domingo, 12 de outubro de 2008

FRASE SELECIONADA

“O político em ação é um criador, um suscitador; mas não cria do nada, nem se move no vazio túrbido dos seus desejos e sonhos. Baseia-se na realidade fatual. Mas, o que é esta realidade fatual? É talvez algo de estático, ou não é antes uma relação de forças em continuo movimento e mudança de equilíbrio?”

(Gramsci – em Previsão e perspectiva - )

A derrota por trás da vitória


José de Souza Martins*
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO /ALIÁS

Expansão municipal do PT mostra que quem ganhou não foi o partido da luta, mas o do clientelismo

Num país em que os grandes partidos têm sua identidade anulada por um número excessivo de pequenos partidos sem perfil ideológico e sem projeto político, os resultados de eleições como a eleição municipal recente são, no geral, enganadores mesmo quando não são surpreendentes. Desde que o clientelismo cedeu lugar ao populismo na política brasileira, nosso processo político é dominado por grandes eleitores invisíveis, como é o caso da nossa cultura comunitária, e partidos ocultos, como é o caso das alianças de ocasião.

O Brasil é um país em que o partidário e o propriamente político nem sempre caminham juntos. Esse desencontro manifestou-se nestas eleições. Nessa perspectiva, é possível ver na expansão municipal do PT não a vitória do partido, mas sua derrota. Nas pequenas localidades de regiões pobres fracassou o PT da luta em favor do PT do poder e do neoclientelismo do Bolsa-Família.

Não é estranho que o petismo venha sendo engolido pelo lulismo, como não serão estranhos os efeitos a médio prazo dessa metamorfose que faz de um partido de esquerda um partido populista. A prática do PT no poder não o confirmou como partido de esquerda e suas estratégias políticas o mergulham numa cultura de desgaste e perda de identidade. O PT já não é um partido alternativo, como se propunha o PT dos primeiros tempos, simplesmente porque não pode ser alternativo a si mesmo.

Além disso, o carisma de Lula, que não é necessariamente medido pelos 80% de sua popularidade, começa a encontrar seu limite. O pessoal e direto envolvimento do presidente Luiz Inácio nas campanhas eleitorais dos candidatos petistas, em São Paulo e no ABC de seu domicílio e de sua origem política, não refletiu esse carisma. Não só porque carisma é intransferível, mas também porque no caso de Lula, excetuadas as regiões remotas do País, é ele considerado pessoa para se admirar, mas não necessariamente político para se obedecer e seguir. Lula pode, até mesmo, estar tirando votos dos candidatos de seu partido. Isso, provavelmente, aconteceu tanto em São Paulo quanto no ABC.

Nesse cenário, a derrota do PT é acachapante. Em São Bernardo, lançou como candidato a prefeito um ex-ministro apoiado pelo maior cabo eleitoral do país, o presidente da República. Ali, Lula e o PT, sem o pretenderem, transformaram a eleição municipal num plebiscito para julgar o governo da República. Ao não vencerem a eleição no primeiro turno, perderam muito mais que uma eleição municipal. O mesmo vale para São Paulo, em que o PT entrou com o suposto capital social de uma candidata que é ex-prefeita e ex-ministra e também teve como cabo eleitoral o próprio Luiz Inácio. A derrota foi imensa, sobretudo porque aqui o maior eleitor de São Paulo, que é o governador José Serra, não se envolveu diretamente na campanha nem do candidato de seu partido nem do candidato da aliança política em que se apóia.

O que se agrava com a insistência na retórica de que a candidata do PT é de esquerda e representa os pobres e o candidato do DEM é de direita e representa os ricos. O que não tem apoio no patrimônio declarado da candidata petista, de mais de R$ 10 milhões, o dobro do patrimônio do candidato do DEM. O PT, em São Paulo, tornou-se prisioneiro e vítima de um periferismo antipolítico. Isso vem desde a administração de Luiza Erundina. Duas prefeitas que foram prefeitas da periferia e em nenhum momento tiveram clareza sobre a complexidade política do que vem a ser o urbano, a cidade e a metrópole. O PT revelou que não tem um projeto de revolução urbana, que transforme profundamente as condições de vida da população da metrópole. No lado oposto, desde que José Serra assumiu a Prefeitura e desde que Kassab o substituiu, fica evidente que o PSDB tem um projeto nesse sentido, ainda que tímido, numa concepção moderna e culta de metrópole.

Enquanto os votos de Kassab predominam no núcleo interior do município, os votos de Marta se distribuem num círculo ao redor desse núcleo. Há uma dinâmica nessa espacialidade eleitoral que se revela no fato de que Kassab ganhou eleitores onde Marta teve maior votação há quatro anos. E Marta não cresce onde Kassab se firma. O que tem sentido na perspectiva social-democrática, à qual o DEM aderiu na conjuntura de um pacto político que regeu sua vitória no primeiro turno.

O grande problema do PSDB, porém, é que o partido não se proponha aberta e pedagogicamente como partido da social-democracia. Num momento em que o PT já não tem condições de dizer publicamente que é um partido socialista, essa timidez do PSDB diminui o impacto que poderia ter na política brasileira. Na mesma linha de raciocínio, eu diria que o PSDB subestima e mesmo desconhece um dos grandes eleitores da política brasileira, que é a cultura comunitária de extensa parcela da população votante. O PT se apoderou desse comunitarismo sem entendê-lo e o interpretou como lealdade cega e obediente, coisa que ele não é, menos ainda em face de candidatos ricos que se passam por pobres. O PSDB aliado com o DEM, no caso de São Paulo, também sem entender exatamente o que é esse comunitarismo, empenhou-se no entanto, justamente, em governar em nome de valores comunitários, em gestos concretos de amor à cidade, em medidas civilizadas como a entrega domiciliar, regularmente, de medicamentos para os que dele necessitam, na continuidade de obras como os CEUs em nome do bem comum, porque governar é continuar o que é bom e inovar em relação ao que não o é.

No conjunto, os resultados das eleições passaram longe da concepção de que no Brasil de hoje são elas reguladas pela retórica da luta de classes e dos antagonismos sociais. Ao contrário, tanto onde o PT foi vitorioso quanto onde foi derrotado, o eleitorado mostrou-se conservador no voto e, em casos como o de São Paulo, mostrou-se conciliatoriamente moderno nas aspirações. Os eleitores recusaram a concepção depreciativa e anticomunitária de que política é o bate-boca de porta de botequim.

*José de Souza Martins é professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP e autor, entre outros títulos, de A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34)

Maldição de Kondratieff


Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Quando a política não é suficiente para resolver o problema e o sistema entra em colapso, a solução é a lei dos mais fortes, ou seja, a “mão invisível” do mercado

Não acredito numa derrocada capitalista. Tenho meus motivos. Só houve duas crises gerais do capitalismo: a Grande Depressão de 1873-1893 e a Grande Depressão de 1929-1941. Na primeira, coube à Inglaterra liderar a recuperação da economia mundial; na segunda, foi a vez dos Estados Unidos. Em ambas, a saída resultou da intervenção do Estado. O mundo capitalista foi criado na dependência de um mercado internacional e sempre dependeu do comércio. Os estados nacionais surgiram dentro dessa lógica e as tensões entre eles, nos momentos de crise econômica, resultaram em duas guerras mundiais e centenas de conflitos armados. O pior numa crise como a atual seria a história se repetir dessa forma. De 1834 até hoje, os Estados Unidos passaram por 35 ciclos econômicos e crises, das quais sempre saíram mais fortes. Não acredito que ocorra diferente agora. A União Européia ou a China não reúnem condições para assumir a liderança.

Crise geral

A força propulsora da atividade capitalista é o lucro. Para serem competitivas, as empresas são obrigadas a aumentar a produtividade e conseguir menores custos unitários. O crescimento do capital fixo em relação ao produto (capitalização) é a condição para isso. A contrapartida é a taxa de lucro decrescente. Isso possibilita lucros maiores para uma empresa ou segmento tecnológico inovador, mas a taxa média de lucro do sistema declina progressivamente. A longo prazo, isso diminui a demanda por investimentos e aumenta a capacidade ociosa. Os governos entram em campo para evitar a recessão, mas chega uma hora que não conseguem mais. A estagnação vem para destruir os capitais mais fracos, provocar desemprego e arrochar salários. Decorre da própria forma de acumulação de capital, não pode ser evitada pela intervenção do Estado, por mais progressista que seja. Quando a política não é suficiente para resolver o problema e o sistema entra em colapso, a solução é a lei dos mais fortes, ou seja, a “mão invisível” do mercado. Se isso ocorrer na crise atual, teremos uma nova crise geral. Acho difícil. Mas vamos supor que isso ocorra: o mundo não vai acabar.

A melhor hipótese é outra: um longo ciclo econômico está se fechando. Dois economistas se dedicaram ao estudo desse assunto. O pioneiro foi o russo Nikolai Kondratieff, que durante 20 anos analisou indicadores econômicos da França, Inglaterra, Estados Unidos e Alemanha: preços, juros, salários, comércio, consumo de energia e crescimento demográfico. A cada 50 anos, concluiu, ocorre um ciclo econômico longo, cuja expansão é caracterizada por grandes investimentos em bens de capital, enquanto a retração decorre da depreciação dos ativos. A primeira onda teria durado de 1790 a 1844, a segunda de 1851 a 1890 e a terceira de 1896 a 1929. Inovações tecnológicas desempenharam papel crucial nesses ciclos.

Novo ciclo

Kondratieff pagou com a vida por suas idéias, que contrariavam as teses de Stálin sobre a produtividade do trabalho, o planejamento estatal centralizado e a crise geral do capitalismo. No Brasil, o único economista a utilizar a teoria dos ciclos longos de investimento de Kondratieff foi Inácio Rangel, que publicou o ensaio “Dualidade Básica da Economia Brasileira”em 1957. Na década de 80, em plena crise do petróleo, previu o esgotamento do modelo de “substituição de importações” e a necessidade de privatizações para resolver a crise de financiamento do setor público e retomar o crescimento. Estava certo.

O austríaco J. Schumpeter, professor de Havard, deu continuidade aos estudos de Kondratieff . Reiterou o papel das inovações tecnológicas na expansão capitalista e identificou um quarto ciclo longo. Começou com a petroquímica, o motor elétrico, a radiofonia, a televisão, a energia nuclear e a aviação comercial. Chegou aos satélites, à microeletrônica, à robótica, à fibra ótica e outras inovações que hoje fazem parte do nosso cotidiano, como internet. Sem elas, as bolsas do mundo não enlouqueceriam, não haveria tanta especulação com títulos no mercado futuro. A jogatina financeira em tempo real que está quebrando bancos e seguradores pelo mundo afora. E o Brasil não sofreria a inesperada desvalorização cambial não-declarada da semana passada.

