segunda-feira, 17 de novembro de 2008

O PPS e a candidatura de José Serra


Luiz Sérgio Henriques
Editor do site Gramsci e o Brasil

O que esperam muitos filiados do PPS e, também, amigos e simpatizantes do partido, veteranos filiados do PCB, que ainda o têem como referência na hora de tomar uma decisão política? A pergunta ganha nova atualidade diante das eleições de 2010, cujo cenário já começa a se armar claramente diante dos nossos olhos.

Pelo menos um ponto é certo: a posição do PPS, nesta conjuntura que está destinada a se acelerar e até a se tornar dramática com a sobreposição da crise econômica global, não pode ser meramente reativa às propostas do PT e do bloco ora no poder. E, também, não deve carregar o selo de adesão passiva a qualquer uma das candidaturas que têm se apresentado no campo oposicionista, especialmente as dos governadores José Serra, de São Paulo, e Aécio Neves, de Minas Gerais. Ao contrário, segundo a expectativa de muitos amigos e simpatizantes, o PPS deve se fazer portador de idéias e convicções próprias de uma esquerda moderna, democrática; um tipo de esquerda, aliás, que conhece penosa construção no nosso país, mas que ocasiões como a de 2010, além do significado eleitoral óbvio, podem contribuir para que vá adiante nas condições possíveis.

Por se pretender uma esquerda democrática, consciente dos seus deveres de obediência à Constituição republicana, o PPS acertadamente há muito se colocou, com autonomia, no campo das oposições. Sua ação, ainda que modesta, foi vista muitas vezes ao lado do PSDB, a quem não considera como um partido “neoliberal” pura e simplesmente; e ao lado do DEM, um partido que, com distantes raízes no regime militar, credenciou-se ao jogo democrático, representando legitimamente setores moderados e mesmo conservadores da nossa sociedade.

O pequeno PPS teve, assim, a valentia de se situar na oposição, num país em que, tradicionalmente, os recursos do poder, se não podem tudo, podem muito, inclusive interferir pesadamente na vida partidária, dessangrar os partidos de oposição, tornar irrelevante, ou quase isso, a função do Parlamento.

E foi assim que, antes mesmo dos episódios conhecidos como “mensalão”, o PPS descolou-se do bloco no poder e depois denunciou, na medida das suas forças, essa tentativa de corrupção institucional – talvez a pior das corrupções. Todo o episódio, de resto, ainda está sub judice, e cabe ao Supremo Tribunal Federal pronunciar-se sobre ações e personagens que o procurador-geral da República houve por bem arrolar como participantes de “sofisticada organização criminosa”.

Não se trata de condenar e nem mesmo desprezar todo um partido com a importância e a complexidade do PT, cuja chegada ao poder federal consagrou uma democracia efetivamente plural e fundada na alternância, sem nenhum tipo de exclusão. Mas o fato é que há diferenças com este partido e sua cultura política, e estas diferenças se consubstanciaram, por exemplo, em 1988, quando o então PCB aderiu com convicção íntima à Carta da democracia e fez dela o seu programa, o seu projeto mais fundamental para a sociedade brasileira. Como sabemos, não é o caso do PT, que manteve e mantém relações atribuladas com a Carta de 1988.

O PPS, felizmente, não se deixou absorver pelo PSDB durante os dois mandatos de FHC. Também o PSDB, tal como o PT, a seu modo era portador de idéias de ruptura e negação do passado, com as quais não concordávamos inteiramente. Havia se esgotado o nacional-desenvolvimentismo da era Vargas, reinterpretado pelos militares durante o regime de 1964? Sem dúvida alguma. Na verdade, era preciso, e ainda é, equacionar os termos de um novo tipo de desenvolvimento, cuja insubstituível premissa básica é a plena vigência das instituições democráticas, que, aliás, parte não desprezível da esquerda no poder ainda considera meramente instrumentais. Mas consideramos que os governos de FHC não cumpriram plenamente aquela tarefa de redefinição do desenvolvimentismo e, muitas vezes, até levaram-na adiante de modo pelo menos equívoco. Eram tempos de irrefletida autocelebração dos mercados...

Então, muitos simpatizantes do PPS viram favoravelmente a posição autônoma do partido em relação aos anos FHC. Sabem que o partido criticou duramente a manobra da reeleição, uma indefensável alteração constitucional feita sob medida para os detentores do poder. Sabem também, em retrospecto, que os dois governos FHC, se não representaram de modo algum um neoliberalismo extremado à Thatcher ou à Reagan, pecaram por “economicismo”, especialmente o núcleo duro malanista, que marcou de ponta a ponta os dois períodos presidenciais de FHC.

Mas, ao lado deste núcleo econômico liberal e em conflito latente ou aberto com ele, havia uma autocrítica prática, um contraponto constante representado pelo então ministro da Saúde, José Serra. E convém ao PPS, por sua trajetória, por seu apego à democracia e aos problemas históricos do desenvolvimento, associar-se a essa autocrítica prática, escorada numa sólida visão cepalina, que sobreviveu e se renovou durante os anos da reforma liberal: esta posição é possivelmente o que o país tem de mais consistente para enfrentar tempos particularmente difíceis, como os que vão se abater em cheio sobre o próximo mandato presidencial.

Por isso, o que esperamos do PPS é uma firme e imediata tomada de posição pró-Serra. Não se trata de hostilizar Aécio Neves, que de fato não pertence à “direita neoliberal”, ainda que tenha posições menos nítidas do que José Serra quanto às políticas pró-ativas de Estado. Ao contrário, Aécio deve ser incorporado por todos os títulos à coligação oposicionista, representativo, como é, de um estado tão importante na política e na tradição republicana. Além do mais, ninguém pode deixar de valorizar o recente movimento de Aécio em direção ao PT de Belo Horizonte, ocorrido por ocasião das últimas eleições municipais. É uma ação que contribui para a necessária normalização da dialética democrática entre governo e oposição: governar não é ignorar ou tentar suprimir a oposição; e fazer oposição não é contar “bravatas”, o que só contamina os costumes políticos.

Mais fundamental ainda é o papel que o PPS deve ter no sentido de contribuir para o constante aggiornamento do programa de Serra, que não pode se ver reduzido a uma “eficiente” gestão tecnocrática da economia. O novo desenvolvimentismo a que aspiramos não pode mais prescindir, sob pena de degradação do sistema produtivo e das condições de vida da população, nem de um forte compromisso de combate à exclusão social nem da assimilação crítica dos já incontornáveis temas ambientais. Os níveis de pobreza são um desmentido acintoso às nossas pretensões de fundar uma original civilização brasileira, e sua redução a um patamar pelo menos razoável não pode mais ser adiada para uma “segunda etapa”, depois do saneamento econômico. E o ambiente não é mais um “custo” econômico, mas sim uma oportunidade ímpar para a pesquisa científica e para a criação de novos modos de viver, produzir e consumir, requeridos neste momento de crise civilizacional.

Há todo um enorme contingente de jovens, um enorme leque de homens e mulheres da cultura e da técnica a serem atraídos por uma perspectiva concreta de desenvolvimento e democracia. Diga-se de passagem que a recente campanha de Fernando Gabeira, no Rio de Janeiro, demonstrou o potencial de participação que atualmente está quase todo à margem da ação política convencional e pode se perder nos descaminhos da apatia e da “antipolítica”. O PPS apoiou Gabeira, participando do que veio a ser, mais do que uma campanha convencional, uma feliz tentativa de reinvenção da política, que pode ter implicações nacionais já agora em 2010.

Esperamos que o tenha. E esperamos que a imaginação progressista do país, que nunca foi pequena, encontre no modesto PPS um canal privilegiado para se manifestar, enriquecendo decisivamente a candidatura e o projeto nacional em torno de Serra, contra qualquer tentativa anacrônica de recuperar o nacional-desenvolvimentismo em chave autoritária.

DISSERTAÇÕES SOBRE A REVOLUÇÃO BRASILEIRA


Raimundo Santos
Professor da UFRRJ/CPDA


Este livro é uma nova reunião de textos caipradianos publicado após muitos anos da última coletânea. Estamos novamente diante, num único volume, do outsider interpelador das esquerdas brasileiras. Caio Prado viveu como um grande intelectual comunista, sem ter o seu marxismo político plenamente apropriado pelo PCB.

Agora, neste lançamento de Dissertações sobre a Revolução Brasileira, o que podemos trazer do clássico para a UFRRJ? O seu estilo de pensamento. Podemos lembrar a equação com que Caio Prado antecipara o nosso mundo rural ora modernizado. Um mundo, como dizia ele, marcado por grandes setores e um largo contingente de "empregados agrícolas", dinamizador da economia nacional à medida que nele se enraizasse associativismo permanente (sindical) e se estendesse a proteção de direitos.

Por possuir uma interpretação do Brasil, o clássico comunista permanece na bibliografia e na nossa melhor tradição de pensar o país. Recordemo-lo hoje aludindo ao sentido maior da sua publicistica. Sem domínio teórico da circunstância brasileira – este é ponto do nosso marxista político –, os protagonistas que pretendem operar mudanças tendem ao agir errático, quando não pernicioso, como, aliás, se vê em não poucas cenas da vida nacional dos últimos tempos.

A organização do volume nas seções "A Formação Social", "A Revolução na Periferia", "A Política Contemporânea" e "A Reforma do Mundo Rural" procura mostrar as três principais dimensões que se cruzam na trajetória de Caio Prado Jr. Além de incluir textos relativos às mais conhecidas (as do historiador e do intérprete do nosso mundo rural), esta coletânea traz escritos do teórico do reformismo brasileiro e do analista de conjuntura que também foi Caio Prado, principalmente nas páginas da sua saudosa Revista Brasiliense.

SOBRE O LIVRO: Caio Prado Jr., Dissertações sobre a Revolução Brasileira, org. Raimundo Santos; ed. Brasiliense e Fundação Astrojildo Pereira, São Paulo-Brasília, dezembro de 2007.
[
Livrariabrasiliensee@editorabrasiliense.com.br; fundação@astrojildo.org.br].

* Texto lido na Tarde de Autógrafos promovida pela UFRRJ, em 12/11/08, no contexto da I Feira de Editoras Universitárias do Rio de Janeiro.

