quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Gabeira reinventa campanha eleitoral na TV e na Internet


DEU NO PORTAL COMUNIQUE-SE


E não foi só a campanha na TV. O candidato do Partido Verde à Prefeitura do Rio de Janeiro, deputado federal Fernando Gabeira, considerado por muitos, um candidato naninco, conseguiu a proeza de ir para o segundo turno contra o candidato apoiado pelo governador Sergio Cabral e pelo presidente Lula. Gabeira conseguiu o que para muitos parecia impossível. Derrotou candidatos poderosos, demonstrou que marqueteiro de sucesso e presidente popular não elegem até mesmo “poste”, foi para o segundo turno e reinventou a campanha eleitoral.

Aqui no Rio, evitou as armadilhas do tradicional “hilário eleitoral” na TV e fez toda uma campanha eleitoral inovadora: mais simples, honesta, jovem e principalmente, mais limpa. Mais limpa em todos os sentidos. Não sujou a cidade e não sujou sua própria imagem com promessas e alianças perigosas.

Gabeira, pela primeira vez, teve a coragem de reinventar a forma de lidar com o público pela TV. Seu programa é um festival de novidades em um oceano de mesmices caras e desgastadas. Ele não apareceu na telinha como mais um produto para consumo dos eleitores. Gabeira parecia gente como a gente. Não é a toa que foi provavelmente uma das maiores “surpresas” dessas eleições. E talvez, a era das grandes e caríssimas campanhas eleitorais pela TV produzidas pelos marqueteiros da moda estejam com os seus dias contados.

O candidato a prefeito do PV explorou bem todas as novas possibilidades de comunicação pela TV e pela rede. Além da página de campanha, manteve uma página pessoal com blog, notícias, fotos e vídeos atualizados. Deu um show de inovação na TV e ousadia na Internet.

Política e patinete

O velho “marketeiro” da campanha do Gabeira, o publicitário Lula Vieira parece ter aprendido com o passado. Ele procurou inovar ao mostrar ao público um candidato como ele é e não como a TV gostaria que ele fosse.

Acertou em cheio. A campanha do Gabeira pela TV pode ser um divisor de águas nas futuras campanhas eleitorais no Brasil. Principalmente, na TV.

Lula Vieira também preferiu investir na biografia do cliente e em uma imagem jovial.

Em entrevista para o UOL (ver aqui), ele disse que “A propaganda eleitoral é como uma luta de boxe, todos se apresentam e vêem como cada um vai lutar. Nós vamos mostrar imagens de quando o Gabeira saiu para a ‘porrada’ na política discutindo com o Severino Cavalcanti (ex-presidente da Câmara dos Deputados) e brigando com seguranças antes da cassação de Renan Calheiros (ex-presidente do Senado). Quero explorar o seu lado contemporâneo. Fiz uma ‘vinhetinha’ com ele andando de patinete na orla da zona sul da cidade para dar um ar jovial. Ele é muito ligado ao jovem e pouco tradicional”, afirmou o publicitário do candidato do PV.

Segundo o noticiário, “uma das novidades da campanha do Gabeira foi a utilização do serviço Google Maps - um detalhado mapa com base em imagens de satélites, que chega a ruas e quarteirões. O candidato a prefeito Fernando Gabeira (PV) usou para mostrar aos internautas as comunidades do Rio dominadas por traficantes ou milícias e mapear os bairros onde estão eleitores e simpatizantes. É um recurso semelhante ao da campanha de Obama, que estimula os eleitores a fazerem campanha na vizinhança e usa um mapa dos Estados Unidos para facilitar o contato dos simpatizantes com os vizinhos”.

Ainda segundo o noticiário recente, “O número crescente de internautas é o grande estímulo para a profusão de novos sites de candidatos, que não se resumem a informativos sobre a campanha, mas procuram oferecer novos atrativos… Uma das diferenças da campanha na internet do Rio para a maior parte das capitais é que o TRE fluminense autorizou o uso do próprio orkut e de outros sites de relacionamento para campanhas. Os candidatos criaram comunidades oficiais de suas campanhas, com acesso direto para os sites e os blogs políticos. A idéia é que usuários do orkut, enquanto navegam no site de relacionamento, acabem chegando às comunidades dos candidatos, mesmo que não tenham interesse especial pela política. Nas outras cidades, as comunidades oficiais no orkut são vetadas pela Justiça”. Tudo a ver.

Em tempos de descrédito da população nos políticos, nos mensalões e nas alianças de última hora, Gabeira soube convencer o público que uma política mais sincera e uma TV mais verde são possíveis.

Soube aproveitar bem os novos recursos comunicacionais da Internet como poucos. E assim como o candidato democrata Barack Obama nos EUA, criou aqui no Rio uma nova imagem para si e para a política local.

A partir de agora, as campanhas eleitorais, a TV e quem sabe, a política brasileira jamais serão as mesmas. Não custa sonhar!

Contenção de Lula enfraquece projeto de onda vermelha no 2º turno

Jarbas de Holanda

A disputa final para a eleição do prefeito de São Paulo entre Gilberto Kassab e Marta Suplicy deverá envolver um empenho pessoal menor – ao invés de mais intenso, como se programava e previa antes – do presidente Lula em favor da candidata do PT. O favoritismo ganho por Kassab na fase final do 1º turno e com os apoios partidários (PSDB, PPS e provavelmente PTB) que está recebendo, aumentou significativamente o risco de que uma derrota de Marta, no contexto de acirrado confronto dele com o governador José Serra, constitua fator de sério desgaste de sua imagem política e eleitoral. Desgaste que ele poderá atenuar com menor envolvimento nesta campanha, de par com a concentração de esforços, na Grande São Paulo, na de Luís Marinho, em São Bernardo do Campo, e nas de seus candidatos em Santo André e Guarulhos, cujas vitórias compensariam ao menos parte do insucesso petista na capital.

A esse tipo de risco se somam duas outras variáveis como principais condicionantes para um papel mais cuidadoso e contido de Lula no 2º turno: a contraposição entre finalistas de partidos da base governista, especialmente PT e PMDB, como em Salvador e Porto Alegre (mesmo que os peemedebistas gaúchos tenham postura de oposição ao governo federal), e os reflexos, crescentes, da crise financeira internacional, pelo que passam a representar de ameaça para a economia em 2009 e para o projeto sucessório de Lula em 2010, riscos que serão usados para proteger o presidente das pressões eleitorais de aliados, sobretudo de petistas.

E a tais variáveis se agregam embaraços que mantêm ou forçam o distanciamento de Lula dos dois outros embates, ao lado do de São Paulo, mais importantes do 2º turno: em Belo Horizonte, porque ele não quer reiterar nem pode mudar o apoio que deu no 1º turno ao candidato da aliança PSB-PT-PSDB, Márcio Lacerda; e no Rio, porque resiste a rever a forte antipatia que sente por Eduardo Paes, do PMDB de Sérgio Cabral , em face da agressiva atuação oposicionista que, como deputado, ele teve no processo do mensalão.

A contenção do presidente agora – por esses motivos, e também por avaliação que deve ter feito (com base nos resultados gerais do 1º turno) das limitações de seu poder de transferência de prestígio ou votos – esvazia em boa parte ou amortece o preparo de uma onda ou maré vermelha lulista para ser deflagrada entre os dois turnos do pleito municipal. Na perspectiva de vitórias emblemáticas na capital paulista e em Porto Alegre e da influência delas em todo o Centro-Sul, bem como com o objetivo de turbinar a força do lulismo nas demais regiões.

A respeito da crise, enquanto de um lado o presidente Lula mistura algumas manifestações de preocupação séria com o problema à insistente retórica de palanque contra “pacotes dos governos anteriores” e o FMI e para desqualificá-la como “marolinhas”, de outro lado, o Banco Central adota várias ações para reduzir o estrangulamento do crédito externo e tentar conter a disparada do dólar. Mas medidas de maior abrangência destinadas à preservação em 2009 do equilíbrio fiscal (impostas por um contexto em que a receita de crescimento bem menor será insuficiente para atender à expansão dos gastos com a máquina federal e com programas assistencialistas, exacerbada sobretudo neste ano eleitoral), tais medidas – do próprio Executivo e dependentes do Congresso – só serão tornadas públicas e desencadeadas após o 2º turno, a partir de novembro. Como antecipação de sacrifícios econômicos e sociais que Lula procurará limitar no máximo a 12 meses, a fim de poder voltar ao “nunca antes neste país tivemos tanto crescimento e tantos benefícios sociais”, ao longo do 2010 decisivo para sua sucessão.

Saindo de uma fria


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A mudança de tom foi nítida. Duas semanas antes do primeiro turno, o presidente Luiz Inácio da Silva e o governador José Serra anunciaram convictos e entusiasmados que, na etapa final, mergulhariam “de cabeça” nas campanhas de seus candidatos em São Paulo.

Contados os votos, consolidada a falácia da transferência automática de prestígio como valor absoluto na expressão eleitoral, Lula anuncia presença “na medida do necessário” e Serra avisa que comparecerá “se for chamado”.

Noves fora, o presumido embate entre o presidente da República e o candidato mais cotado à sua sucessão pelo jeito queda-se devidamente adiado. Se houver, será só depois das eleições municipais.

Nada indica - muito menos aconselha - que o presidente Lula vá se jogar de peito aberto na campanha de Marta Suplicy ou em qualquer outra. Como o governador de São Paulo pretende se balizar pela intensidade da atuação do presidente, se Lula for mais devagar, Serra seguirá o ritmo.

Um confronto direto agora valeria o tira-teima sobre o peso de cada um em São Paulo para 2010.

Se tiver bom senso, Lula pisará com mais cuidado. Se, numa hipótese improvável, resolver dobrar o investimento, multiplica também o risco. Com a desvantagem de não aumentar na mesma proporção a chance de vitória.

O presidente pessoalmente só tem a perder. Como no primeiro turno a presença dele não influiu nem contribuiu objetivamente para o resultado, mas serviu para integrá-lo ao rol dos tidos como derrotados, se Marta ganhar, a glória será dela. Se perder, Lula abre de novo o debate sobre sua incapacidade de transferir votos.

Descredencia a si como cabo eleitoral privilegiado, e desidrata as expectativas a respeito das possibilidades de Dilma Rousseff em 2010. Ainda que a transferência na eleição presidencial ainda careça de comprovação, a pré-candidatura da ministra hoje sobrevive dessa “promessa”.

Quanto mais derrotas o presidente colecionar agora, menos promissora parecerá sua força para tirar uma presidente da República da própria costela. Isso vale para fora e para dentro do PT. Se porventura Dilma começar a ser vista como mera miragem, a perspectiva de poder muda de direção e, com ela, muda junto a correlação de forças hoje favorável ao governo.