Tanto Kondratieff como Schumpeter foram ridicularizados por seus “esquematismos”, mas a teoria dos ciclos longos está se confirmando. Parece uma praga do economista russo.

"Circuit breaker" planetário


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - O mundo está em pânico e sem saber o que fazer. Cada um fala uma coisa, e a idéia que parece mais sensata partiu justamente do mais insensato número 2 (só perde para Bush): o primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, sugeriu que as Bolsas de todo o mundo fechem não necessariamente para balanço, mas até que surja uma proposta consistente para enfrentar a maior crise mundial desde o "crash" de 1929.

Um "circuit breaker" planetário, estendendo para todas as Bolsas, simultaneamente, o instrumento acionado para interromper os pregões sempre que as quedas atingem um ponto insuportável.

A crise está exatamente assim: insuportável.Não é preciso ser um gênio da economia, nem de coisa nenhuma, para saber a esta altura que a crise não é apenas gravíssima, como imprevisível, fora de controle. Nem para saber que a pior reação é tentar minimizar as suas dimensões.

No Brasil, o tom dos analistas ainda é de otimismo, inclusive o do economista Gustavo Franco, presidente do BC no primeiro mandato de FHC. Mas, num canto da página, eles dizem que a crise é financeira e das grandes potências, não chegará ao mundo real e aos emergentes.

No outro canto, vêm as notícias sobre sólidas companhias como a Votorantim, a Sadia e a Aracruz, que tiveram perdas bilionárias provenientes de operações com câmbio. Se isso não chega ao mundo real, o que pode chegar?Um segundo contraste: nos EUA, Bush e os demais líderes descabelavam-se com a crise financeira; no Brasil, Lula caprichava no penteado para tirar fotos com aliados -ou "neo-aliados", como Eduardo Paes, no Rio-, enquanto se preparava para sumir no mundo.

Lula bateu em 80% de popularidade surfando nos cinco anos mais ensolarados e de maior crescimento do mundo, mas pega em dose única toda a intensidade das cinco crises internacionais da era FHC.

FHC não fez o sucessor. Ele fará?

Remoção de obstáculos


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Terminado o período de engalfinho nas eleições municipais, PT e PSDB vão se unir para investir no projeto de acabar com o instituto da reeleição, em vigor há pouco mais de 10 anos por obra dos tucanos que, ao chegarem à Presidência da República em 1994, acharam pouco um só mandato, usaram a maioria parlamentar para mudar a Constituição e conseguiram governar por oito anos.

Os argumentos da época - mandato muito curto, adaptação às regras de democracias mais avançadas e oportunidade do cidadão dobrar o tempo de governos bem avaliados - hoje foram substituídos por um genérico "não deu certo".

Isso, no caso dos tucanos adeptos da tese. O PT apresenta-se muito mais a cavaleiro nessa parceria marcada para entrar em atividade aos primeiros acordes do ano legislativo de 2009, porque na ocasião votou contra e agora basta invocar o desejo de restabelecer relações com a coerência.

Patrono assumido de qualquer uma das emendas que tramitam no Congresso propondo a revogação do direito à disputa por um segundo mandato consecutivo para presidentes, governadores e prefeitos, o governador de São Paulo, José Serra, tem o apoio explícito do presidente da Câmara, o petista Arlindo Chinaglia e, segundo consta, o aval implícito do presidente Luiz Inácio da Silva.

Lula não aborda o assunto publicamente, mas, de acordo com o governador de São Paulo, os dois já conversaram três ou quatro vezes sobre o assunto e chegaram a um entendimento comum de que a reeleição alimenta o uso da máquina administrativa, faz do governante um permanente candidato e desequilibra fortemente as disputas em favor do postulante à reeleição.

De fato, os números confirmam o crescimento do índice de reeleitos. Levantamento feito pela Confederação Nacional dos Municípios mostra que, em 2000 e 2004, 58% dos prefeitos foram reconduzidos aos cargos e agora o porcentual subiu para 66%.

Em tese, essa constatação serviria para consolidar o instituto da reeleição, entre outros motivos porque prefeitos e governadores não emprestariam seus apoios à mudança da Constituição para a volta do mandato único, mas de cinco anos.

Como há pesquisas indicando que a maioria (80%) da população apóia a chance de reeleger um governante e as lideranças políticas "de ponta" oficialmente haviam recuado da posição de acabar com a reeleição quando começou a circular a versão de que o presidente Lula tentaria um terceiro mandato, a história parecia enterrada.

O único que continuou defendendo a proposta foi José Serra, alegando a condição de contrário histórico, inclusive quando da aprovação para favorecer Fernando Henrique Cardoso.

Mas, nem bem terminou o primeiro turno da eleição municipal uma semana atrás, ficou patente que não falava sozinho. Do lado do PSDB o senador Álvaro Dias já se animou a levantar a bandeira e o presidente da Câmara declarou-se também favorável, acrescentando que a maioria das emendas em tramitação na Casa trata do fim da reeleição.

A idéia é escolher uma e dar prosseguimento ao debate.

Sobre as chances de prosperar é difícil fazer um prognóstico, porque não há consenso nos partidos e, além disso, existe no meio a realidade: como derrubar algo que favorece quem está no poder e, ainda por cima, conta com apoio popular?

Só existe uma maneira: os que almejam ou detêm o poder maior se engajarem na causa.

E o que os levaria a enfrentar uma batalha tão dura para desfazer o feito há tão pouco tempo, se poderiam investir na melhoria no lugar de apostar no fim do instrumento? Por que não obrigar o governante a sair do cargo na campanha ou reduzir a tolerância com o uso da máquina numa boa aliança com a Justiça Eleitoral?

Porque fala mais alto o interesse imediato daqueles que precisam produzir uma alternância de resultados. Em português mais claro: fazer andar mais depressa a fila de espera de pretendentes ao Palácio do Planalto.

Só nos lugares mais visíveis há três, não por coincidência todos do PSDB e do PT: José Serra, Aécio Neves e Luiz Inácio da Silva. Mantida a regra atual, o rodízio levaria 24 anos.

Alterada a norma para o mandato único de cinco anos, a rodada completa se faz em 15. Isso sem contar os imprevistos surgidos no percurso.

Trata-se, portanto, de criar um atalho, remover obstáculos para mais gente conseguir com mais rapidez acesso à rampa do Planalto, enquanto dispõem de patrimônio político para tal.

Lula, por exemplo. Uma coisa será a tentativa de volta cinco anos após deixar o poder; outra diferente, oito anos e o risco do surgimento de novas lideranças depois.

Claro que os porta-estandartes da bandeira repudiam interpretações desse jaez. Preferem a tese da melhoria institucional para o País, pois, da mesma forma como entrou no cenário em vistoso embrulho de avanço "republicano", a reeleição é vestida para sair em figurino de dourada pílula.

Quem apóia quem

Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
DEU NO ESTADO DE MINAS

Quando muitos candidatos se dizem apoiados pelas mesmas pessoas, os eleitores se confundem e ficam com o sentimento de que, no sistema político, tudo se mistura, tudo é a mesma coisa, reforçando a idéia de que partidos e alinhamentos nada querem dizer -->Nem bem recomeçou a campanha eleitoral, um dos assuntos que mais centralizaram as atenções no primeiro turno voltou a ocupar o discurso dos candidatos e o interesse da imprensa. Em muitas cidades onde o segundo turno está em andamento, ele chega a ser o eixo principal das discussões.

Trata-se do velho tema dos apoios, de quem está do lado de quem na eleição. Quando havia muitos candidatos em disputa, cada um insistia nas ligações que tinha com os políticos de prestigio na cidade, como modo de atrair a atenção do eleitor. Todos os principais candidatos a prefeito e muitos a vereador fizeram isso Brasil afora.

Os apoios mais cobiçados eram os de Lula e do governador do estado, salvo, é claro, dos impopulares. Para ter o direito de se proclamar “o candidato” de um ou outro, houve brigas que chegaram aos tribunais. Como raramente a questão veio a ser decidida neles, o que vimos foram dois, três, quatro candidatos dizendo, ao mesmo tempo, que eram eles os apoiados por um, outro ou ambos.

O segundo turno costuma resolver esse problema. Ao longo da eleição, acontece uma progressiva depuração das várias candidaturas com que começa o processo, culminando nos dois nomes que melhor expressam os lados principais da vida política local. Esquerda vs. direita, mudança vs. continuidade, polaridades como essas se expressam nitidamente nas duas candidaturas restantes.

É bom que seja assim. Quando muitos candidatos se dizem apoiados pelas mesmas pessoas, os eleitores se confundem e ficam com o sentimento de que, no sistema político, tudo se mistura, tudo é a mesma coisa, reforçando a idéia de que partidos e alinhamentos nada querem dizer.

Nestas eleições, existem lugares onde as coisas são claras. São Paulo é o melhor exemplo, com os dois lados tradicionais da política da cidade tendo, cada um, apenas um candidato ou candidata para representá-lo. É o que ocorre também em São Luís e algumas cidades médias, onde Lula e o governador do estado estão claramente com alguém, sendo que, às vezes, os dois apóiam o mesmo candidato, às vezes candidatos diferentes. Sobre isso, o eleitor não faz confusão.

Há lugares em que não há diferenças nas ligações e nos apoios nacionais dos candidatos, como em Salvador. João Henrique e Walter Pinheiro pertencem a partidos que estão na base do governo federal e integram grupos políticos que se representam no ministério de Lula. No plano estadual, porém, cada um tem seu lado. Lá, ninguém quer deixar os eleitores em dúvida.

O caso mais extraordinário destas eleições acontece em Belo Horizonte. Desde o começo, Lula deixou subentendido que apoiava Márcio Lacerda ou, pelo menos, que via com bons olhos sua candidatura. Aliás, foi com alguma atuação sua que a Executiva Nacional do PT acabou assimilando a aliança de Aécio e Pimentel em torno de Lacerda. Não podia, no entanto, ultrapassar esse ponto, pois candidatos de vários outros partidos que integram seu governo estavam na disputa. Todos podiam usar seu nome e se dizer próximos a ele sem querer confundir os eleitores, pois ele não tinha se manifestado em favor de nenhum. Lacerda e Leonardo Quintão fizeram isso legitimamente.

