quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Opinião do dia - Alberto Goldman.

O perigo, por outro lado, seria a emergência de candidaturas competitivas nos extremos do espectro político, como foi a eleição municipal do Rio Janeiro em 2016, quando Marcelo Freixo (Psol) e Marcelo Crivella (PRB) concentraram o debate e os votos.

O desafio eleitoral imediato é construir uma frente no centro político, fugindo do que se chama de esquerda petista e do que nasce agora como a direita (...) aglutinar esse centro político para enfrentar esses dois lados que estão surgindo",

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Alberto Goldman, ex-deputado federal, ex-ministro, ex-governador de S. Paulo e atual vice-presidente nacional do PSDB, O Estado de S. Paulo,20/10/2017.

A grande transformação |*Alberto Aggio

- O Estado de S.Paulo

O que está em curso afeta por inteiro a humanidade. É um processo imparável

São raros os momentos na História em que as sensações parecem coincidir com a realidade. Talvez estejamos vivenciando precisamente um desses momentos. A sensação de que a realidade é movediça não é autoengano. Além da velocidade, o que nos impacta é a instantaneidade. A impressão é de que vivemos uma sequência de flashes que sintetiza um mundo que muda a cada respiro. A realidade técnica faculta-nos a possibilidade, antes restrita, de capturar e compor, de alguma maneira, o fruir desta “vida instantânea”.

As percepções em flashes não são convidativas a sensações de certeza ou de estabilidade com as quais nos sentimos com algum controle sobre o presente e, por vezes, imaginamos constituírem garantias para nossas esperanças quanto a um futuro benfazejo que seguimos desejando. Racionalmente, não rejeitamos a realidade cambiante e até nos dispomos a aprender a viver nela, mas procuramos precaver-nos dos riscos de alçar voo sem radares precisos de última geração.

Pode-se suspeitar que haja positividade e negatividade na atual vaga de transformações, mas não há quem duvide que a humanidade passa por mudanças profundas no seu modo de vida. O estabelecimento e a afirmação da chamada sociedade digital alteraram a dinâmica do tempo, afetando o mundo da produção, da circulação, da comunicação, enfim, o mundo da vida por inteiro. Não estamos mais no início desse processo: estamos em pleno curso há algum tempo e parece não haver lugar no planeta que não esteja sendo impactado. Assim, nossa realidade hoje é de transformação global e epocal, registrada nos circuitos produtivos mundiais, na comunicação online e no comportamento hodierno das pessoas que circulam pelas cidades com seus smartphones.

Revolução Russa – da esperança à tragédia |*José Antonio Segatto

- O Estado de S. Paulo

O fim trágico do socialismo real acabou por legitimar o capitalismo

Há um século, em outubro de 1917, o processo revolucionário desencadeado na Rússia em fevereiro – com o colapso do império czarista – sofreu drástica inflexão e ganhou um curso imprevisto sob a direção do partido bolchevique.

Ainda no calor da hora, um jovem militante socialista italiano, Antonio Gramsci, escreveu um pequeno e instigante artigo intitulado “A revolução contra O Capital”. Segundo o autor, a conquista do Estado pelos bolcheviques contrariava as diversas tendências do movimento socialista europeu e também russo (mencheviques e socialistas revolucionários). A leitura que faziam do livro de Karl Marx (que, aliás, completava 50 anos da publicação de seu primeiro volume, em 1867) presumia que a revolução democrático-burguesa e o consecutivo desenvolvimento do capitalismo seriam pressuposto básico e necessário para o socialismo – para ele, as agruras da guerra teriam criado condições (vontade coletiva), de maneira célere e inusitada, para a tomada do poder pelos bolcheviques num país atrasado, de capitalismo incipiente, como a Rússia.

Sem dúvida, a guerra potencializou a crise estrutural que já era latente em todo o imenso Império Russo, abarcando inúmeros problemas acumulados secularmente: dominância tirânica da autocracia czarista, subjugação de nacionalidades não russas, brutal opressão do campesinato, bloqueios à organização da sociedade civil, inexistência de direitos mínimos (tanto civis como políticos), etc. Em 1917 a crise irrompe com tal força que desintegra o todo-poderoso império czarista, criando uma situação caótica, que se agrava com a constituição de um governo provisório privado de credibilidade dirigente e impotente para enfrentar as graves circunstâncias. Estavam criadas as condições – vazio de poder, revolta e fúria popular, anomia, desorganização econômica, etc. – para que um pequeno partido de vanguarda, resoluto e com propostas que atendiam aos anseios imediatos das classes subalternas (pão, paz e terra) se apoderasse dos aparatos do Estado, sem resistência, em nome dos sovietes (conselhos).

Uma gestão paradoxal | Hélio Schwartsman

- Folha de S. Paulo

A Câmara começa hoje a analisar a segunda denúncia contra o presidente Michel Temer. Se não houver surpresas, ele se livrará do processo, como já se livrou da primeira investida da Procuradoria-Geral da República e da ação na Justiça Eleitoral que também poderiam tê-lo apeado do cargo.

Há algo de paradoxal aí. Temer, apesar de ser o presidente mais impopular da história do país e estar enroladíssimo em escândalos de corrupção, conseguirá, ao que tudo indica, concluir seu mandato, enquanto Dilma Rousseff, igualmente impopular, mas que ainda conserva uma imagem de honestidade pessoal, perdeu o seu. A elucidação do mistério é simples. Dilma dilacerou a economia do país e ainda por cima se meteu numa crise política que praticamente inviabilizava suas tentativas de consertar as coisas. Nem o PT votava a favor de suas medidas.

Jogando pelo empate | Bernardo Mello Franco

- Folha de S. Paulo

A oposição reconhece que não chegará nem perto dos 342 votos necessários para afastar Michel Temer. Se a vitória é impossível, a saída será jogar pelo empate. Por isso, a minoria tentará adiar o sepultamento da segunda denúncia contra o presidente.

A sessão está marcada para as 9h desta quarta-feira. No entanto, a votação só será iniciada se 342 deputados marcarem presença. Se este quorum não for alcançado, a decisão ficará para a próxima semana. A oposição aposta nisso para prolongar o desgaste do governo.

"Nossa única chance de manter o Temer nessa hemorragia é não dar presença. Ele pode vender até o Palácio do Planalto, mas não vai conseguir enterrar a denúncia", diz o deputado Sílvio Costa, do Avante.

Síndrome do pato manco | Merval Pereira

- O Globo

O presidente Michel Temer, mesmo que se confirme hoje, como tudo indica, a maioria necessária para superar a segunda denúncia da Procuradoria-Geral da República contra ele, não escapará de ser um “pato manco” até o fim de seu governo, o que muito o constrange neste momento em que as forças políticas se mobilizam para sua sucessão.

‘‘Pato manco" (lame duck) é uma expressão, usada principalmente na política norte-americana, que define o político que continua no cargo, mas que, por algum motivo, não pode disputar a reeleição e perde a expectativa de poder. A expressão nasceu na Bolsa de Valores de Londres, no século XVIII, em referência a investidor que não pagava suas dívidas e ficava exposto à pressão dos credores. A ave (e o político) com problemas torna-se presa fácil dos predadores.

