segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Candidatos decepcionam ao desprezar educação

Por O Globo

Brasil não atingirá outro patamar de desenvolvimento sem população preparada para a economia moderna

O período eleitoral traz a eleitores e candidatos a oportunidade de expor sua visão para o futuro do país. É auspicioso que temas importantes como terras-raras, o tarifaço americano, o petróleo na Margem Equatorial, as emendas parlamentares, as altas taxas de juros ou a corrupção tenham entrado na agenda. São assuntos da maior relevância. Infelizmente, o tema mais estratégico para o desenvolvimento do país continua ausente ou em segundo plano: a educação. Nenhuma política industrial, monetária, comercial ou redistributiva tem chance de levar o país a outro patamar de desenvolvimento se a população continuar despreparada para a economia moderna. E a distância para isso continua gigantesca.

O principal indicador da qualidade do ensino básico, o Ideb, mostra que os avanços obtidos nos anos iniciais não se mantêm nas fases seguintes. Estudantes saem do ensino médio sem condições de obter formação superior compatível com a necessidade brasileira de desenvolvimento. Presas a modelos arcaicos e a amarras corporativistas, as próprias faculdades estão aquém de oferecer cursos em nível adequado, como atesta — entre tantos outros — o resultado da avaliação do MEC dos cursos de medicina.

Ainda que o ensino superior receba a maior fatia dos recursos públicos destinados à educação, grande parte do dinheiro se perde em cursos de pouca valia para a sociedade, mantidos apenas para preservar feudos acadêmicos, em geral associados à militância — e não à produção de ciência e conhecimento de qualidade, fundamentais para qualquer país se desenvolver. O ensino privado se mostra incapaz de suprir a lacuna. O resultado é a desconexão crescente entre academia e sociedade.

Nas principais pesquisas de opinião, a educação costuma aparecer entre as seis maiores preocupações dos brasileiros. As carências do ensino básico continuam a gerar gargalos ao longo do percurso educacional e profissional. Por isso ele é tão crítico e exige ação do poder público. Uma pesquisa do Todos Pela Educação revelou que, nos locais onde as políticas educacionais têm êxito, a população reconhece e valoriza o avanço. O tema não é abordado pelas campanhas simplesmente porque os candidatos não têm o que mostrar, diz Priscila Cruz, presidente executiva do Todos Pela Educação.

Um dos destaques positivos recentes, segundo ela, é o Rio Grande do Sul. O estado obteve o segundo maior avanço em português e o terceiro em matemática no ensino médio, depois da enchente histórica que devastou dezenas de municípios. O dado certamente entrará no debate eleitoral. Entre as unidades federativas, o maior avanço foi registrado no Piauí, um dos estados mais pobres do país. É certo que a questão tem apelo para o eleitorado e deverá ser tema da campanha que se inicia. O Rio, em contrapartida, continua nas últimas posições do Ideb e, na falta de políticas consistentes e coerentes, tem sido incapaz de transformar em educação de qualidade os tímidos avanços obtidos nos indicadores — resultantes em boa parte de uma manobra, com a adoção de aprovação automática.

A educação deveria estar no centro da campanha. Foi por meio de políticas educacionais robustas que países como China ou Coreia do Sul alcançaram outro patamar de desenvolvimento. A ausência do tema na agenda prioritária dos candidatos revela a indigência do debate eleitoral no Brasil.

Tabelamento do vale-refeição deu errado, como era previsível

Por O Globo

Insistência do governo em congelar taxa cobrada nos tíquetes contribuiu para elevar custos para restaurantes

O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, disse que o governo notificou as quatro maiores fornecedoras de vale-refeição e vale-alimentação para explicar as taxas cobradas de estabelecimentos comerciais em desacordo com o teto imposto pelo Planalto. Desde fevereiro, o máximo, determinado por decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao regulamentar o Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT), é de 3,6%. Mas a taxa média subiu de 5,19% em abril para 6,18% no levantamento feito entre junho e julho pelo Ipsos-Ipec, ficando bem acima do estipulado no decreto.

Marinho ameaçou descredenciar quem não cumprir as normas: “As empresas estão fraudando o entendimento do decreto e terão problemas. Elas terão de cumprir o teto e o prazo de 15 dias [para repasse dos valores]”. As empresas alegam cumprir a legislação e dizem que prestarão os esclarecimentos ao governo.

