segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Brasil garante o hambúrguer subsidiado às vésperas da eleição nos EUA, por Demétrio Magnoli

O Globo

A carne ilumina a servidão voluntária brasileira

O Canadá conta uma história; o Brasil, o reverso dela. Na partida, os dois engajaram-se em negociações comerciais com os Estados Unidos, que implodiram de encontro às exigências imperiais da Casa Branca. Então, um escolheu a via da resistência, ajustando seus atos às palavras, enquanto o outro optou por um servilismo suplicante mascarado por discursos palanqueiros.

As exportações representam quase um terço do PIB canadense — e mais de 70% delas têm os Estados Unidos como destino. O Canadá perde muito, no curto prazo, com a decisão de enfrentar a guerra comercial deflagrada por Trump. Mas, na defesa de seus interesses de longo prazo, a sociedade canadense uniu-se ao redor da estratégia de retaliação, que conta com respaldo de 76% da população.

As exportações não representam mais que 15% do PIB brasileiro — e menos de 10% delas têm os Estados Unidos como destino. A China, nosso maior parceiro, absorve mais de 30% das exportações brasileiras, seguida pela América do Sul e pela Europa, com cerca de 15% cada uma. Contudo o governo rende-se ao lobby dos negócios dos exportadores: renuncia à retaliação e usa a Lei de Reciprocidade apenas como muleta de discursos eleitorais “soberanistas”.

O Canadá reagiu às tarifas punitivas taxando as exportações dos Estados Unidos, dólar por dólar, nos mesmos patamares — e diversas províncias mantêm o boicote a destilados americanos. O país fornece a vasta maioria do gás e da eletricidade importados pelo agressivo vizinho e cerca de 60% do petróleo, além de potássio e minérios críticos. No degrau seguinte, estuda-se a imposição de impostos de exportação sobre esses produtos.

“Vá se danar”, foi o recado de Doug Ford, primeiro-ministro da província de Ontário, ao presidente americano. Na verdade, Ford usou palavra ligeiramente diferente, antes de concluir:

— Trump nos subestima. Eis o grande erro.

Percorrendo trajetória oposta, o Brasil caiu de joelhos. Lula obteve, em longo telefonema a Trump, a reabertura de negociações, com a meta minimalista de alargar a lista de exceções esculpida pelas conveniências da Casa Branca. Trata-se de atender aos interesses imediatos de setores exportadores, como se representassem o interesse nacional. É a nação definida como coleção de grupos empresariais. Nada de retaliação assimétrica via exportações de nióbio, aviões regionais ou carnes.

A carne ilumina a servidão voluntária brasileira. Confrontado com inflação de alimentos, Trump abriu uma importação extraordinária de 300 mil toneladas de carne para hambúrguer, sem cotas ou tarifas, mas exigindo desconto de 25% dos exportadores. Único país capaz de fornecer imediatamente tal quantidade, o Brasil prontificou-se a exportar. As celebrações unem a Casa Branca à trindade JBS, Marfrig e Minerva Foods. Os Estados Unidos tarifam o conjunto da economia brasileira; em troca, o Brasil garante o hambúrguer subsidiado às vésperas das eleições americanas.

O objetivo estratégico do tarifaço contra o Canadá é eliminar a indústria automobilística do país, transferindo-a para os Estados Unidos. A Casa Branca almeja, desse modo, enfrentar o avanço chinês no mercado global de veículos. Contudo o resultado provável será romper as cadeias produtivas integradas nos três países da América do Norte, cedendo o mercado canadense às empresas da China. Chrystia Freeland, antiga vice-chefe de governo do Canadá, acerta na mosca ao qualificar as tarifas punitivas como “mau negócio mesmo para os Estados Unidos”.

Mark Carney, primeiro-ministro canadense, conclamou sete meses atrás, em Davos, as potências médias democráticas a se unirem contra a guerra tarifária de Trump. A maioria delas preferiu o caminho do apaziguamento, o que só estimula a Casa Branca a multiplicar suas investidas. Mesmo quase sozinho, o Canadá decidiu quebrar o ferrolho da jaula americana em que a História e a geografia o trancaram.

O Brasil, que vive fora da jaula, tecendo redes de intercâmbios globais, escolhe a submissão na hora do aperto.

— Não há interesse em retaliar ninguém — assegurou o apaziguador Alckmin, deixando a Lula o papel farsesco de proferir bravatas dirigidas ao público interno.

Inexplicável? Nem tanto: os Joesleys nos governam.

 

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