Mas e quanto ao apoio de Aécio Neves? O governador disse com todas as letras que apóia Márcio Lacerda e que o vê como o mais qualificado para ser o prefeito da cidade. Isso, normalmente, deveria bastar para esclarecer a questão.

Para Quintão, no entanto, é como se uma manifestação dessas não tivesse qualquer significado. Na sua propaganda eleitoral, nas declarações à imprensa durante o primeiro e agora no segundo turno, ele parece que não ouve ou não entende o governador. Toda vez que pode, afirma contar com o apoio de Aécio.

Parece que Quintão quer que os eleitores de Belo Horizonte se esqueçam de que há dois lados na eleição e que o dele não é o de Aécio.

Fisiologismo


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. A supremacia do PMDB no quadro partidário brasileiro, e a consolidação da força política governista no Nordeste, onde a decadência do antigo PFL deu lugar ao crescimento de PT, PSB e PDT, que duplicaram o número de municípios sob seus comandos na região - tendências confirmadas no primeiro turno das eleições municipais -, seriam sinais de que o fisiologismo estaria predominando no atual quadro político brasileiro?

O cientista político Fernando Lattman Weltman, da Fundação Getulio Vargas, tem uma visão bastante pragmática sobre o PMDB, que a ele parece "menos um caso de falta de identidade ou programa do que uma combinação muito específica de vantagens e desvantagens competitivas derivadas, ao mesmo tempo, de sua grande e relativamente sólida capilaridade em todo o território nacional, de par com a falta compreensível de lideranças nacionais incontestes na legenda".

Para Weltman, de tanto ser uma espécie de condomínio de grupos políticos locais, sem uma figura nacional que o unificasse, "o PMDB parece que aprendeu a extrair o máximo benefício de não poder fazer o presidente, mas ser necessário a qualquer um que por lá chegue. Como se costuma dizer: aprendeu a fazer limonada de seus limões".

Com sarcasmo, ele diz que, "se isso é ser fisiológico, então sou forçado a reconhecer que, além de válido, isso pode ser politicamente muito interessante".

Fernando Lattman Weltman diz que o fisiologismo é um tema "muito controverso e pouco claro". Deixando de lado a corrupção, que pode estar ligada ao fisiologismo, mas é tipificada como ilegal, Weltman procura uma definição de fisiologismo na política: É buscar o poder pragmaticamente? É não possuir identidade ideológica e/ou programática?

Para ele, "dependendo do modo como conceituamos o "fisiologismo", o PT, o PMDB e outros partidos se ajustam ou não à qualificação". Tanto o PT quanto o DEM e o PSDB se encaixam perfeitamente na definição de serem partidos que buscam o poder pragmaticamente, mas não na de falta de identidade ideológica.

Weltman diz que não parece claro que haja "uma oposição necessária entre pragmatismo e eficiência na competição eleitoral - coisas que talvez possam ser associadas a fisiologismo -, de um lado, e consistência ideológica e programática, de outro".

Ele lembra que, como já propuseram outros teóricos, "a ideologia de um partido pode ser muito importante justamente por diferenciar um partido ou candidato em relação a seus concorrentes em especial, quando não há grandes divergências sobre questões de fundo e os partidos se dirigem para o centro, ou em busca do eleitor-médio, majoritário".

Assim, diz ele, a mudança permanente de identidade "é perfeitamente natural no nosso quadro partidário - e alhures -, em especial para partidos com vocação de poder". Isto se daria por força, ao menos, de dois fatores "de grande plasticidade":

a) As características proporcionais e altamente competitivas do nosso sistema partidário - que facilitam o surgimento, o colapso e a mudança de status das siglas partidárias;

b) O dinamismo da nossa estrutura social, essa sim, em mutação permanente e acelerada em momentos de crescimento econômico, migrações internas e abertura para a globalização.

O sociólogo Hamilton Garcia, do Centro de Ciência do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense, acha que o novo perfil popular da classe média, "despolitizado e consumista, sem sombra de dúvida embala o PT na direção do populismo, além de amputar espaços sociais de seus oponentes à esquerda (PSOL) e à direita (PSDB), cujas inscrições populares têm as marcas, respectivamente, do vanguardismo e do elitismo".

Paulo Roberto Figueiredo, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, por sua vez, crê que os dados do primeiro turno reforçam sua tese de que "há um descolamento entre o "lulismo" e o "petismo", dada a postura personalista de Lula, que talvez impeça uma maior institucionalização do petismo como força partidária ideológica, independentemente do carisma do presidente".

Ele ressalta que muitas pesquisas apontam queda da identificação partidária do PT. Para ele, a nova classe média que nasceu nos últimos anos no país, fruto da distribuição de renda através de programas sociais e aumentos reais do salário, "talvez seja muito mais "lulista" que petista - o que é um problema grave para o partido, dado que ele perdeu parte de suas tradicionais bases nas grandes cidades", lembrando que o PT não governa hoje nenhum estado do Sul-Sudeste, que outrora foi sua principal base.

O dilema do PT seria, na visão de Figueiredo, recuperar parte das bases mais ideológicas hoje perdidas, no caso de uma nova inflexão à esquerda, que "implicaria também correr riscos junto aos segmentos populares "lulistas", que não são necessariamente petistas, uma base social, em alguma medida, conservadora".

Mas, manter esses segmentos populares "lulistas", às custas do eleitorado tradicional, analisa ele, "reforçaria ainda mais a dificuldade do partido de construir um projeto efetivamente partidário, que não fique a reboque única e exclusivamente de Lula".

Circuit breaker x Laissez faire


Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

“Deixa rolar” seria a versão livre e informal do mais conhecido axioma em língua francesa. Laissez faire, laissez aller, laissez passer ("deixai fazer, deixai andar, deixai passar"), estandarte da escola fisiocrata francesa, de autoria ainda não estabelecida, teria sido enunciado pela primeira vez pelo marquês de Argenson em 1751 e, ao longo dos 257 anos seguintes, sucessivamente seqüestrado pelo liberalismo inglês, pelo capitalismo americano e pelos cruzados da globalização.

O Laissez faire venceu todos os confrontos com todos os dirigismos - do nacional-socialismo ao comunismo, inclusive com o socialismo democrático. Imbatível, audacioso, acabou convertido em sinônimo de dissipação e irresponsabilidade, dogma incontestável, autoritário e prepotente. O resultado está estampado nas manchetes onde a palavra pânico, de tão repetida, parece surrada, desprovida de dramaticidade.

Capricho dos fados, ironia do destino: para salvar o libertário e libertino laissez faire e evitar o apocalipse, recorreu-se a um simplíssimo recurso tecnológico - o circuit breaker, a intervenção reguladora, anônima e impessoal, comandada pelo sistema de computação das bolsas de valores.

Para interromper os surtos de irracionalidade bursátil em qualquer direção - na direção do abismo ou da estratosfera - tal como um termostato que desliga automaticamente ante a ameaça de aquecimento, este freio arrumador é uma varinha de condão: impõe comedimento, força a sensatez. Não é uma intervenção de governos ou Estados, mas ação auto-reguladora, válvula de segurança do próprio mercado.

Assim como as bolsas do mundo inteiro adotam feriados particulares, um circuit breaker globalizado, razoavelmente estendido, seria capaz de interromper o atual desvario e desespero com uma siesta reparadora enquanto governos e bancos centrais descobrem os sedativos apropriados para acalmar a paranóia do laissez faire.

Uma coisa está clara: precisamos de um Contrato Social globalizado. Rousseau ofereceu o dele alguns anos depois dos primeiros triunfos do liberalismo. E este contrato não deve restringir-se à esfera econômica. Os países petro-dependentes, sobretudo aqueles que montaram mirabolantes projetos de poder à custa do barril de petróleo perto dos 150 dólares, estão desesperados, não se conformam com a abrupta queda para 80.

Não é casual, a súbita impertinência do presidente Rafael Correa desafiando ostensivamente legítimos interesses de empresas brasileiras no Equador (inclusive a Petrobras). Os desmandos originam-se claramente nas frustrações de Hugo Chávez que, em poucas semanas, viu desmantelarem-se os seus sonhos de hegemonia continental enquanto é forçado a encarar o descalabro social que impôs ao seu país.

Um circuit breaker devidamente adaptado e ampliado para fazer face ao nível de tensão do momento serviria para arrefecer a volatilidade das bolsas e diminuir o estresse político subitamente acionado pelas ameaças de recessão mundial.

A aparente bonomia do laissez faire descambou em impunidade e arrogância. E esta arrogância está contaminando tudo a sua volta. Inclusive nestas bandas. Quando, em 2004, José Serra venceu Marta Suplicy na disputa pela prefeitura paulistana, o presidente Lula não desesperou.

Agora, quando Gilberto Kassab, o vice de Serra, ameaça vencer Marta Suplicy, o presidente Lula não esconde a sua frustração. A sua formidável popularidade, em grande parte amparada na invejável situação da economia, está ameaçada pelos atuais fantasmas internacionais. Se não forem exorcizados rapidamente podem colocar em risco a possibilidade de eleger um sucessor (ou sucessora) em 2010.


Algum circuit breaker precisa ser acionado. Deixar rolar, laissez faire, é no momento a opção mais endiabrada.

» Alberto Dines é jornalista

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1115&portal=

sábado, 11 de outubro de 2008

FRASE SELECIONADA

“Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diferentes maneiras; mas o que importa é transformá-lo”.

(Karl Marx: XI Teses sobre Feuerbach, 1846)

POESIA: CULPAS

Graziela(sentada) com Tereza Vitale e Irina

Graziela Melo

Quantas vezes
Me contemplo
Tentando
Me perdoar

De culpas
Que guardo
Na alma

Ao longo
Do meu
Caminhar

Pelas trilhas
Desse
Mundo

Sem nunca
Deixar
De sonhar!!!

Rio de Janeiro, 09/10/08

Aposta no vermelho


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A estratégia deu certo em 2006, quando o PT deixou o PSDB tonto ante a inesperada retomada do discurso ideológico no segundo turno da disputa entre o presidente Luiz Inácio da Silva e Geraldo Alckmin.

Conseguiu rapidamente dar a volta por cima na frustração da expectativa de vitória em primeiro turno e pôs o adversário a reboque da agenda que lhe foi mais conveniente durante as três semanas de campanha.

Uma arquitetura realmente digna de constar em manual.

Tão bem-sucedida que é adotada agora em São Paulo, na tentativa de virar o jogo em favor de Marta Suplicy. No ato de apoio à candidata petista, quinta-feira, isso ficou nítido.