A expressão surgiu de um velho provébio de caçadores que diz: Never waste powder on a dead duck, isto é, “nunca desperdice pólvora com pato morto”. Temer, a exemplo de Sarney no final de seu governo, não terá mais força política para levar adiante seu projeto econômico, embora vá tentar evitar a síndrome do “pato manco”, justamente para não se tornar um presidente sem influência na sua sucessão.

O governo quer voltar à agenda econômica depois da votação da denúncia contra o presidente Michel Temer na Câmara, mas reformas como a da Previdência, que precisam de um quorum mais alto para serem aprovadas, vão ser muito difíceis de passar. Talvez o governo consiga aprovar outras medidas que possam ser feitas por projetos de lei, como controle de gastos.

Parlamentarismo na marra | Vera Magalhães

- O Estado de S.Paulo

As avaliações quanto ao placar pelo qual a Câmara vai arquivar a segunda denúncia contra Michel Temer oscilam como a cotação da Bolsa, a depender da variação do preço das commodities da vez, a saber, os deputados. O que é constante, no entanto, é que o presidente dependerá sempre e cada vez mais do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para levar a cabo alguma agenda, por mínima que seja, após ser salvo pela segunda vez.

Maia foi habilidoso ao aproveitar o período de negociação da votação para, diferentemente da denúncia anterior, se apresentar como espécie de antípoda de Temer. Toda a indignação com a ofensiva do PMDB sobre deputados almejados pelo DEM era fachada de um propósito maior: sabedor da absoluta falta de popularidade de Temer e da impossibilidade de ele recuperá-la até as eleições, Maia desenhou um arranjo em que quer fazer vigorar um parlamentarismo na marra.

O veto à discussão de novas medidas provisórias e a conversão de MPs importantes – como a da leniência dos bancos e a das medidas que visam a assegurar a meta fiscal – em projetos de lei que são votados em período recorde nada mais são do que formas de o deputado mostrar que pode atuar como primeiro-ministro de um presidente algo decorativo. Ao negociar diretamente com Maia temas como a reforma da Previdência, o próprio ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, parece transferir a ele parte das prerrogativas de seu chefe de ditar qual será a agenda do “day after”.

A ordem entre os ministros é evitar bolas divididas com o comandante da Câmara até se efetivar o esperado sepultamento da denúncia. Depois disso, auxiliares de Temer acham que ele deve fazer valer o peso do presidencialismo para cortar as asas de Maia. O problema é que, ainda que seja de fato grande o poder do Executivo num regime presidencialista, ele é um tanto menor no caso de um presidente que tem menos de um ano de mandato pela frente, foi alvo de duas denúncias, tem menos de 4% de apoio popular e chegou ao cargo após um impeachment que dividiu o País.

Graças a essa hipossuficiência política, dificilmente Temer poderá retaliar os que votarem contra o governo – como tem ameaçado sem assustar ninguém – ou prescindir de um bom relacionamento com Maia para chegar sem mais sobressaltos ao fim de 2018.

Sucessão e continuidade | Rosângela Bittar

- Valor Econômico

Até janeiro de 2019, em encontro com a primeira instância

O governador Geraldo Alckmin (PSDB) é, por incrível que pareça, a candidatura presidencial mais definida neste momento. Ele está vencendo a pré-disputa com João Dória, participa de reuniões para formação de chapa, campanha e projeto eleitoral, está no centro do tiroteio de um partido conflagrado, onde livres atiradores miram, sem atingir em definitivo, gregos e troianos, ele inclusive.

Mas sobrevive, pois há a realidade de sua personalidade: os que procuram Alckmin para conversar saem com uma impressão unânime: a conversa do governador não tem começo, nem meio, nem fim. Alckmin continua alheio ao mundo da política e não parece um candidato sequer a liderar uma associação.

Mas, inegável, é uma candidatura de resultados, e o último foi extraordinário: a recomposição com o senador e ex-governador José Serra, com quem divide o principado do PSDB em São Paulo.

Outra também bem definida é a candidatura Jair Bolsonaro (ainda vendo que partido vai usar): corre o Brasil, tem um nicho de votação na direita e outro na igreja, e um discurso em cima de eventualidades sobre as quais é perguntado, mas ainda se protege de melhores e maiores definições.

O empresário Luciano Huck parece ser uma criatura vocacionada e uma candidatura de primeiros traços bem delineada, já se lançou em artigo no jornal "Folha de S.Paulo", mas está demorando a se revelar como tal, ou aguarda dias mais claros ou a explicitação do apoio da família.

Ciro Gomes é uma candidatura posta, confirmada e em procedimentos de medição de terreno, mas sofre de um mal terrível nos dias de hoje: a conversa é antiquissima e não se consegue imaginar qual público ainda vai se interessar por seu discurso se não houver um novo approach. Ele já disse que só vai se Lula não for.

Base azeitada | Luiz Carlos Azedo:

– Correio Braziliense

A bandeira do ajuste fiscal acabou de ser enterrada pelo Palácio do Planalto, que somente este mês liberou R$ 687 milhões em emendas individuais para os parlamentares. A farra não foi para cooptar ninguém da oposição: foi para domar a própria base parlamentar. Como o orçamento é impositivo desde 2015, o governo é obrigado a liberar os recursos das emendas, mas decide o fluxo de pagamentos, o que serve para administrar os humores dos parlamentares, premiando aliados e retaliando a oposição. Em razão da votação da denúncia contra o presidente da República, entretanto, para desespero da equipe econômica, a liberação de recursos quase dobrou em relação a setembro (foram R$ 273 milhões) e mais que quadruplicou se compararmos com agosto (R$ 138 milhões).

Para aumentar o rombo nos cofres do governo, Temer acelerou a sanção do Programa de Regularização Tributária, o novo Refis, que será publicado nesta quarta-feira, no Diário Oficial da União, sem vetos, o que contraria o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, que havia proposto nove vetos. A rebelião na base, estimulada pelo lobby dos maus pagadores, forçou a decisão. Uma nova medida provisória também deverá prorrogar o prazo de adesão. A Receita deve regulamentar as novas regras até quinta-feira. O prazo de adesão termina em 31 de outubro, mas deve ser prorrogado. Com a medida, haverá perda de receita da ordem de R$ 3 bilhões, de um total previsto de R$ 13 bilhões a serem arrecadados.

Aprendizado para a Lava Jato – Editorial | O Estado de S. Paulo

Ainda que haja muitas diferenças, tanto na legislação como na cultura de cada país, a trajetória da Mani Pulite (Mãos Limpas) – a famosa operação italiana anticorrupção que, de 1992 a 2005, investigou cerca de 4 mil pessoas, com mais de uma centena de parlamentares, ministros, juízes e altos executivos de empresas – tem muito a ensinar para o bom encaminhamento da Lava Jato no Brasil, reconheceram unanimemente os quatro palestrantes do Fórum Mãos Limpas & Lava Jato, promovido ontem pelo Estado em parceria com o Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP).

Gherardo Colombo e Piercamillo Davigo, juiz e promotor à época da Operação Mãos Limpas, lembraram que o combate à corrupção vai muito além da questão jurídica, envolvendo a cultura e a educação de um país. Nesse sentido, os dois disseram que é preciso ter cuidado ao avaliar os resultados de uma operação que investiga casos de corrupção. Além de ser irreal a ideia de que a operação acabará com a corrupção, essa expectativa é contraproducente, pois pode levar à postergação de seu término, motivando exageros e causando um perigoso desgaste perante a opinião pública.

