Candidatos decepcionam ao desprezar educação
Por O Globo
Brasil não atingirá outro patamar de
desenvolvimento sem população preparada para a economia moderna
O período eleitoral traz a eleitores e candidatos a oportunidade de expor sua visão para o futuro do país. É auspicioso que temas importantes como terras-raras, o tarifaço americano, o petróleo na Margem Equatorial, as emendas parlamentares, as altas taxas de juros ou a corrupção tenham entrado na agenda. São assuntos da maior relevância. Infelizmente, o tema mais estratégico para o desenvolvimento do país continua ausente ou em segundo plano: a educação. Nenhuma política industrial, monetária, comercial ou redistributiva tem chance de levar o país a outro patamar de desenvolvimento se a população continuar despreparada para a economia moderna. E a distância para isso continua gigantesca.
O principal indicador da qualidade do ensino
básico, o Ideb, mostra que os avanços obtidos nos anos iniciais não se mantêm
nas fases seguintes. Estudantes saem do ensino médio sem condições de obter
formação superior compatível com a necessidade brasileira de desenvolvimento.
Presas a modelos arcaicos e a amarras corporativistas, as próprias faculdades
estão aquém de oferecer cursos em nível adequado, como atesta — entre tantos
outros — o resultado da avaliação do MEC dos cursos de medicina.
Ainda que o ensino superior receba a maior
fatia dos recursos públicos destinados à educação, grande parte do dinheiro se
perde em cursos de pouca valia para a sociedade, mantidos apenas para preservar
feudos acadêmicos, em geral associados à militância — e não à produção de
ciência e conhecimento de qualidade, fundamentais para qualquer país se
desenvolver. O ensino privado se mostra incapaz de suprir a lacuna. O resultado
é a desconexão crescente entre academia e sociedade.
Nas principais pesquisas de opinião, a
educação costuma aparecer entre as seis maiores preocupações dos brasileiros.
As carências do ensino básico continuam a gerar gargalos ao longo do percurso
educacional e profissional. Por isso ele é tão crítico e exige ação do poder
público. Uma pesquisa do Todos Pela Educação revelou que, nos locais onde as
políticas educacionais têm êxito, a população reconhece e valoriza o avanço. O
tema não é abordado pelas campanhas simplesmente porque os candidatos não têm o
que mostrar, diz Priscila Cruz, presidente executiva do Todos Pela Educação.
Um dos destaques positivos recentes, segundo
ela, é o Rio Grande do Sul. O estado obteve o segundo maior avanço em português
e o terceiro em matemática no ensino médio, depois da enchente histórica que
devastou dezenas de municípios. O dado certamente entrará no debate eleitoral.
Entre as unidades federativas, o maior avanço foi registrado no Piauí, um dos
estados mais pobres do país. É certo que a questão tem apelo para o eleitorado
e deverá ser tema da campanha que se inicia. O Rio, em contrapartida, continua
nas últimas posições do Ideb e, na falta de políticas consistentes e coerentes,
tem sido incapaz de transformar em educação de qualidade os tímidos avanços
obtidos nos indicadores — resultantes em boa parte de uma manobra, com a adoção
de aprovação automática.
A educação deveria estar no centro da campanha. Foi por meio de políticas educacionais robustas que países como China ou Coreia do Sul alcançaram outro patamar de desenvolvimento. A ausência do tema na agenda prioritária dos candidatos revela a indigência do debate eleitoral no Brasil.
Tabelamento do vale-refeição deu errado, como
era previsível
Por O Globo
Insistência do governo em congelar taxa
cobrada nos tíquetes contribuiu para elevar custos para restaurantes
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, disse
que o governo notificou as quatro maiores fornecedoras de vale-refeição e vale-alimentação para
explicar as taxas cobradas de estabelecimentos comerciais em desacordo com o
teto imposto pelo Planalto. Desde fevereiro, o máximo, determinado por decreto
assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao regulamentar o Programa
de Alimentação do Trabalhador (PAT), é de 3,6%. Mas a taxa média subiu de 5,19%
em abril para 6,18% no levantamento feito entre junho e julho pelo Ipsos-Ipec,
ficando bem acima do estipulado no decreto.
Marinho ameaçou descredenciar quem não
cumprir as normas: “As empresas estão fraudando o entendimento do decreto e
terão problemas. Elas terão de cumprir o teto e o prazo de 15 dias [para
repasse dos valores]”. As empresas alegam cumprir a legislação e dizem que
prestarão os esclarecimentos ao governo.
