tribunal Federal. A partir de agora, a lavagem deslavada, a doação oculta, o famoso “caixa dois”, passarão a ser tratados no severo âmbito da defesa da sociedade. O labirinto judiciário ficou transparente. O STF saiu engrandecido dessa empreitada. A farsa verdadeira terminou sendo, e talvez continue sendo, a recusa intempestiva do mensalão, o “mais importante julgamento da história política do Brasil”.

É verdade que ainda sobrevivem, desinibidamente, aqueles que buscam embaralhar os critérios, com o propósito de transformar réus em heróis. A subversão do tripé republicano não é outra coisa senão a tentativa de ferir de morte o compromisso democrático, fraudando, transmitindo, sobre antenas impróprias, a eletricidade sem energia, a iluminação sem luz, o telefone sem linha.

Se levarmos em conta as proporções de cada uma, teríamos de admitir que a corrupção de outrora se processava em patamar artesanal. Já hoje se verifica em escala industrial, e se fala em “cadeia de corrupção”. E todo esse desvendamento oportuno se deve à imprensa livre e independente. Ela é hoje o único partido inteiro.

A reação subdesenvolvida como resposta à decisão do STF compromete o equilíbrio dos poderes da República, e expõe a inidoneidade e o cinismo de nossas representações eleitoreiras.

A questão da qualidade passa ao largo das disputas eleitorais e, evidentemente, das siglas partidárias. Siglas fantasmas que falam em nome de necessidades irreais. As disciplinas encarregadas de levar adiante o trabalho de qualificação societária nunca recebem o tratamento necessário na bolsa de valores das construções orçamentárias, submetidas parlamentarmente às injunções clientelistas. O vácuo educacional e cultural pode ser visto a olhos nus. Quem aprende mal, vota mal. A inclusão social ou é qualitativa ou não é.

Tudo isso está muito presente no olhar atento e solidário de Merval Pereira. Militante da informação qualificada, ele jamais se furta a combater o bom combate, com a serena coragem cívica, aquela que dispensa a bravata e o exibicionismo. Chego até a imaginar, sem muito realismo porém com muito boas intenções, que o livro de Merval Pereira deveria ser distribuído nos nossos educandários, para que os jovens brasileiros fortalecessem as suas imunologias éticas, e aprendessem a se defender desde cedo dos assaltos demagógicos que proliferam por todos os lados.

Uma prova concreta de que a esperança nunca foi abandonada são as palavras finais do livro de Merval Pereira: “O que importa, hoje, no Brasil, é que há instituições que podem trabalhar com independência, e a opinião pública atua fortemente para frear abusos de governos autoritários”.

“Mensalão” é o diário do julgamento, a radiografia, e uma espécie de sinal de alerta à memória coletiva, em um país cultor da amnésia. O país em que, como dizia o saudoso Millôr Fernandes, citado por Merval Pereira, “a cada quinze minutos o brasileiro se esquece dos últimos quinze minutos”. Para além do “domínio dos fatos”. Porque todo fato é feito, e nem todo feito tem efeito. Aqui estamos frente a frente com o acontecimento efetivo, ao qual devemos fidelidade a bem da verdade.

*Eduardo Portella é escritor e professor, integrante da Academia Brasileira de Letras (ABL)

Fonte: Prosa / O Globo

E a banda passou - Ferreira Gullar

Por toda zona sul do Rio, são multidões que já não dançam nem cantam, puxadas por trios elétricos

Passado o Carnaval, me ponho a refletir. No final da década de 1950, o Carnaval de rua, no Rio, havia morrido. À exceção do Cordão da Bola Preta e de um ou outro bloco, quase nada havia. É certo que alguns foliões mascarados, vestidos de palhaço, de urso ou vestidos de mulher, vagavam pela Cinelândia, misturavam-se a um ou outro grupo de gente que brincava na avenida Rio Branco.

Bêbados desgarrados sempre houve e haverá, mas o Carnaval de rua, com banda de música tocando e muita gente sambando, como décadas atrás, isso não havia mais. Por que, não sei, mas lembro das conversas de foliões nostálgicos, lamentando o fim desse tipo de brincadeira carnavalesca.