Piercamillo Davigo, que atualmente é juiz da Corte Suprema de Cassação, comentou a importância, no caso da Mãos Limpas, da colaboração de muitos investigados, o que proporcionou à Justiça informações muito úteis para a investigação de vários crimes. Ressaltou, no entanto, que algumas pessoas falaram apenas parte do que sabiam, como simples forma de se safarem, e depois tiveram “carreiras políticas espetaculares. Esse é um aviso que faço porque pode ocorrer aqui o mesmo fenômeno”, disse Davigo. Ou seja, não cabem ingenuidades a respeito das delações premiadas.

Infraero simboliza barganhas entre Temer e Câmara – Editorial | O Globo

Para garantir votos do PR, Planalto aceita pressão de ex-deputado e ex-presidiário, e não privatiza Congonhas para aeroporto sustentar a ineficiente Infraero

O já conhecido balcão de barganhas, instalado pelo Planalto antes da votação na Câmara da primeira denúncia da Procuradoria-Geral da República contra o presidente Michel Temer, apresentou grande movimentação também para o governo garantir a rejeição do segundo conjunto de acusações, na sessão plenária marcada para hoje. Desta vez, incluem-se, ao lado do presidente, nas denúncias de formação de organização criminosa e obstrução de Justiça, os ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco.

Com a vitória considerada garantida por governistas e cooptados, discutem-se detalhes, como se o apoio a Temer e aos ministros será superior aos 263 votos conseguidos na primeira vez. O parecer favorável ao governo, de autoria do deputado Bonifácio de Andrada (MG), aprovado na Comissão de Constituição e Justiça, terá de ser rejeitado, em plenário, pela oposição, por no mínimo 342 votos. Muito difícil.

Tem sido um trabalho intenso de compra literal de apoios. Ontem mesmo, entre outras medidas, Temer assinou decreto para atenuar multas por crimes ambientais, promessa feita à bancada ruralista. Houve, ainda, a portaria que relaxava regras de combate ao chamado trabalho escravo, suspensa, de forma liminar, pela ministra Rosa Weber, do Supremo.

Arroubo demagógico – Editorial | Folha de S. Paulo

A tese pueril segundo a qual inexiste deficit na Previdência Social brasileira assume agora ares de investigação parlamentar. Uma CPI sobre o assunto, instalada pelo Senado há seis meses, chegou a tal conclusão —que, não resta dúvida, buscava desde o início.

Recém-concluído, um caudaloso relatório de 252 páginas recicla argumentos esgrimidos ao longo de mais de duas décadas por entidades sindicais e acadêmicos militantes, não por acaso as fontes em que se baseou o "inquérito".

Dadas as alegações frágeis e surradas, tende-se a incluir a iniciativa nos anais do folclore legislativo nacional. Entretanto é inegável que a insistência e a estridência dos adversários da reforma previdenciária têm mostrado eficácia.

Seja pelo declínio do governo Michel Temer (PMDB), seja por alienação e covardia geral das forças políticas, as propostas destinadas a ajustar os regimes de aposentadoria do país ainda enfrentam uma babel de desinformação.

A controvérsia em torno do deficit do sistema, em particular, consome enormes tempo e energia —e deixa de lado o essencial.

Macri consolida apoio político e prossegue com as reformas - Editorial | Valor Econômico

O presidente argentino Mauricio Macri venceu bem as eleições do meio de mandato e tem um futuro promissor para enfrentar novamente as urnas e conseguir se reeleger em 2019. O partido de Macri, Mudemos, cresceu na Câmara e no Senado, mas terá de continuar a explorar as dissidências peronistas para obter maioria aos projetos do governo - uma arte que o presidente vem sabendo exercer desde que assumiu o poder. A principal força de oposição, comandada pela ex-presidente Cristina Kirchner, que conquistou uma vaga no Senado, tem a esperança de reunir de novo o partido em torno de si. O desempenho da economia vai determinar a oscilação do pêndulo político, cujo movimento é agora bem mais favorável a Macri.

A Argentina fez progressos ante a péssima situação econômica legada por mais de uma década dos Kirchner na Casa Rosada. As heranças nefastas não foram vencidas ainda, entretanto. A inflação, que chegou a mais de 40% antes de Macri assumir caiu a quase a metade. A meta de inflação do BC, de 17% este ano, não será cumprida, mas o governo acredita que chegará às próximas eleições com a alta dos preços na casa de um dígito.

A queda dos preços não foi abrupta porque uma das principais medidas de arrumação da política econômica foi a eliminação dos enormes subsídios nos preços públicos, que chegaram a consumir 5% do PIB, com vários tarifaços. A correção dos preços prossegue. Ontem, após a vitória nas urnas, foi anunciada correção de 10% no preço dos combustíveis. Além disso, alimentaram a inflação o grave déficit fiscal e o fim do artificialismo cambial, que resultou em uma maxidesvalorização do peso argentino.

A renúncia do presidente – Editorial | O Globo, 19/5/2017 (a derrota)

Um presidente da República aceita receber a visita de um megaempresário alvo de cinco operações da Polícia Federal que apuram o pagamento de milhões em propinas entregues a autoridades públicas, inclusive a aliados do próprio presidente. O encontro não é às claras, no Palácio do Planalto, com agenda pública. Ele se dá quase às onze horas da noite na residência do presidente, de forma clandestina. Ao sair, o empresário combina novos encontros do tipo, e se vangloria do esquema que deu certo: "Fui chegando, eles abriram. Nem perguntaram o meu nome". A simples decisão de recebê-lo já guardaria boa dose de escândalo. Mas houve mais, muito mais.

Em diálogo que revela intimidade entre os dois, o empresário quer saber como anda a relação do presidente com um ex-deputado, ex-aliado do presidente, preso há meses, acusado de se deixar corromper por milhões. Este ex-deputado, em outro inquérito, é acusado inclusive de receber propina do empresário para facilitar a vida de suas empresas no FI-FGTS da Caixa Econômica Federal. O presidente se mostra amuado, e lembra que o ex-deputado tentou fustigá-lo, ao torná-lo testemunha de defesa com perguntas que o próprio juiz vetou por acreditar que elas tinham por objetivo intimidá-lo.

Ao ouvir esse relato do presidente, o empresário procura tranquilizá-lo mostrando os préstimos que fez. Diz, abertamente, que "zerou" as "pendências" com o ex-deputado, que tinha ido "firme" contra ele na cobrança. E que ao zerar as pendências, tirou-o "da frente". Mais tarde um pouco, em outro trecho, diz que conseguiu "ficar de bem" com ele. Como o presidente reage? Com um incentivo: "Tem que manter isso, viu?"

Lula não muda, mas o Brasil muda, sim! | José Anibal

- Blog do Noblat

Atribui-se ao economista John Maynard Keynes a frase: “Quando os fatos mudam, eu mudo de opinião”. Seria uma resposta a uma provocação de Winston Churchill, tampouco comprovada, na qual se teria duas opiniões diferentes se fossem ouvidos dois economistas, e três se um deles fosse Keynes. Ainda que se trate de mero folclore da vida pública britânica, é possível tirar lições dessa anedota de 80 anos atrás.

