O Povo (CE)
Os índices de
violência não dão conta de um problema simples, ou que tenha ocorrido nos
últimos dez anos. A solução aponta para a construção de um conjunto de
políticas públicas que, na sua intersecção, são capazes de transformar a vida
das pessoas e dificultar o trabalho das organizações criminosas
Poucos temas são tão caros ao eleitor de 2026
como o tema da segurança
pública. Existe uma percepção disseminada de que o avanço da
criminalidade está descontrolado: o senso de falta de lei gera um estado de
tensão constante, de modo que o eleitor está atemorizado, com medo de sofrer
uma violência física ou patrimonial.
É justamente esse estado de angústia que torna o eleitor tão suscetível a discursos eleitorais de combate ao crime. Os índices de violência não dão conta de um problema simples, ou que tenha ocorrido nos últimos dez anos. A solução aponta para a construção de um conjunto de políticas públicas que, na sua intersecção, são capazes de transformar a vida das pessoas e dificultar o trabalho das organizações criminosas.
Para o candidato interessado em se eleger,
contudo, um discurso que chame a atenção do eleitor para a complexidade do
problema da segurança não é atraente. Tem vantagem aquele candidato que consiga
mobilizar, no imaginário do homem
médio, a ideia de força bruta, de capacidade de reação enérgica
ao problema da "bandidagem". A questão da segurança pública passa,
então, a ser tratado como um problema de resgate da virilidade via estado, por
meio de uma polícia menos controlável, mais fortalecida na sua capacidade de
reprimir.
Esse discurso de invocação de uma política de
lei e ordem extremamente militarizada, implacável e intransigente com a
criminalidade permeia as agendas das candidaturas da direita e da extrema
direita, mas também tem ganhado espaço no campo
progressista, em resposta à percepção de risco constatada pelas
pesquisas junto à opinião do eleitor. Quem se omitir sobre o tema da segurança
ficará para trás: o brasileiro se sente inseguro e espera que o poder público
reaja ao descontrole.
No Ceará, estamos vendo um Ciro
Gomes muito à vontade com a invocação dessa figura do "cabra
macho" capaz de botar ordem na
casa, ressoando falas e gestos de seus aliados de chapa,
como Capitão Wagner. Nacionalmente, Renan Santos tem crescido de
forma surpreendente no campo da Direita, aproveitando as debilidades da
candidatura de Flávio Bolsonaro e mobilizando as armas digitais de um ativismo
de rede social mais preocupado com os cortes de vídeos do que com a solução
efetiva de problemas.
É muito difícil para o eleitor médio
atemorizado compreender que balas e
fuzis têm pouco potencial de dar conta do problema do
crime organizado. Um conjunto de políticas de segurança com foco em
inteligência e presença estatal nos territórios ocupados é o caminho mais
promissor, e mais desafiador do ponto de vista da execução de política pública.
Mais do que nunca, é importante que o eleitor se lembre que não há soluções
simples para problemas complexos.
*Doutora em direito (USP) e professora na
Universidade Federal do Ceará.

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