Editorial: Parar
pente-fino no Bolsa Família foi um equívoco
Por mais que Marinho esbraveje, o imbróglio
segue o roteiro esperado. Em 14 de novembro passado, depois da assinatura do
decreto, O
GLOBO publicou editorial com o título: “Tabelamento de taxas de vale-refeição e
alimentação tem tudo para fracassar”. Não deu outra. É verdade que as taxas
cobradas dos estabelecimentos são altas na comparação com as exigidas por
cartões de crédito e débito. Mas boas intenções não bastam para reduzi-las,
especialmente quando o caminho escolhido é equivocado.
O governo deveria saber que tabelar é sempre
a pior solução nesses casos. O teto cria uma distorção na formação dos preços.
Como as operadoras não podem cobrar taxas maiores de estabelecimentos que geram
pouco negócio, acabam aumentando as de quem costuma vender mais. Na prática,
sobra para o consumidor, que paga mais para comer nos lugares mais populares.
Mesmo nos casos em que há redução das taxas, dificilmente os estabelecimentos
repassam a diferença ao preço, como demonstram estudos.
Pedro Doria: O Discord está restrito, mas não
para quem deveria
Criado em 1976, o PAT é um programa
meritório, com números robustos e apelo popular. Atende a mais de 300 mil
empresas que fornecem tíquetes alimentação ou refeição a empregados em troca de
benefícios fiscais. Reúne cerca de 800 mil restaurantes e supermercados
credenciados, contemplando mais de 22 milhões de funcionários.
Apesar de o decreto trazer também medidas positivas, como a fixação do prazo de 15 dias corridos para o repasse dos valores a restaurantes e supermercados, o tabelamento contaminou a iniciativa — uma das muitas “bondades” concedidas pelo governo Lula em busca do aumento de popularidade. Se a intenção era reduzir o preço da refeição num momento de pressão inflacionária, o resultado foi frustrante. As taxas continuaram nas alturas. Descredenciar as maiores empresas do setor, como ameaça Marinho, agravará a situação e respingará nos consumidores (ou eleitores). O governo se vê desorientado, em busca de solução para um problema que ele próprio criou.
Brasília debate 6x1 enquanto juros ameaçam
empregos
Por Folha de S. Paulo
Pauta eleitoreira consome energia política do
governo e do Congresso, que deixam de lado as contas públicas
A redução da jornada de trabalho tem
objetivos obviamente meritórios, mas nem mesmo se debateram a contento
efetividade, impactos e prazos
Nas últimas semanas, grandes e conhecidas
empresas brasileiras passaram a frequentar uma lista que nenhum país gostaria
de ver crescer.
A Casas Bahia
entrou com pedido de recuperação judicial para renegociar cerca
de R$ 17,3 bilhões em dívidas. A Braskem aprovou um plano de recuperação
extrajudicial diante de um endividamento estimado em R$ 56 bilhões. Raízen,
GPA, Tok&Stok, Habib’s e outras companhias também recorreram a mecanismos
de reestruturação financeira ao longo deste 2026.
Os problemas específicos variam, mas há um
fator que aparece de forma comum a todos os casos —um ambiente de juros muito
elevados por um longo período, encarecendo o custo financeiro de todas as
empresas e os orçamentos das famílias.
Enquanto o endividamento se alastra,
Brasília concentra sua
energia política na pauta eleitoreira do fim da escala de seis
dias de trabalho por semana.
A proposta é apresentada como avanço social e
ganho para a qualidade de vida dos trabalhadores. São objetivos obviamente
meritórios, mas nem mesmo se debateram a contento efetividade, impactos e
prazos.
Em princípio, tal mudança ocorre em economias
que apresentam grandes aumentos de produtividade e juros baixos, pois assim as
empresas têm capacidade de absorver os novos custos. Essa não é, nem de longe,
a fotografia do Brasil de hoje.
Há décadas o país tem produtividade
estagnada, e o custo do dinheiro se mantém em nível sufocante nos últimos anos,
sem perspectivas de redução relevante.
O principal desafio do trabalhador brasileiro
neste momento é, em alguns casos, ter apenas um dia de folga por semana ou
estar empregado em uma empresa que talvez não sobreviva aos próximos anos? Essa
é uma questão completamente ausente do debate sobre a 6x1, que parece
desconectado da realidade do país.
A pauta da jornada de trabalho, que inexistia
até a aproximação das eleições,
ocupa espaço que deveria estar sendo dedicado à questão mais fundamental: qual
será a agenda para reduzir de modo duradouro as taxas de juros.