Não há demérito algum em se mudar de opinião diante da constatação de uma medida que se revela ineficiente, de um erro de avaliação ou de uma mudança de cenário. Ao contrário, é sinal de maturidade, capacidade e honestidade intelectual. Por que um governo manteria uma política pública cujos resultados não são os esperados? Faz sentido manter normas e leis de décadas atrás que não atendem mais as demandas do mundo contemporâneo?

Por outro lado, intransigência e intolerância são características típicas dos reacionários e obstáculos ao avanço das sociedades. São marcas também dos falsos salvadores da pátria que, por ora, encontram receptividade auferida em pesquisas de opinião, mas que simplesmente não oferecem nada de concreto ou pertinente para os desafios que o Brasil precisa enfrentar.

A falência das nações | Monica De Bolle

- O Estado de S.Paulo

O lastro de qualquer reforma é a credibilidade do governo que a propõe: a da Previdência está aí como exemplo

Por que alguns países são ricos e outros pobres? Por que alguns países são inicialmente mais ricos do que outros, mas, com o passar dos anos, tornam-se mais pobres? O que explica o crescimento econômico sustentável e a melhoria na qualidade de vida das sociedades? Em 2012, os economistas Daron Acemoglu e James Robinson publicaram livro extraordinário intitulado Why Nations Fail: The Origins of Power, Prosperity, and Poverty. Embora o tenha lido quando de seu lançamento, na época não soube apreciar adequadamente a relevância da obra para o Brasil. Ao relê-lo, vi retratadas em suas páginas todas as mazelas que nos afligem – da falência institucional, à crise econômica, às inúmeras dificuldades de fazer reformas sem profunda mudança política.

O livro expõe com clareza – ilustrando em detalhe a experiência de diversos países – que é a natureza das instituições políticas que determina a distribuição de recursos, o crescimento, e o relativo “sucesso” econômico das nações. De forma simplificada, países onde as instituições políticas são moldadas por grupos interessados em extrair recursos do Estado em vez de garantir o bem-estar da sociedade, instalam-se o caos, as crises, a pobreza, a corrupção.

Curiosamente, os autores dedicam parte de um capítulo ao Brasil – não como exemplo de nação “falida”, mas como exemplo de superação: citam a mobilização social e a ascensão do PT ao poder em 2002 como exemplo de reconstrução das instituições brasileiras, tornando-as mais “inclusivas”. Passados os anos do lulopetismo, que jamais teria se consolidado sem a ajuda do que havia de mais status quo na política brasileira, sabemos que não houve revolução alguma. Os que ocuparam – e ainda ocupam – os mais altos escalões do poder, usaram e continuam a usar as instituições em benefício próprio. Sem que haja a desejada transformação política capaz de remodelar as instituições em favor da sociedade, corremos o risco de assistir repetecos infindáveis dessa história.

Luz mais cara para evitar o pior | Vinicius Torres Freire

- Folha de S. Paulo

A conta de luz vai subir mais em novembro, como previsto. Se não vier chuva e caso haja bom senso na administração da economia e da eletricidade, essa conta deveria ficar ainda mais cara. Pega mal dizer tal coisa, mas é a solução mais prudente.

Embora seja mero chute falar de racionamento antes de fevereiro, por aí, a situação dos lagos das hidrelétricas é crítica. É preciso poupar energia (e, pois, a água desses reservatórios). Para tanto, temos de usar mais da energia muito mais cara das termelétricas (que são uns geradores monstruosos movidos a óleo, biocombustível, gás ou carvão). Assim, o custo de produzir eletricidade não vai, não deve nem pode cair tão cedo.

Na verdade, a energia já está mais cara, no atacado. O problema é saber quem paga a conta final.

Há uma conversa maluca no governo de dar uma "ajuda" às distribuidoras (as empresas que nos vendem a energia), que dizem estar com as contas cada vez mais no vermelho, pois vendem energia a preço inferior ao que pagam. Se é o caso, como parece ser, passar essa conta para o governo é uma gambiarra velha, ineficiente e injusta.

Transição argentina | Míriam Leitão

- O Globo

A economia da Argentina está em recuperação e pode crescer 3% este ano e 4% no ano que vem. Isso explica em parte a vitória do presidente Mauricio Macri nas eleições do último final de semana. O ajuste promovido pelo governo já traz resultados concretos que começam a ser percebidos pela população. A recuperação do Brasil também tem ajudado, pelas fortes relações comerciais entre os dois países.

Assim como o Brasil, a Argentina vive um período de transição na economia. O governo Kirchner entregou o país com o PIB em queda, inflação alta e represada pela manipulação das tarifas públicas e falsificação dos índices de preços. Com Macri, a conjuntura piorou antes de começar a melhorar. No ano passado, o PIB afundou 2,2% e a inflação chegou a 41%, como resultado do ajuste promovido pelo governo. Este ano a economia voltou a crescer, mas lentamente.

Mesmo assim, há previsões de especialistas e economistas de bancos, como os do BNP Paribas, de um crescimento de 3% do PIB em 2017 e de 4% em 2018. O brasileiro Itaú Unibanco estima que a taxa de inflação poderá recuar para 22% e 16% nesses dois anos. Ainda longe da meta de 5% do governo, para 2019, mas claramente em tendência de queda. Outro ponto positivo de Macri foi ter reformulado o índice de preços, que hoje tem números com credibilidade. O governo kirchnerista fez uma intervenção no Indec e passou a manipular os índices econômicos.

Para Florencia Vazquez, economista do BNP Paribas na Argentina, a melhora dos indicadores já começou a ser percebida no dia a dia dos argentinos, ao contrário do que acontece aqui no Brasil.

Maia prepara agenda para economia após denúncia

Presidente da Câmara analisa projetos para socorrer bancos e mudanças na Previdência

Igor Gadelha Vera Rosa | O Estado de S. Paulo.

/ BRASÍLIA - O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, articula uma agenda política e econômica própria. Ele analisa como mudar as regras da Previdência por meio de projetos de lei, que, em tese, exigiriam menos esforço para serem aprovados. Maia também negocia projeto com o Banco Central que permitirá usar dinheiro do Tesouro Nacional no socorro para bancos em dificuldades e deve defender a aprovação da reforma tributária. Além disso, estuda pautas de maior apelo popular, nas áreas de segurança e saúde. A agenda deve ser apresentada no dia seguinte à votação na Casa da segunda denúncia contra Michel Temer, marcada para hoje. Governo e oposição trabalhavam ontem com um cenário de rejeição da denúncia. O custo para barrar as investigações contra o presidente já chega a R$ 32 bilhões, entre concessões e medidas negociadas.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), prepara uma agenda própria da Casa para apresentar no dia seguinte ao da votação da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer, marcada para hoje. A pauta deve ter matérias econômicas articuladas pessoalmente por ele e projetos de maior apelo popular, principalmente nas áreas da segurança pública e saúde.

A intenção do parlamentar, segundo aliados, é buscar mais protagonismo no cenário nacional no momento em que Temer sai enfraquecido após gastar seu capital político para barrar as denúncias das quais é alvo.

