O Globo
O futebol era o nosso principal recurso em
‘soft power’, era a forma pacífica de afirmar a influência nacional
Como a maioria dos brasileiros, sou
apaixonado por futebol. Isso me dá o direito de escrever sobre o tema, dentro
de certos limites. Perguntar, por exemplo, onde está a velha magia do nosso
futebol. O que fazer para recuperá-la?
No passado, sempre reagiam com um sorriso ao
saber que éramos brasileiros. Brasil? Ah, sim, Pelé, Garrincha, Rivelino. O
futebol era nosso principal recurso em soft
power, era a forma pacífica de afirmar a influência nacional.
Foi usado no Haiti, em 2004, para fortalecer o papel militar do Brasil na pacificação daquele caos que motivou a presença da ONU. Nossos craques desfilaram nos tanques que faziam o patrulhamento de áreas perigosas, como a favela Cité Soleil. Arrastaram multidões para saudá-los e agregaram simpatia às nossas tropas, que continuariam ali para patrulhar a turbulenta vida cotidiana.
Mas ali, em 2004, já desfrutávamos glórias
passadas. Em 2014, descobrimos perplexos que havia algo errado com nosso
futebol. O placar de 7 a 1 passou a ser a medida nacional para uma derrota
desastrosa. Sempre que algo sai errado, dizemos: perdemos de 7 a 1.
De lá para cá, no futebol, não conseguimos
ainda dar a volta por cima. Às vezes, fico preso aos detalhes. Não temos mais
laterais como antigamente. Cafu, Carlos Alberto, Roberto Carlos, o lendário
Nilton Santos, só vemos os sobreviventes nos camarotes da Copa. Não são um
retrato na parede, mas um rápido zoom das câmeras de TV.
Às vezes penso que o calendário é o nosso
problema. Muitos jogos. Talvez isso explique por que acho o futebol mais
intenso na Europa. Será que é o cansaço que nos obriga a um jogo tão pouco
vertical? Por que fazemos um gol e passamos a administrar o resultado? Somos
devagar.
Na minha busca por respostas, às vezes, me
volto aos cartolas que me parecem tão sospechosos, como aqueles políticos que
pintam o cabelo e dão um beliscão no bumbum da secretária. Leio nas redes que o
presidente da CBF levou
a mulher e amante para a Copa, hospedando uma nos Estados Unidos, outra no
México. Ele se submete ao mesmo rigoroso regime imposto por Trump ao time do
Irã: joga nos Estados Unidos, mas dorme no México.
A Argentina continua brilhando. Seus cartolas
não são melhores que os brasileiros. Não devemos descartar esse item, mas não
podemos superestimá-lo. De qualquer forma, será necessário um esforço nacional
para reerguer o futebol do Brasil. As empresas que faturam em cima da paixão
deveriam destinar parte de seus investimentos a esse projeto. Quando começarmos
a nos sentir como os neozelandeses sentem por sua seleção, a galinha dos ovos
de ouro estará morta.
Talvez fosse pedir muito que o governo também
se interessasse pelo assunto, embora seu papel seja secundário. As bets
conseguiram monetizar a paixão. Grande parte dos impostos vai para os cofres
públicos. Uma boa parte desse dinheiro deveria ser reinvestida no estímulo ao
futebol. De talento, ruas, praias e becos estão cheios. O enigma é reencontrar
a velha magia e nosso perdido soft
power.

Um comentário:
Eu nunca gostei do esporte bretão,quando menino,eu gostava mesmo era de bola-queimada.
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