domingo, 30 de agosto de 2026

Democracia em questão, por Míriam Leitão

O Globo

A questão democrática segue em jogo nesta eleição, com candidatos minimizando o 8 de janeiro e defendendo governos autoritários

Dos cinco entrevistados no Jornal Nacional, até sexta, a apenas um não foi preciso fazer perguntas sobre democracia. Dois subestimaram o ataque aos Três Poderes de 8 de janeiro, um apresentou uma proposta de extremismo autoritário e o quarto é filho de ex-presidente que tentou o golpe.

Romeu Zema disse que houve apenas “vandalismo”. Ronaldo Caiado prometeu anistia, e não condenou em momento algum os graves atos de conspiração de Jair BolsonaroRenan Santos quer um “banho de sangue”, regime de exceção em favelas e descumprimento de ordem judicial. Flávio Bolsonaro nega todos os fatos, prometeu indulto, e ameaçou enquadrar o Supremo Tribunal Federal. O presidente Lula ficou como o defensor solitário do regime que o Brasil conquistou com tantas lutas e dores.

A questão democrática permanece presente. Era para os líderes políticos terem entendido a história recente do país, se unido no essencial, a defesa do regime democrático, e divergido apenas nos projetos de governo. Porque assim se pode fazer bons debates eleitorais e uma boa escolha.

Todos eles se disseram democratas, e depois vieram os senões. O ex-governador de Minas Romeu Zema, além de negar a conspiração da qual se tem farta comprovação, alimentou a dúvida sobre a urna eletrônica, o ponto do qual partiu Jair Bolsonaro. Segundo Zema, ele confia na urna, “mas ela pode ser melhorada se tiver o voto impresso”. A mesma lenga-lenga do governo anterior na sua tentativa de minar a confiança no sistema eleitoral brasileiro.

Zema disse que “não existe na história da humanidade, uma tentativa de golpe ou um golpe de Estado que tenha sido um movimento de vandalismo e depredação”. O ex-governador demonstra não ter entendido que aquele atentado de 8 de janeiro foi parte de uma conspiração ampla que teve envolvimento de militares de alta patente, plano impresso no Planalto para matar o presidente e o vice, ameaça de atentado a bomba em aeroporto. Defendeu a estranha teoria de que “quem fez, idealizou, mas não levou adiante, não cometeu crime”. Ou seja, os criminosos não cometeram crime porque o golpe fracassou. Não custa lembrar que Zema em 2023 definiu a Conjuração Mineira como “um golpe à coroa portuguesa”. Ah, Minas, que já teve fama de ter políticos argutos.

Ronaldo Caiado prometeu dar anistia “ampla, geral e irrestrita” para os golpistas sob o argumento de que assim vai pacificar o país. Mas em nenhum momento sequer reconhece que eles cometeram crime. Perguntado, o candidato fugiu da pergunta como tem feito em todas as entrevistas dessa campanha. Nunca condenou os gravíssimos casos que a ação penal trouxe aos autos. Portanto, Caiado não apenas defende a anistia, ele nunca reconheceu que houve os crimes que o país viu.

Renan Santos usou sua eloquência e treino em defesa do presidente Nayib Bukele de El Salvador. Aliás, nesta eleição a meca da direita parece ser o pequeno país da América Central onde direitos humanos têm sido desrespeitados e regras democráticas foram arquivadas em nome do combate ao crime. Suas ideias esquisitas, como a de ter a bomba atômica para ser respeitado pelos vizinhos e pelo mundo, ou a de impor um estado de exceção apenas nas favelas, são apresentadas como se fossem criativas e inteligentes.

Flávio Bolsonaro foi, claro, o maior defensor da ideia de que não houve golpe, e sim “uma farsa armada para tirar Jair Bolsonaro da vida pública”. Acusou o STF de perseguição ao seu pai. “Não queira ser julgado pelo seu inimigo”, disse ele, falando de Alexandre de Moraes, mas ele foi condenado pelos votos dos ministros da primeira turma. Moraes foi apenas o relator. E tanto os fatos trazidos pela investigação da Polícia Federal quanto a denúncia da Procuradoria Geral são eloquentes. Entre as muitas mentiras de Flávio, uma foi acusar o brigadeiro Baptista Jr de ser lulista. O militar foi nomeado por Jair Bolsonaro, exatamente quando o então presidente demitiu toda a cúpula das Forças Armadas. Ou seja, era então pessoa de confiança de Bolsonaro.

As mentiras, as falsificações sobre eventos recentes, as tentativas de subestimar o que ocorreu, a defesa aberta de governantes autoritários: tudo isso foi o que se viu durante essa semana de entrevistas de quatro em cinco entrevistados. Pode-se criticar Lula por outras declarações, ou por falta de uma proposta crível de ajuste fiscal, mas ele não precisou ser perguntado sobre democracia.

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