quinta-feira, 12 de maio de 2022

Merval Pereira: Bolsonaro e suas marionetes

O Globo

O presidente Jair Bolsonaro, em meio à crise entre as Forças Armadas e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em razão dos questionamentos reiterados, alguns até já respondidos, do representante dos militares na Comissão de Transparência das Eleições (CTE) sobre as urnas eletrônicas, abriu o jogo num “sincericídio” que lhe é peculiar. Disse que, como comandante em chefe das Forças Armadas, seu representante na comissão só poderia seguir suas orientações. Com isso, assumiu a autoria da tentativa de desacreditar o sistema eleitoral brasileiro com questionamentos sem base técnica, muitos fora do prazo legal.

O ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, pediu em seguida ao TSE que centralizasse as informações nele, e não no representante das Forças Armadas na comissão. Uma demissão branca do general indicado por escolha do Palácio do Planalto, que não aceitara a sugestão dos técnicos do TSE de colocar um almirante especialista em tecnologia da informação que já tinha contato com os ministros.

Malu Gaspar: Botão de pânico

O Globo

Militares atuam como buchas de canhão para o golpismo de Bolsonaro

A estratégia que Jair Bolsonaro desenhou para chegar às eleições em condições de vencer o pleito ou melar o jogo é conhecida: criar tumulto atrás de tumulto, espalhar focos de desconfiança e dispersar a atenção dos assuntos que realmente importam. Vem sendo assim desde o começo do governo. 

Toda vez que o presidente da República depara com um problema que não sabe ou não quer resolver, aciona o botão do pânico. Só que quem entra em pânico somos nós. E só continua funcionando porque sempre tem algum fardado disposto a ajudar o presidente em suas tentativas de criar o caos.

A história se repetiu na última polêmica em torno da segurança do sistema eleitoral. Bolsonaro lançou a bomba aproveitando-se da confusão criada pelo perdão presidencial ao deputado Daniel Silveira (PTB-RJ) e da fala do ministro do STF Luís Roberto Barroso, para quem as Forças Armadas estavam sendo orientadas a atacar e desacreditar o processo eleitoral.

Em discurso no Palácio do Planalto, difundiu a ideia de que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apura os votos numa sala secreta que não existe, citando uma proposta de apuração paralela pelas Forças Armadas que também nunca foi feita.

Ao mesmo tempo que TSE e interlocutores do Judiciário e do Congresso tentavam desfazer o tumulto com notas de esclarecimento e encontros a portas fechadas, outro general, Heber Portella, enviava ofícios desaforados ao TSE demandando explicações sobre supostos riscos e fragilidades no sistema eleitoral.

Embora fosse o representante dos militares na famigerada Comissão de Transparência do TSE, o general adotou um tom que a hierarquia da força não lhe autoriza:

“Os militares recomendam previsão e divulgação antecipada de consequências para o processo eleitoral, caso seja identificada alguma irregularidade na contagem dos votos da amostra utilizada no Teste de Integridade, haja vista que não foi possível visualizar medidas concretas no caso da ocorrência de referidas irregularidades”.

Desde então, o ministro da Defesa, Paulo Sérgio Nogueira, tomou para si a interlocução com a Corte eleitoral, desautorizando Portella. O TSE explicou que parte das sugestões já havia sido implementada e outra parte era inviável, expondo a falta de conhecimento técnico do general sobre o sistema.

Míriam Leitão: Inflação presente e o risco futuro

O Globo

O problema não é apenas a inflação de agora, mas o processo inflacionário à frente. O índice de abril foi horroroso, o pior para o mês desde 1996 e o acumulado chegou a 12,13%. O governo tem tomado decisões que podem manter a inflação alta por muito mais tempo que este mandato. De imediato, haverá oscilação pra baixo. Maio será um mês de refresco nessa fornalha que tem atingido os índices. Tanto o IPCA-15 quanto o IPCA vão trazer números baixos. Mas a questão mais preocupante é que o país pode estar contratando agora a elevação de preços de amanhã.

Quem alertou para isso foi Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander Brasil. Ela fez parte da equipe que, no governo Michel Temer, derrubou a inflação de dois dígitos para o centro da meta. Difícil repetir o feito. O mundo não está ajudando e há muitas escolhas erradas sendo feitas neste momento, como o aumento forte das despesas.

— Este ano o gasto primário está aumentando 5%, já descontada a inflação. Uma despesa de 5% real maior do que no ano passado. Isso não vai ceder de uma hora para outra. Todos os componentes presentes na inflação atual estão elevando a inércia e esse quadro fiscal é um desses componentes — disse Ana Paula em uma entrevista que me concedeu na Globonews.