A resposta passa pelo ajuste das contas
públicas, sobretudo por meio de controle de despesas em proporção suficiente
para estabilizar o endividamento do governo —hoje descontrolado e subestimado
pela administração de Luiz Inácio Lula da
Silva (PT).
Enquanto persistirem dúvidas sobre a
trajetória da dívida pública e a disposição do mundo político de enfrentar o
problema, os juros continuarão elevados para famílias e empresas.
Os atuais níveis recordes de emprego, também
associados à alta das despesas do Tesouro, podem dar a impressão enganosa de
tranquilidade. Entretanto a atividade econômica já está em desaceleração, e
essa tendência agravará as dificuldades enfrentadas pela população. Uma crise
financeira afetará principalmente os trabalhadores mais pobres.
Aperto monetário em pauta nos EUA
Por Folha de S. Paulo
Presidente do Fed mostra compromisso com a
meta de inflação, o que eleva a probabilidade de alta de juros
Investimentos crescem no ritmo mais forte
desde 2021, e o crédito flui com folga; expansão da dívida pública preocupa
investidores
Depois de alimentar suspeitas de maior
tolerância com a inflação,
o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, corrigiu a mensagem em seu
discurso inaugural no simpósio anual de Jackson Hole.
Em manifestações anteriores, o
indicado de Donald Trump para o banco central dos EUA deixara
espaço para interpretações de que poderia flexibilizar o critério de
estabilidade de preços. Desta vez, Warsh disse que a
meta de 2% anuais é "firme e fixa" e que haverá
trabalho a fazer —leia-se alta dos juros—
caso não haja convergência rápida da inflação corrente, ainda acima de 3%.
O tom mais duro, em que descreveu a economia
como resiliente e apontou o risco inflacionário como foco, foi recebido com
certo alívio. A instituição não parece disposta a experimentar atalhos que
possam corroer ainda mais o poder de compra da moeda que é reserva mundial.
A probabilidade estimada de um aumento de
juros em setembro subiu de 35% para 50% após as palavras de Warsh. Ainda não
está claro se será necessário um aperto da política monetária, mas tampouco há
conforto diante do quadro de atividade firme e inflação ainda acima da meta.
Investimentos crescem no ritmo mais forte
desde 2021, em boa medida puxados pela infraestrutura de inteligência
artificial, e o crédito flui com folga.
O mercado de trabalho, com desocupação em
4,1%, é compatível com pleno emprego. A inflação, porém, permanece elevada, em
3,7% nos últimos 12 meses. Mais da metade dos componentes do índice ao
consumidor ainda sobe acima de 3% ao ano.
A nova liderança do Fed também
promete mudanças institucionais, com a maior revisão em décadas de fontes de dados,
metodologias e comunicação.
O tema da comunicação é o mais destacado por
Warsh. A prática do órgão de indicar seus próximos passos, útil na crise de
2008, teria "ultrapassado o prazo de validade" em tempos normais.
A tese é que, quando o Fed antecipa demais o
próprio caminho e o mercado passa a operar com base nessa antecipação, forma-se
uma espécie de jogo de espelhos entre os dois lados, com riscos maiores de
erros na condução da política monetária.
O compromisso com a estabilidade de preços é ainda mais crítico atualmente, diante da trajetória da dívida americana, que já ultrapassou US$ 40 trilhões e inquieta credores. A busca por proteção do poder de compra —visível na valorização recente do ouro— é um sinal da desconfiança. Nesse contexto, é bem-vinda a mostra de rigor de Warsh.
O antiajuste fiscal de Lula
Por O Estado de S. Paulo
O programa petista informa que Lula presidiu
‘a gestão fiscal mais republicana da história do Brasil’. É um insulto, e
mostra que as conversas sobre um eventual ajuste são para boi dormir
O programa de governo apresentado pelo
presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua tentativa de reeleição diz que o
petista, no atual mandato, liderou “a gestão fiscal mais republicana da
história do Brasil”. E explica: “Sob a diretriz de ‘colocar o pobre no
orçamento e o rico no Imposto de Renda’, a gestão realizou uma profunda
reorganização fiscal que elevou a proteção social sem renunciar ao reequilíbrio
das contas públicas”.
É uma pilha de insultos. O que os petistas
chamam orgulhosamente de “reorganização fiscal” foi uma série de gambiarras
para driblar o arcabouço fiscal que o próprio governo criou para substituir o
desmoralizado teto de gastos. Tudo a pretexto de atender a situações
“excepcionais”. No governo Lula, o “excepcional” se tornou regra. Não é um
acidente: é a natureza do PT – e por isso não se deve esperar nada de diferente
num eventual quarto mandato de Lula, por mais que a atual equipe econômica
tente sugerir o contrário.