Foi então que, em Ipanema, surgiu um pequeno grupo que decidiu sair para a rua, batucando e cantando. Parece que a primeira aparição desse grupo foi em 1964, pouco antes do golpe militar que viria instaurar uma ditadura no país. Não era muita gente, não, dez ou 20 pessoas e alguns músicos, creio eu.

Nascia a Banda de Ipanema, inventada por Albino Pinheiro e Ferdy Carneiro, a que aderiram Jaguar, Ziraldo, a turma do Pasquim e do Jangadeiro, mas também Sérgio Cabral e o grupo que militara no CPC da UNE e depois no Teatro Opinião, encabeçados por Thereza Aragão. Com o tempo, outros mais aderiram.

O pessoal se reunia na praça General Osório, a banda começava a tocar chamando gente, aumentando o bloco que seguia pela Prudente de Morais até a altura do Bar Vinte, se não me falha a memória. Ali dobrava e retornava pela Visconde de Pirajá de volta à praça de onde partira e onde se dispersava.

Àquela altura, já anoitecera e o pessoal bastante animado, especialmente porque, durante o percurso, parava nos bares para tomar cerveja e batidas de limão.

Era comum que, quando chegava à praça, já muita gente ficara pelo caminho, muitos pelos botecos onde enchiam a cara pelo resto da noite.

A Banda de Ipanema era, assim, uma exceção, mas, de certo modo, uma retomada do Carnaval de rua que, talvez pela importância que o bairro tomara, por nele residirem ou frequentarem seus restaurantes e bares, artistas e intelectuais de prestígio, despertava o interesse de gente de outros bairros -e a banda foi crescendo, de ano para ano.

Não demorou muito e aquele pequeno grupo inicial duplicara ou triplicara de tamanho, e com isso o entusiasmo dos carnavalescos crescia contaminando, claro, os moradores do bairro que, no começo, ficavam nas janelas vendo a banda passar.

E com isso ela também se tornou, de certo modo, manifestação política contra o regime militar. Não explicitamente e sim pelo fato mesmo de opor-se à hipócrita seriedade da ditadura: mostrar-se alegre e irreverente já era ser contra os milicos. Os anos se passaram e outras bandas começaram a surgir em diferentes bairros da zona sul do Rio: no Leme, em Copacabana, no Catete, no Jardim Botânico.

Tive que deixar o país e, assim que voltei, já estava eu lá na banda de Ipanema. Havia muita gente nova, mas os antigos companheiros continuavam lá. Em seguida, mudei-me para Copacabana e, com o tempo, deixei de desfilar. Quando voltei a participar, ela havia mudado muito. Fora alguns dos velhos participantes -Albino, Jaguar, Sérgio Cabral-, a banda tinha sido tomada por outra turma, e à frente dela iam alegríssimos travestis, vindos talvez de outros Estados.

A banda crescera bastante, não conhecia quase ninguém, ou não encontrava os amigos em meio a tanta gente. Foi a última vez que desfilei.

Pois bem, acabo de ver na televisão a banda de hoje desfilando pela Vieira Souto, tomada por uma multidão, que mal conseguia caminhar quanto mais sambar. Coisa semelhante ocorre, agora, por toda a zona sul do Rio, do Jardim Botânico a Santa Tereza, de Botafogo à Cinelândia. São multidões que já não dançam nem cantam, puxadas por trios elétricos.

No sábado de Carnaval, aquilo que foi outrora o Cordão da Bola Preta tornara-se uma multidão que encheu a avenida Rio Branco, criando um sufoco: gente apavorada não conseguia sair dali, algumas moças desmaiaram e foram, a muito custo, resgatadas por policiais.

É, a vida muda e, às vezes, para pior.

Fonte: Ilustrada /Folha de S. Paulo

A alma da Casa de Rui Barbosa:- Beatriz Resende*

Neste artigo, a pesquisadora Beatriz Resende defende o trabalho de servidores da Fundação Casa de Rui Barbosa, criticados pelo ex-presidente da instituição, o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos, que reunciou em janeiro, e pelo sociólogo Emir Sader, que chegou a ser indicado para o cargo em 2011 mas caiu antes de assumir.

Diante de infelizes declarações que vieram a público sobre a Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB) e seus servidores, sinto-me na obrigação de tornar igualmente público meu depoimento de toda uma vida acadêmica sobre a Casa e seus pesquisadores.