De olho na crise


Wilson Figueiredo
Jornalista
DEU NO JORNAL DO BRASIL

Os Estados Unidos acabam de mostrar nas urnas que são o país onde tudo é possível (inclusive no bom sentido), mesmo que a título precário. Foi o próprio Barack Obama quem se lembrou da frase a que sua vitória deu novo e mais amplo sentido. A dois anos de distância da sucessão presidencial, ao brasileiro de classe média basta por ora a certeza de que as reformas de fundo político são viáveis e, portanto, dignas de prioridade. Que se apresentem. As mais urgentes viriam a calhar nos dois anos que faltam para a sexta sucessão presidencial pelo voto direto. Será marca histórica. Sob a Constituição de 1946, chegamos a quatro, e a crise não esperou mais para fazer o serviço sujo. Falta consolidar a etapa da eleição presidencial, acrescida (em operação de contrabando político) do segundo mandato a ser removido na limpeza ética, sempre adiada.

Com a crise financeira ninguém contava, nem mesmo os pessimistas exacerbados desde que o presidente Lula, todos os meses, esbanja simpatia da opinião pública. Não estavam preparados para tanto. Já os favorecidos não estavam se sentindo bem desde que a História, depois de presenteá-los com a bonança do capitalismo por cima das fronteiras, lhes preparou a cilada. A crise financeira– de fora para dentro e de dentro para dentro – pode não se dar bem e estranhar a sucessão presidencial de 2010. Para afugentar sombras do passado, Lula foi espairecer no exterior. Ao contrário dos Estados Unidos, onde tudo é possível, tudo no Brasil é mais imprevisível do que possível. A crise financeira veio de fora para dentro do país, e gerou uma incógnita: quem responde por ela? Quem vai enxotá-la?

O presidente Lula já deu a sua contribuição ao despachar para as calendas gregas o terceiro mandato. O resto é com os políticos que vivem a mais baixa cotação na opinião pública desde que as pesquisas passaram a fazer parte do equipamento democrático. O brasileiro gostaria mesmo era de verificar que reformas no Brasil não são inviáveis. E, se não fosse pedir demais, conhecer a razão pela qual tantos políticos são a favor das reformas e, mesmo assim, na hora de passar do cochicho ao voto em plenário, as propostas são historicamente empilhadas. Servem apenas para solfejos de oratória parlamentar fora de moda porque acabam abatidas em pleno vôo por fatores aleatórios. O exemplo clássico, digno de figurar nos manuais, é a dificuldade de relacionamento do brasileiro com o parlamentarismo, vítima da eterna unanimidade disposta a barrar mais democracia do que dispomos.

Com esta crise financeira ninguém contava, exceto os pessimistas de sempre e os oposicionistas eventuais, aflitos para verem o presidente Lula pelas costas e o despejo do PT. Por sua vez, Lula & Cia estavam certos de que a História, depois de bonificá-los com as facilidades do capitalismo neoliberal, lhes reservasse uma dessas. A questão foi apresentada de fora para dentro e armou uma armadilha: quem responde pela crise? Quem vai providenciar a retirada da intrusa antes que a sucessão presidencial se precipite?

É certo que as duas – a crise financeira de fora para dentro e a sucessão de dentro para dentro – poderão estranhar-se antes da hora. Ao contrário dos Estrados Unidos, tudo entre nós é mais imprevisível do que possível. O Brasil não convidou a crise financeira para passar por aqui a caminho dos países que se prepararam para merecer sua presença ilustre. Nem pensar em nova doutrina continental, tipo "um por todos e todos pela crise". Lula tratou de ficar de fora sem entender, depois de fazer o dever de casa, o papel que lhe foi atribuído. Faz de conta que a crise não tem a ver com o Brasil nem com ele. Considera seu governo aparelhado para o que der e vier, se é que chegará por aqui. O que está na agenda é a sucessão presidencial com voto direto, pela sexta vez sem registro de contestação legal nas cinco anteriores. É saldo histórico. Por enquanto, os dois lados – governo e oposição – vão se comportando à altura (que não dá vertigem) da crise sem densidade dramática. O presidente Lula vai deixar de fazer hora extra no exterior e empenhar-se aqui mesmo em regime de dedicação exclusiva. Quem sabe em favor das reformas políticas para as quais o tempo é suficiente, se não faltar vontade. Com a sucessão no horizonte, um toque dramático poderá devolver à política a temporada de grandes espetáculos.

Estado-arena e Estado-sujeito


Fábio Wanderley Reis
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Tenho tomado às vezes o tema da autonomia do Estado e as ambigüidades que envolve. Uma primeira delas é o que há de equívoco quanto ao reclamo de que o Estado seja ou não seja autônomo: o ideal de "soberania popular", supondo um "povo" homogêneo, repele a idéia do Estado autônomo, mas o reconhecimento da desigualdade social justifica a busca de autonomia do Estado, de forma a evitar que ele se torne o instrumento dos interesses poderosos. Esse espaço de problemas se superpõe parcialmente ao recoberto pela distinção entre o Estado como "sujeito", que estabelece e persegue com um grau importante de autonomia os seus próprios fins, e o Estado como "arena", em cuja aparelhagem os interesses diversos da sociedade se fazem representar e produzem de maneira mais problemática os fins a serem perseguidos pelo Estado, como resultante de sua interação institucional e democrática. Um bom "Estado-arena" é condição do bom "Estado-sujeito", conformado de modo a permitir que o grau necessário de autonomia redunde na busca efetiva do interesse público. Em todo caso, o que está em jogo aqui é a relação da máquina geral do Estado com os interesses que se dão na sociedade, e os perigos a serem evitados correspondem ao que alguns chamaram de "pretorianismo", indicando o jogo de vale-tudo em que forças diversas usam recursos de qualquer natureza para promover no Estado seus interesses próprios ou, eventualmente, implantam a ditadura e o controlam de vez pela força.

Mas o Brasil do momento permite apreciar um outro sentido que a expressão "Estado-arena" pode adquirir: aquele em que setores diversos da própria aparelhagem do Estado, e até diferentes partes de cada um de diversos setores, passam a constituir-se em interesses antagônicos e a enfrentar-se entre si. Polícia contra polícia, polícia contra Abin, Justiça contra polícia, cortes superiores de Justiça contra juízes de instâncias inferiores, Congresso contra Justiça, Ministério Público a cutucar de lá e de cá... Claro, nem todos os enfrentamentos que presenciamos merecem ser avaliados nos mesmos termos do ponto de vista dos desígnios maiores a orientarem nosso arcabouço institucional, e alguns deles são mesmo parte institucionalmente normal do relacionamento entre diferentes órgãos no cumprimento da função jurisdicional do Estado. Mas creio haver uma pergunta de grande relevância: a de até que ponto as deficiências do nosso Estado quanto a constituir-se em arena democraticamente equilibrada dos grandes interesses da sociedade como tal (em alguns casos interesses antes latentes, justamente pela carência de condições de se tornarem politicamente vocais) seria o fator talvez decisivo das brigas miúdas que causam cada vez maior perplexidade.

Os casos em que o Judiciário se vê diretamente envolvido têm, naturalmente, maior interesse. Tratando-se do poder de que se espera a garantia isenta e douta da lei e do direito, é perturbador ter seus representantes, em instâncias formais ou informais, em refregas frequentes e bate-bocas irados. Tem-se falado de "judicialização da política" e "politização da Justiça". Há um sentido em que a primeira pode até ser vista com bons olhos: trata-se, afinal, do recurso de contendores políticos às agências destinadas precisamente a dirimir os conflitos. O problema reside na politização da Justiça (que a excessiva judicialização da política pode acabar por favorecer) e, especialmente, no fato de que essa politização possa assumir, por exemplo, a forma desmoralizante de brigas públicas entre juízes de instâncias diversas que se xingam enquanto invocam princípios elevados para prender e soltar - e enquanto algum deles não acaba na cadeia ele próprio.

Vimos há dias o juiz Fausto de Sanctis a defender publicamente, no Rio, um ativismo jurídico que parte da idéia de que a Constituição é mutável e dinâmica para defender atuação menos ortodoxa no caso de crimes de colarinho branco. Apesar de sua atuação na direção contrária no caso rumoroso de Daniel Dantas, também de membros do STF temos visto a mesma defesa de uma postura ativista, em que competiria ao órgão não apenas interpretar a Constituição, mas ocasionalmente também reinterpretá-la - e legislar, portanto. Essa postura ativista ou "construtivista" se mostra com nitidez na história do Judiciário dos Estados Unidos, por exemplo, donde o conflito político e as idas e vindas em torno da composição conservadora ou progressista da Suprema Corte. A diferença, como já apontei aqui anteriormente, reside no caráter decididamente partidário que o enfrentamento assume no caso dos EUA, o que, quando nada, envia ao cidadão sinais claros, de certa maneira, sobre o que se acha em jogo na disputa. Não obstante o que se possa salientar de negativo na talvez excessiva penetração institucional dos partidos e suas consequências na partidarização da própria Justiça, temos com as organizações partidárias, no caso estadunidense, um fator de agregação dos múltiplos conflitos que corresponde a uma das funções classicamente atribuídas aos partidos, ao lado da de mera vocalização dos interesses "dados" na estrutura social.

Em nosso caso, os partidos estão longe de executar de maneira adequada e sociopsicologicamente densa essa função agregadora. Daí a preponderância fatal, no condicionamento geral do exercício da função jurisdicional do Estado, do papel cumprido em surdina pelo fosso social produzido por nossa longa história de desigualdade. As relações de causalidade são complexas, e o fosso social é ele mesmo, com certeza, um grande obstáculo ao enraizamento de partidos agregadores e efetivos. De todo modo, nessa arena precária, um bom Estado-sujeito é provavelmente um sonho vão.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

Lula-aqui, Evo-ali, Obama-lá


Augusto de Franco
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


O reforço dessas condições extrapolíticas, conquanto possa ter efeito simbólico importante, conspira contra a política (democrática)

EM PARTE por concepção, em parte por esperteza, Lula resolveu contrair a obamania. Nas vésperas da eleição americana, ele declarou: "da mesma forma que o Brasil elegeu um metalúrgico, a Bolívia, um índio, a Venezuela, o Chávez, e o Paraguai, um bispo, seria um ganho extraordinário se a maior economia do mundo elegesse um negro". É ruim.

Salva-se nessa lista de admirações só o próprio Obama. Os outros são ou serão protoditadores ou ditadores, com exceção de Lula, que é apenas um líder neopopulista manipulador. É ruim também. Mas é menos pior.A esperteza de Lula é usar a obamania para legitimar a lulomania. Ou a evomania. Ou a chavezmania. São manias de não gostar da democracia.

Isso é tão óbvio que não pode estar em discussão. Se Lula gostasse de democracia, não teria declarado tantas vezes que Chávez "peca por excesso de democracia".