Editorial: Parar pente-fino no Bolsa Família foi um equívoco

Por mais que Marinho esbraveje, o imbróglio segue o roteiro esperado. Em 14 de novembro passado, depois da assinatura do decreto, O GLOBO publicou editorial com o título: “Tabelamento de taxas de vale-refeição e alimentação tem tudo para fracassar”. Não deu outra. É verdade que as taxas cobradas dos estabelecimentos são altas na comparação com as exigidas por cartões de crédito e débito. Mas boas intenções não bastam para reduzi-las, especialmente quando o caminho escolhido é equivocado.

O governo deveria saber que tabelar é sempre a pior solução nesses casos. O teto cria uma distorção na formação dos preços. Como as operadoras não podem cobrar taxas maiores de estabelecimentos que geram pouco negócio, acabam aumentando as de quem costuma vender mais. Na prática, sobra para o consumidor, que paga mais para comer nos lugares mais populares. Mesmo nos casos em que há redução das taxas, dificilmente os estabelecimentos repassam a diferença ao preço, como demonstram estudos.

Pedro Doria: O Discord está restrito, mas não para quem deveria

Criado em 1976, o PAT é um programa meritório, com números robustos e apelo popular. Atende a mais de 300 mil empresas que fornecem tíquetes alimentação ou refeição a empregados em troca de benefícios fiscais. Reúne cerca de 800 mil restaurantes e supermercados credenciados, contemplando mais de 22 milhões de funcionários.

Apesar de o decreto trazer também medidas positivas, como a fixação do prazo de 15 dias corridos para o repasse dos valores a restaurantes e supermercados, o tabelamento contaminou a iniciativa — uma das muitas “bondades” concedidas pelo governo Lula em busca do aumento de popularidade. Se a intenção era reduzir o preço da refeição num momento de pressão inflacionária, o resultado foi frustrante. As taxas continuaram nas alturas. Descredenciar as maiores empresas do setor, como ameaça Marinho, agravará a situação e respingará nos consumidores (ou eleitores). O governo se vê desorientado, em busca de solução para um problema que ele próprio criou.

Brasília debate 6x1 enquanto juros ameaçam empregos

Por Folha de S. Paulo

Pauta eleitoreira consome energia política do governo e do Congresso, que deixam de lado as contas públicas

A redução da jornada de trabalho tem objetivos obviamente meritórios, mas nem mesmo se debateram a contento efetividade, impactos e prazos

Nas últimas semanas, grandes e conhecidas empresas brasileiras passaram a frequentar uma lista que nenhum país gostaria de ver crescer.

A Casas Bahia entrou com pedido de recuperação judicial para renegociar cerca de R$ 17,3 bilhões em dívidas. A Braskem aprovou um plano de recuperação extrajudicial diante de um endividamento estimado em R$ 56 bilhões. Raízen, GPA, Tok&Stok, Habib’s e outras companhias também recorreram a mecanismos de reestruturação financeira ao longo deste 2026.

Os problemas específicos variam, mas há um fator que aparece de forma comum a todos os casos —um ambiente de juros muito elevados por um longo período, encarecendo o custo financeiro de todas as empresas e os orçamentos das famílias.

Enquanto o endividamento se alastra, Brasília concentra sua energia política na pauta eleitoreira do fim da escala de seis dias de trabalho por semana.

A proposta é apresentada como avanço social e ganho para a qualidade de vida dos trabalhadores. São objetivos obviamente meritórios, mas nem mesmo se debateram a contento efetividade, impactos e prazos.

Em princípio, tal mudança ocorre em economias que apresentam grandes aumentos de produtividade e juros baixos, pois assim as empresas têm capacidade de absorver os novos custos. Essa não é, nem de longe, a fotografia do Brasil de hoje.

Há décadas o país tem produtividade estagnada, e o custo do dinheiro se mantém em nível sufocante nos últimos anos, sem perspectivas de redução relevante.

O principal desafio do trabalhador brasileiro neste momento é, em alguns casos, ter apenas um dia de folga por semana ou estar empregado em uma empresa que talvez não sobreviva aos próximos anos? Essa é uma questão completamente ausente do debate sobre a 6x1, que parece desconectado da realidade do país.

A pauta da jornada de trabalho, que inexistia até a aproximação das eleições, ocupa espaço que deveria estar sendo dedicado à questão mais fundamental: qual será a agenda para reduzir de modo duradouro as taxas de juros.