Não há, portanto, nenhum motivo racional para o presidente imprimir a crueza da realidade a um quadro ainda ilusório, mas confortável.

O comedimento é bom para Lula e para todos os padrinhos cujas famas de maiorais saíram abaladas pela insuficiência de desempenho de seus candidatos. Se puderem escolher, antes deixar os afilhados morrerem pagãos que desembolsar capital político para pagar as contas dos enterros.

Não quer dizer que haverá abandono em massa. Há casos de patronos bem-sucedidos - Geddel Vieira Lima, que reergueu a massa falida do prefeito João Henrique em Salvador - e casos de recuo impossível.

Em Belo Horizonte, o governador Aécio Neves e o prefeito Fernando Pimentel não têm saída: ou carregam Márcio Lacerda até o fim para tentar uma vitória apertada ou amargam uma derrota acachapante.

Minas, porém, é exceção. Ali houve erro de pessoa na escolha, colaborou a inesperada competência do adversário (visto em retrospectiva, bem mais adequado para formar uma trindade com Aécio e Pimentel) e o pupilo não consegue dar dois passos sem o amparo dos patronos.

A aposta era alta, tinha tudo para dar certo - inclusive o apoio da população à aliança do governador e do prefeito - e agora é trabalhar para reduzir os danos.

Neste aspecto, Aécio continua dono da faca, porque conseguiu dizimar o PT na capital. Mas teve um substancial pedaço do queijo subtraído pelo eleitorado que o impediu de registrar, para efeito da disputa pela legenda do PSDB à Presidência, a condição de senhor absoluto dos votos na capital de Minas Gerais.

Bolsa-Rio

Enquanto o eleitor dá uma demonstração de independência na escolha de seus representados, os representantes do Rio de Janeiro dão sucessivas mostras de subserviência ao governo federal. Sinal inequívoco da decadência de um Estado forjado na prática da autonomia, quando não da rebeldia, eleitoral.

Todos - do governador ao espectro completo de candidatos - manifestam temor reverencial ao poder de manipulação do Orçamento federal. É generalizado o discurso de que o Rio precisa ser “amigo” de Brasília, a fim de ter garantidos os repasses de verbas da União.

Em algum ponto do caminho o princípio da impessoalidade que rege a administração pública foi substituído pelo critério da esmola mediante uma política de boa vizinhança.

A relação isenta entre os entes federativos é mais que uma obrigação, é uma imposição legal.

No lugar de mostrar isso ao cidadão carioca, os representantes do Rio alimentam a mentalidade cortesã imaginando recuperar importância no cenário político nacional na base da esmola.

Votação Prefeitos - Partidos


Votação Vereadores - Partidos


À distância regulamentar


Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


A eleição de São Paulo é a única onde o presidente Lula é obrigado a subir no palanque. Mas é uma casa de caboclo em termos políticos

A grande diferença entre o primeiro e o segundo turno das eleições é a natureza da contradição eleitoral. Em tese, no primeiro turno, nada impede que dois adversários mantenham um pacto de boa convivência, de olho na aproximação futura. No segundo turno, há um combate frontal, mesmo quando estão no mesmo campo político, que inviabiliza a recomposição das forças locais. Por essa razão, o presidente Lula ficará longe da maioria dos palanques.

São Paulo —A eleição de São Paulo é a única onde o presidente Lula é obrigado a subir no palanque. Mas é uma casa de caboclo em termos políticos, uma vez que Gilberto Kassab (DEM) virou o primeiro turno à frente de Marta Suplicy (PT). O governador paulista, José Serra (PSDB), fará campanha para Kassab com gosto. Se conseguir a reeleição do prefeito paulistano, será uma vitória estratégica: a derrota de Lula. Com isso, o tucano aumentaria a expectativa de poder criada por sua candidatura ao Palácio do Planalto em 2010. Agora é tarde para Lula evitar o confronto. Seria fugir à luta.

Rio de Janeiro — Lula não cruza com os dois candidatos, para usar uma expressão bem carioca. O candidato do PV, Fernando Gabeira, que galvanizou o voto da esquerda, sempre fez oposição. Eduardo Paes (PMDB), apadrinhado pelo governador Sérgio Cabral Filho (PMDB), luta pelo apoio do presidente da República, mas é um aliado de última hora. Lula não esqueceu os ataques que sofreu de Paes na CPI do Mensalão. Caso típico de idiossincrasia.

Belo Horizonte — Para o presidente da República, o melhor é passar ao largo da disputa de Belo Horizonte. A cozinha do Palácio do Planalto pensa diferente e torce contra o candidato do PSB, Márcio Lacerda, apoiado pelo prefeito Fernando Pimentel (PT) e pelo governador Aécio Neves (PSDB), embrião de uma aliança “pós-Lula”. O vice-presidente José de Alencar, os ministros petistas Luís Dulci (Secretaria-Geral da Presidência) e Patrus Ananias (Desenvolvimento Social) querem que o vitorioso seja o azarão Leonardo Quintão (PMDB). Quem lucra é o ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB).

Salvador — O governador Jaques Wagner (PT) e o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, entraram em rota de colisão. Estão em lados opostos na disputa de Salvador, onde o prefeito João Henrique (PMDB) foi para o segundo turno contra o petista Walter Pinheiro. Para Lula, será mais fácil juntar os cacos se o prefeito de Salvador for reeleito.

Porto Alegre — O prefeito José Fogaça (PMDB) faz parte da lista de peemedebistas indesejáveis do presidente da República. Não está descartada a possibilidade de Lula subir no palanque da candidata do PT, Maria do Rosário. Seria uma exceção no critério de não se envolver nas disputas dentro da base.

Manaus — Ficou mais distante de Brasília nesse segundo turno. O prefeito Serafim Correia (PSB) foi atropelado pelo ex-governador Amazonino Mendes (PMDB). Como ambos são aliados do governo, Lula vai assistir ao embate de camarote.

Belém — A mesma situação se repete no confronto entre Duciomar Costa (PTB) e José Priante (PMDB). O Palácio torce pela reeleição do prefeito, para limitar a influência do deputado Jader Barbalho (PMDB), eminência parda do PMDB, no governo do Pará.

Cuiabá — Em tese, a eleição em Cuiabá não cria problemas na base. Mas o tucano Wilson Santos (PSDB) quase levou no primeiro turno. O risco de subir no palanque de Mauro Mendes (PR) é perder.

São Luís — A mesma situação se repete no Maranhão, onde José Castelo (PSDB) enfrenta Flávio Dino (PCdoB) e virou o primeiro turno com muita vantagem.

Macapá — A eleição na capital do Amapá não faz a menor diferença. Clodomir Paz (PDT) e Camilo Capiberibe (PSB) são da base governista. A briga entre os dois é um problema do ex-presidente José Sarney (PMDB).

Florianópolis — Dos dois “manezinhos”, o preferido de Lula é o ex-governador Espiridião Amin (PP). Dario Berger (PMDB), que lidera a disputa, é da ala do PMDB na qual Lula não confia.

O PT, as estrelas e uma outra leitura


Rosângela Bittar
DEU NO VALOR ECONÔMICO

É natural e ordinário: o governo, de posse dos cargos, das verbas e da inédita popularidade, cresce nas eleições municipais, amplia seus tentáculos e conquista capitais e grotões. A oposição, ao contrário, se reduz. O PT, o PSB, o PCdoB, partidos de maior nitidez entre os integrantes da aliança em torno do presidente da República e do governo federal, cresceram significativamente. O PMDB, também integrante deste governo, é um caso à parte, o que também não surpreende: continua com o maior número de prefeituras, 1.194, no primeiro turno, conquistou novos espaços importantes e está na disputa do segundo turno, inclusive contra aliados, sem perder a pose e a pseudo coerência. O PSDB, o DEM e o PPS minguaram nas eleições municipais de 2008, como esperado.

Era previsível que os partidos de oposição perdessem posições importantes no Brasil inteiro. Em especial, os dois principais. O DEM perdeu até agora 298 prefeituras com relação às que conquistou em 2004 (já tinham ficado dezenas pelo caminho entre uma eleição e outra), era esperado seu rebaixamento para a segunda divisão partidária, mas ainda manteve uma boa rede de prefeituras no interior da Bahia, de onde se esperava que fosse varrido, e até em cidades importantes do interior de São Paulo. E se vencer na capital, São Paulo, no segundo turno entre Gilberto Kassab e Marta Suplicy, volta ao patamar dos grandes. O PSDB perdeu 91 prefeituras até agora. Mas continua sendo o segundo maior partido do país em governos municipais. Derrotas, portanto, amenizadas pela força das conquistas.

Não surpreende o crescimento dos dois partidos que, historicamente, se coligam ao PT, como o PSB e o PCdoB. O PSB, sobretudo em Pernambuco, onde a liderança do governador Eduardo Campos fez a diferença, passou de 177 para 309 municípios. O PSB ganhou 132 novas prefeituras agora, consolidando-se como um partido médio com postos importantes em capitais e grandes cidades. O PCdoB saltou de 10 para 40, e foi protagonista nestas eleições municipais de 2008, venceu no primeiro turno em Aracaju, disputa o segundo em São Luis, venceu em Olinda pela terceira eleição consecutiva, chegou em terceiro - ameaçando os fortes PT e PMDB - em Porto Alegre, desequilibrou a disputa em Belo Horizonte.

Estes cenários partidários estavam, bem ou mal, previstos. Não há como compartilhar, porém, de duas análises que têm sido feitas desde a totalização dos votos, no domingo eleitoral: as de que Luiz Inácio Lula da Silva não transferiu votos aos seus candidatos preferidos, e a de que o PT não ampliou seus horizontes. Se Lula não conta, por que seus opositores evitam brigar e buscam alguma identificação com ele? Porque, claro, fazem campanha com base em pesquisas. Candidatos da oposição enalteceram o carro-chefe eleitoral de Lula, o Bolsa Família, falaram em PAC para os municípios, e se desculparam por críticas ao presidente. Qual a razão para renegar o passado?

Deixemos de lado a transferência indireta, traduzida, por exemplo, em confiança no candidato por ele apontado ou na redução da rejeição. As análises mostram que Lula acrescentou de 3% a 4% de prestígio e votos aos candidatos que apoiou. Ele não elegeu Luiz Marinho (São Bernardo do Campo) e Marta Suplicy (São Paulo) no primeiro turno, como não conseguiu levar a candidata do PT em Natal, Fátima Bezerra, ao segundo turno, para falar de três de seus mais ardentes desejos manifestados na campanha. Mas os próprios candidatos reconhecem que tiveram a votação que tiveram graças a Lula. Dilma Rousseff, realmente, não influiu e não transferiu, mas ela não foi à rua para isto. Fez campanha municipal para se mostrar, ser apoiada a pretexto de apoiar, e não se pode dizer que tenha sido inadequada.