Para entender, é preciso ver que Lula não quer ser chefe de governo.Nunca quis. Ele quer ser condutor de rebanhos, guia de povos. Quer palanques extraordinários, não a ordinária rotina das tarefas administrativas.

Frans de Waal já nos cansa há anos com suposições sobre uma "Chimpanzee Politics". Ele está redondamente enganado, é claro. Mas suas hipóteses vêm a calhar para a comparação seguinte: quanto mais você se parece com um chimpanzé, mais precisa de líderes extraordinários, machos alfa e outros condutores de rebanho.

Na democracia, cada um que pense com sua cabeça, faça suas escolhas e ande com as próprias pernas. Quem precisa ser conduzido como rebanho é gado, não gente. Quem gosta de conduzir o povo pela mão são os sociopatas (e genocidas, como Mao, o "guia genial dos povos") e os vigaristas (como certos pastores e palanqueiros).

A democracia não precisa de líderes extraordinários, superhomens, caudilhos carismáticos que eletrizam as multidões e arrebatam as massas em nome de um porvir radiante. A democracia, como dizia John Dewey, é o regime das pessoas comuns; sim, das ordinárias, não das extraordinárias.

Mas Lula, significativamente, tem especial predileção pela palavra: assim como a vitória de Obama seria "extraordinária", aquele seu primeiro ministério, detonado pelas suspeitas e acusações formais de crime, roubo e formação de quadrilha, ele também o qualificava como "extraordinário".

Quem precisa de coisas extraordinárias, mitos fundantes (líderes ungidos, predestinados a cumprir um papel redentor), utopias fantásticas (reinos milenares de seres superiores ou regimes universais de abundância) são autocracias, não democracias.

Quase dois terços dos americanos não foram votar no mulato Obama.

Dos que foram votar, quase a metade preferiu o macho branco caucasiano McCain. Obama, com superávits de melanina em relação a McCain, não por isso vai conduzir as massas para qualquer paraíso. E nem vai governar o tempo todo lembrando a sua condição extraordinária de negro. Se fizesse isso, seria um negro de araque.Já Evo é um índio de araque, nesse particular, igualzinho a Lula, um metalúrgico de araque. Sim, ele o foi, mas não é mais. Há muito tempo. Aliás, já passou mais tempo como profissional do palanque, sustentado "sem produzir um botão" (a expressão é dele) por dinheiro partidário e de financiadores privados, do que como metalúrgico de chão de fábrica.

Quem pode viver disso não é a política (democrática), mas aquela ideologia sociológica que pretendia encontrar na extração social alguma razão para explicar e legitimar o comportamento do agente. O lugar de onde ele fala não seria então o lugar que ocupa quando fala, senão um lugar pretérito, originário, abstrato, capaz de lhe condicionar a trajetória e absolvê-lo de todos os erros passados e futuros.

A empulhação se generalizou, em parte baseada na visão equivocada de que a origem de classe ou de raça ou cor tem alguma coisa a ver com a democracia. Não tem, pelo contrário: o reforço dessas condições extrapolíticas, conquanto possa ter um efeito simbólico importante, conspira contra a política (democrática). Uma pessoa deve ser escolhida pelas suas opiniões, não por sua extração, origem, identificação antropológica.

Lula-aqui, Evo-ali e Obama-lá são movimentos regressivos. Obama não tem culpa. Ao contrário de Lula e de Evo, ele está convertido à democracia. Mas a obamania, assim como a lulomania e a evomania, aborrece a democracia.

AUGUSTO DE FRANCO , 58, é autor, entre outros livros, de "Alfabetização Democrática". Foi conselheiro e membro do Comitê Executivo do Conselho da Comunidade Solidária durante os governos FHC (1995-2002).

A crise cambial de 2008


Luiz Carlos Bresser-Pereira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

O Brasil fica em situação intermediária; sofreu uma crise cambial porque deixou que o câmbio se valorizasse

A FASE DE pânico foi superada, mas a crise financeira continua forte e está agora se transformando em crise do setor real da economia. Os governos procuram neutralizar seus efeitos mais negativos, mas estes serão tanto maiores quanto mais frágil financeiramente for a economia do país. Nos países ricos a crise é bancária, e os mais atingidos serão os países que deixaram seus bancos menos regulados, como são os casos dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha.

Já nos países em desenvolvimento a crise financeira é uma crise do balanço de pagamentos; não foram os bancos que emprestaram e especularam de forma irresponsável, mas foram os países que se fragilizaram internacionalmente ao permitir que sua taxa de câmbio se apreciasse e seu déficit em conta corrente alcançasse níveis elevados. Estão nesse caso, entre outros, os países do Leste Europeu, o México e a África do Sul, cujas moedas sofreram forte depreciação.

Em contrapartida, os países asiáticos e a Argentina estão em condição mais confortável porque não permitiram a apreciação do seu câmbio; sofrerão também os efeitos da crise financeira, mas não são, eles próprios, fonte de crise porque não seguiram o conselho da ortodoxia convencional que aconselhava os países em desenvolvimento a "crescer com poupança externa". O Brasil fica em uma situação intermediária. Sofreu também uma crise cambial porque deixou que sua taxa de câmbio se valorizasse.

A apreciação tinha, naturalmente, o apoio da ortodoxia convencional interna e externa que saudava a volta do Brasil à condição de déficit em conta corrente como a volta à "condição natural das coisas" para os países em desenvolvimento.

O déficit em conta corrente, porém, ainda não estava elevado, não havendo, portanto, um problema de dívida externa insustentável, mas isso não impediu que a crise cambial também se expressasse na depreciação violenta do real. Dada a sobreapreciação anterior do real, o déficit em conta corrente aumentava de forma explosiva.

O fato não passou despercebido pelo mercado financeiro internacional, que se deu conta que neste ano esse déficit chegaria perto de 3% e, em 2009, estaria próximo de 5% do PIB (Produto Interno Bruto). O Brasil deixou, assim, de ser um mercado seguro para os aplicadores que não hesitaram em suspender a rolagem dos seus créditos. Ao contrário das crises de 1998 e de 2002, esta foi uma crise financeira "antecipada".

Ao contrário, também, das duas crises anteriores, o país contava com reservas internacionais elevadas, superiores a US$ 200 bilhões. Esse fato, entretanto, não impediu que a crise se desencadeasse, porque essas reservas foram, no plano interno, construídas com base não em superávits em conta corrente, como é o caso, por exemplo, da China, mas com base em endividamento externo; e, no plano interno, não decorreram de superávit fiscal em reais, mas de endividamento público interno.

Entre 2001 e julho de 2008, as reservas internacionais do Brasil aumentaram em US$ 167,8 bilhões. Nesse período, porém, o saldo acumulado em transações correntes foi de apenas US$ 6,8 bilhões, de forma que 96,4% do aumento das reservas foi obtido pelo país com financiamento externo financeiro e patrimonial (investimentos diretos). Como não houve superávit público, 100% desse aumento foi financiado com dívida interna. Não é surpreendente que essas reservas não fossem seguras.

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA , 74, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/sistema_clipping/mostra_opiniao.asp?id=1150&portal=

domingo, 16 de novembro de 2008

Cenários para 2010


Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Como os grandes bancos na crise, os grandes partidos não querem apenas fazer alianças, querem engolir os pequenos. Com o poder central em disputa, o resto é conseqüência

A crise mundial é uma “externalidade negativa” na linguagem dos economistas. Ou seja, uma variável fora de controle, para a qual é necessário adotar medidas capazes de neutralizar seus efeitos, já que é impossível evitá-los. A marolinha deixou de ser ameaça, virou agressão ao consumo, ao crédito, à produção e ao emprego no Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva pôs as barbas de molho. A equipe econômica já não se entende sobre a taxa de juros. Em outras circunstâncias, a política econômica estaria “blindada” e interditada ao debate político. Mas são os políticos que comandam, neste final de semana, na reunião do G-20 em Washington, a operação de salvamento da economia mundial.

O governo

O presidente Lula edita uma medida provisória atrás da outra para neutralizar os efeitos da crise. Criou linhas de créditos para comprar carteiras de bancos, com imunidade judicial para os operadores dessas aquisições. Outra medida provisória permite ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica salvar instituições financeiras, montadoras e construtoras. O Banco Central opera diariamente no mercado financeiro e na Bolsa para controlar a cotação do dólar e manter os investimentos estrangeiros. O crédito, porém, não chega aos médios e pequenos empresários na velocidade necessária; os consumidores estão retraídos, mais preocupados com a liquidação das dívidas; as empresas puxam o freio de mão dos investimentos e contratações.

Nesse ambiente, os políticos aliados do governo Lula e a oposição fazem planos para a sucessão presidencial em 2010. Há três cenários, todos contingenciados pela tal “externalidade negativa”.

O mais otimista acredita num desfecho positivo das medidas adotadas pelos governos europeus, da China e de outros países asiáticos, mas, sobretudo, por ações do presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, após a posse. Nesse cenário, o presidente Lula mataria a bola no peito e faria um gol de placa: a crise seria debelada no Brasil. A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, à frente do nosso “New Deal” (o vitorioso programa de investimentos públicos que tirou os Estados Unidos da Grande Depressão na década de 30), no caso o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), chegaria a 2010 como candidata favorita. Esse é o Plano A do governo Lula.

O cenário mais pessimista é imaginado pela turma do “quanto pior melhor”. A crise mundial seria uma nova depressão econômica, com os governos dos países desenvolvidos tentando transferir os prejuízos para a periferia, como sempre aconteceu. A crise chegaria ao Brasil com toda força: deterioração dos fluxos cambiais, com um rombo na conta corrente de comércio exterior devido à redução dos preços e das vendas de commodities; e déficit fiscal galopante, em razão da queda de arrecadação e despesas ascendentes com pessoal sugando os recursos para os investimentos do PAC. Nesse ambiente, Lula terminaria o governo como “pato manco”. Os governos de São Paulo e Minas também seriam engolidos pela crise. Estaria aberto o espaço para um candidato outsider descolado do establishment.

O terceiro cenário, diria o falecido João Saldanha, “é mais ou menos”: recessão controlada nos Estados Unidos, Europa e Ásia, com certo nível de atividade econômica nos países emergentes, alavancados pelo crescimento moderado da China. Nesse contexto, a sucessão de 2010 seria uma disputa aberta, na qual a situação da economia neutralizaria o peso da máquina pública e o prestígio pessoal de Lula. Uma disputa onde os partidos, seus políticos e a política propriamente dita teriam mais autonomia em relação ao governo federal.

