O Globo
Elas são uma promessa para o Brasil, desde
que se invista na tecnologia e haja rigor no respeito ao meio ambiente
Afinal, o que são essas terras-raras que os
americanos querem, os chineses refinam, e os brasileiros veem como recurso para
a economia futura?
Para começar, não são tão raras assim.
Existem em abundância na China e no Brasil. Nem são propriamente terras. Esse
nome era dado, nos séculos XVIII e XIX, a qualquer óxido metálico insolúvel em
água.
Foram chamadas de raras quando descobertas num mineral em Ytterby, na Suécia. Elas ocorriam em minerais incomuns e eram consideradas raras porque era difícil a separação dos 17 elementos químicos que compõem o grupo. O nome desses elementos é meio curioso: cério, neodímio, disprósio, praseodímio, európio e por aí vai.
Servem para muitas coisas no mundo moderno.
Quando apareceram para os químicos no Brasil, na década de 1940, estavam na
areia monazítica, retirada das praias do Espírito Santo e da Bahia. Acontece
que a monazita continha urânio e tório. Os americanos estavam de olho no
urânio. Químicos alemães e poloneses fugidos do nazismo retiravam o urânio e o
tório da areia monazítica. A primeira indústria nuclear nasceu da competência
desses químicos. Um de seus donos, coisas do Brasil, era um poeta: Augusto
Frederico Schmidt.
Houve muita resistência nacionalista à
exportação do urânio, e o governo acabou encampando a Orquima — esse era o nome
da empresa. Por falta de investimento e burocracia, a empresa estatal acabou
perdendo o bonde da história.
Em 1962, o químico Pawel Krumholz, um dos que
fugiram de Hitler, conseguiu produzir 10 g de óxido de lutécio, um dos 17
elementos químicos das terras-raras. O que se conseguiu no Brasil, segundo
artigo publicado no Journal of the Brazilian Chemical Society, tinha aplicação
em laser, fibra óptica, material luminescente e cerâmica. Mas tudo ficou na
promessa. Os chineses, na mesma época, começavam a investir pesadamente, e hoje
não só têm, como dominam a técnica de refino das terras-raras.
Estamos acordando de um longo sono histórico.
As terras-raras são exploradas hoje em Goiás e Minas. O presidente Lula defende
que sejam refinadas no Brasil, e não exportadas como matéria-prima. Teremos
encrenca. A empresa que opera em Minaçu (GO) foi vendida para a americana USA
Rare Earth, com investimento do governo americano, por meio do Departamento de
Guerra. Formaram a USA Rare Earth, uma das maiores empresas do mundo em
terras-raras, e exportarão tudo para os Estados Unidos. A mesma história das
areias monazíticas do passado.
Em Minas Gerais, os australianos que se
preparam para explorar terras-raras encontram resistência popular. As jazidas
estão em Poços de Caldas, região já assustada porque uma unidade das Indústrias
Nucleares do Brasil tem um depósito com 11,3 mil toneladas de material
radioativo e equipamentos que processaram urânio.
Minas não suporta desastres como Mariana e
Brumadinho. A própria população conduz os questionamentos. Em Goiás, as
terras-raras são exploradas perto do Rio Tocantins e da Represa da Serra da
Mesa, que tem 160 quilômetros de extensão e 13 de largura máxima.
Um dos problemas é que a Agência Nacional de
Mineração não tem recursos para fiscalizar. As terras-raras são uma promessa
para o Brasil, desde que se invista na tecnologia e haja rigor no respeito ao
meio ambiente.

Nenhum comentário:
Postar um comentário