É preciso redimensionar também a crítica ao desempenho do PT, até aqui. O partido evitou fixar metas para não se frustrar, como ocorreu em 2004, mas preparou meticulosamente sua estratégia, a começar da escolha de candidatos competitivos para as cidades mais importantes até a concessão da liderança na chapa a partido coligado que estivesse em melhor situação. Pode não ter obtido o número de prefeituras que esperava, mas passou das 413 obtidas em 2004 para 548 no primeiro turno de 2008. São 135 prefeitos a mais.

O partido vai se empenhar, com a ajuda de Lula, no segundo turno do chamado "cinturão vermelho", onde ainda estão em disputa as prefeituras de Mauá, São Bernardo, Santo André, Guarulhos, além da cidade de São Paulo. Pode até ser criada uma coordenação de campanha centralizada. Foi o melhor desempenho do PT em eleições municipais. Antes restrito a prefeituras "poucas e boas", como define um de seus analistas, de que são exemplos São Paulo, Porto Alegre e Fortaleza, agora conseguiu vitória em prefeituras "boas, médias e pequenas". O PT se espalhou, entrou pelo Brasil. E se vencer em São Paulo - entre todas, a empreitada de segundo turno mais difícil, tendo em vista a onda ascendente que leva Gilberto Kassab, do DEM, à liderança - será como um arremate importante deste desempenho.

O partido venceu em seis capitais no primeiro turno e consolidou algumas lideranças, novas estrelas que vêm se firmando na política por méritos próprios. Luizianne Lins, que foi eleita em 2004 prefeita de Fortaleza, contra a vontade de Lula, e reeleita agora sem Lula, desponta como um nome nacional do PT. Também demonstrou força Walter Pinheiro, o candidato do PT em Salvador, que insistiu na candidatura própria contra a aliança com o PMDB que tinha sido vitoriosa para derrotar o carlismo na disputa do governo do Estado. Chegou ao segundo turno derrotando o que restou do carlismo e contrariando o novo "painho" da Bahia, Geddel Vieira Lima, que substituiu um coronelato por outro, espalhando o seu PMDB pelo interior. O prefeito de Recife, João Paulo, é outra liderança consolidada que passa a ter projeção nacional ao eleger, em primeiro turno, um candidato em que só ele apostava. Está sub judice, é verdade, mas esta, no Brasil, é sempre outra história.

Há que se destacar, nesta releitura de resultados, o muito do desempenho do partido que foi produzido na raça da militância. A melhor máquina partidária de que se tem notícia, e assim continua sendo.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

Chega de onda

Marcos Coimbra
DEU NO ESTADO DE MINAS
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

A eleição de 2008 está sendo rigorosamente igual à de 2004, quando Lula não estava nem perto de ser a quase unanimidade nacional que as pesquisas atuais revelam

Abertas as urnas (expressão antiga, que não quer dizer mais nada hoje em dia), saímos das especulações e chegamos à realidade. Muita coisa some nessa hora, inclusive algumas que pareciam grandes verdades.

Uma das que não se fala mais é a tal “onda vermelha”, que muitos analistas afirmavam que teríamos nas eleições municipais deste ano. Se ainda lembrarmos do que se lia na imprensa há algumas semanas, era a hipótese de que Lula seria capaz de içar quem quer que fosse à vitória. Impulsionados por seus índices de popularidade, imaginavam, seus indicados, país afora, surfariam na preferência dos eleitores.

Muita gente acreditou nessa conversa, dentre os quais inúmeros candidatos, que chegaram a se estapear na disputa pela imagem do Presidente em suas campanhas. Não só eles, porém, pois políticos e comentaristas comungavam da mesma convicção.

Apurados os votos, se há uma coisa que os resultados não comprovam é que houve uma onda desse tipo. Ela nem chegou a ser uma marola.

Isso não quer dizer que muitos candidatos do PT não venceram, pois vimos que o partido cresceu no número de prefeituras conquistadas, dentre as quais as de muitas capitais e cidades médias. Desempenho que pode ficar maior agora no segundo turno, pois o PT tem condições de vencer em diversas capitais importantes.

A pergunta é em quais das ganhas e das por ganhar houve influência apreciável da popularidade de Lula. Foi uma hipotética “onda vermelha” que levou o PT a obter os resultados que alcançou?

Pensando nas capitais, a partir das quais se costuma fazer a contabilidade dos partidos vitoriosos e derrotados, a eleição de 2008 está sendo rigorosamente igual à de 2004, quando Lula não estava nem perto de ser a quase unanimidade nacional que as pesquisas atuais revelam.

Nas capitais, o PT só ganhou onde já estava no poder, o que sugere que foram as administrações dos prefeitos que os levaram à reeleição ou, como no caso do Recife, à continuidade. Isso independeu da maior ou menor presença de Lula.

Em Fortaleza, por exemplo, Lula sequer foi para prestigiar a campanha vitoriosa de sua companheira de partido. Indo ou não a Rio Branco, Porto Velho, Palmas ou Vitória, faria pouquíssima diferença. Desde o ano passado, eram prefeitos cuja reeleição era considerada favas contadas.

O mesmo vale para maioria das cidades médias onde houve vitória de candidatos do PT no primeiro turno. Nelas, os novos prefeitos petistas, ou vieram de reeleições ou tiveram que se virar sozinhos, pois poucos deles contaram com Lula em seus palanques.

E onde Lula se empenhou, às vezes até demais? O que aconteceu em Natal e Curitiba, por exemplo, em cujas campanhas Lula fez de tudo, desde comícios a gravações para a propaganda eleitoral das candidatas de seu partido?

E o que aconteceu em São Paulo? Não era lá que Lula mais se comprometera com uma candidatura? Ou foi em São Bernardo, onde escalou um ministro para disputar a prefeitura e se envolveu até onde era possível? Em nenhuma das duas a eleição se resolveu domingo, sendo que Marta chegou atrás de Kassab.

Em si, a tese da “onda vermelha” foi apenas um desses factóides jornalísticos com os quais nos divertimos antes das eleições. Fala-se muito deles, mas não querem dizer nada.

Mas há nisso um aspecto a considerar. Se a “onda vermelha (ou lulista)” em 2010 for do tamanho que foi em 2008, é bom que Lula e o PT ponham suas barbas de molho na sucessão presidencial.


O cenário fosco do segundo turno


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Com a natural empolgação dos vitoriosos no primeiro turno e o contraste com o abatimento dos derrotados, não sobrou um palmo de serenidade na inundação de entrevistas, palpites e previsões da cobertura maciça das redes de televisão para o encaixe de uma análise, ainda que superficial, sobre o cenário fosco do segundo turno, espremido entre três semanas de articulação de alianças e de debates já anunciados por jornais, revistas e TVs.

Há muitas novidades a examinar na mudança da água para o champanhe do desmoralizante desperdício de tempo e dinheiro dos ridículos e milionários programas gratuitos de propaganda eleitoral no primeiro turno, especialmente de candidatos ao maná de uma vereança e o mano a mano entre os finalistas a prefeito em 29 cidades, para a decisão pelo voto de mais de 26 milhões de eleitores.

Com menos e mais qualificados candidatos, a propaganda na TV e no rádio será intensa e comprimida, com cada concorrente dispondo de dez minutos, em cada um dos dois programas diários. E cada candidato ganhará o mimo de mais 15 minutos diários para inserções de até um minuto na programação das emissoras.

Não é apenas no enxugamento de candidatos e o melhor nível dos que passaram pela peneira do voto que deve ser analisado o contraste que já se vislumbra na agitada corrida pelo voto.
Para o governo, do presidente Lula ao seu candidato ao mais desfavorecido dos municípios, a visão que se vai desenhando é turva, com manchas dos respingos da crise que esmurra a porta e pede passagem.

E o desempenho escapista e sinuoso do presidente abre furos no seu escudo de proteção e expõe o risco dos seus equívocos. Lula tentou afugentar a crise com a arrogância das suas afirmações categóricas. E que, com a cambalhota do mundo, rolam pelo tapete do ridículo. Ditas e repetidas à exaustão; com a impostação da soberba de que a crise dos Estados Unidos, que se espalhava pelos mercados mundiais, se chegasse ao Brasil seria quase imperceptível. Quando a imperceptível inchou, Lula subiu meio-tom na imodéstia, para admitir que se o tsunami "chegar aqui, vai ser uma marolinha".

Três semanas de campanha é um prazo curto para inverter a tendência de voto do eleitorado que fez a sua cabeça nos meses de envolvimento pela eleição que passa pela sua porta e mexe com a sua vida.

O segundo turno pega o carro em disparada de ladeira a baixo. Já há espaço para especular sobre as vantagens e desvantagens da presença do maior presidente, etc. e tal, com o fantasma da crise derrubando o preço nas feiras e mercados e reabrindo a discussão sobre o delírio de gastança do governo deslumbrado com os índices recordistas de popularidade, o perdulário do inchaço da burocracia com o maior ministério de todos os tempos, com pastas e secretarias que não resistem à cobrança sobre a sua eficiência.

A pavimentação da passarela para o desfile da eleição da ministra-candidata Dilma Rousseff para guardar a cadeira presidencial para a volta de Lula em 2014 ou 2018 terá que passar pelo enxugamento do PAC, para os ajustes impostos por uma crise que apenas começa com o pé no acelerador.

E se Lula baixar à Terra para um segundo de reflexão não necessita de melhor conselho do que a do eleitorado do Rio Grande do Norte, na dose dupla dos resultados de Natal e de Mossoró. Indignado com a atuação parlamentar do senador José Agripino Maia, líder da bancada do DEM, Lula ameaçou participar da campanha em Natal para derrotar o adversário, apoiando a candidatura de Fátima Bezerra, do PT. E cumpriu o prometido para cair da montaria. A prefeita eleita no primeiro turno, jornalista Micária de Sousa, do PV, legenda até aqui sem maior expressão no Estado, foi apoiada pelo senador José Agripino Maia.

Lições da vida que poucos aprendem.

Um país de todos


Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Em número total de prefeitos, o PMDB é o campeão eleitoral. Dados preliminares indicam 1.194 municípios sob o comando de peemedebistas em 2009. Conhecido mundialmente pela total falta de identidade e por ser um livro (ou ônibus) aberto a qualquer um, o PMDB conquistou 18,4 milhões de votos para prefeito. É o equivalente a 18,6% do total do país.Um recorde.

PT e PSDB se revezaram nas últimas três eleições (96, 00 e 04) como os campeões de voto. Nunca atingiram o percentual obtido pelos candidatos do PMDB.Parte do combustível para o crescimento do PMDB foi a infidelidade partidária em cidades pequenas.

Em 2004, a sigla elegeu 1.057 prefeitos. Depois de aderir por inteiro ao governo Lula, pulou para 1.212 cidades. Ou seja, o recorde da eleição de domingo já existia antes, sem um voto sequer.