No final de 2005, por exemplo, Dilma
Rousseff, então chefe da Casa Civil do primeiro mandato de Lula, deu uma
célebre entrevista ao Estadão na
qual explicou, didaticamente, que a tentativa de debater um ajuste fiscal de
longo prazo, conduzida por alguns integrantes do governo, era algo “rudimentar”
e que não se podia tratar desse assunto “pensando em planilha”. Para Dilma,
“despesa é vida: ou você proíbe o povo de nascer, de morrer, de comer ou de
adoecer, ou vai ter despesas correntes”.
Numa época em que havia superávit primário
constante em torno de 4% do Produto Interno Bruto (PIB), ajudando a estabilizar
a dívida pública na casa dos 51,5% do PIB, parecia confortável falar em ampliar
os gastos com a “vida”, como sempre pretenderam o PT e Lula. Mas a insistência
nesse modelo perdulário conduziu o País ao desastre da recessão de 2015-2016,
não por acaso durante o famigerado governo Dilma. Foi em 2014, com Dilma, que
começou a série de déficits fiscais que perdura até hoje, obrigando o Banco
Central a manter a taxa de juros na estratosfera para premiar quem se dispõe a
financiar a galopante dívida pública – que somente no terceiro mandato de Lula
saltou incríveis dez pontos porcentuais, de 71,4% para 81,9% do PIB.
Isso não tem nada de “republicano”, como se
jacta o PT. É justamente o contrário. Ser republicano é, em primeiro lugar,
respeitar a coisa pública. É ter consciência de que o dinheiro do contribuinte
não brota em árvores e que precisa ser gasto com imensa parcimônia. É evidente
que o Brasil tem grandes carências sociais que precisam ser enfrentadas, mas
não a partir da presunção de que o Tesouro é uma milagrosa cornucópia. Por
isso, cabe ao presidente da República, na condição de principal líder político
do País, a condução do debate orçamentário, negociando com o Congresso cortes
de despesas para que haja recursos suficientes para aquilo que se estabeleceu
como prioridade.
No Brasil de Lula, contudo, não é preciso
negociar nada. Basta ser criativo na hora de lançar as despesas na planilha,
retirando-as do arcabouço fiscal sob os mais diversos pretextos, e saciar o
apetite dos parlamentares por emendas para que não façam oposição de verdade.
Enquanto isso, a aritmética se impõe, razão pela qual será necessário um
robusto ajuste fiscal a partir do ano que vem, sob pena de não haver dinheiro
nem para pagar a conta de luz do Ministério da Fazenda.
Mas estamos em ano de eleição, período em que
os petistas ficam especialmente criativos. No mesmo programa de governo
apresentado por Lula, lê-se que “trabalhamos em conjunto com o Congresso
Nacional para a aprovação do arcabouço fiscal, das medidas de recomposição e
justiça tributária e da redução dos benefícios fiscais” e que “foi assim que
cortamos isenções tributárias e colocamos fim a benefícios ineficientes”. O que
o documento não diz é que esses cortes foram modestos, porque os benefícios
tributários concedidos pela União, por exemplo, continuam a consumir em torno
de 4,5% do PIB.
Em resumo, Lula tenta convencer o eleitor já
calejado com as patranhas petistas de que seu governo não é o que parece e que
o próximo será ainda melhor. A dificuldade de Lula para subir nas pesquisas
mostra que essa farsa não cola mais.
O melhor plano de saúde do Brasil
Por O Estado de S. Paulo
Assistência médica de senadores custa 46
vezes mais que a de usuários do SUS, e o contribuinte, que luta para conseguir
pagar um plano de saúde, banca 87,2%
Quantas vezes mais vale a vida de um senador
da República do que a de um cidadão comum? A pergunta é capciosa e certamente
não deveria ter resposta, mas, se formos avaliar pelos custos aos cofres
públicos, há uma régua capaz de medir isso e dar uma resposta matemática: 46
vezes mais.
Levantamento feito pelo Ranking dos
Políticos, a partir de dados do Congresso Nacional obtidos via Lei de Acesso à
Informação, revela que a assistência à saúde de senadores e ex-senadores teve
um custo de R$ 40 milhões no ano passado. Desse total, os beneficiários
contribuíram com apenas 12,8%, deixando para os cofres públicos a conta de R$
35,3 milhões.
O Programa de Assistência à Saúde do Senado
oferece atendimento médico-hospitalar e odontológico. É uma benesse nada
modesta para senadores em exercício, ex-parlamentares e seus dependentes, com
um custo médio mensal de R$ 5.362 por beneficiário.
