domingo, 6 de setembro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Nova reforma da Previdência tem de ser duradoura

Por O Globo

Estudo tem o mérito de não fugir às questões espinhosas e de propor solução de longo prazo

Menos de oito anos depois da última reforma, a Previdência apresenta rombos crescentes. As contribuições recolhidas são insuficientes para pagar benefícios, aposentadorias e pensões. Em 2025, o Tesouro teve de gastar R$ 320 bilhões para honrar os compromissos do INSS. Na Previdência dos servidores públicos, foram mais R$ 62 bilhões e, nas pensões dos militares, outros R$ 53 bilhões. As despesas do INSS equivalem a 8% do PIB e, com o envelhecimento da população, chegarão a mais de 17% até o fim do século.

Toda caminhada começa pelo primeiro passo, por Paulo Fábio Dantas Neto*

Foi divulgada ontem, dia 04.09, pela Transparência Internacional, uma nota pública intitulada "O Brasil precisa neutralizar as ameaças às suas instituições e ao seu regime democrático", em cujo primeiro parágrafo lê-se:

“Um juiz constitucional cercado por gravíssimos indícios de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e obstrução de justiça já representa, por si só, um risco institucional em razão da natureza de suas condutas. Mas torna-se um elemento ainda mais desestabilizador pelas medidas que pode adotar em busca da impunidade. É nisso que o ministro Alexandre de Moraes se transformou diante das revelações que apontam para suas condutas com Daniel Vorcaro e, sobretudo, diante de sua retaliação autoritária, colocando o Supremo Tribunal Federal no caminho de uma crise institucional sem precedentes”.

Claro que não se pode recepcionar um texto de um movimento global monotemático, como é o Transparência Internacional - para o qual o combate à corrupção é fundamental a ponto de pretender erradicá-la - como se fosse um texto plenamente político. Seu posicionamento é assumidamente concentrado na dimensão institucional e é, desse modo, distinto e muitas vezes vai mesmo na contramão do que se deve esperar de algum ator político relevante, obrigado a olhar simultaneamente para várias direções, sem aderir à ideia de que a corrupção seja o único ou o principal problema do país.

Crime, castigo e relações perigosas de ministros do STF no caso Master, por Luiz Carlos Azedo

Correio Braziliense

Ao citar Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Nunes Marques, também supostamente investigados de forma ilegal, Moraes insinua ter apoio da maioria dos ministros do Supremo contra Mendonça

“Raskólhnikov, de lábios desmaiados, olhar fixo, aproximou-se devagar, aproximou-se até junto da mesa dele, apoiou uma das mãos sobre ela, quis dizer alguma coisa e não pôde; apenas se ouviram alguns sons incoerentes.

— O senhor está maldisposto: uma cadeira! Aqui…Sente-se nesta cadeira, sente-se. Água!

Raskólhnikov deixou-se cair na cadeira, mas sem afastar os olhos da cara desagradavelmente surpreendida de Iliá Pietróvitch. Olharam-se um ao outro por um momento e ficaram à espera. Trouxeram a água.

— É que eu… — começou Raskólhnikov.

— Beba água.

Raskólhnikov desviou a água com a mão e, devagar, mas distintamente, disse:

— É que fui eu quem matou aquela velha viúva dum funcionário e a sua irmã Lisavieta, com uma machadada, para roubá-la.

Iliá Pietróvitch abriu a boca. De todos os lados acudiu gente. Raskólhnikov repetiu a sua declaração…”

O que proteger em tempos extremos, por Míriam Leitão

O Globo

A confiança na democracia está se estiolando, num país ferido pela polarização e com reflexos do maior escândalo financeiro da história

Os próprios ministros do Supremo Tribunal Federal carregaram bombas para dentro da instituição. O perigo não é mais externo. É interno. O presidente Luiz Edson Fachin terá que conduzir com sabedoria salomônica o fim da maior crise da história do Supremo. O foco tem que ser, o que se quer salvar. É de novo a democracia. O ministro Alexandre de Moraes quis usar o inquérito das fake news contra o ministro André Mendonça. O ministro André Mendonça extrapolou de suas funções ao direcionar a investigação, e ao avançar sobre atribuições da Polícia Federal.

A democracia exige confiança nas instituições. E a confiança está se estiolando, num país ferido por polarização extremada e vivendo os reflexos do maior escândalo financeiro da sua história. Quem tem a ganhar com tudo isso é Daniel Vorcaro. Se Mendonça se substitui ao investigador e ao controle externo da polícia judiciária o risco é de nulidade de tudo. Salvam-se todos os suspeitos.

O autoritarismo revivido, por Merval Pereira

O Globo

A manipulação da Suprema Corte dos EUA pelo presidente Roosevelt e a cassação de ministros no Brasil em 1969 são exemplos de controles das Cortes

A politização do Supremo Tribunal Federal (STF) deu início a essa crise institucional que estamos vivendo que, com diferenças de características sociais e geopolíticas, se repete em diversos países. De aspirantes a ditadores até a democracias liberais, o papel das Cortes Superiores vem ganhando uma dimensão política que não se coaduna com princípios de equilíbrio de poderes de uma democracia. O poder excessivo do ministro Alexandre de Moraes é exemplar dessa situação.