A Bahia é emblemática acerca de como o PMDB faz política. É de lá o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima -peemedebista histórico, ex-quase cassado pela CPI dos Anões do Orçamento, ex-adorador de FHC e hoje pró-Lula desde criancinha. Em 2004, o PMDB era raquítico em solo baiano. Elegeu só 20 prefeitos. Geddel então converteu-se ao lulismo. A legenda inchou para 57 municípios governados na Boa Terra. Apurados os votos, saltou para 113.

Não há notícia de uma única nova proposta administrativa revolucionária vinda dos intelectuais do PMDB para conquistar tantos novos adeptos e votos. Como a sigla passou a exercer grande atração sobre prefeitos, o fato deve ser atribuído à extrema capacidade gerencial (sic) de peemedebistas como Geddel Vieira Lima. Seu talento teve espaço menos vistoso nos anos FHC. Lula percebeu. Deu a Geddel a liberdade merecida por um político assim num governo cujo slogan é "Brasil, um país de todos".

Começa a era da incerteza


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

MADRI - As falhas grosseiras que o mercado apresentou e as sucessivas intervenções dos governos levaram à suposição de que o liberalismo morreu ou está em coma e que o intervencionismo estatal está de volta com toda a força, certo?

Errado, escreve Daniel Innerarity, professor de filosofia da Universidade de Zaragoza, em artigo para o jornal "El País".

"Se estivéssemos ante o final do neoliberalismo e o retorno das certezas social-democratas, talvez nos sentíssemos mais aliviados, mas não teríamos entendido que o que se acaba é outra coisa: uma determinada concepção de nosso saber acerca da realidade social e de nossa capacidade de decidir sobre ela", escreve.

Conseqüência: "Agora, nos toca acostumarmo-nos à instabilidade e à incerteza, tanto no que diz respeito às predições dos economistas, ao comportamento do mercado ou ao exercício das lideranças políticas", acrescenta o filósofo.

Fecha com: "Nosso principal desafio é a governança do risco, que não é a renúncia a regulá-lo nem a ilusão de que poderíamos eliminá-lo completamente".

Desagradável, não é? Os seres humanos, com poucas exceções, preferimos as certezas, mesmo que sejam ilusórias. Os mercados ofereceram certezas absolutas, acompanhados pelo coro que lhes conferia características de semideuses ou de "Mestres do Universo", para remeter a Tom Wolfe e a sua "Fogueira das Vaidades".

Agora vem o papa Bento 16 e constata: "Vemos que, na queda dos grandes bancos, o dinheiro se desfaz e que todas essas coisas que parecem a única verdade são na realidade de segunda ordem". Sorte do papa (e dos crentes), para quem "só a palavra de Deus é uma realidade sólida".

Para todos os demais (e mesmo para os crentes que têm dinheiro nas Bolsas), resta administrar a instabilidade e a incerteza.

O bicho-papão


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Está em cartaz num pequeno cinema de Greenwich Village um documentário que tem tudo a ver com a onda de propaganda negativa que está dominando a campanha presidencial americana, faltando 28 dias para a eleição. O filme está sendo exibido em poucos cinemas pelos Estados Unidos, e em apenas uma sala em Nova York. A sessão a que assisti tinha apenas outros quatro pagantes. Trata-se de "O Bicho-papão, a história de Lee Atwater", um marqueteiro político ligado aos republicanos, a tal ponto que foi nomeado pelo então presidente George Bush pai, em agradecimento pelos serviços prestados, para presidir o Partido Republicano, a primeira vez que um não-parlamentar ocupou o cargo.

Nasceu com ele um estilo de fazer campanha política que continua marcando o Partido Republicano e que tem sido mais freqüente desde o último fim de semana. Atwater é o iniciador do uso permanente da propaganda negativa nas campanhas políticas e chamou a atenção pela primeira vez em termos nacionais quando, aos 29 anos, teve papel importante na indicação de Ronald Reagan como candidato oficial do Partido Republicano em 1980 e depois na concepção de sua campanha, que teve início propositalmente na Filadélfia, lugar onde em 1963 foram assassinados três militantes dos direitos civis.

Durante o governo Reagan, Atwater trabalhou na Casa Branca e teve papel importante durante o escândalo Irã-Contras, organizando as manobras de marketing para livrar o presidente das acusações. Foi nesse período que se aproximou do então vice-presidente George Bush pai, de quem depois seria o principal assessor.

O marqueteiro de Ronald Reagan, Ed Rollins, que o levara para trabalhar com ele, dá um longo depoimento no documentário, revelando as traições políticas de que foi vítima por parte de Lee Atwater.

Atwater foi o primeiro assessor político a fazer pesquisas induzidas, e instintivamente entendeu que poderia incutir medo nos eleitores, explorando seus sentimentos patrióticos e religiosos.

Na sua primeira campanha, em 1978, curiosamente no partido democrata na Carolina do Sul, ele ajudou a derrotar Max Heller, um popular prefeito de Greenville, dando a vitória a Don Sprouse - que fez uma campanha orientada por Atwater na qual acusava Heller de, por ser judeu, não acreditar "no nosso senhor Jesus Cristo".

Foi a campanha de George Bush pai em 1988 que trouxe de vez a fama para Lee Atwater, e o documentário mostra bem os caminhos da campanha, começando pelas primárias, onde o primeiro a ser atacado foi o senador Bob Dole, acusado em propagandas de ser "O Senador Indefinido", mostrando-o como um político inconsistente, que mudava de opinião a toda hora.

A tal ponto que, em um debate, perguntado pelo moderador Tom Brokaw se tinha algo a dizer a seu adversário, respondeu rispidamente: "Pare de mentir a respeito de minha história".

A campanha negativa marcou a marcha de George Bush para a Casa Branca, e a propaganda até hoje lembrada como uma das mais sujas da história política americana foi a sobre o prisioneiro Willie Horton, que saiu da cadeia dentro de um programa social implantado no estado pelo governador Michael Dukakis, estuprou e matou novamente.

O candidato democrata, que tinha uma ampla vantagem, acabou sendo batido por Bush. O programa social tão criticado por Bush havia sido implantado pela primeira vez na Califórnia pelo então governador Ronald Reagan, mas os democratas não souberam responder ao ataque.

Durante essa campanha, Atwater ficou amigo da família Bush, especialmente do filho George W. Bush, e foi dele a idéia de fazê-lo candidato ao governo da Flórida. Lee Atwater foi apanhado no auge de sua carreira de glórias e poder por um câncer no cérebro, e morreu aos 40 anos, em 1991, ainda no cargo de presidente nacional dos republicanos.

Poucos meses antes de morrer, Atwater enviou cartas, escreveu artigos e deu depoimentos de arrependimento pelo que fizera durante sua atividade política. "Só agora aprendi mais, com minha doença, sobre a natureza humana, o amor, a fraternidade e coisas que não entendia e provavelmente nunca iria entender. Desse ponto de vista, há um pouco de verdade e coisas boas em tudo", escreveu ao senador Turnipseed, a quem ajudara a derrotar espalhando a história de que, na juventude, passara por tratamento psiquiátrico à base de eletrochoques.

Pediu desculpas também a Mike Dukakis pela "crueldade" de algumas declarações, como a de que "arrancaria a carcaça" do "bastardo".

No documentário, há um depoimento de um amigo pessoal de Atwater que tem uma visão dele completamente idealizada. Ele garante que se Lee Atwater estivesse vivo, Bill Clinton não teria vencido a eleição contra George Bush. De fato, segundo o documentário, Atwater foi o primeiro a identificar em Clinton um rival na sucessão, e defendia que era preciso fazer tudo para impedi-lo de concorrer.

Conhecido como "o Dart Wader" da política, Lee Atwater marcou para sempre as campanhas políticas americanas, especialmente do Partido Republicano. Deixou um discípulo até hoje poderoso dentro do partido, o marqueteiro Karl Rove, que atuou nas campanhas de George W. Bush em 2000 e 2004 e até hoje é muito ouvido pela campanha de McCain.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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terça-feira, 7 de outubro de 2008

Lula e a crise

Se houvesse uma lei sobre “decoro de cargo público” Lula seria o primeiro réu. É um craque em inventar, mentir. Só falta inventar que foi ele quem criou a figura de Deus. Bom, ele é pernambucano, daquela tradição gabolice que afirma, com toda a certeza, que o oceano Atlântico é criação do Rio Capibaribe, o maior Rio do Estado.

Todos os dias inventa algo. Cria adversários fictícios, falsos e na seqüência passa a combatê-los.

Esta manhã, aqui no Rio, repetiu a dose. Raivoso, ou representando um ator em peça de teatro, afirmou que tem muita gente torcendo para que a crise globalizada atinja o país. E afirmou que o Brasil é outro, muito melhor, muito mais forte. Mas, esqueceu de informar ao distinto público que as medidas tomadas lá atrás, como o Proer, ele próprio acusou de neoliberalismo.

Só Lula e mais ninguém ouviu e leu declarações de opositores ou críticos de seu governo falando ou escrevendo essas bobagens.

Muito pelo contrário. É do próprio governo que vem os alertas da crise. Ontem mesmo, o Ministro da Fazenda e o Presidente do Banco Central convocaram a imprensa para acalmar os empresários e banqueiros. Eles declararam que essa crise é pior e mais duradoura que aquela de 1929. E como se conhece, aquela atingiu o Brasil. E, mais, anunciaram providêcias que foram sacramentas em medida provisória.

O que não pode são os responsáveis pela política econômica falarem uma coisa e o Presidente andar falando tolices nas suas apresentações teatrais.

Só os visionários enxergam o óbvio


Arnaldo Jabor
DEU EM O GLOBO


Pego o avião e vou ao Rio votar. Lá embaixo, a cidade se amontoa em milhares de casebres como uma grande inflamação cor-de-tijolo subindo nos morros - uma casca de feiúra e tristeza encurralando a beleza natural do mar e o desenho sensual das montanhas. Lá está o verdadeiro Rio, a metástase crescente de um câncer original de descaso, anomalias populistas e economia precária, fragilizada depois do fim do Estado da Guanabara. Penso: "Não tem solução... Que adianta votar em alguém diante desse labirinto?" Quem vai dar jeito nisso? - pergunta a manchete do O Globo. Sei lá - a cidade está emperrada desde a teimosia da honrada burrice do Geisel, que disse na época: "Não consultei ninguém para acabar com o Est. da Guanabara; eu sabia que era bom." Pois não era, general. O senhor quebrou o Rio e nos fez engolir os vícios do atraso fluminense.

