O Estado de S. Paulo
Começar de novo não é esperar que o baú dos anos 1980 nos diga o que fazer. É usá-lo como referência
E se de repente alguém virasse a ampulheta e
nos projetasse para onde tudo começou? E se insistíssemos numa rota já
estabelecida, para reiniciar de onde paramos ou tropeçamos?
Nas eleições de 2026, os candidatos mais fortes querem manter vivo um caminho já trilhado. Lula quer fazer o que não conseguiu em seus três mandatos, mas não deseja voltar às origens, coisa que o levaria às promessas mais “puras” e radicais do PT de 1982. Flávio Bolsonaro, por sua vez, quer dar sequência à herança deixada pela Presidência de seu pai, patrimônio de valor discutível, mas não quer ir muito para trás e se deparar com um vazio improdutivo.
O Brasil não vive um bom momento. A
polarização é resiliente. Candidatos menos expressivos rondam a arena
principal, mas não abalam os principais. Não há “terceira via”, embora algum
azarão possa surpreender. A repetição de promessas passa longe do que se
poderia chamar de prioridades estratégicas. Não há planos de metas ou projetos.
Cada candidato imagina um país. Improvisos e ênfases demagógicas tomam conta do
cenário.
Talvez seja hora de começarmos de novo.
Voltar à redemocratização dos anos 1980, nosso maior baú de boas ideias e
intenções. Lá havia esperança, disposição de luta e uma causa comum.
Revisitá-lo criticamente pode nos ajudar a ver onde foi que erramos. Corrigir o
que está torto, ou seja, quase tudo. Houve avanços na assistência social, o SUS
se consolidou, o País se modernizou e a industrialização foi em frente. A
desigualdade, porém, não retrocedeu. A revolução digital nos pegou em cheio.
Sacode a sociedade de cima a baixo, sem que se saiba se estamos absorvendo o
que ela traz de positivo.
Depois de oito anos de Fernando Henrique e 20
anos de governos petistas-lulistas, quase nenhuma instituição funciona bem. Até
o Supremo Tribunal Federal (STF) perdeu o prumo. Os partidos feneceram. Estamos
sem garantias de que a política produzirá bons governos e de que a justiça será
feita sem histrionismos personalistas. O País não está à deriva, mas claudica
em diversas áreas, sentindo falta de um eixo organizador. As múltiplas e
complexas pautas têm sido deixadas de lado ou são superficialmente abordadas.
Hoje não sabemos em qual direção o Brasil
caminha. Estamos honrando a tradicional independência de nossa diplomacia?
Mantemos nossos vínculos “ocidentais” ou estamos tateando em busca de algum
reposicionamento?
Na segurança pública, temos ido piorando. A
“profissionalização” do crime organizado exacerba a ausência de uma consistente
política nacional. Dá-se mais importância aos casos de corrupção – que são
gravíssimos e respingam por todos os lados – do que às mortes bestas motivadas
pelo tráfico. Bons documentos oficiais ficam nas prateleiras, a sugerir que
falta algo para que sejam executados. O lapso entre o que se escreve neles e a
execução é recorrente.
O País está digitalizado. Quase toda a
população se move com um celular nas mãos. O home office bomba em muitos
setores. O delivery está nas ruas. Mas o País controla pouco os dados
manuseados pelas grandes plataformas digitais. Sua soberania é mais ameaçada
por isso do que pelas investidas maníacas de Trump. Se os dados digitais
impactam a vida, quem os controla tem poder. Poderá não ser dono do mundo, mas
terá, ao menos, condições de confrontar os que pretendem dirigir o mundo.
E as terras raras? E a crise fiscal, que nos
dizem ser grave? Não faltam problemas.
A educação exige atenção dedicada, ferrenha.
É a principal ferramenta do progresso. Índices de desempenho à parte, não
estamos saindo do lugar. Ainda nos enroscamos em temas menores, tipo “os
estudantes não devem usar a inteligência artificial (IA) para estudar”, sem
darmos atenção ao letramento digital, ao ensino dos métodos para que
estabeleçam relações inteligentes, autônomas e reflexivas com a IA. A escola
básica de massa continua repleta de carências e desigualdades. As universidades
têm insuficiências de ordem material, financeira e pedagógica. A pesquisa é
feita, mas não se espalha, concentra-se em poucas unidades de ponta.
Começar de novo não é esperar que o baú dos
anos 1980 nos diga o que fazer. É usá-lo como referência. Um novo reformismo
seria o bálsamo de que necessitamos. Precisaria ser profundo, deitar raízes na
sociedade. Mas não poderá ser feito de supetão, nem de modo “revolucionário”,
com a explosão de todas as casamatas. Terá de se basear num refinado mapa que
possibilite a navegação por entre as ilhas nacionais (políticas, ideológicas,
culturais, regionais), de modo a articulá-las paulatinamente.
O problema é encontrar o agente que encarnará um projeto dessa magnitude. Poderiam ser os democratas progressistas, mas eles andam tão desencontrados e retraídos que, no momento, inspiram pouca confiança. Quem sabe não devem eles também começar de novo? Mobilizando a sociedade numa direção oposta aos populismos atuais. Precisamos parar de viver à procura de um “grande líder”. O importante é unir forças, construir uma agenda de reformas e uma gestão corajosa.
*Professor titular de Teoria Política da Unesp

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