A resposta passa pelo ajuste das contas públicas, sobretudo por meio de controle de despesas em proporção suficiente para estabilizar o endividamento do governo —hoje descontrolado e subestimado pela administração de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Enquanto persistirem dúvidas sobre a trajetória da dívida pública e a disposição do mundo político de enfrentar o problema, os juros continuarão elevados para famílias e empresas.

Os atuais níveis recordes de emprego, também associados à alta das despesas do Tesouro, podem dar a impressão enganosa de tranquilidade. Entretanto a atividade econômica já está em desaceleração, e essa tendência agravará as dificuldades enfrentadas pela população. Uma crise financeira afetará principalmente os trabalhadores mais pobres.

Aperto monetário em pauta nos EUA

Por Folha de S. Paulo

Presidente do Fed mostra compromisso com a meta de inflação, o que eleva a probabilidade de alta de juros

Investimentos crescem no ritmo mais forte desde 2021, e o crédito flui com folga; expansão da dívida pública preocupa investidores

Depois de alimentar suspeitas de maior tolerância com a inflação, o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, corrigiu a mensagem em seu discurso inaugural no simpósio anual de Jackson Hole.

Em manifestações anteriores, o indicado de Donald Trump para o banco central dos EUA deixara espaço para interpretações de que poderia flexibilizar o critério de estabilidade de preços. Desta vez, Warsh disse que a meta de 2% anuais é "firme e fixa" e que haverá trabalho a fazer —leia-se alta dos juros— caso não haja convergência rápida da inflação corrente, ainda acima de 3%.

O tom mais duro, em que descreveu a economia como resiliente e apontou o risco inflacionário como foco, foi recebido com certo alívio. A instituição não parece disposta a experimentar atalhos que possam corroer ainda mais o poder de compra da moeda que é reserva mundial.

A probabilidade estimada de um aumento de juros em setembro subiu de 35% para 50% após as palavras de Warsh. Ainda não está claro se será necessário um aperto da política monetária, mas tampouco há conforto diante do quadro de atividade firme e inflação ainda acima da meta.

Investimentos crescem no ritmo mais forte desde 2021, em boa medida puxados pela infraestrutura de inteligência artificial, e o crédito flui com folga.

O mercado de trabalho, com desocupação em 4,1%, é compatível com pleno emprego. A inflação, porém, permanece elevada, em 3,7% nos últimos 12 meses. Mais da metade dos componentes do índice ao consumidor ainda sobe acima de 3% ao ano.

A nova liderança do Fed também promete mudanças institucionais, com a maior revisão em décadas de fontes de dados, metodologias e comunicação.

O tema da comunicação é o mais destacado por Warsh. A prática do órgão de indicar seus próximos passos, útil na crise de 2008, teria "ultrapassado o prazo de validade" em tempos normais.

A tese é que, quando o Fed antecipa demais o próprio caminho e o mercado passa a operar com base nessa antecipação, forma-se uma espécie de jogo de espelhos entre os dois lados, com riscos maiores de erros na condução da política monetária.

O compromisso com a estabilidade de preços é ainda mais crítico atualmente, diante da trajetória da dívida americana, que já ultrapassou US$ 40 trilhões e inquieta credores. A busca por proteção do poder de compra —visível na valorização recente do ouro— é um sinal da desconfiança. Nesse contexto, é bem-vinda a mostra de rigor de Warsh.

O antiajuste fiscal de Lula

Por O Estado de S. Paulo

O programa petista informa que Lula presidiu ‘a gestão fiscal mais republicana da história do Brasil’. É um insulto, e mostra que as conversas sobre um eventual ajuste são para boi dormir

O programa de governo apresentado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua tentativa de reeleição diz que o petista, no atual mandato, liderou “a gestão fiscal mais republicana da história do Brasil”. E explica: “Sob a diretriz de ‘colocar o pobre no orçamento e o rico no Imposto de Renda’, a gestão realizou uma profunda reorganização fiscal que elevou a proteção social sem renunciar ao reequilíbrio das contas públicas”.

É uma pilha de insultos. O que os petistas chamam orgulhosamente de “reorganização fiscal” foi uma série de gambiarras para driblar o arcabouço fiscal que o próprio governo criou para substituir o desmoralizado teto de gastos. Tudo a pretexto de atender a situações “excepcionais”. No governo Lula, o “excepcional” se tornou regra. Não é um acidente: é a natureza do PT – e por isso não se deve esperar nada de diferente num eventual quarto mandato de Lula, por mais que a atual equipe econômica tente sugerir o contrário.