Militares têm a arrogância, o prazer sádico de fazer aquilo de que todos discordam. Assim, destruíram o Palácio Monroe por nada, criaram o imundo minhocão sobre o Centro Histórico do Rio na Praça 15, acabaram com as cachoeiras das Sete Quedas sem avisar ninguém, puseram as usinas nucleares poluentes e perigosas no paraíso de Angra dos Reis. Por isso, olhava o Rio lá embaixo com amargo desgosto.

Só que, a meu lado no avião, ia o economista Paulo Rabello de Castro, diretor do Instituto Atlântico, mais dedicado à busca de soluções do que à angústia dos problemas. Paulo tem fama de visionário para uns e de pragmático para outros. Eu o considero um mix: visionário do pragmatismo. Ensaio com ele um papo desesperançado de carioca típico, mas Paulo revida e dispara várias idéias animadoras, arquejante de fé, anulando meu sorriso desiludido que tanto nos consola, justificando a depressão e o chope. Paulo é rápido e inteligente e fala em possibilidades para o Rio.

"O Rio tem saídas múltiplas - anuncia Paulo, de dedo em riste, comendo o triste, escasso biscoito de goiabinha que a Gol oferece (será que o Nonô Constantino planta goiabais?) - "o Rio pode brilhar de novo..." E, pálido de esperança, me desfia soluções.

Seu programa (imaginário ou realista?) seria uma legislação especial que desse conta do vazio deixado pelo sumiço do Estado da Guanabara, talvez a criação aqui de uma Zona Franca Financeira, algo como Hong Kong. Nas favelas e outras periferias de "invasão", a viabilização de títulos de propriedade aos moradores mudaria a mentalidade das favelas, com os novos e inúmeros proprietários que, defendendo seus bens, se sentindo mais cidadãos, resistiriam melhor a milícias e tráficos. O Rio já é por vocação, vide TV Globo e pólos de cinema, um centro de produção de arte e cultura, de entretenimento, design, moda. Por que não investir fortemente nesse vértice? Nos fundos da cidade, em remotos subúrbios, poderia haver a criação de ZPEs (Zonas de Processamento de Exportação). Com mão-de-obra abundante, isso possibilitaria condições reais de emprego e desenvolvimento. E a cidade da beleza, com o turismo imensamente incrementado?

Quando Paulo falava, me bateu a certeza inapelável: o verdadeiro visionário enxerga o óbvio que ninguém vê. No caso do Rio e em (outros municípios) nosso labirinto "corrupto-burocrático-indolente-incompetente-paralítico" é tão impenetrável, que a melhor maneira de combatê-lo seria acoplar fatos e obras novas, inéditas, não testadas que reajam contra o sistema velho, criando oposições, alternativas e corroendo velhos hábitos. Uma ZPE nos fundos do Rio pode mudar uma região, econômica, cultural e psicologicamente. Só as coisas podem mudar as coisas.

Em São Paulo, por exemplo, Kassab fez o óbvio: sem ranços ideológicos, teve imaginação, limpou a cidade, civilizou centros decadentes e marginais. No Rio, se Gabeira for eleito, poderá colocar sua vivência de aventura e luta numa administração imaginosa, original, até em experiências público-privadas como foi o Museu do Futebol em SP.

Mas nada que seja parecido com os factóides catastróficos do ex-prefeito atual blogueiro César Maia, que inviabilizou o projeto viário de Lúcio Costa para a Barra através do monstrengo da Cidade da Música, um transatlântico encalhado nos cruzamentos, além do custo astronômico, como apontou o especialista Hugo Hamann, outro dia em O Globo.

Nessa nova fase política para o Rio, S.Paulo, Belo Horizonte, não dá mais para engolir os teóricos do impossível, os analistas críticos do labirinto sem solução. Um pensamento puramente quantitativo, lógico, não dá em nada, como os famosos apelos ao bom senso dos abraços na Lagoa de camisa branca. Não há como resolver por dentro a paralisia. Como limpar a banda podre da polícia? Como transformar a Câmara Municipal em templo de honestidade, como desburocratizar a cidade, como desfazer favelas e tráfico, como resolver a segurança? Quem faria essa grande mudança? Onde haverá tão gigantesca e utópica vontade política, onde arranjar os bilhões e os longos anos de reformas? Quem faria? Um superprefeito com superpoderes, um exército de burocratas arrependidos, uma súbita câmara de vereadores purificados, faxineiros do bem, pelotões de generosos e solidários, uma revolução? Não adianta. Não dá mais pé vermos de um lado os práticos homens do mal, dentro e fora da política, roubando e impedindo o progresso e, do outro lado, os desesperançados teóricos da análise crítica lamentando impossibilidades.

Agora que parece que o Rio de Janeiro vai se livrar de décadas de populistas e mentirosos, pode ser que entremos em nova era política e administrativa. As prefeituras têm de ser o lugar de experimentos imaginosos. Em vez de serem chocadeiras para deputados federais e senadores, as prefeituras têm de ser as células descentralizadas do "novo", centros de experimentação de soluções maiores, células sim que podem regenerar as atrofias do Sistema maior.

Essas coisas graves me surgiram enquanto Paulo falava com seu biscoito de goiabinha e me seguiram até a hora em que votei na maquininha democrática.


O fundamentalismo do século XIX

Matéria publicada hoje pelo jornal O Globo, afirma: ”Cabral e Paes articulam bloco de esquerda”. A pergunta é simples. Qual esquerda? A do século XIX? Aí, decretam: quem não estiver fotografando a bunda da história não é de esquerda. Quem não segue a cartilha do populismo, não é de esquerda. E a cartilha tem regras, mandamentos. E o catecismo da esquerda albanesa, stalinista, diz como é ser de esquerda.

A cartilha diz que só é de esquerda quem exalta o líder carismático; usa e abusa da palavra, se apropria dela; quem fabrica a verdade; quem usa de modo discricionário os recursos públicos; quem não tem paciência com as sutilezas da economia e das finanças; quem divide diretamente, via Estado a riqueza; quem alimenta o ódio entre ricos e pobres; quem mobiliza permanentemente, via Estado, os grupos sociais. quem apela, organiza, inflama os pobres; quem procura sistematicamente um "inimigo externo"; quem despreza a ordem legal; quem mina, domina e, em última instância, domestica ou cancela as instituições da democracia; quem abomina os limites a seu poder.

A massa manobra


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Ao fim de cada eleição, quatro questões de imediato se impõem no cenário do dia seguinte: o grau de acerto das pesquisas, o balanço de perdedores e ganhadores, o efeito do resultado presente sobre o pleito seguinte e o chamado recado das urnas.

Antes de conhecidos os resultados do primeiro turno dessas municipais as quatro perguntas de sempre já mobilizavam o mundo político que, evidentemente, fornece as respostas de modo a compatibilizá-las com o interesse dos respectivos grupos.

Desta vez, porém, no primeiro momento houve um inusitado consenso a respeito da derrota de uma tese: a da transferência automática de votos do político popular para seus candidatos, quaisquer que sejam eles, independentemente de seus atributos pessoais.

O prejuízo, claro, foi maior para quem alimentou com mais vigor a teoria, superestimou o tamanho das próprias pernas e ousou passos além de suas possibilidades. Assim, o presidente Luiz Inácio da Silva e o governador de Minas, Aécio Neves, conseguiram construir para si fracassos desnecessários. E até inexistentes do ponto de vista objetivo.

Não tivessem inflado a expectativa dos próprios poderes, não estariam hoje ambos encabeçando o rol dos perdedores.

Tanto fomentaram o mito, que acabaram vítimas, ao inverso, da profecia que cumpre a si mesma.

O presidente Lula celebrou sua capacidade de influência sobre a cabeça do eleitor por toda parte e baixou a guarda: pregou a vitória de Marta Suplicy no primeiro turno, jogou-se de cabeça, tronco e membros na eleição de Luiz Marinho, desfilou de peito aberto em Natal tentando alterar uma preferência inalterável do adversário, não organizou sua enorme "base" partidária, preferiu confiar no improviso da intuição, na força da popularidade e, com isso, em alguns lugares transformou vitórias em derrotas.

O Rio, por exemplo. O candidato de seu fidelíssimo aliado, o governador Sérgio Cabral, chegou na frente, mas o presidente não pôde capitalizar o resultado. Tinha todos, em tese, ao seu lado, e marcadamente não teve ninguém: o PT ficou de fora, bem como Marcelo Crivella, presenteado até com obras do PAC.

Todo o carnaval feito em torno da história da transferência teve um péssimo efeito sobre a pré-candidatura da ministra Dilma Rousseff. Até agora escorada apenas na mitologia da transposição de votos, sua consistência balança junto com a teoria. E para quê? Por um prazer fortuito de ser visto como o tal.

Em Belo Horizonte deu-se quase igual. O candidato da aliança entre Aécio e Fernando Pimentel, do PT, passou para o segundo turno, mas pareceu ter perdido a eleição. Porque se imaginava que um governador com 86% de aprovação popular junto de um prefeito com 76% de avaliação positiva fossem capazes de eleger com louvor e glamour no primeiro turno até um poste da Avenida Afonso Pena.

E talvez fossem mesmo, se não tivessem tratado o eleitor como fava contada e desfilado com ares de majestades. O desempenho de Márcio Lacerda não abala a opinião do mineiro sobre Aécio e Pimentel.

Mas mostra que é preciso levar em conta o discernimento do público e não menosprezar a capacidade do adversário.

Se é para oferecer um prato feito, que seja no mínimo bem feito, preparado com requinte, a partir de ingredientes de qualidade e ótimo sabor.

Quando o produto não é escolhido com rigor, aumenta a chance de aparecer outro mais atraente e adeus fidelidade. Não há popularidade pessoal que sustente a transferência por si muito menos a qualquer custo.

No meio, há a vontade do eleitor, que pode não ser em sua maioria gente muito politizada nem bem informada, mas com toda certeza tem juízo suficiente para perceber quando está prestes a fazer o papel de massa de manobra.

Nesse caso, o perigo é a reação ao molde da esperteza: vira bicho e come o dono.

Números absolutos

Nesta, como em outras eleições, as pesquisas são postas sob suspeita por causa dos exemplos de resultados diferentes dos previstos. Desde que as consultas passaram a ser vistas como legítimos oráculos de Delfos, não há uma rodada em que não se conclua que os "institutos erraram feio".

Eles dão qualquer explicação técnica, "provam" por x mais y multiplicado por 26 ao quadrado que estava tudo previsto dentro da "margem de erro" e logo as pesquisas já recuperam seu lugar de parâmetro absoluto de medição e comportamento eleitorais.

Como eleição é resultado de expressão de vontade humana, evidentemente que os números em algum momento saem perdendo, mas esse tipo de nuance atrapalha a simplificação do raciocínio e, portanto, fica mais fácil se revoltar contra os porcentuais.