Na semana passada, debatendo o tema do autoritarismo na Academia Brasileira de Letras a partir de conferências feitas pelo embaixador e acadêmico João Almino, discutimos a questão dos “democratas autoritários”, título de um livro do próprio Almino, a partir da aceitação de que estamos vivendo um momento de regressão política e de abandono da experiência democrática em vários lugares do mundo, o que nos levou ao momento que vive o país.

Um morto-vivo na eleição do Rio, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Cláudio Castro se lambuzava em caviar enquanto estado era rapinado, indica PF

Um fantasma ronda a disputa pelo Palácio Guanabara: o fantasma de Cláudio Castro. O ex-governador virou um morto-vivo na política fluminense. Os aliados fingem não conhecê-lo, e os rivais apostam nele como anticabo eleitoral.

O candidato do PL, Douglas Ruas, esconde o antigo chefe da propaganda partidária. Na TV, ele é apenas um caminhante solitário que esbraveja contra o “Rio da novela” e repete que “a gente não criou esses problemas”. Quem terá criado?

Os bolsonaristas que concorrem ao Senado também fazem ginástica para se distanciar do ex-governador. “Nunca fui aliado de Castro”, diz Carlos Jordy. “Não preciso defender o legado dos outros. Cada um tem seu CPF”, emenda Carlos Portinho.

A responsabilidade do Supremo, por Elio Gaspari

O Globo

No meio da disputa entre Mendonça e Moraes, clarividente, está o presidente do tribunal, Edson Fachin, vendo que a estratégia da defesa de Daniel Vorcaro e de sua turma é a busca da nulidade

Os dez ministros do Supremo precisam olhar para a estatueta da Justiça que enfeita seus gabinetes. Ela é cega.

O presidente do tribunal, Edson Fachin, sabe que a estratégia da turma do Vorcaro é obter a nulidade de todo o processo e de suas provas. Afinal, o banqueiro quebrado ameaçou várias vezes contar “toda a história” do Master.

Preso, está conseguindo mais do que supunha. Os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça engalfinharam-se. Um (Mendonça) quer que os diálogos de Moraes com Vorcaro em poder da Polícia Federal venham a público.

Trata-se da aplicação da lei do juiz americano Louis Brandeis: “A luz do sol é o melhor desinfetante”.

O outro, Moraes, quer investigar iniciativas ilegais de Mendonça.

No meio, clarividente, está o presidente do tribunal, Edson Fachin, vendo que a estratégia da defesa de Vorcaro e de sua turma é a busca da nulidade.

O apagamento de Gaza, por Dorrit Harazim

O Globo

O fanatismo exterminador de Ben-Gvir já lhe valeu condenações por incitação ao racismo e apoio a movimento terrorista

Pronto, agora é oficial. Na semana passada, em Israel, foi anunciado o plano de limpeza étnica e erradicação da vida palestina em Gaza. A única ambiguidade — e ela é infame — está no título do opus: “Plano Nacional de Trabalho para a Emigração Voluntária do Estreito de Gaza”. De resto, o documento de 20 páginas detalhado com orgulho por seu autor, o ministro da Segurança Interna Itamar Ben-Gvir, é “realista” e “concreto”. E inequívoco. Numa primeira leva, com prazo de execução de 12 meses, a cota de desterro coercivo deverá atingir 250 mil cabeças. O restante dos 2 milhões de gazenses deverá abandonar o que lhe resta de chão ao longo dos seis anos subsequentes. Está tudo equacionado, garante Ben-Gvir, afirmando já ter uma lista de países dispostos a absorver os desenraizados. O próprio ministro da Defesa israelense, Israel Katz, também já informou aguardar apenas a aprovação do presidente dos Estados UnidosDonald Trump, para dar início à emigração “a qualquer custo”.

Ao som de Xandão e Lulinha, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Com foco em Vorcaro, o prejudicado era Flávio; em Xandão, passa a ser Lula

O resultado da crise sem precedentes no Supremo, devastador para o humor nacional e a já frágil confiança nas instituições, atinge as eleições. Sem programas de governo, com propostas reais e factíveis, a base de eleitores e eleitoras para votar é o mar de lama e a nociva sensação de que “são todos iguais, ninguém presta, não temos para onde correr”. Daí os dois dígitos do outsider Augusto Cury.

O escândalo bilionário do onipresente Daniel Vorcaro atinge direita, esquerda e principalmente Flávio Bolsonaro, que se jogou na rede ao pedir a bagatela de R$ 130 milhões para o “irmão” banqueiro. Mas, ao destroçar a reputação do ministro Alexandre de Moraes e rachar de vez o STF, o caso respinga sobre o presidente Lula.