Foi na Casa Rui, como chamamos, com intimidade, esta importante instituição, que escrevi minha dissertação de mestrado, primeiro trabalho que realizei sobre o escritor carioca Lima Barreto. O acesso à documentação do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira, o convívio com pesquisadores de literatura e História, o estímulo do então diretor de Pesquisa, Francisco de Assis Barbosa, foram decisivos para que realizasse meu doutorado sobre o mesmo autor e continuasse a estudá-lo. Lima Barreto e o Rio de Janeiro tornaram-se objeto de pesquisa permanente, e foi em parceria com uma pesquisadora da casa, Rachel Valença, que organizei os dois volumes de “Toda crônica”, editado pela Agir, reunindo os escritos de Lima Barreto para a imprensa.

Por décadas tenho participado, como palestrante ou espectadora, dos seminários organizados pelos pesquisadores da FCRB. São sempre encontros especialmente antenados com o que de novo surge nas investigações sobre arte, literatura, História e, mais recentemente, políticas culturais. Falo das áreas que me dizem respeito, porque são as que conheço melhor. A cada um desses agradáveis e provocantes encontros, me espanta o ânimo dos organizadores, capazes de contornar as inúmeras dificuldades que existem no serviço público, especialmente nas instituições federais, para que se convidem palestrantes estrangeiros, se ofereça hospedagem a quem não é do Rio e assim por diante. É o estímulo que nos oferecem que nos leva à Rua São Clemente.

Pesquisas da casa são referência imprescindível

Nos últimos anos, como parecerista e representante da área de Letras, primeiro na Faperj e agora no CNPq, tenho tido oportunidade de conhecer projetos de pesquisa e de publicações realizados pela FCRB e constatar a alta qualificação dos autores e coordenadores de projetos, o ineditismo das propostas e a seriedade impecável do cumprimento de suas realizações.

O principal mérito da instituição, a meu ver, foi ter, ao longo dos anos, construído um perfil próprio, com objetos de pesquisa focados e continuidade. Estudos sobre o Rio de Janeiro, sobre a República, sobre a imprensa no Brasil, sobre a literatura do século XX e, agora, do século XXI, com forte ênfase em textos e documentos da Primeira República, têm nas pesquisas da FCRB uma fonte de referência imprescindível. Acervos e bibliotecas abrigados e investigados pelos profissionais da Casa são muitas vezes coleções únicas e, sem acesso a elas, seja no estudo da preciosa coleção de literatura de cordel, seja na manipulação de revistas de outros séculos, diversos trabalhos de gerações de pesquisadores não poderiam ter sido concluídos.

Sendo de Letras, não posso deixar de destacar a importância de haver na FCRB um setor de Filologia. Os estudos de Filologia estão praticamente extintos no Brasil. Na Casa Rui trabalha-se com estabelecimento de texto, mas em momento algum os estudos literários separam-se da reflexão teórica mais contemporânea. Isso é raro, especialmente porque os resultados de pesquisas são partilhados em publicações e seminários e confrontados com investigações de outras instituições. Tudo isso convive com a democratização do saber que significa a difusão online de revistas como a “Escritos” ou o site “Machado de Assis em linha”. Além de ensaios dos pesquisadores, que não se agarram à propriedade de seus estudos. Sempre com um padrão gráfico de excelência, no papel ou na internet, que só um artista plástico do maior destaque poderia garantir.

O museu e os jardins falam por si, e sempre sugiro aos colegas de fora ou às crianças do século XXI que visitem a Casa e, em especial, a cozinha ou o quarto da babá. Como estamos na era da internet, lembro que a visita também pode ser feita online.

Observando de fora, me impressiona algo que, na falta de melhor palavra, chamaria de “amor à camisa”. Os servidores da FCRB têm resistido aos momentos mais difíceis pelos quais a cultura passou neste país. Resistido a políticas de desmonte, de descaso, de indiferença, que, entre nós, infelizmente não são incomuns.

Cada perda que a Fundação Casa de Rui Barbosa sofre, seja de estudiosos que, diferentemente de Francisco de Assis Barbosa e de Adriano da Gama Kury, que ficaram na Casa até o fim de seus dias, decidem aceitar convites mais interessantes de outros lugares, ou acervos de escritores brasileiros que deixam de ser adquiridos e tratados, é uma perda para todo o país, perda inestimável que talvez só no futuro se possa avaliar.