Deixemos assim. Pelo menos até que se resolva discutir o assunto sob a ótica levantada pelo candidato do PV à Prefeitura do Rio, Fernando Gabeira, e questionar a ética dos institutos que prestam serviços também a partidos e não dão publicidade ao fato.

Um pássaro voando...


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - A dupla Serra-Kassab surpreendeu para mais. Kassab passou a campanha toda atrás de Marta Suplicy nas pesquisas e passou a apuração inteira dos votos à frente, chegando em primeiro com um ponto de diferença.

Já o trio Aécio-Fernando Pimentel-Márcio Lacerda surpreendeu para menos. A expectativa de uma aliança entre governador e prefeito, entre PSDB e PT, era de vitória em primeiro turno, mas Lacerda, do PSB, não só ficou para o segundo como levou um suadouro de Leonardo Quintão, do PMDB.

O Planalto, a esta altura, mira muito mais em Serra do que em Aécio como inimigo em 2010, mas é difícil imaginar que Lula e Serra vão se engalfinhar no segundo turno paulistano. Se o governador agora está livre de constrangimentos tucanos para apoiar abertamente Kassab, Lula não tem lá muitos motivos para saracotear no chamado "Triângulo das Bermudas": Rio, Belo Horizonte e São Paulo. Aliás, em lugar nenhum.

O primeiro turno mostrou que presidente não transfere voto em eleição municipal, na qual o grande eleitor é a reeleição. E há as dificuldades locais. No Rio, Eduardo Paes, do PMDB, e Fernando Gabeira, do PV, já fizeram duríssima oposição a Lula. Em BH, ele não tem nada a ver com a história, já que a aliança Aécio-Pimentel foi à revelia do PT. E, em São Paulo, Marta chegou ao segundo turno em condições adversas. Convém a Lula entrar nessa, que pode ser uma fria? No resto do país, há situações desconfortáveis, como Salvador e Porto Alegre, nas quais o PT disputa com o aliado PMDB. Apoio a um é encrenca na certa com o outro.

Lula, assim, deve viajar muito neste outubro... mas para bem longe do país. Na semana que vem, Espanha, Índia, Moçambique. Depois, quem sabe um Haiti daqui, uma Cuba dali?

Transferir votos é incerto, não sabido, e dividir derrotas não é com ele. Pernas e AeroLula, para que vos quero?

De eleições e tsunami


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

MADRI - Em tese, deveria escrever sobre o resultado das eleições municipais, especialmente a paulistana. Mas viajei domingo logo após votar, caí no meio de um vendaval financeiro sem paralelo desde que me lembro como jornalista (sim, nasci depois do "crash" de 1929) e a votação tornou-se quase irrelevante, na comparação.

Além disso, o resultado só reforçou uma observação feita no domingo: a capacidade de o presidente Lula transferir maciçamente votos para seus candidatos é menor do que parecia. Pelo menos o foi em São Paulo. Por isso, a candidatura Dilma Rousseff para 2010 poderá eventualmente ser repensada, como, aliás, disse ao site Congresso em Foco o cientista político Alexandre Barros, da consultoria Early Warning. "O resultado da Marta mostra que, pelo menos por enquanto, a transferência de votos não é tão fácil como o presidente imaginou", argumenta.

De todo modo, a eleição foi um fenômeno de continuísmo acima de tudo: dos 79 maiores colégios eleitorais, 50 definiram o pleito no primeiro turno, e os reeleitos foram 36 (ou 72%).Suspeito até que falar em partidos que ganharam ou perderam mais tampouco parece relevante.

Do meu ponto de vista, a eleição consagra de uma vez o personalismo, que já era forte na política brasileira. Aliás, é fenômeno mundial.

Bom, acabei falando mais do que deveria sobre as eleições. Sei, pelas contas do "Painel do Leitor" e do ombudsman, que é assunto que comove muito mais que a crise global.

Não deveria. Está se formando um tsunami financeiro capaz de repetir o fenômeno natural: ninguém falava dele até que chegou e varreu tudo o que encontrou pelo caminho.

Cada vez mais se fala em recessão global, não apenas desaceleração.

Como somos periféricos, não há de fato muito o que fazer. Informar-se é o mínimo. Gente distraída costuma apanhar mais.

Eleição derruba alguns mitos


Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO


A eleição de domingo teve o mérito de derrubar mitos e devolver à humildade alguns políticos de boa cepa, se é que algum dia eles a tiveram. O maior dos mitos é o da presumida infalibilidade do apoio de um presidente popular, como há muito não se via, como é o caso de Luiz Inácio Lula da Silva. Outro, o de que é possível eleger o "poste", sem antes se combinar muito bem com o eleitorado.

O caso de Minas Gerais é exemplar. Um prefeito, Fernando Pimentel, e um governador, Aécio Neves, no pico da popularidade tiveram de engolir um segundo turno que não estava nos planos de nenhum dos dois. É como se o eleitor dissesse que a nomeação de prefeitos indiretos acabou em meados dos anos 1980, e desde então é o contribuinte quem decide quem governa.

O precedente também não bom, como demonstra o melhor exemplo de "poste" eleito no país - ele mesmo, Celso Pitta, o candidato que Paulo Maluf tirou do colete direto para a Prefeitura de São Paulo, em 1996. "Votem no Pitta, e se o Pitta não for um bom prefeito nunca mais votem em mim." São Paulo votou e se arrependeu para nunca mais. Padrinho e afilhado acabaram em celas da Polícia Federal.

Tem razão o governador da Bahia, Jaques Wagner, quando diz que ninguém elege "poste", se o candidato não tem sinergia com o eleitorado. É o que diz o ministro pemedebista Hélio Costa (Comunicações) sobre Márcio Lacerda, o candidato de Aécio e Pimentel para Belo Horizonte, "um estranho na política", que já teria apresentado tudo o que tem para apresentar na campanha de primeiro turno: o prefeito e o governador.

Maldade de Hélio Costa, é claro. Lacerda ainda pode ser eleito no segundo turno. Quem talvez mais se aproxime de uma explicação razoável para o que acontecer em Belo Horizonte é o assessor para assuntos internacionais de Lula, Marco Aurélio Garcia. Para o "caubói", como MAG é chamado por alguns amigos do PT, o acordo mineiro foi um mau acordo desde que Aécio e Pimentel não fizeram o dever de casa e consultaram outras forças políticas de Minas envolvidas com o assunto.

Neste caso estariam não só os dois ministros do PT, Luiz Dulci (Secretaria Geral) e Patrus Ananias (Desenvolvimento Social), como o próprio Hélio Costa e o vice-presidente da República, José Alencar. A palavra que Marco Aurélio não pronuncia é "arrogância", mas é isso o que todos pensam em relação à escolha de Aécio e Pimentel, uma aliança que poderia levar a política nacional a um novo desenho. A torcida contrária era grande e Pimentel ainda terá de se ver com o PT, mesmo se Márcio Lacerda vencer a eleição no segundo turno.

Um parêntesis: há sérias dúvidas se esse desenho transcenderia as divisas de Minas ou que teria vida longa no próprio Estado. Pimentel acredita firmemente que Lula vai eleger presidente a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), pretende apoiar firmemente a aposta de Lula e receber dele apoio para suceder Aécio Neves no governo. Tanto que espera ir para um ministério (Turismo), cargo que lhe permitiria melhorar sua imagem no interior. É por isso que, nos bastidores, demonstra irritação com a candidatura de Aécio a presidente. Acha que é para atrapalhá-lo.

A crença de Pimentel na eleição de Dilma, a partir da popularidade de Lula, é difundida não só no PT, mas também na oposição. Essa crença sofreu um abalo na eleição de domingo. Aliás, o próprio Palácio do Planalto, na avaliação que fez das eleições, concluiu que o apoio do presidente ajuda, mas por si só não basta para eleger alguém - o eleitor não é cego, já percebeu alguns erros passados (caso Pitta, por exemplo) e quer saber é quem está efetivamente preparado para administrar.

Não bastaria o candidato ter um bom padrinho e falar em "choque de gestão". O eleitor pode até pensar que será eletrocutado. Em Belo Horizonte, avalia-se no Planalto que o candidato da dupla Aécio e Pimentel pode até se sair bem na campanha do segundo turno, agora que levou um choque de humildade e terá dez minutos no horário gratuito para se apresentar, além dos debates, para convencer o eleitor de que será um bom gestor da cidade. Quanto a Lula, o Planalto não crê que o presidente se saiu tão mal assim.

No caso de Natal (RN), onde a oposição acusa Lula de ter recorrido ao uso de força excessiva, afirma-se que a candidata do PT, Fátima Bezerra, talvez não passasse dos 10%, se não tivesse seu apoio (ganhou o DEM).

Já Luiz Marinho, candidato em São Bernardo do Campo, pelo qual Lula mais se empenhou nessas eleições, não ganhou por pouco, no primeiro turno. Não fosse o apoio do presidente, talvez nem tivesse chegado ao segundo, como passou a acontecer com o PT depois de 1988, quando venceu pela última vez na cidade que é o berço do partido. E local de moradia de Lula depois que ele deixar a Presidência.

Nos arredores do gabinete de Lula diz-se que não foi surpresa Gilberto Kassab ter passado para o segundo turno, na eleição de São Paulo, à frente da candidata do PT, Marta Suplicy. A surpresa das pessoas seria decorrente apenas do fato de as pesquisas de boca-de-urna terem apontado para um resultado diferente. A avaliação é que a eleição de 2008 foi a eleição da continuidade e nada mais natural que o prefeito, tendo uma gestão bem avaliada, chegasse bem no final do turno.

O erro maior teria sido da campanha da candidata do PT. Certa de que estaria no segundo turno, Marta deveria ter escolhido o adversário, que seria aquele que estabelecesse maior contraste com sua candidatura, e, ajudando-o no início, começar um trabalho de desconstrução do candidato.

Se houve essa escolha e o escolhido foi Kassab, isso não ocorreu, mas certamente ocorrerá no segundo turno. Lula fará depoimentos mais efetivos sobre a importância da vitória de Marta, deve viajar a São Paulo (há limitação de tempo), mas não se envolverá tanto a ponto que possa dar ao governador José Serra, no caso de vitória de Gilberto Kassab, o prazer de dizer que derrotou o presidente.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

Argentina neutraliza doença holandesa com retenções


Luiz Carlos Bresser-Pereira
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Depois da grande crise de 2001 e 2002, ninguém poderia prever que a Argentina cresceria a taxas elevadas que vem crescendo. Nos primeiros anos, a explicação encontrada foi a de que o país estava recuperando o nível de renda anterior por meio da utilização de capacidade ociosa. Na medida, porém, em que as altas taxas persistiram, argumentou-se que a explicação estava no aumento dos preços das commodities exportadas pelo país - explicação mais razoável mas insuficiente, já que o Brasil, que igualmente se beneficiara da melhoria das relações de intercâmbio, crescia a taxas muito menores.