Se compararmos com outros planos, podemos
considerar que esse seja de longe o melhor plano de saúde do Brasil, ao menos
em termos de valores. O mesmo estudo mostra que o investimento público per
capita no Sistema Único de Saúde (SUS) é de R$ 116,50 por mês.
A comparação com quem paga um plano privado
também é desconcertante. O custo médio dos beneficiários no sistema particular,
segundo o mesmo estudo, é estimado em pouco mais de R$ 500, uma fração do custo
da assistência dos excelentíssimos senadores.
E estamos falando, convém lembrar, de
próceres da República que recebem mais de R$ 46 mil por mês, fora a verba para
despesas da atividade parlamentar, o apartamento funcional (ou auxílio-moradia
de R$ 5,5 mil mensais) e o carro oficial com tanque cheio e motorista. Dinheiro
para ajudar a pagar a própria assistência médica, portanto, não parece ser
exatamente um problema.
Diante de tanta generosidade, não se estranha
o esbanjamento com o plano de saúde. No entanto, nem sempre foi assim que um
parlamentar enxergou a relação entre o mandato e o serviço público. Florestan
Fernandes, deputado constituinte, por exemplo, recusava-se, segundo sua
família, a procurar atendimento particular. Dizia que deveria ser solidário aos
brasileiros que dependiam exclusivamente do SUS. Morreu em 1995 mantendo essa
convicção. É óbvio que não é o caso de pedir aos senadores de hoje que façam o mesmo.
Os parlamentares podem ter seu excelente plano de saúde e levar filhos ao
médico sem experimentar uma fila do SUS. Mas não é justo que tudo isso seja
bancado com o dinheiro dos contribuintes que, na maioria absoluta dos casos,
penam para pagar seu plano de saúde, quando têm algum.
A questão se torna ainda mais incômoda porque
são esses mesmos parlamentares que decidem sobre a saúde pública. Aprovam
orçamento, alteram suas regras e destinam bilhões de reais à saúde por meio de
emendas. Boa parte deles conhece o sistema público por planilhas, audiências,
discursos e visitas oficiais. Para cuidar da própria saúde e da família, há uma
alternativa bem mais confortável.
A prova de que não precisa ser assim está do
outro lado do Congresso: na Câmara, os próprios beneficiários praticamente
bancaram toda a assistência médica no ano passado e ainda sobrou dinheiro. O
custo por beneficiário também foi dez vezes menor. Não consta que, por causa
disso, deputados estejam desassistidos ou precisem peregrinar por hospitais em
busca de atendimento.
O Senado preferiu ser generoso com seus
beneficiários. A generosidade, claro, sobra para quem está do lado de fora
pagar.
Um trabalhador que contrata assistência
privada tira a mensalidade do próprio salário. Quem não pode fazê-lo recorre ao
SUS e enfrenta as limitações da rede pública. O senador, embora tenha renda
suficiente para pagar, fica com a maior parte da conta subsidiada. É um
privilégio difícil de defender e ainda mais difícil de explicar a quem o
financia.
Vossas Excelências podem ficar com o melhor
plano de saúde do Brasil. Só não há motivo para que quem jamais poderá usá-lo
continue pagando – e muito caro – por ele.
Transferência de responsabilidade
Por O Estado de S. Paulo
O novo presidente do STJ culpa o período
eleitoral pela baixa credibilidade do Judiciário
Empossado recentemente presidente do Superior
Tribunal de Justiça (STJ), o ministro Luis Felipe Salomão concedeu entrevistas
em série a grandes veículos de imprensa para emplacar uma tese: a de que o
Poder Judiciário vem sendo criticado não por causa de sua recalcitrância em
aceitar alguns princípios republicanos elementares, mas porque atacá-lo rende
votos a políticos radicais.
Para Salomão, não tem fundamento, em período
eleitoral, “fazer uma pesquisa de opinião sobre se a pessoa confia ou não no
Judiciário”, haja vista que “parte da classe política usa o desgaste do
Judiciário como plataforma política”.
Esse desgaste, em suas palavras, é “completamente
sazonal” – ou seja, temporário. Mas as pesquisas rechaçadas por Salomão apontam
justamente o contrário: a crise de confiança não tem nada a ver com o período
eleitoral e só cresce.
Sondagem do Datafolha de março passado
mostrou que 43% dos entrevistados declararam não confiar no Supremo Tribunal
Federal (STF), cinco pontos porcentuais acima do verificado em dezembro de
2024. A credibilidade do STF está no nível mais baixo desde 2012, conforme o
histórico dessa pesquisa. Já a desconfiança no Judiciário como um todo saltou
de 28% para 36%.
