Correio Braziliense
Democracias podem perder qualidade enquanto
seus rituais permanecem intactos. O que se deteriora é menos visível: a
disposição coletiva para aceitar que ninguém possui o monopólio da verdade, do
patriotismo ou da própria democracia.
Democracias nem sempre morrem com tanques nas
ruas, Congressos fechados e generais anunciando o fim das liberdades. Às vezes,
adoecem lentamente. Continuam realizando eleições, preservam tribunais e mantêm
parlamentos. Tudo parece estar no lugar. Até que algo essencial se perde.
Essa é uma das advertências em Como as
democracias morrem, dos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt.
Publicado em 2018, o livro revisitado na minha biblioteca não serve como régua
para diagnosticar automaticamente o Brasil, mas oferece uma lente incômoda para
interpretar a crise nacional.
Os autores destacam duas regras não escritas fundamentais à sobrevivência democrática: tolerância mútua e reserva institucional. A primeira significa reconhecer a legitimidade do adversário. Democracia não exige concordância. Existe justamente para administrar divergências. O problema começa quando o adversário deixa de ser concorrente e passa a ser tratado como inimigo. Esse é um dos sintomas da doença brasileira.