No final de 2005, por exemplo, Dilma Rousseff, então chefe da Casa Civil do primeiro mandato de Lula, deu uma célebre entrevista ao Estadão na qual explicou, didaticamente, que a tentativa de debater um ajuste fiscal de longo prazo, conduzida por alguns integrantes do governo, era algo “rudimentar” e que não se podia tratar desse assunto “pensando em planilha”. Para Dilma, “despesa é vida: ou você proíbe o povo de nascer, de morrer, de comer ou de adoecer, ou vai ter despesas correntes”.

Numa época em que havia superávit primário constante em torno de 4% do Produto Interno Bruto (PIB), ajudando a estabilizar a dívida pública na casa dos 51,5% do PIB, parecia confortável falar em ampliar os gastos com a “vida”, como sempre pretenderam o PT e Lula. Mas a insistência nesse modelo perdulário conduziu o País ao desastre da recessão de 2015-2016, não por acaso durante o famigerado governo Dilma. Foi em 2014, com Dilma, que começou a série de déficits fiscais que perdura até hoje, obrigando o Banco Central a manter a taxa de juros na estratosfera para premiar quem se dispõe a financiar a galopante dívida pública – que somente no terceiro mandato de Lula saltou incríveis dez pontos porcentuais, de 71,4% para 81,9% do PIB.

Isso não tem nada de “republicano”, como se jacta o PT. É justamente o contrário. Ser republicano é, em primeiro lugar, respeitar a coisa pública. É ter consciência de que o dinheiro do contribuinte não brota em árvores e que precisa ser gasto com imensa parcimônia. É evidente que o Brasil tem grandes carências sociais que precisam ser enfrentadas, mas não a partir da presunção de que o Tesouro é uma milagrosa cornucópia. Por isso, cabe ao presidente da República, na condição de principal líder político do País, a condução do debate orçamentário, negociando com o Congresso cortes de despesas para que haja recursos suficientes para aquilo que se estabeleceu como prioridade.

No Brasil de Lula, contudo, não é preciso negociar nada. Basta ser criativo na hora de lançar as despesas na planilha, retirando-as do arcabouço fiscal sob os mais diversos pretextos, e saciar o apetite dos parlamentares por emendas para que não façam oposição de verdade. Enquanto isso, a aritmética se impõe, razão pela qual será necessário um robusto ajuste fiscal a partir do ano que vem, sob pena de não haver dinheiro nem para pagar a conta de luz do Ministério da Fazenda.

Mas estamos em ano de eleição, período em que os petistas ficam especialmente criativos. No mesmo programa de governo apresentado por Lula, lê-se que “trabalhamos em conjunto com o Congresso Nacional para a aprovação do arcabouço fiscal, das medidas de recomposição e justiça tributária e da redução dos benefícios fiscais” e que “foi assim que cortamos isenções tributárias e colocamos fim a benefícios ineficientes”. O que o documento não diz é que esses cortes foram modestos, porque os benefícios tributários concedidos pela União, por exemplo, continuam a consumir em torno de 4,5% do PIB.

Em resumo, Lula tenta convencer o eleitor já calejado com as patranhas petistas de que seu governo não é o que parece e que o próximo será ainda melhor. A dificuldade de Lula para subir nas pesquisas mostra que essa farsa não cola mais.

O melhor plano de saúde do Brasil

Por O Estado de S. Paulo

Assistência médica de senadores custa 46 vezes mais que a de usuários do SUS, e o contribuinte, que luta para conseguir pagar um plano de saúde, banca 87,2%

Quantas vezes mais vale a vida de um senador da República do que a de um cidadão comum? A pergunta é capciosa e certamente não deveria ter resposta, mas, se formos avaliar pelos custos aos cofres públicos, há uma régua capaz de medir isso e dar uma resposta matemática: 46 vezes mais.

Levantamento feito pelo Ranking dos Políticos, a partir de dados do Congresso Nacional obtidos via Lei de Acesso à Informação, revela que a assistência à saúde de senadores e ex-senadores teve um custo de R$ 40 milhões no ano passado. Desse total, os beneficiários contribuíram com apenas 12,8%, deixando para os cofres públicos a conta de R$ 35,3 milhões.

O Programa de Assistência à Saúde do Senado oferece atendimento médico-hospitalar e odontológico. É uma benesse nada modesta para senadores em exercício, ex-parlamentares e seus dependentes, com um custo médio mensal de R$ 5.362 por beneficiário.