Ontem, na véspera da votação, Temer recebeu vários deputados para garantir apoio. Um deles foi Maia, de quem quis saber como estava o clima na Câmara. À noite, o presidente foi a jantar no apartamento do vicepresidente da Câmara, Fabio Ramalho (PMDB-MG).

Placar da 2ª denúncia vai medir a força do presidente

Placar sobre denúncia irá dimensionar força de Temer no resto do mandato

Marina Dias, Daniel Carvalho | Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Na véspera da votação da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer, marcada para esta quarta-feira (25) no plenário da Câmara, a base governista travava uma batalha silenciosa.

De um lado, o Planalto afagava interesses de deputados e contava com a repetição ou até a ampliação do placar de 263 votos da primeira denúncia. De outro, um grupo em torno do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), a fim de ampliar seu poder de barganha, buscava construir uma vitória menos favorável ao presidente.

O tamanho do placar redimensionará a força de Temer nos 14 meses que lhe restarão de mandato e, por isso, o esforço de seus assessores é para que ele mantenha ou até mesmo amplie os votos da sessão de 2 de agosto, que enterrou a acusação por corrupção passiva que tramitava contra ele.

Enquanto líderes governistas negociavam a liberação de cargos e emendas parlamentares, deputados do chamado centrão, grupo de siglas pequenas e médias comandado por PSD, PP, PR, PRB e PTB, e aliados ao presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), diziam que o governo "precisa entender que Temer terá que reorganizar sua base aliada para continuar governando".

Relatório que será votado é uma defesa indistinta da classe política

Eloísa Machado de Almeida | Folha de S. Paulo

Há quase três meses, o plenário da Câmara dos Deputados votava para impedir o andamento da primeira denúncia contra o presidente Michel Temer.

Naquela oportunidade, as acusações envolviam principalmente o crime de corrupção passiva, referente ao episódio da mala de dinheiro de Rocha Loures e os encontros gravados entre Michel Temer e Joesley Batista.

Naquela primeira vez, a CCJ precisou produzir dois relatórios. O primeiro, de Sérgio Zveiter (PMDB), recomendou o prosseguimento da acusação, com ênfase nos aspectos jurídicos necessários de uma denúncia: a existência de indícios de materialidade e autoria dos crimes, mas saiu perdedor.

O segundo, de Paulo Abi-Ackel (PSDB), foi contra a denúncia, mas também pautado em questões jurídicas, como a nulidade de delações. As dúvidas envolvendo a colaboração premiada dos irmãos Batista foram a principal arma da defesa de Temer, que deu bastante ênfase ao fato de o delator estar livre e sem acusações.

Ativismo do Judiciário pode aumentar ceticismo sobre política, indica estudo

Luiza Franco | Folha de S. Paulo

CAXAMBU (MG) - A crescente atuação do Judiciário no combate à corrupção, cujo exemplo mais claro é a Operação Lava Jato, possui o impacto positivo de investigar e punir, mas pode ter o efeito colateral de aumentar o ceticismo da população em relação à política.

É o que indicam os primeiros resultados de uma pesquisa que pretende esclarecer que tipo de eleitorado vai emergir no Brasil como consequência da megaoperação e desse "ativismo judicial" —expressão adotada pelos dois autores do trabalho, Nara Pavão, professora visitante da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), e Ezequiel González Ocantos, da Universidade Oxford (Reino Unido).

A tese de doutorado de Pavão conclui que o processo eleitoral, por si só, não elimina candidatos corruptos da disputa. Na verdade, quanto maior for a percepção de corrupção por parte do eleitorado, mais ele releva esse fator em seu processo de decisão —é um círculo vicioso. Agora, a pesquisadora quer entender o efeito do protagonismo do Judiciário, que goza de credibilidade, na opinião pública.

Pavão apresentou o resultado preliminar do experimento na manhã desta terça-feira (24), em congresso da Anpocs (Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais), em Caxambu (MG).

Temer e Maia ajustam agenda comum

Por Andrea Jubé e Bruno Peres | Valor Econômico

BRASÍLIA - O presidente Michel Temer e o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), reconciliaram-se na véspera da apreciação da segunda denúncia contra o pemedebista oferecida pela Procuradoria Geral da República, depois de um mês de atritos. Na expectativa de nova vitória de Temer no plenário, ambos combinaram uma agenda de votações, que Maia divulgará hoje. Temer fará um pronunciamento após o desfecho da votação anunciando os próximos passos do governo, com prioridade para a reforma da Previdência e as medidas de ajuste fiscal.

O pactuado entre Temer e Maia implica o espaço para o protagonismo de cada Poder, de modo que a Câmara votará a pauta econômica do governo porque é interesse do país, mas o presidente da Casa pautará, de igual forma, projetos do Legislativo. "Haverá convergência em algumas agendas, em outras não", explicou Maia a uma roda de jornalistas. Ele acrescentou que o "Congresso Nacional tem responsabilidade com a sociedade" e que em meio a uma profunda crise econômica "não pode haver embate político".

Depois de sair da reunião com Temer, Maia chegou à Câmara bem-humorado e contando piadas. Mas questionado sobre os embates com o presidente do PMDB, senador Romero Jucá (RR) - que filiou ao partido dissidentes do PSB com quem o DEM estava dialogando, - Maia sinalizou que o clima não é de plena reconciliação. A disputa com Jucá, no âmbito partidário, impactou na relação de Maia com o Planalto. "Não há amiguinhos na política", ressaltou o presidente da Câmara.

Fidelidade limitada

Câmara deve livrar Temer da segunda denúncia, mas não assegura aprovação de reformas

Leticia Fernandes, Catarina Alencastro e Cristiane Jungblut | O Globo

-BRASÍLIA- O presidente Michel Temer chega ao embate final no plenário da Câmara hoje com um desafio bem maior do que obter os votos para barrar a denúncia da Procuradoria-Geral da República por obstrução de Justiça e organização criminosa, o que até a oposição admite que acontecerá sem maiores dificuldades. Ele tem como principal desafio dar sentido à segunda metade de seu mandato, que termina em 1° de janeiro de 2019. Hoje, Temer não tem o apoio para aprovar a reforma da Previdência, e seus aliados no Congresso já admitem que o governo vai ter que se contentar com uma pauta microeconômica.

A tropa de choque do governo do peemedebista, que chegou ao Planalto se apresentando como reformista, não vê neste momento possibilidade de se aprovar a reforma da Previdência ou outras matérias que impliquem em mudanças constitucionais, que precisam de 308 dos 513 votos. Em troca, deputados e senadores oferecem apoio a projetos na área de segurança pública, tema capaz de unir governo e oposição. Especialmente num cenário pré-eleitoral.

— Após a denúncia, vamos ter que tocar duas agendas. Uma microeconômica, restrita à simplificação tributária, e outra de segurança pública, que é uma causa em que não há grandes divergências. A segurança pública vai ser o sonrisal para curar a ressaca pós-denúncia — avalia o líder do DEM, deputado Efraim Filho (PB).