Estratégia dos EUA cheira a anos 60, por Lourival Sant’Anna

O Estado de S. Paulo

Nova política amplia risco de interferência em um país em caso de derrota de um aliado de Trump

Os pilares do plano de Donald Trump para a Venezuela sugerem um potencial padrão para a América Latina: coerção militar, pacto de sustentação do governo, expropriação de riquezas e ausência de compliance. O alinhamento de líderes políticos da região, incluindo do Brasil, à estratégia americana cria o risco de retrocesso institucional, econômico e geopolítico.

Mendonça, o novo justiceiro, também precisa ser cobrado, por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Erros de um e de outro deveriam ser tratados sem a contaminação da guerra ideológica

Politização toma conta de instituições e mídia durante campanha sem discussão de propostas

As revelações sobre as relações de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro são graves e precisam ser esclarecidas. Sua atuação contra a tentativa de golpe obviamente não lhe confere imunidade, pelo contrário, coloca uma lupa sobre sua conduta. Há forte suspeita de corrupção.

Os erros de Moraes, contudo, não transformam André Mendonça em paladino da moral e da imparcialidade. Há elementos suficientes para que a atuação do novo candidato a justiceiro do Supremo também seja submetida a escrutínio.

Ideias e paliativos para conter a bandalheira no Supremo, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Reformas podem atenuar risco de crises, mas país está institucionalmente podre

Difícil conter nomeação de amigos políticos para o STF e advocacia familiar bandida

Bandalheiras no Supremo causam escândalo justificado. Também dão oportunidade a comportamento santarrão ou hipócrita de outra espécie, que prega soluções de moralismo política ou eleitoralmente interessado. O apodrecimento do STF vem de década e meia, anos em que a promiscuidade política e econômica do tribunal não causava tanta sensação, pois camuflada de modo útil para elites políticas e econômicas, antes que festas e farofas ricas de lobby ficassem exageradas. De resto, candidatos de grupos políticos associados a facções criminosas estão aí, sem suscitar manifestos de indignação.

Direita quebrou banco e comprou STF, por Celso Rocha de Barros

Folha de S. Paulo

Quando Jair lhe deixou ser banqueiro, Vorcaro saiu procurando políticos ladrões que aceitassem investir

Banqueiro tentou comprar juízes porque o Banco Central e a Polícia Federal melaram seu esquema

A direita criou o Banco Master, foi pega roubando com o Banco Master e agora teve que pagar uns caras do STF para escapar da cadeia.

Na última semana, descobrimos novos indícios de que o dono do Master tentou comprar o apoio do ministro Alexandre de Moraes. Há também indícios contra os ministros Dias Tóffoli e Nunes Marques. Mas só as acusações contra Moraes ajudam o candidato em que o ministro André Mendonça vota.

Relatos de puro espanto, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

Ronnie Lessa, o matador de Marielle Franco e Anderson Gomes, explica friamente os detalhes da execução

Mas à estupefação com o relato do pistoleiro segue-se um espanto crítico ante o comportamento da mídia

Espanto ou estupefação: a escolha da palavra fica a cargo da parcela crítica do público disposto a avaliar uma notícia recente em alguns veículos de mídia. Trata-se da narrativa em que Ronnie Lessa, o matador de Marielle Franco e Anderson Gomes, explica friamente os detalhes da execução, mas, compungido, lamenta ter assassinado os dois únicos inocentes em sua carreira de crimes. E o público, nada menos que estupefato, ainda fica sabendo que ele não matou mil pessoas, como teriam insinuado. Foi menos, mas poderia ser muito mais, fosse feita a conta de ações conjuntas com a polícia.

Origem da crise é o desrespeito à Constituição, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

A responsabilidade não é do sistema; é de quem comanda e opera os Poderes ao arrepio das regras e rituais

A geração subsequente aos artífices da redemocratização foi incapaz de seguir os passos dos antecessores

Estava escrito nas estrelas das disfuncionalidades da República que este momento de degradação nas relações, atuações e reputações chegaria.

O enunciado da Constituição sobre a divisão harmônica e autônoma de atribuições entre os três Poderes não está lá por acaso nem é obra de diletantismo do colegiado constituinte.

As cores do coração, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Se for crime usar a camisa do time adversário, muitos ilustres já deveriam ter pagado por isso

O que o garoto corintiano que pediu a camisa de Neymar levará desta experiência pela vida?

Há dias, um garoto de 8 anos levantou uma placa no jogo contra o Santos na Neo Química Arena: "Neymar, amo o Corinthians, mas sou seu fã. Me dá sua camisa?". Pediu e recebeu. Por causa disso, ouviu um coro de urros, insultos e ameaças de um grupo de torcedores corintianos. O risco de linchamento levou sua mãe a retirá-lo do estádio sob proteção policial. O Corinthians condenou os brutamontes. Pergunto-me o que essa criança levará pelo resto da vida —profunda repulsa pelo ser dito humano ou a certeza de que nada é mais importante do que a tolerância?

Poesia | Minha terra, de Ascenso Ferreira por Chico Anysio

 

Música | Alceu Valença - Tropicana