Luiz Carlos Azedo: Almirante Bento vira homem ao mar

Correio Braziliense

É mais um oficial-general de quatro estrelas de grande prestígio nas Forças Armadas defenestrado por Bolsonaro de forma humilhante, por discordâncias com o Centrão e o presidente da República

O almirante de esquadra Bento Albuquerque foi demitido, ontem, do cargo de ministro de Minas e Energia, inesperadamente, pelo presidente Jair Bolsonaro (PL), a pretexto de que teria se omitido em relação aos aumentos dos combustíveis, sobre os quais não tem nenhuma responsabilidade direta, porque a decisão é da Petrobras. O real motivo da demissão, porém, foi sua discordância com o chefe da Casa Civil, Ciro Nogueira, e os partidos do Centrão, quanto à aprovação de um projeto bilionário de construção de uma rede de gasodutos interligando oito estados do Centro-Oeste, Norte e Nordeste do Brasil, para o qual pretende se destinar cerca de R$ 100 bilhões do lucro do pré-sal. O projeto beneficia diretamente o empresário Carlos Suarez, ex-sócio-fundador da empreiteira OAS, que tem o monopólio de distribuição de gás nos estados beneficiados.

Maria Cristina Fernandes: O preço a ser pago pelo desespero bolsonarista

Valor Econômico

Na área mais estratégia para a inserção nacional na economia mundial, o Brasil de Bolsonaro é guiado por uma visão de curto prazo e predatória

O presidente Jair Bolsonaro foi capaz, em 2018, de convencer incautos empresários de que mais do que no capitão, se deveria confiar em Paulo Guedes como guardião do gasto público e arauto da privatização.

O jogo montado om a substituição de Bento Albuquerque por Adolfo Sachsida no Ministério de Minas e Energia sinaliza que Bolsonaro redobra a aposta na mesma estratégia.

Sem apoio militar ao golpe, Bolsonaro vê se dá pra ganhar no voto. A primeira aposta é no controle de tarifas até outubro. Empacota como o preço a pagar por um segundo mandato que, aí sim, entregará privatizações. Como se isso resolvesse o nó dos combustíveis. O mercado de óleo de soja é privado e nem por isso o preço dos últimos 12 meses deixou de subir 24%.

A segunda aposta é no futuro da parceria com o Centrão, a partir da garantia de recursos orçamentários para a construção dos gasodutos para as termelétricas. Trata-se daquele projeto que tem meia dúzia de beneficiários entre os empresários do setor, algumas dezenas de sócios no Congresso Nacional e 216 milhões de vítimas, em todo país, pelo custo fiscal e ambiental que acarreta.

É este o pacote do MME. Na área mais estratégica para a inserção nacional na economia mundial, o Brasil de Bolsonaro é guiado por uma visão de curto prazo e predatória.

O ex-assessor especial de Assuntos Estratégicos do Ministério da Economia costuma ser vinculado a Paulo Guedes, mas, na verdade, é um bolsonarista raiz. Nega a dívida histórica com a escravidão e foi capaz de dizer, na pandemia, que a melhor vacina para país seria avançar na agenda de reformas.

Não espanta, portanto, que, na Petrobras, tema-se a mudança no MME como prenúncio da adesão do governo ao projeto de lei, já aprovado pelo Senado, que institui uma banda de flutuação do preço do combustível a ser bancada, majoritariamente, pelo caixa da empresa.

Cristiano Romero: Ajuste, crescimento e desigualdade

Valor Econômico

Made, da USP, fecha lacuna importante no debate econômico

Há exatos 40 anos os brasileiros são confrontados com duas palavras que, periodicamente ditas em Brasília, significam que a vida de muita gente, mas não de todos, vai piorar: ajuste fiscal. E o que é um ajuste fiscal? Sem eufemismo, é a redução da renda disponível tanto dos cidadãos quanto das empresas. Governos, desde sempre, fazem isso por meio de dois instrumentos: aumento de impostos e corte de despesas públicas.

Esse dinheiro que sai do bolso de indivíduos e de companhias não aumenta a disponibilidade dos Estados nacionais. Os recursos são usados para reduzir o endividamento público, de maneira que, em até cinco anos, o setor público reduza a sua necessidade de tomar dinheiro do mercado para se financiar e, assim, estimule o aumento da poupança privada, fonte do financiamento dos investimentos das empresas. Sob essa justificativa, dinheiro público foi usado à mancheia para cobrir rombos de empresas públicas e privadas, quando não, salvar bancos. Em alguns casos, o dinheiro dos contribuintes serviu para aumentar a margem de lucro de grandes empresas, que não deram a contrapartida acordada com seu benfeitor (o erátrio público) - investir mais, portanto, contratar trabalhadores, gerar renda...

Em tese, governantes são eleitos para aumentar a renda disponível da população e, sim, criar condições para que as empresas produzam e lucrem mais, de forma a gerar empregos e cada vez mais renda. Ocorre que ainda não se inventou um modelo econômico imune a crises periódicas - o socialismo real não funcionou como alternativa porque prescindiu de um valor inerente ao homem, que é a liberdade, e falhou também como alternativa econômica, uma vez que não foi capaz de gerar a riqueza necessária ao atendimento das necessidades básicas dos cidadãos.