Se compararmos com outros planos, podemos considerar que esse seja de longe o melhor plano de saúde do Brasil, ao menos em termos de valores. O mesmo estudo mostra que o investimento público per capita no Sistema Único de Saúde (SUS) é de R$ 116,50 por mês.

A comparação com quem paga um plano privado também é desconcertante. O custo médio dos beneficiários no sistema particular, segundo o mesmo estudo, é estimado em pouco mais de R$ 500, uma fração do custo da assistência dos excelentíssimos senadores.

E estamos falando, convém lembrar, de próceres da República que recebem mais de R$ 46 mil por mês, fora a verba para despesas da atividade parlamentar, o apartamento funcional (ou auxílio-moradia de R$ 5,5 mil mensais) e o carro oficial com tanque cheio e motorista. Dinheiro para ajudar a pagar a própria assistência médica, portanto, não parece ser exatamente um problema.

Diante de tanta generosidade, não se estranha o esbanjamento com o plano de saúde. No entanto, nem sempre foi assim que um parlamentar enxergou a relação entre o mandato e o serviço público. Florestan Fernandes, deputado constituinte, por exemplo, recusava-se, segundo sua família, a procurar atendimento particular. Dizia que deveria ser solidário aos brasileiros que dependiam exclusivamente do SUS. Morreu em 1995 mantendo essa convicção. É óbvio que não é o caso de pedir aos senadores de hoje que façam o mesmo. Os parlamentares podem ter seu excelente plano de saúde e levar filhos ao médico sem experimentar uma fila do SUS. Mas não é justo que tudo isso seja bancado com o dinheiro dos contribuintes que, na maioria absoluta dos casos, penam para pagar seu plano de saúde, quando têm algum.

A questão se torna ainda mais incômoda porque são esses mesmos parlamentares que decidem sobre a saúde pública. Aprovam orçamento, alteram suas regras e destinam bilhões de reais à saúde por meio de emendas. Boa parte deles conhece o sistema público por planilhas, audiências, discursos e visitas oficiais. Para cuidar da própria saúde e da família, há uma alternativa bem mais confortável.

A prova de que não precisa ser assim está do outro lado do Congresso: na Câmara, os próprios beneficiários praticamente bancaram toda a assistência médica no ano passado e ainda sobrou dinheiro. O custo por beneficiário também foi dez vezes menor. Não consta que, por causa disso, deputados estejam desassistidos ou precisem peregrinar por hospitais em busca de atendimento.

O Senado preferiu ser generoso com seus beneficiários. A generosidade, claro, sobra para quem está do lado de fora pagar.

Um trabalhador que contrata assistência privada tira a mensalidade do próprio salário. Quem não pode fazê-lo recorre ao SUS e enfrenta as limitações da rede pública. O senador, embora tenha renda suficiente para pagar, fica com a maior parte da conta subsidiada. É um privilégio difícil de defender e ainda mais difícil de explicar a quem o financia.

Vossas Excelências podem ficar com o melhor plano de saúde do Brasil. Só não há motivo para que quem jamais poderá usá-lo continue pagando – e muito caro – por ele.

Transferência de responsabilidade

Por O Estado de S. Paulo

O novo presidente do STJ culpa o período eleitoral pela baixa credibilidade do Judiciário

Empossado recentemente presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), o ministro Luis Felipe Salomão concedeu entrevistas em série a grandes veículos de imprensa para emplacar uma tese: a de que o Poder Judiciário vem sendo criticado não por causa de sua recalcitrância em aceitar alguns princípios republicanos elementares, mas porque atacá-lo rende votos a políticos radicais.

Para Salomão, não tem fundamento, em período eleitoral, “fazer uma pesquisa de opinião sobre se a pessoa confia ou não no Judiciário”, haja vista que “parte da classe política usa o desgaste do Judiciário como plataforma política”.

Esse desgaste, em suas palavras, é “completamente sazonal” – ou seja, temporário. Mas as pesquisas rechaçadas por Salomão apontam justamente o contrário: a crise de confiança não tem nada a ver com o período eleitoral e só cresce.

Sondagem do Datafolha de março passado mostrou que 43% dos entrevistados declararam não confiar no Supremo Tribunal Federal (STF), cinco pontos porcentuais acima do verificado em dezembro de 2024. A credibilidade do STF está no nível mais baixo desde 2012, conforme o histórico dessa pesquisa. Já a desconfiança no Judiciário como um todo saltou de 28% para 36%.