Bem instruídos a traçar uma risca de giz entre o campo dos “progressistas” e o terreno freqüentado pelos “conservadores” adeptos da candidatura de Gilberto Kassab, ministros, governadores, intelectuais e sindicalistas bateram no mesmo ponto: a construção de um cenário de luta entre mocinhos e bandidos. Estes, de “direita”, aqueles, de “esquerda”.

Pode dar certíssimo de novo, como pode resultar no chamado tiro no pé. A grande vantagem de Marta agora é justamente o que foi o trunfo de Kassab no primeiro turno: em condição de franca inferioridade, não tem nada a perder. Portanto, em tese, qualquer risco vale a pena.

Quem precisa tomar todos os cuidados é o prefeito, para não perder a dianteira. A administração da superioridade - conforme demonstraram os principais resultados do primeiro turno - é uma tarefa bem mais difícil e perigosa.

A subida de Kassab é prova viva, bem como as ultrapassagens de Fernando Gabeira no Rio e Leonardo Quintão em Belo Horizonte.

Os três largaram no prejuízo, foram deixados de lado, tidos desde o início como fora do páreo até pelos próprios correligionários e cresceram na base do que vier é lucro, contrastando com a soberba e a tensão dos favoritos.

Agora é deles o compromisso maior com a gerência do inesperado sucesso.

Marta, porém, tem uma situação peculiar, porque joga no terreno da sucessão presidencial, onde a distância entre uma derrota e uma derrota estrondosa fará uma enorme diferença.

Levar o debate para o campo da briga entre conservadores e progressistas em São Paulo, para um eleitor atento a questões municipais, pode ter o efeito inverso ao obtido por Lula em 2006, quando os ataques à “herança maldita” ocorreram sob o olhar aparvalhado de um adversário incapaz de apontar a incoerência do discurso de quem rezara quatro anos pela mesma cartilha.

Aqui já não existe o elemento surpresa. Por isso, não há um oponente tão desprevenido que não possa rebater com fatos do cotidiano do governo federal as acusações de alianças com as “forças do atraso”, com a “elite”, os “fisiológicos”, os “oportunistas que mudam de lado”, o “uso da máquina administrativa”.

A tentativa de mostrar intimidade com o grupo de Mario Covas pode soar excessiva no que tange ao senso de oportunidade, bem como talvez pareça incongruente dizer que a prefeitura será comandada pelo “pefelê” e, ao mesmo tempo, acusar Kassab de ser comandado por José Serra.

Ademais, quem garante ao PT que “conservador” é insulto para o paulista? Paulo Maluf não caiu do pedestal onde se manteve anos a fio por sua posição no campo ideológico. Caiu pelo conjunto da obra que o levou à cadeia, acusado de corrupção.

Fiel depositário

O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, não se alia - ao contrário, repudia - à interpretação de que o PMDB estaria condicionando sua posição na aliança nacional com Lula à atuação do presidente no segundo turno das campanhas municipais.

No caso do ministro, a neutralidade em Salvador, onde patrocina a reeleição do prefeito João Henrique contra a eleição do petista Walter Pinheiro. “Não defendo candidatura própria em 2010 e, pessoalmente, sou a favor da manutenção da aliança com Lula em qualquer circunstância.”

Afinal, reconhece, o partido cresceu nos municípios em virtude da adesão total ao governo federal no segundo mandato.

Depende

A decisão de enviar o secretário particular do presidente Lula, Gilberto Carvalho, para “reforçar” a campanha de Marta Suplicy deu margem a duas leituras.

A otimista vê o gesto como sinal do grande empenho do presidente. A pessimista enxerga a intenção de Lula de manter relativa distância.

Os adeptos da segunda hipótese lembram que Marta só queria sair do Ministério do Turismo para ser candidata depois que o presidente lhe fizesse um pedido público.

Lula enviou o marqueteiro João Santana para cuidar da campanha e considerou que, assim, pontuava a identificação na medida certa. O apelo pessoal o faria responsável pela candidatura tornando quase obrigatória a volta de Marta ao ministério, em caso de derrota.

Se ela perder, pode até voltar. Mas não necessariamente.

Nova geografia eleitoral


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Qual a conseqüência política de uma eleição municipal em que o vitorioso claro foi o PMDB: teve 18,6% dos votos; elegeu o maior número de vereadores; é o único partido a disputar as três decisões mais importantes em segundo turno, em São Paulo, Rio e Belo Horizonte, nos dois últimos com candidato próprio, e em São Paulo dando a vice da chapa de Gilberto Kassab. Além disso, o PMDB foi o que mais cresceu entre os grandes, com um aumento de nada menos que 195% de votos entre 2004 e hoje. O Sudeste, onde foi derrotado no interior do Rio, São Paulo e Minas, foi a única região onde o PMDB perdeu. Aumentou em 95% o número de prefeituras no Norte, 25% no Nordeste, 51% no Centro-Oeste e 5% no Sul.

Entre as capitais e os 53 municípios com mais de 200 mil eleitores, equivalentes a 36,4% do total do eleitorado, PT, PMDB e PSDB são os vencedores. O PT venceu em 13 cidades e disputará o segundo turno em outras 15. O PMDB e o PSDB venceram nove primeiros turnos cada um e disputam o segundo turno em outras dez.

O PT, que esperava chegar às mil prefeituras no país com a popularidade do presidente Lula - meta, aliás, que vem de 2004 - cresceu, mas nem tanto. O PT, que passou por vários períodos, começou como um partido de intelectuais e da classe média, depois virou um partido corporativo, especialmente dos sindicatos e, mais especificamente, dos funcionários públicos, perdeu com o mensalão a influência na classe média e nas grandes cidades, teve que ir para o Nordeste e, nesta eleição municipal, não conseguiu conquistar nem mesmo a nova classe média ascendente das regiões Sul e Sudeste.

A incapacidade de transferir seu prestígio popular para eleger Marta Suplicy em São Paulo no primeiro turno acabou colocando em xeque a estratégia do presidente Lula de fazer da ministra Dilma Rousseff a candidata do PT à sua sucessão. O reforço político do PMDB já se revela na pressão para que o presidente não tente ajudar candidatos petistas em estados onde a disputa é com o PMDB, como na Bahia ou no Rio Grande do Sul.

Além de tornar mais caro o apoio do partido nos últimos anos de governo, é provável que o PMDB não consiga se unir em torno nem de uma candidatura própria, nem para apoiar uma candidatura do PT, dividindo-se para governar no pós-Lula.

O sociólogo Hamilton Garcia, do Centro de Ciência do Homem da Universidade Estadual do Norte Fluminense, vê uma diferença básica entre o PT e o PMDB: "O PT se guia pela conquista dos interesses imediatos das corporações que o integram, reduzindo o programa societário de esquerda a um minimalismo anti-inflacionário e assistencial, mantém seus vínculos populares corporativos, enfraquecendo sua cultura de esquerda, mas sem se reduzir ao peemedebismo".

Para Garcia, "enquanto o fisiologismo e a corrupção são a alma e o oxigênio do PMDB, para o PT e o PSDB eles não passam de instrumentos de governabilidade, pois suas bases sociais estão muito bem delimitadas".

Já o cientista político Fernando Lattman Weltman, da Fundação Getulio Vargas, não concorda que o fortalecimento do PT no Nordeste tenha a ver com a perda de prestígio entre a classe média devido ao escândalo do mensalão:

"Ele se tornou muito mais poderoso lá por força das políticas sociais e de redistribuição de renda postas em prática pelo governo Lula já bem antes do estouro da crise, em 2005; a rigor, sem o mensalão, muito provavelmente Lula já teria ganhado a reeleição no primeiro turno de 2006, de lavada, também no Sudeste, e talvez até no Sul, onde as variáveis econômicas talvez não lhe fossem tão favoráveis".

Weltman lembra que não é só o PT que muda: "O DEM também é um ótimo exemplo: deixa de ser importante no Nordeste e tenta se renovar - mudando de nome, inclusive - para aproximar-se das classes médias do Sul e Sudeste. É claro que militantes históricos, mais ou menos puristas de suas identidades partidárias, podem ficar incomodados com isso, mas é da competição democrática pelo poder numa sociedade dinâmica", analisa o cientista político da FGV.

Para Paulo Roberto Figueiredo, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, esse eleitorado que dá vitórias ao PT em muitos lugares nos quais o partido tinha pouca entrada, como no interior do Nordeste, não é uma base eleitoral petista, mas "lulista": "Na verdade, creio que o "petismo" e o "lulismo" podem até convergir em momentos ou em lugares específicos mas, no fundo, são forças cada vez menos coincidentes".

Para ele, um estudioso do PT, "o projeto de Lula demonstrou-se de tal modo personalista que não há garantias de transferência sistemática, pelo menos não de modo sustentável e perene, dos votos "lulistas" para o PT em eleições futuras".

Num momento excepcionalmente bom em termos de avaliação do governo federal e de Lula, Paulo Roberto Figueiredo faz uma análise do desempenho do PT "naquela que outrora foi sua base fundamental, as capitais do eixo Sul-Sudeste" e chega à conclusão de que foi "apenas razoável":

O PT venceu em Vitória e chegou ao segundo turno, como segundo colocado em Porto Alegre e São Paulo, cidades que já governou. Perdeu em Florianópolis, Curitiba, Rio e, em certo sentido, Belo Horizonte, onde está dividido entre os que defenderam e os que se opuseram à aliança com o governador Aécio Neves.

Além dos fatores eminentemente locais, que costumam ser predominantes nas disputas municipais, a influência de Lula no auge de sua popularidade não se transformou necessariamente em vitórias petistas, ressalta Figueiredo.

"Em alguns lugares certamente ajudou, mas não houve uma avalanche de votos "lulistas" se convertendo em votos "petistas", como alguns imaginavam. Isso sugere que tal transferência não é automática e pode ser decrescente em eleições futuras". ( Continua amanhã)

ELEIÇÕES: AGENDA DE GABEIRA


Dia 10/10 – Manhã: Jacarepaguá ( Taquara, Freguesia e Praça Seca)

Dia 11/10 – 10hs.: Corpo a corpo em Santa Cruz, Paciência e Bangu

Dia 12/10 - Domingo - 10hs. Corpo a corpo no Aterro do Flamengo
11.30 hs. - Corpo a corpo na Lagoa , Parque do Cantagalo
15 hs. Quinta da Boa Vista - Porta do Zoológico
22 hs Debate na Band.