Jorge Arbache: Terremotos e recessões

Valor Econômico

Já se fala de uma nova recessão global, com fadiga fiscal, elevado endividamento público e privado e crise climática

Os terremotos têm certa similaridade com as recessões. Enquanto terremotos sacodem o terreno e deixam um rastro de destruição, recessões sacodem os pilares da economia, paralisam negócios e geram desemprego, pobreza e quebradeira de empresas. Logo em seguida vêm as réplicas, ou terremotos secundários, de reacomodação do terreno. Mas, aqui, há uma dissimilaridade importante entre eles. Diferentemente dos terremotos, os efeitos secundários das recessões podem ser sentidos mais por uns grupos da sociedade do que por outros. Ou seja, as recessões podem não ser neutras, o que se deve à forma como os efeitos das recessões se distribuem no interior da economia e à estrutura produtiva e dos mercados.

Evidências empíricas para países em desenvolvimento mostram que vários dos efeitos negativos das recessões não são totalmente neutralizados durante as recuperações e, desta forma, pode restar uma espécie de “saldo de destruição”. A modo de exemplo, a taxa de crescimento do índice de Gini, que mede o grau de concentração da renda, aumenta mais durante períodos de recessão do que diminui durante períodos de recuperação econômica. Ou seja, recessões podem levar a desigualdade para outro patamar. Participação das mulheres no mercado de trabalho, taxa de desemprego estrutural e indicadores escolares estão entre os vários indicadores que podem capturar aquela destruição.

Vinicius Torres Freire: Bolsonaro insinua guerra civil

Folha de S. Paulo

Em discurso, presidente reapresenta seu programa, minimiza inflação e fala de povo armado

A inflação anual é a maior em quase 20 anos. Passou de 12% em abril. Deve permanecer acima de 10% até setembro, à beira da eleição. Em grande parte, é resultado de choques mundiais graves, piorados pela desvalorização brutal do real em 2020 e 2021.

Qualquer governo teria dificuldade de ao menos atenuar esses choques (Covid e suas sequelas, crise de energia, Guerra da Ucrânia etc.). Em um país com estabilidade econômica e política, a alta do dólar poderia ter sido menor.

É fácil perceber que a economia fica à deriva em um país desgovernado, submetido aos objetivos de um projeto autoritário e sob a regência da incompetência e de parlamentares negocistas.

O indivíduo que ocupa a cadeira de presidente procura então não apenas camuflar a ruína, mas o faz reafirmando seu programa de desmonte, "contra o sistema". Junta a fome com a vontade de poder autoritário, até mesmo por meio do conflito armado.

Maria Hermínia Tavares*: No ambiente, um (bom) sinal dos tempos

Folha de S. Paulo

A questão ambiental tornou-se tema inescapável neste ano eleitoral

Risonho, jovem, em uniforme de campanha, eis o presidente com uma suçuarana à frente e a mata ao fundo.

Tal é a abertura de um vídeo promocional que anuncia, em inglês —ou pior, para inglês ver—, que o Brasil é um país livre e seu território, extremamente preservado. A megamentira está nas redes desde a segunda-feira (9). No mesmo dia, o vice Hamilton Mourão reconheceu que os dados sobre o desmatamento na Amazônia Legal eram "péssimos", "horríveis", a ponto de tornar necessário descobrir onde o governo está falhando.

O general acerta ao dizer que os dados são péssimos. Segundo o Inpe, a derrubada da floresta superou inéditos 1.000 quilômetros quadrados entre janeiro e abril. Mas, ao contrário do que ele sugere, não há mistério a desvendar. O porte do desastre é consequência direta da ação do governo na área ambiental.
Segundo a MapBiomas —rede criada por especialistas em sensoriamento remoto e mapeamento de vegetação—, a administração federal deixou de averiguar 97% dos alertas de destruição das florestas emitidos pela organização entre janeiro de 2019 e março último.

Bruno Boghossian: Jogadas de Bolsonaro sobre preços transmitem um certo desespero

Folha de S. Paulo

Só falta o presidente trocar frentistas dos postos para ver se o preço dos combustíveis cai

Jair Bolsonaro telegrafou a demissão do ministro de Minas e Energia. Na semana passada, o presidente citou nominalmente o almirante Bento Albuquerque e o chefe da Petrobras, José Mauro Ferreira Coelho, e mandou um recado, aos gritos: "Vocês não podem aumentar o preço do diesel! Eu não estou apelando, eu estou fazendo uma constatação".

Quatro dias depois do ultimato, a estatal anunciou mais uma alta do combustível. Passados mais dois dias, o ministro perdeu o cargo.

O presidente busca uma válvula de escape para os danos políticos provocados pelos aumentos. Na ausência de um plano eficiente para o setor, Bolsonaro já demitiu dois presidentes da Petrobras e, agora, o ministro da área. Nesse ritmo, falta trocar os frentistas dos postos de combustíveis, para ver se os preços caem.

Ruy Castro: Exército sob Bolsonaro

Folha de S. Paulo

O que os generais da ditadura diriam dele?

Jair Bolsonaro lembra aqueles meninos covardes que chamam alguém para a briga e, quando o outro topa, fogem correndo para o irmão mais velho, chorando e pedindo que ele brigue em seu lugar. É o que vem fazendo desde o dia em que tomou posse —chamando as instituições para brigar e, quando estas se cansam de ser provocadas e reagem, ele induz as Forças Armadas a promover desfile de canhão, sobrevoo da capital e bravatas de oficiais sem compostura. Entre uma e outra ameaça, cavalga motocicletas, jet skis e cavalos propriamente ditos, sempre em turma e contando com o apoio armado.