Como o Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou a cassação dos mandatos dos deputados que trocaram de partido, precipitou-se o reagrupamento de forças políticas para sucessão de 2010.

Fala-se muito em reforma política, mas os grandes partidos estão interessados em duas coisas apenas: o fim das coligações nas eleições proporcionais e novo prazo para a troca de partidos.

Como os grandes bancos na crise, os grandes partidos não querem apenas fazer alianças, querem engolir os pequenos. Com o poder central em disputa, o resto é conseqüência.

Um deputado para ser eleito, com raríssimas exceções, precisa dos votos de legenda para atingir o quociente eleitoral. Caso o Congresso aprove o fim das coligações, muitos ficarão em risco eleitoral. Isso cria um dilema: ou o parlamentar fica no partido, e corre risco de não ser eleito; ou migra para outro partido, onde pode se eleger. Por isso, há dois movimentos: um é dos políticos em risco eleitoral que buscam uma solução individual; o outro, dos partidos ameaçados de esvaziamento, que tentarão encontrar uma saída coletiva por meio de fusões e incorporações.

Sob o rigor da lei de Gérson


Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Com toda força adquirida depois de conseguir uma vitória suada para a Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, a capital de maior visibilidade do País, o governador Sérgio Cabral continua sendo voto vencido dentro do próprio partido.

Tenta, já sabendo que não terá a menor chance de sucesso, que o PMDB deixe de lado a “falsa malandragem” da dubiedade como arma de pressão eterna e assuma uma posição de fidelidade explícita e permanente ao governo Luiz Inácio da Silva.

Em todos os aspectos: do respeito ao acordo pelo comando das presidências do Congresso, deixando o Senado para Tião Viana do PT, até a permanência do partido na aliança governista na eleição de 2010.

Mesmo se for para perder?

“Mesmo assim.”


A menos, ressalva, que o PMDB tenha algum “político tarimbado” para se apresentar à disputa marcando uma posição de protagonista. Como, na visão dele, esse personagem não existe no horizonte, não há razão para suspense: “É ficar com o PT”.

A repetição do jogo da divisão pragmática entre as canoas mais bem posicionadas pode manter o PMDB no poder, ganhe quem ganhar. Mas, na opinião do governador, “só vai aprofundar o desgaste do partido”.

Para ele, passou da hora de o PMDB “eliminar esse tipo de postura”. Qual seja, a de levar vantagem em tudo, certo?

Na última reunião em Brasília para tratar das eleições na Câmara e no Senado, Cabral diz que defendeu uma definição nítida e imutável. Em vão.

“Temos as maiores bancadas, o direito de reivindicar o comando das duas Casas, mas, por uma questão de confiança e espírito de aliança, deveríamos apoiar o PT no Senado, ficar com a Câmara e, assim, consolidar a parceria.”

Não haveria por trás dessa enfática defesa da fidelidade a mesma visão pragmática que orientou o discurso do candidato a prefeito Eduardo Paes, a quem Cabral levou a se reconciliar com Lula em nome do trânsito livre de verbas de Brasília para o Rio?

De fato, mas até o pragmatismo requer regras de confiabilidade e reciprocidade. O tratamento que Lula dá ao PMDB como um todo justificaria, na concepção de Sérgio Cabral, o abandono da ambigüidade.

“Nunca fomos tratados com tanta respeitabilidade, com entrada franqueada pela porta da frente; agora seria a hora de retribuir na mesma moeda.”

Inútil especular sobre as chances de acontecer. Sérgio Cabral faz a crítica, mas não atropela os interesses do partido.

Ponta cabeça

Se o ministro da Saúde for abatido pela permissividade do presidente Lula frente a um cada vez mais atrevido PMDB, José Gomes Temporão deixará como legado o melhor serviço prestado nos últimos tempos à transparência das relações entre o Poder Executivo e sua base de apoio no Legislativo.

A reação do partido - dono da “cota” da Saúde - ao desabafo de Temporão sobre a corrupção e a ineficiência existentes na Fundação Nacional de Saúde não deixa dúvida sobre a noção de governabilidade reinante na Esplanada.

“Reconhecemos em Temporão um técnico muito conceituado, mas ministro é também função de liderança política. É preciso saber ouvir, interagir, respeitar e ter a sensibilidade da boa convivência”, diz o líder da bancada na Câmara, deputado Henrique Alves, traduzindo a seu modo as reclamações de que o ministro não dá a devida atenção aos parlamentares nem à liberação dos recursos das emendas ao Orçamento.

Quer dizer, o ministro da Saúde faz tudo direito. Cuida prioritariamente das tarefas afetas à pasta e, quando se vê confrontado com lobbies contra a transferência da política de saúde indígena para a jurisdição de seu gabinete, põe o dedo na ferida exposta da corrupção na Funasa, objeto de reiteradas e públicas denúncias.

Ainda assim, ou por isso mesmo, o PMDB pede sua saída; e o faz pelo motivo errado: a prioridade dada pelo ministro aos assuntos atinentes à saúde do público em detrimento das conveniências do partido.

Este mesmo PMDB, vale lembrar, reivindica a pasta da Justiça sob a qual está a Polícia Federal.

Olha cá

O senador José Sarney registrou seus primeiros desconfortos em relação ao presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, sexta-feira, em seu artigo semanal na Folha de S. Paulo.

Sarney não gostou do excesso de informalidade no discurso da vitória, achou de mau gosto as referências ao cachorrinho das filhas, censurou a retórica “com cheiro de demagogia, comum aos populistas sul-americanos”.

De fato, nada comparado ao discurso de Lula ao ser eleito em 2002: “Quando a gente está apaixonado, que a gente quer casar, a gente senta com a nossa namorada e fica alimentando os nossos sonhos, discutindo o que a gente pode fazer. E a gente casa. E nem sempre o que a gente quis fazer a gente consegue fazer com a rapidez que a gente imaginava fazer”.

Mudança de modelo


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. A possibilidade de o presidente eleito Barack Obama vir a criar um ministério especial para cuidar da indústria automobilística pode indicar que o socorro financeiro do setor poderá ficar subordinado a políticas ambientais e à implantação de modelos de uso híbrido de combustíveis. Fugindo à sua teoria de que os Estados Unidos só podem ter um presidente de cada vez, Obama pressionou publicamente o Presidente Bush a aprovar um pacote de salvamento para a indústria, especialmente a GM, Ford e Chrysler, as três grandes de Detroit que estão mais uma vez em dificuldades financeiras.

Como Bush, de saída da Casa Branca não quer tomar a iniciativa, a maioria democrata no Congresso já decidiu, a partir de amanhã, aprovar uma verba de US$50 bilhões na sessão apelidada de "pato manco", referência à situação política precária do presidente que termina o mandato tendo tido seu candidato derrotado na eleição.

Essa fidelidade a uma indústria específica tem sua explicação tanto na cultura americana quanto na base eleitoral democrata. Michigan e Ohio votaram no democrata, sendo que Ohio deixou de ser um estado republicano para apoiar Obama.

Nos subúrbios de Detroit, a classe média de operários brancos da indústria automobilística, que havia se passado para o lado dos republicanos desde 1980 com Ronald Reagan, voltou para o seio dos democratas, que sempre venceram no Estado.

Mas, para ser coerente com sua pregação, o futuro presidente Barack Obama terá que começar a forçar uma mudança de matriz energética que transforme os Estados Unidos de dependente do petróleo importado em consumidor de energias alternativas como os biocombustíveis.

Está havendo uma reação muito grande da opinião pública contra uma ajuda às montadoras aqui nos Estados Unidos sem que se mude o perfil da indústria automobilística, que teria que se adaptar às novas condições do mercado internacional, que será fortemente influenciado pela crise econômica que se desenha prolongada.

O Brasil, como pioneiro na tecnologia de fabricação do etanol a partir da cana-de-açúcar, e de outros biocombustíveis, está se preparando de várias maneiras para o que pode vir a ser uma mudança fundamental no mercado internacional.

A partir de amanhã, será realizada em São Paulo a "Conferência Internacional sobre Biocombustíveis: os biocombustíveis como vetor do desenvolvimento sustentável", discutindo temas como segurança energética, produção e uso sustentáveis, agricultura, processamento industrial, além de questões ligadas a especificações e padrões técnicos, comércio internacional, mudança do clima.

O anúncio de que no campeonato de Fórmula Indy do próximo ano, uma competição tipicamente americana, será utilizado etanol brasileiro faz parte de um esforço de marketing para contrabalançar o poder dos produtores de etanol americanos, que contam com um forte subsídio governamental.

Em recente palestra na Universidade Columbia, o brasileiro Sérgio Trindade, especialista em combustíveis alternativos, ressaltou a necessidade de os biocombustíveis virarem commodities para competir no mercado internacional.

Trindade destacou que os países importadores como Estados Unidos e União Européia podem combinar a produção local com a importação, sendo necessário para que esse mercado internacional funcione um programa de certificação que seja reconhecido e adotado por todos.

O mercado ainda é incerto, atuando de maneira precária em Chicago, Nova York e São Paulo, com pouca liquidez e poucos contratos. As barreiras tarifárias e sanitárias são questões ainda não resolvidas, além das condições de trabalho nas lavouras. A mecanização da lavoura de cana-de-açúcar, por exemplo, está reduzindo as queimadas e melhorando os salários no Brasil.

O Programa Brasileiro de Certificação de Biocombustíveis, que está sendo desenvolvido pelo Inmetro, vai dar atenção especial aos aspectos sociais e ambientais da produção dos biocombustíveis.

A parceria com o instituto nacional de metrologia dos EUA, prevista no memorando de entendimentos assinado entre os governos dos dois países, fará com que essas normas venham a ser incorporadas aos aspectos técnicos do produto, para que tenha uma uniformidade capaz de transformá-lo em commodity.

Os primeiros padrões de medição de alta qualidade para bioetanol e biodiesel já foram produzidos, e já existem cerca de 10.000 ampolas de materiais de referência certificados que serão em breve comercializados internacionalmente.

Paralelamente, estão sendo desenvolvidos novos métodos de análise para determinação da composição de biocombustíveis, bem como sua origem geográfica.

Foi criada também uma força-tarefa para harmonização das especificações de biocombustíveis, base para normas internacionais que estão sendo criadas.

O Inmetro está participando do Projeto Biorema, da Comunidade Européia, que objetiva realizar uma ampla capacitação dos laboratórios nacionais europeus para análises de biocombustíveis, através de um grande exercício de intercomparações de medições de padrões de alta confiabilidade, definidos pelo Inmetro e pelo NIST americano.