Na verdade, o crescimento acelerado da economia argentina decorre da política macroeconômica em curso, que neutraliza a doença holandesa. Até hoje muitos se recusam a aceitar isso - os neoliberais no exterior porque não perdoam a Argentina haver logrado uma redução de sua dívida externa; um grande número de argentinos, porque os maus resultados econômicos dos últimos 60 anos os tornaram pessimistas. E a persistência de inflação em torno de 20% ao ano os anima. Mas o que a Argentina vem fazendo é muito semelhante ao que fazem as economias asiáticas novo-desenvolvimentistas que crescem aceleradamente no mundo: mantém o orçamento público equilibrado, a taxa média de juros em nível moderado e a taxa de câmbio, competitiva.

Deste tripé macroeconômico, a política mais difícil é a de manter a taxa de câmbio em um nível de verdadeiro equilíbrio, ou seja, em um nível que torne competitivas as indústrias locais que utilizem a tecnologia mais avançada existente no mundo. Manter a taxa de câmbio nesse nível é difícil porque nos países em desenvolvimento existe uma tendência à sobreapreciação da taxa de câmbio que decorre do populismo cambial interno, de duas recomendações vindas do Norte (que o país cresça com poupança externa e que combata a inflação usando o câmbio) e da doença holandesa. Apreciar a taxa de câmbio é prática populista clássica: com a depreciação, os preços dos bens comercializáveis caem, os salários reais aumentam e durante alguns anos o país vive um auge populista. É uma pratica que, de forma paradoxal, o FMI passou a apoiar a partir do início dos anos 90, ao adotar a política de crescimento com poupança externa. Além disso, como não interessa aos países ricos que países de renda média sejam competitivos internacionalmente, desconsideram a doença holandesa, e seus economistas neoliberais ensinam que "no longo prazo é impossível administrar a taxa de câmbio", não obstante essa tese venha sendo desmentida por quase todos os países que lograram crescer rapidamente.

A terceira causa da sobreapreciação da taxa de câmbio, a doença holandesa, merece uma explicação um pouco mais completa. Existe doença holandesa em um país quando recursos naturais abundantes e baratos geram "rendas ricardianas" que tornam a "taxa de câmbio de equilíbrio corrente" (a taxa que equilibra intertemporalmente a conta corrente) mais apreciada do que "taxa de câmbio de equilíbrio industrial" (a taxa que viabiliza indústrias utilizando tecnologia no estado-da-arte mundial). As rendas ricardianas decorrem dos diferenciais de produtividade dos recursos naturais que, tornando os produtos beneficiados por essas rendas mais baratos, são compatíveis economicamente com taxa de câmbio mais apreciada. A gravidade da doença holandesa varia de acordo com a diferença relativa entre essas duas taxas. Em um país produtor de petróleo no qual os custos de exploração ainda são baixos, essa doença pode ser gravíssima, impedindo qualquer outra indústria; já em um país como a Argentina, no qual a origem da doença é a fertilidade da terra, a gravidade da doença é menor e indústrias muito competitivas podem continuar a vender no mercado interno se contarem com modesta proteção tarifária (uma forma incompleta de neutralizar a doença holandesa). Além de variar de commodity para commodity exportada, a gravidade da doença varia também em função das mudanças do preço internacional da commodity: quando ele aumenta, ela se agrava; quando diminui, diminui sua gravidade e pode mesmo desaparecer.

A forma clássica de neutralizar a doença holandesa, ou seja, de transformar as rendas ricardianas em uma bênção, é o governo estabelecer um imposto ou uma retenção sobre as vendas e exportações do produto proporcional à gravidade da apreciação que causa. Uma retenção, portanto, diferente de produto para produto, e é variável de acordo com o preço internacional do produto. É exatamente isso que vem sendo feito com competência na Argentina. Se esse sistema for completado com a criação de um fundo de investimentos no exterior para impedir que os resultados do imposto sejam internalizados, melhor, porque deixará de haver pressão do lado da demanda sobre a taxa de câmbio. Mas mesmo que isto não ocorra (como é o caso da Argentina), a retenção garantirá, do lado da oferta, que o câmbio não se aprecie.

Este é talvez o mecanismo que os leigos (e muitos economistas) têm mais dificuldade de compreender. Suponhamos que haja apenas uma commodity causando doença holandesa, que a taxa de câmbio de equilíbrio industrial em um país seja de três unidades e a de equilíbrio corrente de duas unidades de moeda local (pesos, no caso argentino) por dólar. O efeito da retenção é deslocar a curva de oferta da commodity para cima. Uma retenção de 33% fará essa "mágica" que nada tem de mágica. Graças a ela, a exportação da commodity, que antes da retenção era viável para o produtor a uma taxa de duas unidades de moeda local, agora só é viável economicamente à taxa de equilíbrio industrial de três unidades por dólar. Assim, o produtor deixa de oferecer seu produto à taxa de câmbio anterior de duas unidades por dólar, que devido à retenção se tornou inviável para ele. Em conseqüência, a taxa de câmbio que, sem a retenção, seria de duas unidades por dólar (já que ela tende a ser definida pelo custo marginal mais baixo), permanece em três; a doença holandesa está neutralizada, já que não sobreaprecia a taxa de câmbio.

Nesse sistema, embora aparentemente seja o produtor de soja, ou de trigo, ou de carne que "paga" o imposto, na verdade quem o paga são os consumidores ou os cidadãos argentinos, porque o preço de todas as commodities fica mais caro. Mas eles o recuperam por meio da retenção: recuperam-no no curto prazo porque os recursos da retenção são receita de seu próprio Estado; mais do que, o recuperam no médio prazo, porque a indústria do país prospera, o país se desenvolve, o emprego, os salários e os lucros aumentam. Não é o produtor que paga, porque se todas as retenções fossem retiradas, a taxa de câmbio baixaria para duas unidades por dólar, e ele estaria pagando da mesma forma os mesmos 33% de retenção sob a forma de câmbio mais apreciado, ao mesmo tempo em que a economia do país, vítima da doença holandesa, deixaria de crescer, ou voltaria a crescer lentamente, além de ficar sujeita a crises crônicas de balanço de pagamentos.

Luiz Carlos Bresser-Pereira é professor emérito da Fundação Getúlio Vargas.

Na jugular


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. Com a subida de tom verificada na campanha presidencial a partir deste fim de semana, é previsível que o debate desta noite, na Universidade de Belmont, em Nashville, no Tennessee, seja mais agressivo do que o anterior. Os dois candidatos foram "na jugular" do adversário, na definição de um político. A agressividade com que os republicanos retomaram críticas e acusações que vêm sendo exploradas desde o início da campanha contra Barack Obama tem a ver com o crescimento nas pesquisas do candidato democrata desde que eclodiu a crise financeira em Wall Street. Do lado democrata, um filmete relembrando um escândalo financeiro ligado a John McCain está sendo espalhado pela internet.

Coube à candidata a vice Sarah Palin, uma espécie de franco-atiradora política, reiniciar os ataques explorando a relação passada de Obama com o ex-pastor radical reverendo Jeremiah Wright, ou com William Ayers, professor de Chicago que participou de um grupo terrorista nos anos 60 do século passado, na luta contra a guerra do Vietnã.

Obama e Ayers, anos depois, conheceram-se em Chicago trabalhando com comunidades carentes, mas Obama sempre repeliu os métodos usados por ele.

Palin disse que considerava perigoso um político que, por achar que os Estados Unidos precisam ser mudados, não se incomodava de se aproximar até de um terrorista. E que as relações dele com o pastor Wright "deveriam ser mais discutidas".

Ao mesmo tempo, uma propaganda oficial da campanha republicana diz que é "desonrosa" a declaração de Obama de que as tropas americanas "matam civis e queimam casas" no Afeganistão, e chama de "arriscado" apoiar um político "liberal" - que, nos Estados Unidos, significa ser de esquerda - que tem votado sempre contra o financiamento das tropas americanas.

Acontece que mesmo as análises menos favoráveis a Barack Obama, como a do marqueteiro Karl Rove em seu site, indicam que ele já pode até mesmo ter atingido o número mágico de 270 delegados no Colégio Eleitoral.

De acordo com as últimas pesquisas, Obama está liderando em estados cruciais como Ohio, onde historicamente os republicanos que são eleitos vencem; na Pensilvânia e Minnesota, dois estados em que John Kerry venceu e onde McCain está se empenhando para reverter o quadro.

Segundo o "New York Times", em nove estados em que Bush venceu a última eleição os democratas estão com chances de reverter o quadro: Colorado, Flórida, Indiana, Montana, Nevada, Novo México, Carolina do Norte, Ohio e Virginia.

A maior parte das mudanças está claramente relacionada à situação econômica, e as críticas que Obama tem feito às posições de McCain, ligando-o sempre que pode à gestão do governo Bush, têm surtido um efeito devastador na campanha republicana.

A reação agressiva que a campanha democrata teve foi também uma novidade, fazendo supor que Barack Obama possa ter uma atuação mais vibrante no debate de hoje à noite.

Já no fim de semana a campanha democrata enviou milhões de mensagens pela internet com um link para o site KeatingEcomics.com, onde está sendo exibido um filmete de 13 minutos, desde o meio-dia de ontem, relembrando o caso da Lincoln Savings & Loan Association, que quebrou devido a uma série de procedimentos irregulares em 1989.

A idéia é difundir a noção de que essa cruzada a favor da regulamentação do sistema financeiro não corresponde à atuação parlamentar do senador McCain.

A investigação do comitê de ética do Senado levou a que cinco senadores, entre eles McCain, fossem acusados de tentar interferir no processo aberto pelo Federal Home Loan Bank Board, sendo que McCain foi advertido, no início dos anos 1990, por ter agido "de maneira imprudente" no episódio, e outros senadores foram censurados publicamente.

Os senadores, que ficaram conhecidos como "os Keating Five" ("Os cinco de Keating") chegaram a ir a uma reunião em que a questão foi discutida com os investigadores, pressionando para que as investigações não prosseguissem, a ponto de um deles ter dito que eles não deveriam insistir, pois o caso seria encaminhado à Justiça.

No inquérito do comitê de ética, cujos trechos das audiências estão no filmete de campanha de Obama, os senadores são acusados de terem se vendido ao banqueiro.

O senador McCain, embora não tenha sido punido com rigor pelo Comitê, foi o único que recebeu diretamente vantagens do banqueiro, além, é claro, do financiamento de campanha que todos os outros também receberam.

McCain era amigo pessoal de Charles Keating, e usava sua casa nas Bahamas para passar férias, e se deslocava no avião privado do banqueiro. Além disso, sua mulher, Cindy, tinha sociedade com Keating em um shopping center. McCain foi obrigado pelo Senado a pagar as viagens de avião.

