sábado, 29 de agosto de 2026

Quando a corrupção faz a diferença, por Thaís Oyama

O Globo

Na reta final da eleição, quando não houver mais tempo para um escândalo esfriar, o último a estourar pode decidir quem perde

É mais uma constatação desoladora do que uma coincidência que a primeira pergunta feita ao presidente Lula na sabatina da TV Globo tenha sido sobre corrupção: o mesmo assunto que abriu a entrevista do petista, na mesma emissora, em 2022. Lá, William Bonner perguntou ao então candidato como convenceria o eleitor de que escândalos como o petrolão, ainda fresco, não se repetiriam. Em sua resposta, Lula gabou-se de ter dado liberdade às instituições para investigar o caso, garantiu que quem tivesse cometido erros seria punido e invocou a injustiça de que acredita ter sido alvo na Lava-Jato para defender o benefício da dúvida aos investigados.

Foi, quase sem tirar nem pôr, o mesmo que o presidente disse na quinta-feira passada, só que agora em relação aos três inquéritos a que responde seu filho Fábio Luís da Silva, o Lulinha. O assunto tomou 20 minutos da entrevista, dado que era preciso ainda fazer caber no bloco outros dois investigados do círculo presidencial, o ex-chefe de gabinete de Lula Marco Aurélio Santana, o Marcola, e o senador Jaques Wagner. Apoiadores do presidente consideraram o tempo excessivo, e ele próprio chegou a reclamar aos entrevistadores que pensou estar falando ao Ministério Público.

Do ponto de vista jornalístico, no entanto, o tema se impunha — e não só pela atualidade e proximidade dos envolvidos com o entrevistado. A corrupção continua aparecendo como um dos principais problemas do país em todas as pesquisas de opinião. No levantamento Meio/Ideia de agosto, à pergunta sobre qual deveria ser a prioridade do presidente eleito, entrevistados colocaram em primeiro lugar “acabar com a corrupção”.

É de supor, portanto, que os espectadores tenham acompanhado sem piscar as palavras de Lula sobre o comportamento de seu filho, de seu assessor e de seu amigo há 45 anos, como ele se referiu a Wagner. Não foi o que aconteceu. Em duas turmas de eleitores indecisos, monitorados durante a sabatina por uma das campanhas e por um instituto de pesquisa, o que se constatou foi eles reagirem com tédio e impaciência à discussão, confirmando a percepção corrente entre profissionais de que, nesse tipo de grupo, “corrupção não engaja”. Ao menos para o eleitor fora da polarização política, a ideia predominante é que todos os lados são corruptos. Diante do tema, resta bocejar.

Como, então, explicar que a corrupção apareça como uma das principais preocupações do brasileiro nas pesquisas?

A resposta dos especialistas é simples: corrupção é assunto de “bolhas”, de eleitores politicamente engajados. Quando lulistas ou bolsonaristas apontam o tema como um dos principais problemas do país, na verdade expressam sua indignação com a “corrupção do outro” — aquela que consideram grassar no campo do adversário. Tanto assim que, quando um escândalo atinge o seu próprio candidato, o eleitor engajado tende a se afastar dele, quando muito, enquanto dura o calor da revelação.

Assim que eclodiu o “Dark Horse”, Flávio Bolsonaro perdeu 6 pontos na pesquisa AtlasIntel. Na rodada seguinte do instituto, a queda havia estancado, e pesquisas posteriores já apontavam para a recuperação do bolsonarista. Com Lula, o impacto do caso Lulinha foi, até agora, ainda mais discreto: a Quaest registrou pequenas oscilações negativas, todas dentro da margem de erro, e o Datafolha mais recente encontrou o petista praticamente estável, mesmo depois da sequência de novas revelações sobre a amizade de seu filho com a lobista que o presidente chamou de “pilantra”.

Por sua onipresença e recorrência, os casos de corrupção no Brasil — tirando sua utilidade tática na briga entre as torcidas — parecem não comover mais ninguém. Mas, num país dividido ao meio, o impacto fugaz que produzem no conjunto do eleitorado, a depender do calendário, pode ser decisivo. Na reta final da eleição, quando não houver mais tempo para um escândalo esfriar, o último a estourar pode decidir quem perde.

 

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