São números que resumem bem o sentimento de frustração da sociedade com um Poder que há décadas não é muito bem avaliado pelos brasileiros, seja em razão de sua morosidade, seja pela sensação de que foi capturado pelo poder político e econômico. Nada disso foi criado pela propaganda de candidatos que exploram a crise de credibilidade do Judiciário para angariar votos. É o contrário: esse discurso político só existe porque o Judiciário ajudou a ensejá-lo.

O que já era ruim piorou muito quando se consolidou a sensação, na opinião pública, de que integrantes do Judiciário se consideram parte de uma casta superior, dispensada de justificar privilégios salariais e comportamentos eticamente reprováveis. Para esses magistrados, as críticas que recebem são parte de um movimento político para desmoralizar o Judiciário e, no limite, minar a democracia – não à toa, o ministro Salomão declarou ao Estadão que o Judiciário é “aquele que garante a democracia”, donde se depreende que críticas a esse Poder seriam antidemocráticas.

De fato, não existe democracia sem juízes independentes, assim como não existe democracia sem o respeito ao princípio republicano segundo o qual ninguém está acima da lei. Para uma parcela significativa da população, o Judiciário acumulou poder excessivo e faz mau uso dele, seja para garantir privilégios a seus integrantes, seja para interferir no processo político democrático, não raro atropelando outros Poderes.

Ao culpar os “líderes populistas extremistas” pela crise de credibilidade do Judiciário, o ministro Salomão se une a vários de seus pares na incapacidade de reconhecer a parcela de responsabilidade dos magistrados pelo atual estado de coisas. Isso mostra que, se depender de um exame de consciência no Judiciário, esse Poder jamais será reformado.

Custo de energia em data centers é desafio a avanço do setor

Por Valor Econômico

Custos têm de ser enfrentados de forma transparente, os incentivos, monitorados, e os resultados, periodicamente mensurados e avaliados

Quando a onda da inteligência artificial (IA) começou, alguns anos atrás, sabia-se que grandes centros de processamento de dados, os data centers, teriam de ser construídos. Sabia-se também que eles consomem vastas quantidades de eletricidade. Assim, havia o temor de que, se a oferta de energia não acompanhasse o crescimento da demanda, surgiriam gargalos no fornecimento, e os preços acabariam subindo. Aos poucos, está ficando claro que os temores tinham fundamento. O Congresso brasileiro está perto de aprovar o Redata, um programa de incentivos fiscais para atrair data centers para o país. O desafio do fornecimento de energia, de seus custos e dos efeitos na conta de luz dos consumidores será enfrentado também por aqui. Nos EUA, que lideram a corrida da IA, os preços da energia para o consumidor residencial estão subindo ao dobro do ritmo da inflação. Ou seja, a sociedade está pagando a conta, o que começa a provocar uma reação pelo mundo.

Data centers existem há décadas. Mas, desde o lançamento do ChatGPT, em 2022, o uso de IA generativa disparou, o que multiplicou a demanda por processamento e, consequentemente, por energia elétrica. Hoje há cerca de 12 mil data centers em operação pelo mundo, e a capacidade de processamento deve dobrar até 2030. Empresas como Amazon, Google, Meta e Microsoft estão construindo instalações gigantescas, os data centers de hiperescala. O investimento apenas das 14 maiores empresas abertas do setor deve atingir US$ 750 bilhões neste ano, contra US$ 450 bilhões em 2026. O gasto global na construção de data centers pode chegar a US$ 7 trilhões em 2030, segundo estimativa da consultoria McKinsey. Esse é maior processo de investimento em infraestrutura em tempos de paz da história.

Apesar dos valores astronômicos, um dos principais obstáculos ao setor não tem sido levantar capital, mas sim a escassez de eletricidade. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), em 2025 os data centers consumiram 485 terawatts-hora, cerca de 1,5% do consumo mundial de energia elétrica. O aumento foi de 17% em relação ao ano anterior.

Para conter o temor de uma escalada nos preços, muitas empresas de tecnologia anunciaram parcerias e investimentos em geração elétrica, incluindo reativação de usinas nucleares, como a de Three Mile Island, palco do pior acidente nuclear nos EUA. A Microsoft, por exemplo, prometeu que qualquer custo para atender seus data centers não seria repassado para as comunidades. A Anthropic se comprometeu, de modo vago, a cobrir os aumentos de preços da eletricidade que os consumidores enfrentam devido aos seus data centers.