Com o ataque direto às posições de política econômica de seu adversário republicano, Obama quer mostrá-lo muito mais próximo da política do atual governo do que ele pretende, e o acusa de não ter aprendido as lições do episódio.

Por sua vez, revivendo as acusações de que Obama é um esquerdista ligado a radicais de diversos calibres, McCain e Palin exploram o único filão que parece lhes restar: incutir o medo entre os eleitores, num momento em que o país passa por uma crise financeira que está claramente atingindo a auto-estima da sociedade.

O que pensa a mídia

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1110&portal=

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Vereadores eleitos da frente Gabeira

A coligação que apoiou Gabeira elegeu os seguintes vereadores:

PSDB:
Lucinha 68.799 votos
Tereza Bergher 31.375 votos
Andréa Gouveia Viera 28213 votos
Luiz Antonio Guaraná 23.476 votos

PV:
Sirkis 47.729 votos
Aspásia 31.880 votos
Paulo Messina 5.201 votos

PPS:
Stepan Nercessian 50.532 votos
Paulo Pinheiro 20.936 votos

Gabeira atropela Crivella e vai ao 2º turno contra Paes


Chico Otavio e Luiz Ernesto Magalhães
DEU EM O GLOBO


Cariocas impõem derrota ao prefeito Cesar Maia, cuja candidata ficou em sexto lugar, e também a Crivella, que pela terceira vez não consegue sequer ir ao 2º turno

Ocarioca escolheu Eduardo Paes (PMDB) e Fernando Gabeira (PV) para disputar no segundo turno a prefeitura do Rio. O resultado, mais do que apontar os vitoriosos, representou a derrota de duas forças políticas da cidade: o grupo do prefeito Cesar Maia (DEM), que encerra um ciclo de 16 anos com o fracasso da candidatura de Solange Amaral, que ficou com um pífio sexto lugar, com menos de 4% do total de votos válidos; e o bispo-senador Marcelo Crivella (PRB), atropelado por Gabeira na reta final da campanha e, pela terceira vez, fora do segundo turno.

Com 99,99% das urnas apuradas, às 22h28m de ontem, o ex-deputado e ex-secretário estadual dos Esportes do Rio, Eduardo Paes, da coligação Unidos pelo Rio (PMDB-PP-PSL-PTB), recebeu 1.049.010 votos (31,98% do total). O deputado federal Fernando Gabeira, da Frente Carioca (PV-PSDB-PPS), obteve 839.990 (25,61%). Crivella, que passou boa parte da campanha liderando a disputa, terminou em terceiro, com 625.220 (19,06%), seguido de Jandira Feghali, com 321.005 (9,79%); Alessandro Molon, com 162.926 (4,97%); e Solange Amaral, com 128.591 (3,92%).

Paes chega ao segundo turno com um discurso voltado para as áreas mais carentes do município e destacando a importância da união entre município, estado e governo federal. O carro-chefe da campanha do peemedebista foi a ampliação da rede das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) na cidade. Já a defesa da ética na política marcou a campanha de Gabeira, que diz ter tomado cuidado para não sujar a cidade. Ele também defendeu o enfrentamento da violência, como prefeito, principalmente nas áreas mais pobres.

O equilíbrio na briga, já demonstrado no primeiro turno, deverá fazer das alianças um fator decisivo para os dois candidatos. De olho nas eleições presidenciais de 2010 e na briga por manter a prefeitura de São Paulo, o DEM do prefeito Cesar Maia deve fechar ainda hoje o apoio a Gabeira no segundo turno.

Mas Eduardo Paes terá uma ajuda decisiva na construção de suas alianças: o governador Sérgio Cabral (PMDB), cuja relação com o presidente Lula facilitará as negociações com os partidos da base aliada. Uma das maiores incógnitas é quem vai herdar o patrimônio de 19% dos votos dados a Crivella. Partidos como o PCdoB, de Jandira Feghali, deverão enfrentar o dilema de escolher entre um candidato aliado e outro identificado com a esquerda.

O prefeito Cesar Maia disse que amanhã serão publicados no Diário Oficial os nomes dos integrantes de uma equipe de transição. Ela será formada por técnicos da Controladoria Geral do Município, da Secretaria municipal de Fazenda e da Procuradoria. O objetivo é fornecer a Paes e Gabeira todas as informações solicitadas pelos candidatos.

Gabeira diz que Rio mudou para melhor

Alessandra Duarte e Fábio Vasconcellos
DEU EM O GLOBO


Candidato do PV comemora ida para segundo turno e afirma que apoios não estarão condicionados a cargos

O candidato Fernando Gabeira (PV) comemorou o resultado das urnas e atribuiu a chegada ao segundo turno à união de seus eleitores. Somente hoje, depois de ir ao cinema com as filhas, pretende discutir alianças para a próxima fase. Gabeira disse que primeiro vai analisar os resultados obtidos nas regiões da cidade, mas já sabe que terá que percorrer mais bairros da Zona Oeste. O candidato afirmou ainda que a busca por apoio não será para acrescentar letras à sua candidatura. Também reafirmou o compromisso de que não haverá trocas de apoio por cargos na prefeitura.

- O Rio está de parabéns. Fizemos uma campanha de alto nível, e o Rio apresenta uma possibilidade de mudança para melhor, o que é muito animador. O compromisso é ser um governo da sociedade. Está mantido o compromisso de não haver loteamento de cargos.

Gabeira acompanhou a apuração na produtora de TV da sua campanha, em Botafogo. Os cantores Paula Toller e Dado Vila-Lobos estiveram com ele, além da sua filha Maya. Assim que foi confirmado o resultado, aliados comemoraram o percentual de cerca de 53% dos votos que foram obtidos na Barra, região onde Eduardo Paes (PMDB) tem base eleitoral. O candidato disse que vai buscar os eleitores de esquerda.

- Existem os partidos de esquerda, com suas direções, e existem os eleitores de esquerda. Vou buscar os eleitores de esquerda. Acredito que o processo que vai se dar, no meu caso, não será uma busca para acrescentar letras à coligação. Vai ser uma busca de apoio na sociedade.

Sem temor de nacionalização

Tesoureiro da campanha, o ex-deputado Márcio Fortes atribuiu a passagem para o segundo turno aos compromissos assumidos por Gabeira. Fortes afirmou que não teme a nacionalização da campanha.

- Não tememos nada.

Fernando Gabeira chegou ontem às 8h, de Gabeirão - como chama o jipe da campanha -, para votar na Escola Municipal Pedro Ernesto, na Fonte da Saudade. De camisa social azul, calça jeans e tênis preto, e acompanhado do vice, Luiz Paulo Correa da Rocha, ele cumprimentou os eleitores na fila e aguardou a vez.

Ao chegar à seção onde sempre votou, Gabeira contou com a simpatia dos mesários, que lhe desejaram boa sorte e até um "rumo à vitória". Afirmando que não tem superstições, o candidato disse que dormiu bem, sete horas de sono. Sobre sua votação nas áreas pobres afirmou:

- A gente tem a idéia de que morador de áreas mais pobres é conservador, mas não é assim.

Após votar, Gabeira e as filhas, Tami e Maya, o vice e o deputado federal Otávio Leite (PSDB) rodaram a cidade. Foram mais de cem quilômetros: depois de Copacabana e Flamengo, cruzaram o Túnel Santa Bárbara rumo à Zona Norte, onde Luiz Paulo votou na Escola Municipal Londres, no Engenho de Dentro. Gabeira entrou com o vice e sentou-se para esperá-lo, sendo cercado por eleitores. Depois que fiscais questionaram sua presença "se não era eleitor dali", ele preferiu sair.

O Gabeirão passou ainda por vários bairros como Cascadura, Abolição, Pilares, Del Castilho, Jacaré e Mangueira. O périplo acabou no restaurante Forneria, na Lagoa, onde o grupo almoçou. Gabeira atribuiu a subida na reta final à "velha tradição carioca se deixar a decisão para as últimas semanas".

Campanha que remou contra a maré e virou onda

Chico Otavio
DEU EM O GLOBO

Sem imagem do presidente Lula e apelo popular, candidato ciclista é o fenômeno das eleições cariocas


Para chegar ao segundo turno das eleições cariocas, os candidatos seguiram estratégias parecidas, como um discurso de forte apelo popular e a vinculação da imagem à do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Só Fernando Gabeira, da frente PV-PSDB-PPS, preferiu outro caminho. Em nome de uma campanha limpa, evitou até espalhar a própria imagem em cartazes pela cidade. E é justamente ele, o candidato da bicicleta, que enxotou Severino Cavalcanti do Congresso Nacional, a surpresa que emerge das urnas.

Ontem, quando a pesquisa de boca-de-urna confirmava o fenômeno, cientistas políticos, marqueteiros e aliados procuraram explicá-lo.

A campanha começou centrada no discurso pela ética na política, com imagens de Gabeira enfrentando Severino no plenário da Câmara. Mas o candidato foi além. Soube cativar a empatia dos jovens, apostou na transparência (foi o primeiro a divulgar a lista parcial dos doadores), fez da campanha pela cidade limpa uma metáfora na defesa da ética e abandonou a cautela ao falar sobre a necessidade de conter o processo de favelização.

- Os eleitores viram que o apelo de barrar as favelas vinha pelo lado ecológico e não udenista, de que é preciso simplesmente conter - disse a cientista política Marly Motta, da Fundação Getulio Vargas.

O publicitário Lula Vieira, marqueteiro da campanha, disse que um dos méritos de Gabeira foi mostrar que um político honesto pode ser também um bom governante. E tudo isso sem uma estratégia de marketing:

- Os marqueteiros tiveram participação mínima. Gabeira é exatamente como se exibiu para o eleitor.

O ex-deputado tucano Márcio Fortes, um dos padrinhos da aliança com o PV, disse que a candidatura Gabeira foi a melhor opção para enfrentar o que chama de "cansaço da população" com a política tradicional:

- O que encantou foi o diferente. A população já não agüentava mais o mesmo. E ele correspondeu. Inventou um enredo, não sujar a cidade, e não teve medo de usar outros meios, como TV e internet, para se apresentar.

Identificado com o eleitorado da Zona Sul, o candidato procurou burilar a imagem para tentar ir além do Túnel Rebouças. O Gabeira que, nos anos 70, já usou tanga na Praia de Ipanema, apareceu agora de terno, sério e cercado da família no horário eleitoral. E, pelo resultado de ontem, conseguiu seduzir camadas mais populares da cidade.

- Gabeira já mostrou estar bem cotado junto à classe média e ao eleitor de centro-esquerda, que estava à procura do candidato ideal. Mas, no segundo turno, terá de fazer discurso para o povão - diz o cientista político Ricardo Ismael, da PU-Rio.