Também está sendo iniciada uma cooperação com o instituto metrológico alemão (PTB) para produção de padrões e técnicas analíticas especiais para biocombustíveis.

Todas essas medidas, no entanto, só terão consequência prática se o mercado internacional realmente for aberto, e para tanto os subsídios aos agricultores teriam que ser revistos tanto pelos Estados Unidos quanto pela Comunidade Européia.

A crise econômica internacional, no entanto, não sugere um momento propício para a abertura do mercado internacional.

Pacificação e projeto político


Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Por despeito pessoal, tática política ou ambos, algumas lideranças latino-americanas começaram a colocar-se na contramão da opinião pública mundial e iniciaram um sutilíssimo movimento para minimizar o impacto da vitória de Barack Obama. Um dos seus argumentos: afinal a vitória de um negro nos EUA aconteceu quase oito anos depois da eleição de um metalúrgico nordestino para a presidência do Brasil e quase três anos depois da escolha de um índio cocalero para presidir a Bolívia.

O clube não chega a constituir-se formalmente como anti-obamista, por ora está interessado em arrefecer a admiração pelo futuro presidente dos EUA que afinal continuam encarnando o papel de País-Satanás. O grupo esqueceu de incluir no elenco de minimizações a eleição do eletricista Lech Walesa como presidente da Polônia há 18 anos e, há 14, do advogado Nelson Mandela, militante do movimento anti-apartheid, na África do Sul.

São vitórias igualmente extraordinárias, sem exceção, sobretudo porque resultaram de eleições democráticas. Representam o inexorável movimento republicano-democrático que não-obstante as sangrentas interrupções e periódicos retrocessos, vem sendo construído há quase 300 anos como o mais justo modelo para a escolha de governantes.

O que diferencia Barack Hussein Obama dos demais líderes que ascenderam da marginalidade para o poder é o conteúdo da sua postulação, seu compromisso em superar os ressentimentos que tornaram tão expressiva sua vitória. O primeiro negro a ser escolhido para presidir os EUA projetou-se através de uma plataforma claramente pós-racial e através da firme disposição de enterrar a odiosa diferença étnica entre os seus concidadãos.

Seus primeiros movimentos políticos como presidente-eleito foram no sentido de apressar a cicatrização das feridas eleitorais. O confronto entre os liberais e conservadores (para usar a designação anglo-saxônica) e agravado ultimamente pela exacerbação dos fundamentalismos religiosos será difícil de superar, mas alguns dos gestos de Obama – inclusive o anunciado encontro com o ex-adversário John McCain – sinalizam para um aggiornamento (atualização, no sentido de distensão) nas relações entre republicanos e democratas.

Evo Morales não se esforçou, ao contrário, manteve a divisão étnica-social herdada dos tempos coloniais e apenas mudou a sua direção: trocou a secular e impiedosa hegemonia da minoria branca pelo hegemonismo demográfico dos nativos e ainda acrescentou condimentos político-administrativos que levaram a Bolívia à beira de uma secessão efetiva.

Muito mais hábil, o presidente Lula candidatou-se e foi eleito com base num compromisso de continuidade no âmbito econômico. Soube mantê-lo e servir-se dele. Só não conseguiu preservar o clima de civilidade que dominou o processo de transição (um dos mais civilizados da nossa história). O "aparelhamento" do governo pelo principal partido da situação criou uma penosa discriminação dentro da sociedade brasileira onde o princípio "aos amigos tudo" cria discriminações inconcebíveis numa sociedade teoricamente isonômica.

Mas o presidente Lula falhou de forma ostensiva como chefe de um Estado secular e que, apesar disso, convive com uma perigosa disputa entre evangélicos e católicos, verdadeira "guerra santa" pelo controle dos corações e mentes dos brasileiros no âmbito da mídia eletrônica.

Para atender aos partidos aliados que militam em diferentes denominações evangélicas, o governo é condescendente na distribuição de concessões de rádio-difusão e mantém a aberrante figura do congressista-concessionário.

E para aliviar as suas culpas, o governo anunciou em Roma nesta quinta feira, uma autêntica "Concordata" com a Santa Sé que além de ter sido preparada na clandestinidade, sem qualquer aviso ou debate, confronta o espírito da Carta Magna e os fundamentos de um Estado secular.

Esquecido do exemplo pacificador do seu colega Barack Obama, o teólogo Lula da Silva deveria lembrar-se que uma nação na qual as contendas religiosas são apenas disfarçadas jamais terá ânimo para eliminar as diferenças. Jamais caminhará unida.

» Alberto Dines é jornalista

A infame tradição


José Arthur Giannotti

DEU NA FOLHA DE S. PAULO / MAIS!

Vícios políticos ainda permeiam direita e esquerda no Brasil e põem em risco o processo democrático


As fraquezas do sistema político brasileiro não estão nos procedimentos eleitorais. Estes são menos complicados do que os norte-americanos, como provam as últimas eleições lá e aqui. Residem no modo pelo qual as regras -sejam elas meros acordos ou leis promulgadas- são cumpridas.

O vício é nacional. Sabemos que existem leis que não pegam. O combate ao alcoolismo é o exemplo mais recente. Foi proibida a venda de álcool na beira das estradas, a última "lei seca" impôs limite praticamente zero ao consumo de bebida pelos motoristas.

Ambas foram escandalosamente anunciadas, cumpridas a ferro e fogo por algumas semanas e, depois, como o Estado, felizmente, não tem condições de vigiar, controlar e punir os pormenores do comportamento dos cidadãos, as coisas, infelizmente, resvalam para a situação anterior.

A lei espetaculosa não logra os resultados desejados, mas cria ambiente favorável ao dedo-duro, ao gavião puritano que acredita ser possível mudar a sociedade mediante golpes de legislação e de terror. Essa tradição brasileira cada vez mais permeia o jogo político brasileiro. Parece-me que uma das causas foi o empolamento do centro, particularmente quando passou a abrigar o PT e o lulismo.

Estou convencido de que isso era inevitável, dadas as novas circunstâncias políticas internacionais e as novas formas assumidas pelo capitalismo. De um lado, o inevitável multilateralismo criado depois do fim de Guerra Fria; de outro, a reestruturação do capitalismo, que, graças a um tratamento inovador e surpreendente da informação, leva aos limites sua velha tendência à globalização.

Desaparecem do horizonte o ideal de uma economia sem mercado e a ilusão da política regida racionalmente pelo comitê central.

Se a esquerda consiste em criar alternativas reais às misérias promovidas pelo capital, agora sua tarefa se consolida na luta pelo aprofundamento da democracia, na demanda de instituições transparentes, que sejam capazes de controlar as loucuras do mercado, as lutas de classes desvairadas, o jogo sujo na política.

Democracia interna

A atual crise financeira e econômica comprova que os Estados nacionais somente se tornam atores eficazes em suas práticas anticrise se agirem coordenadamente, o que levanta desde logo a questão política do controle popular das instituições internacionais encarregadas de sanar os desregramentos dos mercados. Ora, esse controle implica aprofundar ainda mais a democracia interna. Em primeiro lugar, criar um espaço em que os interesses e as ideologias possam se configurar publicamente, de sorte que a luta política se exerça como jogo de opções particulares diante de alternativas claramente desenhadas. Sob esse aspecto, toda política que dilua essas particularizações se torna extremamente reacionária.

Para que haja maioria consistente, também é preciso minoria consistente, que as duas partes não se constituam ao sabor de acordos do momento ou de interesses articulados para saquear os fundos públicos; muito menos para satisfazer a vaidade de condottiere.

Esse vício é comum a todos os partidos atuais. Mas, estando no poder nacional, o governo articulado pelo presidente Lula é o maior responsável por essa anomia da política brasileira. O exercício do poder possui dimensão normativa insubstituível, exemplifica parâmetros do que pode ser dito e do que pode ser feito.

Como essa normatividade pode ser mantida quando toda alteridade é absorvida pelas alianças mais díspares? Como manter paradigmas se o presidente, com sua fabulosa capacidade de formular o desejo imediato de seu auditório do momento, se permite ser irresponsável quando se lhe pede uma análise correta de uma situação difícil? "Qual é a profundidade da crise? Perguntem ao Bush!"

Como se desenha uma crítica de esquerda a essa anomia? Não basta possuir o voto mais popular; Mussolini gozava desse privilégio. Deve-se, antes de tudo, defender e aprofundar a democracia.

É o que a direita proclamava quando se acreditava no centralismo democrático, mas sempre vale menos o que se diz e mais o que se faz, e não adianta, ao sair em defesa da democracia, procurar ajuda nos quartéis. Nem bem terminaram as eleições municipais deste ano e já os partidos e os grupos políticos se embolam pela conquista da Presidência.

Embora os resultados dessas eleições tenham sido melhores do que o esperado, pois não se configurou a onda vermelha unificadora do nada, o jogo político não respeitou as regras mínimas do respeito pelo adversário.

Em São Paulo o desrespeito foi desvairado, muito mais surpreendente porque veio sobretudo da coligação liderada pelo PT. Onde está a renovação dos costumes políticos que esse partido prometeu, no ato de sua fundação, naquela memorável reunião no colégio Sion [em SP, em 1980], onde muitos de nós lá estávamos para refundar a política brasileira?

Oposição responsável

Também a oposição não deixa de ter culpa no cartório. A tarefa de se configurar como alternativa ao lulismo cabe ao PSDB. É consenso que José Serra foi o maior beneficiário do último processo eleitoral, mas é preciso que ele não permita a seus aliados levarem de roldão seus adversários -circunstanciais ou não.

Do mesmo modo, já que Aécio Neves, apoiado por seu excelente governo de Minas Gerais, legitimamente aspira à Presidência, que ele tenha a cautela de refrear seus aliados, impedindo-os de vir a público fazer denúncias irresponsáveis.

Se ambas as partes se lançarem num jogo descomprometido com procedimentos democráticos, o desastre será enorme. Espero de nossas lideranças críticas que sejam capazes de articular um movimento de oposição combatendo essa anomia dos costumes políticos brasileiros, essa irresponsabilidade diante das normas que ameaça o nosso futuro democrático. Antes de tudo é preciso saber que país queremos.

Dadas, porém, a abrangência da questão e a profundidade da crise nacional e internacional, espreita o perigo de uma solução totalizante e totalitária, liderada por gaviões que busquem o apoio popular sem os meandros das instituições democráticas. Há lugar para novos conselheiros. Desconfio de projetos e programas abrangentes, que encobrem as vicissitudes da implementação; mais ainda de alianças descaracterizadas.