Apesar dessas garantias de que os data centers não iriam impactar o custo da energia, isso está acontecendo. Nos últimos 12 meses, o valor médio das contas de luz residenciais nos EUA subiu 6,6%, quase o dobro da inflação, de 3,4%. Desde 2022, a conta média subiu 25%, ante inflação de 14,1%. O custo da energia para residências subiu mais que para empresas. O consumidor residencial está, sim, pagando a conta.

A percepção de que a sociedade está sendo obrigada a cofinanciar a infraestrutura elétrica demandada por essas megaempresas tem gerado protestos pelo mundo e reação dos governos. Diante do aumento exponencial da demanda por eletricidade, que superou amplamente a oferta, a Dinamarca aprovou neste mês uma mudança nas regras de conexão à rede elétrica. O país passou a priorizar residências, pequenas empresas e clientes já existentes, e colocou novos data centers em último lugar na fila. Isso deve fazer com que projetos já em andamento corram o risco de ficar sem energia. Outros países europeus estudam medidas similares.

Nos EUA, mais de 25 Estados já adotaram ou propuseram medidas para limitar, suspender ou fiscalizar com mais rigor projetos de novos data centers. Nova York impôs moratória de um ano na construção de instalações que demandem 50 MW ou mais. O Texas, um dos Estados mais pró-negócios do país, pausou a aprovação de novos projetos devido aos riscos para a estabilidade da já sobrecarregada rede elétrica local.

O Brasil quer atrair data centers e este pode ser um negócio relevante para o país. Mas é importante que as autoridades brasileiras tenham isso em mente com o Redata. Ele prevê que as empresas terão isenção de PIS-Cofins, Imposto de Importação e IPI por 5 anos, vinculados à aplicação de 2% do valor dos produtos adquiridos no mercado doméstico ou importados em pesquisa e inovação, e ao uso de energia de fontes limpas e renováveis. Mas há problemas. O custo de energia do país é um dos maiores do mundo e não para de subir. A oferta de energia solar e eólica é abundante, mas os data centers precisam de fornecimento contínuo, o que em boa parte do tempo só pode ser garantido por energia das hidrelétricas, disputando suprimento com limite de expansão com clientes nacionais.

A soberania digital, isto é, a capacidade de processar e guardar internamente informações sensíveis para o Brasil, sem depender de outros países, é um objetivo fundamental de segurança e desenvolvimento. Mas os custos têm de ser enfrentados de forma transparente, os incentivos, monitorados, e seus resultados, periodicamente mensurados e avaliados - o que é raro de acontecer.

O retorno de um inimigo derrotado

Por Correio Braziliense

O movimento antivacina é, antes de qualquer coisa, um fenômeno de privilégio e ignorância histórica.

Em 1991, o Brasil notificou 61.400 casos de sarampo e 475 mortes pela doença. Naquele ano, a incidência chegava a quase 100 casos para cada 100 mil habitantes. Metade dos leitos de hospitais infantis era ocupada por crianças com sarampo, com altíssima mortalidade, como lembra qualquer médico que viu aquela realidade de perto. Era uma das principais causas de morte infantil no país, ao lado de doenças que hoje soam como história antiga.

O que mudou esse quadro não foi um remédio revolucionário, nem uma descoberta científica recente. Foi a vacina, antiga, barata, eficaz e disponível gratuitamente no SUS. Em 1992, em uma campanha massiva, o Brasil vacinou 96% das crianças e adolescentes entre 9 meses e 14 anos. Os casos despencaram de 42.532 em 1991 para 2.396 em 1993. Em 2016, a Organização Pan-Americana da Saúde certificou a eliminação do sarampo no continente americano. O Brasil havia derrotado uma doença que matava milhões.

Havia. O verbo no passado é necessário porque o sarampo está de volta. Não por falha na oferta da vacina, mas por falha humana. A queda nas coberturas vacinais nos últimos anos, alimentada por desinformação e pelo movimento antivacina, recriou as condições para que o vírus volte a circular. Os 26 casos já registrados em São Paulo em 2026 não são uma anomalia estatística. São um sinal de alerta que não pode ser ignorado.