Acervos culturais e de memória ou espaços de pesquisa e debate inteligente não precisam ser atacados, proibidos, deliberadamente destruídos. Podem morrer em silêncio, ir sucumbindo, desaparecendo e, se não chamarmos a atenção em voz alta e não cobrarmos com veemência sua preservação, correm o risco de deixar o cenário da cidade e do país sem que muitos notem.

*Beatriz Resende é professora titular da UFRJ, “Cientista do Nosso Estado” pela FAPERJ e pesquisadora do CNPq

Fonte: Prosa / O Globo

Feita de luz

Exposição, livro, CDs, DVDs, filme... Agora é Clara Nunes quem ganha um ano inteiro de homenagens

Mauro Ferreira

Viúvo de Clara Nunes (1942-1983), o compositor carioca Paulo César Pinheiro se recusou a ver o corpo da cantora no caixão, em 2 de abril de 1983, dia em que as funções vitais da artista se encerraram após 28 dias de agonia no CTI da Clínica São Vicente, no Rio.

Pinheiro, marido de Clara desde 1975 e produtor dos discos da cantora a partir de 1976, nem sequer viu a mulher no CTI, para onde ela fora encaminhada na tarde de 5 de março de 1983 por conta de um choque anafilático que desativou seu cérebro - complicação inesperada do que seria uma corriqueira cirurgia de varizes. Ele preferiu guardar na memória a imagem vivaz de Clara Francisca Gonçalves, cantora mineira que conquistou o Brasil a partir de 1971 com a estilizada imagem de baiana arquitetada pelo radialista Adelzon Alves para traduzir visualmente o repertório de sambas de sotaque afro-brasileiro que Clara adotaria a partir de então, após fracassadas incursões pelo terreno dos boleros e das músicas de festival. Decorridos 30 anos da precoce saída de cena da cantora, Pinheiro mantém sua postura reclusa e prefere ficar ausente das saudações a Clara que vão acontecer ao longo de 2013 para lembrar as três décadas da morte da artista. Caixa com a obra completa, CDs avulsos, DVDs, documentário, exposição, reedição de biografia e lançamento de gravação na internet vão fazer ressoar o canto luminoso de Clara Nunes.

"Nunca participo de nada. Com Clara em vida, a única coisa que fiz foi produzir seus discos. O que eu tinha que fazer, eu já fiz. E fiz bem. Clara cantou em vida um repertório magnífico. Esse repertório não morre", avalia Pinheiro, que assumiu a produção dos álbuns a partir de Canto das Três Raças (1976), disco em que Clara começou a abrir o leque estético de seu repertório.

Paulo César Pinheiro se refere a cantoras como Aline Calixto. Mineira como Clara, Calixto vai lançar em março na internet, para download gratuito, gravação inédita de Conto de Areia (Romildo Bastos e Toninho Nascimento), sucesso de 1974 que fez o sétimo álbum de Clara, Alvorecer, vender 300 mil cópias e abrir caminho na indústria para cantoras de samba como Alcione, que seria contratada pela Philips para gravar seu primeiro LP em 1975, e Beth Carvalho, convidada a ingressar na RCA em 1976 após três discos editados na pequena Tapecar. Calixto convidou o rapper paulista Emicida - atual sensação do hip hop ao lado de Criolo - para participar da gravação. "A ideia é lembrar de Clara com linguagem contemporânea. Meu pai e meus avós tinham Clara e Elis como referências de cantoras brasileiras", contextualiza Calixto, que vai apresentar em São Paulo este ano o show com músicas de Clara Nunes que estreou em Belo Horizonte (MG) no ano passado, em meio às comemorações do 70º aniversário da cantora, festejado em agosto.

A imagem de Clara chegou às novas gerações através do YouTube e do primeiro DVD póstumo da cantora, Clara Nunes - Os Musicais do Fantástico das décadas de 70 e 80. Lançado em 2008 pela EMI, o já esgotado vídeo ganhou DVD de Ouro pelas vendas superiores a 25 mil cópias. Tanto que outro DVD póstumo, com o registro do Especial Clara Nunes, gravado em 1973 para a TV Bandeirantes com o Conjunto Nosso Samba, vai ser lançado em abril. "É incrível como a Clara tem grande legião de fãs que a seguem tanto no lado musical como no espiritual", ressalta Luiz Garcia, gerente de marketing estratégico da EMI.