Cabe organizar um governo que se segure política e praticamente, capaz de formular problemas e implementar soluções, sempre tendo no horizonte, entretanto, o respeito às leis constituídas e o compromisso com a prestação pública de seus atos.

Desse ponto de vista, é inteiramente falso o dilema de uma aliança do centro com a esquerda ou com a direita. Votos dos grotões teve o antigo PFL e agora tem o PT. Se as forças políticas reais estão todas empoladas no centro, este só pode ser movido democraticamente se contar com o apoio de democratas.

É melhor evitar tanto o gavião direitista como o periquito predador representante do comissariado central. Tenho medo dos gaviões, mas receio ainda mais o periquito predador -na política ou na imprensa-, que come o milho e deixa o papagaio ficar com a fama.

JOSÉ ARTHUR GIANNOTTI é professor emérito da USP e coordenador da área de filosofia do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Escreve na seção "Autores", do Mais! .

A crise econômica e o G-20


Rubens Ricupero*
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO/ALIÁS


É ilusão esperar que os ricos transfiram o poder regulatório a órgãos fora de seu controle

A crise econômica é como o incêndio que destruiu o Teatro Cultura Artística: o fogo deixou a casa de máquinas e começa a propagar-se pelo palco e o auditório. Não sabemos se vai sobrar o painel da fachada, nem quando se apagarão as chamas. Só depois disso é que se poderá principiar a reconstruir o prédio à prova de incêndio.

Neste momento a prioridade absoluta é impedir que a crise se instale como depressão profunda e prolongada. Em setembro e outubro desapareceram nos EUA 524 mil empregos e mais 844 mil foram reduzidos a tempo parcial involuntário. A taxa de desemprego (6,5%) cresce 0,3% ao mês e logo ultrapassará 7%. A falência dos gigantes automobilísticos, a GM ou a Ford, afetaria 2,5 milhões de empregos diretos e 1,4 milhão de indiretos. Suspenderiam o pagamento de dívidas 7,3 milhões de famílias entre 2008 e 2010 e 4,3 milhões se veriam ameaçadas de perder a casa.

É a vida de milhões de pessoas que está em jogo, não as perdas de papel dos financistas culpados pelo colapso. Apenas agora, pouco antes da eleição e posse do presidente, a crise alcançou a economia real da produção e do emprego. A situação de Obama é a mesma de Franklin Roosevelt em 1932: precisa ter pronto pacote de impacto para evitar a depressão e apressar a recuperação da economia. Se não der certo, será o presidente fracassado de um só mandato.

Fala-se em estímulo fiscal de 2% a 3% do PIB, entre US$ 300 bilhões e US$ 450 bilhões, parte para encorajar o consumo, parte para investir numa infra-estrutura envelhecida. Será preciso salvar as vítimas do desastre das hipotecas. Ademais, socorrer a indústria de automóvel, as linhas aéreas, reforçar a rede de segurança social: prolongar o seguro-desemprego para além de 26 semanas, aumentar os cupons de alimentação, recuperar os devastados fundos de aposentadoria. Levando em conta os US$ 700 bilhões aprovados, o gasto total pode chegar a 10% do PIB (US$ 1,5 trilhão). Há espaço para o aumento do déficit, pois o país tem dívida pública ainda três vezes menor que a do Japão.

É inevitável a aproximação entre o “Big Bang” de Obama e o New Deal de Roosevelt devido à coincidência de uma crise avassaladora com a eleição e posse. Até a enervante espera sem poder fazer nada é semelhante. Durante os cinco meses em que tudo parecia ruir, Roosevelt rejeitou o “abraço de afogado” do presidente Herbert Hoover, recusando-se a endossar as medidas do governo moribundo. Emendou-se a Constituição para cortar a espera pela metade, mas o problema permanece. O que fará Obama?

Até que ponto se comprometerá com o mais impopular governo da história? O secretário do Tesouro é responsabilizado pelo erro fatídico de deixar falir o Lehman Brothers. Depois de aprovar a duras penas o pacote de aquisição de ativos tóxicos, acaba de mudar de idéia, resolvendo usar o dinheiro para comprar ações e capitalizar os bancos. Não é com esse ziguezague que vai conseguir reconquistar a confiança da população.

É por isso que idéias ambiciosas como a de Bretton Woods II, de uma nova arquitetura, ordem financeira ou governança global, caras aos europeus e aos emergentes, terão de esperar pelo novo governo dos EUA. O que essas propostas têm em comum é visarem à mudança radical na distribuição do poder decisório em organismos como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.

Os americanos, principais beneficiários e guardiães da ordem que criaram no apogeu de sua influência, sabem que, em hora de redução do poder relativo dos EUA, uma redistribuição para valer teria de ser feita às expensas deles. Não há registro na história de potência hegemônica que tenha aceito tal coisa.

Os europeus falam bonito, mas suas cotas de voto no sistema de Bretton Woods - acima de 30% comparadas a menos de 20% dos EUA - não se justificam no caso da Alemanha, França, Itália, Holanda e Bélgica, países de moeda única e com um só banco central. Nenhum deles, contudo, cogita de abrir mão de parcela da cota para permitir, digamos, o aumento da representação da África. O poder continua a realidade determinante da ordem política e econômica mundial. Não será uma crise financeira que vai mudar essa realidade.

O discurso do presidente Bush em Nova York em 13 de novembro indica a linha que os EUA seguirão na reunião do G-20 em Washington: não há nada de errado com os mercados do ponto de vista sistêmico. Alguns ajustes e aperfeiçoamentos técnicos bastarão para que tudo volte ao normal. Daí a Bretton Woods II, a distância se mede por anos-luz.

O mais provável é que os presidentes do G-20 solicitem aos ministros que preparem as melhorias técnicas, criando talvez um grupo de trabalho para acompanhar a execução. Emergentes como a China, com excesso de poupança e saldos em conta corrente, serão instados a estimular a demanda global. Não é o caso do Brasil, cuja precária situação está longe da gabolice de autoridades que só se distinguem pela gastança improdutiva.

A fim de avançar na regulamentação, terá de se ampliar o Fórum de Estabilização Financeira mediante a inclusão de alguns países emergentes, sem alimentar grandes ilusões. Como a de que os governos das maiores praças financeiras do mundo, Nova York e Londres, aceitem transferir o poder regulatório a qualquer órgão internacional não controlado por eles. Difícil também será os mercados admitirem eliminar as brechas de intermediação não-bancária (hedge funds, entre outros) e a regulamentação rigorosa das transações responsáveis pelo derretimento atual: as securitizações e os derivativos. Sem esquecer a abertura e transparência dos mercados, limitando a possibilidade das operações over-the-counter (acima do balcão).

De qualquer forma, essa é agenda que só vai avançar depois de apagado o incêndio. Antes, a prioridade para os governos, a começar pelo chefiado por Obama, é coordenar um vigoroso esforço para abreviar a crise, permitindo o início da recuperação em fins de 2009, devolvendo a confiança aos consumidores e a esperança aos que precisam de emprego.

*Rubens Ricupero, diplomata e ex-ministro da Fazenda, foi secretário-geral da Unctad - Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. É diretor da Faculdade de Economia da Faap

A escola do avesso


José de Souza Martins*
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Depredação de estabelecimento estadual de ensino em São Paulo expõe crise de autoridades

Na polêmica sobre o sentido das palavras que entreteve com o ovo Humpty Dumpty, Alice questionou-o em relação à tese de que podemos dar às palavras o sentido que bem entendermos. Para ela a questão é que as palavras têm o sentido que têm. Humpty Dumpty não se deu por achado e tachou: “A questão é quem deve ser o mestre”, isto é, quem deve mandar e decidir o que as palavras significam. Alice do outro Lado do Espelho, de Lewis Carroll, é a melhor fabulação sobre a sociedade do absurdo e as grandes inversões de sentido da sociedade contemporânea. Uma sociedade que atravessou o espelho da realidade e tudo passa a existir ao contrário e a significar o oposto do que deveria significar. Tanto que, quanto mais se caminha, mais longe se fica do lugar ao qual se quer chegar. Essa obra de Carroll veio-me à cabeça quando li o noticiário sobre a depredação da Escola Estadual Amadeu Amaral, no bairro do Belenzinho, em São Paulo.

Na Escola Amadeu Amaral uma parte dos alunos falou a linguagem da desordem, outra parte falou a da ordem, os docentes e a direção perderam-se na linguagem do medo e da omissão, a polícia extraviou-se na estranha repressão de motim no que motim não era, falta de recursos pedagógicos para interromper a bagunça. Várias linguagens desencontradas entre si, cada qual incompreensível no código da outra. Nessa anormal sociedade dos avessos, faltou ali levar em conta a tese de Humpty Dumpty: cadê o mestre?

Os alunos dessa escola não sabem quem ele é. Um pequeno grupo de alunos se intitula Primeiro Comando da Escola, o que já indica o modelo colhido na pedagogia da criminalidade, amplamente difundida pela cultura do espetáculo. Em reiterados atos de violência faltou autoridade ao corpo docente intimidado. As chamadas devidas providências não foram tomadas, o medo dos docentes indultou os alunos e a indisciplina cresceu. Em diferentes pesquisas, centenas de escolas do Estado têm relatado episódios de violência, que incluem violência verbal, vandalismo, assalto à mão armada, violência sexual e até assassinatos. Não só alunos ameaçam e atacam professores, mas há também casos de pais agredindo professores. Já não se trata de espontâneos episódios de violência, mas de uma cultura da violência, com padrões e regras. Uma violência padronizada mobiliza nas respostas ocorrências fora da compreensão dos envolvidos, cada vez mais freqüentes, o que é fatal numa instituição com marcas evidentes de obsolescência.

O histórico esvaziamento da autoridade do professor e a demissão da família como co-responsável pela educação contribui para a perda de legitimidade da escola como instituição auxiliar na socialização das novas gerações. Além disso, a difusão de uma cultura de direitos individuais acima das obrigações sociais contribui para confundir os jovens, e mesmo seus pais, em relação à civilidade própria do direito como contrapartida do dever.