O movimento antivacina é, antes de qualquer coisa, um fenômeno de privilégio e ignorância histórica. Seus adeptos cresceram num país onde o sarampo havia sido eliminado, justamente porque gerações anteriores vacinaram seus filhos. Nunca viram uma criança morrer de sarampo, nunca passaram por uma enfermaria tomada pela doença, nunca enterraram alguém por uma infecção que podia ser prevenida com uma picada. Essa proteção invisível, construída ao longo de décadas de saúde pública, é o que lhes dá o luxo de recusar vacinas sem consequências imediatas que recaem, como sempre, sobre os mais vulneráveis: crianças pequenas demais para serem vacinadas, imunossuprimidos, pessoas sem acesso a cuidados de saúde.

A desinformação que alimenta esse movimento não é ingênua, e gera um perigo difícil de ignorar. Cada criança não vacinada é um elo que o vírus pode usar para se espalhar. Afinal, o sarampo é uma das doenças mais contagiosas que existem: nove em cada 10 pessoas suscetíveis expostas ao vírus adoecem. Quando a cobertura vacinal cai abaixo de 95%, a proteção coletiva desaparece e o vírus encontra caminho livre. Os 26 casos de São Paulo são a evidência de que esse caminho já está sendo aberto.

Rejeitar a vacina contra o sarampo é uma decisão com consequências para além de quem a toma. Significa contribuir para o retorno de uma doença que o Brasil já havia derrotado. É ignorar décadas de evidência científica em favor de medo irracional e desinformação. E é, a última análise, colocar em risco a vida de crianças que não têm voz nessa escolha. O Brasil já soube o que é lidar com o sarampo. Não há razão para aprender de novo.

Reforço na segurança das eleições

Por O Povo (CE)

TSE aprova envio de efetivo das Forças Armadas para 66 municípios cearenses durante o primeiro turno das eleições

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou por unanimidade, nesta quinta-feira, 27 de agosto, o pedido dos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) do Ceará e de outras quatro unidades da Federação para o reforço da segurança por forças federais no primeiro turno das eleições gerais. Mais de uma centena de municípios, 66 deles no Estado, vão receber agentes para o pleito do dia 4 de outubro.

Além do Ceará, Tocantins, Piauí, Acre e Rio de Janeiro solicitaram reforço das forças federais, compostas por militares do Exército, da Marinha e da Aeronáutica. Cabe agora ao Ministério da Defesa planejar e executar as ações das Forças Armadas em cada uma das missões.

No Ceará, conforme antecipou O POVO na coluna Vertical, assinada pelo jornalista Carlos Mazza, o pedido partiu dos juízes eleitorais de 66 municípios, que solicitaram reforço e encaminharam o pedido ao TRE-CE. A lista inclui as maiores cidades do Estado, como Fortaleza, Caucaia, Juazeiro do Norte e Sobral, bem como localidades com denúncias de interferência de facções nas eleições municipais de 2024, como Choró e Santa Quitéria.

O número de municípios que solicitaram o apoio das forças federais aumentou no Estado. No pleito passado, em 2024, foram 26, enquanto nas últimas eleições gerais, em 2022, eram 19. Nesse intervalo, porém, investigações da Polícia Federal e da Polícia Civil do Estado expuseram tentativas de facções criminosas de interferir no pleito ou até mesmo de conquistar representação política.

No Ceará, os casos de Santa Quitéria e Choró são emblemáticos. No primeiro, prefeito e vice-prefeito foram cassados menos de dois anos após a eleição. A Justiça Eleitoral considerou que Braguinha e Francisco Gardel abusaram dos poderes político e econômico e tiveram envolvimento com facção criminosa no pleito de 2024. Já em Choró, o prefeito eleito Bebeto Queiroz foi impedido de assumir o cargo pelo mesmo motivo e está até hoje foragido da Justiça.

Assim, a necessidade de reforços voltados exclusivamente a garantir a segurança do processo eleitoral ganha contornos importantes. Afinal, a atuação de grupos criminosos tenta minar a independência democrática, seja por meio de influência econômica, com dinheiro de origem ilícita, seja por meio da intimidação de eleitores.

Já neste início de campanha eleitoral em 2026, agentes da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) prenderam pelo menos 13 suspeitos de tentar interferir no pleito a mando de facções criminosas. Casos de extorsão de candidatos e apoiadores foram registrados em Itapajé, Maranguape e Forquilha.

As eleições são um dos pontos máximos do processo democrático. É por meio delas que a população exerce seu poder de escolha. Garantir que cada eleitor possa votar livremente, sem intimidação ou interferência de grupos criminosos, é proteger não apenas o pleito, mas a própria democracia.

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