O Exército Nacional já foi mais exigente. Os generais do regime militar, com tudo o que nos custaram, eram pelo menos ciosos de três coisas: o crescimento econômico, a Petrobras e a Amazônia. Exatamente o que Bolsonaro detesta. Certa ou errada, eles tinham uma ideia de desenvolvimento e de modernização do Brasil. Sob Bolsonaro, ao contrário, já estamos perto do crescimento zero, da desmoralização da estatal e da destruição da floresta --programas que, com um segundo mandato, ele completará. Falta-me cultura política para entender o que o país ganha com isso e por que o pessoal fardado o aprova.

William Waack: País dos oportunistas

O Estado de S. Paulo

O cenário pós-eleitoral do Centrão e dos mercados assume poucas mudanças

No atual momento de falta de lideranças políticas abrangentes e esgarçamento do tecido institucional prevalece quem tem um mínimo de organização e objetivos comuns bem delineados. É o caso da consolidação das forças do Centrão em torno das ferramentas de poder (orçamento secreto) – que o STF parece pouco propenso a enfrentar de verdade.

Há integrantes do STF que se queixam de “ingratidão” por parte dos políticos. “Afinal, nós devolvemos a política aos políticos”, dizem, nutrindo esperanças de retribuição pela obra de liquidação da Lava Jato.

Mas onde estão esses ingratos, na hora em que o STF precisa de artilharia amiga no embate com um presidente que tem como principal tática político-eleitoral peitar os tribunais superiores e o sistema eleitoral?

Adriana Fernandes: Demissão de ministro em dia de IPCA a 12%

O Estado de S. Paulo

Alta de preços de combustíveis e de energia ameaça chances de reeleição de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro rifou o seu “ministro-almirante” de Minas e Energia, Bento Albuquerque, na noite da véspera do anúncio pelo IBGE da inflação fechada de abril. O IPCA fechou o mês com alta de 1,06%, e taxa acumulada em 12 meses atingindo 12,13%. Não é mera coincidência. A fotografia atual mostra também Bolsonaro parando de crescer nas pesquisas e o seu adversário nas eleições, Lula da Silva, mantendo a vantagem. Os bolsonaristas estavam animados com a recente diminuição da distância entre o presidente e Lula, mas esse avanço não prosperou como esperavam.

A crise de energia, com a alta dos preços de combustíveis e das tarifas de energia elétrica, ameaça os planos da reeleição.

O presidente fez a demissão e surpreendeu meio mundo, inclusive aliados, com a publicação no Diário Oficial da União na manhã de ontem. Sinal de que, desta vez, ao contrário das duas escolhas para o comando da Petrobras, ouviu poucas pessoas e acabou descartando mais um ministro do grupo dos militares.

A manobra foi conduzida num momento de ameaças renovadas de greve dos caminhoneiros após a alta do diesel. A troca deu um nó na cabeça de quem tenta entender os sinais desse movimento com a escolha de um auxiliar de Paulo Guedes, Adolfo Sachsida, que “dia sim, dia não” repete o mantra da necessidade de avançar nas políticas de reformas pró-mercado num ambiente de consolidação fiscal.

Celso Ming; A Petrobras e a cólera de Bolsonaro

O Estado de S. Paulo

Alguém ainda leva a sério a indignação do presidente Jair Bolsonaro com o critério de preços adotado pela Petrobras? A Bolsa e o mercado financeiro começam a ignorar.

Já foram sacrificados três bodes expiatórios por conta desse teatro: dois presidentes da Petrobras, Roberto Castello Branco e Joaquim Silva e Luna e, agora, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque.

O maior indício de que Bolsonaro apenas finge indignação é o fato de que seus ministros não o acompanham nesse jogo. Alguém já ouviu alguma declaração do ministro Paulo Guedes que endosse as declarações de Bolsonaro de que “o lucro da Petrobras é um estupro”? Nem tampouco Bento Albuquerque tocou a mesma partitura. Tanto não tocou, que está demitido.

José Serra*: Marte e os meteoros fiscais

O Estado de S. Paulo

Acordo firmado entre o governo federal e a Prefeitura de SP na disputa sobre o Campo de Marte deve, mesmo, ser comemorado.

O recente acordo firmado entre o governo federal e a Prefeitura de São Paulo, numa disputa histórica sobre a posse do Aeroporto Campo de Marte, vem sendo comemorado por ambos os lados. O resultado da negociação abre espaço fiscal de R$ 23,9 bilhões nos orçamentos da União e da capital paulista, que poderá financiar investimentos em infraestrutura, ações na área da saúde, na educação e no atendimento dos mais vulneráveis por meio de políticas públicas assistenciais. Mais importante, o acordo inaugura um novo instrumento de gestão fiscal no federalismo brasileiro: a conciliação de contas entre unidades federativas.

Em 1929, a estreia do Aeroporto Campo de Marte, na zona oeste da cidade de São Paulo, foi um marco histórico. Sob propriedade do município, nascia o primeiro terminal aeroportuário da cidade, quando o transporte ferroviário já não atendia ao fluxo crescente de pessoas na capital. Ali foi fundado o Aeroclube de São Paulo em 1931, a maior escola de aviação da América Latina.