São números que resumem bem o sentimento de
frustração da sociedade com um Poder que há décadas não é muito bem avaliado
pelos brasileiros, seja em razão de sua morosidade, seja pela sensação de que
foi capturado pelo poder político e econômico. Nada disso foi criado pela
propaganda de candidatos que exploram a crise de credibilidade do Judiciário
para angariar votos. É o contrário: esse discurso político só existe porque o
Judiciário ajudou a ensejá-lo.
O que já era ruim piorou muito quando se
consolidou a sensação, na opinião pública, de que integrantes do Judiciário se
consideram parte de uma casta superior, dispensada de justificar privilégios
salariais e comportamentos eticamente reprováveis. Para esses magistrados, as
críticas que recebem são parte de um movimento político para desmoralizar o
Judiciário e, no limite, minar a democracia – não à toa, o ministro Salomão
declarou ao Estadão que
o Judiciário é “aquele que garante a democracia”, donde se depreende que críticas
a esse Poder seriam antidemocráticas.
De fato, não existe democracia sem juízes
independentes, assim como não existe democracia sem o respeito ao princípio
republicano segundo o qual ninguém está acima da lei. Para uma parcela
significativa da população, o Judiciário acumulou poder excessivo e faz mau uso
dele, seja para garantir privilégios a seus integrantes, seja para interferir
no processo político democrático, não raro atropelando outros Poderes.
Ao culpar os “líderes populistas extremistas” pela crise de credibilidade do Judiciário, o ministro Salomão se une a vários de seus pares na incapacidade de reconhecer a parcela de responsabilidade dos magistrados pelo atual estado de coisas. Isso mostra que, se depender de um exame de consciência no Judiciário, esse Poder jamais será reformado.
Custo de energia em data centers é desafio a
avanço do setor
Por Valor Econômico
Custos têm de ser enfrentados de forma transparente, os incentivos, monitorados, e os resultados, periodicamente mensurados e avaliados
Quando a onda da inteligência artificial (IA)
começou, alguns anos atrás, sabia-se que grandes centros de processamento de
dados, os data centers, teriam de ser construídos. Sabia-se também que eles
consomem vastas quantidades de eletricidade. Assim, havia o temor de que, se a
oferta de energia não acompanhasse o crescimento da demanda, surgiriam gargalos
no fornecimento, e os preços acabariam subindo. Aos poucos, está ficando claro
que os temores tinham fundamento. O Congresso brasileiro está perto de aprovar
o Redata, um programa de incentivos fiscais para atrair data centers para o
país. O desafio do fornecimento de energia, de seus custos e dos efeitos na
conta de luz dos consumidores será enfrentado também por aqui. Nos EUA, que lideram
a corrida da IA, os preços da energia para o consumidor residencial estão
subindo ao dobro do ritmo da inflação. Ou seja, a sociedade está pagando a
conta, o que começa a provocar uma reação pelo mundo.
Data centers existem há décadas. Mas, desde o
lançamento do ChatGPT, em 2022, o uso de IA generativa disparou, o que
multiplicou a demanda por processamento e, consequentemente, por energia
elétrica. Hoje há cerca de 12 mil data centers em operação pelo mundo, e a
capacidade de processamento deve dobrar até 2030. Empresas como Amazon, Google,
Meta e Microsoft estão construindo instalações gigantescas, os data centers de
hiperescala. O investimento apenas das 14 maiores empresas abertas do setor
deve atingir US$ 750 bilhões neste ano, contra US$ 450 bilhões em 2026. O gasto
global na construção de data centers pode chegar a US$ 7 trilhões em 2030,
segundo estimativa da consultoria McKinsey. Esse é maior processo de
investimento em infraestrutura em tempos de paz da história.
Apesar dos valores astronômicos, um dos
principais obstáculos ao setor não tem sido levantar capital, mas sim a
escassez de eletricidade. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), em
2025 os data centers consumiram 485 terawatts-hora, cerca de 1,5% do consumo
mundial de energia elétrica. O aumento foi de 17% em relação ao ano anterior.
Para conter o temor de uma escalada nos
preços, muitas empresas de tecnologia anunciaram parcerias e investimentos em
geração elétrica, incluindo reativação de usinas nucleares, como a de Three
Mile Island, palco do pior acidente nuclear nos EUA. A Microsoft, por exemplo,
prometeu que qualquer custo para atender seus data centers não seria repassado
para as comunidades. A Anthropic se comprometeu, de modo vago, a cobrir os
aumentos de preços da eletricidade que os consumidores enfrentam devido aos
seus data centers.