Simultaneamente com o DVD do especial de 1973, Garcia pretende colocar nas lojas, entre março e abril, a reedição da caixa Clara, lançada em 2004 com reedições dos 16 álbuns oficiais da artista no formato 2 em 1. "A reedição da caixa vai pegar uma nova geração", prevê o executivo. Ao longo do ano, os títulos mais importantes da discografia serão reeditados, de forma avulsa, em embalagem digipack. "A gente vai relançar aos poucos todos os álbuns emblemáticos, em formato de luxo, com faixas-bônus", detalha Garcia.

Para corrigir os erros da edição original da caixa, que embalou os álbuns Clara Nunes (1972) e Claridade (1975) com capas equivocadas, as reedições dos 16 discos foram revisadas pelo jornalista Vagner Fernandes, biógrafo da cantora, cujo livro Clara Nunes - Guerreira de Utopia, lançado em 2007 e já esgotado, vai ser reeditado em abril. "A obra de Clara é atemporal. A personagem é atemporal. A maneira como ela interpretou seu repertório é atual", ressalta Fernandes. Dono de vasto arquivo de imagens, áudios e vídeos de Clara, Fernandes vai exibir parte desse acervo em exposição programada para ser inaugurada no Rio em meados deste ano. Uma das atrações vai ser o áudio dos ensaios de Sabiá, Sabiô, show que Clara iria fazer em 1972, sob a direção de Hermínio Bello de Carvalho, mas que foi abortado antes da estreia. Outra preciosidade é o áudio de Tinguá, música de autoria da ex-jogadora de basquete Neuci Ramos da Silva que foi defendida por Clara no II Festival Fluminense da Canção Popular, realizado em 1968 no Estádio Caio Martins, em Niterói (RJ).

Fernandes também comemora a descoberta do áudio integral (com boa qualidade técnica) da última apresentação do show Brasileiro, Profissão Esperança, feito por Clara em 1974 ao lado do ator Paulo Gracindo (1911 - 1995). Calcado nas obras dos compositores Antônio Maria (1921 - 1964) e Dolores Duran (1930 - 1959), o espetáculo bateu recordes de público no extinto Canecão e foi parcialmente registrado em disco que, de acordo com Fernandes, não é ao vivo como alardeado na contracapa do LP original. "É um registro de estúdio ao qual foram adicionadas palmas", sustenta o biógrafo.

No registro integral de Brasileiro, Profissão Esperança, Clara canta trecho de Travessia (1967), primeiro sucesso de Milton Nascimento. Ardoroso fã da mineira cantada em verso e prosa por João Nogueira (1941 - 2000) no samba intitulado justamente Mineira (1975), Milton define Clara como "a maior cantora de samba" em depoimento concedido para a série de cinco programas documentais exibidos pelo Canal Brasil em dezembro. Filmado sob a direção de Darcy Burger, a partir de roteiro traçado por Vagner Fernandes, o documentário vai ser reeditado para exibição nos cinemas e posterior edição em DVD.

Outro DVD que vai ser lançado ao longo de 2013 para celebrar Clara Nunes é Canto Sagrado, registro audiovisual do show idealizado pela cantora paulista Fabiana Cozza, uma das vozes mais elogiadas do samba de São Paulo, cidade onde o show vai ser gravado ao vivo, em abril ou maio. Cantora habituada a dar voz a repertório de tom afro-brasileiro, Cozza conta que a motivação para a criação do show Canto Sagrado foi seu desejo pessoal de homenagear Clara. "Além de ter sido cantora de timbre personalíssimo, com um canto pontuado por belíssimas costuras melódicas e senso rítmico apurado, Clara imprimiu ao longo da carreira uma brasilidade ímpar, valorizando e ressaltando a cultura afro-brasileira, da beleza da mulher negra à religiosidade e às diferentes manifestações culturais espalhadas pelo País", teoriza Cozza.

Se Fabiana Cozza apresenta no roteiro de Canto Sagrado alguns lados B da obra de Clara Nunes, como Deixa Clarear (Wilson Moreira e Nei Lopes) e Novo Amor (Chico Buarque), músicas gravadas pela Guerreira em 1981 e 1982 respectivamente, a cantora baiana Mariene de Castro optou por priorizar os hits de Clara em Ser de Luz, CD e DVD que a gravadora Universal Music põe agora nas lojas.