O que a mídia pensa: Editoriais / Opiniões

Editoriais

Emendas reavivam estelionato eleitoral de Jair Bolsonaro

Valor Econômico

As facções do Congresso que se aproveitam da apatia motivada do chefe do Executivo têm boas chances nas urnas em outubro

O presidente Jair Bolsonaro escapou de um impeachment pelo acordo com os partidos do Centrão, do qual resultou, como celebração do entendimento, as emendas do relator. Elas são a lembrança presente do estelionato eleitoral de Bolsonaro. Ao invocar a nova política e atacar a corrupção de governos do PT, Bolsonaro se elegeu e se engajou em práticas tão nocivas quanto as do mensalão como forma de se manter no poder. A bancada que elegeu em sua onda pseudomoralizadora também se locupletou com as emendas secretas, com a hipocrisia do presidente viralizando na bancada eleita.

O núcleo duro do bolsonarismo é simpático ao dinheiro - foram R$ 270 milhões repassados de forma obscura para obras Brasil afora, algo só revelado após exigência do Supremo Tribunal Federal. O deputado Eduardo Bolsonaro, o 02, fez uso de R$ 9,5 milhões, dos quais apartou R$ 300 mil para a cidade de Miracatu, onde seu tio, irmão do presidente, Renato Bolsonaro, é chefe de gabinete da prefeitura.

A tropa de choque ideológica, que não despreza oportunidades, foi pelo mesmo caminho. O major Vitor Hugo, candidato ao governo de Goiás pelo PL, encaminhou R$ 131 milhões para obras várias. A deputada Bia Kicis, que conseguiu se alçar a presidente da comissão mais importante da Câmara, a de Constituição e Justiça, serviu-se de R$ 32 milhões, com especial apreço à Codevasf, destinatário principal das emendas secretas, que recebeu um terço do dinheiro. Todos os dias chegam denúncias de obras inacabadas, abandonadas, pessimamente executadas ou superfaturadas pela estatal, cuja área de atuação só não chegou ainda ao Chuí por descuido. Seu presidente é um indicado pelo chefão da Casa Civil e orientador das emendas secretas, Ciro Nogueira (PP-PI). Carla Zambelli, que ameaça concorrer ao Senado por São Paulo, repassou R$ 25 milhões. Helio Lopes, seguidor compulsivo de Bolsonaro, obteve R$ 20 milhões. Luiz Philippe de Orleans e Bragança contentou-se com R$ 10 milhões.

Poesia| Mario Quintana: A Rua dos Cataventos

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

Música | Zeca Pagodinho: Minha Fé -

 

quarta-feira, 11 de maio de 2022

Opinião do dia - Luiz Werneck Vianna*: ‘a pedra no meio do caminho’

“Para enfrentar essa potente ameaça à sua identidade, a sociedade conta com sua herança institucional e sua reserva de valores morais ainda invulneráveis às investidas das ações corruptoras da coalizão no poder, as políticas, caso da cooptação do Centrão a seus fins de dominação a partir da abertura de recursos públicos aos partidos que o compõem, às religiosas, como comprovadamente ocorreu no âmbito da administração do Ministério da Educação, pela ação de partidos políticos e personalidades democráticos. A rigor, a pedra no meio do caminho que interdita os planos de poder absoluto que movem os estrategistas do governo Bolsonaro é a Carta de 88 com as instituições que ela consagrou, sobretudo as que dizem respeito à soberania popular e às limitações ao poder político discricionário.”  

*Luiz Werneck Vianna, Sociólogo, PUC-RJ. “Como enfrentar o tornado que se avizinha.” Blog Democracia Política e novo Reformismo, 7/5/22.

Vera Magalhães: Hora do salve-se quem puder

O Globo

Numa eleição em que, cinco meses antes do pleito, dois candidatos já concentram cerca de 70% das intenções de voto, é tarefa cada vez mais hercúlea aos demais postulantes se manter no páreo, ainda mais num cenário de escassez de dinheiro para bancar campanhas.

São muitas as causas para que essa consolidação de Lula e Jair Bolsonaro nas primeiras colocações na preferência do eleitor tenha ocorrido, da inexplicável inapetência dos demais partidos pela Presidência da República a uma espécie de profecia autorrealizável que levou o eleitorado a antecipar para o primeiro turno, pela segunda eleição consecutiva, uma escolha que ele só precisaria fazer no segundo.

Diante desse cenário que permanece imutável nas pesquisas semana a semana — na verdade se acentua, dado o crescimento lento, mas ainda assim assustador, de Bolsonaro —, a situação dos demais postulantes vai se assemelhando a um salve-se quem puder. Como num reality show político, os pré-candidatos foram sendo “eliminados” por não reunirem condições mínimas de brigar no primeiro pelotão.

Restam, agora, Ciro Gomes (PDT), João Doria (PSDB) e Simone Tebet (MDB), lutando para levar seus projetos até o fim, e André Janones (Avante) e Luciano Bivar (União Brasil), que devem figurar na cédula, mas cujos partidos nunca chegaram a ter aspiração real de disputar com chance.