Apesar dessas garantias de que os data
centers não iriam impactar o custo da energia, isso está acontecendo. Nos
últimos 12 meses, o valor médio das contas de luz residenciais nos EUA subiu
6,6%, quase o dobro da inflação, de 3,4%. Desde 2022, a conta média subiu 25%,
ante inflação de 14,1%. O custo da energia para residências subiu mais que para
empresas. O consumidor residencial está, sim, pagando a conta.
A percepção de que a sociedade está sendo
obrigada a cofinanciar a infraestrutura elétrica demandada por essas
megaempresas tem gerado protestos pelo mundo e reação dos governos. Diante do
aumento exponencial da demanda por eletricidade, que superou amplamente a
oferta, a Dinamarca aprovou neste mês uma mudança nas regras de conexão à rede
elétrica. O país passou a priorizar residências, pequenas empresas e clientes
já existentes, e colocou novos data centers em último lugar na fila. Isso deve
fazer com que projetos já em andamento corram o risco de ficar sem energia.
Outros países europeus estudam medidas similares.
Nos EUA, mais de 25 Estados já adotaram ou
propuseram medidas para limitar, suspender ou fiscalizar com mais rigor
projetos de novos data centers. Nova York impôs moratória de um ano na construção
de instalações que demandem 50 MW ou mais. O Texas, um dos Estados mais
pró-negócios do país, pausou a aprovação de novos projetos devido aos riscos
para a estabilidade da já sobrecarregada rede elétrica local.
O Brasil quer atrair data centers e este pode
ser um negócio relevante para o país. Mas é importante que as autoridades
brasileiras tenham isso em mente com o Redata. Ele prevê que as empresas terão
isenção de PIS-Cofins, Imposto de Importação e IPI por 5 anos, vinculados à
aplicação de 2% do valor dos produtos adquiridos no mercado doméstico ou
importados em pesquisa e inovação, e ao uso de energia de fontes limpas e
renováveis. Mas há problemas. O custo de energia do país é um dos maiores do
mundo e não para de subir. A oferta de energia solar e eólica é abundante, mas
os data centers precisam de fornecimento contínuo, o que em boa parte do tempo
só pode ser garantido por energia das hidrelétricas, disputando suprimento com
limite de expansão com clientes nacionais.
A soberania digital, isto é, a capacidade de processar e guardar internamente informações sensíveis para o Brasil, sem depender de outros países, é um objetivo fundamental de segurança e desenvolvimento. Mas os custos têm de ser enfrentados de forma transparente, os incentivos, monitorados, e seus resultados, periodicamente mensurados e avaliados - o que é raro de acontecer.
O retorno de um inimigo derrotado
Por Correio Braziliense
O movimento antivacina é, antes de qualquer
coisa, um fenômeno de privilégio e ignorância histórica.
Em 1991, o Brasil notificou 61.400 casos de
sarampo e 475 mortes pela doença. Naquele ano, a incidência chegava a quase 100
casos para cada 100 mil habitantes. Metade dos leitos de hospitais infantis era
ocupada por crianças com sarampo, com altíssima mortalidade, como lembra
qualquer médico que viu aquela realidade de perto. Era uma das principais
causas de morte infantil no país, ao lado de doenças que hoje soam como
história antiga.
O que mudou esse quadro não foi um remédio
revolucionário, nem uma descoberta científica recente. Foi a vacina, antiga,
barata, eficaz e disponível gratuitamente no SUS. Em 1992, em uma campanha
massiva, o Brasil vacinou 96% das crianças e adolescentes entre 9 meses e 14
anos. Os casos despencaram de 42.532 em 1991 para 2.396 em 1993. Em 2016, a
Organização Pan-Americana da Saúde certificou a eliminação do sarampo no
continente americano. O Brasil havia derrotado uma doença que matava milhões.
Havia. O verbo no passado é necessário porque
o sarampo está de volta. Não por falha na oferta da vacina, mas por falha
humana. A queda nas coberturas vacinais nos últimos anos, alimentada por
desinformação e pelo movimento antivacina, recriou as condições para que o vírus
volte a circular. Os 26 casos já registrados em São Paulo em 2026 não são uma
anomalia estatística. São um sinal de alerta que não pode ser ignorado.