O governo acredita que o resultado da votação de hoje deve ser bem próximo com ao registrado no último dia 2 de agosto, quando o plenário da Câmara sepultou por 263 votos a 227 a primeira denúncia contra Temer, que era acusado de ter praticado corrupção passiva. Para tentar conseguir um resultado maior que o de dois meses atrás, o Palácio do Planalto usa as armas que tem em mãos. Ontem, o presidente cedeu à pressão de deputados e sancionou o texto do Refis com quatro vetos, mas manteve condições favoráveis de parcelamento de juros e multas, em desacordo com a recomendação da equipe econômica.

O presidente tinha até o fim do mês para sancionar o Refis. Mas a pressão dos deputados venceu. Os parlamentares pressionaram pela sanção porque temiam que, passada a votação da denúncia, houvesse novos vetos, desfazendo os acordos feitos com base aliada em troca de votos contra a denúncia.

Velho cego, choravas | Pablo Neruda

Velho cego, choravas quando a tua vida
era boa, e tinhas em teus olhos o sol:
mas se tens já o silêncio, o que é que tu esperas,
o que é que esperas, cego, que esperas da dor?

No teu canto pareces um menino que nascera
sem pés para a terra e sem olhos para o mar
como os das bestas que por dentro da noite cega
- sem dia ou crepúsculo - se cansam de esperar.

Porque se conheces o caminho que leva
em dois ou três minutos até à vida nova,
velho cego, que esperas, que podes esperar?

Se pela mais torpe amargura do destino,
animal velho e cego, não sabes o caminho,
eu que tenho dois olhos to posso ensinar.
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Pablo Neruda, in "Crepusculário"

O morro não tem vez - Zimbo Trio e Orquestra de Cordas Arte Viva

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Opinião do dia – Fernando Henrique Cardoso

Se não organizarmos rapidamente um polo democrático (contra a direita política, que mostra suas garras), que não insista em “utopias regressivas” (como faz boa parte das esquerdas), que entenda que o mundo contemporâneo tem base técnico-científica em crescimento exponencial e exige, portanto, educação de qualidade, que seja popular, e não populista, que fale de forma simples e direta dos assuntos da vida cotidiana das pessoas, corremos o risco de ver no poder quem dele não sabe fazer uso ou o faz para proveito próprio. E nos arriscamos a perder as oportunidades que a História nos está abrindo para ter rumo definido.

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Sociólogo, foi presidente da República, ‘Quais os rumos do País?’, O Estado de S. Paulo, 8/10/2017.

2018 começa quarta | Merval Pereira

- O Globo

Com a mais que provável vitória da maioria governista na votação de amanhã na Câmara, livrando o presidente Temer da segunda denúncia remanescente da era Janot, começa a tomar corpo a disputa sucessória, com uma novidade fundamental: dificilmente se repetirá a polarização entre PT e PSDB que marcou as últimas seis eleições presidenciais. Temer ainda sonha um sonho improvável: presidir uma recuperação econômica de tal porte que lhe dê condições de ser um eleitor de peso na sua sucessão.

Os dois partidos que dominaram a cena política desde 1994 chegam a mais uma eleição presidencial feridos de morte, buscando alternativas às principais lideranças, dentro ou fora de suas legendas.

O ex-presidente Lula, se conseguir disputar a eleição em 2018, chegará provavelmente sub judice, depois de condenado em segunda instância, pelo TRF-4, e em primeira instância pelo menos mais uma vez. Pode criar um impasse jurídico-político de amplas consequências, pois pela legislação um candidato pode ser impugnado mesmo depois de eleito e diplomado. Mas seria improvável a impugnação de qualquer candidato nessa situação, ainda mais sendo Lula.

O PSDB, sem seu candidato natural, o senador Aécio Neves, derrotado em 2014 por diferença mínima, quase certamente escolherá saída tradicional, que seria o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

O prefeito João Doria seria uma novidade fora dos quadros ortodoxos do partido, mas parece estar perdendo fôlego ao tentar queimar etapas nessa maratona, que tem características diferentes das demais disputas presidenciais, mas exige resistência que o veterano Alckmin está mostrando ter.

Battisti e seus fantasmas | Eliane Cantanhêde

- O Estado de S.Paulo

Em São Paulo, debate sobre Mãos Limpas e Lava Jato; em Brasília, o que fazer com Cesare Battisti

Vamos convir que o governo e a sociedade italianos têm razão: Cesare Battisti não é nenhum herói como Garibaldi e não tem a aura de um Che Guevara, apesar de posar com a gravura do revolucionário cubano “casualmente” ao fundo. Nos governos do PT, aqui no Brasil, ele foi tratado como um réu político. Em qualquer governo, lá na Itália, ele é considerado um criminoso comum, um assassino frio de ao menos quatro cidadãos.

Discretamente, os italianos ponderam que vivem uma democracia e, mesmo condenado à prisão perpétua, Battisti dificilmente morreria no cárcere caso extraditado. Seus companheiros já foram soltos, integrados à vida normal e há quem esteja muito bem de vida. Na Itália, a prisão perpétua só vale na teoria, assim como as penas no Brasil são reduzidas para 1/6. Sérgio Cabral já está condenado a 72 anos. Quanto vai cumprir?

A história de Battisti no Brasil é tortuosa. Ele chegou fugido, clandestinamente. Foi preso e iniciou-se um longo debate. Os pareceres técnicos e jurídicos do Itamaraty e do Ministério da Justiça eram favoráveis à extradição, mas o então ministro Tarso Genro, que é da área jurídica, preferiu o viés ideológico e liderou o processo de mantê-lo no Brasil.

A última chance do presidente | Raymundo Costa

- Valor Econômico

Vencida a denúncia, Temer quer reforma e arrumar sucessão

O Palácio do Planalto espera um resultado similar à votação da primeira denúncia, quando 263 deputados responderam não ao pedido de autorização do Supremo Tribunal Federal (STF) para investigar e processar o presidente Michel Temer. Especialista em votações na Câmara, o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) trabalha com uma variação de 10% para mais ou para menos, o que significaria cerca 237 votos no piso inferior e 289 na banda superior. Para Eliseu Padilha não será surpresa se der uma variação positiva.

Num caso ou noutro, o governo do presidente Temer sai da segunda votação acreditando que pode tocar a reforma da Previdência, a partir da próxima semana. "O clima tanto no plenário quanto na rua mudou muito", segundo o ministro da Casa Civil. Na opinião dele, o momento é agora. "Fica mais difícil quanto mais próximo da eleição". Os números são "terríveis" - a expressão é de Padilha - com um salto no déficit previdenciário de R$ 55 bilhões de 2017 para 2018. É o que está no Orçamento.

A expectativa no Palácio do Planalto é que o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), assuma a condução desse processo, tão logo seja votada a denúncia. Não será apenas um trabalho de "mobilização", no qual o governo Temer tem mostrado competência, mas também de "conscientização". Hoje parece mais claro a Padilha que a necessidade da reforma é bem mais compreendida do que à época em que o governo enviou o projeto. E uma reforma que terá de ser feita mais cedo (atual governo) ou mais tarde (o governo a ser eleito em 2018).

Lula e o populismo | Hélio Schwartsman

- Folha de S. Paulo

A entrevista que Luiz Inácio Lula da Silva deu ao jornal espanhol "El Mundo" não nos faz vislumbrar uma campanha eleitoral muito auspiciosa em 2018.

