Folha de S. Paulo
No 'modo sobrevivência', a relação com a base
parlamentar e com o judiciário engendra erosão institucional disruptiva
Não nos depararemos com a morte da
democracia, mas com sua crescente degradação institucional
Na sabatina
da TV Globo, durante a campanha presidencial de 2022, Lula acusou
Bolsonaro de ter capitulado: "Bolsonaro não manda em nada. Ele é refém do
centrão". Arrematando: "Bolsonaro parece um bobo da corte, não
controla o Orçamento".
A frase retornou como um bumerangue. Hoje, é o próprio Lula quem se vitimiza como refém de um Congresso que capturou o Orçamento. O que, sob Bolsonaro, era descrito como incapacidade pessoal passou, sob Lula, a ser apresentado como patologia institucional.
A revista The Economist acaba de publicar
matéria intitulada: A grande democracia em que os parlamentares são mais
poderosos que o Executivo. A revista parte de um paradoxo. Na última década,
candidatos a autocratas, dos Estados Unidos à Turquia e à Índia, acumularam
poder por meio do chamado executive aggrandizement: a expansão unilateral do
Executivo em detrimento das instituições encarregadas de controlá-lo, sobretudo
o Legislativo.
Mas isto não é novidade para os leitores
desta coluna. Como argumentamos em 2024, em "Por
Que a Democracia Brasileira Não Morreu?" (Cia. da Letras),
escrito em coautoria com Carlos Pereira, o Brasil seguiu na direção contrária,
o presidente perdeu poder para o Congresso e também para o Judiciário. O
desequilíbrio teria chegado a tal ponto que os parlamentares e o mundo dos
negócios já não parecem se importar muito com quem vencerá a eleição
presidencial: qualquer que seja o eleito, será obrigado a capitular diante dos
demais poderes.
A inversão histórica é extraordinária. O
Executivo brasileiro já foi descrito como superpoderoso e majestoso. Em
"His Majesty the President of Brazil", publicado em 1936, o diplomata
britânico Ernest Hambloch descreveu o Congresso como "destituído de
poderes vis-à-vis o Executivo" e os tribunais como "invariavelmente
flácidos, dependendo demasiado do Executivo que os nomeia". O presidente
da República conservava poderes quase imperiais.
Mas o poder formal da Presidência nunca
contou toda a história. Ao examinar a crise do governo Vargas, em "Razões
da Crise", de 1954, Hermes Lima —ex-membro do gabinete presidencial e
ex-membro do STF— identificou a condição política da hegemonia presidencial:
"Se o presidente é dotado de forte personalidade e seu partido conta com
maioria no Congresso, o Executivo, já poderoso pelo seu caráter unipessoal,
impõe de forma avassaladora sua vontade. Se o presidente é fraco, o Congresso
toma o freio nos dentes".
Escasso poder partidário é só parte da
explicação, como mostrei
aqui. Apoio parlamentar se constrói com liderança e capacidade
de gestão. No que chamo de modo sobrevivência, a construção de base parlamentar
e a relação com o Judiciário tem sido pouco republicana. O resultado não é a
morte da democracia através de autogolpe, mas a deterioração institucional dos
três Poderes.
Isso não torna equivalentes um autocrata que
captura as instituições, um Congresso que abocanha o Orçamento, ou tribunais
que abusam de poder. O primeiro ameaça a sobrevivência da democracia; o segundo
produz corrupção, irresponsabilidade fiscal e paralisia decisória; o terceiro,
a perda de legitimidade e degradação institucional.

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