PSDB e MDB parecem não saber o que fazer com a data que eles mesmos fixaram para o “resta um” entre seus pré-candidatos. Eduardo Leite caiu fora, Sergio Moro foi limado, Bivar se retirou da brincadeira, agora ficaram Tebet e Doria à espera de algum critério que defina quem será cabeça de chapa e quem será vice (se é que um deles topará esse prêmio de consolação).

Luiz Carlos Azedo: Cabeças seguem desorientadas na terceira via

Correio Braziliense

Há diferenças e semelhanças nas narrativas da oposição em relação a 2018. No caso do ex-presidente Lula, a principal diferença é a clareza quanto ao adversário principal: Bolsonaro

Cabezas Cortadas é uma produção hispânico-brasileira de 1970, dirigida por Glauber Rocha. Filmado na Espanha, trata a ditadura de Franco e o regime militar brasileiro de forma alegórica. A estrela do filme é o espanhol Francisco Raba, que interpreta o déspota louco Diaz II. Todas as suas aparições na tela, da cena inicial, no castelo, aos longos momentos de delírio, são antológicas, mas o filme acaba se descolando da realidade, mesmo se comparado às duas ditaduras da época.

A analogia serviu para descrever a forma como o presidente Jair Bolsonaro fora tratado por Fernando Haddad, o candidato do PT, no segundo turno das eleições de 2018. O filme de Glauber descrevia um déspota sozinho num castelo e acreditava falar ao telefone com pessoas importantes para seu governo ou vida pessoal. No imaginário, resolvia problemas civis, dava ordens, conversava sobre questões particulares.

Cenas de opressão aos índios, aos trabalhadores, aos negros e aos estudantes retratam o que teria sido a volta ao poder de Diaz II, em Eldorado. O país imaginário representava, no filme, o que seria a continuação da história contada em Terra em Transe, cujo contexto é a crise do governo Jango e o golpe militar de 1964. A colonização, a escravidão e outros elementos recorrentes nos países da América Latina foram trazidos de volta, como se a história estivesse voltando para trás.

Haddad havia passado todo o primeiro turno ignorando Bolsonaro, seu inimigo principal era o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin. Além disso, fizera tudo o que podia para confundir sua imagem com a do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que estava preso em Curitiba. Quem erra na escolha do adversário, geralmente perde a eleição. Foi o que aconteceu com o petista.

Paulo Delgado*: Um mesmo momento longo

O Estado de S. Paulo

A conta da política e de partidos disfuncionais chegou para os brasileiros com o nome de polarização e hiperatividade de interesses.

Entender a psicologia do brasileiro e sua parte de responsabilidade naquilo que vive, a que se submete e de que reclama ajuda a analisar a eleição. Nosso problema não é somente culpa de presidentes com problemas com as Justiças Criminal e Eleitoral, cassados, encarcerados ou processados no exercício do mandato. É, também, do eleitor capturado pelo cansaço de tudo.

O mero sustento da vida que o leva a decidir em quem votar não deveria colocar em segundo plano a preocupação com a melhor chance de vida estável a que tem direito. Submetido à informação truncada e à passividade, ele não percebe que perde todas as forças de análise e defesa. Como animal civilizado que acha que é, sofre contusões, cai em armadilhas e se oferece ao predador de forma tão ingênua e cativa de fazer vergonha a animal solto em seu ecossistema natural.

Um país com tantas florestas e recursos naturais, é nas cidades que a luta pela domesticação se faz de maneira mais selvagem. Eleição entre nós é um circo, bichos trapezistas que atraem o público. E é o público que os paga, a troco de ilusões. Deveria ser possível escolher alguém maior do que aquele com o qual temos interesses pessoais envolvidos em nossa decisão. A angústia da esperança paralisa o bom senso em eleição.

A conta da política e de partidos disfuncionais chegou para os brasileiros com o nome de polarização e hiperatividade de interesses – uma eleição pernilongo, que, como a inflação, pousa, pica e deixa ali coçando, podendo virar infecção. A forma psicológica que a preguiça encontrou de impedir a pessoa de usar a inteligência da negatividade a seu favor é carregar na emoção e obscurecer o discernimento.

Fábio Alves: Surto de otimismo

O Estado de S. Paulo

Os fundamentos de médio e longo prazos da economia brasileira ainda não são robustos

Surpresas positivas dos recentes indicadores de atividade levaram grande parte dos economistas brasileiros a surfar uma nova onda de otimismo, revisando significativamente para cima suas projeções de desempenho do PIB em 2022, inclusive com estimativas melhores para a taxa de desemprego.

Mas, com a inflação rodando em mais de 10% e a taxa Selic devendo superar 13%, até quando os indicadores de atividade vão seguir surpreendendo para cima?

Em outras palavras, esse otimismo recente tem vida longa? Poderá resistir ao aumento da inadimplência das famílias brasileiras quando o efeito integral do aperto monetário em curso pelo Banco Central for sentido na economia real?