Nem tudo, porém, são más notícias. É positivo o fato de Lula admitir que o governo Dilma Rousseff cometeu erros. O maior deles, segundo o petista, foi ter "exagerado" nas desonerações dadas a empresas. Tal reconhecimento me pareceu um avanço, porque ainda vejo petistas que defendem a política econômica de Dilma, atribuindo o desastre ocorrido sob sua gestão só a fatores externos.

Lula, entretanto, se trai ao afirmar que o segundo maior erro de Dilma foi ter tentado, em 2015, promover o ajuste fiscal, contrariando tudo o que afirmara na campanha de 2014. O problema de Dilma não foi propor o ajuste (eu diria até que foi um de seus raros acertos), mas sim ter prometido o que ela sabia que não poderia entregar. Nesse particular, Lula errou junto com Dilma, pois ele também tinha conhecimento da encrenca fiscal e isso não o impediu de participar ativamente da campanha.

O acerto não abona | Míriam Leitão

- O Globo

Nesta quarta-feira, o presidente Michel Temer estará diante do melhor e do pior do seu governo. Na política, responderá à segunda denúncia de crime em três meses e usando as armas que usou da primeira vez: políticas e recursos públicos. Na economia, o Banco Central deve levar a 7,5% a taxa de juros que estava em 14,25% no começo do seu governo. O acerto na economia não abona o erro no resto.

Como na primeira denúncia, o presidente tem usado o seu poder de comando do país para socorrer-se dos apuros em que entrou. No fim de semana, um dos seus decretos perdoou 60% das multas ambientais das empresas. E o que não foi perdoado poderá ser usado pelos empresários em investimentos para recuperação ambiental. O temor é que eles acabem usando os recursos que terão que pagar em projetos do seu interesse ou que eles tenham mesmo que fazer para respeitar as leis ambientais. De novo, o governo estará premiando quem desrespeitou a lei.

Em artigo intitulado “Riqueza Ambiental”, publicado na “Folha de S.Paulo”, o presidente distorce o que acabou de acontecer e afirma que assinou “a maior e mais inovadora iniciativa ambiental do governo”. Desconto do valor de multas e dívidas de empresas sempre foi concedido. Entra governo e sai governo. A atual administração reduziu e parcelou dívidas previdenciárias do setor rural. Não há nada de inovador em dar um desconto de 60% em multa ambiental. Usar os restantes 40% em projetos ambientais também não é novo. “Tal volume de recursos, que não dependerá do Tesouro Nacional, é uma verdadeira revolução no setor”, escreveu Temer, em outro argumento sem sentido. Ora, se as multas fossem pagas, os recursos, 100% deles, iriam para o setor público, ou seja, para o Tesouro. Temer tenta dourar a pílula de mais uma concessão feita pelo seu governo.

Uma apatia conveniente | Bernardo Mello Franco

- Folha de S. Paulo

A semana da votação que poderia derrubar Michel Temer começou em clima de marasmo. Governo e oposição apostam no arquivamento da segunda denúncia contra o presidente. Se a previsão se confirmar, ele ganhará mais 14 meses de hospedagem grátis no Jaburu.

Nesta segunda, a Câmara permaneceu vazia. A sessão da tarde foi cancelada por falta de quorum. Mais cedo, um deputado solitário discursou em homenagem à Sociedade Brasileira de Eubiose. Os próximos eventos da entidade serão um simpósio sobre o bem e o mal, um recital de piano e uma oficina de origami.

Temer compareceu a uma cerimônia militar, mas abriu mão de discursar. Os parlamentares que decidirão seu futuro não estão interessados em palavras, e sim no "Diário Oficial". Nesta terça-feira, deve ser publicado o decreto que oferece desconto de até 60% em multas ambientais.

Liberalismo puro é a incivilização, diz Alckmin

Apontado como pré-candidato à Presidência no ano que vem, governador de São Paulo tenta resgatar os valores originais social-democratas do PSDB apostando no investimento em políticas sociais

Ricardo Galhardo | O Estado de S.Paulo

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, apontado como pré-candidato do PSDB à Presidência da República, disse, em encontro com o grupo tucano PSDB Esquerda Pra Valer, na quinta-feira, 19, que o “liberalismo completo” se contrapõe aos príncípios civilizatórios.

“O laissez-fair, o liberalismo completo, é a incivilização. Porque é o grande comer o pequeno. O rico esmaga o pobre”, disse o governador.

Conforme o Estado noticiou, Alckmin tenta resgatar os valores originais social-democratas do PSDB apostando no investimento em políticas sociais. Os objetivos são se distinguir de pré-candidatos com discursos de direita como o prefeito João Doria (PSDB), o ministro da Fazenda Henrique Meirelles e o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e herdar os votos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva caso o petista seja impedido de disputar as eleições do ano que vem.

No encontro da semana passada, o governador falou claramente em social-democracia e destacou a importância de buscar o equilíbrio entre a economia de mercado e os programas sociais.

“Não tem economia moderna sem consumo nem salário ou renda. Não existe isso. Nós temos que ter um foco na inovação e outro na questão social. Aí vem a social-democracia”, disse Alckmin.

Segundo o governador, a política de livre mercado pura “contrapõe a questão civilizatória”.

“Você contrapõe a questão civilizatória porque você tem que ter regras de convício social. O grande não pode pisar em cima do pequeno. Tem que ter um mínimo de regras”, afirmou.

Renovação ‘nem de direita, nem de esquerda’

Apoiado por Huck, RenovaBR foge de polêmicas ideológicas e pretende lançar 100 candidatos

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

BRASÍLIA - Construir uma candidatura em tempos de Lava Jato não é tarefa fácil, mas, à procura de talentos desconhecidos, o movimento RenovaBR começa a chamar a atenção na busca de nomes para disputar as eleições de 2018. Idealizado pelo empresário Eduardo Mufarej, o grupo já ganhou o apoio de famosos, como o apresentador Luciano Huck e o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, e vai oferecer cursos de formação para jovens que desejam entrar na política.

A ideia é preparar potenciais candidatos para os cargos de deputado federal e estadual. Ao menos na próxima eleição, porém, o RenovaBR não vai investir no treinamento para a cadeira hoje ocupada pelo presidente Michel Temer. “O nosso foco é o Legislativo, mas não se trata de um movimento nem de direita, nem de esquerda”, disse Mufarej, mentor do projeto e sócio da Tarpon Investimentos. “Queremos tentar aproximar o Brasil, e não dividir. Existe gente competente nos diferentes espectros ideológicos.”

Desde o último dia 7, o RenovaBR recebeu 600 interessados em participar de suas aulas. As inscrições terminam no fim deste mês e serão escolhidos até 150 participantes para o programa. Deste total, o grupo acredita que poderá lançar cerca de cem candidatos a deputado – a maioria a federal –, em 2018. Há também um esforço para que mais mulheres entrem na corrida eleitoral.

‘Eleitor se sentiu traído por Dilma’, diz Lula

Ao jornal espanhol “El Mundo”, Lula disse agora que o eleitor se sentiu traído pelo ajuste fiscal e pela desoneração da folha no governo Dilma.