O magistério não tem o menor sentido senão baseado numa relação de autoridade que une o destino de quem sabe e ensina ao destino de quem não sabe e aprende. A relação professor-aluno não é nem pode ser uma relação de dominação, mas é uma relação desigual. Se os valores em que se funda essa criativa desigualdade pedagógica não são reconhecidos por uma das partes, o sistema inteiro desaba. O magistério só frutifica se alunos e professores, funcionários e famílias de alunos formarem o que Ecléa Bosi, em relação a outro tema, chamou de comunidade de destino. Quase tudo que se faz em relação à educação hoje em dia, sobretudo na escola, está no geral longe disso. A escola se burocratizou, os salários afetaram a própria auto-estima dos professores, uma mentalidade proletária ocupou na vida do professor o lugar da idéia do ensino como missão civilizadora. Alunos e professores deixaram de ser sujeitos e se tornaram simples e passivos objetos de relações e concepções coisificadas, num jogo que compreendem cada vez menos.

Os acontecimentos da Escola Amadeu Amaral alertam para o conjunto de problemáticos desencontros de que resultaram e dos pretextos por meio dos quais se expressaram. Uma aluna de 18 anos, do socialmente estável bairro do Belenzinho, insurgiu-se contra o exibicionismo sexual de uma aluna de 15 anos, recém-chegada, moradora em outro bairro, no Brás, um bairro que nas últimas décadas passou por grandes mudanças e de certo modo se enquadra no que Lewis Mumford define como áreas de deterioração social. A mais velha passou a atuar como agente de vigilantismo em relação à mais nova, usurpando a autoridade dos docentes e da diretora da escola. Não confiou neles para apresentar suas inquietações morais. Um problema no caso é justamente decifrar as causas e o sentido dessa quebra de confiança.

Do outro lado, a aluna mais jovem, temendo a agressão de suas colegas, trancou-se numa sala desativada do prédio e lá passou a noite. Sua mãe protestou dizendo que a filha tinha brigado e apanhado na escola e a direção não a avisara. No entanto, essa mãe aparentemente não estranhou que a filha menor de idade não tenha voltado para casa e tenha passado a noite fora nem tomou as providências policiais que se espera num caso assim para que a moça fosse localizada. Portanto, uma crise de autoridade que não se limita à escola. No comportamento da aluna mais velha, agindo por conta própria, mas também na relutância dos docentes e da direção da escola em tomar as providências cabíveis em relação a agressões, sem dúvida crise de autoridade no interior da escola. No comportamento da aluna e na complacência de sua mãe, crise de autoridade fora da escola.

Um grande número de escolas brasileiras precisa de uma pedagogia de emergência baseada no pressuposto de que esta sociedade se tornou uma paradigmática sociedade dos avessos. Nela os ritos e procedimentos dos tempos da ordem e do progresso nem sempre funcionam, lidos e interpretados na significação contrária do sentido declarado. Isso vai da escola do bairro do Belenzinho ao poder em Brasília.

*José de Souza Martins é professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP e autor, entre outros títulos, de A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34)

Devaneios republicanos

Renato Lessa*
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO /ALIÁS

Na trilha das suspeições, esconde-se a utopia da ‘prisão generalizada’ que tudo vai depurar

Corria o ano de 1996 e dois professores de direito norte-americanos - Frank Anechiarico (então no Hamilton College) e James Jacobs (idem na New York University) - publicaram um livro notável. Trata-se de The Pursuit of Absolute Integrity: How Corruption Control Makes Government Ineffective, editado pela Universidade de Chicago. No livro, os dois autores chamam a atenção para o fato de que durante o século 20 a cabeça dos reformadores institucionais esteve tomada pela visão de um corruption-free government, uma espécie de governo ISO 9000 e não sei quanto em matéria de eliminação de qualquer indício de corrupção. Um dos efeitos dessa obsessão teria sido uma reorientação de foco pela qual leis e prioridades de governo concentram-se mais no controle dos ocupantes de cargos do que naquilo que governos ordinária e supostamente devem fazer: governar.

O livro segue uma deliciosa inclinação cética e sustenta, para ir ao ponto, o seguinte argumento: o projeto contemporâneo de uma república corruption-free implica a adesão a formas de controle disciplinar que acabam por alimentar e exacerbar patologias burocráticas e inviabilizar reformas fundamentais na administração pública. O espírito de investigação suplanta a criatividade e disposição para a inovação. Adeptos de crenças utilitaristas podem bem dizer: é mais vantajoso, para fins de recompensa pública, perseguir malfeitores supostos ou reais e denunciá-los com ímpeto e estardalhaço do que propor inovações legislativas e administrativas.

Anechiarico e Jacobs exumam em seu texto um belo ensaio do jurista Bayess Manning, publicado em 1964 no Federal Bar Journal, publicação oficial do equivalente da OAB naquelas plagas. No ensaio, Manning - então deão da Stanford Law School - falou da presença de um “potlatch da pureza” em operação naquele país, uma obsessão por assepsia nos costumes e nas almas que teria feito com que o vocabulário da política se adaptasse estilisticamente à semântica de um drama moral.

Sounds familiar, certo? Em parte. Na verdade, há, pelo menos, uma importante diferença. Os juristas mencionados tiveram como campo de observação uma experiência cultural fundada na crença na presunção de inocência. Por mais que os “pais fundadores” norte-americanos - James Madison à frente de todos - sustentassem que os homens não são anjos e, portanto, o governo é necessário, havia neles uma crença básica de que a natureza humana, mesmo falível, merece o benefício da dúvida. É isso que constitui a rationale da presunção de inocência. Para voltar aos dois autores, com um pouco mais de ênfase: eles indicam exageros, absurdos e patologias presentes em políticas de controle dos gestores da coisa pública, nos limites de uma cultura de presunção de inocência que, procedimentos legais cumpridos à risca, acaba por constituir um limite à fúria punitiva e investigativa.

Agora, o que dizer de ânimos puristas semelhantes, ou ainda mais dilatados, em contextos nos quais as ficções nacionais mais fundamentais estão assentadas na desconfiança? Uma das características mais salientes da vida brasileira pós-ditadura tem sido a presença asfixiante de narrativas sobre a experiência do País nas quais metáforas do direito penal e uma perspectiva de suspeita têm papel preponderante. Baseados na observação sagaz de que os liberticidas que nos governaram até 1985 não podem ser excluídos do rol dos suspeitos usuais de danos à coisa pública, alguns otimistas julgam que a centralidade adquirida pelo denuncismo a partir de fins dos anos 80 resultou da liberdade de imprensa. Com efeito, isso parece constituir parte da resposta. Mas não elimina o fato de que a atmosfera da república exala desconfiança e a sensação de que, por vezes, estamos metidos em um mistifório de sicários.

O imenso e recente sarilho que envolve o STF, a Abin, a Polícia Federal, em torno da chamada Operação Satiagraha - há poesia e humanismo místico na coisa, então não? - reencena e dá vida a essa tradição. O suspeito original é preso por um delegado federal, tido como suspeito, a pedido de um juiz, também ele suspeito e desqualificado pelo presidente do STF. Há quem diga que o ânimo punitivo da chefia da Polícia Federal sobre o delegado suspeito de ter exagerado no tratamento do suspeito original é muito... suspeito. Não quero ser tomado por blasfemo, mas há até quem estranhe a presteza do presidente do STF na concessão de dois habeas-corpus ao suspeito original. Suspeita-se, ainda, que os advogados do primeiro suspeito estejam entupindo a vara do juiz suspeito com dezenas de petições, para que este enlouqueça ou pare de tomar atitudes suspeitas. (Antes de terminar o parágrafo, o releio e vejo que omiti a menção ao comportamento suspeito dos agentes da Abin e de seus chefes no imbróglio.)

Uma república de paranóicos? Nem tanto, pois é forçoso reconhecer que há imensa plausibilidade nas histórias que sustentam as suspeitas. Este é o ponto: cada uma dessas suspeitas constitui um fragmento de uma interpretação a respeito do que é o País, um experimento suspeito a ser investigado.

Em outros termos, trata-se de uma imagem do País como entidade opaca a si mesma. Como um depositório de enigmas que só podem ser elucidados pela lógica da investigação policial e da desconfiança promovida à política pública. Como não ver aí a produtividade de uma crença de que o País só terá de si uma imagem esclarecida a respeito do que é e poderá ser, se os “culpados” forem encontrados e presos? É claro, essa utopia da prisão final e generalizada de todos os malfeitores não poderá interromper a tara investigativa: há que investigar os juízes que os condenaram, os carcereiros, os advogados de defesa e, se calhar, os que se calam e não estão nem aí para isso, pois disso tudo, quem sabe, pode germinar uma nova geração de inimigos da coisa pública.

Como a malta ignara percebe tudo isto? Suspeito que ela esteja desenvolvendo uma atitude cognitiva e existencial de forte complexidade, uma espécie de mescla de confusão e credulidade absoluta, temperada com uma descrença dotada de tinturas cínicas e fatalistas. Confusão, pelos pormenores sombrios e sofisticados dos enredos e pelo abismo investigativo sem fundo, posto que incapaz do esclarecimento final: afinal, quem são os bons, nessa história toda? Credulidade, posto que à desorientação original sobrevém a certeza de que tudo que está sendo dito é verdadeiro, mesmo quando os fragmentos do drama se contradizem. Em outros termos, trata-se de um fideísmo da desconfiança: não entendo o que se passa, só sei - i. e., tenho a certeza de - que todos são, no mínimo, uns aldrabões. Por fim, a mescla entre cinismo e fatalidade e, por vezes, uma revolta ressentida por não desfrutar dos benefícios dos suspeitos.

Ainda assim, há otimistas. Boas almas crêem na existência de um processo de depuração de hábitos predatórios e republicidas. Conheço algumas que já se dispuseram à imolação pelo advento da sociedade sem classes e, hoje, não contém sua admiração pela Polícia Federal. Torço, mais uma vez, para que estejam certas, mas o travo cético acaba por escapar: afinal, qual o estado da arte de uma república na qual a polícia é tida como a principal guardiã do interesse público e responsável pelo esclarecimento de nossos mais fundos enigmas?

*Professor-titular de Filosofia Política do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Universidade Candido Mendes) e da Universidade Federal Fluminense e presidente do Instituto Ciência Hoje

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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sábado, 15 de novembro de 2008

O fator Clinton


Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


NOVA YORK. Para o Brasil, seria muito bom que a senadora Hillary Clinton fosse mesmo nomeada secretária de Estado do futuro governo de Barack Obama. É, dentro do Partido Democrata, quem mais conhece o Brasil, país em que tem uma rede de contatos grande a partir do relacionamento que seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, fez com o ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso, cujos mandatos se cruzaram nada menos que durante seis anos, de 1995 a 2000. Antes de ser primeira-dama, Hillary era muito envolvida em políticas sociais no Children Defense Funds, e por isso conhece bem as políticas sociais no Brasil. Ela acompanhou também o trabalho do Comunidade Solidária com Ruth Cardoso e dizia que o Brasil era muito inovador em políticas sociais, tendo repetido isso na campanha presidencial que perdeu para Obama.