Dia 13/10 – Corpo a corpo no Largo do Machado, Rua do Catete.

Dia 14/10 – 9/11 hs.: Debate Rádio Mundial
20 hs.: Debate JB (por 2 horas). Está sendo estudado cancelamento.

Dia 15/10 – Corpo a corpo na Av. N. S Copacapan.

Dia 16/10 – 11/13 hs: Debate da Folha de S. Paulo ( Cine Odeon – Cinelândia)
18 hs: Caminhada na Visconde Pirajá (Ipanema).

Dia 17/10 – 11 hs: Rádio CBN, com Sidney Resende
15 hs. Corpo a corpo no Saara

Dia 18/10 - Manhã: Corpo a corpo no Calçadão de Campo Grande
Tarde: Calçadão de Madureira

Dia 19/10 Domingo - Caminhada em Copacabana, Ipanema, Leblon
21 hs. Debate TV Brasil

Dia 20/10 – Pavuna, Vila da Penha, Ilha do Governador
22hs: Debate na CNT

Dia 21/10 - 9/12 hs: Debate na Fecomercio
15 hs: Corpo a corpo na Tijuca, Saens Pena

Dia 22/10 – Méier

Dia 23/10 – Av. Rio Branco / Largo da Carioca


Dia 24/10 – Debate TV. Globo

Dia 25/10 - Sábado Carreata encerramento da campanha.

Dia 26/10 – Eleições.

A campanha não segura a crise


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL

AS FICHAS QUE O GOVERNO APOSTOU no segundo turno da campanha para a eleição de prefeitos e vereadores estão caindo no pano da decepção. E a briga pelo voto é decidida na correria de três semanas, com a votação no domingo, dia 26. Uma semana passou com a velocidade da pista encharcada pela inclemência da chuva que não prejudicou a articulação das alianças que obedeceram ao rito da coerência. A estréia dos debates que devem cumprir a obrigação de esquentar a temporada não peca pela modéstia e, ao contrário, assusta pelo risco de passar da medida e maltratar a paciência do eleitor.

Nas manchas no rendilhado municipal em que a fatura foi liquidada no primeiro tempo, sobrou para a população a comodidade de espectadores da disputa na vizinhança, seja pela mídia que transmitirá os debates ou pelo horário de propaganda eleitoral, que promete ser mais animado e de melhor nível do que a baixaria deprimente do primeiro turno. Nem tudo está perdido. Afinal, qualquer eleição deve interessar a todos. E, como a próxima, em 2010, mobilizará o país na campanha para a sucessão do presidente e dos governadores e para senadores, deputados federais e estaduais, estamos na preliminar, com o alinhavo das alianças que antecipam o modelo de polarização do nosso falido esquema político, atolado na crise sistêmica que envolve os três poderes, com o destaque do distúrbio ético que aflige o Legislativo.

Antes de bater ponto no dia de amanhã, a ameaça da recessão mundial, afinal admitida pelo presidente Lula e pela dupla que embaralha as cartas, formada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega e pelo presidente do Banco Central, Domingos Meirelles, que desistiu do quebra-cega dos truques para ousar as primeiras medidas para valer, com injeções maciças de bilhões no mercado. Seguiram o rastro da redução dos juros pelos bancos centrais dos três continentes, em inédita decisão que sinaliza a gravidade da crise financeira desencadeada pelos Estados Unidos.

A choradeira ensopa os lenços em todo o mundo e pinga nos prognósticos de escassas esperanças. O Fundo Monetário Internacional (FMI), pela voz rouca do seu conselheiro econômico Oliver Blanchard, puxa o crepe e anuncia tempos difíceis, com crescimento zero e até negativo ­ o que não é crescimento, mas encolhimento ­ regado com o pífio consolo de longínqua recuperação que comece lá por 2009. O presidente George Bush buscou alivio dos seus remorsos e fracassos em um a bate-papo pelo telefone com o presidente Lula. Pela versão oficial, a voz chegou pelo fio no tom de otimismo: "o Brasil tem uma plataforma sólida para enfrentar a crise devido aos bons fundamentos da economia", deu o recado.

Lula retribuiu o agrado, saudando a aprovação do pacote de socorro do sistema financeiro americano. Em meio a tal turbação, sobra uma beirada no tabuleiro para o movimento no jogo de dama da política doméstica. Mas, não vamos sepultar a esperança de alguns dividendos com a eleição dos novos prefeitos e dos vencedores do mano a mano das urnas eletrônicas do dia 26.

As alianças que estão sendo firmadas ou ainda nas preliminares não prometem correções significativas na bagunça da incoerência dos blocos de interesse estaduais e municipais. Na nossa abandonada ex-capital do país e que não parece capital do Estado do Rio de Janeiro, a surpresa da classificação de Fernando Gabeira, do Partido Verde, pelo menos coloriu a campanha com o toque do inesperado.

O favoritismo do candidato do PMDB, ampliado com os acordos firmados com PT, o PSB e o PSC, vai enfrentar o teste dos debates, que prometem sacudir a cidade até o limite da saturação.

Mais de 20 estão agendados pelas redes de TV, emissoras de rádio e pela mídia. Além dos 10 minutos diários para cada um no horário eleitoral. Por todo o país, em todas as capitais e municípios em que a eleição será decidida no segundo turno, com as suas peculiaridades, a população será atraída para o espetáculo democrático do debate de idéias e até do xingamento entre os finalistas que conquistaram a vaga na primeira rodada. E até é o caso de lamentar pela oportunidade perdida ou adiada.

Na próxima eleição, com toda a certeza teremos uma nova legislação eleitoral. E uma das modificações inadiáveis atingirá o horário de propaganda eleitoral para acabar com o ridículo desfile dos candidatos a vereador e estimular o debate sobre programas e idéias. Quem viver, verá.

Ainda sobrou um otimista


Clóvis Rossi
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

MADRI - Não está entendendo o que ocorre na ciranda financeira global? Quase ninguém está. Tanto que dois professores de universidades de um mesmo país, os Estados Unidos, escrevem textos diametralmente opostos sobre o que vai acontecer com o mundo.

Em seu "site" e na entrevista que deu a Sérgio Dávila, desta Folha, Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York, prevê o apocalipse, fiel à todas as suas previsões anteriores: "O mundo corre sério risco de um derretimento global sistêmico e de uma severa depressão global".

Já Casey B. Mulligan (Universidade de Chicago) diz o oposto. "O setor não-financeiro de nossa economia não sofrerá muito, mesmo em uma prolongada crise bancária, porque a importância geral dos bancos tem sido muito exagerada".

O pior é que ambos trabalham não apenas com suas opiniões -firmes, muito firmes, como se vê- mas também com números da vida real. Os de Roubini já são conhecidos, e 99,9% das pessoas que comandam o mundo parecem acreditar neles.

Por isso, repasso ao leitor -que merece um pouco de cor-de-rosa- os números de Mulligan:


1 - Balanços das empresas dos EUA mostram nos últimos 18 meses um retorno de 10 centavos de dólar para cada dólar de capital investido. A média histórica, antes da crise, é inferior (entre 7% e 8%).

2 - "A pesquisa econômica tem demonstrado repetidamente que as oscilações do setor financeiro como as atuais dificilmente estão conectadas com a performance do setor não-financeiro. Estudos mostram que o crescimento econômico não pode ser previsto a partir da expectativa de retorno de títulos do governo, ações ou depósitos em poupança".

Não tenho a mais remota idéia de qual dos dois está certo (talvez nenhum esteja inteiramente certo), mas meu coração está com o professor de Chicago, quem diria.

O pânico derivado


Fernando Rodrigues
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


NOVA YORK - A boataria dominou os mercados ontem. Ford e GM tiveram de negar que estivessem falindo ou pedindo concordata. A Casa Branca precisou declarar desinteresse pelo plano de decretar feriado nos mercados financeiros. O presidente norte-americano praticamente pediu clemência às Bolsas de Valores num depoimento infeliz e ineficaz na TV. Nada adiantou.

Ontem a Bolsa de Valores de Nova York fechou sua pior semana nos seus 112 anos de vida. Os papéis despencam há oito pregões consecutivos. A semana acumulou uma desvalorização de 18%. Já se pode usar, sem medo de errar, a expressão "crash" (quebra) dos mercados.

É importante registrar esse momento, pois as quedas recentes eram ainda sempre menores em algum sentido do que as registradas em anos passados. A diferença agora parece ser o total descontrole dos agentes reguladores nos Estados Unidos, a incompetência e a tibieza política de George W. Bush e a globalização completa do mercado de ações.

Em nenhum dos outros "crashes" o mundo estava tão integrado. Mesmo no início da década, quando explodiu a bolha das empresas "pontocom", tratava-se de um setor específico. Havia ramificações, mas nada comparável à explosão dos chamados derivativos.

Há na praça US$ 531,2 trilhões de contratos de derivativos. Grosso modo, uns 500 "Brasis". Em 2002, o total era de US$ 106 trilhões. Não se sabe exatamente o quanto, mas uma parcela gigantesca desses papéis não vale nada.

Esse é o DNA do atual colapso financeiro. Se as reuniões do G7 e do G20 não chegarem a um consenso neste fim de semana sobre como tornar esse tipo de mercado mais regulado, nada adiantará injetar dinheiro nos bancos.
Será como enxugar gelo. Não há US$ 531 trilhões disponíveis para que todos os derivativos sejam honrados no mundo.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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sexta-feira, 10 de outubro de 2008

FRASE SELECIONADA

“As disputas humanas, em geral, decorrem do fato de existirem, ao mesmo tempo, sábios e ignorantes, constituídos de maneira a verem apenas um lado dos fatos ou das idéias, cada um julgando ser a face que vê a única verdadeira, a única boa”.

(Balzac, na obra A Prima Bete, 1846)

O QUE PENSA A MÍDIA

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Niemeyer declara apoio a Gabeira e pede a Lula que faça o mesmo


Alessandra Duarte
DEU EM O GLOBO


Arquiteto aceitou explicações do candidato sobre aliança com PSDB

Enquanto Eduardo Paes (PMDB) deve receber hoje o apoio de Jandira Feghali (PCdoB), Fernando Gabeira (PV) encontrou-se ontem com o arquiteto Oscar Niemeyer, referência da esquerda e que, no primeiro turno, fez campanha para a comunista. Niemeyer recebeu Gabeira em seu escritório, em Copacabana, e anunciou seu apoio. Eles conversaram por meia hora. Ao ser perguntado sobre as críticas feitas a Gabeira, por ter se aliado ao PSDB, Niemeyer respondeu:

- Ele explica muito bem. Ele não se aliou aos partidos, procurou o caminho certo, necessário para levar este país para a frente neste período tão difícil. Difícil, mas com otimismo, que é o caminho do Lula. Acho o Gabeira tão mais coerente, tão mais sensível aos problemas. Vai ganhar facilmente esta eleição. É uma figura importante, com um passado de luta, um grande brasileiro.