Lula diz que ajuste fiscal de Dilma fez eleitorado se sentir traído

Para ex-presidente, que escolheu sucessora, governo ‘jogou fora a base social’

- O Globo

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o eleitorado brasileiro que reelegeu Dilma Rousseff em 2014 se sentiu traído pela petista após ela anunciar que promoveria um ajuste fiscal no governo. A declaração foi dada ao jornal espanhol “El Mundo”, em entrevista publicada anteontem. Inicialmente, o periódico publicou que Lula disse que Dilma “traiu o eleitorado que a elegeu em 2014”. Porém, ontem, após Lula afirmar que não havia dito tal frase, o jornal espanhol alterou a declaração em seu site. O ex-presidente publicou, em sua conta nas redes sociais, trecho da entrevista, no qual diz que o governo “jogou fora a base social” que tinha reeleito Dilma.

De acordo com Lula, promover o ajuste fiscal foi um dos erros cometidos por Dilma na Presidência — o principal equívoco, no entanto, teria sido a política de desonerações de empresas. Apesar da crítica, Lula afirmou que Dilma foi impedida pelo Senado de rever a própria política estabelecida por ela.

— Claro que falhamos. Nosso maior erro foi exagerar na política de desonerações das grandes empresas. O Estado deixou de arrecadar para dar aos empresários, e em 2014 saía mais dinheiro do que entrava. Entre 2011 e 2014 se desoneraram R$ 428 bilhões. Quando Dilma tentou acabar com essa ajuda, o Senado não permitiu. O segundo erro (do governo Dilma) ocorreu quando a presidente anunciou o ajuste fiscal e o eleitorado que a elegeu em 2014 se sentiu traído, ao qual havíamos prometido que manteríamos os gastos. Assim começamos a perder a credibilidade — disse Lula, segundo o jornal “El Mundo”.

O petista comparou a situação de Dilma com o segundo governo de Fernando Henrique Cardoso e citou o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, hoje preso na Lava-Jato, para justificar a saída do PT da Presidência depois de 13 anos.

Petista busca os que foram traídos por Dilma

Lula, porém, não terá como maquiar todo o desastre econômico da sucessora

Paulo Celso Pereira | O Globo

Com cinco disputas presidenciais nas costas, o ex-presidente Lula sabe que não será possível passar toda a pré-campanha eleitoral de 2018 maquiando o desastre econômico do governo de sua sucessora. Nos 18 meses que separam a vitória de Dilma Rousseff nas urnas de seu afastamento determinado pelo Congresso, o desemprego salta de 6,6% para 11,2%, a inflação dispara, a renda do trabalhador cai e o PIB desaba, demarcando a maior recessão de nossa História.

A entrevista ao jornal espanhol “El Mundo” parece finalmente dar pistas de como o ex-presidente pretende pavimentar a rota pela qual tentará chegar pela terceira vez ao Palácio do Planalto. Trata-se de um equilíbrio tênue em que alardeia a receita econômica de seus dois governos — defendendo investimentos em infraestrutura, recuperação da credibilidade externa e políticas sociais relevantes — com a busca de uma justificativa para o desastre dos últimos anos do PT no poder.

Apesar de liderar todas as pesquisas eleitorais, Lula sabe que, além de superar os processos judiciais, precisa reduzir nos próximos meses sua alta rejeição. Fazer um mea-culpa para os que se sentiram traídos por Dilma é a primeira e mais óbvia tarefa.

Ganhos de véspera | Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

As análises sobre a votação da denúncia do ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot contra o presidente Michel Temer, com base na delação premiada do doleiro Lúcio Funaro, são unânimes: o plenário da Câmara rejeitará amanhã a denúncia e a investigação será congelada até que termine o mandato presidencial. Mas Temer sairá mais enfraquecido, porque uma parte da base se ausentará do plenário. A oposição não tem os 342 votos de que necessitaria para afastá-lo; porém, ao contrário do que aconteceria em outras circunstâncias, caiu o número de aliados incondicionais do presidente de República.

É um non sense. Governistas e oposicionistas querem Temer mais fraco, mas não desejam que ele saia do Palácio do Planalto. Muitos parlamentares têm o discurso de defesa do governo na ponta da língua. Falam em retomada do crescimento, avanço das reformas, defendem o governo de transição, advertem que substituir o presidente novamente seria pôr em risco a democracia, abrir caminho para uma intervenção militar etc. Mas, na hora agá, mesmo assim, votarão a favor da denúncia ou não aparecerão para votar. O nome disso é medo do eleitor, temor de entrar na lista de parlamentares que serão atacados nas redes sociais nas eleições do próximo ano, por movimentos engajados na luta contra a corrupção, como o Vem Pra Rua, por exemplo.

Temer age para repetir ao menos placar da 1ª votação

Segunda denúncia será votada amanhã; Planalto quer no mínimo 263 votos e libera R$ 829 milhões em emendas
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Daiene Cardoso, Igor Gadelha, Isadora Peron, Vera Rosa | O Estado de S. Paulo

/ BRASÍLIA - O governo avalia ter 240 votos garantidos e age para conseguir pelo menos os 263 obtidos na 1.ª votação, amanhã, quando deputados vão votar a 2.ª denúncia contra o presidente Michel Temer. A estratégia do Planalto para conquistar votos tem sido liberar emendas parlamentares e fazer nomeações em cargos. Desde 14 de setembro, quando a Procuradoria-Geral da República apresentou a denúncia por organização criminosa e obstrução da Justiça contra Temer, o governo liberou quase R$ 829 milhões em emendas. Do valor total previsto para este ano, R$ 6,8 bilhões, o Planalto ainda tem cerca de R$ 1,6 bilhão para distribuir. Os esforços estão concentrados em cerca de 40 deputados da base que ameaçam votar contra o peemedebista. “Se houver atuação semelhante à dos parlamentares na denúncia anterior, estou tranquilo”, disse Temer à coluna Direto da Fonte.

À véspera da votação da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer no plenário da Câmara, a “tropa de choque” do governo avaliava ontem ter garantidos 240 votos e trabalhava para conseguir um placar que chegue ao menos aos 263 obtidos no primeiro resultado. A estratégia do Palácio do Planalto, a exemplo da acusação por corrupção passiva, tem sido usar a liberação de emendas parlamentares e a nomeação de afilhados políticos em cargos no segundo e terceiro escalões do Executivo para conquistar mais votos.

Temer tenta obter margem de vitória maior em votação

Temer tenta frear debandada e ampliar margem de vitória

Ranier Bragon, Marina Dias, Daniel Carvalho | Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - Com uma planilha de apoiadores cerca de 20 votos mais magra do que na análise da primeira denúncia, em agosto, o governo Michel Temer decidiu priorizar nas últimas 48 horas conversas com um grupo de 40 parlamentares para tentar evitar um resultado politicamente negativo na sessão desta quarta-feira (25).

A primeira acusação da PGR (Procuradoria-Geral da República) contra Temer foi barrada com o apoio de 263 deputados, mas agora esse número pode ficar abaixo da metade das cadeiras da Câmara (257).

Governistas dizem ter certo, nesse momento, 240 votos. O foco é conter a debandada de um grupo de aproximadamente 40 parlamentares que têm demonstrado insatisfação e cobrado benesses do Palácio do Planalto.

PMDB, PR e PSD, que haviam fechado questão na primeira denúncia —ou seja, obrigado as bancadas a votar contra a denúncia, sob risco de punição—, não farão o mesmo agora.