Vinicius Torres Freire: Quanto custaria o golpe de Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Figuras do mercado financeiro comentam efeito econômico de um ataque à eleição

Quanto custaria um golpe de Jair Bolsonaro, na conta de calculistas do mercado financeiro, aqueles que estimam preços de dólar, ações, títulos do governo (juros), inflação ou administram dinheirão?

A pergunta causa riso nervoso ou reações do tipo "cara, não tenho como falar disso". Mas, com promessa de anonimato, sai alguma coisa.

Para facilitar a conversa, este jornalista chamou de golpe a mera tentativa de desrespeitar o resultado das urnas.

Um economista de um grande banco diz que "uma consultoria política que ouvimos" alerta para "algum" risco de violência na eleição, também institucional, mas a hipótese "não está nos nossos cenários" (isto é, hipótese que sirva para calibrar projeções econômicas).

No entanto, diz esse economista, essa "percepção de que 2023 é muito nebuloso, talvez até um pouco por isso que você está dizendo [golpe], já afeta preços de alguma maneira, mas não vi ninguém que tenha isolado isso, colocado como risco explícito". Mas "é uma preocupação que ouvimos no exterior, até porque rupturas, incerteza institucional, ou quebras em governança são levadas a sério, até por meio de cláusulas formais, de contratos".

Bruno Boghossian: Bolsonaro organiza o golpe desde o primeiro ano de mandato

Folha de S. Paulo

Esforço para melar eleições é ação coordenada e principal programa do governo

Se há um único programa de Jair Bolsonaro que contou com planejamento de longo prazo e dedicação de diferentes áreas do governo, esse projeto é o ataque às urnas eletrônicas. O presidente mobilizou auxiliares desde o primeiro ano de mandato para fabricar suspeitas sobre a votação e reforçar seu arsenal golpista.

Bolsonaro parece desconfiar há tempos da própria capacidade de ficar no poder pela via democrática. Ainda no final de 2019, o ministro Luiz Eduardo Ramos telefonou para um técnico em eletrônica e pediu dados sobre possíveis fraudes nas urnas, como mostrou a Folha. O assunto era considerado tão sério que o general marcou um encontro do informante com o presidente.

Na época, Bolsonaro já mostrava vontade de melar a eleição. Em novembro daquele ano, ele pegou carona numa suspeita de fraude na Bolívia e lançou nas redes sociais a ideia de implementar o voto impresso no Brasil. Nos corredores do Planalto, seus aliados usavam a máquina do governo para fortalecer o plano.

Fernanda Perrin: Tempo histórico do Brasil é o da tragédia contínua

Folha de S. Paulo

Há 50 anos, revista discutia se vivia sob regime militar; hoje debatemos se democracia está em risco

"Esta infeliz atitude de vestal, tutor e messias, do militar, recrudesceu recentemente gerando os acontecimentos a que todos estamos assistindo. (...) Oxalá os bons militares meditem sobre isso, reconsiderem e retornem, com humildade e patriotismo, para a singela posição que a Constituição lhes aponta."

Eu poderia ter pescado o parágrafo acima de uma coluna recente qualquer, mas foi em uma velha revista Realidade onde o encontrei.

O texto, assinado pelo contra-almirante Norton D. Boiteux, divide a página com um segundo artigo, de autoria do então deputado Anísio Rocha. Os dois respondem a uma pergunta enviada por um leitor: "É verdade que, no Brasil, todo o poder está na mão dos militares?"

Para bom brasileiro, não causa espanto que a resposta do militar seja sim, e a do deputado, não. O que de fato surpreende é a data da publicação: junho de 1966. O golpe militar já havia sido consumado há dois anos.

Fernando Exman: Alguns riscos eleitorais já aparecem no radar

Valor Econômico

É urgente o debate sobre as soluções para os problemas do país

Tem origem no latim a palavra que não sai da cabeça de empresários e investidores neste período pré-eleitoral: risco.

Alguns verbetes remetem-na a “risicare”, cujo significado é “ousar”. Em outros, lê-se “aquele que corta, o que corta separando”, vindo do vocábulo “resecum”. É uma referência ao período das navegações, quando as embarcações precisavam passar perto de rochas pontiagudas colocando em perigo as vidas e riquezas que transportavam.

Especialistas apontam que o Renascimento foi um marco para o desenvolvimento dos estudos desta área. Foi a época em que mais pessoas começaram a se sentir à vontade para desafiar as crenças do passado e arriscar o presente, de olho no futuro.

Colheu-se, entre outros resultados, o período das grandes descobertas. Recursos até então inexplorados fizeram girar a economia, a qual passou por um intenso processo de mudança. Diante de turbulências religiosas, muitos se voltaram para a ciência.

Unindo a noção de risco com o conceito de probabilidade, desenvolveu-se a estatística. Era evidente a necessidade de redução das incertezas que envolviam a evolução do sistema financeiro e a expansão das trocas comerciais.

Bernardo Mello Franco: Bolsonaro finge não ter responsabilidade pelo preço da gasolina

O Globo

Na última quinta-feira, a Petrobras informou que registrou lucro líquido de R$ 44,561 bilhões no primeiro trimestre. A companhia festejou um resultado 3.718,4% maior que no mesmo período do ano passado. À noite, Jair Bolsonaro reagiu aos gritos: “Isso é um crime! É inadmissível!”.

