Folha de S. Paulo
Se for crime usar a camisa do time
adversário, muitos ilustres já deveriam ter pagado por isso
O que o garoto corintiano que pediu a camisa
de Neymar levará desta experiência pela vida?
Há dias, um garoto de 8 anos levantou uma placa no jogo contra o Santos na Neo Química Arena: "Neymar, amo o Corinthians, mas sou seu fã. Me dá sua camisa?". Pediu e recebeu. Por causa disso, ouviu um coro de urros, insultos e ameaças de um grupo de torcedores corintianos. O risco de linchamento levou sua mãe a retirá-lo do estádio sob proteção policial. O Corinthians condenou os brutamontes. Pergunto-me o que essa criança levará pelo resto da vida —profunda repulsa pelo ser dito humano ou a certeza de que nada é mais importante do que a tolerância?
Se for crime vestir a camisa do adversário,
muitas pessoas ilustres já deveriam ter pagado por isso. Em sua edição de 14 de
julho de 1979, a revista Manchete abriu uma reportagem sobre Nelson Rodrigues e
Zico com uma incrível foto de Paulo Scheuenstuhl, em que o dramaturgo,
histórico torcedor do Fluminense, veste a camisa do Flamengo.
Por sua vez, no dia 24 de março de 1993, Zico, símbolo do Flamengo, atuou no
Maracanã com a camisa 9 do Vasco no jogo de despedida de seu grande amigo
Roberto Dinamite. O mundo não acabou.
Flamengo e Vasco vivem uma das piores
rivalidades do futebol brasileiro.
Se o craque de um deles se passa para o outro, deveria ser excomungado, não?
Não. O Flamengo já viu alguns de seus heróis usando as cores do inimigo
—Andrade, Bebeto, Junior Baiano, Petkovic e, mais doloroso de todos,
Rondinelli, o Deus da Raça—, mas perdoou-os, por sabê-los Flamengos. E, para
gáudio rubro-negro, o Vasco teve de se curvar ao fato de que, em 1995, Romário,
ao deixar o Barcelona eleito o maior jogador do mundo e voltar para o Rio,
preferiu o Flamengo, onde fez também monumental carreira.
E quando um jogador não consegue jogar pelo
clube para o qual secretamente torce? Gerson, o Canhotinha, revelou-se no
Flamengo, foi ídolo do Botafogo e só em fim de carreira chegou ao seu time de
coração, o Fluminense. Como ele, muitos outros.
Dias depois, o garoto posou com uma bandeira
do Corinthians e a camisa de Neymar. Assim se faz.

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