Abrindo as saudações a Clara Nunes por conta dos 30 anos de sua morte, Ser de Luz registra o show feito por Mariene no Espaço Tom Jobim, no Rio, em 9 de outubro de 2012. A baiana dá voz a 16 músicas lançadas por Clara entre 1971 e 1982, período áureo da carreira da mineira. Quando Clara morreu, Mariene ia fazer cinco anos. Ausente da memória afetiva de Mariene, o repertório de Clara somente foi recentemente assimilado pela cantora que, para muitos, é a mais perfeita tradução visual de Clara. "Tive pouco contato com a obra de Clara, mas bateu em mim a curiosidade de conhecer essa pessoa a quem tanto me associavam", explica Mariene, que no Carnaval de 2012 desfilou em homenagem à colega na Portela, a escola de samba que Clara abraçou após ter sido recebida com frieza na Mangueira.

"No dia em que escutei Um Ser de Luz (samba feito em 1983 por João Nogueira, Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro em memória de Clara) entendi a emoção que esse povo tem ao falar de Clara Nunes, entendi a saudade do Brasil e chorei compulsivamente no meio da rua", conta Mariene, que vai cair este ano na estrada com o show em que canta somente as músicas da artista mineira, ajudando a amenizar a saudade que o Brasil tem de Clara Francisca Gonçalves, a imortal Clara Nunes.

Som
Música na rede
A mineira Aline Calixto lança em março, na internet, gravação inédita de Conto de Areia, feita com participação de Emicida.

Caixa de CDs
Lançada em 2004, com reedições de 16 álbuns no formato 2 em 1, a caixa Clara foi revisada e vai ser reeditada em abril.

CD 2013: 30 Anos sem Clara Nunes
A cantora baiana Carla Visi finaliza disco com regravações de sucessos de Clara, feitas em dueto com artistas como Péricles e Thiaguinho. Daniela Mercury também participa do projeto.

Álbuns em digipack
A EMI prepara reedições avulsas, em embalagem digipack, dos álbuns mais emblemáticos da cantora.

CD Ser de Luz
CD e DVD em que a cantora baiana Mariene de Castro canta 16 músicas do repertório de Clara Nunes sob a direção musical de Alceu Maia, com participações de Diogo Nogueira e Zeca Pagodinho em Juízo Final (Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, 1973) e em Coisa da Antiga (Wilson Moreira e Nei Lopes, 1977), respectivamente. Sai em fevereiro via Universal Music.

Imagem
Documentário Clara
Dirigido por Darcy Burger, o filme tem previsão de estreia em 2013. Vai ser editado a partir do material bruto filmado para os cinco episódios da série documental apresentada pelo Canal Brasil em dezembro.

Exposição
Biógrafo de Clara, Vagner Fernandes prepara exposição com fotos e material inédito em vídeo, áudio e imagens.

Livro
Reedição, prevista para abril, da biografia Clara Nunes - Guerreira da Utopia, escrita por Vagner Fernandes e lançada em 2007.

DVD Especial Clara Nunes
A gravadora EMI planeja editar em abril o DVD com o registro integral do especial gravado por Clara em 1973 para a TV Bandeirantes com o Conjunto Nosso Samba. O repertório inclui Fim de Caso, de Dolores Duran (1930 - 1959).

DVD Canto Sagrado
A cantora paulista Fabiana Cozza faz ao vivo, em São Paulo, entre abril e maio, o registro audiovisual do show Canto Sagrado para edição em DVD.

Fonte: Caderno 2 / O Estado de S. Paulo

Mariene de Castro - "Um Ser de Luz" - (João Nogueira)

Os domingos - Paulo Mendes Campos

Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança
Nem a verdade dos supremos desconsolos -
Simplesmente a tarde transparente,
Os vidros fáceis das horas preguiçosas,
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde – lembro – uma árvore parada,
A alma caminhava para os montes,
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.
Domingo – lembro – era o instante das pausas,
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai,
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam,
O cristal intocado, a rosa que destoa.
Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas,
A noite aclarava os sofrimentos,
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam dos mortos,
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques,
Procurando palavras que espelhassem os domingos.
E uma esperança que não tenho.