Suas ligações com os tucanos brasileiros fizeram com que o governo Lula temesse sua escolha como candidata dos democratas americanos. Lula torceu discretamente primeiro pela vitória de Obama sobre a senadora, e depois por uma vitória de McCain, no pressuposto de que os republicanos são menos protecionistas que os democratas.

De fato, apenas McCain falou favoravelmente ao programa de etanol do Brasil e no fim do subsídio aos produtores americanos. Com a aproximação do final da campanha, Lula se declarou abertamente a favor da eleição de Obama, a quem se considera ligado pela origem social modesta.

A escolha de Hillary Clinton para a Secretaria de Estado seria também uma confirmação do que a cada dia fica mais explícito: a influência do ex-presidente Clinton na formação da equipe de governo de Obama, que até agora tem 31 dos 47 membros da equipe de transição saídos do último governo democrata exitoso.

Os primeiros escolhidos para o futuro governo Obama saíram também do grupo de políticos que já trabalhou com o presidente Clinton, como o chefe do gabinete de transição, John Podesta, que foi chefe de gabinete do presidente. Para a mesma função, o presidente eleito já escolheu o deputado Rahm Emanuel, que foi conselheiro de Clinton na Casa Branca de 1993 a 1998.

Ele trabalhou próximo à então primeira-dama Hillary Clinton na tentativa de implantar um sistema de saúde universal no país e, devido aos seus laços com Israel, teve papel importante na assinatura do acordo entre a Organização para Libertação da Palestina e Israel em 1993.

É de sua inspiração a cena em que Clinton faz a aproximação para o famoso aperto de mãos entre o primeiro-ministro Yitzhak Rabin e Yasser Arafat nos jardins da Casa Branca.

A proximidade com Israel já causou a Emanuel um constrangimento. Ele teve que pedir desculpas por uma declaração de seu pai a um jornal israelense, onde afirmava que seu filho, trabalhando na Casa Branca, influenciaria o governo a ser pró- israelense.

Outro da equipe da Casa Branca de Clinton é Ron Klain, que será chefe de gabinete do vice-presidente Joe Biden. Em 1992, Klain entrou na campanha presidencial Clinton-Gore, e foi o chefe da equipe de recontagem de votos na polêmica eleição de 2000, em que Al Gore perdeu para George W. Bush.

Na Casa Branca, ele foi um conselheiro presidencial para questões jurídicas e depois trabalhou como chefe de gabinete do vice-presidente Al Gore.

Um outro astro da equipe de Clinton que está sendo cotado para o governo Obama é o antigo secretário de Tesouro Larry Summers, que faz parte do grupo que assessora Obama na parte econômica desde a campanha.

A pressão de grupos feministas, ainda relacionada com comentários de Summers quando reitor da Universidade Harvard sobre uma suposta incapacidade feminina para trabalhar com matemática, pode impedir sua nomeação, assim como o obrigou a deixar o cargo em Harvard.

O fato é que Obama está se mostrando disposto a usar a experiência do mais recente e bem sucedido governo democrata, coisa que Bill Clinton não pôde fazer quando chegou à Casa Branca, pois o governo democrata anterior, de Jimmy Carter, terminou mal visto.

Hillary Clinton estaria ainda analisando o convite, que já teria sido feito na reunião que teve com o presidente eleito ontem em Chicago.

Segundo assessores, ela estaria pesando as vantagens de uma exposição internacional, contra o abandono das questões internas que a preocupam tanto, como o serviço de saúde universal, uma das promessas que ela fez seu adversário na disputa das primárias assumir como meta caso chegasse à Presidência.

Um detalhe que está sendo levado em conta é que, por mais prestigioso que seja o cargo, ela poderia ser demitida a qualquer momento pelo presidente Barack Obama, o que não aconteceria se tivesse sido escolhida vice-presidente, por exemplo.

Em relação a isso, há uma história na política americana que ontem foi relembrada pelo marqueteiro republicano Dick Morris.

Em 1944, Jimmy Byrnes, conhecido como "o sub-presidente" no terceiro mandato de Franklin Roosevelt, era o mais falado para ser o vice de Roosevelt na campanha pelo quarto mandato, em lugar de Henry Wallace. No último momento, Roosevelt preferiu Truman, considerando que Byrnes era muito conservador.

A cúpula do partido não apoiou a troca, a tal ponto que Truman, ao assumir a Presidência em 1945 com a morte de Roosevelt, viu-se constrangido a convidar Jimmy Byrnes para ser seu secretário de Estado.

Byrnes, que pensava que deveria ser ele o presidente, não dava satisfações a Truman e fazia a sua própria política externa. Não demorou um ano para que fosse demitido.

Segundo Morris, a mesma situação está acontecendo agora, com a senadora Hillary Clinton sendo a preferida da cúpula do Partido Democrata e considerando que ela é que deveria ter sido eleita presidente dos Estados Unidos.

A favorita


Mirian Leitão
DEU EM O GLOBO


A única mulher que governou o Brasil foi a Princesa Isabel, em interinidades, três anos ao todo, no século XIX. O século XX foi masculino e o atual será o da diversidade. Que a nossa não seja, como na Argentina, uma mulher à sombra do patrocinador. O presidente Lula a indicou e, agora, Dilma Rousseff vai ser exposta ao sol e ao sereno. Suas idéias fiscais e ambientais precisam de atualização.

Os políticos já viviam no ano de 2010 e, com a declaração de Lula na Itália, não voltarão ao tempo presente. Muitas dúvidas cercam a chefe da Casa Civil. Não se sabe se ela sobreviverá à guerra campal no PT; se agüenta uma campanha; se terá o carisma para arrebatar a maioria do eleitorado; quanto de votos o presidente Lula vai transferir. Já se sabe que, lançada, entra na linha de tiro dos rivais internos.

A eleição municipal de 2008 deixou informações curiosas, que embaralham as explicações convencionais sobre a política brasileira. O PT perdeu a eleição e o PSDB também. Nas principais capitais eles não ganharam a prefeitura. O debate sobre quem é mais vitorioso no mundo tucano, se José Serra, se Aécio Neves, é ocioso. Seus candidatos venceram, mas nenhum dos dois prefeitos eleitos é do PSDB. Serra ganhou a guerra interna e fez uma ponte para uma aliança com um partido de direita, que está cadente. O DEM ficou menor e sem São Paulo teria tido uma derrota feia.

Serra participou pouco da campanha; Aécio e o petista Fernando Pimentel quase sufocaram o candidato de tanto patrociná-lo. Precisaram se afastar, no segundo turno, para que ele consolidasse sua dianteira. É como se o eleitor de Belo Horizonte estivesse dizendo aos seus líderes, em castiço mineirês, idioma que domino de berço: "Já sei que "ocês" são "bão", uai, mas quero "conhecê mió" esse candidato "docês, sô!"

O eleitorado brasileiro disse a Lula que gostava dele, mas não votava em quem ele indicava. No auge da popularidade, com frutos do melhor momento econômico dos seus dois mandatos, Lula não teve o que mandou os jornalistas escreverem: "Escrevam aí, Marta vai ganhar a eleição." Acumulou outros fiascos como o de Natal. Dilma subiu no palanque de Maria do Rosário, em Porto Alegre, onde tem título eleitoral, e iniciou sua carreira pública. Perdeu.

A vitória do PMDB também é cheia de significados. Para quem olha a política de fora, como eu, é intrigante o fato de que o partido que mais bancadas faz no Congresso, e mais prefeitos elege, nunca conseguiu ter um candidato viável para a eleição presidencial, aceitando o papel de coadjuvante - guloso, é verdade - em todos os governos. Sempre no poder; nunca na Presidência. Especialistas dizem que o PMDB, nesta eleição, firmou-se como um condomínio de máquinas locais, confirmou sua natureza municipalista e que, controlando mais cidades, tem chance de fazer grandes bancadas na próxima eleição. Seus problemas: não tem um projeto nacional e, sim, uma colcha de retalhos de interesses fisiológicos regionais e nunca uniu o partido em torno de um candidato presidencial.

O cenário político brasileiro é esquisito. A mais nacional das máquinas partidárias não disputa a Presidência e está sempre no poder; os dois partidos que governaram o país nos últimos 14 anos lideram coalizões, mas não administram as principais cidades e não têm as maiores bancadas na Câmara e no Senado. O PT abandonou seu plano econômico - câmaras setoriais, controle de preço, controle de câmbio, protecionismo, não pagamento da dívida externa e auditoria na dívida interna - e adotou o do partido adversário - metas de inflação, câmbio flutuante, Lei de Responsabilidade Fiscal e abertura comercial. Isso pasteurizou as propostas.

Vários partidos menores cresceram nesta eleição e serão disputados na formação das chapas, mas 2010 pode ser parecido com 1989, eleição muito disputada no primeiro turno, com vários candidatos competitivos e muita dispersão de votos. Há duas grandes incógnitas não respondidas: Dilma passará pelo PT? O PSDB vai resolver a eterna guerra Serra-Aécio? Há cenários, não há certezas.

Foi só o presidente ir ao Papa e dizer o que pensa para a guerra em torno de Dilma começar. Ricardo Berzoini lembrou que há um processo interno no partido, a ser respeitado. O capixaba Renato Casagrande (PSB) disse que ela precisa ir para o sereno; Garibaldi Alves disse que ela precisa ir para o sol. No Espírito Santo, quem vai para o sereno e pega vento sul, adoece; no Nordeste, o sol faz carne-seca.

Dilma terá ainda que superar sua inabilidade no debate público e atualizar suas idéias. Na área fiscal, fulminou com o adjetivo "rudimentar" a melhor idéia defendida por seus companheiros, a do déficit zero na época da fartura. Isso permitiria política contracíclica agora. Na área ambiental, nunca demonstrou entender de que matéria o futuro será feito. A questão ambiental-climática estará em todas as equações econômicas daqui para a frente. Seu modelo energético resultou em mais estatismo e mais emissão de carbono. Os últimos leilões aprovaram projetos que sujam a matriz energética, quando a faxina já começou em outros países. Mas o pior para qualquer candidato que depende da bênção presidencial é que, antes de 2010, haverá 2009: um ano econômico difícil, desafiador, decisivo.