É uma pessoa que a gente segue com interesse e entusiasmo. Sempre lutou a vida inteira pelo povo. Temos plena confiança neste amigo.

Na conversa em particular, antes de receber a imprensa, o arquiteto disse terem falado "sobre amigos, Darcy Ribeiro, a luta política, o país e a crise internacional".

- Deixei ele falar. Queria ouvir ele falar - disse Niemeyer, para quem o presidente Lula deve apoiar Gabeira no Rio: - Ele (Lula) está ao lado do povo, está ao lado do Gabeira, com certeza, porque o Gabeira sempre lutou por isso.

Segundo Gabeira, ele e Niemeyer também conversaram sobre projetos para a cidade.

- Não só nos entusiasma seu apoio, como é uma pessoa que poderemos consultar. Temos uma cidade de frente para o mar, mas as construções nos roubaram o mar. Falamos sobre a Avenida Perimetral, que nos roubou um pouco o mar. Falei com ele que ia buscar um projeto para tentar resolver isso - disse.

Gabeira disse que conversou com o prefeito reeleito de Nova Iguaçu, Lindberg Farias (PT):

- Vamos precisar um do outro. O prefeito não resolve os problemas do Rio se não tiver a cooperação metropolitana. Pretendo ter um núcleo de prefeitos metropolitanos. Meu contato com Lindberg é esse. Ele, como prefeito do PT, talvez não possa desrespeitar o partido e me apoiar abertamente.

Presidente interditado


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Na reunião do grupo de coordenação política do governo para discutir as campanhas do segundo turno houve uma inédita inversão de posições: acostumada a carimbar as decisões do presidente Luiz Inácio da Silva, aquela instância dessa vez enquadrou Lula aos costumes.

E o fez sob comando do PMDB. Mais exatamente daquela ala que foi oposição nos primeiros quatro anos, cansou-se da adversidade, aderiu no segundo mandato, cresceu na bonança, reassumiu sua verdadeira face e, como gesto inicial da nova fase proibiu Lula de pisar em territórios onde sua presença possa ajudar adversários do PMDB.

Claro que as coisas não são ditas nem feitas assim dessa forma crua, deselegante, impertinente. Há todo um ritual. Para todos os efeitos, o presidente reuniu, mediu circunstâncias e espontaneamente decidiu ficar distante dos embates entre partidos da “base”.

Faca pontuda ninguém põe em pescoço de presidente da República. Mas palavras bem direcionadas fazem o sentido certo para ouvidos aguçados.

“Com a crise, o presidente não vai querer desagregar a base”, disse o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, detalhando sua posição a respeito do risco que o envolvimento errático de Lula poderia representar à continuidade da aliança nacional entre PT e PMDB.

Se na eleição municipal com toda popularidade de Lula já foi difícil administrar a aliança de 15 partidos, na presidencial haverá muito mais dificuldade em mantê-los disciplinados ao lado de Dilma Rousseff. Rompimentos, ainda mais com o PMDB, tornariam o projeto praticamente impossível.

Diante disso, o presidente tinha alguma escolha a não ser “decidir” cumprir o ultimato?

Até teria, mas da última vez que resolveu desconsiderar o peso desse grupo de pemedebistas, deu-se mal. Foi logo depois da primeira eleição, pouco antes da posse. José Dirceu negociou e fechou acordo com o presidente do partido, Michel Temer, integrante da ala que havia dado apoio a José Serra em 2002 e, horas antes do anúncio da distribuição de ministérios Lula rompeu o combinado.

Achou que poderia viver das lideranças de José Sarney e Renan Calheiros, mas perdeu todas dentro do PMDB para os chamados oposicionistas, majoritários na máquina nacional e o apoio do partido todo lhe fez uma falta sentida.

Portanto, quando o ministro Geddel incorpora o deputado Vieira que assim, na pressão, atuava como líder do partido na Câmara durante o governo Fernando Henrique, não resta ao chefe do governo outra saída senão a plena aceitação das regras.

No presente momento incluem principalmente deixar o PMDB fazer a festa sobre os petistas Walter Pinheiro, em Salvador, e Maria do Rosário, no Rio Grande do Sul.

Maior e mais forte do que já era antes de aderir, o partido não se contenta em ser o campeão de votos municipais, ter 1.200 prefeitos, meia dúzia de ministérios, a quase certa próxima presidência da Câmara e um trânsito mais que amigável com José Serra, o candidato a presidente mais cotado da oposição.

Quer consolidar o fim do reinado do PT no Rio Grande do Sul e inaugurar a dinastia Vieira Lima na Bahia. E, se tudo der certo, quem sabe tentar açambarcar também a presidência do Senado durante o período da sucessão presidencial.

Poderoso assim, seria natural ambicionar também a Presidência da República. Oficialmente, ambiciona. Já ressuscita a velha tese da candidatura própria, aquela conhecida escada de acesso a todos os governos eleitos nas últimas duas décadas.

Objetivamente o PMDB não tem nomes viáveis. O único possível, o governador Sérgio Cabral, mostrou sua força no Estado que governa, perdendo em todo o interior do Rio de Janeiro. Se ganhar na capital, será com um tucano estilizado, alguém que, como ele, é fiel a Lula na proporção direta do volume de verbas federais liberadas para o Rio.

Quando, e se, a perspectiva de poder mudar, as pontes para o transporte das armas e das bagagens para novo endereço estão devidamente construídas.

Mesmo que tivesse nomes o partido arrumaria um pretexto para queimá-lo. Para que se esfalfar na disputa presidencial, criar atritos e ainda correr o risco de vencer e assumir o ônus de governar se pode ficar com o bônus de fiador da “governabilidade”?

Na hora em que o barco aderna, alega-se ausência de compromisso com o erro, invoca-se a renovação de “contrato” com o eleitorado e pula-se para outra embarcação sem angústia ou nostalgia.

Pirão primeiro

O PT anuncia apoio ao PMDB no Rio para “barrar a oposição a Lula”. Quem dera fosse tudo tão orgânico e previsível no cenário das alianças partidárias.

No Rio o PT fica com o PMDB porque o PV está com o PPS e o PSDB, que apóiam o PT em Salvador contra o PMDB que quer ver o PT pelas costas em Porto Alegre e, em nome do acerto presidencial de 2010, ajuda o PSDB a derrotar o PT em São Paulo.

Não é, convenhamos, um ambiente de absoluta confiança.

A campanha traça o seu caminho


Villas-Bôas Corrêa
DEU NO JORNAL DO BRASIL


A campanha do segundo turno emendou no fim do primeiro para seguir rota inteiramente diferente que costuma desnortear os mais diretamente envolvidos, que confunde torcida com tentativa de análise isenta. E que também comete os seus erros e deles se penitencia.

A que arrancou com o embalo dos resultados do primeiro turno, com a carga de surpresas, decepções e esperanças, dispara com a velocidade de raio, exigindo a máxima acuidade para acompanhar a corrida de pequena distância de três semanas, até a chegada ao repeteco das urnas do dia 26 para o voto único da polarização da escolha dos prefeitos das capitais e municípios que não arrumaram a casa no último domingo.

A polarização é impositiva: governo versus oposição, com a mistura das cores das camisas na escalação das equipes. Na arrancada, candidatos e lideranças apostam o cacife para fechar as alianças na cúpula. As óbvias, que são quase todas, não exigem mais que os salamaleques que dissimulem os ressentimentos pelos eventuais equívocos da fase preparatória.

Não há tempo a perder. A campanha chega ao valorizado programa de propaganda eleitoral – com toda a probabilidade de virar pelo avesso o vexame do primeiro turno, com os 10 minutos para cada um da dupla de finalistas e mais a avalanche de debates promovidos pelas redes de TV, pela mídia e pelas excitadas e demais entidades, ansiosas por pegar uma carona no reboque do bonde do voto.

Os candidatos não resistirão aos apelos para comparecer a todos os convites. Até o limite do possível. E sem deixar de reservar algumas horas para os contatos diretos com o eleitorado.

É difícil seguir a trilha da lógica, do bom senso quando a decisão das campanhas está muito mais pendurada no imponderável da crise financeira que enlouquece o mundo e chega ao nosso país nas ondas que arrebentam nas pedras da contradição.

Mas, até onde a disparada do dólar – que nem os leilões do Banco Central estão conseguindo conter ou reduzir – será sentida pela classe média, pelos emergentes e pelos pobres?

Se o cenário é um só para todas as capitais e municípios na fornalha da escolha do prefeito para os próximos quatro anos, cada um terá uma história para ser contada, com as suas muitas e prováveis surpresas. Pois, é impossível que o comportamento do eleitorado não se altere nestas três semanas de imprevisível desdobramento da crise mundial. E dos seus reflexos na rotina doméstica da população.

Os conchavos entre candidatos, líderes de partidos, governadores e ministros – com a participação direta e compreensível do presidente Lula e da ministra-candidata Dilma Rousseff – correm o risco de serem desfeitos pelas imprevisíveis reações do eleitorado. Se faltar pão, desanda a eleição.

O real está em queda livre, com a desvalorização recordista entre moedas emergentes. A celebrada popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva não apresenta sinais de abalo. Mas, até onde resistirá a uma frustração que contamine o voto e reverta a expectativa?

Lula está fazendo o que pode. Ordena que o Banco Central e a Caixa Econômica Federal socorram as pequenas instituições financeiras, sem recursos para a captação de dólares no exterior. Alinha um pacote para os ruralistas com o anunciado aumento de 3 a 5 pontos percentuais do compulsório para o crédito rural. E, na toada do otimismo, aconselha a população a manter os seus hábitos de consumo.

Não está tão fácil sustentar o discurso otimista do "se a crise chegar ao Brasil não será grave". E que mereceram do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, no seu retorno à militância eleitoral, o comentário provocativo: "Não adianta enganar a população. As pessoas vão sentir a crise no bolso".

A campanha promete três semanas com a carga de emoção que ameaça as novelas.