O movimento antivacina é, antes de qualquer
coisa, um fenômeno de privilégio e ignorância histórica. Seus adeptos cresceram
num país onde o sarampo havia sido eliminado, justamente porque gerações
anteriores vacinaram seus filhos. Nunca viram uma criança morrer de sarampo,
nunca passaram por uma enfermaria tomada pela doença, nunca enterraram alguém
por uma infecção que podia ser prevenida com uma picada. Essa proteção
invisível, construída ao longo de décadas de saúde pública, é o que lhes dá o
luxo de recusar vacinas sem consequências imediatas que recaem, como sempre,
sobre os mais vulneráveis: crianças pequenas demais para serem vacinadas,
imunossuprimidos, pessoas sem acesso a cuidados de saúde.
A desinformação que alimenta esse movimento
não é ingênua, e gera um perigo difícil de ignorar. Cada criança não vacinada é
um elo que o vírus pode usar para se espalhar. Afinal, o sarampo é uma das
doenças mais contagiosas que existem: nove em cada 10 pessoas suscetíveis
expostas ao vírus adoecem. Quando a cobertura vacinal cai abaixo de 95%, a
proteção coletiva desaparece e o vírus encontra caminho livre. Os 26 casos de
São Paulo são a evidência de que esse caminho já está sendo aberto.
Rejeitar a vacina contra o sarampo é uma decisão com consequências para além de quem a toma. Significa contribuir para o retorno de uma doença que o Brasil já havia derrotado. É ignorar décadas de evidência científica em favor de medo irracional e desinformação. E é, a última análise, colocar em risco a vida de crianças que não têm voz nessa escolha. O Brasil já soube o que é lidar com o sarampo. Não há razão para aprender de novo.
Reforço na segurança das eleições
Por O Povo (CE)
TSE aprova envio de efetivo das Forças
Armadas para 66 municípios cearenses durante o primeiro turno das eleições
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou
por unanimidade, nesta quinta-feira, 27 de agosto, o pedido dos Tribunais
Regionais Eleitorais (TREs) do Ceará e de outras quatro unidades da Federação
para o reforço da segurança por forças federais no primeiro turno das eleições
gerais. Mais de uma centena de municípios, 66 deles no Estado, vão receber
agentes para o pleito do dia 4 de outubro.
Além do Ceará, Tocantins, Piauí, Acre e Rio
de Janeiro solicitaram reforço das forças federais, compostas por militares do
Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Cabe agora ao Ministério da Defesa
planejar e executar as ações das Forças Armadas em cada uma das missões.
No Ceará, conforme antecipou O POVO na coluna
Vertical, assinada pelo jornalista Carlos Mazza, o pedido partiu dos juízes
eleitorais de 66 municípios, que solicitaram reforço e encaminharam o pedido ao
TRE-CE. A lista inclui as maiores cidades do Estado, como Fortaleza, Caucaia,
Juazeiro do Norte e Sobral, bem como localidades com denúncias de interferência
de facções nas eleições municipais de 2024, como Choró e Santa Quitéria.
O número de municípios que solicitaram o
apoio das forças federais aumentou no Estado. No pleito passado, em 2024, foram
26, enquanto nas últimas eleições gerais, em 2022, eram 19. Nesse intervalo,
porém, investigações da Polícia Federal e da Polícia Civil do Estado expuseram
tentativas de facções criminosas de interferir no pleito ou até mesmo de
conquistar representação política.
No Ceará, os casos de Santa Quitéria e Choró
são emblemáticos. No primeiro, prefeito e vice-prefeito foram cassados menos de
dois anos após a eleição. A Justiça Eleitoral considerou que Braguinha e
Francisco Gardel abusaram dos poderes político e econômico e tiveram
envolvimento com facção criminosa no pleito de 2024. Já em Choró, o prefeito
eleito Bebeto Queiroz foi impedido de assumir o cargo pelo mesmo motivo e está
até hoje foragido da Justiça.
Assim, a necessidade de reforços voltados
exclusivamente a garantir a segurança do processo eleitoral ganha contornos
importantes. Afinal, a atuação de grupos criminosos tenta minar a independência
democrática, seja por meio de influência econômica, com dinheiro de origem
ilícita, seja por meio da intimidação de eleitores.
Já neste início de campanha eleitoral em
2026, agentes da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS)
prenderam pelo menos 13 suspeitos de tentar interferir no pleito a mando de
facções criminosas. Casos de extorsão de candidatos e apoiadores foram
registrados em Itapajé, Maranguape e Forquilha.
As eleições são um dos pontos máximos do processo democrático. É por meio delas que a população exerce seu poder de escolha. Garantir que cada eleitor possa votar livremente, sem intimidação ou interferência de grupos criminosos, é proteger não apenas o pleito, mas a própria democracia.

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