O Globo
Na reta final da eleição, quando não houver
mais tempo para um escândalo esfriar, o último a estourar pode decidir quem
perde
É mais uma constatação desoladora do que uma coincidência que a primeira pergunta feita ao presidente Lula na sabatina da TV Globo tenha sido sobre corrupção: o mesmo assunto que abriu a entrevista do petista, na mesma emissora, em 2022. Lá, William Bonner perguntou ao então candidato como convenceria o eleitor de que escândalos como o petrolão, ainda fresco, não se repetiriam. Em sua resposta, Lula gabou-se de ter dado liberdade às instituições para investigar o caso, garantiu que quem tivesse cometido erros seria punido e invocou a injustiça de que acredita ter sido alvo na Lava-Jato para defender o benefício da dúvida aos investigados.
Foi, quase sem tirar nem pôr, o mesmo que o
presidente disse na quinta-feira passada, só que agora em relação aos três
inquéritos a que responde seu filho Fábio Luís da Silva, o Lulinha. O assunto
tomou 20 minutos da entrevista, dado que era preciso ainda fazer caber no bloco
outros dois investigados do círculo presidencial, o ex-chefe de gabinete de
Lula Marco Aurélio Santana, o Marcola, e o senador Jaques Wagner. Apoiadores do
presidente consideraram o tempo excessivo, e ele próprio chegou a reclamar aos entrevistadores
que pensou estar falando ao Ministério Público.
Do ponto de vista jornalístico, no entanto, o
tema se impunha — e não só pela atualidade e proximidade dos envolvidos com o
entrevistado. A corrupção continua aparecendo como um dos principais problemas
do país em todas as pesquisas de opinião. No levantamento Meio/Ideia de agosto,
à pergunta sobre qual deveria ser a prioridade do presidente eleito,
entrevistados colocaram em primeiro lugar “acabar com a corrupção”.
É de supor, portanto, que os espectadores
tenham acompanhado sem piscar as palavras de Lula sobre o comportamento de seu
filho, de seu assessor e de seu amigo há 45 anos, como ele se referiu a Wagner.
Não foi o que aconteceu. Em duas turmas de eleitores indecisos, monitorados
durante a sabatina por uma das campanhas e por um instituto de pesquisa, o que
se constatou foi eles reagirem com tédio e impaciência à discussão, confirmando
a percepção corrente entre profissionais de que, nesse tipo de grupo,
“corrupção não engaja”. Ao menos para o eleitor fora da polarização política, a
ideia predominante é que todos os lados são corruptos. Diante do tema, resta bocejar.
Como, então, explicar que a corrupção apareça
como uma das principais preocupações do brasileiro nas pesquisas?
A resposta dos especialistas é simples:
corrupção é assunto de “bolhas”, de eleitores politicamente engajados. Quando
lulistas ou bolsonaristas apontam o tema como um dos principais problemas do
país, na verdade expressam sua indignação com a “corrupção do outro” — aquela
que consideram grassar no campo do adversário. Tanto assim que, quando um
escândalo atinge o seu próprio candidato, o eleitor engajado tende a se afastar
dele, quando muito, enquanto dura o calor da revelação.
Assim que eclodiu o “Dark Horse”, Flávio
Bolsonaro perdeu 6 pontos na pesquisa AtlasIntel. Na rodada seguinte do
instituto, a queda havia estancado, e pesquisas posteriores já apontavam para a
recuperação do bolsonarista. Com Lula, o impacto do caso Lulinha foi, até
agora, ainda mais discreto: a Quaest registrou pequenas oscilações negativas,
todas dentro da margem de erro, e o Datafolha mais recente encontrou o petista
praticamente estável, mesmo depois da sequência de novas revelações sobre a
amizade de seu filho com a lobista que o presidente chamou de “pilantra”.
Por sua onipresença e recorrência, os casos
de corrupção no Brasil — tirando sua utilidade tática na briga entre as
torcidas — parecem não comover mais ninguém. Mas, num país dividido ao meio, o
impacto fugaz que produzem no conjunto do eleitorado, a depender do calendário,
pode ser decisivo. Na reta final da eleição, quando não houver mais tempo para
um escândalo esfriar, o último a estourar pode decidir quem perde.

Nenhum comentário:
Postar um comentário