Até quando a continuidade


Maria Cristina Fernandes
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Na manhã em que os resultados eleitorais foram oficializados, a Bolsa de Valores de São Paulo fechou duas vezes seguidas. Naquela manhã em que o se-mexer-piora se oficializava nas urnas de 5.562 municípios brasileiros, a negociação doméstica de valores, seguindo o inaudito desmonte do sistema financeiro internacional, parecia não deixar pedra sobre pedra.

Enquanto no mercado financeiro as análises iam pelo tom do "se houver amanhã", os prognósticos eleitorais se esmeravam em pautar o futuro pelos resultados já colhidos. Apesar da hecatombe, o mundo ainda não acabou. E, malgrados os vaticínios, os rumos da política nacional não estão escritos nas cartas municipais. O que as urnas do domingo têm a colher das bolsas da segunda-feira é se haverá outra eleição da continuidade.

Se as urnas resultaram em inéditos 66% de reeleição aos prefeitos, como calcula a Confederação Nacional de Municípios, é porque suas gestões, em geral, têm tido saúde financeira para fazer investimentos e melhorar os serviços públicos municipais. Nada disso seria possível num ambiente de retração econômica dizimando a arrecadação tributária própria dos municípios e as transferências da União e dos Estados.

São outras as cobranças do eleitor sobre o presidente da República, mas todas estão igualmente relacionadas aos indicadores da produção nacional. As cinco eleições presidenciais desde a ditadura já foram suficientes para se conhecer o impacto da atividade econômica sobre as expectativas eleitorais. A estabilidade da moeda deu duas eleições a Fernando Henrique Cardoso. A pressão por mudança na letargia econômica que se seguiu elegeu Luiz Inácio Lula da Silva e o crescimento o reelegeu.

A paralisação dos negócios da Bovespa duas vezes seguidas num único dia só havia acontecido antes uma única vez, em 1998, às vésperas da reeleição de FHC, desencadeando a crise cambial que explodiria antes da posse e minaria as chances de o presidente fazer seu sucessor.

Muita coisa mudou na economia brasileira mas não a ponto de se considerar que as chances de o governador José Serra eleger-se presidente estejam mais relacionadas à eleição paulistana do que à contaminação da vida real pela crise financeira.

Uma provável vitória de Gilberto Kassab em São Paulo, combinada às dificuldades de Márcio Lacerda em BH, guarda mais relação com as expectativas políticas em relação às chances da oposição em 2010 do que com o mercado de votos, como sói acontecer com essas disputas que intermedeiam eleições gerais.

Presidente da República nunca definiu eleição municipal nem teve sucessão definida por ela. Se os partidos governistas são vencedores é porque a conservação do poder foi a tônica numa eleição em que eles já ocupavam a maioria das prefeituras do país. Só se deseja a continuidade do que vai bem. E não há prefeituras saudáveis num país que vai mal. Mas transferência de voto de presidente para prefeito ou vice-versa é outra coisa. Se é que existe.

Só para ficar no decantado exemplo de São Paulo. Fernando Henrique Cardoso elegeu-se presidente da República depois de ter perdido uma eleição paulistana. A única eleição que Lula venceu em São Paulo foi a de 2002, contra Serra, e ainda assim, por uma diferença de 2% dos votos, quando o resultado nacional lhe deu uma vantagem geral de 22%. Marta era prefeita à época. Mas é quase um desvario imaginar que sua gestão à frente da Prefeitura, por melhor que fosse, tenha sido mais decisiva para a votação de Lula na capital do que a crise do final do governo FHC.

Não há sinais visíveis de que o governo Lula venha a sofrer semelhante desgaste. Nos seus dois mandatos, o governo FHC não chegou a crescer, em média, 2,5%. A média anual do governo Lula é de 3,8%. Nenhum análise séria derruba a previsão para este ano para aquém dos 5%. O baque viria em 2009, entre os 2,5% dos economistas brasileiros e os 3,5% do FMI. Nada parecido aos dois anos de crescimento zero de 98/98.

Os analistas vinculam a recuperação em 2010 às cotações internacionais dos produtos agrícolas e à oferta de crédito para financiar as exportações. Lula conheceu, em 2006, os danos eleitorais de uma agricultura em retração. Perdeu, no primeiro turno, em quase todos os Estados que têm nas commodities agrícolas o esteio de sua economia. Recuperou-se no segundo turno graças à conversão e mobilização política de governadores desses Estados eleitos no primeiro.

O impacto dessa turbulência financeira sobre as chances de Serra e Dilma Rousseff na sucessão presidencial é que pode tornar visível o embate entre a pressão por mudança e a força política da conservação do poder. Vem daí que o fortalecimento do PMDB como balizador da polarização da política nacional seja o resultado mais consequente das urnas de domingo - uma eleição conservadora num país que pode estar mudando.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

E o Banco Central agiu...


Luiz Carlos Mendonça de Barros
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Felizmente, o BC deixou de lado o tratamento jocoso que Lula tem dado à crise e foi à luta de maneira eficiente

NA COLUNA da semana passada, alertei para os primeiros sinais -ainda de natureza financeira- de que a crise que estamos vivendo nas principais economias do mundo havia chegado forte ao Brasil. Fui ainda mais longe ao pedir uma ação decisiva por parte do Banco Central para evitar problemas de maior gravidade, principalmente no setor produtivo. Posteriormente, o mercado foi informado de que empresas brasileiras haviam realizado volumes incríveis -aparentemente US$ 60 bilhões- de operações especulativas com a taxa de câmbio. Ao contrário do que disse nosso presidente, a especulação não era contra o real, mas a favor da nossa moeda. Imprudentes, algumas empresas apostaram na queda continuada da taxa de câmbio como forma de reduzir os custos de seus empréstimos.

Apanhadas em um movimento mundial de valorização do dólar, acabaram por provocar um desequilíbrio extraordinário no mercado futuro da BM&F, ao tentar cobrir suas posições. Para a especulação passar do dólar futuro para o mercado à vista, foi um passo. Dessa forma, um desequilíbrio de caixa que afetou poucas empresas transformou-se em um choque de oferta importante no lado real da economia. O real chegou a R$ 2,50 por dólar -uma desvalorização de quase 50% em poucas semanas. Se a febre em nossa economia estava na casa dos 38 graus, com o choque do câmbio chegou a atingir, na última quarta-feira, mais de 40 graus. Nessa situação, somente um tratamento de choque -tipo banheira com água gelada- poderia evitar o pior. E, felizmente, o Banco Central deixou de lado o tratamento jocoso que Lula tem dado à crise e foi à luta de maneira eficiente.

Quando escrevo esta coluna, o paciente já dá sinais de melhora, e a taxa de câmbio deve voltar a refletir apenas o realinhamento global das moedas emergentes. Com isso, o governo pode se preocupar com os desdobramentos dos impactos da crise externa. O primeiro ponto é a recomposição da liquidez do sistema bancário, principalmente no segmento dos bancos médios e pequenos. A redução dos depósitos compulsórios, principalmente no segmento mais atingido pela crise, é uma decisão correta e eficiente. Agora será preciso monitorar a forma como esses recursos serão reciclados para a economia. Já temos sinais claros de que os bancos estão evitando expandir seus empréstimos por conta dos riscos -reais ou imaginários- que vão aparecer em uma economia submetida a uma parada brusca em sua liquidez. A eficiência da medida tomada está diretamente ligada à forma como os bancos vão tratar a questão do crédito daqui para a frente.

Nesse aspecto, os elevados prejuízos criados pela especulação com a taxa de câmbio vieram reforçar o comportamento cauteloso, medroso até, do sistema financeiro. Não posso deixar de citar outra questão que me preocupa hoje. A brusca interrupção das operações de ACC (Adiantamento de Contrato de Câmbio) já está criando uma queda importante da disponibilidade de dólares no mercado. Afinal, entre US$ 40 bilhões e US$ 60 bilhões em adiantamentos de câmbio vinham irrigando o mercado.

Isso é importante porque, nos últimos anos, o câmbio comercial foi o amortecedor natural do mercado, permitindo estabilidade mesmo em momentos de fortes remessas de capital financeiro para o exterior. Caso persistam as saídas de capital de curto prazo -ações e títulos de renda fixa-, poderemos viver uma nova fase de desvalorização do real.

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS , 65, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

Brincando com fogo


Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


BRASÍLIA - Mesmo quem tentava defender o presidente do Equador, Rafael Correa, agora concorda: ele ultrapassou todos os limites e está brincando com fogo. Com a retração do crédito mundial, quem vai investir no Equador e na Bolívia?

Os EUA, que estão feito barata tonta? A Alemanha, a França ou o Reino Unido, que mal sabem o que fazer com eles próprios? Ou a Islândia, que fechou Bolsas e bancos? Se há um país com alguma capacidade ainda de investir nos vizinhos, por ser mais rico, por estratégica ou até por uma questão ideológica, esse país é o Brasil. Pelo menos por enquanto... Correa, pois, comete o maior erro que pessoas, partidos e países podem cometer: escolher o inimigo errado. Ele tanto tensionou que Lula ontem parou de dizer que era tudo "problema de política interna" e partiu para a briga. Numa briga Brasil-Equador, quem ganha?

Correa assumiu o compromisso com Lula, no dia 30/9, em Manaus, de que recuaria na expulsão da Odebrecht e permitiria que seus dois funcionários deixassem o país. Lula, então, enviaria missão técnica com o anteprojeto dos sonhos de Correa, unindo Manaus à equatoriana Manta. Mas Correa rompeu o compromisso e, em vez de recuar, avançou na expulsão da Odebrecht e nas ameaças contra a Petrobras e contra o BNDES. Lula enfim deixou de ser bonzinho e deu o troco: fim da reunião, adiamento sine die do Manta-Manaus.

Quando Evo Morales decidiu abrir a temporada de enfrentamento ao Brasil, ele tinha lá seus trunfos: Lula não queria caso com país pobre e com presidente indígena, vindo da esquerda. E, "last but not least", o Brasil efetivamente precisava do gás boliviano. Correa não notou a diferença. O Brasil, a Odebrecht e a Petrobras não morrem sem um projeto a mais ou a menos.


Mas, sem a boa vontade, as empresas e as verbas brasileiras, o Equador fica a ver navios. E pode afundar nesta hora de crise.

Mundo louco


Míriam Leitão
DEU EM O GLOBO


Nada do que está acontecendo é normal. Os tempos não são normais, são de crise aguda, mas a reação das autoridades econômicas e monetárias do mundo está piorando a crise em si, e deixando uma herança maldita para o futuro. Os Tesouros dos EUA e inglês vão virar banqueiros, comprando ações e até controle acionário de bancos privados. Se não é o fim do capitalismo, eles estão se esforçando!