Em tom inflamado, o capitão acusou a estatal de saciar sua “gula enorme” às custas do povo. “Petrobras, não aumente mais o preço dos combustíveis! O lucro de vocês é um estupro!”, esbravejou. Faltou dizer quem seria o estuprador.

Os aumentos da gasolina e do diesel têm impacto direto sobre a inflação. Afetam o bolso do eleitor e a popularidade do presidente-candidato. Por isso, seus principais concorrentes têm levado o tema para o palanque.

No sábado, Lula acusou o governo de “desmantelar” e “sucatear” a Petrobras. Sem citar os escândalos dos governos petistas, criticou a “entrega” da BR Distribuidora e a privatização de gasodutos e refinarias. “O resultado desse desmonte é que somos autossuficientes em petróleo, mas pagamos por uma das gasolinas mais caras do mundo, cotada em dólar, enquanto os brasileiros recebem os seus salários em real”, disse.

Menos diplomático, Ciro Gomes chamou Bolsonaro de “frouxo”, “canalha” e “vendido”. “O principal estuprador nessa história é ele, porque estupra o povo com preços altos e estupra a verdade dizendo que não tem culpa nesse crime hediondo”, disparou.

Alvaro Gribel: O PT entre o passado e o pragmatismo

O Globo

No lançamento de sua candidatura, Lula avançou na política, acenando ao eleitorado de centro, mas, na economia, falou apenas ao apoiador tradicional do PT. A conversa com economistas que têm ajudado a elaborar as propostas do partido, no entanto, dá outras pistas sobre o que pode ser um eventual governo petista.

Em caso de vitória, a promessa é manter o arcabouço fiscal, com a permanência do presidente do Banco Central e uma visão mais pragmática das privatizações. O grande problema é que o programa de governo não está escrito e esses interlocutores ainda hesitam quando questionados sobre os detalhes das propostas.

A manutenção do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, é vista pela cúpula do PT como uma sinalização ao mercado de que não só a política monetária, mas também a política fiscal, não sofrerão guinadas bruscas. Não faz sentido, diz um desses economistas, relaxar nos gastos, de um lado, se, do outro, haverá Campos Neto subindo juros.

Roberto DaMatta: Eleição tira a máscara do fingimento

O Globo

Permitam ao cronista que não gosta muito deste “vale de lágrimas” que escreva sobre o lugar onde entramos sem saber ou ser chamados, fugindo dos fatos alarmantes que nos levam ao pior e à dor.

Exceto o prazer físico, conjugado e afim ao “vale de lágrimas”, nem sempre existe o gozo corporal com um difícil “bem-querer”, que pode ser o amor mutuamente inevitável e certamente ambíguo, conforme cantam poetas, subfilósofos e malandros sedutores em todos os tempos.

Meu favorito é o velho Luís de Camões, caolho na visão, mas aberto no coração: Amor é fogo que arde sem se ver/É ferida que dói, e não se sente/É um contentamento descontente/É dor que desatina sem doer.

Relembro aqui sua abertura e seu final:

Mas como causar pode seu favor/Nos corações humanos amizade/Se tão contrário a si é o mesmo amor?

No final, brotam o humano — a ironia do “entretanto” e do “porém” — e as dívidas inerentes à liberdade que, como o amor, são fáceis de teorizar e tão difíceis de guiar a nossa insaciável índole humana, marcada justamente por projetos, desejos, escolhas e dúvidas. Aquilo que quase sempre é tão contrário a si mesmo, como torna claro a versão camoniana do amor...

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*: O que nos espera, um desmame ou um derrame?

A partir de agosto uma enxurrada de promessas, ameaças, falsidades e agressões serão derramadas sobre os brasileiros pelos candidatos à Presidência da República, que se consideram protegidos, nesses dois a três meses, pela legislação eleitoral. Não podem ser agredidos nem censurados.  Entretanto, essa alegria não parece durar muito. Seja quem for o eleito, um dilema já está posto: a mudança do sistema (forma)de governo. 

Passadas as eleições e iniciada mais uma legislatura no Congresso, a Câmara dos Deputados promoverá, oficialmente, uma discussão sobre a adoção no Brasil de um sistema de governo semipresidencialista. O presidente da Câmara, Arthur Lira, criou um grupo de trabalho para discutir o assunto, e apresentar uma proposta de mudança constitucional nesse sentido. Pela suposta e futura nova forma de governo, o poderosíssimo cargo de Presidente da República, que reúne em um só ente a chefia do Estado com a chefia do Governo, perderia parte de sua força governativa para o Congresso Nacional. 

O presidencialismo adotado no Brasil é um sistema altamente empoderador e, ao mesmo tempo, subserviente. Expressa-se na estrutura do Estado, como o Executivo, tendo como contraparte, o Legislativo e o Judiciário. São os tais "Três Poderes". É representado pelo Presidente da República e todo seu aparato ministerial, seis milhões de funcionários públicos, as forças armadas, as empresa públicas, as autarquias o patrimônio nacional e todas as obras públicas federais em andamento no País.