A Islândia levou muito a sério o próprio nome - Iceland, terra do gelo - e congelou os depósitos de clientes ingleses; isto, depois de ter estatizado os bancos. Países periféricos podem tomar medidas estapafúrdias. O esquisito é a Islândia virar assunto nos mercados internacionais. Ela não tem saído da primeira página nos últimos tempos. Ou pela reação desesperada do seu governo, dizendo que estava à beira da "falência nacional", ou pelo empréstimo bilionário tomado junto à Rússia, ou pela estatização dos bancos. Ontem foi pelo ataque aos ingleses.

As autoridades mundiais parecem baratas tontas, correndo de um lado para o outro, e isso realimenta o pânico. O propalado pacote de US$ 700 bilhões de resgate do secretário do Tesouro americano, Henry Paulson, é um capítulo à parte em matéria de proposta confusa feita pelas autoridades. Mas o mais importante agora é confirmar - de novo! - a avaliação do economista Nouriel Roubini: "O pacote é um não-evento."

Se tivesse tido o efeito que Paulson disse que teria, o secretário do Tesouro americano não estava ontem propondo fazer nos EUA o mesmo pacote inglês em que o Tesouro vira sócio dos bancos. A versão americana é mais exagerada: ele quer comprar o controle acionário dos bancos. Se exibir neste plano a mesma perícia, destreza e respeito aos contribuintes que demonstrou no pacote de US$700 bilhões, os Estados Unidos terão acelerado a sua marcha rumo ao passado. Remoto.

É normal bancos centrais injetarem liquidez nos mercados em épocas de crise de liquidez, é normal a liberação de compulsório, é normal a queda das taxas de juros. Em época de risco de crise sistêmica começam as anomalias. E é como anomalia que se entendem os pacotes de saneamento de sistema financeiro, como foi o Proer aqui, o caso das Savings&Loans nos anos 1980 nos Estados Unidos, ou o saneamento dos bancos japoneses.

Mas, nesta crise, o Fed foi além das anomalias esperáveis. Ben Bernanke saiu de braços dados com o secretário do Tesouro num corpo-a-corpo no Parlamento para aprovar um plano do Executivo de compra de ativos podres em carteira dos bancos. Não sobrou nada da antiga independência do banco central americano. Se ainda fosse o plano para acabar com todos os planos, tudo bem. Mas era um plano defeituoso, e foram inúmeros os economistas que apontaram os erros. Bernanke gosta de se definir como um professor de Economia. Como professor, está reprovado, por ter aprovado plano tão ruim. Agora, o plano B não é mais a faxina de ativos tóxicos; é tomar conta da banca diretamente. O rombo criado por salvações de bancos já supera US$2 trilhões e não se tem idéia de onde vai parar.

Paulson-Bernanke, esses ases do volante, deixaram um banco quebrar. Apenas um. Salvaram todos os outros. Mas este um que deixaram quebrar, o Lehman Brothers, está custando muito mais caro que todos os outros, porque detonou a pior crise de confiança já vista em 80 anos. E é mesmo para desconfiar com o mundo entregue a esses gênios. O presidente Bush, esse lame duck, faz agora pronunciamentos tão diários quanto inúteis. Hoje falará novamente.

A atuação coordenada dos bancos centrais esta semana foi um momento de lucidez neste festival de maluquices. E vinha surtindo efeito. Até que Paulson destrancou de novo o fantasma do armário, avisando que outros bancos poderiam quebrar. Ontem, o bom humor não atravessou um pregão. A Dow Jones, que chegou a estar positiva, fechou em menos 7,33%: S&P caiu 7,6%. Aqui, a Bovespa mostrou que o mercado não sabe para onde vai. Chegou a estar em alta de 4,8% e fechou em queda de 3,92%.

Agora já está ligado o círculo vicioso: a crise do mercado financeiro está produzindo efeitos na economia real, o que realimenta o pessimismo no mercado financeiro. A queda de ontem nas bolsas americanas foi em parte pelas más, e previsíveis, notícias do mercado de automóveis americano. Que o PIB americano vai encolher, está dado. Uma economia que era movida a crédito barato e concedido de forma irresponsável, em que as dívidas refinanciadas geravam mais capacidade de consumo, obviamente encolhe quando o castelo de cartas desmonta. O erro foi de novo das autoridades, que não viram que a economia tinha tão insustentáveis fundamentos.

No Brasil, não se viu, ainda, nenhuma medida tresloucada. Felizmente. O que houve de fora de propósito foi a convicção insensata de que a crise não nos atingiria porque estávamos sólidos, robustos, blindados; que aqui chegaria uma marolinha e outras tolices ditas pelos que nos governam. A demora de agir no câmbio produziu uma maxidesvalorização despropositada, de 50%, que está fazendo as empresas sangrarem. O problema aqui é este.

No mundo, parte da crise é provocada pela imperícia dos que governam os países ricos. É a maluquice dos líderes o pior neste momento de risco.

Tempo de sacrifícios


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. No recente debate entre os candidatos à Presidência dos Estados Unidos, uma eleitora perguntou-lhes qual o sacrifício que pediriam aos cidadãos americanos para superar a crise econômica, e o democrata Barack Obama deu o exemplo do que não deveria ser feito: lembrou que, logo após os atentados de setembro de 2001, o presidente Bush foi à televisão e exortou os americanos a "saírem e comprarem". "Este não é o tipo de convocação que os americanos estavam querendo ouvir", censurou Obama. Foi impossível não se lembrar do presidente Lula mandando seus ministros tomarem cuidado com o crédito "porque o Natal está chegando", e depois incitando os cidadãos a manter seus hábitos de consumo: "Continuem fazendo o que sempre fizeram", conclamou o presidente, garantindo que, se precisar ir à televisão para avisar "que a porca torceu o rabo", ele irá.

Pois há indícios de que a porca já torceu o rabo há muito tempo, e de que o governo, depois de um tempo perdido em arrogâncias, está tomando providências cujo teor não é revelado, pelo menos na sua totalidade.

A oposição, por exemplo, está se debruçando sobre a medida provisória editada recentemente para a atuação do Banco Central no resgate do sistema financeiro brasileiro e, na definição de um assessor, "montamos um quebra cabeça que não fecha".

Apesar de definir sua ação como "mera operação financeira", o Banco Central, no limite, tem a autorização pela medida provisória de estatizar as instituições financeiras que ele socorrer, sem limitações para essa intervenção, o que em tese indica que ele está pronto para atuar caso não apenas os pequenos bancos precisem de auxílio. E tudo será feito sob segredo de Justiça.

São muitos os pontos de inconsistência na política econômica. Se o dólar dispara muito, prejudica as importações, mas melhora as exportações - porém, estas também dependem do preço das commodities e do desempenho da economia mundial, ambos, com tendência de baixa.

As empresas estão sem crédito para exportar, ou seja, não ganham com o aumento do dólar sobre as vendas que já tinham prometido, e nem conseguem crédito para vender mais. Para o economista José Roberto Afonso, um dos "pais" da Lei de Responsabilidade Fiscal, "há uma bomba-relógio montada no campo fiscal".

O que seria herança maldita para o sucessor, pode explodir no colo de quem a gestou. Se a receita cair mais rapidamente do que se pensava, o governo ou terá que cortar gastos, ou cortar fundo nos juros e no superávit primário.

"Como será impossível ajustar via recarga tributária, finalmente Lula terá que escolher se brigará com os servidores, os aposentados e os bolsistas, ou com os banqueiros. Não vai dar mais para bolsas aos ricos e aos pobres", completa Afonso.

A equação é simples: até aqui, o equilíbrio fiscal tem sempre se baseado no aumento de receita tributária, e esta, com o decréscimo do crescimento da economia, vai começar a cair.

Já há informações de que, passado o segundo turno das eleições municipais, o governo vai apresentar uma reforma do Imposto de Renda, com novas e maiores alíquotas, e até estariam pensando novamente no imposto sobre grandes fortunas.

Não existe um consenso sobre a rapidez da desaceleração da economia, em virtude da recessão global que se avizinha. Há economistas, como Edmar Bacha, do BBA-Itaú, que já prevêem uma queda de crescimento de 5% este ano para 2% em 2009, o que representaria um baque formidável em termos de emprego e investimentos e, na prática, um crescimento zero no próximo ano.

Outros, como José Roberto Afonso, acham que a desaceleração da economia brasileira não será tão rápida como a européia, a japonesa ou mesmo a americana: só o embalo de crescimento em que estamos este ano já garantiria 2,6% de expansão em 2009. "Ou seja, uma taxa abaixo disso só ocorreria se entrarmos em forte recessão já no início do próximo ano, e por ora não há tendência disso", comenta.

O lado real da economia será contaminado pela crise financeira, mas ainda levará um pouco de tempo. "Passado o incêndio, câmbio e crédito voltarão aos poucos para a normalidade, mas, em outro nível, sem a farra do câmbio valorizado ou do crédito fácil do passado", analisa Afonso.

Já Edmar Bacha, que deu uma palestra no Centro de Estudos Brasileiros na Universidade Columbia, acha que o governo, com as reservas de mais de US$200 bilhões, tem condições de decidir quando intervir no câmbio, não havendo o perigo de perder as reservas para garantir uma taxa cambial, já que o câmbio é flutuante e não mais fixo, como era nas primeiras crises internacionais vividas pelo país nos anos 1990 do século passado.

Bacha está relativamente otimista com a situação econômica do país, e diz que o único perigo é o governo insistir em manter um crescimento do PIB no mesmo nível de 2007 e 2008, o que considera impossível diante da crise internacional.

Já o economista José Roberto Afonso acha que a economia brasileira teria que mudar diante do quadro novo, e adverte: "Seria um suicídio completo subir taxas de juros e, se Lula gosta tanto de ser Primeiro Mundo, já está atrasado para diminuir a taxa, como fizeram todos os bancos centrais, inclusive o chinês. Mesmo que corte igual aos outros, poderá ficar tranqüilo que continuará pagando a maior taxa de juros reais do mundo".

Para ele, "será impossível continuar brincando com o câmbio". Não poderemos mais ficar brincando de "exportadores financistas", que exportavam barato ou até com prejuízo para ganhar no circuito financeiro.

Na coluna de ontem troquei as bolas: é a dívida externa dos Estados Unidos que está em US$10 trilhões, e não o déficit externo.